O feriado do Natal, embora
seja essencialmente religioso, tem sua repercussão secular em todo o Ocidente.
Para essa ocasião, fiz 5 posts. Já o feriado da Páscoa, embora cause menos
comoção cultural, é igualmente importante para a religião. Mas, devido à
extensão textual que a Bíblia dedica aos acontecimentos que duram de
quinta-feira até o domingo, é impraticável fazer posts para cada um deles. Este
post é, então, um resumo do que ocorreu e seu significado para a fé cristã.
A Páscoa celebra tanto a morte como a ressurreição de Jesus.
Sua morte ocorreu na sexta-feira à tarde, e sua ressurreição deu-se na
madrugada do domingo. Mas a situação que o levou a morrer, na verdade, teve
início desde o domingo anterior, quando Jesus chegou em Jerusalém montando num
jumento, sendo saudado pela mesma multidão que, na semana seguinte, pediu sua
execução. Desde esse domingo, Jesus enfrentou a maior série de combates aos
falsos religiosos. Chamou a atenção ao expulsar os feirantes do templo, que
abusavam financeiramente dos gentios que buscavam adorar o Senhor e que eram
fascinados pelo dinheiro do mercado de animais para sacrifício. Em seguida,
derrotou fariseus, saduceus, rabinos e herodianos nas perguntas maliciosas
deles. Derrotou inclusive o seu próprio traidor, Judas, quando este se indignou
pelo perfume derramado sobre o Senhor. Nessa ocasião, Judas finalmente percebeu
que Jesus não era o Messias que ele pensava que fosse. Sua frustração foi
consumada, e sua amizade foi transformada em ódio. Não que tenha acontecido
tudo de repente. Mas o perfume “desperdiçado” foi a gota d’água. Cheio de más
intenções, Judas combinou o local e a hora perfeitos para entregar Jesus às
escondidas às autoridades. E, para isso, aceitou suborno.
Jesus sabia de tudo isso. Ele sempre soube quem seria o
traidor, sempre soube que seria abandonado por seus amigos. Ele nunca foi
surpreendido e nunca tentou fugir de sua missão. Sua obediência à vontade do
Pai e seu imenso amor pela humanidade eram maiores que seu medo e suas
tentações pessoais. Na quinta-feira, Jesus celebra a refeição da Páscoa com
seus discípulos. O centro dessa celebração era o cordeiro, o qual relembrava os
cordeiros do êxodo. Na instituição da Páscoa, Deus ordenou que as famílias
matassem e comessem um cordeiro macho e sem defeito e lambuzassem as laterais
de suas portas com o seu sangue. Esse sangue desviaria o anjo destruidor de
Deus, garantindo assim a salvação do povo israelita. Isso libertaria Israel da
escravidão do Egito. E em todos os anos, pelos séculos seguintes, essa refeição
foi celebrada pela nação em memória do êxodo. Mas, quando Jesus a comeu com
seus discípulos, essa foi a última das páscoas da velha ordem. Pois ele mesmo
estava cumprindo a prefiguração da Páscoa. Ela não apontava apenas para o
passado no Egito, mas também para o futuro em Cristo. É por isso que os
cristãos celebram também a Páscoa. Jesus Cristo é o verdadeiro cordeiro de Deus,
macho e sem defeito, que morreu em lugar dos outros. Por sua morte, seu sangue
derramado, a ira destruidora de Deus contra o pecado é desviada da humanidade e
transferida para ele, embora fosse um homem perfeito. E essa é a única maneira
pela qual o povo de Deus é liberto da escravidão ao pecado.
Nessa ceia, Jesus sabia de todas essas coisas, mas ainda
não explica isso aos seus amigos. Eles nunca iriam engolir a história de que
Jesus teria de morrer, até que chegasse o momento. Mas, Jesus já inova a ceia
ordenando aos discípulos uma nova maneira de guardá-la. Deveriam comer o pão,
que simboliza o corpo de Cristo entregue por nós, e beber o vinho, que alude ao
seu sangue derramado, o sangue de uma nova aliança. Os discípulos e toda a
Igreja, a partir de então, devem lembrar do sacrifício do Senhor por meio
desses elementos. A atenção é desviada para o pão e o vinho enquanto o cordeiro
perde o seu espaço. Isso porque não seria mais necessário matar um cordeiro – o
último e definitivo Cordeiro já estava para morrer.
Além de instituir a ceia eclesiástica, Jesus também deu
orientações últimas a seus discípulos. Como um amigo compassivo, Jesus insiste
com eles que ele terá de morrer (embora eles não aceitassem isso) e deixá-los
sozinhos por um breve tempo. E, mesmo depois de ressuscitar em glória, Jesus voltaria
para o Pai, mas, mesmo assim, continuaria para sempre com eles, por meio do
Espírito Santo que enviaria. Não deveriam os discípulos ficar tristes pela ida
de Cristo, pois o seu Espírito continuaria com eles, e o próprio Jesus voltaria
um dia para reinar plenamente da terra. Além disso, Jesus ensina seus
discípulos, por meio do ato de lavar os pés, a essência do espírito de um
seguidor do Caminho: um representante do Senhor, mas, mesmo assim, um humilde
escravo. E, por fim, Jesus ora pela sua Igreja. Ele pede, a começar pelos Onze,
que todos aqueles que viessem a crer nele permanecessem em união e santidade
tal qual ele, o Filho, é um com o Pai. Aprendemos, assim, que a união em amor,
verdade e pureza da Igreja deve ser um reflexo do ser triúno de Deus.
