quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Bíblia e os deficientes


           1. Prefácio

Eu não sei que tanto os cristãos em geral entendem sobre os deficientes segundo as Escrituras. Muitos talvez nem pensem muito em deficientes, por não conviverem com algum deles, não serem aparentados de um. Mas, acho que acerto quando imagino haver pelo menos um ou dois deficientes em cada igreja. Outros cristãos podem ter deficientes na família, mas não compreender devidamente o que a deficiência significa à luz da Bíblia e da cruz. Por mais “esclarecido” que o mundo se proclame a respeito deles, ainda existe, mesmo para cristãos, ideias preconcebidas tortas, que misturam emoções e expectativas frustradas com racionalizações teológicas. E isso deve ser levado a sério, porque a compreensão teológica e espiritual errada sobre o deficiente resultará na maneira como ele é tratado na família e na Igreja e, por fim, no próprio relacionamento dele com Deus. Não podemos cair no humanismo deificador dos deficientes nem no descaso arrogante com eles no contexto eclesiástico. É triste que muitos familiares de deficientes nem mesmo pensem que a Bíblia fala sim sobre esse assunto e fornece direcionamentos concretos, mesmo que em forma de princípios.

            Antes de irmos até eles, preciso antes explicar algumas coisas. Primeiro, não me envergonho de usar o termo “deficientes”. Estou ciente das ladainhas intermináveis dos humanistas e psicólogos a respeito de como essas pessoas (aparentemente inomináveis) devem ser chamadas. O termo “portador de deficiência” e o “portador de necessidades especiais” já foram execrados, porque o termo “portador” sugere alguém enfermo; o termo “excepcional” também já caiu, e parece que o único termo ainda usado publicamente, de forma simples, é “deficiente”. E sei que ele também não agrada todo mundo. Mas já vi o suficiente para saber que nunca uma designação será plenamente felicífica. O termo “deficiente” basta pra mim, sem qualquer insinuação maldosa que algum reclamão puder imaginar. Segundo, estou cônscio do papel importante dos psicólogos no auxílio aos deficientes. Já há anos, meu irmão e nós familiares fomos abençoados com a atuação deles. Embora eu deteste quase tudo na psicologia e considere-a praticamente um anticristo, reconheço essa centelha de graça comum, que tanto tem beneficiado deficientes e suas famílias. Com este post, não quero desmerecer as ajudas que os psicólogos podem oferecer aos cristãos parentes de deficientes, mas apenas afirmar que o papel deles é limitado. Eles podem ser exímios doadores de graça comum, mas em nada podem contribuir na esfera da graça especial. Em outras palavras, desejo que os pais ou responsáveis cristãos por deficientes saibam que podem fazer muito mais por eles do que confiá-los aos psicólogos, embora possam também receber sabedoria deles. Agora, vamos à Bíblia.
           
            2. Êxodo 3: Deficientes são chamados por Deus para a sua aliança.

Se não me falha a memória, a primeira referência que as Santas Escrituras fazem aos deficientes encontra-se em Êxodo 3. Ali, Deus comissiona Moisés a ser o libertador do povo eleito. O leitor deve notar que Deus faz uma revelação ainda maior do que a que ele fez a Abraão, Isaque e Jacó. Pela primeira vez, ele se revelou como o YHWH, o Deus da aliança. Embora ele tenha prometido sua aliança a Abraão, é apenas em Moisés que ele escolhe um mediador desse pacto. O Deus do seu povo seria o Deus que efetua libertação e salvação por meio de um intermediário. É nesse contexto maior que devemos ler as declarações de Deus sobre sua soberania na criação e na eleição: “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o surdo, ou o que ouve, ou o cego, ou o que vê? Não sou eu, o Senhor?”. Isso foi uma resposta de Deus às desculpas de Moisés para não cumprir seu comissionamento. Alegou ele que não sabia falar bem. Especula-se em vão sobre sua gagueira. Ao meu ver, Moisés estava apenas atemorizado com o que haveria de realizar, e Deus lhe responde que toda capacidade e incapacidade humana vêm dele. É Deus quem livremente cria o “normal” e o deficiente, conforme deseja. E isso deve ser visto não só no contexto da criação, mas também no da eleição para a participação em sua aliança. O Deus do pacto, o Redentor do seu povo, estava afirmando que a deficiência não é impedimento para a participação em sua graça. Deficientes são bem-vindos ao povo de Deus.
           
