quinta-feira, 25 de abril de 2013

Como ter certeza da salvação



          Sou salvo mesmo? Tenho tanto o que melhorar, tanto o que entender, vivo caindo no mesmo erro bobo... e se eu não for realmente um crente? E se o que eu vivo não tiver nada a ver com o que um crente deve viver? Todo crente cai nessas dúvidas de vez em quando. Em parte, a razão por que isso acontece é que nós não realmente sabemos perfeitamente todos os detalhes da fé, todas as possíveis práticas de pecado. Talvez também por existirem tantas vertentes e linhas teológicas no cristianismo, ou pelo resquício carnal de confiar em justificação por obras – e, obviamente, sempre estamos em falta nisso. Claro que também existe a boa motivação de querer agradar a Deus e rever as próprias posições, e isso é louvável. Para lidar com essas dúvidas, existe a belíssima carta de 1João. Ela tem como finalidade distinguir quem é cristão mesmo e quem é gnóstico, conforme a confusão da época, mas sua aplicação transcende o contexto imediato. Para isso, o apóstolo propõe diversos testes em forma de antíteses e coloca ainda uma verdade imensamente confortadora. Vamos ver cada uma dessas coisas, mas não antes de desfazer certas noções erradas.

            Em primeiro lugar, a dúvida não deve ser reprimida. Não é verdade que qualquer dúvida é acusação de Satanás. Mesmo que seja, não é para ser simplesmente negada, mas investigada. E se você descobrir que sua dúvida era correta e que realmente você deve se arrepender e se converter de verdade? Não confie na oração que você fez no passado aceitando Jesus. Verifique o seu procedimento à luz dos testes de João e você resolverá a sua dúvida. Por outro lado, não conviva com a dúvida. Não espere até que ela desapareça, não a ignore. Ela é importante para ser desvendada. É inevitável que venha a dúvida, mas ela deve ser tratada como a Escritura ensina. Não reprima como se fosse mentira do diabo nem esqueça-a como se ela não importasse. Trate-a com a seriedade e com o bom senso que é devido.

            O cristão anda na luz para a purificação e comunhão. A luz de Cristo revela quem somos, nossa pecaminosidade. Ela é a verdade santificadora de Deus. Por outro lado, quem vive em trevas ainda esconde a verdade e se ilude na própria “justiça”. Isso significa que o verdadeiro crente, em primeiro lugar, reconhece que é pecador. Não porque tenha pecado algumas vezes na vida, mas porque sua inclinação natural é para o pecado. Mentiroso é quem se acha capaz de ser iluminado pelas próprias obras. Mas a verdade é que a luz vem de Deus. É necessário, em primeiro lugar, que o crente se humilhe e saiba que ele é indigno e totalmente dependente da graça de Deus para segui-lo. Apenas isso o capacitará para ter verdadeira comunhão com a Igreja, pois quem se orgulha de sua própria justiça não pode se relacionar com aqueles que sabem que são purificados somente por Cristo. O crente peca sim, mas ele confessa seus pecados; o falso pensa de si mesmo como muito correto. Esse é o primeiro teste: você se reconhece como pecador e merecedor da ira, e sabe que somente na luz de Deus existe santificação? Ou você ainda confia em seus esforços e méritos para agradá-lo?

            O crente é obediente aos mandamentos. Quem anda na luz de Cristo, quem foi iluminado pela sua verdade não reagirá de outra forma senão com profunda devoção e obediência. Não é possível que alguém conheça Deus ou o ame de verdade sem uma vida de obediência. Se você não obedece a Deus, ainda não o reconheceu como Deus. Você não deve obedecer-lhe para conquistar o seu amor; do contrário, você ainda não foi iluminado pela verdade a respeito do sacrifício de Jesus. Se você realmente crê em Deus, oferecer-se-á em obediência. João escreve várias vezes que, se alguém ama Jesus, obedecerá aos seus mandamentos. Examine-se nesse teste também: você vive em obediência às leis de Deus? Ou vive para servir aos próprios interesses e conceitos? Você se entrega totalmente à vontade dele, ou procura um meio-termo? Veja que esse teste está intimamente relacionado ao primeiro. O verdadeiro cristão é obediente a Deus e, ao mesmo tempo, sabe que sua obediência é mera gratidão por quem Deus é, e não como um meio para dele alcançar a bênção e o favor. A obediência vem da humildade, não do orgulho.

