domingo, 9 de junho de 2013

A Necessidade de Teologia - Cheung

A teologia é necessária não somente para as atividades cristãs, mas também para tudo da vida e do pensamento. Visto que Deus é tanto máximo quanto onipotente, ele tem o direito e a capacidade de dirigir todos os aspectos das nossas vidas. A teologia procura entender e sistematizar sua revelação verbal, e é autorizada até onde ela reflete o ensino da Escritura. A necessidade de teologia é uma questão da necessidade de comunicação de Deus. Visto que este é o seu universo, a fonte derradeira de informação e interpretação de tudo da vida e do pensamento é a revelação divina. E, visto que é preciso ouvir de Deus, a teologia é necessária.
A teologia é central para tudo da vida e do pensamento, porque ela trata com a revelação verbal do supremo ser — a realidade essencial que dá existência e significado a tudo. Por exemplo, a ignorância de teorias musicais não tem relevância direta para com a habilidade de alguém mexer com álgebra ou raciocinar sobre assuntos morais. Contudo, a ignorância com respeito à revelação divina afeta tudo da vida e do pensamento, desde a visão de alguém da história e da filosofia, até a interpretação da música e literatura, e o entendimento de matemática e da física.
Visto que este é o universo de Deus, somente sua interpretação sobre tudo está correta, e ele revelou seus pensamentos para nós através das palavras da Bíblia. Segue-se, portanto, que uma ignorância da teologia significa que a interpretação de alguém de cada assunto carecerá do fator definitivo que ponha nessa a perspectiva correta. Na área de éticas, por exemplo, é impossível apresentar qualquer princípio moral universalmente obrigatório, sem recorrer a Deus. Até os conceitos de certo e errado permanecem indefinidos sem sua revelação verbal. E, visto que a Bíblia é a única revelação divina objetiva e pública, o único modo de se recorrer à autoridade de Deus é apelando à Bíblia.
Uma das maiores razões para se estudar teologia é o valor intrínseco do conhecimento sobre Deus. Cada outra categoria de conhecimento é um meio para um fim, mas o conhecimento de Deus é um fim digno em si mesmo. E, visto que Deus Se revelou através da Escritura, conhecer a Escritura é conhecê-lo, e isto significa estudar teologia.
Sucumbindo ao espírito anti-intelectual desta geração, alguns crentes distinguem entre conhecer a Deus e conhecer sobre Deus. Se “conhecer sobre” ele se refere ao estudo formal da teologia, então, para eles, alguém pode saber muito sobre Deus sem conhecê-lo, e alguém pode conhecer a Deus sem conhecer muito sobre Ele. Um conhecimento teológico de uma pessoa é desproporcional a quão bem ela conhece a Deus.
Mas, se é possível conhecer a Deus sem conhecer muito sobre ele, o que significa conhecer a ele? Se conhecer a Deus significar ter companheirismo com ele, então, isso envolve comunhão, que, consequentemente, requer a troca de pensamento e conteúdo intelectual, dessa forma, trazendo de volta o conceito de conhecimento sobre algo. Uma pessoa não pode se comunicar com outra sem trocar informação na forma de proposições, ou de uma maneira na qual a informação conduzida seja redutível a proposições.
Como alguém conhece a Deus, senão através de conhecer sobre ele? Alguém pode responder que conhecemos a Deus através de experiências religiosas, mas até isso é definido e interpretado pela teologia, ou conhecimento sobre Deus. O que é uma experiência religiosa? Como alguém sabe que a recebeu? O que um sentimento ou sensação particular significa? Respostas para estas questões podem somente vir pelo estudo da revelação verbal de Deus. Mesmo se fosse possível conhecer a Deus através da experiência religiosa, o que a pessoa ganha ainda é um conhecimento sobre Deus, ou uma informação intelectual redutível a proposições.
Alguém pode reivindicar conhecer a Deus através da oração e da adoração. Mas, tanto o objeto como a prática da oração e da adoração permanecem indefinidos até que esta pessoa estude teologia. Antes de poder orar e adorar, ela deve primeiro determinar a quem ela deva oferecer isso. Subsequentemente, ela deve determinar, a partir da revelação bíblica, o modo no qual ela deve oferecer oração e adoração. A Escritura governa cada aspecto da oração e da adoração. O conhecimento de Deus, portanto, vem de sua revelação verbal, e não de meios ou exercícios religiosos não verbais. A maioria das pessoas que resistem aos estudos teológicos não pensa sobre tais questões, mas são capazes de orar e adorar, assumindo, frequentemente sem garantia, o objeto e a maneira destas práticas espirituais.
Todavia, outra pessoa pode dizer que conseguimos conhecer a Deus por andar em amor. Mas, novamente, o conceito de amor permanece indefinido até que ela estude teologia. Até o relacionamento entre conhecer a Deus e andar em amor origina-se na Bíblia: "Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1 João 4:7-8).
Sem essa e outras passagens similares na Bíblia, não se pode justificar a reivindicação e que conhecer a Deus é andar em amor. Muitos que alegam conhecer a Deus através de um andar em amor, não estão fazendo nada além de serem bondosos para com os outros, com uma bondade definida pelas normas sociais, e não pela Escritura. Estes indivíduos não possuem nada mais do que uma ilusão de conhecer a Deus.
Uma vez que uma pessoa tenta responder às questões acima sobre como alguém chega a conhecer a Deus, ela está fazendo teologia. O assunto, então, torna-se o seguinte: sua teologia é correta? Portanto, teologia é inevitável. Enquanto que uma teologia errônea leva a um desastre espiritual e prático, uma teologia acurada conduz a uma adoração genuína e a um viver piedoso.
Um slogan que reflete a atitude anti-intelectual de muitos cristãos, diz: “Dê-me Jesus, não exegese”. Contudo, é a Escritura que nos dá informação sobre Jesus, e é através da exegese bíblica que averiguamos o significado da Escritura. Sem exegese, portanto, ninguém pode conhecer Jesus. Deve-se apenas testar essa afirmação questionando aqueles que dizem tais coisas, com este slogan, sobre o que eles sabem sobre Jesus? Na maioria das vezes, sua versão de Jesus não se parece, nem remotamente, com o relato bíblico. Isto significa que eles não o conhecem de forma alguma, sem falar de outros tópicos teológicos importantes, tais como infalibilidade bíblica, eleição divina e governo de igreja. O que temos de dizer é: “Dê-me Jesus através da exegese”.
Um repúdio à teologia é também uma recusa de conhecer a Deus por meio do modo por ele prescrito. O conhecimento da Escritura — conhecer sobre Deus ou estudar teologia — deve estar cima de tudo da vida e pensamento humano. A teologia define e dá significado a tudo que alguém possa pensar ou fazer. Ela está cima de todas as outras necessidades (Lucas 10:42); nenhuma outra tarefa ou disciplina se aproxima dela em significância. Portanto, o estudo da teologia é a atividade humana mais importante.

