1. Expondo o problema.
Vamos
passar agora a esse tema tão complexo da música no culto público, chamada
comumente de “louvor”. Talvez não haja nada mais paganizado na liturgia
dominical do que o elemento da música. E não é difícil entender o porquê. Música
é um dos maiores ídolos da humanidade, sempre foi. A música sempre serviu como
meio de expressão subjetiva, como uma arte que atinge as profundezas da alma
como nenhuma outra. Porém, desde a revolução do Rock, a música atingiu um nível
de influência astronômico, quase que de governo sobre o pensamento humano, por
causa da mistura com a indústria, o consumismo e a ideia de liberdade de
expressão. E, sendo a música também um elemento de culto público ordenado por
Deus nas Escrituras várias vezes, uma batalha pela pureza do culto foi travada,
uma batalha teológica, que deveria “distinguir o santo e o profano”. Os
evangélicos, infelizmente, foram devastados nesse embate, absorvidos pelas
bases mundanas. Ainda que muitos deles ainda entendam que deve haver base
bíblica para as orações, a pregação da Palavra e os sacramentos, quase nenhum
aplicará o mesmo à música. Dirão, ao contrário, que, na música, o que importa é
o coração, a intenção, e que qualquer regra que porventura os tempos mais
sábios já impuseram à música é mera norma de cultura.
O mais
estranho é que ainda existem vários evangélicos que tentam colocar normas na
música, mas as normas erradas. Misturam legalismo com mundanismo em um
raciocínio praticamente sectário. A mais comum, penso eu, é a distinção
maniqueísta entre música de louvor e música do mundo. Músicas que falem de Deus
são liberadas, e músicas laicas são todas pecaminosas. Augustus Nicodemos
apontou com maestria a inconsistência dessa regra carnal. Se música produzida
por artistas mundanos é um pecado, então todas as outras produções mundanas
também devem ser: logo, não podemos usar roupas, nem comprar comida, nem
habitar em lugares feitos por mundanos. Isso torna a vida impossível. Se música
mundana é a que expressa valores mundanos, então quase todas as músicas gospel
devem ser também execradas por suas heresias. Além disso, todo tipo de lazer
deveria ser também proibido, pois todos eles refletem algum grau de mundanismo.
Porém, as Escrituras comandam o lazer com vistas à glória de Deus (Ec 9:7-10),
e de forma alguma encorajam esse ascetismo maniqueísta grego (1Co 5:9, 10; Cl
2:20-23). Naturalmente, espera-se que o cristão não se divirta com músicas que
encorajam o pecado, mas criar regras que façam esse tipo de distinção entre
coisas de Deus e coisas do mundo é moralismo de gente imatura.
A distinção
é, mais uma vez, entre os pressupostos do culto particular e os do culto
público. No culto particular, podemos inventar o que quisermos que não seja
transgressor para glorificar Deus. No culto público, devemos nos ater ao que a
Bíblia manda e não trazer as coisas mundanas. Porém, vou mais longe e afirmo
que há certas coisas muito comuns na música evangélica que são erradas em
qualquer dos cultos. É óbvio que músicas com letras hereges são pecaminosas em
toda circunstância. São inumeráveis as músicas gospel que são autocentradas,
lançam ao chão a soberania e a santidade de Deus e tornam-no um terapeuta bobo,
um namorado ou um Papai Noel. Ora, se ninguém pode glorificar Deus cometendo
prostituição, por que alguém pensa que pode fazer isso usando em vão o nome
dele, dizendo mentiras sobre o seu santo nome? E, tal qual os falsos profetas e
blasfemos eram punidos com morte na Bíblia, também qualquer artista gospel que
espalhe mentiras sobre Deus não deve ser apoiado pelo povo de Deus, mas sim
excomungado e declarado anátema (já que homicídio é pecado e o Estado, único
ente que poderia aplicar a pena de morte bíblica, não faz isso). Deixo pra
vocês ruminarem as consequências disso.
2. Sejam as letras ditadas pela Escritura e
pela reverência.
Sobre o quê
eram os cânticos? Quais eram as letras? Já vimos que os salmos eram usados na
música. Os puritanos mais conservadores, por causa disso, pregam a salmodia
exclusiva: que somente os salmos, e todos os salmos, devem ser cantados na
Igreja. A composição espontânea é proibida. Afinal, a Bíblia nunca autorizou
pessoas não inspiradas por Deus para compor seus próprios cânticos espirituais
e colocá-los na Igreja; em lugar disso, o Espírito concedeu esse maravilhoso
livro de salmos. O argumento é bom e tem muitas consequências positivas: a
entrada de letras hereges fica impedida com maior eficiência, a conservação e o
equilíbrio dos temas das letras ficam bem próximos do que a Bíblia ordena, e
outras. Ainda assim, deve-se perceber que nem todos os salmos bíblicos são
feitos especialmente para serem cantados. Muitos são orações, outros são
ensinos sapienciais. Vemos vários cânticos na Bíblia que não são salmos (por
exemplo, o Magnificat de Maria).
Embora eles sejam inspirados e não equiparáveis a composições não inspiradas
atuais, fica difícil arrazoar que outros cânticos além dos salmos não eram
cantados pela Igreja. Além disso, a metrificação dos salmos acaba por
transformá-los em músicas que se parecem com eles, mas que não são realmente os
próprios salmos exatos. Portanto, se a metrificação é uma atividade não
inspirada em cima dos salmos, fica incoerente proibir que haja composições
cujos versos sejam também extraídos das Escrituras inspiradas.
