domingo, 2 de fevereiro de 2014

PRC 10 – O dia do culto


       Enfim, chegamos ao final da série sobre o Princípio Regulador de Culto. Já expomos todos os elementos de culto e os princípios que devem norteá-los. Por fim, falta apenas falar sobre o dia especial em que o culto deve tomar parte, que é o tema deste post.
           
Devo explicar por que desisti de fazer um post sobre os sacramentos. Ocorre que eu já fiz um, há vários meses, durante uma curta série sobre eclesiologia. Fiquei muito feliz de conferi-lo e perceber que eu não mudei em minha posição sobre o que já expus nele. Ainda que eu tenha me tornado pedobatista nesse período, isso em nada modificaria o que expressei nesse post relativamente antigo. O que eu poderia acrescentar, para torná-lo relevante na série de PRC, não é longo o suficiente para receber um post inteiro, a saber: que os sacramentos devem ser oferecidos e recebidos com reverência e temor, administrados por ministros ordenados, e somente no contexto do culto público. E enfatizaria que o vinho deve ser realmente vinho, não suco de uva. Porém, acredito que os leitores deduziriam essas coisas em face do que já foi exposto e não quero tornar-me redundante ou repetitivo. Sendo assim, prossigo para o assunto que ficou pendente, que é o dia sagrado.
           
Não é por conveniência que a Igreja cultua o Senhor justa e necessariamente em todo domingo. Tudo começou quando Deus, no primeiro versículo do capítulo 2 de Gênesis, declarou que o sétimo dia, no qual ele cessou sua criação, era dia santo. Com isso, Deus decretou que tal dia, em que ele descansou de seu trabalho de criar, deveria basear também o labor humano na criação, que é análogo ao trabalho que Deus fez. Por essa razão, ao revelar suas santas leis a Moisés, disse Deus que os homens deveriam trabalhar por seis dias e descansar no sétimo, porquanto ele mesmo descansou no princípio de tudo. E a isso Deus “coagiu” o homem quando demonstrou a dádiva do maná: que, no sexto dia, os homens recolhessem mais para manter até o sétimo, visto que, no sétimo, não haveria maná. Assim, Deus demonstrou a seriedade da rotina que ele estava ordenando: o dia de descanso era tão sagrado que o dia anterior deveria ser usado com diligência para que nenhuma necessidade de trabalho ficasse pendente para o sábado.

            Porém, quando chegamos ao Novo Testamento, vemos que em lugar algum existe a exortação para a observância do sábado. O fato de Jesus ter guardado o sábado é explicado pela sua sujeição à Lei de Moisés necessária para a perfeição do seu sacrifício. Em lugar disso, vemos repetidas vezes que a Igreja passou a considerar o domingo como dia santo de culto, e não o sábado. No dia em que Jesus ressuscitou, ele encontrou seus discípulos e repartiu entre eles o pão, iniciando a primeira reunião de Igreja dominical. E em Atos, lemos várias vezes que a Igreja se reunia “no primeiro dia da semana”. Evidência disso encontra-se também em 1Coríntios, em que Paulo pede que os irmãos coletem a oferta para Jerusalém nesse dia. Por que no primeiro dia da semana? Provavelmente, porque era esse o dia ordinário da reunião da Igreja em culto solene. A sacralidade desse dia também é demonstrada no princípio de Apocalipse, no qual João diz que teve suas visões “no dia do Senhor”, termo que, segundo a linguagem dos pais apostólicos, significava o domingo.

            É evidente que a ressurreição de Jesus mudou tudo. Em lugar do sábado ser o dia santo, passou a ser o domingo. No entanto, temos de tratar de algumas pontas soltas. Primeiro: como sabemos que o sétimo dia foi abolido para ser instituído o primeiro, e não que ambos coexistem? A questão é legítima, visto que o princípio do pactualismo nos instrui que não podemos descartar uma lei de Deus do Antigo Testamento somente por sua ausência no Novo; só agimos assim se o Novo expressamente ordenar a interrupção, a descontinuidade. E, de fato, isso existe. Lemos em Colossenses 2 que Paulo, referindo-se às leis cerimoniais, diz que foram “encravadas na cruz” e que não devem de forma alguma servir de cárceres da consciência. Dentre essas leis, ele cita expressamente o sábado. E, por fim, explica: essas coisas eram sombras da realidade que viria em Cristo. Embora seja difícil determinar a natureza sincrética e multiforme da heresia dos colossenses, é evidente que alguns elementos do judaísmo estavam incluídos (circuncisão, sábados, festas de lua nova). Temos explicitamente aqui a abolição do sábado. Entretanto, certamente que a abolição refere-se ao sétimo dia da semana, e não à guarda do sábado por completo. Do contrário, teríamos a eliminação de uma lei moral, ordenada dos Dez Mandamentos, o que obscureceria a perfeição da Lei de Deus e tornaria a Bíblia incoerente. O que mudou foi apenas o dia: antes, o sétimo; hoje, o domingo. E podemos aplicar a lei moral de santificar o sábado ao domingo, como lemos que a Igreja fez no tempo dos apóstolos e por toda a sua história.

