Enfim, chegamos ao final da
série sobre o Princípio Regulador de Culto. Já expomos todos os elementos de
culto e os princípios que devem norteá-los. Por fim, falta apenas falar sobre o
dia especial em que o culto deve tomar parte, que é o tema deste post.
Devo
explicar por que desisti de fazer um post sobre os sacramentos. Ocorre que eu
já fiz um, há vários meses, durante uma curta série sobre eclesiologia. Fiquei
muito feliz de conferi-lo e perceber que eu não mudei em minha posição sobre o
que já expus nele. Ainda que eu tenha me tornado pedobatista nesse período,
isso em nada modificaria o que expressei nesse post relativamente antigo. O que
eu poderia acrescentar, para torná-lo relevante na série de PRC, não é longo o
suficiente para receber um post inteiro, a saber: que os sacramentos devem ser
oferecidos e recebidos com reverência e temor, administrados por ministros
ordenados, e somente no contexto do culto público. E enfatizaria que o vinho
deve ser realmente vinho, não suco de uva. Porém, acredito que os leitores
deduziriam essas coisas em face do que já foi exposto e não quero tornar-me
redundante ou repetitivo. Sendo assim, prossigo para o assunto que ficou
pendente, que é o dia sagrado.
Não é por
conveniência que a Igreja cultua o Senhor justa e necessariamente em todo
domingo. Tudo começou quando Deus, no primeiro versículo do capítulo 2 de
Gênesis, declarou que o sétimo dia, no qual ele cessou sua criação, era dia
santo. Com isso, Deus decretou que tal dia, em que ele descansou de seu
trabalho de criar, deveria basear também o labor humano na criação, que é
análogo ao trabalho que Deus fez. Por essa razão, ao revelar suas santas leis a
Moisés, disse Deus que os homens deveriam trabalhar por seis dias e descansar
no sétimo, porquanto ele mesmo descansou no princípio de tudo. E a isso Deus “coagiu”
o homem quando demonstrou a dádiva do maná: que, no sexto dia, os homens
recolhessem mais para manter até o sétimo, visto que, no sétimo, não haveria
maná. Assim, Deus demonstrou a seriedade da rotina que ele estava ordenando: o
dia de descanso era tão sagrado que o dia anterior deveria ser usado com
diligência para que nenhuma necessidade de trabalho ficasse pendente para o
sábado.
Porém, quando chegamos ao Novo Testamento, vemos que em
lugar algum existe a exortação para a observância do sábado. O fato de Jesus
ter guardado o sábado é explicado pela sua sujeição à Lei de Moisés necessária
para a perfeição do seu sacrifício. Em lugar disso, vemos repetidas vezes que a
Igreja passou a considerar o domingo como dia santo de culto, e não o sábado.
No dia em que Jesus ressuscitou, ele encontrou seus discípulos e repartiu entre
eles o pão, iniciando a primeira reunião de Igreja dominical. E em Atos, lemos
várias vezes que a Igreja se reunia “no primeiro dia da semana”. Evidência
disso encontra-se também em 1Coríntios, em que Paulo pede que os irmãos coletem
a oferta para Jerusalém nesse dia. Por que no primeiro dia da semana?
Provavelmente, porque era esse o dia ordinário da reunião da Igreja em culto
solene. A sacralidade desse dia também é demonstrada no princípio de
Apocalipse, no qual João diz que teve suas visões “no dia do Senhor”, termo
que, segundo a linguagem dos pais apostólicos, significava o domingo.
É evidente que a ressurreição de Jesus mudou tudo. Em
lugar do sábado ser o dia santo, passou a ser o domingo. No entanto, temos de
tratar de algumas pontas soltas. Primeiro: como sabemos que o sétimo dia foi
abolido para ser instituído o primeiro, e não que ambos coexistem? A questão é
legítima, visto que o princípio do pactualismo nos instrui que não podemos
descartar uma lei de Deus do Antigo Testamento somente por sua ausência no
Novo; só agimos assim se o Novo expressamente ordenar a interrupção, a
descontinuidade. E, de fato, isso existe. Lemos em Colossenses 2 que Paulo,
referindo-se às leis cerimoniais, diz que foram “encravadas na cruz” e que não
devem de forma alguma servir de cárceres da consciência. Dentre essas leis, ele
cita expressamente o sábado. E, por fim, explica: essas coisas eram sombras da
realidade que viria em Cristo. Embora seja difícil determinar a natureza
sincrética e multiforme da heresia dos colossenses, é evidente que alguns
elementos do judaísmo estavam incluídos (circuncisão, sábados, festas de lua
nova). Temos explicitamente aqui a abolição do sábado. Entretanto, certamente
que a abolição refere-se ao sétimo dia da semana, e não à guarda do sábado por
completo. Do contrário, teríamos a eliminação de uma lei moral, ordenada dos
Dez Mandamentos, o que obscureceria a perfeição da Lei de Deus e tornaria a
Bíblia incoerente. O que mudou foi apenas o dia: antes, o sétimo; hoje, o
domingo. E podemos aplicar a lei moral de santificar o sábado ao domingo, como
lemos que a Igreja fez no tempo dos apóstolos e por toda a sua história.
