terça-feira, 26 de março de 2013

A Páscoa


         
             O feriado do Natal, embora seja essencialmente religioso, tem sua repercussão secular em todo o Ocidente. Para essa ocasião, fiz 5 posts. Já o feriado da Páscoa, embora cause menos comoção cultural, é igualmente importante para a religião. Mas, devido à extensão textual que a Bíblia dedica aos acontecimentos que duram de quinta-feira até o domingo, é impraticável fazer posts para cada um deles. Este post é, então, um resumo do que ocorreu e seu significado para a fé cristã.

            A Páscoa celebra tanto a morte como a ressurreição de Jesus. Sua morte ocorreu na sexta-feira à tarde, e sua ressurreição deu-se na madrugada do domingo. Mas a situação que o levou a morrer, na verdade, teve início desde o domingo anterior, quando Jesus chegou em Jerusalém montando num jumento, sendo saudado pela mesma multidão que, na semana seguinte, pediu sua execução. Desde esse domingo, Jesus enfrentou a maior série de combates aos falsos religiosos. Chamou a atenção ao expulsar os feirantes do templo, que abusavam financeiramente dos gentios que buscavam adorar o Senhor e que eram fascinados pelo dinheiro do mercado de animais para sacrifício. Em seguida, derrotou fariseus, saduceus, rabinos e herodianos nas perguntas maliciosas deles. Derrotou inclusive o seu próprio traidor, Judas, quando este se indignou pelo perfume derramado sobre o Senhor. Nessa ocasião, Judas finalmente percebeu que Jesus não era o Messias que ele pensava que fosse. Sua frustração foi consumada, e sua amizade foi transformada em ódio. Não que tenha acontecido tudo de repente. Mas o perfume “desperdiçado” foi a gota d’água. Cheio de más intenções, Judas combinou o local e a hora perfeitos para entregar Jesus às escondidas às autoridades. E, para isso, aceitou suborno.

          Jesus sabia de tudo isso. Ele sempre soube quem seria o traidor, sempre soube que seria abandonado por seus amigos. Ele nunca foi surpreendido e nunca tentou fugir de sua missão. Sua obediência à vontade do Pai e seu imenso amor pela humanidade eram maiores que seu medo e suas tentações pessoais. Na quinta-feira, Jesus celebra a refeição da Páscoa com seus discípulos. O centro dessa celebração era o cordeiro, o qual relembrava os cordeiros do êxodo. Na instituição da Páscoa, Deus ordenou que as famílias matassem e comessem um cordeiro macho e sem defeito e lambuzassem as laterais de suas portas com o seu sangue. Esse sangue desviaria o anjo destruidor de Deus, garantindo assim a salvação do povo israelita. Isso libertaria Israel da escravidão do Egito. E em todos os anos, pelos séculos seguintes, essa refeição foi celebrada pela nação em memória do êxodo. Mas, quando Jesus a comeu com seus discípulos, essa foi a última das páscoas da velha ordem. Pois ele mesmo estava cumprindo a prefiguração da Páscoa. Ela não apontava apenas para o passado no Egito, mas também para o futuro em Cristo. É por isso que os cristãos celebram também a Páscoa. Jesus Cristo é o verdadeiro cordeiro de Deus, macho e sem defeito, que morreu em lugar dos outros. Por sua morte, seu sangue derramado, a ira destruidora de Deus contra o pecado é desviada da humanidade e transferida para ele, embora fosse um homem perfeito. E essa é a única maneira pela qual o povo de Deus é liberto da escravidão ao pecado.

            Nessa ceia, Jesus sabia de todas essas coisas, mas ainda não explica isso aos seus amigos. Eles nunca iriam engolir a história de que Jesus teria de morrer, até que chegasse o momento. Mas, Jesus já inova a ceia ordenando aos discípulos uma nova maneira de guardá-la. Deveriam comer o pão, que simboliza o corpo de Cristo entregue por nós, e beber o vinho, que alude ao seu sangue derramado, o sangue de uma nova aliança. Os discípulos e toda a Igreja, a partir de então, devem lembrar do sacrifício do Senhor por meio desses elementos. A atenção é desviada para o pão e o vinho enquanto o cordeiro perde o seu espaço. Isso porque não seria mais necessário matar um cordeiro – o último e definitivo Cordeiro já estava para morrer.

            Além de instituir a ceia eclesiástica, Jesus também deu orientações últimas a seus discípulos. Como um amigo compassivo, Jesus insiste com eles que ele terá de morrer (embora eles não aceitassem isso) e deixá-los sozinhos por um breve tempo. E, mesmo depois de ressuscitar em glória, Jesus voltaria para o Pai, mas, mesmo assim, continuaria para sempre com eles, por meio do Espírito Santo que enviaria. Não deveriam os discípulos ficar tristes pela ida de Cristo, pois o seu Espírito continuaria com eles, e o próprio Jesus voltaria um dia para reinar plenamente da terra. Além disso, Jesus ensina seus discípulos, por meio do ato de lavar os pés, a essência do espírito de um seguidor do Caminho: um representante do Senhor, mas, mesmo assim, um humilde escravo. E, por fim, Jesus ora pela sua Igreja. Ele pede, a começar pelos Onze, que todos aqueles que viessem a crer nele permanecessem em união e santidade tal qual ele, o Filho, é um com o Pai. Aprendemos, assim, que a união em amor, verdade e pureza da Igreja deve ser um reflexo do ser triúno de Deus.

