quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - I



Vamos continuar aqui o assunto proposto anteriormente: o de falar sobre relacionamentos conjugais à luz da Escritura. Vemos, então, que uma grande falta da Igreja hoje reside em faltar para com uma interpretação bíblica robusta sobre o assunto, prendendo-se a questões e versículos pontuais. E isso acaba gerando o que também foi apresentado no post anterior da série: uma geração descontrolada de regras, que não contemplam a verdade bíblica sobre o assunto, o “cimento” que une as regras e lhes dá propósito.

Disse também que abordaria de uma maneira “de cima para baixo”, e aqui começa isso. Antes mesmo de nos perguntarmos “o que pode e não pode”, “o que se deve fazer”, devemos primeiro pensar em algo sobremodo superior: a nossa finalidade, o porquê de termos sido criados pelo próprio Deus, o objetivo de nossa existência. Com base nisso, teremos uma luz mais clara sobre o propósito e limitações dos relacionamentos conjugais.

Existe um certo documento cristão¹ que faz uma série de perguntas e respostas acerca de vários pontos da fé cristã. Entre elas tem um interessante item, que se vê a seguir:

“Qual é o fim supremo e principal do homem?
Resposta. O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.”

Essa afirmação é verdadeira. A finalidade da humanidade, a razão de existir reside nisso: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. E é isso que devemos almejar, esse é o objetivo de nossa existência, e, se esse é o objetivo de TODA a nossa existência, então TODOS os aspectos da nossa vida tem que ser voltar para Deus e o que Ele requer. Esses aspectos da nossa vida existem em imagem e semelhança aos aspectos do próprio Deus, ainda que em analogia, e têm como objetivo glorificá-Lo. Dentre estes aspectos da vida poderíamos citar: trabalho, estudos, lazer, comércio, política, arte, ciência, relacionamentos conjugais e família, etc. Todas estas áreas da existência, e mais outras, devem glorificar a Deus; em tudo, tem que existir os princípios divinos regendo-as e retificando-as.

Entretanto, uma pergunta fica: como se pode glorificar a Deus nessas áreas? Qual é o princípio maior, o padrão maior para tal? Uma resposta dentre muitas, visto seus vários enfoques, é analisar a humanidade em relação à sua imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27; 9.6), uma doutrina um tanto quanto posta de lado pela Igreja. A humanidade, ao contrário de todo o resto da Criação, foi criada à similitude do Criador; é sua imagem perfeita. Ainda que não sejamos como Deus por completo, somos semelhantes a Ele por analogia.

Vários exemplos ilustram essa realidade:

1.    1.   Nós trabalhamos, porque, desde o Éden, temos o mandato de trabalhar, de dominar a terra e tudo que nela há (Gn 1:28), como mordomos da Criação para o Grande Rei. Isso se dá justamente porque Ele também trabalhou na Criação, a sustenta, e continua operando nela, fazendo d’Ele o Trabalhador Original no qual o homem é apenas trabalhador por semelhança. O trabalho não existe por si só, mas serve a um propósito, o de produzir sustento e exercer domínio sobre a terra; trabalho por trabalho acaba se tornando pecado, como workaholics vivem, por exemplo.

2.    2.   À semelhança de Deus, nós também descansamos, porque Ele mesmo descansou no sétimo dia, e é o momento onde contemplamos o fruto das obras de nossas mãos, assim como no sétimo dia da criação Ele folgou e viu sua obra completa (Gn 2.2,3). Se o descanso passar disso, como a preguiça, como a procrastinação, é erro crasso e deturpação do propósito divino do descanso em nós.

3.    3.   Os pais só o são porque Deus mesmo é Pai (Mt 7.11), e da Paternidade dele se deriva e se modela toda paternidade humana; toda Filiação, de Deus também se deriva, porque Deus também é Filho (Sl 2.7), e todo filho tem por molde o Filho Eterno.

Assim, glorificamos a Deus quando nos voltamos para Aquele de quem nós somos imagem e agimos de acordo com a semelhança divina que temos em nós. Assim, imitaremos o Criador, seremos santos como Ele é santo (Lv 20.26), e teremos alegria e comunhão com Ele.

