segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 2: Casamento com Descrentes



Acabadas as diretrizes específicas sobre como funciona um Casamento, com a analogia de Cristo e a Igreja, vamos a alguns tópicos polêmicos, com a ajuda tanto de Efésios, como de outras partes da Escritura. Vou tentar pegar tópicos bem discutidos sobre o assunto, e tentar resolvê-los à luz da Escritura. E primeiro destes tópicos é o Casamento do cristão com o descrente. Enfim, vamos lá:

Desde o Antigo Testamento, há várias asseverações contra casamentos mistos (Ne 13.23-27 – este trecho é a maior mostra dos povos não-israelitas ensinando suas heresias e profanando a aliança do Deus de Israel, mediante casamentos), mostrando o perigo de tal união. Alguns podem pensar que era algo cultural, um tipo de xenofobia judia, principalmente quando se trata do Antigo Testamento, mas a verdade é outra.

Primeiro, era um mandamento divino. Não era algo inventado por homens, mas o próprio Deus mandou que assim fosse. E se foi o próprio Deus, obedeçamos, ao invés de tentar questioná-Lo.

Segundo, não era algo racial, mas sim, pactual. Deus é um Deus de pactos, de alianças. No Antigo Testamento, Israel era o povo de Deus, tinham feito um pacto com Ele desde Abraão; era uma aliança que se perpetuaria até o Novo Testamento (Gl 3.6-16). Outra mostra dessa visão pactual ao invés de racial são as inúmeras leis do Antigo Testamento valorizando o “estrangeiro”, que viviam com eles, mas que seguiam a Lei de Deus (Ex 12.48; Ex 23.9; Nm 15.16). A questão era que, a priori, os pagãos eram os gentios, enquanto os judeus era os guardiões dos oráculos de Deus (Rm 3.2; 9.4,5)

Casar-se com alguém descrente já é uma grande mostra que esse relacionamento não tem por objetivo glorificar a Deus, já que o cônjuge em questão adorava outros deuses. Hoje em dia, poderiam falar “ah, mas o cara é ateu/budista/espiritual/acredita em Deus, mas sem religiões”; entretanto, tudo isso, e muito mais, não é o verdadeiro pacto e união com Deus Triúno que a Escritura revela então, é tão pagão quanto os outros povos semíticos do Antigo Testamento. Pode ser que tal casamento seja agradabilíssimo, vocês nunca briguem, vocês “se amam” (questão de amor pode dar um outro post inteiro, por isso me limito a colocar entre aspas esse tipo de explicação pra dizer que não condiz com a definição bíblica de amor), mas isso nada vale. O casamento foi instituído por Deus para que o casal glorifique a Deus; se fosse pra se sentir bem, relacionamentos com qualquer não-cristão seria válido diante de Deus. Felizmente, não é esse o propósito, pois glorificar a Deus é infinitamente melhor que “se sentir bem”.

Isso não nega a realidade de que um relacionamento entre cristãos não é perfeito. Os cristãos ainda são pecadores, e por seus pecados, que distorcem e corrompem o bom proceder, machucam e fogem desse propósito divino. Ainda assim, são os cristãos, aqueles verdadeiramente remidos e regenerados por Deus, que vão buscar, cada dia mais, odiar o pecado e amar a santidade; cada vez mais, que vão lutar para amar mais a Deus, e, por consequência, amar o seu cônjuge em santidade.

Entretanto, existe uma exceção para relacionamento entre cristãos e descrentes, e ela se encontra em 1 Co 7.12-16:

“Aos mais digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher incrédula, e esta consente em morar com ele, não a abandone; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em viver com ela, não deixe o marido. Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos. Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz. Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?”