            Saindo da casa onde cearam, vão todos para o jardim do Getsêmani – exceto Judas, que já havia saído para pôr em prática o seu crime. No jardim, Jesus se angustia muito devido à iminência do que haveria de enfrentar. Nenhum homem jamais enfrentou tamanha dor, tamanha ansiedade e agonia. Jesus estava prestes a sofrer toda a concentração da ira de Deus devida aos pecados de toda a humanidade. E mais, ele estaria para se separar de Deus – o Deus Filho sendo rejeitado pelo Deus Pai, como uma cisão na Trindade. Totalmente humano em sua tristeza, ele ora para que o Pai afaste dele esse cálice de ira e, totalmente maravilhoso, reitera que está pronto para cumprir a vontade do Pai, seja ela qual for. Nessas horas de suspense, ele está totalmente sozinho, pois os discípulos nada fazem a não ser dormir, até que chegou Judas e vários guardas armados para prender Jesus. Sem resistência alguma, o Senhor se entrega aos seus captores, enquanto todos os seus discípulos fogem.

            O julgamento feito pelo Sinédrio foi totalmente ilegal e irregular. Reuniram-se de noite, na casa do sumossacerdote, sem nenhum defensor para Jesus e com nada mais que testemunhas falsas. Jesus mantém-se em silêncio. Ele poderia facilmente se livrar, como mesmo Paulo fez mais tarde. Mas a única coisa que Jesus diz é que ele, de fato, é o Cristo. E, como Cristo, é ele quem voltaria para julgar o mundo, como disse Daniel, embora fosse réu naquele momento. O Sinédrio o acusou de blasfêmia, maltratou-o e o entregou a Pilatos, para que ele fosse condenado à morte. Mais falsos testemunhos foram apresentados. Temerário por sua posição, Pilatos deixou que Jesus fosse condenado à crucificação. Todos se voltaram contra ele. Jesus foi esmurrado, zombado, cuspido, rasgado por uma coroa de espinhos – o mesmo Deus que estava criando o mundo no princípio!

Jesus se submeteu à mais alta prova de obediência por amor aos caídos. Levando sua cruz até o Calvário, lá foi crucificado entre ladrões. Em total humilhação e escárnio, Jesus amou os perdidos. Do alto da cruz, ele clamou para que Deus perdoasse a multidão soberba e enfurecida. Sua petição continua sendo feita eternamente no santuário do céu, onde Jesus atua como sumossacerdote intercedendo pelos seus. Dali a mais um tempo, Jesus clamou o salmo 22 – “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Este é o único momento em toda a história em que Jesus referiu-se a Deus assim, não o chamando de Pai. Jesus perdeu até mesmo sua condição de filho naquele momento, para que fosse nossa. Não muito tempo depois, ele morreu. O Cordeiro de Deus foi morto e o véu do templo foi rasgado. Pela sua morte, o povo de Deus foi perdoado de seus pecados. Mais do que isso, nós recebemos todos os méritos de Cristo, e fomos declarados justos pela justiça dele. Jesus é o nosso substituto na morte e na justiça. A dívida foi paga e o poder do pecado foi extirpado. Mas isso não é tudo.

Se Jesus tivesse apenas morrido, a morte ainda teria o poder. Como diz Paulo em 1Coríntios 15, se Jesus não ressuscitou, nossa fé é inútil, ainda estamos em nossos pecados e somos os mais miseráveis. Mas a ressurreição de Cristo selou o seu triunfo sobre a morte. Nunca o Filho de Deus, a Verdade e a Vida, poderia ser derrotado pela morte. Jesus Cristo venceu a morte e ressurgiu dos mortos. E não foi uma ressurreição para depois morrer de novo, como foi o caso de Lázaro e tantos outros. Jesus ressuscitou como o homem glorificado, à semelhança de quem nós também seremos quando ressuscitarmos. Por causa da ressurreição dele é que nós temos a esperança da vida eterna e da ressurreição. Sua ressurreição é também o poder para o nosso novo nascimento, nossa nova vida em santidade e adoração a Deus. A morte e a ressurreição de Cristo são igualmente importantes; na verdade, elas são inseparáveis. Na cruz de Cristo, nós morremos para o mundo; em seu retorno dos mortos, nós vivemos para Deus. Todos conspiraram contra o nosso Senhor, mas ele esteve no controle de tudo e venceu o mundo. Herodes não pôde matá-lo, os fariseus não puderam incriminá-lo, Pilatos não pôde culpá-lo, a cruz não o destruiu, a morte não o conquistou e o túmulo não o deteve! Em total humildade e verdade, submisso a Deus e movido por amor, Jesus Cristo foi vitorioso por nós, e nele somos também vencedores. Não há mais medo da Lei, pois Jesus é a nossa justiça. Não há mais medo da morte, pois Cristo é a nossa vida. Não há solidão, pois o seu Espírito é conosco. Nada há que possa desfazer o que Jesus fez. Sua vitória é definitiva e irrevogável. Seu novo pacto é perpétuo e indestrutível. Não há força alguma, nem vontade alguma, nem plano algum que possa apagar o amor de Deus por nós, o amor que Deus provou através do seu Filho Jesus Cristo, o verdadeiro Rei e o Salvador do mundo.

André Duarte

Nenhum comentário:

Postar um comentário