Um ponto a se notar aqui, como falei de leve acima, há o pecado. Desde a queda da humanidade no Éden, o pecado e a morte entraram no mundo e na vida humana, corrompendo-os por completo. A perfeita imagem e semelhança do Deus Triúno foi corrompida na Queda. Desde então, temos nenhuma aptidão para a santidade, antes, total inclinação para o pecado e o mal. Isso vai se aplicar, visto nossa imagem deturpada, a todas as áreas da nossa vida. Por exemplo, trabalho pode virar vício ou crime, o descanso vira preguiça, a política vira corrupção e egoísmo.

A única solução para isso é a fé em Jesus Cristo e seu sacrifício na Cruz. A Epístola de Paulo aos Colossenses vai dizer que “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20). Em Cristo, todas as coisas são reconciliadas, tudo começa a ser restaurado, tendo sua completude no mundo vindouro. Nossa santificação é a restauração da imagem e semelhança de Deus em nós, que começa com nossa regeneração e se completa na glorificação (quando seremos como anjos nos céus – Mc 12.15; 1 Co 15.35-54). Assim, tornando-nos co-participantes da natureza divina (2 Pe 1.4), com o próprio Espírito Santo de Deus habitando em nós, somos redimidos de nossos pecados, indo em direção à glorificação futura, a redenção completa, no mundo vindouro, tornando-nos mais do que nossos primeiros pais o foram: seremos como Cristo Jesus assunto aos Céus.

O que relacionamentos conjugais têm a ver com tudo isso?

Bem, vimos que tudo da nossa vida serve pra glorificar a Deus, inclusive esse tipo de relacionamento. Analisamos também que somos imagem e semelhança de Deus, e que O glorificamos quando, pelo Espírito que nos santifica, agimos de acordo com a similitude original. Semelhança essa que é o que Deus nos propôs a ser, como Ele próprio O é, ainda que por analogia. Então, o que há em Deus que temos de semelhante, que se reflita em relacionamentos conjugais? O relacionamento de Deus por Seu povo, que se reflete na humanidade na figura do casamento. Esse relacionamento Divino-humano é uma aliança, um pacto, fundado em amor e compromisso, bênçãos e responsabilidades. E o maior exemplo disso está na Epístola aos Efésios, na figura de Cristo e a Igreja.

É pelo casamento que glorificamos a Deus nos relacionamentos conjugais. O casamento existe PORQUE existe antes o relacionamento de Deus e seu Povo todo, antes mesmo da fundação do mundo (1 Pe 1.20; Ap 13:8; Ef 1.4). Assim, todo e qualquer relacionamento conjugal entre homem e mulher tem que visar e andar para o casamento, e nele viver de modo santo e correto, senão, incorrerá em pecado e necessidade de arrependimento. E é disso que trataremos no próximo capítulo dessa série.

Que Cristo abençoe a todos nós.


Marcel Cintra


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - Intro


             Relacionamentos amorosos. Quando se lê essas duas palavras juntas, num ambiente cristão, já se imagina duas coisas: conversas infindáveis, junto de si um conjunto de igualmente infindáveis motivos para brincadeiras, e, quando se fala sério, desculpas esfarrapadas dos dois lados da moeda. E o que são esses lados da moeda? São justamente aqueles que seguem um lado, por assim dizer, mais conservador, que defende que o cristão não deve “ficar”, não deve fazer sexo antes do casamento, e afins (coisas que eu mesmo defendo, só não concordo com alguns métodos para se defender tais ideias); outros, que acham que as coisas “não são bem assim”, e acha exageros em demasia da primeira parte em querer zelar por um relacionamento santo, colocando regras que não são bíblicas. Entretanto, no final, nunca se sabe quem tem mais razão, e toma-se partido mais por preferência pessoal do que por argumentações e motivos bíblicos.

              Claro que isso é reflexo de um ensino bíblico defeituoso, que não contempla o ser humano como um todo, como sua origem e finalidade; sobretudo, como imagem e semelhança de Deus. Este ensino é vital para um melhor entendimento do relacionamento de Deus e o homem em todas as áreas da vida, inclusive a área de relacionamentos amorosos, como veremos adiante.