O que isso significa, na prática? Primeiro, que deficiência não é obra do diabo nem de maldição para os cristãos. Trataremos da questão do castigo em breve. Por enquanto, é necessário apenas firmar isto: que os deficientes foram criados diretamente por Deus e exatamente como são, pela vontade soberana dele. O que o salmo 139 fala sobre a formação do homem no útero pela mão de Deus, “Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.”, é igualmente verdadeiro sobre qualquer deficiente. Não importa se a deficiência é física ou mental. Todos vêm da mão de Deus e devem se recebidos como tais pela família cristã e pela Igreja. É providência divina. Deus criou o homem à sua imagem, e a imagem de Deus é sagrada. Tanto quanto os “normais”, são os deficientes honoráveis imagens de Deus. Que os pais parem com as estupidezes de repreender o demônio, levar a criança pra ser ungida, quebrar maldição hereditária e tudo o mais que revela falta de fé e mesmo de amor. Que parem de fazer correntes de oração e jejum e buscas implacáveis por milagres de cura. O deficiente foi criado por Deus assim, e é da vontade dele que ele seja assim. E isso é sabido pelo simples fato de ele ser assim. Com isso, não coloco em dúvida o poder de Deus em curar, e não ignoro que Jesus tenha curado muitos deficientes em seu ministério. Se Deus desejar curar o deficiente, ele fará isso (falo isso como um cessacionista empático). O que afirmo é que a família do deficiente não deve contar com isso e nem esperar por isso. É um exercício de fé muito maior confiar que foi a boa e perfeita mão de Deus quem formou o deficiente, e que como dádiva dos céus ele deve ser recebido.
           
Além do que diz respeito à criação, precisamos ter consciência do que a parte da eleição significa. Não foi apenas o Deus como criador quem declarou que os deficientes são seus, mas sim o Deus da aliança, o redentor da Igreja. Em termos práticos, isso significa que os deficientes devem sim ser aceitos como membros da Igreja, batizados, doutrinados, disciplinados e considerados fraternalmente pelos pastores e pelos membros. Não sei que espírito satânico cegou a Igreja a esse respeito por tantos séculos, para que os deficientes tenham sido, através da história, tão maltratados, exilados e condenados sem razão alguma, principalmente os deficientes mentais. É para a nossa vergonha que admito terem sido os psicólogos, e não os clérigos, a terem começado a pensar nos deficientes com mais humanidade. As Escrituras nos dizem vez após vez, no contexto eclesiástico, que os membros devem considerar uns aos outros, suportar uns aos outros, levar as cargas uns dos outros, amar uns aos outros. Deficientes possuem também necessidades particulares e devem receber dessa mutualidade. Famílias com deficientes mentais precisam do apoio dos membros. Por vezes, a família mal pode prestar culto público, por causa do deficiente mental. Que os membros ajudem, cuidando dele durante o culto, como se faz aos bebês de berçário. Fico muito feliz e grato por congregar em uma igreja onde isso acontece.

            3. João 9: Os deficientes foram criados para a glória de Deus.
           
Nesta famosa passagem, os discípulos perguntam a Jesus de quem foi a culpa para que aquele cego houvesse nascido assim. Para começar, a pergunta deles não estava totalmente errada. Algumas vezes, os deficientes são dados como punição pelos pecados. Assim Davi amaldiçoou Joabe pelo seu homicídio, e Deus mesmo, por meio de Samuel, amaldiçoou a descendência de Eli pelo descaso dele com as leis do culto. Os cristãos não devem temer esse tipo de maldição, como já dissemos, porque a obra de Cristo já cancelou todo tipo de maldição. Mas a disciplina de Deus continua. O pecado de pais cristãos pode sim resultar na disciplina de Deus por meio de um filho deficiente. Porém, de um ponto de vista casuístico, isso é um mistério. Ninguém pode acusar ou julgar pais de deficientes de terem culpa nisso. Seria a mesma condenável atitude dos amigos de Jó. Aos irmãos, cabe a misericórdia e a empatia; a Deus pertence o conhecimento de causa.

