segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Aladdin e o evangelho


            Somando mais um post ao grupo de paralelos, vamos analisar as correlações entre o filme do Aladdin (1992) e a obra de Jesus Cristo conforme revelada na Bíblia. Para isso, é importante lembrar o pressuposto essencial dos paralelos: que o homem, embora tenha caído e corrompido sua natureza, não pode destruir completamente em si a sua semelhança com Deus, que em si foi incutida pelo Senhor na criação. Isso resulta em que o homem, sendo semelhante ao Criador na capacidade de criar e de trabalhar no mundo, ainda reflete a luz de Deus em suas obras, por mais que estejam também maculadas de trevas. Portanto, vamos cavar o tesouro do evangelho nessa obra da Disney.
           
Ora, desde o princípio do filme, vemos claramente que existe um reino. E o primeiro personagem que nos é apresentado é o Jafar, o grão-vizir. Esse Jafar deseja tornar-se o Sultão para ter plenos poderes. Para isso, ele precisa entrar na caverna de tesouros e pegar a lâmpada do Gênio. A caverna diz, porém, que somente uma pessoa, “de grande valor interior”, pode entrar. O que tudo isso significa, em comparação com a Bíblia? Ora, Jafar é obviamente Satanás, aquele que tem alta autoridade sobre o mundo, embora não seja o grande rei. Jafar exerce sua autoridade de forma maligna, como Satanás faz. É frequente vermos Jafar enganando o Sultão com sua serpente enfeitiçada para conseguir o que quer. Nesse sentido, ele praticamente consegue atuar como Sultão. Ele, de fato, domina sobre o Sultão – mas, ainda assim, não pode ter precisamente o poder dele. Onde vemos essa tensão na Bíblia? Não se pode pensar que, nesse caso, o Sultão seja Deus, pois seria absurdo que Deus fosse enganado pelo diabo. O conflito é, antes, entre a semente da mulher – não o Cristo, mas a humanidade – e a semente da serpente. Não é apenas pela coação do Jafar que o Sultão é ludibriado, mas pela própria tolice deste. Foi o Sultão quem colocou Jafar em sua posição privilegiada, e ele mesmo se orgulha de “saber julgar bem as pessoas”. Logo, Jafar domina sobre o Sultão porque o Sultão lhe deu ouvidos em primeiro lugar. Em algum momento anterior ao filme, houve uma queda do Sultão semelhante à queda do homem no Éden. Não é notável que é precisamente uma serpente que Jafar usa para enganar o Sultão? Ora, se assim é a situação, porque Jafar não pode simplesmente tornar-se Sultão, se ele tem grande poder mágico? Não é simples sem o máximo poder do Gênio, é claro. Veja, portanto, o salmo 8, que descreve a posição do homem dada por Deus: um pouco menor que os anjos, coroado de glória e honra. Deus decretou que o homem fosse assim, mesmo depois da queda. Por isso, por mais que Satanás domine sobre o homem, nunca poderá ter a honra que foi dada aos filhos de Adão. Esse é o decreto de Deus. Porém, a falha do homem resulta na necessidade de um novo homem, um homem ideal, que reine sobre o mundo como Adão falhou – um segundo Adão. A falha do Sultão também aponta para a necessidade de que um novo Sultão chegue ao poder. E essa é a tensão do filme: quem será o novo Sultão: Jafar, ou um digno príncipe? Na Bíblia, também vemos uma tensão parecida: o domínio sobre o mundo e sobre a raça humana pertencerá ao diabo ou ao Messias?