              Com um ensino incompleto no assunto, que não investiga as bases fundadas no próprio Deus sobre essa questão, os cristãos são obrigados, por falta de opção e erroneamente, a desenvolver uma teologia “de baixo para cima”: enchem-se de regras vagas, que carecem de referências bíblicas - tornando a instrução à Igreja sobre o assunto igualmente vago -, para que então se alcance o objetivo proposto, a saber, agradar e glorificar a Deus. É como se, para se defender do pecado, se junta um amontoado com tijolos de regras sem usar cimento, sem saber que existe algo que liga todos aqueles tijolos e pode fazer deles um muro de verdade; e esse cimento é justamente o fundamento bíblico, as razões divinas para que esses tijolos se mantenham de pé. Desse modo, é muito fácil fazer um muro mal construído a ponto do pecado conseguir derrubá-lo, visto não ter cimento que o junte e sustente. E é por isso que tem vários contestadores que, por falta de resposta melhor, se rebelam e se aventuram em desvarios sexuais, pecados segundo a Escritura, achando que estão corretos, visto que os “conservadores” são vagos e infundados em suas explicações.

              Contudo, minha proposta ao longo das postagens é mostrar justamente uma teologia “de cima para baixo”: o próprio Ser de Deus, e nossa imagem e semelhança com Ele, nos dá a estrutura para todas as cosias na vida, por sermos seres análogos ao próprio Deus, que é Absoluto sobre todas as coisas, visto as ter criado. Ele é o “molde” pelo qual fomos feitos, e como Deus também tem suas relações com todas as coisas, inclusive com Ele mesmo na Trindade, isso vai refletir também na nossa relação com todas as coisas, porque somos seres análogos ao próprio Deus. E, no meio disso tudo dessa Santa Analogia, que abarca toda a existência do ser humano, relacionamentos amorosos estarão inclusos com certeza.

             No primeiro capítulo de uma série que farei sobre o assunto, vamos analisar como a doutrina bíblica sobre o homem, com foco em sua similitude com Deus, afeta escabrosamente o que se entende por relacionamento amoroso.  Falaremos o porquê do homem existir, qual a sua razão de viver, segundo o propósito que o próprio Deus quis fazê-lo, e como todas as áreas da sua vida são relacionadas e direcionadas para Deus.

            No segundo capítulo, trataremos do assunto do Casamento, segundo esta perspectiva “de cima para baixo”. Falaremos de como a nossa imagem e semelhança com Deus afeta, direciona, e dá propósito ao Casamento, segundo a figura de Cristo e a Igreja, na Epístola aos Efésios. Assim, determinaremos as diretrizes divinas para o Matrimônio, suas bênçãos e suas responsabilidades.

       No terceiro capítulo, trataremos do Noivado, e suas implicações bíblicas, no Antigo e Novo Testamentos. Aqui, se verá quais são as responsabilidades dele, e para onde ele aponta.

         No quarto capítulo, o assunto a ser discutido é o Namoro. O que é o Namoro? Quais são seus limites? Quais são seus objetivos? Isso e mais será discutido nessa, tenho que admitir, polêmica questão.

            No quinto e último capítulo, o tema será o “Ficar”, tão discutido entre adolescentes e certos jovens.  Discutiremos esse assunto, por vezes, polêmico, ao tratar dos seus porquês e o que a Escritura tem a dizer sobre isso. E, acredite, a Bíblia fala.

Espero que seja do agrado de todos, e que Deus possa nos edificar hoje e sempre, para a glória e honra d’Ele.


Marcel Cintra

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apresentação: Marcel


                Prazer galera, eu sou Marcel Cintra, tenho 23 anos. Sou graduando em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB). Sou amigo da galera da Resenha de Deus já tem um bom tempo, e, depois de muito tempo, resolvi ajudar com uns artigos aqui e acolá.
                Vim parar aqui porque acho fundamental que o cristão se debruce e estude as Escrituras que nos é dada por Deus, ao contrário de certo movimento dentro da igreja evangélica hoje de “seguir o Espírito”, “a letra mata mas o Espírito vivifica”, entre outras ideais mal formados, por melhor que sejam as intenções.  E o verdadeiro conhecimento vem das Escrituras Sagradas, revelação de Deus, infalível e inerrante. Se você quer seguir o Espírito, veja o que ele nos diz nas Suas Santas Letras; se quiser aprender a se dedicar em oração, você vai ter que ler o que a Bíblia nos ensina a orar, e como não orar; se quiser ficar “em adoração”, por mais vago que seja isso, também vamos depender do que a Escritura nos diz. Se qualquer revelação for contrária a Escritura, tem que ser eliminada; por mais que se tenha “falas de Deus” e “revelações” por aí, o nosso crivo tem que ser a Bíblia, que é a revelação infalível de Deus. Isso nos mostra sua importância crucial para a verdadeira comunhão com Deus. Assim como uma esposa conhece cada dia mais seu marido, e assim tem mais amor e comunhão com ele, devemos ser nós em buscar a amar a Deus e ter mais comunhão com ele. E isso vai se dar em conhecer Ele pelo meio que Ele nos deixou, a saber, a Bíblia. Como já dizia o profeta Jeremias:

“mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” – Jeremias 9.24

                Espero eu que eu possa ajudar aqui para que possamos crescer em conhecer cada dia mais a Deus.