Neste caso específico, Paulo trata da situação de alguém que se converte DEPOIS de ter se casado. Neste caso, Paulo aconselha que se mantenha a união, se a parte incrédula concordar com esta união; caso não concorde, a parte crente está livre (sendo uma das poucas situações válidas para a separação; entretanto, isso será tratado posteriormente). Já que se estabeleceu a união, o incrédulo da relação pode ser abençoado e Deus pode alcançá-lo através de seu cônjuge. Então, porque não se pode casar com alguém incrédulo para “ajudar a se converter”, mesmo sendo cristão antes do casamento? Porque, sendo você cristão, tem o mandato de glorificar a Deus em todas as áreas, inclusive, a de escolher um cônjuge com quem se une, por meio do Casamento, para adorar a Deus. Alguém que converte depois de casado, não tem mais essa opção, pois se respeita a união feita anteriormente. Logo, o seu glorificar a Deus é no bom trato com o cônjuge e esperar em Deus que Ele o converta, o que pode não acontecer, ainda assim (e Deus terá Seus motivos e propósitos para tal, não me cabe aqui tentar fazer uma explicação universal pra isso).

Assim, Deus demanda do Seu Povo que se case e se una somente com aqueles que são Dele (1 Co 7.39), pois somente assim Ele será glorificado, visto toda a casa estar submissa ao Senhor (Js 24.15). Assim como Deus não permite que Seu Povo se volte pra outros deuses, pela aliança exclusiva que fez com Ele, para O servir e glorificar, nós não podemos nos casar com aqueles com quem não tem o pacto com nosso Deus, visto que não glorificam a Deus na sua vida.


Que Deus abençoe a todos nós
Marcel Cintra

8 comentários:

  1. Muito bom! Mas onde fala em 1 Cor 7 que um marido pode santificar sua mulher e vice versa somente se ele se converteu depois de ter casado?

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    1. "Olha, não entendi muito bem a sua pergunta. Você poderia esclarecê-la para mim? Assim, poderei te responder com mais propriedade."
      - Marcel Cintra

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    2. ACHO que ela quer saber onde infere-se no texto de 1 co 7:12-16 que Paulo está falando com quem casou antes de converter-se e não com quem já era convertido e casou com um não cristão.

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    3. obrigada tiago! como se chega à essa interpretação?

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  2. Não se infere!
    No caso, pouco importa se a conversão veio antes ou depois do casamento!
    o fato é que o casamento já está consumado, pois ele diz "que TEM mulher" e não que "terá".

    Assim, o princípio que fica é: não se divorcie! Se o casamento já ocoreu, seja pq vc casou discrente, seja pq, a época, vc achava que isso era certo, não se divorcie!

    Mas, se vc é solteiro, não queira tomar esse passo! Mesmo no caso de que já casou, é importante que haja o arrependimento, ainda que isso não resulte em divórcio!

    Minha opinião!

    Ps: Pelo contexto da época, infere-se sim que a maioria das pessoas JÁ ESTAVAM CASADAS ANTES DA CONVERSÃO!

    Mas, o que quiz dizer é que o princípio de se evitar o divórcio permanece mesmo se vc já era cristão e tomou uma decisão, digamos, equivocada!!!

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    1. Olá, Blenda! Bem, um outro raciocínio para se chegar a essa conclusão é: o que todo o resto da Escritura diz claramente sobre o casamento entre crente e descrente? Como foi demonstrado no texto, ele é proibido. Logo, por consequência, o texto de 1Coríntios 7 não pode estar ensinando a permissão de que um crente case com um descrente, pois isso seria contraditório. Ele deve falar, portanto, de uma situação diferente, que é: dois descrentes casados e um deles se converte. É uma conclusão necessária que parte de pressupostos hermenêuticos fundamentais, como a perfeita coerência das Escrituras, que um texto obscuro deve ser interpretado segundo outros mais claros, etc.
      Obrigado pela participação e, se tiver mais dúvidas, é só falar ^^

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  3. Bem, cheguei um pouco atrasado na discussão, mas o André resumiu muito bem a questão:

    1. O resto da Escritura já mostra a impossibilidade de casamento entre cristãos e não-cristãos;
    2. Paulo não poderia estar falando, como se fosse certo, o casamento entre um cristão e não-cristão;
    3. A passagem mostra um casamento prévio, e alguém do casal é cristão;
    4. Logo, a passagem fala de alguém que se converteu DEPOIS de casado, porque se não a conversa de Paulo seria outra :)

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  4. Amém... Que Deus me ajude a encontrar um homem que teme a Ele verdadeiramente.

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