quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PRC 5 – Música no louvor – Parte 1/2 - Sobre as letras


            1. Expondo o problema.

Vamos passar agora a esse tema tão complexo da música no culto público, chamada comumente de “louvor”. Talvez não haja nada mais paganizado na liturgia dominical do que o elemento da música. E não é difícil entender o porquê. Música é um dos maiores ídolos da humanidade, sempre foi. A música sempre serviu como meio de expressão subjetiva, como uma arte que atinge as profundezas da alma como nenhuma outra. Porém, desde a revolução do Rock, a música atingiu um nível de influência astronômico, quase que de governo sobre o pensamento humano, por causa da mistura com a indústria, o consumismo e a ideia de liberdade de expressão. E, sendo a música também um elemento de culto público ordenado por Deus nas Escrituras várias vezes, uma batalha pela pureza do culto foi travada, uma batalha teológica, que deveria “distinguir o santo e o profano”. Os evangélicos, infelizmente, foram devastados nesse embate, absorvidos pelas bases mundanas. Ainda que muitos deles ainda entendam que deve haver base bíblica para as orações, a pregação da Palavra e os sacramentos, quase nenhum aplicará o mesmo à música. Dirão, ao contrário, que, na música, o que importa é o coração, a intenção, e que qualquer regra que porventura os tempos mais sábios já impuseram à música é mera norma de cultura.
           
O mais estranho é que ainda existem vários evangélicos que tentam colocar normas na música, mas as normas erradas. Misturam legalismo com mundanismo em um raciocínio praticamente sectário. A mais comum, penso eu, é a distinção maniqueísta entre música de louvor e música do mundo. Músicas que falem de Deus são liberadas, e músicas laicas são todas pecaminosas. Augustus Nicodemos apontou com maestria a inconsistência dessa regra carnal. Se música produzida por artistas mundanos é um pecado, então todas as outras produções mundanas também devem ser: logo, não podemos usar roupas, nem comprar comida, nem habitar em lugares feitos por mundanos. Isso torna a vida impossível. Se música mundana é a que expressa valores mundanos, então quase todas as músicas gospel devem ser também execradas por suas heresias. Além disso, todo tipo de lazer deveria ser também proibido, pois todos eles refletem algum grau de mundanismo. Porém, as Escrituras comandam o lazer com vistas à glória de Deus (Ec 9:7-10), e de forma alguma encorajam esse ascetismo maniqueísta grego (1Co 5:9, 10; Cl 2:20-23). Naturalmente, espera-se que o cristão não se divirta com músicas que encorajam o pecado, mas criar regras que façam esse tipo de distinção entre coisas de Deus e coisas do mundo é moralismo de gente imatura.

A distinção é, mais uma vez, entre os pressupostos do culto particular e os do culto público. No culto particular, podemos inventar o que quisermos que não seja transgressor para glorificar Deus. No culto público, devemos nos ater ao que a Bíblia manda e não trazer as coisas mundanas. Porém, vou mais longe e afirmo que há certas coisas muito comuns na música evangélica que são erradas em qualquer dos cultos. É óbvio que músicas com letras hereges são pecaminosas em toda circunstância. São inumeráveis as músicas gospel que são autocentradas, lançam ao chão a soberania e a santidade de Deus e tornam-no um terapeuta bobo, um namorado ou um Papai Noel. Ora, se ninguém pode glorificar Deus cometendo prostituição, por que alguém pensa que pode fazer isso usando em vão o nome dele, dizendo mentiras sobre o seu santo nome? E, tal qual os falsos profetas e blasfemos eram punidos com morte na Bíblia, também qualquer artista gospel que espalhe mentiras sobre Deus não deve ser apoiado pelo povo de Deus, mas sim excomungado e declarado anátema (já que homicídio é pecado e o Estado, único ente que poderia aplicar a pena de morte bíblica, não faz isso). Deixo pra vocês ruminarem as consequências disso.