                Ah, é.  A Resenha. A Resenha, de um jeito bonito de se falar, é a alegria de se viver com quem se ama.  É um estado de espírito, é um Dasein de comunhão, pros mais filosóficos, e me perdoem a heresia.  A Resenha é brotheragem; é riso, é pranto, sobretudo, união.

                A Resenha é esse amor e essa comunhão.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Como NÃO argumentar em uma discussão teológica


       Poucas atividades cristãs possuem um potencial tão delicado para edificar ou destruir quanto a discussão teológica. Nossa geração enfrenta o grave problema do analfabetismo bíblico, razão por que discussões teológicas são frequentemente tão infrutíferas. Em muitos casos, a própria existência delas costuma ser rechaçada em nome de antíteses hereges entre conhecimento e prática, doutrina e amor, intelectualidade e sensibilidade, razão e experiência. Qualquer um que realmente gastar tempo estudando a Bíblia, especialmente os escritos de João, perceberá que não existem tais oposições. Pelo contrário, o apóstolo vincula amor, verdade, doutrina, obediência e conhecimento o tempo todo.

            Bem, isso pode ficar para outra hora. Neste post, quero apenas dar dicas práticas para cristãos que se engajam em discussões teológicas, gostando eles ou não. E quero desbancar os principais argumentos contra a existência de discussões e críticas. Nada de exaustivo, apenas o superficial do cotidiano.

            Primeiro, algumas atitudes de bom senso:
    -Escute o interlocutor. Preste atenção nos argumentos dele. Não diga suas opiniões sem primeiro responder ao que foi colocado. Em debates escritos, isso é facílimo. Leia o post, entenda o argumento do interlocutor e responda aos pontos dele antes de colocar os seus. Não pule parágrafos, não ignore informações. Do contrário, o debate perderá sua linha e vocês não vão chegar a lugar nenhum juntos.
     -Interprete o interlocutor com cuidados mínimos. Por exemplo, a gramática. Entenda a construção frasal do argumento do interlocutor. Faça da mesma forma como você resolve questões de interpretação de texto do Cespe. Com isso, você perceberá o que o interlocutor NÃO está dizendo e se livrará de fazer suposições irracionais. Para ter certeza de que você entendeu claramente o argumento, devolva-o com dúvidas, como “Então, você quis dizer isso e isso quando disse aquilo?”. Refaça os argumentos do interlocutor com suas próprias palavras e pergunte a ele se você o fez corretamente. Respostas dadas pela má interpretação e pela suposição de elementos que não existem no último dito acabam com a sobriedade do debate.
      -Limite-se ao que é dito. Não infira nada sobre seu interlocutor. Você não o conhece, não sabe o quanto ele sabe, não sabe de toda a construção teológica dele, não sabe suas intenções. Se você é pentecostal, não infira que o seu interlocutor presbiteriano é um intelectual frio. Se você é presbiteriano, não infira que o seu interlocutor pentecostal é ignorante. Se você é adulto, não infira que o seu interlocutor adolescente é um rebelde sem causa. Se você é adolescente, não infira que o seu interlocutor adulto tem Alzheimer. Desviar a atenção do argumento para a pessoa é uma falácia chamada ad hominem. A plausibilidade de um argumento é totalmente independente da personalidade de quem o expressa.
      -Não fale do que você não sabe. Reconheça que existem assuntos sobre os quais o seu interlocutor sabe mais do que você. Então, não tente chutar informações fantasiosas só para não ter de admitir que você não entende do assunto. Somente fale sobre aquilo que você realmente estudou e aprendeu, e de fontes confiáveis. Não há nada que dê mais gastura em um debate teológico do que um discordante que se enquadra naquilo que Paulo repreende: “Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas” (1Timóteo 1:6,7).
     -Argumente somente com base bíblica. Se é que os discordantes pretendem chegar a um denominador comum debaixo da aprovação bíblica, é necessário que os argumentos incluam declarações bíblicas ou a expressa menção da omissão bíblica sobre o assunto. Já vi muitos debates em que a Bíblia praticamente não é citada. O problema é que toda opinião tem base em alguma coisa: se não é na Bíblia, pode ser em alguma ideologia humanista, em algum sentimento subjetivo, na distorção do próprio coração... Quando a Bíblia é citada, é possível debater sobre o texto bíblico e então corrigir as interpretações erradas do texto em voga. Do contrário, cada um dará sua opinião como bem entender e nada será resolvido.
    -Delimite a base comum. Se um debate não partir de pressupostos com os quais você e o seu interlocutor concordem, ele nem começará. Por exemplo: a Bíblia é verdadeira e infalível. A Bíblia é suficiente. A definição de “suficiente” é conforme o postulado da Reforma Protestante. A Bíblia é boa, mas a tradição é igualmente válida. Pressupostos desse tipo precisam estar claros desde o princípio.
     -Saiba quando parar. Esteja consciente de suas limitações em maturidade emocional. Você não é capaz de conversar sobre qualquer coisa por qualquer medida de tempo. Perceba se você estiver se irritando e dê um tempo. Perceba também quando o debate chegou ao limite em que não haverá mais possibilidade de concordância. Não é necessário prolongar o debate indefinidamente só para não ficar com cara de “perdedor”. É possível detectar quando o debate “trava”. A melhor coisa a fazer é começar a parar.
    -Cortesia sempre. Respeito, humildade e bom humor. Se você atacar o seu interlocutor com qualquer ofensa gratuita, já perdeu a razão.
    -Tudo para a glória de Deus. A intenção não é ganhar ou perder. Não é humilhar com conhecimento nem desencorajar a crítica. Se um debate não agrega novos conhecimentos sobre Deus e não estreita os laços da fraternidade cristã, não vale a pena. Submeta suas convicções aos conhecimentos alheios, não tenha vergonha. Chegar à união em torno da verdade é muito mais importante do que defender-se pessoalmente da admissão do erro.

