Vamos agora falar um pouco do evangelho em Matrix. (O próximo será sobre O Rei Leão.) O post será apenas considerando o primeiro filme. Os outros têm filosofias [calvinistas] complementares bem legais, mas não estão nos meus propósitos no blog. Em primeiro lugar, tive um pouco de dificuldade em identificar quem seria o Morpheus bíblico. Às vezes, ele age como João Batista, preparando o caminho para o Escolhido; em outras, ele age como o Pai, provendo orientação para o Libertador. Mas, o resto do filme é bem claro.
Primeiro, o que é a Matrix? Morpheus explica que é uma ilusão que serve como sistema de controle tanto para escravizar quanto para obscurecer essa escravidão. Matrix é o domínio do pecado. A humanidade é cativa do sistema de rebelião contra a verdade. Como diz João, o mentiroso é quem nega que Jesus é o Cristo (1Jo 2:22). Os humanos trocaram o Deus verdadeiro por suas próprias invenções idólatras e tornaram-se escravos desse sistema. Um escravo jamais pode se libertar sozinho. Ele precisa do pagamento de alguém de fora. É por isso que, no filme, todas as pessoas libertas do sistema só o foram mediante ajuda externa.
Um dos discursos mais cristãos do Morpheus é o que ele faz quando ele e o Neo estão no simulador da moça de vestido vermelho. Morpheus diz que muitas pessoas são tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo. Assim ocorre com os rebeldes contra Deus. Eles não apenas não conseguem adorar o Senhor, eles nem mesmo podem querer isso; eles amam a escravidão do pecado. João diz que “amaram as trevas, e não a luz” (Jo 3:19). A escravidão é, como diz Morpheus, uma “prisão para a sua mente”. Não apenas as ações das pessoas estão condicionadas pelo pecado, mas sim seus pensamentos e suas vontades. Por isso Morpheus diz que “não é possível que alguém ouça e entenda o que é a Matrix; ela precisa ver por si mesma”. Quando Deus se revela no coração de uma pessoa, restaurando o entendimento dela, só então ela compreende a realidade da libertação.
Matrix não é um sistema vencedor. Afinal, o Oráculo profetizou a vinda daquele que destruiria a Matrix, libertaria a humanidade e daria um fim à guerra a que os libertos estão sujeitos. O Oráculo fez o papel dos profetas que anunciaram a salvação no Messias que daria fim ao pecado, à injustiça e ao jugo. Chama a atenção a forma como o Morpheus descreve a missão do Escolhido e daqueles que já foram libertos com relação aos ainda escravos: “As mesmas pessoas que estamos tentando salvar são nossas inimigas até que as salvemos”. Temos de reconhecer que nossa aliança está com Deus e sua Igreja e não tomamos parte em um jugo desigual com descrentes. Entretanto, são os descrentes que tentamos libertar. Nossa missão continua a missão do Messias que libertou os primeiros discípulos.
Quanto aos agentes, poderíamos compará-los a Satanás. Como diz o Morpheus, qualquer pessoa é um agente em potencial. Qualquer pessoa sob a escravidão do pecado é um porta-voz de Satanás e um instrumento para atacar a Igreja. Quando Pedro tentou impedir Jesus de seguir o caminho da cruz, Cristo repreendeu Satanás, que estava manifestando sua vontade nas palavras de Pedro. Falsos mestres que tentam destruir a sã doutrina na Igreja são também agentes do diabo. O programa de cada agente, como Smith, é um programa específico, como Satanás é uma personalidade específica, mas a manifestação deles é impessoal, pois pode se dar através de qualquer pessoa escravizada. Nenhum liberto pode derrotar os agentes, a não ser pelo Escolhido. Neo é o único que tem poder para destruir os agentes que protegem a Matrix. Quando o agentes do sistema forem destruídos, o sistema ruirá. Jesus também foi eleito por Deus para “desfazer as obras do diabo” (1Jo 3:8) e “converter as pessoas do poder de Satanás para Deus” (At 26:18). A vitória de Jesus sobre Satanás só foi possível através de sua morte – assim como Neo também precisou morrer para ressuscitar com os poderes do Escolhido e destruir Smith. Em sua morte, Jesus venceu o poder do diabo (Hb 2:14,15) – “Ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte”. Jesus, em sua ressurreição, sentou-se à direita do Pai para esmagar os seus inimigos (Sl 110:1).
Neo pôde vencer Smith porque, de acordo com o Morpheus, “a velocidade e a força deles estão baseadas em um mundo feito de regras; por isso, nunca poderão ser tão rápidos e fortes quanto você”. Satanás tem um domínio limitado, pois ele precisa jogar de acordo com os limites intrínsecos de sua natureza – afinal, ele é apenas criatura, e o verdadeiro poder é o de Deus. E o poder de Deus é ilimitado, pois o Senhor é onipotente e infinito. O diabo jamais poderia vencer Deus – e também não poderia vencer Jesus, o Eleito, pois Jesus, ao ressuscitar, obteve de volta todos os seus poderes divinos que havia posto de lado. Jesus, sendo Deus e reinando sobre o mundo, é vencedor sobre Satanás, pois sua divindade não tem limites. O reino do Messias é supremo e jamais terá fim, como disse Daniel.
Será apenas coincidência que a cidade livre do filme se chama Zion, que é Sião? O monte Sião é o monte do templo, é o pico alto onde está a cidade de Jerusalém. E, em toda a Bíblia, Sião é um símbolo da plenitude do reino divino em seus adoradores. Lemos em Hebreus 12:22 que chegamos ao monte Sião, a cidade dos milhares de anjos e da Igreja redimida, a Nova Jerusalém do Apocalipse, a Noiva do Cordeiro. Sião é a cidade dos libertos no filme e na Bíblia. Entretanto, vemos no filme que a libertação ainda é um ponto que está no meio de extremos. Aqueles que foram libertos da Matrix ainda precisam lutar contra as máquinas, que detêm o poder sobre o sistema. O Escolhido não apenas deve libertar pessoas e destruir o sistema, mas deve também destruir as máquinas para dar fim à guerra. Assim é a vida cristã, o período do “já/ainda não”. Já fomos libertos do pecado, mas ainda não somos glorificados. Já fomos salvos do mundo, mas ainda não retirados do mundo. Essa tensão é perigosa para aqueles cuja mente ainda se apega ao sistema antigo. Se Cypher tivesse lido a carta aos hebreus, talvez não tivesse apostatado. Cypher é um exemplo de crente de Hebreus 6 – um que provou todos os benefícios da verdade e da liberdade do sistema, mas ainda é mentalmente escravo dele. Ele se deixou levar pelos prazeres efêmeros da Matrix – o conforto, os bons restaurantes, o entretenimento, o dinheiro. A realidade de Sião é de pessoas pobres, vestidas em trapos, alimentando-se de complexos de nutrientes sem sabor. Nem todas as mentes estão preparadas para isso. A vida cristã é apartada dos prazeres pecaminosos do mundo e deve resistir à sedução através do amor à verdade. Somos peregrinos neste mundo de Matrix. Nossa cidadania está em Sião.
Mas a Sião miserável do presente ainda tem “Cristo em nós, a esperança da glória” (Cl 1:27, Rm 8). Quando o nosso Messias vier em poder, destruirá as máquinas e os agentes, estabelecerá a completa paz e glorificará a sua Igreja. Então seremos a Jerusalém dourada e habitaremos no Éden novamente. As coisas antigas terão passado e tudo será renovado.
André Duarte
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