O capítulo
2 de Gênesis descreve em pormenores a criação do ser humano distinguível entre
macho e fêmea da qual o capítulo 1 menciona brevemente. No post passado, vimos
o que significa o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Falou
abordar um ponto, que é justamente o relato principal do capítulo 2: a
competência pactual do casamento. Vamos ver, em primeiro lugar, como Deus criou
o casal e como o próprio homem avaliou a sua mulééh mulher. Em seguida, vamos ver como essa
aliança deve ser repetida para toda a humanidade posterior e, para terminar, o
que isso tem a ver com o ser imagem e semelhança de Deus como Cristo.
Em primeiro
lugar, Deus criou somente o homem, Adão. Ele deu ordens para Adão zelar pelas
criaturas e dar nomes a elas. Mas, uma lacuna na criação ainda existia. Havia
alguém a quem Adão deveria dar nome, mas que Deus ainda não tinha feito.
Lembre-se de que, em Gênesis 1, Deus avalia tudo o que cria como bom. Agora,
pela primeira vez, Deus vê que algo não estava bom. “Não é bom que o homem
fique só”. Desde o início, Deus percebe que havia a necessidade de que o homem
tivesse alguém para fazer-lhe companhia. Afinal, assim como Deus tem perfeita
comunhão consigo mesmo – o Pai, o Filho e o Espírito – o homem também deveria
ter íntima comunhão com outro ser humano. Pode-se perguntar por que Deus fez
uma mulher para ser essa companheira. Deus poderia ter criado simplesmente
outro homem para lhe ser um amigo? Bem, e o que ocorreria depois disso? Haveria
um limite numérico, pois não seria possível encher a terra e dar origem a
inúmeros humanos companheiros, como Deus deseja. Deus cria uma mulher para o
homem para que a humanidade se multiplique e haja cada vez mais pessoas
companheiras umas das outras. E a mulher também cumpre o propósito da máxima
amizade e companheirismo. Deus descreve a futura mulher criada como “ajudadora”
ou “auxiliadora”. O termo hebraico passa a ideia de intensa amizade. A esposa
do homem seria sua melhor amiga (haha, onde está a sua friendzone agora?). Além
disso, e ainda mais importante, é que a intimidade entre um homem e uma mulher,
como casal, é a mais intensa e simbiótica possível. Essa máxima conjugação é,
como veremos no final, necessária para refletir a união de Deus com o seu povo.
Pode ser
exagero meu, mas, pela beleza do relato, tenho a impressão de que Deus teve o
carinho de fazer ao homem uma surpresa. Como se Deus dissesse “Adão, feche os
olhos e só abra quando eu mandar”. Por isso, Deus fez com que Adão dormisse e,
com a mais avançada técnica anestésica e cirúrgica, retira uma de suas costelas
e dela faz a mulher. Como o escolástico Pedro Lombardo bem observou, a mulher
não foi tirada da cabeça do homem para sobre ele governar, nem dos seus pés
para ser pisoteada, mas do seu lado para ser amiga e companheira. Quando Adão
acordou – surpresa! Já pensou nisso, homem, se Deus mandasse a sua mulher ideal
de presente, embrulhada na caixa e tudo? Como o coração de Adão deve ter
disparado! Se nós homens, hoje, quando vemos uma mulher distinta, já
direcionamos a atenção a ela, imagine para o homem que nunca havia visto uma
mulher, que nem teve mãe para saber como elas são. Sua perplexidade é notável
pela sua declaração de amor: “Essa sim é minha carne e meu osso!”. No hebraico,
o termo pra “essa” é bem enfático, como se Adão quisesse dizer “Chegou, chegou,
finalmente, era isso que eu queria, era isso que me faltava!”. Medite nessa
passagem, não pense só em dois caucasianos pelados na mata, veja que cena
hollywoodiana de romance, equiparável apenas ao Cantares de Salomão.
Vamos ao segundo
ponto: a continuidade dessa relação para a posteridade. O versículo 24 é um
parêntese de Moisés. Veja que ele descreve toda a maneira como o homem e a
mulher foram criados, a característica da união deles e então diz “Por essa
razão...”. O seu mandamento é que o homem (e, claro, a mulher) deve deixar os
pais e unir-se ao seu cônjuge, tornando-se com ele uma só carne. Essa ordem é
surpreendente para a época. A responsabilidade dos filhos para com os pais era
muito mais valorizada do que a relação conjugal. Na verdade, o casamento era
somente para gerar herdeiros que honrassem os pais, e isso era o mais
importante. Moisés revela aqui que o casamento deve ser a prioridade, e os pais
ficam em segundo lugar. Uma vez casado, o homem deve considerar essa relação
como ainda mais importante do que a relação com os seus pais. É uma mudança de
vida. Deixar os pais não é só sair de casa, mas é sair da autoridade deles. A
nova família tem primazia sobre a velha.