            O que garante a vitória do Aladdin na conquista do Gênio – o poder para ascender ao sultanato? Simplesmente o decreto da caverna de que somente uma pessoa poderia nela entrar. Jafar não poderia entrar, senão seria esmagado. Descobrindo que Aladdin era esse eleito, ele leva-o à caverna para pegar a lâmpada e tomá-la dele. A cena da caverna é muito semelhante à da tentação e do batismo de Jesus. É claro que existem diferenças: em primeiro lugar, foi o Espírito que levou Jesus ao deserto (hmm, deserto, como no filme), e não o diabo. A diferença se dá pelo seguinte: na Bíblia, Jesus foi primeiro batizado – revestido pelo poder do Espírito – e depois tentado. No filme, o Aladdin primeiro passa pela tentação na caverna (todos os tesouros proibidos que o afastariam de sua missão) para depois receber o poder do Gênio. Por essa razão, ele é levado ao deserto por Jafar. Agora, se pensarmos no batismo e na tentação de Jesus como acontecimentos inter-relacionados para o início de seu ministério, podemos nos satisfazer com esse mesmo bloco no filme do Aladdin, não importando a ordem em que cada coisa tenha acontecido. Claro que a ordem traz importâncias teológicas fundamentais, mas estamos enfatizando a parte da “luz” aqui. Bem, como Satanás tentou Jesus para que servisse a ele, também Jafar tentou ludibriar Aladdin para pegar a lâmpada para ele. No último minuto, porém, Aladdin venceu e ficou com a lâmpada, e Jafar ficou derrotado.

            Vamos interromper a história aqui para analisarmos as credenciais do Aladdin. Ele era um ladrão. É claro que o Salvador real não poderia ser um ladrão, pois sua moralidade deveria ser perfeita para que pudesse transferir aos eleitos os seus méritos. Mas, na fantasia Disney, é possível que um homem seja ladrão, mas ainda assim “um bom ladrão”. Vamos nos ater ao decreto de que esse ladrão era moralmente aceitável diante do juízo da caverna. Uma semelhança melhor com Jesus é o fato de ele ser pobre. Cristo, que era rico, fez-se pobre em sua encarnação (2Co 8, 9). O novo rei veio em humildade, não em esplendor (Zc 9:9). Outra semelhança é a perseguição. Aladdin era constantemente perseguido pelos guardas (por motivos bem diferentes dos de Jesus, mas never mind), e Jesus era também perseguido pelas autoridades de seu tempo. Tais autoridades, que deveriam representar fielmente as santas aspirações do reino, tornaram-se legalistas, corruptas e opressoras.

            Vamos voltar ao fim da caverna. Aladdin descobre o Gênio, uma entidade serva, que glorifica o seu dono (como Jesus disse que o Espírito o glorificaria), mas cheia de poderes. É uma pena que as limitações do Gênio sejam justamente a maior glória do Espírito: poder ressuscitar mortos, matar pessoas e produzir o amor conjugal (no caso bíblico, especialmente entre Cristo e a Igreja, a regeneração). Independentemente disso, tudo mudou na vida de Aladdin depois de conseguir o Gênio: seu primeiro pedido foi tornar-se príncipe para poder casar com a princesa Jasmine. Essa princesa jamais foi seduzida por príncipes orgulhosos e estúpidos, o que contrasta com a constante rebelião do povo de Deus ao ir atrás de ídolos. Vemos, ainda assim, um conflito opressor entre a Jasmine e o seu pai, o Sultão. Sultão, representando o tolo homem caído, busca impor domínio sem juízo sobre a princesa, o símbolo do povo de Deus que seria resgatado. Um eufemismo daquilo que a Igreja vetero-testamentária sofria com o poder das nações ímpias. De qualquer forma, o ponto é que Aladdin realmente amou a Jasmine, por iniciativa própria (como Cristo, que primeiro nos amou para que o amássemos) e decide tornar-se um príncipe.