Saindo da casa onde cearam, vão todos para o jardim do
Getsêmani – exceto Judas, que já havia saído para pôr em prática o seu crime.
No jardim, Jesus se angustia muito devido à iminência do que haveria de
enfrentar. Nenhum homem jamais enfrentou tamanha dor, tamanha ansiedade e agonia.
Jesus estava prestes a sofrer toda a concentração da ira de Deus devida aos
pecados de toda a humanidade. E mais, ele estaria para se separar de Deus – o Deus
Filho sendo rejeitado pelo Deus Pai, como uma cisão na Trindade. Totalmente
humano em sua tristeza, ele ora para que o Pai afaste dele esse cálice de ira
e, totalmente maravilhoso, reitera que está pronto para cumprir a vontade do
Pai, seja ela qual for. Nessas horas de suspense, ele está totalmente sozinho,
pois os discípulos nada fazem a não ser dormir, até que chegou Judas e vários
guardas armados para prender Jesus. Sem resistência alguma, o Senhor se entrega
aos seus captores, enquanto todos os seus discípulos fogem.
O julgamento feito pelo Sinédrio foi totalmente ilegal e
irregular. Reuniram-se de noite, na casa do sumossacerdote, sem nenhum defensor
para Jesus e com nada mais que testemunhas falsas. Jesus mantém-se em silêncio.
Ele poderia facilmente se livrar, como mesmo Paulo fez mais tarde. Mas a única
coisa que Jesus diz é que ele, de fato, é o Cristo. E, como Cristo, é ele quem
voltaria para julgar o mundo, como disse Daniel, embora fosse réu naquele
momento. O Sinédrio o acusou de blasfêmia, maltratou-o e o entregou a Pilatos,
para que ele fosse condenado à morte. Mais falsos testemunhos foram
apresentados. Temerário por sua posição, Pilatos deixou que Jesus fosse
condenado à crucificação. Todos se voltaram contra ele. Jesus foi esmurrado,
zombado, cuspido, rasgado por uma coroa de espinhos – o mesmo Deus que estava
criando o mundo no princípio!
Jesus se
submeteu à mais alta prova de obediência por amor aos caídos. Levando sua cruz
até o Calvário, lá foi crucificado entre ladrões. Em total humilhação e
escárnio, Jesus amou os perdidos. Do alto da cruz, ele clamou para que Deus
perdoasse a multidão soberba e enfurecida. Sua petição continua sendo feita eternamente
no santuário do céu, onde Jesus atua como sumossacerdote intercedendo pelos
seus. Dali a mais um tempo, Jesus clamou o salmo 22 – “Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?”. Este é o único momento em toda a história em que Jesus
referiu-se a Deus assim, não o chamando de Pai. Jesus perdeu até mesmo sua
condição de filho naquele momento, para que fosse nossa. Não muito tempo
depois, ele morreu. O Cordeiro de Deus foi morto e o véu do templo foi rasgado.
Pela sua morte, o povo de Deus foi perdoado de seus pecados. Mais do que isso,
nós recebemos todos os méritos de Cristo, e fomos declarados justos pela
justiça dele. Jesus é o nosso substituto na morte e na justiça. A dívida foi
paga e o poder do pecado foi extirpado. Mas isso não é tudo.
Se Jesus
tivesse apenas morrido, a morte ainda teria o poder. Como diz Paulo em
1Coríntios 15, se Jesus não ressuscitou, nossa fé é inútil, ainda estamos em
nossos pecados e somos os mais miseráveis. Mas a ressurreição de Cristo selou o
seu triunfo sobre a morte. Nunca o Filho de Deus, a Verdade e a Vida, poderia
ser derrotado pela morte. Jesus Cristo venceu a morte e ressurgiu dos mortos. E
não foi uma ressurreição para depois morrer de novo, como foi o caso de Lázaro
e tantos outros. Jesus ressuscitou como o homem glorificado, à semelhança de
quem nós também seremos quando ressuscitarmos. Por causa da ressurreição dele é
que nós temos a esperança da vida eterna e da ressurreição. Sua ressurreição é
também o poder para o nosso novo nascimento, nossa nova vida em santidade e
adoração a Deus. A morte e a ressurreição de Cristo são igualmente importantes;
na verdade, elas são inseparáveis. Na cruz de Cristo, nós morremos para o mundo;
em seu retorno dos mortos, nós vivemos para Deus. Todos conspiraram contra o
nosso Senhor, mas ele esteve no controle de tudo e venceu o mundo. Herodes não
pôde matá-lo, os fariseus não puderam incriminá-lo, Pilatos não pôde culpá-lo,
a cruz não o destruiu, a morte não o conquistou e o túmulo não o deteve! Em
total humildade e verdade, submisso a Deus e movido por amor, Jesus Cristo foi
vitorioso por nós, e nele somos também vencedores. Não há mais medo da Lei,
pois Jesus é a nossa justiça. Não há mais medo da morte, pois Cristo é a nossa
vida. Não há solidão, pois o seu Espírito é conosco. Nada há que possa desfazer
o que Jesus fez. Sua vitória é definitiva e irrevogável. Seu novo pacto é
perpétuo e indestrutível. Não há força alguma, nem vontade alguma, nem plano
algum que possa apagar o amor de Deus por nós, o amor que Deus provou através
do seu Filho Jesus Cristo, o verdadeiro Rei e o Salvador do mundo.
André
Duarte

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