No caso daquele cego, Jesus revelou que não era punição de Deus por um pecado, e sim uma dádiva que manifestaria a glória dele. Por causa daquela cegueira, Jesus pôde realizar um milagre de cura público que muito contribuiu para o reconhecimento da glória de Deus. É o “mal” transformado em bem. Independentemente de punição ou não, os cristãos precisam confiar que os deficientes de sua família ou Igreja foram dados por Deus para manifestarem sua glória também. E muito enganados estão os que pensam que isso só pode se dar pela cura miraculosa. Qualquer estudioso da Bíblia sério sabe que Deus tem a sua glorificação como fim de todas as coisas, e que ele soberanamente age para tanto por meio de quaisquer circunstâncias. Se os deficientes forem tratados como Deus prescreve por meio do chamado à sua aliança, ficará bem claro para a Igreja como a glória de Deus se manifesta por meio deles. Deficientes não são exceção no plano de Deus e no seu bom propósito para todas as coisas. Pensem em que grandioso testemunho da bondade e da justiça de Deus a Igreja daria perante o mundo se tratasse os deficientes como irmãos em Cristo. Mas parece que vemos o contrário: a Igreja está buscando no mundo as direções sobre os deficientes. Ora, o mundo descobriu que se deve respeitar os deficientes há menos de 100 anos, enquanto a Igreja já deveria saber disso desde Moisés. Que grande necessidade temos nós de arrependimento e de reparação!

4. Salmo 8: Deus prega aos deficientes também.

No versículo 2, está escrito que Deus firmou o seu nome nos lábios dos recém-nascidos; Jesus cita esse salmo segundo a Septuaginta, dizendo que Deus suscitou louvor deles. Lembremo-nos também da bênção que Jesus concedeu às crianças, dizendo “dos que são como elas é o reino dos céus”. Tais crianças, segundo o grego, eram bebês de peito. Que isso tem a ver? Que é um grande erro nosso pensar que somente pessoas adultas e mentalmente normais são capazes de adorar Deus e serem aceitas por ele. Bebês não possuem entendimento nenhum, e mesmo assim eles louvam o Senhor e pertencem ao reino dos céus (desde que sejam filhos de crentes, conforme a promessa da aliança). Por que, então, deveríamos excluir os deficientes mentais do ministério da pregação, como se a incapacidade mental deles fosse mais forte que o poder do Espírito? É grande tolice pensar que, uma vez que os deficientes são salvos, podem eles prescindir dos meios de graça que enriquecem o relacionamento deles com o Senhor. Os pais e a Igreja devem sim ensinar a Palavra de Deus aos deficientes mentais, mesmo que pareça que eles não estão entendendo nem se importando. Digo isso porque muitas igrejas são boazinhas e gentis com os deficientes, mas não gastam tempo nenhum introduzindo-os na comunhão, no ministério do ensino e da pregação. Algumas até possuem pessoas que cuidam dos deficientes durante o culto para ajudar os pais, mas não fazem mais do que enrolar e passar o tempo. Deficientes devem sim receber dos responsáveis, tanto os da família como os da Igreja, o ensino da Bíblia e as orações em conjunto. Se eles podem participar conscientemente, melhor ainda; mas, se não têm compreensão mental alguma, mesmo assim devem ouvir a Palavra orada e pregada. E, é claro, o próprio relacionamento construído entre o responsável e o deficiente é uma experiência espiritualmente enriquecedora para ambos. Não sabemos o que Deus pode operar secretamente no coração do deficiente, mas ele sabe. Se ele faz isso a bebês recém-nascidos, certamente não é a idade ou maturidade mental que o impede. Ele fez da sua Palavra o meio de edificar e santificar a sua Igreja, e não dispôs nenhuma exceção para os deficientes.

