Não, você não leu errado. É esse mesmo um problema do
qual a Igreja deve tratar. Claro que o ideal é que o título fosse ao contrário,
e é justamente essa a proposta deste artigo. Mas a realidade é bem diferente. E
ela não é nova. A Igreja sempre concentrou seus esforços em reprimir práticas
sexuais que julgasse contrárias às normas de Deus. Nossos pais e avós também
aprenderam assim. Essa postura da Igreja focada na repressão sexual é mesmo
certa?
Estou
consciente de que serei mal compreendido. A legalidade do sexo é um ponto de
paranoia pra muita gente. E é natural que um discurso de evangelho seja
interpretado por legalistas como um incentivo à antinomia. Leitores
preconceituosos podem achar que eu proponho um relaxamento moral completo. Mas
não é isso. Não pretendo questionar aqui quais proibições da Igreja estão
certas e quais estão erradas. Quero apenas mostrar que legislar/administrar/julgar
moralidade sexual não é o objetivo principal da Igreja.
Retoricamente,
acho que todo mundo concorda com isso – claro, com milhares de ressalvas, falta
de fôlego e taquicardia. Mas por que isso não é vivido? Todo mundo sabe que os
pecados sexuais são tratados, na prática, como os piores pecados. Se um marido
trai sua esposa, ou vice-versa, é aquele escândalo, com o pastor disciplinando
e tudo mais. Se uma adolescente engravida, vira a pessoa mais pecadora da
Igreja, não raras vezes tendo de pedir desculpas publicamente. E o adolescente
ou jovem que é flagrado numa boate, ou apenas ficando? Está obviamente
desviado, não? Bem, a grande dúvida é: por que a Igreja não trata todos os
pecados com a mesma rigidez com que trata os pecados sexuais? Por que dizer uma
mentira é um pecadinho normal e corriqueiro e fazer sexo fora do casamento é a
coisa mais horrível do mundo? Por que uma desavença não resolvida entre irmãos
pode passar batida, mas uma ficada diminui vários pontos de santidade?
Para
além dos tratamentos, vamos pensar nos ensinos. Quais são as doutrinas mais
importantes para jovens e adolescentes saberem? Todas estão, de alguma forma,
relacionadas com sexo. Não estou falando nada de estranho, todo mundo sabe que
é assim. Passamos muito mais tempo aprendendo a não ir pra boate, não ficar,
não fazer sexo antes do casamento, não namorar descrente, e ainda um monte de
conselhos práticos para não cair nesses pecados tão mais tentadores do que
todos os outros, do que estudando textos bíblicos e suas aplicações além de
regras sexuais. Isso é um reducionismo risível das necessidades individuais e
da potência criativa da carne. Quase não ensinamos sobre todo o fruto da carne:
ódio, inveja, idolatria, dissenções, facções, ganância, orgulho. Erroneamente
pensamos que esses pecados menos notórios são mais facilmente resistidos do que
os pecados sexuais. A verdade é que o espírito humano é corrompido para
qualquer possibilidade de pecado. A pulsão da carne corre para qualquer prática
contrária aos mandamentos de Deus. Além disso, o maior aspecto do pecado para
ser tratado não é no nível de suas manifestações sensíveis, e sim no nível da
raiz, a falsa idolatria e necessidade de justificação própria. O evangelho é o
remédio para a pecaminosidade humana desde a sua gênese. Jesus e seus apóstolos
não vieram ensinar uma boa moral adicionada a uma fé abstrata, mas sim uma
verdade que, do começo ao fim, é pela fé, e é eficaz contra quaisquer pulsões
carnais.
Recentemente,
tem havido correntes informais sendo veiculadas com mensagens heréticas,
insinuando que, para um casamento de sucesso, basta casar virgem. Ou que, pelo
menos, isso é o mais importante e fundamental. Por essa razão, os jovens
crentes acabam casando precipitadamente, apenas para poder fazer sexo logo. Não
que a idade seja um parâmetro absoluto e universal, mas, será que a licença para
fazer sexo é o propósito prioritário do casamento? Da maneira como a Igreja
geralmente dá a entender, sim. Acontece que, biblicamente, o casamento é
ensinado do começo ao fim das Escrituras como um espelho do casamento de Deus
com o seu povo. Por isso os profetas tanto comparam idolatria com adultério.
Por isso há tantas metáforas (ex: Ezequiel 16) que comparam o pacto de Deus com
seus filhos com um casamento comum entre homem e mulher. Paulo explica muito
bem que o marido e a mulher devem se relacionar como Jesus se relaciona com a
Igreja. Isso sim é aplicar o evangelho na vida prática! Mas, é esse o ensino
prioritário que damos a adolescentes que namoram ou jovens que vão se casar?
Infelizmente, muitos pares confiam apenas em sua virgindade e se apressam a
casar sem nada compreender sobre o casamento de Jesus com a Igreja. E, por essa
falta de ensino, ocorrem os divórcios depois. O divórcio é tão comum entre
crentes quanto entre descrentes, e isso é assustador. Pois os crentes têm o
conhecimento de Cristo e a Igreja, bem como o auxílio do Espírito. Mas, pelo
descaso com essa doutrina fundamental do casamento e pela idolatria à
virgindade, tudo dá errado.
É claro que a Igreja deve
ensinar sobre as doutrinas do sexo e da castidade. Mas não por meio de repressão.
Não é novidade o fato de que, quanto mais intensa a proibição, maior a vontade
de transgredir. É o que ensina Romanos 7. Declarar vez após vezes todas as coisas
que são erradas e ordenar a não fazê-las é apenas um banquete para a pulsão
legalista do coração. Se uma Igreja quer ensinar os seus membros a serem puros,
devem fazê-lo a partir do evangelho. Isso não induz a uma mesmice, pois o
evangelho tem infinitas implicações e aplicações devido aos seus fundamentos
eternos. E ele deve ser a base de qualquer ensino prático.
Mas, o que acontece é que a
Igreja tem buscado a sua significância e relevância perante o mundo por meio de
um espírito repressivo quanto a algumas coisas selecionadas que o mundo induz. Essas
coisas mudam de geração em geração. Raramente ouvimos que é pecado ir ao cinema
ou jogar futebol, mas isso era comum há uns 50 anos. Ironicamente, ao tentar
rechaçar certas coisas com aparência de mundanismo, a Igreja se amolda a ele –
pois, à medida que o mundo muda em suas especificidades, a Igreja também
precisa mudar para contrariá-lo nessa precisão. Essa dinâmica continua, e o
eterno evangelho é deixado de lado. A Igreja não precisa se refazer vez após
vez para combater o mundanismo. Ela precisa simplesmente permanecer no
evangelho, que é relevante e anti-mundano em todas as eras. Se uma Igreja pensa
que que é necessário reprimir com mais força algumas práticas tipificadoras de
mundanismo, ela já esqueceu o evangelho, cuja imensidão é suficiente para
derrotar todo tipo de manifestação mundana através da justificação pela fé.
André Duarte

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