            Continua a ordem de santificar um dia e trabalhar seis; descontinua qual é esse dia. Por quê? Será que faz diferença ser no domingo, e não no sábado? Hebreus 4 junta as peças. Lá, o autor discorre uma verdadeira “teologia do descanso”. Seria demorado demais expor o texto inteiro, então partirei logo para as conclusões. O autor estabelece a analogia do descanso sabático com a vida eterna e os dias de labor com as obras de justiça que praticamos. Diz ele que, em Cristo, temos o descanso sabático, porque “quem nele descansa, descansa das suas obras”. A rotina semanal que o Senhor estabeleceu é uma imagem da própria jornada cristã rumo à salvação. Fica claro, portanto, por que o descanso no sétimo dia é uma lei cerimonial que deve ser colocada lado a lado com as demais em sua importância e instrução: que, sob ela, contemplamos o Cristo vindouro somente até que ele venha. Os sacrifícios e as abluções serviram de tutores para as consciências, para que  os israelitas compreendessem a natureza de seus pecados e ansiassem pelo Salvador, que efetuaria perdão e purificação. Da mesma forma, o descanso no sétimo dia ilustrava o jugo das consciências cativas à justificação por obras: que passamos longo tempo labutando para então recebermos o descanso. Em outras palavras: que deveriam se submeter às obras da lei até que viesse o Messias; não porque alcançariam salvação por elas, mas simplesmente porque elas o antecediam temporalmente, porque elas apontavam para o futuro. O descanso no sétimo dia é coerente com a justiça da Lei que diz “quem praticar essas leis (seis dias de trabalho) viverá por elas (sétimo dia de descanso).

            Porém, o autor de Hebreus nos diz que Jesus Cristo já conquistou o descanso para nós, e nele podemos enfim descansar das nossas obras. Sua ressurreição no primeiro dia da semana não foi incidental. Pois como alguém poderia receber a paz da salvação, senão porque o nosso eterno sumossacerdote triunfou sobre a morte no dia em que saiu do túmulo? Não devemos nos apegar ao sétimo dia da semana pelo fato de que Deus o santificou na própria criação. Pois, em Cristo, Deus não estava apenas cumprindo a Lei, mas também restaurando a própria criação. “Nele, somos novas criaturas; eis que tudo se fez novo”. “Porque Deus reconciliou consigo todas as coisas em Cristo, tanto as que estão no céu como na terra”. E o que Jesus conquistou para nós é ainda superior ao que Adão perdeu. Se a criação de Deus em Gênesis 1, sem pecado ou erro algum, já era boa, a recriação que ele fez em Jesus Cristo, sua Palavra encarnada, é ainda melhor. O domingo é dia santo porque Jesus ressuscitou nele pelo poder de Deus o Pai. E assim nossas consciências foram libertas do jugo da justiça da Lei, pois o que era sombra e mistério tornou-se realidade clara. Eis o resumo do significado da mudança do sábado para o domingo: antes, trabalhávamos em obras para poder alcançar o descanso da salvação (conforme nossas consciências exigiam, embora isso fosse impossível); agora, recebemos o descanso da salvação no primeiro dia da semana para então trabalharmos em obras de justiça. Isso não lhe soa familiar? Não é exatamente o que o apóstolo Paulo diz na sua famosa passagem: “Pois pela graça sois salvos... não por obras, para que ninguém se glorie... pois somos criados em Jesus Cristo para boas obras”?

            As dúvidas sobre a questão do sábado são recorrentes no meio evangélico. Espero ter esclarecido, ou pelo menos feito uma introdução sintética a esse complexo tópico. Há muito o que dizer e pouco espaço, então sugiro que os leitores procurem material melhor. Apenas quero demonstrar o seguinte: eliminar o mandamento de ter um dia de descanso é antinomia; fazer do sétimo dia o dia de descanso é o mesmo que afirmar que o Messias ainda não veio. Mas, descansar e cultuar no domingo é a atitude de culto coerente com a obra de Cristo. Já ouvi certa vez que é necessário ter um dia de descanso, mas que nós podemos escolher qualquer um que quisermos. Isso seria afirmar que o dia em que Jesus ressuscitou é como qualquer outro e soa blasfemo.

