Olá, turma da JNV. Interrompendo brevemente a série sobre
Gênesis, e atendendo à demanda temporal do iminente evento do retiro com sua
festa de tema “Festa de Pentecostes”, quero lançar aqui um estudo não muito
longo it’s a trap! sobre esse evento bíblico. Pra ser sincero, também
não sei que roupa vou usar no dia. Mas, para dar um norte à preparação mental,
vamos estudar agora o que é o Pentecostes para o Antigo Testamento, a tradição
histórica judaica e o Novo Testamento. Também aproveito para desfazer algumas
confusões que acabam por erroneamente relacionar a Festa Pentecostes com toda
essa mania pentecostalista moderna.
A Lei de
Moisés instituiu várias festas anuais, das quais três eram da máxima
importância e envolviam a peregrinação de todos os homens com suas famílias até
o local apropriado de culto. Essas três festas eram a páscoa, a festa das
semanas e a festa dos tabernáculos. De acordo com Levítico 23, a festa das
semanas ocorreria após sete semanas desde o sábado em que os israelitas
apresentassem a Deus os primeiros frutos da terra que haveriam de conquistar. Essa
contagem em semanas é que dá o nome de “festa das semanas”. Sete semanas são 49
dias, e essa festa ocorre no dia seguinte, ou seja, 50 dias depois da festa dos
primeiros frutos. Daí vem o nome grego Pentecostes, que significa “50 dias”. Ocorre
que esse sábado em que os israelitas apresentaram as primícias da terra
coincidiu com a comemoração da páscoa. Por essa razão, a festa de Pentecostes
tem sua data em 50 dias depois da páscoa.
E o que se
comemora nessa festa? Bem, ela se situa justamente na estação do ano em que se
colhe os cereais, como o trigo. Ela é uma festa em que toda a nação comemora a
provisão fiel de Deus ao seu povo. Esse é o motivo do culto. E nós temos de
entender que as festas judaicas eram alegres sim. Nós costumamos imaginar uma
multidão bagunçada de judeus tentando apresentar pro sacerdote algum animal pra
ele matar e pronto. Mas não, era uma verdadeira festa, cheia de risos, abraços
e fanfarra. A festa era solidária, havendo o compartilhar de refeições entre as
famílias, com os sacerdotes e os desamparados, pobres, viúvas, estrangeiros.
Toda a nação se reunia em um lugar para louvar o Senhor por sua graça em
permitir ao povo o desfrute do trabalho da terra. Seria mais ou menos como se
todos os ocidentais fizessem uma mega festa transnacional para comemorar o
salário de meses.
Ocorre que,
devido à destruição do templo em 586 a.C., vindo sobre os judeus o exílio pelos
babilônicos, muita coisa teve de mudar na rotina deles. Não havia mais local
fixo de culto para a comemoração das festas. Foi nesse tempo que as sinagogas
locais começaram a aparecer para substituir o templo. Os sacrifícios, que
tiveram de ser interrompidos, perderam sua importância para o estudo da Lei.
Afinal, a razão do exílio foi a desobediência constante à Lei, tendo havido tal
descaso que a Lei passou a ser praticamente desconhecida do povo. Surgiram os
escribas, copistas da Bíblia, para disseminar o conhecimento das ordenanças de
Moisés. Com essa ênfase na Lei, e sem a possibilidade de apresentar
sacrifícios, os judeus atribuíram um novo significado ao Pentecostes. De alguma
maneira, desenvolveu-se a tradição de que a entrega das tábuas da Lei no monte
Sinai ocorreu 50 dias após a páscoa, a libertação do Egito. Até hoje, os judeus
comemoram, no Pentecostes, principalmente a dádiva da Lei.
Como as outras duas festas de peregrinação, o Pentecostes
ganhou novo significado após a vinda de Cristo. Ele morreu na páscoa. No
terceiro dia de sua morte, ele ressuscitou, e subiu ao céu 40 dias depois.
Fazendo as contas, os discípulos ficaram por conta própria durante 7 ou 8 dias.
E então veio o dia de Pentecostes, com a cidade de Jerusalém lotada de gente de
todas as raças indo adorar o Senhor no templo. E Jesus Cristo, em seu trono
soberano no céu, cumpre o que prometeu aos discípulos e envia o seu Espírito
para guiar a Igreja em seu propósito. Jesus nos prometeu que não nos deixaria
abandonados, que estaria conosco até o fim dos tempos. Por meio do Espírito
Santo, o Senhor continua presente em sua Igreja. Não é fascinante que, no mesmo
dia em que Deus deu a Lei, ele deu também o Espírito? Até nesse sentido Jesus
cumpriu a Lei. Pois o Pentecostes comemora a provisão de Deus, seja do alimento
da terra, seja de seus mandamentos. Mas a maior dádiva que Deus ofereceu aos
homens foi o seu Filho e, por meio dele, o seu Espírito, para nos santificar,
guiar, ensinar e proporcionar a comunhão com o Eterno, e assim selar como
garantia a promessa da salvação e do retorno do Rei dos reis.
Esse significado tem se perdido por causa da confusão com
o pentecostalismo. “Pentecostal”, como termo eclesiológico moderno, significa
as igrejas que seguem a doutrina proclamada pelo fundador do seu movimento,
Charles Parham. Inicialmente um bispo metodista de uma Igreja negra (no ano
1906, quando a segregação ainda era comum), ele viu um dos membros entrar em
transe extático e manifestar a glossolalia – o descontrole da fala. Charles
interpretou isso como uma repetição de um dos sinais visíveis do Pentecostes de
Atos, o “falar em línguas”. Esse assunto do falar em línguas fica pra outro
post. Mas o que o pentecostalismo realmente prega, desde que a Assembleia de
Deus americana, fundada em 1910 por um discípulo do Charles, escreveu o seu
credo, é o seguinte: existem dois batismos – o nas águas e o no Espírito Santo.
Aqueles que se convertem a Jesus são batizados nas águas e são salvos, mas eles
não têm ainda o Espírito Santo. Para a “segunda bênção”, o batismo no Espírito,
é necessário um tempo de intensa santificação, busca por Deus e fervor em
oração (uma ironia, porque ninguém pode fazer essas coisas sem o Espírito
Santo, obviamente). E, então, no momento em que a pessoa fala em línguas, é o
sinal de que o Espírito Santo veio sobre ela. E agora ela está capacitada a ser
mais madura e mais útil no ministério.
Agora, certamente você notou que não é toda igreja que se
diz pentecostal ou neopentecostal que segue esses pensamentos. Essa crença é a
do pentecostalismo original. Hoje em dia, há muita flexibilidade nesse sentido
dentro das denominações. Mesmo dentro de uma mesma Igreja, podem haver pastores
com opiniões diferentes nesse sentido. O que eu quero enfatizar é que o
Pentecostes não tem nada a ver com falar em línguas ou manifestar outros sinais
espirituais. Também não tem a ver com ser uma Igreja mais gritante, liturgicamente
espontânea, ou moralmente cerceadora. O Pentecostes, biblicamente, é uma data,
não um fenômeno. É a data em que Deus provou o melhor da sua provisão com o seu
Espírito enviado pelo Filho. A data em que a Igreja foi marcada por Deus como
sua propriedade. Foi o dia em que a maravilhosa promessa de Cristo, de estar
conosco para sempre, foi cumprida. O Pentecostes judaico celebra a colheita da
terra e da entrega da Lei. Para a Igreja, o Pentecostes comemora a colheita de
Deus dos seus primeiros frutos, que são os crentes, e a entrega do seu próprio
Espírito para o seu povo.
André Duarte

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