Ora, há
tantos cânticos no livro dos salmos, inspirados, inerrantes, perfeitos,
entregues por Deus para que o seu povo cante a ele! É um pecado
negligenciá-los. É uma desonra omiti-los. Os salmos devem sim ser cantados pela
Igreja. Assim como Deus inspirou orações para nos mostrar como orar, também ele
inspirou músicas para nos ensinar a cantar. Muitas igrejas praticamente
abandonaram os salmos, e isso é terrível. Que músico pode arrogar que suas
composições são melhores do que as de Deus? Se alguém quiser compor músicas,
que extraia das palavras das Escrituras as letras. A criatividade é perigosa
nesse ponto. Músicas de louvor não podem ter como base a expressão subjetiva do
que o homem sente sobre Deus. Devem ser declarações verdadeiras a respeito de
quem Deus é e do que ele faz por nós na providência e na redenção. Elas devem
expor a majestade de Deus e a fragilidade do homem, e não o fervor do homem e a
doçura de Deus. As letras mundanas, com seu sentimentalismo hollywoodiano,
tornaram-se fonte de inspiração, mesmo que inconsciente, para os músicos
crentes. Muitas músicas gospel são praticamente declamações apaixonadas por um
namorado. Ou petições a respeito de sentimentos e liberdade de expressão, que,
misturados com a Bíblia, resultam em coisas estranhas. Não interessa se você
quer dançar na chuva ou sentir o fogo – essas coisas não são bíblicas.
O que as
letras dos salmos dizem sobre Deus? O que os cânticos de Moisés, Débora, Davi,
Maria e Zacarias dizem? Não devem esses temas ditarem o que cantamos? Como não
cantar sobre Cristo, sobre a salvação e graça soberana do Senhor? Por isso,
Paul Washer já disse que os músicos crentes que atuam no culto devem ser bons
de teologia. Se os músicos passarem mais tempo lendo a Bíblia e outros livros
teológicos e menos tempo tentando expressar os seus sentimentos ao som do
violão, conseguirão produzir músicas corretas.
3. Sejam as letras ditadas,
secundariamente, pelo princípio da edificação mútua.
Não basta
que as músicas no culto público usem palavras da Escritura. Os versos devem
tomar temas relevantes para o propósito do culto dominical, e não aqueles que,
fora de seu contexto, destroem e não edificam. Um exemplo bem simples: a famosa
música de prosperidade que segue Deuteronômio 28 e outras bênçãos da Lei bem de
perto, dizendo que os celeiros se encherão, que possuiremos qualquer lugar onde
pisemos os pés, etc. Essas coisas são bíblicas, mas não são adequadas para a
canção na Igreja. Fora de seu contexto, viram teologia da prosperidade, o maior
horror de nosso tempo. Essa música torna-se um cântico que só louva o próprio
homem e aplica de forma errada as bênçãos prometidas por Deus (as bênçãos
materiais da Lei são prometidas para a nação, e não para o nível individual).
Também transgridem esse princípio todas as músicas que falam sobre coisas
transitórias do Antigo Testamento – arca, Santo dos Santos, etc – e sobre
metáforas vagas. Nisso, as músicas gospel são mestres. Isto é, Jesus compara o
Espírito Santo a rios de águas vivas. Aí, o músico gospel compõe uma música que
só fala de água, e nada de Deus. Isso é totalmente inadequado. Metáforas
bíblicas nunca são usadas sem explicação e como centro de uma exposição; são
meramente incidentais. São usadas para clarear o entendimento teológico. Nas
músicas gospel, em vez disso, só obscurecem o significado espiritual e
tornam-se balbuciações vagas pelo povo de Deus.
Além disso,
os cânticos devem cantar sobre Deus e sua salvação. É isso que celebramos no
culto dominical. Dessa forma, estão também proscritas as músicas que exaltam
personagens e narrativas bíblicas. No culto, nós vamos cantar sobre Jesus
Cristo, e não sobre Josué, Davi ou Abraão. Embora músicas sobre personagens
bíblicos sejam boas para instrução em outros contextos, não correspondem à
finalidade do culto público. Consequentemente, não atendem ao princípio da
edificação mútua. Por quê? Não podemos aprender com o exemplo dos “heróis da
Bíblia”? O ponto é que o propósito deles na história bíblica nunca foi servir de
exemplo público. O nosso único inspirador e exemplo deve ser Jesus Cristo, e a
história desses homens é sobre o que Deus fez por eles, e não sobre o exemplo
próprio. É tolice cantar sobre pecadores salvos em lugar de cantar sobre o
Salvador. Não é para eles o culto, não é sobre eles, mas sim para e sobre o
Senhor.
Por fim, as
letras de músicas devem ser, além de ortodoxas, profundas e instrutivas. Os
cânticos são declarações artísticas sobre verdades de Deus. Eles devem conter
teologia dita de forma simples, mas profunda, que realmente inspire a
congregação a apreender no coração a revelação bíblica de Deus. Isso é
edificação espiritual. Pensar que edificação é fazer o povo chorar e se
emocionar é tolice, é doutrina mundana não bíblica. Edificação tem a ver com fé
e com aprendizado, não com provocar expressões emocionais. Com isso, não
negamos a emoção, mas a colocamos no lugar certo: como resultado da verdade
crida e amada, e não como sinal de devoção. Emoções só duram um instante, mas a
crença na verdade é perpétua. Colocar
letras emotivas e não instrutivas é como colocar um vácuo na adoração.
O próximo
post tratará das outras coisas: estilo de música, papel da equipe de louvor,
etc.
André
Duarte

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