Tratemos agora da seguinte regra do culto público: a
reverência. Um princípio tão central e tão repudiado abertamente nas
pseudoigrejas atuais. Não que haja algo novo debaixo do sol, visto que até
Charles Spurgeon, há mais de 100 anos, já alertava para o mesmo problema. Mas o
império do entretenimento é mais forte agora do que jamais foi. Se o bondoso
Jesus Cristo não nos tivesse garantido que as portas do inferno não
prevaleceriam contra a sua Igreja, poderíamos ficar realmente desesperados
diante desse monstro secular, obeso que está de tanto engolir igrejas. Entretenimento
é o deus deste período, e tem sido adorado em falsas igrejas no lugar do Deus
verdadeiro, que exige reverência e temor no seu culto.
Há algum
problema com o entretenimento no culto particular? Certamente que não.
Divirta-se, assista a filmes, jogue Playstation, pratique esportes, dance e
festeje com seus amigos, tudo em gratidão a Deus por essas pequenas dádivas que
ele concede aos corações dos homens. Por que não? A diversão faz parte do
domínio do homem sobre a criação, da exploração do que Deus criou para a glória
dele. Deixar de se divertir é um pecado, inclusive. As pequenas alegrias da
vida são um fruto do trabalho do homem, um presente de Deus, e ninguém deve
negá-los. Mas o culto particular não deve ser confundido com o culto público.
Não apenas não encontramos nada na Bíblia que apoie o entretenimento no culto
público, como também encontramos uma exigência que lhe é incompatível, a
reverência. Que Eclesiastes 5 nos ensine.
Diz Salomão “Guarda o pé quando entrares no santuário de
Deus”. Embora, no contexto, ele esteja falando do culto no templo de Jerusalém,
permanece o princípio desse temor sempre que a Igreja se reunir para cultuar no
Dia do Senhor. Ele explica logo adiante a razão da reverência: Deus está no céu
e tu, na terra. A grandeza de Deus, sua soberania, seu poder incomensurável e
sua santidade absoluta – essas coisas devem inspirar em nós a reverência. Quem
trata culto como brincadeira não tem ideia do Deus que diz adorar. Pense que
Deus criou cada uma das estrelas com uma só palavra. Ele as chama e conhece
pelo nome (Is 40), todas elas. Cada uma delas, geralmente muito maior do que o
sol. O número é indizível, visto que só na nossa galáxia existem mais bilhões
de estrelas do que grãos de areia no planeta. E Deus criou cada uma, conhece cada
uma. Seu exército celestial, o universo que ele criou presta a ele toda a
adoração, toda a obediência (Ap 5). Ele é eterno, é o Princípio e o Fim. Ele
rege os mares e os ventos, faz e desfaz o que bem entender. Domina sobre as
nações e as vê como miniaturas. Você tem ideia de quem você está adorando
quando presta culto com a Igreja? E ainda há um detalhe que Salomão não sabia:
você tem a compreensão do que custou para que você, um verme imundo e cheio de
mácula, pudesse apresentar-se diante de tal Deus sem ser consumido por sua
santidade? Foi o Filho de Deus, o Deus encarnado, que tomou para si nossas
manchas, morrendo em nosso lugar, para que pudéssemos adentrar no Santo dos
Santos com intrepidez (Hb 9, 10). E você acha que o culto é pra fazer barulho e
divertir?
Que analogias poderiam nos ajudar aqui? Os que chamam o
entretenimento de “Deus” conhecem bem as suas. Para eles, o culto ao Deus
excelso é comparável ao futebol a que você assiste na TV. Ou ao show da sua
banda favorita. Dizem que, se ficamos exultantes, extravagantes e gritantes ao
ver nosso time fazendo gol, muito mais devemos pular e bancar os palhaços na
presença de Deus. A ideia é que o entretenimento do culto particular é apenas
um nível básico de entretenimento, e o Deus que dizemos amar acima de todas as
coisas é o Sumo Entretenimento, naturalmente dependente dos pressupostos laicos
sobre o que entretenimento significa. Já tive o desgosto de ouvir de pastores,
mais de uma vez, essa comparação entre Deus e o futebol. Se isso não é
idolatria demoníaca, não sei o que é. Esse tipo de blasfêmia apenas revela que
o homem idolatra seus entretenimentos laicos, não que ele ama Deus. Porém, os
que sabem que devem prestar reverência a Deus devem buscar analogias mais
adequadas. Na verdade, a própria Bíblia nos oferece essas analogias. Veja o
começo do profeta Malaquias, no qual Deus é o Sumo Pai, o Sumo Senhor. Veja o
começo de Isaías 1, em que nós somos o boi estúpido e Deus é o nosso dono. E o
que Daniel diz sobre Deus ser o Sumo Rei? Não é também isso que Paulo e João
dizem – Rei dos reis, Senhor dos senhores? Não é Jesus designado o Sumo Juiz?