            Sua identidade como príncipe carrega também uma grande tensão. Aladdin veste-se como príncipe, consegue todos os adornos e aparências de príncipe, mas ele sabe que, em sua natureza, ele não é. A roupagem de príncipe pode ser comparada ao ministério popular de Jesus. Após ser revestido do Espírito, Jesus iniciou uma jornada que foi, em muitos aspectos, altamente popular e aclamada. Embora houvesse muitos inimigos, as multidões cresciam cada vez mais. No início, as multidões o viam apenas como milagreiro; no fim do seu ministério, na última semana, Jesus foi recebido às vivas como o rei davídico libertador. Ele era, para todos os efeitos, o príncipe que o povo esperava. Infelizmente, isso não perdurou, pois Cristo veio, realmente, como um pobre servo, não como rei glorioso. Da mesma forma, após tudo parecer ter sido ganho na missão de conquistar a princesa – inclusive mais uma derrota de Jafar, que foi expulso do palácio, semelhantemente ao diabo que caiu como relâmpago durante a missão de Jesus (cf. Lc 10:18) –, o verdadeiro ser do Aladdin foi revelado. Ele foi despojado de toda a honra e glória que havia recebido quando Jafar conseguiu roubar-lhe a lâmpada. O início da paixão de Cristo foi também chamado por ele de “a hora em que as trevas reinam”. O império do Jafar se estabeleceu e Aladdin foi novamente revelado como frágil, pobre, e ele mesmo foi lançado para fora da terra dos viventes (Is 53).

            No entanto, foi em fraqueza que ele trinfou. Em realidade, não foi apenas a sua aparência desprezível que foi posta à vista, mas também a essência do Jafar mostrou-se. Ele virou uma serpente gigante para matar o Aladdin militante (cf Ap 12). Mas, na batalha em que o pobre pivete parecia não ter a menor chance, por meio do Gênio, ele derrotou o Jafar, já transformado também em gênio, prendendo-o em sua própria lâmpada. Jesus Cristo, da mesma forma, venceu o diabo em sua morte e, especialmente, em sua ressurreição e ascensão, operadas pelo Espírito. Por mais que o diabo tenha se mostrado crescentemente poderoso ao instigar os homens violentos contra Cristo, foi na humilhação do Senhor que a derrota de Satanás foi executada. De forma interessante, o Aladdin não destruiu o Jafar, mas o aprisionou. Preso, Jafar não pode mais enganar o Sultão. Da mesma forma, Jesus Cristo “prendeu” o diabo quando venceu na cruz – algo que amilenistas e pós-milenistas compreendem bem, conforme a conexão entre Apocalipse 12 e 20. Ainda em seu ministério, Jesus disse que o ladrão só pode saquear o homem forte se primeiro o prender. Comparou-se, naquele momento, com aquele que amarra o homem para salvar as almas por ele feitas cativas. Satanás está preso não literalmente, geograficamente, mas sim no sentido de ter seu poder grandemente limitado, impossibilitado de fazer com que as nações não creiam no evangelho. Aladdin prendeu o Jafar e salvou a princesa, o Sultão e o reino. Jesus prendeu Satanás, salvou sua noiva e o homem caído – lembrando que, na realidade, a noiva de Cristo e o homem pecador regenerado convergem para a mesma coisa.

            Após derrotar Jafar, Aladdin liberta o Gênio. O Gênio não mais ficaria contido numa lâmpada, manifestando-se apenas em poucas ocasiões. Isso se encaixa no momento em que Cristo enviou o Espírito Santo à terra. Na ascensão de Jesus Cristo, ele confere maior atuação ao Espírito. Não que os detalhes correspondam tanto, mas...

            Por fim, o Sultão recobra sua sanidade compreendendo que Aladdin, embora não fosse o príncipe que todos esperavam, era o príncipe verdadeiro, pela pureza do seu coração. E concede que ele se case com a princesa e torne-se ele mesmo o novo Sultão. Jesus Cristo, após salvar o reino e o homem, faz que o homem caído seja regenerado, recobre seu entendimento espiritual e submeta-se ao único rei digno, o Messias. Assim, Jesus estabelece sua aliança com sua noiva, reina sobre os homens que o adoram e vence o diabo.


            André Duarte

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