Continua a ordem de santificar um dia e trabalhar seis;
descontinua qual é esse dia. Por quê? Será que faz diferença ser no domingo, e
não no sábado? Hebreus 4 junta as peças. Lá, o autor discorre uma verdadeira
“teologia do descanso”. Seria demorado demais expor o texto inteiro, então
partirei logo para as conclusões. O autor estabelece a analogia do descanso
sabático com a vida eterna e os dias de labor com as obras de justiça que
praticamos. Diz ele que, em Cristo, temos o descanso sabático, porque “quem
nele descansa, descansa das suas obras”. A rotina semanal que o Senhor
estabeleceu é uma imagem da própria jornada cristã rumo à salvação. Fica claro,
portanto, por que o descanso no sétimo dia é uma lei cerimonial que deve ser
colocada lado a lado com as demais em sua importância e instrução: que, sob
ela, contemplamos o Cristo vindouro somente até que ele venha. Os sacrifícios e
as abluções serviram de tutores para as consciências, para que os israelitas compreendessem a natureza de
seus pecados e ansiassem pelo Salvador, que efetuaria perdão e purificação. Da
mesma forma, o descanso no sétimo dia ilustrava o jugo das consciências cativas
à justificação por obras: que passamos longo tempo labutando para então
recebermos o descanso. Em outras palavras: que deveriam se submeter às obras da
lei até que viesse o Messias; não porque alcançariam salvação por elas, mas
simplesmente porque elas o antecediam temporalmente, porque elas apontavam para
o futuro. O descanso no sétimo dia é coerente com a justiça da Lei que diz
“quem praticar essas leis (seis dias de trabalho) viverá por elas (sétimo dia
de descanso).
Porém, o autor de Hebreus nos diz que Jesus Cristo já
conquistou o descanso para nós, e nele podemos enfim descansar das nossas
obras. Sua ressurreição no primeiro dia da semana não foi incidental. Pois como
alguém poderia receber a paz da salvação, senão porque o nosso eterno
sumossacerdote triunfou sobre a morte no dia em que saiu do túmulo? Não devemos
nos apegar ao sétimo dia da semana pelo fato de que Deus o santificou na
própria criação. Pois, em Cristo, Deus não estava apenas cumprindo a Lei, mas
também restaurando a própria criação. “Nele, somos novas criaturas; eis que
tudo se fez novo”. “Porque Deus reconciliou consigo todas as coisas em Cristo,
tanto as que estão no céu como na terra”. E o que Jesus conquistou para nós é
ainda superior ao que Adão perdeu. Se a criação de Deus em Gênesis 1, sem
pecado ou erro algum, já era boa, a recriação que ele fez em Jesus Cristo, sua
Palavra encarnada, é ainda melhor. O domingo é dia santo porque Jesus
ressuscitou nele pelo poder de Deus o Pai. E assim nossas consciências foram
libertas do jugo da justiça da Lei, pois o que era sombra e mistério tornou-se
realidade clara. Eis o resumo do significado da mudança do sábado para o
domingo: antes, trabalhávamos em obras para poder alcançar o descanso da
salvação (conforme nossas consciências exigiam, embora isso fosse impossível);
agora, recebemos o descanso da salvação no primeiro dia da semana para então
trabalharmos em obras de justiça. Isso não lhe soa familiar? Não é exatamente o
que o apóstolo Paulo diz na sua famosa passagem: “Pois pela graça sois
salvos... não por obras, para que
ninguém se glorie... pois somos criados em Jesus Cristo para boas obras”?
As dúvidas sobre a questão do sábado são recorrentes no
meio evangélico. Espero ter esclarecido, ou pelo menos feito uma introdução
sintética a esse complexo tópico. Há muito o que dizer e pouco espaço, então
sugiro que os leitores procurem material melhor. Apenas quero demonstrar o
seguinte: eliminar o mandamento de ter um dia de descanso é antinomia; fazer do
sétimo dia o dia de descanso é o mesmo que afirmar que o Messias ainda não
veio. Mas, descansar e cultuar no domingo é a atitude de culto coerente com a
obra de Cristo. Já ouvi certa vez que é necessário ter um dia de descanso, mas
que nós podemos escolher qualquer um que quisermos. Isso seria afirmar que o
dia em que Jesus ressuscitou é como qualquer outro e soa blasfemo.