Portanto, eis a analogia correta: se muito respeito, reverência e temor são
prestados a essas autoridades terrenas, muito mais deve ser atribuído ao Senhor
Deus do universo.
Reverência, então, deve ser um princípio presente em
todos os elementos de culto autorizados. A música deve ser executada com
solenidade e respeito. As orações precisam ser cautelosas com as palavras. A
pregação deve expor as Escrituras e o evangelho com todo o temor e consciência.
Todas as palhaçadas e as extravagâncias estão vetadas. Sua vontade de se
divertir e de expressar seus sentimentos de qualquer jeito não interessam. E
deixe para colocar o papo em dia com seus amigos depois do culto.
Eclesiastes 5 continua falando sobre o cuidado com a
quantidade de palavras. Deus está no céu e tu na terra; por isso, fale pouco. Do
muito falar, nasce a prosa vã do tolo. Isso significa que você simplesmente não
pode sair se expressando de qualquer jeito no culto. O culto não é lugar para
você desabafar seus sentimentos, contar suas histórias ou algo assim. É por
isso que testemunhos pessoais não fazem parte do culto público. Não é qualquer
um que pode falar em nome de Deus diante da assembleia. A mania atual de deixar
o culto em liberdade pras pessoas falarem o que quiserem, contarem histórias de
testemunhos, orarem da sua maneira pessoal e exacerbarem as emoções é errada e
danosa para o culto. Tenho certeza de que você já viu coisas vergonhosas brotarem
dessas práticas: a pessoa que conta um testemunho completamente maluco, a
oração que deixa escapar alguma bobagem, os gritos sem sentido. Culto não é
consultório de psicólogo pra você “se derramar” diante de Deus com suas falas e
emoções tolas. As ministrações pentecostais transgridem a reverência e o pouco
falar.
No Novo Testamento, temos algo parecido: o princípio de
Paulo em 1Coríntios 14 do “tudo seja feito com decência e ordem”. Ele estava
repreendendo o abuso do dom de línguas e do dom de profecias, em seus exemplos.
Mesmo nessa nova época de revelação, com abundância de dons sobrenaturais e
milagres, Paulo não deixou a coisa correr só na base da espontaneidade. Se
alguém profetizar, cale-se o primeiro, e os outros julguem o que for dito.
Quanto mais ordem deve existir no culto pós-apostólico, no qual tais espécies
de dons cessaram. As cartas pastorais deixam claro que quem fala durante o
culto é o presbítero. Somente o ministro ordenado tem a prerrogativa de fazer
pregações, falar em nome de Deus para o público. Nisso, o público deve
permanecer em silêncio, ouvindo a Palavra de Deus com alegria e fé. O ouvir é
elogiado por Salomão. Portanto, qualquer manifestação que atente contra a
reverência, solenidade, a ordem e a decência do culto é proibida.
O que são as liberações pentecostais, senão a
desobediência a esses princípios bíblicos? Desordem é a descrição precisa sobre
os momentos de "ministração": todos falando e chorando ao mesmo tempo,
manifestando-se como dá na telha. Gritos de “amém” e “glória a Deus” durante as
orações e o sermão parecem, na superfície, que estão exaltando o nome de Deus,
mas atentam contra a reverência e a ordem. Atrapalham o pregador e os outros
ouvintes, e nisso são contrários à edificação. Aplausos são inadequados, rompem
a solenidade e, principalmente, quebram com o Soli Deo Gloria: pois quem no
culto liberal recebe aplausos, senão os homens? Seja sincero, a mania do “uma
salva de palmas pra Jesus” é papo furado. Os aplausos são sim dados aos homens.
Se assim não fosse, não surgiriam sempre que uma música gospel animada acaba,
quando o pastor muda o tom e a cadência da voz para algo provocante, e assim
por diante. Não há diferença alguma entre os aplausos no culto e aqueles que
são prestados em shows laicos e em discursos passionais de políticos. E, se
alguém refuta essa “rigidez” alegando a liberdade do Espírito em nos mover,
digo que não é o Espírito Santo que dá glória a outro além de a Cristo, e não é
ele que inspira os homens a transgredir a Palavra que ele mesmo inspirou. É
blasfêmia da pior sorte pecar contra a Bíblia e atribuir ao Espírito o
mandatário.