Referência:
CHEUNG, Vincent; Teologia Sistemática, traduzido e revisado por Felipe Sabino de Araújo Neto e Vanderson Moura da Silva. www.monergismo.com

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pais: educadores cristãos


            É bem sabido, mesmo no mundo laico, que a família é a base da sociedade. Ela é o átomo do mundo social. Da mesma forma, a Igreja é descrita, especialmente pelas epístolas pastorais, como uma grande família. Os idosos são comparados a pais, as idosas como mães, as mulheres jovens como irmãs. Uma das qualificações necessárias para o presbítero-pastor-bispo é ser um pai eficiente, que governa bem o seu lar e não tenha filhos insubmissos e desobedientes. Paulo dá a razão óbvia: se alguém não pode governar a própria família, como guiará a família de Deus? O ponto é que a família é também a base da Igreja. E, embora o relacionamento de cada membro da família nuclear seja orientado pela Bíblia, quero falar especificamente sobre o dever dos pais aos filhos.
           
Todo mundo sabe que uma causa fundamental para o fracasso moral do mundo é a má educação dentro de casa. Os pais frequentemente negligenciam a educação séria de seus filhos e limitam-se a detalhes facilmente expressos em ordens curtas. Confiam na escola para a educação profunda, a qual cada vez mais preocupa-se em nada mais do que preparar para o ingresso em uma universidade por meio de uma prova. Se o filho passar no vestibular, então a missão paterna foi cumprida. E, se o filho for um fracasso em tudo o mais na sua vida, os pais não sabem onde erraram. Tal fracasso repercute na sociedade, cujos componentes são todos filhos de alguma família. Um monte de filhos desorientados, sejam ou não universitários, destrói a harmonia da sociedade.