Além disso, lembremo-nos de que o Espírito falou a pessoas de várias nações por meio do dom de línguas dos apóstolos. Uma das maiores bênçãos do evangelho é o seu poder de quebrar as barreiras de comunicação. E devemos crer que o mesmo Deus que proclama o seu evangelho a todos os povos também o faz na linguagem do deficiente. Nós humanos não sabemos como nos comunicar de forma que os deficientes mentais entendam, mas Deus, em seu secreto conselho, sabe. E ele santificará os deficientes de seu pacto pela sua Palavra pregada, e a imprimirá em seus corações, porque foi para isso que ele os chamou. Deficientes não entendem a Bíblia? Diante de Deus, eles entendem tanto quanto você.

5. Uma última ilustração.

Quando os filisteus invadiram Israel e derrotaram o rei Saul, um neto dele chamado Mefibosete caiu das mãos de sua ama quando ainda era criança e ficou permanentemente aleijado. Quem herdou o trono, após várias complicações civis, foi Davi. O que poderiam esperar os descendentes de Saul que ainda restavam, senão a morte? No entanto, Mefibosete foi acolhido por Davi tão amorosamente que passou a comer na mesa do rei pelo resto da vida. Mefibosete bem sabia que sua deficiência seria um peso para o rei, sem falar na indignidade de sua ascendência. Mas, por causa da aliança de amizade que Davi fez com Jônatas, o pai de Mefibosete, cumpriu ele sua palavra de abençoar seu filho.

Essa história bem ilustra com que carinho e consideração devem ser tratados os deficientes na Igreja. Essa lição é um reflexo do próprio evangelho. Somos nós os indignos por ascendência, filhos de Adão, filhos do diabo, filhos da ira. Pra ficar pior, somos nós os mancos, que não podemos dar um só passo para pedir clemência ao grande rei. Mas esse tão bondoso rei estabeleceu aliança eterna por meio de Jesus Cristo, o sumossacerdote que levou sobre si nossas enfermidades (Is 53), que padeceu todas as fraquezas humanas em sua carne (Hb 5). E, por intermédio dessa aliança, somos nós conduzidos à presença do Rei dos reis e convidados ao banquete celestial por toda a eternidade. Se você ainda tem dificuldades para aceitar os deficientes em sua família, se eles mais parecem um peso incômodo do que um presente de Deus; se você teme se envolver com os deficientes de sua igreja, afirmo que é o poder desse evangelho que iluminará o seu caminho. Pela multiforme sabedoria de Deus revelada no evangelho, você pode imitá-lo e tratar os deficientes como irmãos em Cristo e partícipes do pacto da graça.


André Duarte

domingo, 2 de fevereiro de 2014

PRC 10 – O dia do culto


       Enfim, chegamos ao final da série sobre o Princípio Regulador de Culto. Já expomos todos os elementos de culto e os princípios que devem norteá-los. Por fim, falta apenas falar sobre o dia especial em que o culto deve tomar parte, que é o tema deste post.
           
Devo explicar por que desisti de fazer um post sobre os sacramentos. Ocorre que eu já fiz um, há vários meses, durante uma curta série sobre eclesiologia. Fiquei muito feliz de conferi-lo e perceber que eu não mudei em minha posição sobre o que já expus nele. Ainda que eu tenha me tornado pedobatista nesse período, isso em nada modificaria o que expressei nesse post relativamente antigo. O que eu poderia acrescentar, para torná-lo relevante na série de PRC, não é longo o suficiente para receber um post inteiro, a saber: que os sacramentos devem ser oferecidos e recebidos com reverência e temor, administrados por ministros ordenados, e somente no contexto do culto público. E enfatizaria que o vinho deve ser realmente vinho, não suco de uva. Porém, acredito que os leitores deduziriam essas coisas em face do que já foi exposto e não quero tornar-me redundante ou repetitivo. Sendo assim, prossigo para o assunto que ficou pendente, que é o dia sagrado.
           