            Agora, quero expor os argumentos mais comuns para reprimir o debate e a crítica indistintamente:

           -“Você deveria estar pregando o amor de Jesus em vez de discutir essas coisas menores”. Esse raciocínio comete erros bíblicos e práticos. Em primeiro lugar, ele faz uma oposição entre discutir e pregar. Discutir e pregar andam juntos conforme a Bíblia. Cada epístola do Novo Testamento prega o evangelho e discute termos “periféricos”. Cada sermão de Jesus é uma pregação sobre si mesmo e uma crítica aos paradigmas farisaicos. É só prestar atenção. Em segundo lugar, esse raciocínio faz juízos de valor sem justificativa. Que base ele usou para definir o objeto de discussão como algo secundário e dispensável? Que base ele usou para definir o amor de Jesus como algo separado das proposições periféricas? Em terceiro lugar, ele é autoincriminatório. Se a pregação do amor de Jesus – seja lá o que a pessoa pensa que isso é – é tão importante que não pode ceder 15 minutos para discussões periféricas, o autor da proposição peca em utilizar seus minutos para rebater a discussão em vez de usá-los para pregar o amor de Jesus.
           
-“Você não deveria julgar”. Por algum motivo, a massa da cristandade absorveu a mania de que julgar é errado sempre e em qualquer aspecto. Primeiro: se o autor da proposição passasse mais tempo lendo a Bíblia do que exercitando sua indiferença, perceberia que a Bíblia diz SIM que nós devemos julgar: 1Coríntios 6:1-6; João 7:24; 1João 4:1-3; 2João  9-11 e inúmeros outros exemplos implícitos. Os textos que ordenam o não julgamento devem ser analisados em seuscontextos e propósitos, assim como os que ordenam o julgar. O temor indistinto de estar julgando é completamente estranho ao ensino bíblico. Segundo, essa proposição é também autoincrminatória devido ao seu potencial de relativização. Se eu digo que o pastor tal está errado em falar X, estou julgando; se a pessoa diz que eu estou errado em falar o meu julgamento sobre o pastor, não está ela também me julgando? Acaso ela também não julga que um estuprador cometeu um pecado, que um ateu precisa se converter ou que Satanás é “do mal”? É impossível não julgar em alguma medida. Para compreender, portanto, o que a Bíblia permite e proíbe quanto ao julgamento, é necessário analisar os textos, e não lançar proposições soltas no ar.
           
