Hoje, ainda no tópico do casamento, trataremos da questão, atualmente,
um tanto quanto difícil: o divórcio. Muito tem se debatido sobre o assunto, e
hoje vemos uma triste realidade, que consiste num constante aumento do número
de divórcios entre cristãos. Entretanto, quais são as prerrogativas bíblicas
para o divórcio? O que a Escritura permite ou proíbe? Vejamos a seguir:
Uma das primeiras ocorrências sobre o assunto se encontra
em Deuteronômio 24.1-4:
“Se um homem tomar uma mulher
e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele
achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho
der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar
com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho
der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para
si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não
poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi
contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra
que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança.”
Segundo esta
porção da Escritura, já podemos verificar algumas coisas. Quando se achava
“coisa indecente” (que, ao contrário do que muitos pensam de ser algo
arbitrário - como se Deus fosse arbitrário -, “coisa indecente” aqui se refere
a pecados sexuais, como discutiremos mais tarde) no cônjuge, se lavrava um
termo de divórcio, as duas pessoas, pra todos os efeitos, se tornavam solteiras
(que até poderiam se casar novamente, como diz em “se ela... for e se casar com
outro homem”). Aqui até mesmo vemos uma advertência com uma mulher que teve um
segundo casamento, se o segundo marido morrer, ou se divorciar dela, não pode
voltar para o primeiro marido. Entretanto, como vemos em 1 Co 7.10,11, se não
houve um segundo casamento, o ideal para o caso seria a reconciliação com o
antigo cônjuge ou até mesmo o celibato. O segundo casamento é lícito,
entretanto, não incentivado pela Escritura, como bem vemos aqui.
Um grande
erro é ignorar o que o Antigo Testamento tem a nos dizer pois “já se passou”,
“estamos na era do Novo Testamento”, na “era da Graça” ou qualquer coisa do
gênero, com o intuito de denegrir a autoridade do Antigo Testamento para nossas
vidas. Na pessoa de Jesus Cristo, claro, houve uma nova aliança, e o Antigo
Pacto foi atualizado e plenificado no Novo testamento, mas isso não pode ser
desculpa para não ler e entender o Antigo Testamento. O próprio Jesus disse que
não veio para revogar a Lei ou os Profetas, antes, para cumprir o que eles
diziam (Mt 5.17). E um grande exemplo dessa ignorância com o Antigo Testamento
reside na questão do divórcio: com o pretexto do Antigo Testamento “não valer
mais”, tudo é possível, tudo é plausível no que tange casamento, divórcio e
recasamento, deixando de obedecer ao que o SENHOR demanda de Seu povo, pecando
contra ele. Na verdade, são apenas seus corações pecaminosos que disfarçam
libertinagem sob um véu de pseudo-piedade, pois querem fazer o que seus
corações querem, e não o que o SENHOR demanda.
Entretanto,
mesmo para esses, cujos corações negam o Antigo Testamento, o Novo Testamento
tem muito a dizer sobre isso, e em nada discorda com a Antiga Aliança. Vejamos
um trecho bastante conhecido sobre o assunto:
“Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam,
perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?
Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez
homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá
a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais
dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.
Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar?
Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos
permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.
Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações
sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a
repudiada comete adultério]. Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição
do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. Jesus, porém, lhes
respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a
quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram
tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos
céus. Quem é apto para o admitir admita.” Mateus 19.3-12.
Aqui, avaliamos uma série de ensinamentos ditos por Jesus. Os
fariseus vieram a ele perguntando se poderiam repudiar sua mulher por qualquer motivo; Jesus, porém, só
abriu uma cláusula possível para o
divórcio, que são as relações sexuais ilícitas, assim como Deuteronômio
previa. Aquele que repudia da sua mulher por qualquer outro motivo, na verdade,
não se divorciou dela licitamente e, casando com outra, adultera, pois nunca
deixou de ser casado.
Mais, Jesus arroga a autoridade do casamento desde o Primeiro
Casal, mostrando que o casamento não é uma união vã, um contrato entre partes,
como muito se vê por aí, mesmo entre crentes. O Casamento é uma união completa
de duas pessoas; não são mais dois, apenas uma só carne. A ideia de divórcio,
sob o espectro do Primeiro Casamento, seria uma coisa impensável, pois como vai
se dividir em pedaços e ainda assim fazer viver algo que é uma coisa só?
Novamente, é algo muito sério a ser levado em consideração, que o Casamento é
um passo pra uma união sobremodo maravilhosa, que exige responsabilidades
sobremodo grandiosas, mas recompensadoras. Lembremo-nos que o Casamento é
figura, é “imagem e semelhança” do relacionamento de Deus e Seu Povo; como se
pode dividir tão maravilhosa união? Como se pode destruir comunhão tão
poderosa? Nada nos separará do amor de Cristo (Rm 8.31-39), tampouco se deve
destruir o relacionamento humano do qual é imagem, do qual glorifica a Deus em
semelhança, que é o Casamento.
Entretanto, a Moisés foi
dado permitir o divórcio, tão somente no caso de adultério porque assim também
é o caso com alguém que “adultera” seu relacionamento com Deus que, ao trocar o
verdadeiro Deus por outros deuses (paganismo, dinheiro, poder, sexo,
misticismo, e por aí vai; Calvino já dizia que “o coração humano é uma fábrica
de ídolos”, logo, qualquer coisa é motivo pra idolatria, se você elevá-la o
suficiente no seu coração), Deus então lavra sua carta de divórcio, relegando
oficialmente como fora do corpo de Cristo, fora da comunhão com o Deus Vivo,
sobrando apenas a condenação eterna para “adúltero espiritual” (Ezequiel 16 é o
maior exemplo dessa figura, vale a pena conferir). Como diria Hebreus 10.26-30:
"Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois
de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício
pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo
vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo
depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De
quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou
aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi
santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que
disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará
o seu povo."
Então, aquela pessoa que deliberadamente continua imerso em
pecado, aquela que tem outros deuses em seu coração, merecerá o castigo eterno
de Deus, o eterno divórcio da união com o Eterno Deus.
Enfim, vemos então que o Casamento, como figura do
relacionamento de Cristo e a Igreja, não deveria ser anulado, pois a união
reflete a união de Deus com Seu povo. Entretanto, o divórcio é permitido,
somente no caso de relações sexuais ilícitas, que é um ensinamento que percorre
do Antigo para o Novo Testamento, nunca sendo por qualquer outro motivo. Por mais que um Casamento esteja ruim,
destruído, estilhaçado, isso não será motivo diante de Deus para que haja
divórcio. Apesar de muito difundida, a ideia de que é o amor que segura a
aliança e o compromisso é uma ideia humanista e não bíblica; é a aliança que
segura o amor, é o compromisso que alimenta e sustenta o amor do Casamento.
Atentemos e roguemos a Deus para que entendamos estas verdades e vivamos para
Ele, cada dia mais.
Que Deus possa abençoar a todos nós.
Marcel Cintra

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