            Tudo isso vale para o mundo laico. Mas, será que na Igreja é tão diferente? Pais cristãos têm uma noção melhor, pelo menos teórica, de sua responsabilidade como formadores de valores. O grande ponto é: será que os pais assimilaram o fundamento dos seus próprios valores que eles pretendem transmitir aos filhos? Ou apenas decoraram regras e repetirão regras aos filhos? Ok, uma coisa de cada vez. Primeiro, a generalidade de pais cristãos têm como preocupação principal o mesmo dos pais laicos: vida acadêmica. Mas existem certos acréscimos à vida acadêmica, que é justamente o que os pais crentes pensam que é o diferencial de uma educação cristã: outras regras supérfluas. Pais cristãos, além de serem rígidos com escola, costumam também ser rígidos com regras sobre a hora de dormir, a hora de chegar em casa, a hora e o lugar das refeições, a arrumação do quarto, a frequência nos cultos. Pais de meninas, principalmente, são neuróticos com os namoros delas. Mil regras, observações, ressalvas, tudo em nome da pureza.

            Espere aí. É necessário sim ter regras. Os pais devem conduzir os filhos por meio de regras. Quando os filhos são crianças, principalmente, a existência de regras é importante para a formação do caráter. Mas isso basta? Ora, simplesmente repetir regras e ordens é muito fácil. Não exige tempo, paciência, dedicação... é apenas um negócio a mais para ser administrado. Muitas vezes, os pais também seguem regras próprias sem nem saber por quê. Consequentemente, não têm o zelo de explicar o porquê aos filhos. É difícil encontrar pais cristãos que sejam abertos a conversar com os filhos sobre as regras que eles fazem. Poucos filhos conseguem questionar seus pais sem serem repreendidos ou ouvirem uma resposta evasiva. As regras funcionam somente enquanto a coação está presente. Quando os filhos saem de casa, ou mesmo quando ganham certa independência, as regras sem fundamento serão esquecidas. Os pais devem se preocupar em educar os filhos para que eles sejam verdadeiros cristãos mesmo na idade adulta, quando tiverem possibilidades e recursos para fazer o que quiserem. As regras não esgotam sua finalidade em si mesmas. Talvez haja uma motivação legalista em certos pais, que querem ser aceitos por Deus pela boa obra de criar um filho corretamente. Esses pais, no fundo, não se importam se os filhos realmente permanecerão em Deus para sempre; importam-se consigo mesmos, em garantir que, se o filho se desviar um dia, não foi culpa deles.

            Não acho que seja necessário citar os versículos que falam sobre como os pais devem educar os filhos, como se fossem novidade. Todo mundo sabe que Efésios 6 diz que os pais devem criar os filhos no caminho do Senhor, e não ser irritáveis, tratando os filhos como se fossem meras extensões de sua autoridade. Também em Deuteronômio está escrito que os pais devem falar das palavras de Deus com seus filhos a todo momento, no caminhar, no levantar e no deitar. Agora, todos os pais cristãos acham que estão cumprindo isso. Será mesmo? Em primeiro lugar, será que os pais realmente decidem ter filhos já sabendo o que eles terão de fazer? Será que amadurecem primeiro para então criar filhos? Ora, para um adulto se casar com uma adulta, ambos devem ter profundo conhecimento do que as Escrituras exigem de um casamento. Devem saber o que é o pacto de Deus com o seu povo, o casamento de Cristo com a Igreja. Só então, entenderão como deve ser um casamento comum. O mesmo tipo de reflexão deve haver antes mesmo da decisão de ter filhos. Será que os pais realmente agem como o Pai celestial age com seus filhos? Às vezes, a única semelhança que encontramos é a que não deveria existir – os pais praticamente exigirem ser adorados pelos filhos. Ou então insistindo com os filhos que eles sabem de tudo, que são os grandes sábios da vida.