-“Você ignora o quanto Deus tem abençoado as pessoas através desse que você está criticando”. Essa proposição confunde a soberana graça de Deus e a responsabilidade humana. Essa confusão, se levada às suas últimas consequências, justificará os maiores absurdos. Por exemplo, Natã falhou em repreender Davi pelo seu adultério + homicídio, porque não percebeu a bênção que Deus trouxe desse relacionamento – o rei Salomão. Judá não pode ser recriminado por ter comido incesto e prostituição com sua nora Tamar, porque dessa relação saiu Perez, que foi um ancestral de Jesus. Os judeus e romanos que crucificaram Jesus fizeram algo lindo, porque desse homicídio Deus fez a maior bênção de todos os tempos. Pessoas que gostam de confundir a moralidade do ato com o benefício de seus efeitos simplesmente adotam a total amoralidade. Porque, caso não tenham percebido, Deus é o governante do universo e seus decretos são eficazes para produzir quantas bênçãos ele desejar, inclusive a partir dos pecados humanos. Até Hitler tornar-se-ia desculpável, visto que tudo o que ele fez, em longo prazo, redundou em uma compaixão mundial pelo povo judeu. Deus abençoa o mundo apesar do pecado humano, não em parceria com ele! Não importa quantas bênçãos resultem de um pecado, ele deve ser repreendido. O mundo já tem uma proposição parecida: os fins justificam os meios.
           
-“Deus vê o coração”. A ideia é que qualquer coisa feita de coração está imune ao juízo. O humanista que propaga essa ideia ignora que o coração é a coisa mais maligna que Deus pode ver no ser humano. Ele vê o coração e só encontra idolatria e imoralidade, nunca intenções bondosas. Segundo Jeremias, o coração é o que há de mais enganoso no mundo. Segundo 1João, o coração é usado por nós mesmos para nos condenar, apesar de Deus nos ter justificado. Provérbios diz que devemos guardar o nosso coração acima de qualquer coisa. Se o coração fosse algo tão puro e bem intencionado, não haveria necessidade de tantas advertências. Saul desobedeceu a Deus, mas “de bom coração”, e recebeu como recompensa o fim do reinado, um espírito atormentador e uma morte sangrenta. Os filhos de Arão prestaram culto de coração, mas em desobediência à Lei, e foram mortos pelo fogo. Amor e obediência sempre andam juntos. Ninguém pode fazer nada por amor a Deus se não estiver debaixo de sua santa lei.
           
-“Você perde tempo só querendo conhecer, sendo que o que importa é viver”. Viver o quê? Acaso você vive alguma coisa que você não supõe conhecer? É sem razão que a Bíblia ordena a meditação na lei de Deus, o “gloriar-se em conhecer-me e compreender-me” (Jeremias 9:24), o falar sobre a Bíblia ao deitar, ao levantar e ao andar (Deuteronômio 6:7)? Foi por imaturidade que a Igreja em Jerusalém “perseverava na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42)? Jesus não se deixou enganar pela interpretação errada de um texto bíblico usado pelo diabo, porque ele conhecia não apenas alguns textos, mas sim todos eles, e a maneira certa de interpretá-los. Jesus repreendeu os samaritanos por "adorarem o que não conhecem" (João 4). E disse aos saduceus "Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". É pela muita vontade de praticar e nenhuma vontade de compreender que o povo da cristandade sai justificando qualquer tradição e moda, enganados por doutrinas vãs e falsas (Colossenses 2:8). 
           
-"Desse jeito, você acaba racionalizando a Bíblia e fechando o coração para a voz de Deus". Quem diz isso precisa, em primeiro lugar, definir o que é “racionalizar”, provar que as análises gramaticais, contextuais e históricas dos textos bíblicos são “racionalizações” e – o mais difícil – provar que o ouvir a voz de Deus só é possível ao excluir a tal “racionalização”. Nada disso tem apoio nas Escrituras. Examinar, meditar e estudar são encorajamentos das Escrituras para justamente proporcionar uma melhor compreensão sobre a vontade de Deus. Os apóstatas de Israel não se importavam com os profetas de Deus porque a lei havia sido jogada fora. “Meu povo perece por falta de conhecimento”. Além disso, a razão é uma faculdade humana que serve aos propósitos de Deus quando redimida. Quem acha que a razão é sempre algo ruim, associando-a sempre a ceticismo e humanismo, deve provar que o empirismo e o misticismo não sofrem da mesma deficiência, para oferecê-los como o caminho certo para “ouvir a voz de Deus”.
           
That’s all, folks.


            André Duarte