E esse
casamento não é apenas um contrato social, mas um relacionamento íntimo que
visa à mais profunda e maravilhosa simbiose entre humanos. Recentemente,
algumas pessoas têm entendido que esse “unir-se e tornar-se uma carne” faz
referência à relação sexual. Argumentam que o casamento cultural ainda não
existia na época de Adão e Eva. Bem, isso é verdade. Porém, existem evidências
de que essa união é referência não a um casamento cultural, uma cerimônia, mas
sim ao pacto. O pacto não é cultural, ele foi criado e ordenado por Deus. Esse
versículo realmente não tem aplicação perfeita sobre Adão e Eva, afinal, eles
nem tinham pais para deixar. Antes, é uma ordem de Moisés para o povo
fundamentada na criação original de Deus. É como ele estivesse dizendo “Viram
como Deus criou o primeiro casal? Então, é por isso que vocês devem fazer
assim”. Além disso, as duas citações no Novo Testamento dessa ordem – Jesus,
respondendo à questão sobre o divórcio, e Paulo em Efésios 5 – aplicam-na para
a aliança do casamento. Se Jesus e Paulo interpretaram esse verso como
referência à aliança, e não a uma relação sexual, não há por que interpretarmos
diferentemente.
Por fim,
essa aliança de casamento é um reflexo da nossa aliança com Deus. Corretamente,
os judeus, no Concílio de Jâmnia, no ano 90.C., reconheceram que o livro de
Cantares ilustrava o amor de Deus pelo seu povo. Orígenes (185-254 d.C.),
aplicou essa ilustração para o amor de Cristo pela Igreja. A natureza dessa
ilustração está correta, e nós sabemos disso justamente com base na aplicação
que o Novo Testamento faz dessa aliança iniciada em Adão e Eva. Paulo diz que o
casamento humano deve imitar o casamento de Jesus com os salvos, e ele se
baseia em Gênesis 2:24, acrescentando “esse é um mistério profundo; refiro-me,
porém, a Cristo e à Igreja”. Certamente, o mistério é muito profundo. O
casamento humano não tem outra lei senão ser um espelho do pacto divino com o
seu povo. Por isso, os profetas falam o tempo todo (principalmente Jeremias,
Ezequiel e Oseias) que a idolatria do povo contra Deus é um adultério, um
pecado de mesma natureza que a traição de um cônjuge contra o outro. Jesus e a
Igreja, segundo Paulo em 1Coríntios, são um só espírito, assim como o homem e a
mulher casados são uma só carne. E em que se baseia a aliança divina? Paulo
explica que Jesus amou tanto a Igreja que se doou em sacrifício por ela. Esse é
o exemplo para o homem. Através do poder da verdade de Cristo, o homem pode ser
o marido que a Deus já visara em Gênesis. E a Igreja responde em gratidão e
amor com sua submissão, que é a atribuição da mulher. Assim como Eva, a mulher
deve ser essa ajudadora que completa o homem para levá-lo à semelhança do
marido ideal, Jesus. Tudo está interligado.
E como
conseguimos o poder para cumprir isso? Novamente, temos a capacitação em Jesus.
Na queda, vemos que Adão e Eva sofreram a contaminação do pecado e descumpriram
totalmente o desígnio de Deus como casal. Eva, em vez de ser a amiga de que
Adão precisava, enganou-o e levou-o à desobediência também. Adão, em vez de ser
o protetor da esposa, jogou para ela a culpa de seu pecado. Desde então, todos
os casais têm sofrido a maldição da iniquidade. Até que entrou o homem Jesus na
história. Uma das funções de Jesus foi realizar tudo aquilo em que o primeiro
homem, Adão, fracassou. Veja, Jesus, realmente foi o homem que cumpriu o
mandamento de “deixará pai e mãe”. Muito mais do que a saída de um humano da
casa dos pais, Jesus Cristo deixou o seu lar paradisíaco, sua união divina e
metafísica com o Pai no céu, para vir em busca de sua amada. Ele abandonou a
glória do seu lar para descer até esse grande prostíbulo. E em que estado
estava a sua noiva quando ele veio? Veja Ezequiel 16. Estávamos como
prostituta, desprezando a graça de Deus na história, cometendo infidelidade
constantemente com os ídolos de nosso coração. Mas o Senhor, o perfeito noivo,
o grande herói romântico e épico, doou tudo de si para a nossa restauração. O
seu sacrifício é que purifica a sua noiva e conquista o seu amor. Quando
experimentamos esse sacrifício, quando cremos nesse amor imenso, recebemos o
poder para fazer o mesmo em nossas vidas conjugais. Cristo restaurou os dois
casamentos que a queda havia desfeito – o casamento entre Deus e humanidade e
entre homem e mulher. E é precisamente nessa ordem. Para ser o cônjuge segundo
Deus para o seu par, você deve primeiro ser essa esposa resgatada e conquistada
pelo amor de Jesus. O seu casamento terreno refletirá o seu casamento celestial.
Através de Cristo, nosso perfeito noivo, podemos ser o casal da criação
imaculada do princípio.
André
Duarte

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