Não é por conveniência que a Igreja cultua o Senhor justa e necessariamente em todo domingo. Tudo começou quando Deus, no primeiro versículo do capítulo 2 de Gênesis, declarou que o sétimo dia, no qual ele cessou sua criação, era dia santo. Com isso, Deus decretou que tal dia, em que ele descansou de seu trabalho de criar, deveria basear também o labor humano na criação, que é análogo ao trabalho que Deus fez. Por essa razão, ao revelar suas santas leis a Moisés, disse Deus que os homens deveriam trabalhar por seis dias e descansar no sétimo, porquanto ele mesmo descansou no princípio de tudo. E a isso Deus “coagiu” o homem quando demonstrou a dádiva do maná: que, no sexto dia, os homens recolhessem mais para manter até o sétimo, visto que, no sétimo, não haveria maná. Assim, Deus demonstrou a seriedade da rotina que ele estava ordenando: o dia de descanso era tão sagrado que o dia anterior deveria ser usado com diligência para que nenhuma necessidade de trabalho ficasse pendente para o sábado.

            Porém, quando chegamos ao Novo Testamento, vemos que em lugar algum existe a exortação para a observância do sábado. O fato de Jesus ter guardado o sábado é explicado pela sua sujeição à Lei de Moisés necessária para a perfeição do seu sacrifício. Em lugar disso, vemos repetidas vezes que a Igreja passou a considerar o domingo como dia santo de culto, e não o sábado. No dia em que Jesus ressuscitou, ele encontrou seus discípulos e repartiu entre eles o pão, iniciando a primeira reunião de Igreja dominical. E em Atos, lemos várias vezes que a Igreja se reunia “no primeiro dia da semana”. Evidência disso encontra-se também em 1Coríntios, em que Paulo pede que os irmãos coletem a oferta para Jerusalém nesse dia. Por que no primeiro dia da semana? Provavelmente, porque era esse o dia ordinário da reunião da Igreja em culto solene. A sacralidade desse dia também é demonstrada no princípio de Apocalipse, no qual João diz que teve suas visões “no dia do Senhor”, termo que, segundo a linguagem dos pais apostólicos, significava o domingo.

            É evidente que a ressurreição de Jesus mudou tudo. Em lugar do sábado ser o dia santo, passou a ser o domingo. No entanto, temos de tratar de algumas pontas soltas. Primeiro: como sabemos que o sétimo dia foi abolido para ser instituído o primeiro, e não que ambos coexistem? A questão é legítima, visto que o princípio do pactualismo nos instrui que não podemos descartar uma lei de Deus do Antigo Testamento somente por sua ausência no Novo; só agimos assim se o Novo expressamente ordenar a interrupção, a descontinuidade. E, de fato, isso existe. Lemos em Colossenses 2 que Paulo, referindo-se às leis cerimoniais, diz que foram “encravadas na cruz” e que não devem de forma alguma servir de cárceres da consciência. Dentre essas leis, ele cita expressamente o sábado. E, por fim, explica: essas coisas eram sombras da realidade que viria em Cristo. Embora seja difícil determinar a natureza sincrética e multiforme da heresia dos colossenses, é evidente que alguns elementos do judaísmo estavam incluídos (circuncisão, sábados, festas de lua nova). Temos explicitamente aqui a abolição do sábado. Entretanto, certamente que a abolição refere-se ao sétimo dia da semana, e não à guarda do sábado por completo. Do contrário, teríamos a eliminação de uma lei moral, ordenada dos Dez Mandamentos, o que obscureceria a perfeição da Lei de Deus e tornaria a Bíblia incoerente. O que mudou foi apenas o dia: antes, o sétimo; hoje, o domingo. E podemos aplicar a lei moral de santificar o sábado ao domingo, como lemos que a Igreja fez no tempo dos apóstolos e por toda a sua história.

