Vamos agora aplicar os princípios já colocados aos
elementos de culto que a Bíblia autoriza. Só para relembrar em poucas palavras,
os princípios são: regulamento claro das Escrituras; reverência; ordem e
decência; uso de palavras, especialmente as palavras da Bíblia; relevância para
a edificação coletiva. Antes de começarmos a entender como deve ser a oração no
culto público, é necessário dedicar um pequeno espaço para o esclarecimento das
coisas que pertencem à categoria do adiaphora.
Esse termo
grego adiaphora – ou simplesmente
adiáfora, pela transliteração – significa indiferente, ou insignificante, coisa
que não é proibida nem permitida. Ora, já deixamos claro que os elementos de
adoração são regulados expressamente pela Escritura e que a adição de elementos
humanos não autorizados é errado. O que podem ser, então, as coisas adiáforas?
São aquelas que não configuram elementos de culto, mas sim circunstâncias em
que a adoração é prestada. São as que tornam humanamente possíveis as formas de
adoração, ou que, pelo menos, dão grande ajuda, sem tornarem-se propriamente
adoração em si. Horário de culto, por exemplo. A Bíblia não diz a que horas
deve começar e a que horas deve terminar o culto. Porém, se não houver nenhuma
hora, não pode haver culto. Então, os representantes da Igreja devem escolher
as horas com base na conveniência das circunstâncias. Ou então: deve haver
assentos? Se sim, de qual tipo: bancos, cadeiras de plástico ou cadeiras
comuns? Nesse caso, alguém até poderia inferir que as casas em que a Igreja se
reunia na época do Novo Testamento certamente continham assentos. Mas, a Bíblia
mesmo não diz nada. Porém, se não houver assento nenhum, o culto perde sua
característica pública e torna-se inviável. Pois quantas pessoas podem
permanecer em pé por pelo menos uma hora? E, dessas, quais realmente disporão
seus corações à edificação no culto, em vez de desviarem a mente para as dores
nas pernas? Assim, é sábio que haja assentos, e do tipo que atender melhor ao
princípio da edificação mútua e pública.
Sobre a
oração, quais coisas são adiáforas? Primeiro, algo que vale para todos os
outros elementos: a ordem que ocupa entre os outros elementos. Isto é, a Bíblia
não diz se a oração vem depois do cântico, se vem antes da pregação, se depois
dos sacramentos. Mas ela deve existir em algum momento. Os representantes da
Igreja, então, escolhem em que ordem a oração é feita. E são quantas as orações?
A Bíblia também não diz. O único elemento associado diretamente à oração é o
sacramento da ceia (1Co 10:16). Mas, há diversos conteúdos que devem estar
presentes na oração pública, e muitos deles não têm qualquer relação com a
ceia. Então, é bom que haja mais de uma oração, em momentos diferentes, de
forma a abarcar todas as coisas essenciais pelas quais se deve orar. E por
quanto tempo deve durar a oração? Naturalmente, não deve ser tão curta que
omita um conteúdo importante ou que falhe em expressar as ânsias do povo. Por
outro lado, não deve ser tão longa que eclipse a centralidade da pregação da
Palavra, que seja insuportável para os membros manterem a atenção, que torne-se
vã repetição e que perca o seu caráter público para transformar-se em uma
expressão pessoal de quem estiver orando. Então, que os ministros que orarem
sejam sábios quanto à administração dessas coisas.