            Segue-se, por conclusão, que ir à Igreja no domingo não é opcional. É um mandamento do Senhor. Por toda a Escritura, Deus chama o seu povo a adorá-lo em culto público, e deixar de atender a esse chamado é pecado (com exceção de emergências, é claro). Se alguém deixa de prestar culto com o povo de Deus no domingo, está por definição idolatrando aquilo que foi preferido: a festa de aniversário, a preguiça, o Faustão, o futebol... Além disso, concluímos também que, pelo princípio da sola scriptura, o domingo é o único dia da semana obrigatório para o culto. É comum que as igrejas façam cultos solenes em outros dias da semana. Muitos puritanos execram isso totalmente, dizendo que é somente no domingo que deve haver culto. Da minha parte, entendo que os outros dias, em casos excepcionais, podem ser usados para culto público, desde que sejam observadas duas condições: que o descanso não esteja incluído, pois violaria o mandamento “trabalharás seis dias”; e que os ministros não atem as consciências dos membros da Igreja com isso. Cultuar no domingo é obrigatório; cultuar em qualquer outro dia que os pastores queiram não é. Isso seria legalismo, acrescentar tradições humanas e elevá-las ao nível das leis de Deus. Assim, jamais devem os ministros repreender os membros que não comparecem a cultos de sábado, segunda-feira e assim por diante. Outro erro que pode acontecer é a realização de cultos durante a semana que mesclem elementos exclusivos de culto público com aqueles de culto particular. Por exemplo: na hora da música, as pessoas podem pular, dançar e brincar, porque “não é o culto de domingo, é apenas outra reunião”; mas, na hora da pregação, deve-se prestar total reverência e ausência de conversas porque “estamos em um culto sério”. Isso mostra uma teologia de culto confusa e prejudica as consciências dos membros.

            Como o domingo pode ser um deleite? Na nossa cultura, pensamos que o fim de semana se dá assim: da sexta-feira à noite até o sábado de madrugada, é tempo de farra e diversão, e o domingo é o dia da preguiça e da lamúria pela segunda-feira iminente. Como cristãos sérios, devemos ser contra-culturais e afirmar que o domingo é o dia da maior alegria da semana, por ser o dia santo para lembrarmos da ressurreição do nosso Senhor. E que sexta-feira e sábado são dias de trabalho sim. Ainda que, naturalmente, tenhamos mais tempo de lazer do que nos outros, o que restar de trabalho deve ser feito nesses dias. Se alguém disser que não consegue descansar no domingo porque tem muitas coisas pra fazer, respondo o seguinte: quem falhou em descansar no domingo antes falhou em trabalhar direito nos outros seis dias. Desde que entendi a doutrina do domingo corretamente, tive de mudar a minha rotina: em vez de usar o sábado só pra diversão, passei a fazer os trabalhos domésticos nesse dia, em vez de deixar para o domingo. E como passei a aproveitar melhor os benefícios desse dia!

Pense na seguinte situação: todos aqueles que nasceram em famílias evangélicas que não tinham a tradição de santificar o domingo passaram várias vezes pelo desconforto de esperar a mãe fazer o almoço depois do culto de manhã. Então, ao meio-dia, ela começava a colocar a panela no forno. E, lá pras 14:30, o almoço era servido. O que a família fazia nesse intervalo? Apenas gemia de fome. O interessante é que a preparação do alimento é um exemplo corriqueiro no Antigo Testamento para se falar do descanso sabático: “Nem acendam fogo nas suas casas nesse dia”. O correto a fazer é preparar o almoço do domingo no sábado à noite e depois esquentar no micro-ondas (sim, nesta época privilegiada em que temos acesso ao micro-ondas!). Sobra muito mais tempo para a família descansar e cultuar o Senhor de maneiras diversas. Esse é um exemplo bem fácil de visualizar, e o mesmo pode ser dito de várias outras coisas que nos atrapalhariam no domingo. Que – para usar outro exemplo – os estudantes esqueçam o vestibular, a monografia ou a apostila de concurso no domingo! Repousem, preocupem-se com o alimento espiritual, não faltem nos cultos. “O Senhor proverá”. Nos outros seis dias, estudem bastante. Você, que se diz tão atarefado que não consegue tempo pra ler a Bíblia; ainda que eu ache isso uma desculpa esfarrapada, no domingo não há desculpa: passe a tarde toda lendo a Bíblia, orando e adorando. Domingo é para isso.

Tudo o que foi dito nesta série sobre o PRC deve ser aplicado no culto de domingo. É o momento mais importante da semana, o único momento em que recebemos uma centelha daquilo que irá durar para sempre: adoração e comunhão com Deus e o povo santo.

The end.

André Duarte

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