            Pais cristãos devem saber que estabelecer 3 ou 4 regras – assista os cultos, não fale palavrão, não faça sexo, não bata no seu irmão, vá lavar a louça, etc – é muito longe de fazer educação cristã. Como eu disse antes, dar broncas e proclamar regras não dá trabalho nenhum. O que dá trabalho é passar tempo com o filho, conhecendo-o, ouvindo-o, abrindo-se com ele quanto aos seus próprios defeitos (tolos pais, realmente acham que podem manter uma imagem de invencíveis). Jesus não faz dos filhos de Deus apenas servos, mas amigos. E ele diz que a marca dessa amizade é a revelação transparente e clara que vem de um relacionamento íntimo. Deus, nosso Pai, revelou plenamente de si mesmo aos seus filhos, e conhece perfeitamente os filhos que ele criou. Da mesma forma, os pais devem deixar que seus filhos os conheçam. Não passivamente, como muitos fazem, esperando o filho ter vontade de conhecê-lo. Mas, como Deus não ficou esperando os humanos descobrirem o evangelho sozinhos, os pais precisam falar para os filhos quem eles são. Abrir o coração. Confessar suas angústias, suas expectativas, contar sua história.

            E a parte de ensinar as regras, como fica? Acontece que Deus revelou aos seus filhos não apenas a sua Lei, mas o seu espírito, sua aplicação, seu propósito, sua finalidade, sua motivação. Pais devem ensinar aos filhos por que eles estão ordenando que ele vá arrumar o quarto. Por que é importante que ele estude. Certos pais relapsos levam isso a um lado péssimo, exigindo que o filho lhe obedeça somente quando conseguir convencê-lo. Não é isso. Pais devem sim exercer autoridade e disciplina com rigidez. Mas eles devem retirar das leis de Deus e do seu evangelho as regras próprias para o lar. Nenhum pai deve pensar que pode inventar um sistema moral e sábio melhor do que o de Deus. Pais legalistas deleitam-se na arbitrariedade com que comandam os filhos, sentindo-se deuses. E, quanto ao ensino dos caminhos de Deus, igualmente os pais devem saber explicar, fundamentar, provar pela Escritura e inclusive permitir ser questionados. Por que ir à Igreja todo domingo? Por que orar antes de dormir? Por que ler a Bíblia todo dia? Por que não mentir? Os pais precisam esclarecer isso. Eles devem saber qual é a finalidade das leis de Deus, que é também revelada na Bíblia. Se não compreenderem profundamente os propósitos e motivos das leis de Deus, também não saberão ensinar.
           
Desnecessário é lembrar que o ensino mais eficaz é o exemplo. Pais nunca vão convencer os filhos de que falar palavrão é errado se eles mesmos falam quando estão no trânsito ou assistindo futebol. Não vão ensinar o filho a ser paciente se eles estão sempre angustiados. Não vão ensinar a mansidão se gritam com raiva por qualquer motivo. Não vão ensinar a justiça se eles são injustos. Não serão bons educadores se não educarem a si mesmos. Além de educadores inúteis, são também hipócritas que não fazem mais do que incomodar os ouvidos de Deus. E serão cobrados. Pois o chamado para ser mestre em casa – que é do pai e da mãe igualmente – é seríssimo, a missão mais importante da vida de quem tem filhos.
           
Como os pais seculares confiam a educação moral à escola, também os pais cristãos confiam à Igreja. Erro total. A constância dos filhos como alunos está no lar, não na Igreja. É no lar que eles realmente vivem. Igreja, no início, é percebida apenas como uma rotina. E a Igreja não ensinará todos os filhos membros com total eficiência; além de ser impraticável, nem é papel principal dela. Pais devem dedicar o máximo do seu tempo com os filhos. Ensinar a Bíblia todos os dias, não só quando não estão cansados do trabalho. Falar sobre as Escrituras com naturalidade, não com um clima de medo e tensão. Se os pais não cumprem seu dever correto com os filhos, se acham que estabelecer certas regras é o suficiente, o resultado é a Igreja tornando-se desviada, desorientada e oscilante entre legalismo e antinomismo. O sucesso e o fracasso começam em casa. Relações familiares são um espelho da relação pactual de Deus com o seu povo. Não há manual de instruções nem convenções culturais particulares da família que possam substituir isso.


            André Duarte