2. Sejam as letras ditadas pela Escritura e pela reverência.

 Como sabemos que os cânticos fazem parte do culto público? Em primeiro lugar, Davi instituiu sob inspiração divina o ofício de músicos para um certo grupo de levitas (1Cr 25). As músicas que eles executavam eram os salmos de música que se encontram no livro dos Salmos. Asafe e Hemã foram dois proeminentes compositores. E os próprios salmos conclamam o povo para participar dos cânticos. É indubitável que as músicas eram parte do culto no templo de Jerusalém. No Novo Testamento, embora o templo e o ministério dos levitas tenha cessado – sim, não existem mais levitas na Igreja – a prática de cantar salmos continuou (Ef 5:19; Cl 3:16; cf. também Tg 5:13). Isso é suficiente para provar que a música é necessária no culto público.

Sobre o quê eram os cânticos? Quais eram as letras? Já vimos que os salmos eram usados na música. Os puritanos mais conservadores, por causa disso, pregam a salmodia exclusiva: que somente os salmos, e todos os salmos, devem ser cantados na Igreja. A composição espontânea é proibida. Afinal, a Bíblia nunca autorizou pessoas não inspiradas por Deus para compor seus próprios cânticos espirituais e colocá-los na Igreja; em lugar disso, o Espírito concedeu esse maravilhoso livro de salmos. O argumento é bom e tem muitas consequências positivas: a entrada de letras hereges fica impedida com maior eficiência, a conservação e o equilíbrio dos temas das letras ficam bem próximos do que a Bíblia ordena, e outras. Ainda assim, deve-se perceber que nem todos os salmos bíblicos são feitos especialmente para serem cantados. Muitos são orações, outros são ensinos sapienciais. Vemos vários cânticos na Bíblia que não são salmos (por exemplo, o Magnificat de Maria). Embora eles sejam inspirados e não equiparáveis a composições não inspiradas atuais, fica difícil arrazoar que outros cânticos além dos salmos não eram cantados pela Igreja. Além disso, a metrificação dos salmos acaba por transformá-los em músicas que se parecem com eles, mas que não são realmente os próprios salmos exatos. Portanto, se a metrificação é uma atividade não inspirada em cima dos salmos, fica incoerente proibir que haja composições cujos versos sejam também extraídos das Escrituras inspiradas.

Ora, há tantos cânticos no livro dos salmos, inspirados, inerrantes, perfeitos, entregues por Deus para que o seu povo cante a ele! É um pecado negligenciá-los. É uma desonra omiti-los. Os salmos devem sim ser cantados pela Igreja. Assim como Deus inspirou orações para nos mostrar como orar, também ele inspirou músicas para nos ensinar a cantar. Muitas igrejas praticamente abandonaram os salmos, e isso é terrível. Que músico pode arrogar que suas composições são melhores do que as de Deus? Se alguém quiser compor músicas, que extraia das palavras das Escrituras as letras. A criatividade é perigosa nesse ponto. Músicas de louvor não podem ter como base a expressão subjetiva do que o homem sente sobre Deus. Devem ser declarações verdadeiras a respeito de quem Deus é e do que ele faz por nós na providência e na redenção. Elas devem expor a majestade de Deus e a fragilidade do homem, e não o fervor do homem e a doçura de Deus. As letras mundanas, com seu sentimentalismo hollywoodiano, tornaram-se fonte de inspiração, mesmo que inconsciente, para os músicos crentes. Muitas músicas gospel são praticamente declamações apaixonadas por um namorado. Ou petições a respeito de sentimentos e liberdade de expressão, que, misturados com a Bíblia, resultam em coisas estranhas. Não interessa se você quer dançar na chuva ou sentir o fogo – essas coisas não são bíblicas.