            O crente ama os seus irmãos. Frequentemente, João diz que, se alguém odeia o seu irmão, é um assassino, mas quem ama o seu irmão é alguém que foi iluminado pelo amor de Deus. Perceba que o amor é amplo, engloba todo tipo de bem que possamos fazer ao próximo. João dá o exemplo de alguém que vê o seu irmão em necessidade e não o ajuda – esse alguém não conheceu o amor de Deus. O amor ao irmão só é possível para alguém que conheceu o amor de Deus. Pois Deus é amor, e somente dele procede toda a introjeção e a vida em amor. Esse amor é o reflexo do amor de Cristo, que buscou a reconciliação com os perdidos, que doou sua vida e viveu em altruísmo em todo o tempo. Além disso, se o meu irmão é alguém como eu diante de Deus, por quem Cristo também morreu, que Deus também amou para salvá-lo, como posso eu dizer que amo Deus e não amar esse amado dele, que o é tanto quanto eu? Examine-se quanto às manifestações de amor: você perdoa o seu irmão ou passa o tempo todo cobrando dele a ofensa que ele lhe fez, seja em fato, seja em sua imaginação? Você busca se reconciliar com ele quando vocês brigam? Você gasta tempo com ele quando ele precisa? Você discute doutrina com ele para edificá-lo ou para humilhá-lo? Você se alegra com ele e se entristece com ele, conforme ele precisa? Por outro lado, você o repreende com franqueza e ponderação para discipliná-lo, ou fica todo fofo diante dos pecados dele?

            O crente demonstra crescimento. Quem fica estagnado em seus conhecimentos e sua maturidade atual demonstra afastamento de Cristo. Veja que João fala a “pais”, “filhos” e “jovens”, termos que os estudiosos interpretam como fases simbólicas do crescimento de todo crente. Entenda que todos esses sinais de ser um cristão não são perfeitos de imediato. Há um processo de santificação e maturação que melhorará progressivamente as respostas a esses testes. Mas deve haver esse crescimento. A salvação tem justamente o propósito de nos levar, pelo Espírito da graça, a uma semelhança com Jesus cada vez maior. Muitos crentes ficam estagnados em mediocridade por anos e, só depois que algum fator renovador ocorre, ele percebe que estava enganado e começa a desejar uma plenitude maior do conhecimento e da obediência a Deus. Não é o desejo de Deus que a vida cristã seja marcada por altos e baixos o tempo todo. Deve haver progressão, a sede por Deus precisa aumentar. Para isso, a irmandade é imprescindível. Todo crente precisa da ajuda dos irmãos para crescer e, em especial, de um amigo com um pouco de mais maturidade para influenciá-lo. Então, vamos ao exame: você está realmente melhorando ou está confortável na mediocridade? Se está estagnado, você procura a ajuda de crentes mais maduros, ou apenas fica quieto esperando algo acontecer? Você é vencido vez após vez pelo mesmo pecado, ou ele fica cada vez menos atraente pra você? Você busca conhecer mais as Escrituras, ou a leitura repetitiva e não meditada dos seus textos favoritos já está de bom nível? Lembre-se de que você somente reformará suas imperfeições constantemente se manter fixos seus pensamentos na obra de Cristo. Não adianta apenas adotar rotinas e métodos se a sua confiança não estiver no que Jesus já fez e ainda faz por você.

