terça-feira, 8 de outubro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 3: O Divórcio



Hoje, ainda no tópico do casamento, trataremos da questão, atualmente, um tanto quanto difícil: o divórcio. Muito tem se debatido sobre o assunto, e hoje vemos uma triste realidade, que consiste num constante aumento do número de divórcios entre cristãos. Entretanto, quais são as prerrogativas bíblicas para o divórcio? O que a Escritura permite ou proíbe? Vejamos a seguir:

Uma das primeiras ocorrências sobre o assunto se encontra em Deuteronômio 24.1-4:

“Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança.”

Segundo esta porção da Escritura, já podemos verificar algumas coisas. Quando se achava “coisa indecente” (que, ao contrário do que muitos pensam de ser algo arbitrário - como se Deus fosse arbitrário -, “coisa indecente” aqui se refere a pecados sexuais, como discutiremos mais tarde) no cônjuge, se lavrava um termo de divórcio, as duas pessoas, pra todos os efeitos, se tornavam solteiras (que até poderiam se casar novamente, como diz em “se ela... for e se casar com outro homem”). Aqui até mesmo vemos uma advertência com uma mulher que teve um segundo casamento, se o segundo marido morrer, ou se divorciar dela, não pode voltar para o primeiro marido. Entretanto, como vemos em 1 Co 7.10,11, se não houve um segundo casamento, o ideal para o caso seria a reconciliação com o antigo cônjuge ou até mesmo o celibato. O segundo casamento é lícito, entretanto, não incentivado pela Escritura, como bem vemos aqui.

Um grande erro é ignorar o que o Antigo Testamento tem a nos dizer pois “já se passou”, “estamos na era do Novo Testamento”, na “era da Graça” ou qualquer coisa do gênero, com o intuito de denegrir a autoridade do Antigo Testamento para nossas vidas. Na pessoa de Jesus Cristo, claro, houve uma nova aliança, e o Antigo Pacto foi atualizado e plenificado no Novo testamento, mas isso não pode ser desculpa para não ler e entender o Antigo Testamento. O próprio Jesus disse que não veio para revogar a Lei ou os Profetas, antes, para cumprir o que eles diziam (Mt 5.17). E um grande exemplo dessa ignorância com o Antigo Testamento reside na questão do divórcio: com o pretexto do Antigo Testamento “não valer mais”, tudo é possível, tudo é plausível no que tange casamento, divórcio e recasamento, deixando de obedecer ao que o SENHOR demanda de Seu povo, pecando contra ele. Na verdade, são apenas seus corações pecaminosos que disfarçam libertinagem sob um véu de pseudo-piedade, pois querem fazer o que seus corações querem, e não o que o SENHOR demanda.

Entretanto, mesmo para esses, cujos corações negam o Antigo Testamento, o Novo Testamento tem muito a dizer sobre isso, e em nada discorda com a Antiga Aliança. Vejamos um trecho bastante conhecido sobre o assunto:

Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]. Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita.” Mateus 19.3-12.

Aqui, avaliamos uma série de ensinamentos ditos por Jesus. Os fariseus vieram a ele perguntando se poderiam repudiar sua mulher por qualquer motivo; Jesus, porém, só abriu uma cláusula possível para o divórcio, que são as relações sexuais ilícitas, assim como Deuteronômio previa. Aquele que repudia da sua mulher por qualquer outro motivo, na verdade, não se divorciou dela licitamente e, casando com outra, adultera, pois nunca deixou de ser casado.

Mais, Jesus arroga a autoridade do casamento desde o Primeiro Casal, mostrando que o casamento não é uma união vã, um contrato entre partes, como muito se vê por aí, mesmo entre crentes. O Casamento é uma união completa de duas pessoas; não são mais dois, apenas uma só carne. A ideia de divórcio, sob o espectro do Primeiro Casamento, seria uma coisa impensável, pois como vai se dividir em pedaços e ainda assim fazer viver algo que é uma coisa só? Novamente, é algo muito sério a ser levado em consideração, que o Casamento é um passo pra uma união sobremodo maravilhosa, que exige responsabilidades sobremodo grandiosas, mas recompensadoras. Lembremo-nos que o Casamento é figura, é “imagem e semelhança” do relacionamento de Deus e Seu Povo; como se pode dividir tão maravilhosa união? Como se pode destruir comunhão tão poderosa? Nada nos separará do amor de Cristo (Rm 8.31-39), tampouco se deve destruir o relacionamento humano do qual é imagem, do qual glorifica a Deus em semelhança, que é o Casamento.

Entretanto, a Moisés foi dado permitir o divórcio, tão somente no caso de adultério porque assim também é o caso com alguém que “adultera” seu relacionamento com Deus que, ao trocar o verdadeiro Deus por outros deuses (paganismo, dinheiro, poder, sexo, misticismo, e por aí vai; Calvino já dizia que “o coração humano é uma fábrica de ídolos”, logo, qualquer coisa é motivo pra idolatria, se você elevá-la o suficiente no seu coração), Deus então lavra sua carta de divórcio, relegando oficialmente como fora do corpo de Cristo, fora da comunhão com o Deus Vivo, sobrando apenas a condenação eterna para “adúltero espiritual” (Ezequiel 16 é o maior exemplo dessa figura, vale a pena conferir). Como diria Hebreus 10.26-30:

"Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo."

Então, aquela pessoa que deliberadamente continua imerso em pecado, aquela que tem outros deuses em seu coração, merecerá o castigo eterno de Deus, o eterno divórcio da união com o Eterno Deus.

Enfim, vemos então que o Casamento, como figura do relacionamento de Cristo e a Igreja, não deveria ser anulado, pois a união reflete a união de Deus com Seu povo. Entretanto, o divórcio é permitido, somente no caso de relações sexuais ilícitas, que é um ensinamento que percorre do Antigo para o Novo Testamento, nunca sendo por qualquer outro motivo. Por mais que um Casamento esteja ruim, destruído, estilhaçado, isso não será motivo diante de Deus para que haja divórcio. Apesar de muito difundida, a ideia de que é o amor que segura a aliança e o compromisso é uma ideia humanista e não bíblica; é a aliança que segura o amor, é o compromisso que alimenta e sustenta o amor do Casamento. Atentemos e roguemos a Deus para que entendamos estas verdades e vivamos para Ele, cada dia mais.


Que Deus possa abençoar a todos nós.
Marcel Cintra

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