O que as letras dos salmos dizem sobre Deus? O que os cânticos de Moisés, Débora, Davi, Maria e Zacarias dizem? Não devem esses temas ditarem o que cantamos? Como não cantar sobre Cristo, sobre a salvação e graça soberana do Senhor? Por isso, Paul Washer já disse que os músicos crentes que atuam no culto devem ser bons de teologia. Se os músicos passarem mais tempo lendo a Bíblia e outros livros teológicos e menos tempo tentando expressar os seus sentimentos ao som do violão, conseguirão produzir músicas corretas.

3. Sejam as letras ditadas, secundariamente, pelo princípio da edificação mútua.

Não basta que as músicas no culto público usem palavras da Escritura. Os versos devem tomar temas relevantes para o propósito do culto dominical, e não aqueles que, fora de seu contexto, destroem e não edificam. Um exemplo bem simples: a famosa música de prosperidade que segue Deuteronômio 28 e outras bênçãos da Lei bem de perto, dizendo que os celeiros se encherão, que possuiremos qualquer lugar onde pisemos os pés, etc. Essas coisas são bíblicas, mas não são adequadas para a canção na Igreja. Fora de seu contexto, viram teologia da prosperidade, o maior horror de nosso tempo. Essa música torna-se um cântico que só louva o próprio homem e aplica de forma errada as bênçãos prometidas por Deus (as bênçãos materiais da Lei são prometidas para a nação, e não para o nível individual). Também transgridem esse princípio todas as músicas que falam sobre coisas transitórias do Antigo Testamento – arca, Santo dos Santos, etc – e sobre metáforas vagas. Nisso, as músicas gospel são mestres. Isto é, Jesus compara o Espírito Santo a rios de águas vivas. Aí, o músico gospel compõe uma música que só fala de água, e nada de Deus. Isso é totalmente inadequado. Metáforas bíblicas nunca são usadas sem explicação e como centro de uma exposição; são meramente incidentais. São usadas para clarear o entendimento teológico. Nas músicas gospel, em vez disso, só obscurecem o significado espiritual e tornam-se balbuciações vagas pelo povo de Deus.

Além disso, os cânticos devem cantar sobre Deus e sua salvação. É isso que celebramos no culto dominical. Dessa forma, estão também proscritas as músicas que exaltam personagens e narrativas bíblicas. No culto, nós vamos cantar sobre Jesus Cristo, e não sobre Josué, Davi ou Abraão. Embora músicas sobre personagens bíblicos sejam boas para instrução em outros contextos, não correspondem à finalidade do culto público. Consequentemente, não atendem ao princípio da edificação mútua. Por quê? Não podemos aprender com o exemplo dos “heróis da Bíblia”? O ponto é que o propósito deles na história bíblica nunca foi servir de exemplo público. O nosso único inspirador e exemplo deve ser Jesus Cristo, e a história desses homens é sobre o que Deus fez por eles, e não sobre o exemplo próprio. É tolice cantar sobre pecadores salvos em lugar de cantar sobre o Salvador. Não é para eles o culto, não é sobre eles, mas sim para e sobre o Senhor.

Por fim, as letras de músicas devem ser, além de ortodoxas, profundas e instrutivas. Os cânticos são declarações artísticas sobre verdades de Deus. Eles devem conter teologia dita de forma simples, mas profunda, que realmente inspire a congregação a apreender no coração a revelação bíblica de Deus. Isso é edificação espiritual. Pensar que edificação é fazer o povo chorar e se emocionar é tolice, é doutrina mundana não bíblica. Edificação tem a ver com fé e com aprendizado, não com provocar expressões emocionais. Com isso, não negamos a emoção, mas a colocamos no lugar certo: como resultado da verdade crida e amada, e não como sinal de devoção. Emoções só duram um instante, mas a crença na verdade é perpétua.  Colocar letras emotivas e não instrutivas é como colocar um vácuo na adoração.

O próximo post tratará das outras coisas: estilo de música, papel da equipe de louvor, etc.

André Duarte

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