Passemos a pontos mais sérios. Quem deve realizar a
oração pública? Naturalmente, todos os crentes são chamados a orar. Mesmo as
mulheres, que não podem exercer ofício de ensino público, oravam juntamente com
os homens (1Co 11:4, 5). Paulo diz à Igreja indistintamente para orarem sempre e
com gratidão (1Ts 5:17, 18), e que os homens devem orar em todo lugar (1Tm
2:8). Agora, uma conclusão errada sobre essa verdade é que, na oração, todas as
pessoas devem orar e falar ao mesmo tempo as suas orações particulares. Nas
narrativas bíblicas, não vemos nem um único exemplo disso acontecendo; ao
contrário, é uma só pessoa que ora enquanto as outras ficam em silêncio (2Cr
6:12-42; Ed 9:5-10:1), ou, dito de outra forma, havia uma só oração feita por
várias pessoas (Ne 9:4-37; At 4:24-31). Isso implica em que a oração falada da
Igreja deve ser feita por um representante do povo, e as pessoas devem orar em
silêncio concordando com o que ouvem. À primeira vista, isso não parece ser uma
oração coletiva. Fica a impressão de que uma pessoa orando e as outras ouvindo
é como restringir a oração ao ministro e impedir os outros de orarem. Por outro
lado, se todos levantarem a voz ao mesmo tempo, então a oração é participativa
e, portanto, coletiva. Porém, quando isso é colocado em prática, vemos que é
exatamente ao contrário. Pois, se todos oram em voz alta ao mesmo tempo, cada um
com as suas palavras, então cada pessoa não entenderá a outra. Se ela prestar
atenção na oração da outra, parará de atentar para a própria fala. Não haverá o
“a uma só voz”. Em vez disso, o resultado será que cada pessoa orará individualmente,
e a coletividade significará nada mais que a contingência geográfica. Será a
soma de orações individuais, e não uma oração do povo de Deus. Essa forma de
oração, portanto, não é mutuamente edificante, não expressa a união da Igreja e
não é adequada para o culto público.
Se, ao
contrário, houver uma só pessoa orando em voz alta e todas as outras
concordando com o que é dito, então sim, todos oram juntos e com uma só mente e
um só propósito. E essa oração deve ser representativa para a Igreja. O
ministro que realiza as orações deve orar aquilo que for adequado para que toda
a Igreja concorde. Ele deve, então, ser cauteloso para não colocar a sua subjetividade
no centro das palavras, mas sim os assuntos comuns, que forem relevantes para a
congregação. Que seja, portanto, uma só oração por vez. Existe apenas uma
possibilidade para que todas as pessoas orem em voz alta juntas: por meio de um
tipo de livro de orações. É o caso em que já existem orações prescritas, e a
congregação lerá as palavras de cada oração em uníssono. Embora isso seja
possível, é menos preferível do que a oração representativa. Pois orações fixas
e preordenadas frequentemente falham em expressar os motivos do povo de Deus
relacionados às circunstâncias, que são bem flexíveis. A oração representativa
pode ter essa flexibilidade, nuances que se adequam melhor à circunstância de
cada dia. É possível colocar orações prescritas, mas elas não devem, de forma
alguma, suprimir as orações representativas.
Vamos agora ao assunto mais palatável: por que motivos
deve a Igreja orar? Ao contrário da espontaneidade quase sem limites que vigora
nas igrejas modernas, a Bíblia deixa bem claro quais motivos são legítimos e,
inclusive, obrigatórios para serem levados à oração, e que tipo de motivo é
proibido. Em Tiago 4, Deus proíbe que oremos por motivos egoístas e mesquinhos.
Quanto aos ordenados, o que poderia ser melhor do que o livro de Salmos? Pense
que Deus não apenas comanda o seu povo para que ore, mas que também entregou as
palavras que ele quer que usemos, e os assuntos que ele deseja que tragamos. As
orações nos salmos declaram quem Deus é: sua eternidade, sua soberania, sua
santidade, sua justiça, sua misericórdia, sua providência, seu poder criador e
redentor. Há muitos agradecimentos por livramentos, dos quais o central é o que
hoje sabemos: a libertação que Cristo efetuou na cruz para nós. Há também
gratidão pelas bênçãos particulares e históricas do Senhor: o que ele já fez
pelo seu povo, acontecimentos especiais, eventos importantes, pequenas graças
que ele nos concede diariamente. E há confissão de pecados diversas vezes, com
o reconhecimento de nossa miséria e com a certeza da misericórdia de Deus.