            Continua a ordem de santificar um dia e trabalhar seis; descontinua qual é esse dia. Por quê? Será que faz diferença ser no domingo, e não no sábado? Hebreus 4 junta as peças. Lá, o autor discorre uma verdadeira “teologia do descanso”. Seria demorado demais expor o texto inteiro, então partirei logo para as conclusões. O autor estabelece a analogia do descanso sabático com a vida eterna e os dias de labor com as obras de justiça que praticamos. Diz ele que, em Cristo, temos o descanso sabático, porque “quem nele descansa, descansa das suas obras”. A rotina semanal que o Senhor estabeleceu é uma imagem da própria jornada cristã rumo à salvação. Fica claro, portanto, por que o descanso no sétimo dia é uma lei cerimonial que deve ser colocada lado a lado com as demais em sua importância e instrução: que, sob ela, contemplamos o Cristo vindouro somente até que ele venha. Os sacrifícios e as abluções serviram de tutores para as consciências, para que  os israelitas compreendessem a natureza de seus pecados e ansiassem pelo Salvador, que efetuaria perdão e purificação. Da mesma forma, o descanso no sétimo dia ilustrava o jugo das consciências cativas à justificação por obras: que passamos longo tempo labutando para então recebermos o descanso. Em outras palavras: que deveriam se submeter às obras da lei até que viesse o Messias; não porque alcançariam salvação por elas, mas simplesmente porque elas o antecediam temporalmente, porque elas apontavam para o futuro. O descanso no sétimo dia é coerente com a justiça da Lei que diz “quem praticar essas leis (seis dias de trabalho) viverá por elas (sétimo dia de descanso).

            Porém, o autor de Hebreus nos diz que Jesus Cristo já conquistou o descanso para nós, e nele podemos enfim descansar das nossas obras. Sua ressurreição no primeiro dia da semana não foi incidental. Pois como alguém poderia receber a paz da salvação, senão porque o nosso eterno sumossacerdote triunfou sobre a morte no dia em que saiu do túmulo? Não devemos nos apegar ao sétimo dia da semana pelo fato de que Deus o santificou na própria criação. Pois, em Cristo, Deus não estava apenas cumprindo a Lei, mas também restaurando a própria criação. “Nele, somos novas criaturas; eis que tudo se fez novo”. “Porque Deus reconciliou consigo todas as coisas em Cristo, tanto as que estão no céu como na terra”. E o que Jesus conquistou para nós é ainda superior ao que Adão perdeu. Se a criação de Deus em Gênesis 1, sem pecado ou erro algum, já era boa, a recriação que ele fez em Jesus Cristo, sua Palavra encarnada, é ainda melhor. O domingo é dia santo porque Jesus ressuscitou nele pelo poder de Deus o Pai. E assim nossas consciências foram libertas do jugo da justiça da Lei, pois o que era sombra e mistério tornou-se realidade clara. Eis o resumo do significado da mudança do sábado para o domingo: antes, trabalhávamos em obras para poder alcançar o descanso da salvação (conforme nossas consciências exigiam, embora isso fosse impossível); agora, recebemos o descanso da salvação no primeiro dia da semana para então trabalharmos em obras de justiça. Isso não lhe soa familiar? Não é exatamente o que o apóstolo Paulo diz na sua famosa passagem: “Pois pela graça sois salvos... não por obras, para que ninguém se glorie... pois somos criados em Jesus Cristo para boas obras”?

            As dúvidas sobre a questão do sábado são recorrentes no meio evangélico. Espero ter esclarecido, ou pelo menos feito uma introdução sintética a esse complexo tópico. Há muito o que dizer e pouco espaço, então sugiro que os leitores procurem material melhor. Apenas quero demonstrar o seguinte: eliminar o mandamento de ter um dia de descanso é antinomia; fazer do sétimo dia o dia de descanso é o mesmo que afirmar que o Messias ainda não veio. Mas, descansar e cultuar no domingo é a atitude de culto coerente com a obra de Cristo. Já ouvi certa vez que é necessário ter um dia de descanso, mas que nós podemos escolher qualquer um que quisermos. Isso seria afirmar que o dia em que Jesus ressuscitou é como qualquer outro e soa blasfemo.