Ainda sobre o uso de palavras e a reverência, Salomão
fala sobre o cuidado com os votos. Logo, o fazer votos faz parte sim do culto
público. Porém, por causa do temor a Deus, é necessário ter cautela com os
votos que se faz. É melhor não fazer votos do que fazê-los e não cumpri-los.
Sendo assim, nenhum ministro deve constranger o seu público a fazer votos. É
ridículo quando o pastor ordena à congregação que faça compromissos como ler a
Bíblia todo dia durante a semana, falar de Jesus pra pelo menos uma pessoa,
entrar numa “corrente de jejum” ou coisa do tipo. E o público prefere fazer o
voto só de boca (ou levantando a mão) a passar a vergonha de ser coerente. Isso
deve nos levar também à seriedade do chamado à conversão: ninguém deve ir a
Cristo precipitadamente, sem antes “calcular o custo da casa”, como Jesus diz
em Lucas. Fazer o voto de tornar-se discípulo de Jesus é o mais sério dos
votos, e aqueles que voltam em sua decisão são apóstatas punidos com a ira
irrevogável de Deus (Hb 6). Por isso, é um pecado colocar como parte da liturgia
o apelo ou qualquer exigência geral de que se faça um compromisso com Deus:
quem pode saber se realmente deseja seguir Jesus por causa de uma hora de
culto?
Se o culto não for voltado para a reverência,
inevitavelmente ele voltará ao entretenimento e a vários outros acréscimos que
mais servem ao mundo que a Deus. Muitos argumentam que isso é necessário hoje
em dia, porque o culto tradicional é antiquado e ineficaz para alcançar as
pessoas. Isso é mentira. O culto voltado para Deus, regulado pela sua Palavra,
é o único que ensina aos homens o caráter do verdadeiro Deus. Os outros apenas
oferecem às pessoas aquilo que querem. E, ironicamente, até nisso eles falham.
Ora, os mundanos não são bobos. Eles sabem muito bem quando uma igreja quer
passar uma imagem “cool”, quando ela vê o descrente de uma maneira
estereotipada e preconceituosa. Nenhum mundano que se dispõe a ir à igreja está
buscando um clube social gospel. A única coisa que uma igreja consegue quando
mistura o evangelho com o mundo é tornar o mundo mais chato e ridículo. Quem
vai trocar shows laicos por shows gospel? Vi uma frase em Os Simpsons sobre
isso muito perspicaz: “Stop! You’re
not making Christianity better, you’re just making rock-and-roll worse”. As
poucas pessoas que realmente aderem à moda do entretenimento gospel são as que
veem o evangelho como a cereja do bolo, o pedacinho que faltava na vida para dar uma consciência auto-justificada. No geral, os mundanos que se dão ao trabalho
de visitar uma igreja estão buscando nela justamente algo respeitoso, solene, diferente
do que eles veem no mundo. E um culto público feito com reverência é o melhor
testemunho que uma igreja pode dar. A igreja que oferece entretenimento é
apenas a concorrente mais incompetente contra as ofertas do mundo.
Entenda que Jesus não é “tão humano” que permita que sua
divindade seja sacrificada. Ele é perfeitamente humano, sim, mas não com as
mesmas manchas que nós temos. Sendo assim, ele não é o seu amigão, o seu
camarada gente boa que deixa você fazer cultos maneiros. Sua amizade e seu
companheirismo devem ser compreendidos à luz da Bíblia, e não à luz do que nós
achamos que um amigo deve ser. Qual dos seus amigos lhe dirá “Serás meu amigo
se fizeres o que ordeno”? Jesus é o seu Rei, o seu Soberano, e ele não
relativizará isso em prol da sua “amizade”.
Reverência e liberalidade não são questões culturais. São
questões reguladas pela Bíblia. O culto reverente e solene não é uma das formas
possíveis na diversidade do planeta: é a única forma certa. Se você congrega em
uma igreja estilo clube social ou estilo rock-and-roll, ou ainda – por que não?
– estilo pentecostal, desordeiro e gritante, é melhor mudar-se para uma que
segue o PRC.
André Duarte

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