Além desse livro maravilhoso de orações e cânticos, Jesus
ainda nos deu a Oração Dominical, a qual Martinho Lutero disse amar mais do que
a todos os salmos juntos. Sabemos que essa oração nos é dada para o culto
público por causa da introdução “Pai nosso”, algo que ficaria estranho se
aparecesse em uma oração particular. Nela, aprendemos que devemos orar pelo
reconhecimento da santidade do nome de Deus em toda a terra e em nossas vidas;
pela expansão do Reino de Deus e pela derrota do reino de Satanás; pela
rendição de todos os seres da terra à vontade perfeita de Deus; pela provisão
básica de que precisamos diariamente; pelo perdão de nossos pecados e pela
capacitação para o perdão ao próximo; pelo livramento de pecados posteriores. Cada
petição da Oração Dominical pode ser desdobrada em inúmeras especificidades.
Por exemplo, a petição do “Santificado seja o vosso nome” inclui: o sucesso das
obras missionárias, o amadurecimento do povo de Deus, a tradução de Bíblias
para diversos idiomas, o arrependimento dos inimigos da Igreja etc. E assim por
diante.
Mas ainda há mais. Os apóstolos adicionam outros motivos
importantes da oração pública. Os ministros devem orar em favor dos doentes (Tg
5:14), em favor do alívio das ansiedades da vida do povo (Fp 4:6), pela
intrepidez na pregação do evangelho (At 4:29), por causas particulares de indivíduos
em circunstâncias especiais (At 12:5; Rm 15:30; Ef 6:19; Hb 13:18 etc), pela
coragem diante do fim do mundo (1Pe 4:7), pelo envio de missionários (At.
13:3), pelos governantes civis (1Tm 2:1, 2; cf. também Ed 6:10). Esse último
motivo é interessante para nós que vivemos em Brasília, sede do governo. Dos
crentes que reclamam do governo e da corrupção, quantos têm o hábito de orar
sobre essas coisas? E quantas vezes vemos os pastores orando com a Igreja pela
justiça civil? Um dos melhores testemunhos da Igreja perseguida por Roma foi o
hábito de que ela orava pelo imperador. Tertuliano usou esse argumento na sua
apologia. E é um motivo importantíssimo a oração pelos governantes, porque
deles dependerá a paz da Igreja.
Faltou
fazer algumas aplicações mais pontuais dos princípios. A oração deve ser feita
com sobriedade e seriedade. Nada de fazer piadinhas na oração. Também a fala
com Deus deve ser permeada por um senso de submissão e respeito. Jesus é nosso
amigo, mas é Rei e Senhor. Para quem não consegue conjugar bem a segunda
pessoa, que se dirija a Deus com o termo “Senhor”. Chamá-lo de “você” é uma
intimidade que, ao meu ver, é exagerada, pelo menos para a solenidade do culto
público. O termo mais íntimo que ele nos concedeu para que o chamemos é “Pai” e
devemos encontrar nisso o limite. Outra aplicação do princípio da edificação
mútua é que o pastor não pode orar “em línguas”. Essa mania carismática deve
ser execrada, pois é uma transgressão explícita de todo o argumento de
1Coríntios 14. De fato, não há nenhuma diferença entre o pastor pentecostal que
ora em línguas e o padre medieval que prega em latim.
Por fim, a
Igreja pode ter a confiança e a ousadia de orar a Deus porque Jesus Cristo nos
tornou apresentáveis à presença dele, por meio da imputação dos seus méritos e
da dádiva do livre acesso ao trono da graça (Hb 10:19-22). É isso que significa
orar “em nome de Jesus”: orar com base na obra de reconciliação e purificação
realizada por ele. Se orássemos em nosso próprio nome, seríamos amaldiçoados,
pois Deus detesta a prece do ímpio (Pv 15:29; 28:9). E, se falhamos em orar
segundo o padrão de Deus, temos o conforto do Santo Espírito que nos auxilia na
intercessão (Rm 8:26, 27). E o próprio Cristo intercede continuamente diante do
Pai em nosso favor, apelando ao seu sacrifício único. Que a Igreja tenha
certeza de que, sempre que ela orar, toda a Trindade estará envolvida nessa
atividade. E nisso nós podemos descansar.
André
Duarte

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