            Segue-se, por conclusão, que ir à Igreja no domingo não é opcional. É um mandamento do Senhor. Por toda a Escritura, Deus chama o seu povo a adorá-lo em culto público, e deixar de atender a esse chamado é pecado (com exceção de emergências, é claro). Se alguém deixa de prestar culto com o povo de Deus no domingo, está por definição idolatrando aquilo que foi preferido: a festa de aniversário, a preguiça, o Faustão, o futebol... Além disso, concluímos também que, pelo princípio da sola scriptura, o domingo é o único dia da semana obrigatório para o culto. É comum que as igrejas façam cultos solenes em outros dias da semana. Muitos puritanos execram isso totalmente, dizendo que é somente no domingo que deve haver culto. Da minha parte, entendo que os outros dias, em casos excepcionais, podem ser usados para culto público, desde que sejam observadas duas condições: que o descanso não esteja incluído, pois violaria o mandamento “trabalharás seis dias”; e que os ministros não atem as consciências dos membros da Igreja com isso. Cultuar no domingo é obrigatório; cultuar em qualquer outro dia que os pastores queiram não é. Isso seria legalismo, acrescentar tradições humanas e elevá-las ao nível das leis de Deus. Assim, jamais devem os ministros repreender os membros que não comparecem a cultos de sábado, segunda-feira e assim por diante. Outro erro que pode acontecer é a realização de cultos durante a semana que mesclem elementos exclusivos de culto público com aqueles de culto particular. Por exemplo: na hora da música, as pessoas podem pular, dançar e brincar, porque “não é o culto de domingo, é apenas outra reunião”; mas, na hora da pregação, deve-se prestar total reverência e ausência de conversas porque “estamos em um culto sério”. Isso mostra uma teologia de culto confusa e prejudica as consciências dos membros.

            Como o domingo pode ser um deleite? Na nossa cultura, pensamos que o fim de semana se dá assim: da sexta-feira à noite até o sábado de madrugada, é tempo de farra e diversão, e o domingo é o dia da preguiça e da lamúria pela segunda-feira iminente. Como cristãos sérios, devemos ser contra-culturais e afirmar que o domingo é o dia da maior alegria da semana, por ser o dia santo para lembrarmos da ressurreição do nosso Senhor. E que sexta-feira e sábado são dias de trabalho sim. Ainda que, naturalmente, tenhamos mais tempo de lazer do que nos outros, o que restar de trabalho deve ser feito nesses dias. Se alguém disser que não consegue descansar no domingo porque tem muitas coisas pra fazer, respondo o seguinte: quem falhou em descansar no domingo antes falhou em trabalhar direito nos outros seis dias. Desde que entendi a doutrina do domingo corretamente, tive de mudar a minha rotina: em vez de usar o sábado só pra diversão, passei a fazer os trabalhos domésticos nesse dia, em vez de deixar para o domingo. E como passei a aproveitar melhor os benefícios desse dia!

Pense na seguinte situação: todos aqueles que nasceram em famílias evangélicas que não tinham a tradição de santificar o domingo passaram várias vezes pelo desconforto de esperar a mãe fazer o almoço depois do culto de manhã. Então, ao meio-dia, ela começava a colocar a panela no forno. E, lá pras 14:30, o almoço era servido. O que a família fazia nesse intervalo? Apenas gemia de fome. O interessante é que a preparação do alimento é um exemplo corriqueiro no Antigo Testamento para se falar do descanso sabático: “Nem acendam fogo nas suas casas nesse dia”. O correto a fazer é preparar o almoço do domingo no sábado à noite e depois esquentar no micro-ondas (sim, nesta época privilegiada em que temos acesso ao micro-ondas!). Sobra muito mais tempo para a família descansar e cultuar o Senhor de maneiras diversas. Esse é um exemplo bem fácil de visualizar, e o mesmo pode ser dito de várias outras coisas que nos atrapalhariam no domingo. Que – para usar outro exemplo – os estudantes esqueçam o vestibular, a monografia ou a apostila de concurso no domingo! Repousem, preocupem-se com o alimento espiritual, não faltem nos cultos. “O Senhor proverá”. Nos outros seis dias, estudem bastante. Você, que se diz tão atarefado que não consegue tempo pra ler a Bíblia; ainda que eu ache isso uma desculpa esfarrapada, no domingo não há desculpa: passe a tarde toda lendo a Bíblia, orando e adorando. Domingo é para isso.

Tudo o que foi dito nesta série sobre o PRC deve ser aplicado no culto de domingo. É o momento mais importante da semana, o único momento em que recebemos uma centelha daquilo que irá durar para sempre: adoração e comunhão com Deus e o povo santo.

The end.

André Duarte