Segue-se, por conclusão, que ir à Igreja no domingo não é
opcional. É um mandamento do Senhor. Por toda a Escritura, Deus chama o seu
povo a adorá-lo em culto público, e deixar de atender a esse chamado é pecado
(com exceção de emergências, é claro). Se alguém deixa de prestar culto com o
povo de Deus no domingo, está por definição idolatrando aquilo que foi
preferido: a festa de aniversário, a preguiça, o Faustão, o futebol... Além
disso, concluímos também que, pelo princípio da sola scriptura, o domingo é o
único dia da semana obrigatório para o culto. É comum que as igrejas façam
cultos solenes em outros dias da semana. Muitos puritanos execram isso
totalmente, dizendo que é somente no domingo que deve haver culto. Da minha
parte, entendo que os outros dias, em casos excepcionais, podem ser usados para
culto público, desde que sejam observadas duas condições: que o descanso não
esteja incluído, pois violaria o mandamento “trabalharás seis dias”; e que os
ministros não atem as consciências dos membros da Igreja com isso. Cultuar no
domingo é obrigatório; cultuar em qualquer outro dia que os pastores queiram
não é. Isso seria legalismo, acrescentar tradições humanas e elevá-las ao nível
das leis de Deus. Assim, jamais devem os ministros repreender os membros que
não comparecem a cultos de sábado, segunda-feira e assim por diante. Outro erro
que pode acontecer é a realização de cultos durante a semana que mesclem
elementos exclusivos de culto público com aqueles de culto particular. Por
exemplo: na hora da música, as pessoas podem pular, dançar e brincar, porque “não
é o culto de domingo, é apenas outra reunião”; mas, na hora da pregação,
deve-se prestar total reverência e ausência de conversas porque “estamos em um
culto sério”. Isso mostra uma teologia de culto confusa e prejudica as
consciências dos membros.
Como o domingo pode ser um deleite? Na nossa cultura,
pensamos que o fim de semana se dá assim: da sexta-feira à noite até o sábado
de madrugada, é tempo de farra e diversão, e o domingo é o dia da preguiça e da
lamúria pela segunda-feira iminente. Como cristãos sérios, devemos ser contra-culturais
e afirmar que o domingo é o dia da maior alegria da semana, por ser o dia santo
para lembrarmos da ressurreição do nosso Senhor. E que sexta-feira e sábado são
dias de trabalho sim. Ainda que, naturalmente, tenhamos mais tempo de lazer do
que nos outros, o que restar de trabalho deve ser feito nesses dias. Se alguém
disser que não consegue descansar no domingo porque tem muitas coisas pra fazer,
respondo o seguinte: quem falhou em descansar no domingo antes falhou em
trabalhar direito nos outros seis dias. Desde que entendi a doutrina do domingo
corretamente, tive de mudar a minha rotina: em vez de usar o sábado só pra
diversão, passei a fazer os trabalhos domésticos nesse dia, em vez de deixar
para o domingo. E como passei a aproveitar melhor os benefícios desse dia!
Pense na
seguinte situação: todos aqueles que nasceram em famílias evangélicas que não
tinham a tradição de santificar o domingo passaram várias vezes pelo
desconforto de esperar a mãe fazer o almoço depois do culto de manhã. Então, ao
meio-dia, ela começava a colocar a panela no forno. E, lá pras 14:30, o almoço
era servido. O que a família fazia nesse intervalo? Apenas gemia de fome. O
interessante é que a preparação do alimento é um exemplo corriqueiro no Antigo
Testamento para se falar do descanso sabático: “Nem acendam fogo nas suas casas
nesse dia”. O correto a fazer é preparar o almoço do domingo no sábado à noite
e depois esquentar no micro-ondas (sim, nesta época privilegiada em que temos
acesso ao micro-ondas!). Sobra muito mais tempo para a família descansar e
cultuar o Senhor de maneiras diversas. Esse é um exemplo bem fácil de
visualizar, e o mesmo pode ser dito de várias outras coisas que nos
atrapalhariam no domingo. Que – para usar outro exemplo – os estudantes
esqueçam o vestibular, a monografia ou a apostila de concurso no domingo!
Repousem, preocupem-se com o alimento espiritual, não faltem nos cultos. “O
Senhor proverá”. Nos outros seis dias, estudem bastante. Você, que se diz tão
atarefado que não consegue tempo pra ler a Bíblia; ainda que eu ache isso uma
desculpa esfarrapada, no domingo não há desculpa: passe a tarde toda lendo a
Bíblia, orando e adorando. Domingo é para isso.
Tudo o que
foi dito nesta série sobre o PRC deve ser aplicado no culto de domingo. É o
momento mais importante da semana, o único momento em que recebemos uma
centelha daquilo que irá durar para sempre: adoração e comunhão com Deus e o
povo santo.
The end.
André
Duarte

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