            O crente rejeita o pecado. Esse é um complemento do segundo teste. João diz que quem vive pecando (“peca”, no grego, está escrito no contínuo, não no aoristo) é filho do diabo, não de Deus. Novamente, lembremo-nos de que ser cristão não é ter perfeição moral, e sim confessar os pecados e resolver, por amor a Cristo, não voltar a cometê-los. O pecado não pode ser eliminado, mas pode ser derrotado pela graça de Deus. Momento do exame: como você lida com seus pecados? Você os confessa em contrição logo que toma consciência deles, ou apenas deixa acumular como se pouco importassem? Você se avalia constantemente para encontrar em si o erro e abandoná-lo, ou dá mais importância ao pecado dos outros do que aos seus?

        O crente crê na doutrina certa. A doutrina nunca pode ser subestimada, pois todo o comportamento e as crenças menores dependerão da doutrina. João diz que quem nega que Jesus é o Cristo ou quem nega que ele veio em carne é um anticristo, mas quem confessa Jesus como o Cristo, o Deus encarnado, é realmente cristão. Agora, é muito importante entender que aqui a doutrina não é só aquela professada de boca, mas aquela que é verdadeiramente crida de forma a nortear toda a vida cristã. Lembre-se daqueles homens no texto do sermão do monte que dirão “Senhor, Senhor, não curamos em seu nome etc?”. Esses homens sabem a correta doutrina, pois chamam Jesus de Senhor – e mais, chamam Jesus de Deus, visto que o grego “kurios” é o título de Senhor que os governantes usavam para si mesmos com sentido de divindade. Mas essa profissão de fé nada fez para que esses condenados se submetessem à vontade de Deus. Dessa forma, não é verdade que todo aquele que professa a ortodoxia é cristão, mas todo o que nega a ortodoxia não é cristão. Portanto, verifique: você crê nas doutrinas fundamentais do evangelho, ou você inventou suas próprias relativizações? Você realmente vive de acordo com o que você diz, ou são apenas palavras abstratas? Você deseja aprofundar-se na doutrina cada vez mais mediante o estudo das Escrituras e do aprendizado com os mestres, ou você despreza essas coisas como se fossem secundárias?

            Já que tocamos no ponto do sermão do monte, vamos ver três características que crentes falsos têm em comum com crentes verdadeiros (oh, Tim Keller...). Primeiro, a profissão da doutrina correta, que já vimos. Segundo, intensa emoção diante de Deus. A repetição “Senhor, Senhor” é uma expressão emotiva forte; essa é a função da repetição no hebraico. Veja outros exemplos na Bíblia: “Deus meu, Deus meu” em grande desespero, “Absalão, Absalão, meu filho, meu filho”, com muito choro e muita tristeza, “Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor”, fortes emoções no santuário de Deus pela sensação de invencibilidade (Jeremias 7). Assim, tanto crentes falsos como verdadeiros se emocionam com Deus. Terceiro, ministério ativo. Os tais que foram apartados de Cristo se vangloriaram de sua atuação ministerial, com curas, pregações, exorcismo. Atividades eclesiásticas, por mais belas e bem sucedidas que pareçam, não são prova de verdadeira fé. Pense, portanto, da seguinte forma: a presença de profissão de ortodoxia, emoções intensas com Deus e exercício de dons não é prova de conversão verdadeira, mas ausência dessas coisas é prova de falsidade.
           
Resumindo o que João diz: se você é cristão, você apresenta as características: fé na doutrina fundamental correta, crescimento na maturidade espiritual, humildade e transparência quanto aos próprios erros, confiança somente no sacrifício de Cristo para a purificação, repugnância pelo pecado, vida de obediência à lei de Deus e amor servil e zeloso pelos irmãos. Se você dá esse fruto, você é um cristão. Se você não os apresenta, arrependa-se e creia em Cristo. Se você acha que está mais ou menos, arrependa-se também, reveja seus fundamentos e apegue-se ao Senhor para o crescimento. E lembre-se da grande verdade consoladora que João nos diz: “Assim saberemos que somos da verdade; e tranquilizaremos o nosso coração diante dele quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas. Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada (1 João 3:19-22)”. A sua salvação não depende de você  sentir-se salvo, sentir-se santo. Ela é um fato. E Deus, que sabe que você está seguro com Cristo, consolará o seu coração pelo Espírito.

            André Duarte

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