segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

PRC 8 – Declaração de fé


            Estamos chegando ao final da série sobre o Princípio Regulador de Culto, na qual tenho procurado expor quais são as formas pelas quais o povo de Deus deve adorá-lo no domingo e como devem elas ser feitas. No próximo post, falarei um pouco sobre ofertas. Aqui, quero tratar da questão da declaração pública do que a Igreja crê. Isso envolve testemunho para os descrentes, manutenção da sã doutrina para os crentes e fórmulas sistemáticas em forma de credos.
           
            1. Textos de prova.

Esse assunto é um tanto difícil, porque há pouca evidência bíblica explícita para o uso de declarações confessionais. Ainda assim, quero colocar alguns textos bíblicos que falam sobre o quanto elas são importantes. Em primeiro lugar, temos diversas ordens dos salmos para fazermos proclamações em voz alta no culto público. “Na presença dos fiéis, proclamarei o teu nome” (Sl 52.9); “Falarei dos teus feitos poderosos, ó Soberano Senhor; proclamarei a tua justiça, unicamente a tua justiça” (Sl 71.16). Um particularmente interessante é o do salmo 22, messiânico: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na assembleia te louvarei”. Curiosamente, não é apenas Davi que diz isso, mas também Jesus Cristo proclama no culto a grandeza de Deus conosco, conforme Hebreus 2.11, 12. O fato de que os salmos falam sobre a declaração da grandeza de Deus aos fiéis, de maneira não necessariamente vinculada ao cântico e à leitura da Bíblia, e ainda no contexto do culto público (a “assembleia”), já nos indica que a confissão de fé é parte do culto dominical. Perceba também que a proclamação da qual Davi fala não pode ser também identificada com a pregação, pois ele era rei, e não levita. Essa proclamação, portanto, deve pertencer ao povo comum.
           
Essa realidade não é apenas declarada no Antigo Testamento. As chamadas epístolas pastorais também nos dão indícios de que a Igreja neotestamentária também usava fórmulas para expressar a doutrina cristã claramente. Diversas vezes, Paulo usa a expressão “Esta afirmação é digna de aceitação”, e refere-se várias vezes à apreensão da “sã doutrina”. E em certas passagens, ele escreve uma declaração dessa sã doutrina de maneira poética e sistemática. Por exemplo: “Não há dúvida de que é grande o mistério da piedade: Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória” (1Tm 3.16). A ênfase em que se ensine e proclame a doutrina tal qual fora passada (2Tm 3.10) sugere que a Igreja já era acostumada com frases resumidas da fé cristã. Nessa mesma fase de transição da Igreja apostólica para pós-apostólica, vemos também os ensinos concisos e assertivos de João, em suas epístolas, especialmente no que se refere à confissão. Veja a frequência, na primeira epístola, dos termos “Aquele que diz X é isso; aquele que diz Y é aquilo” (1Jo 1.6, 8, 10; 2.4, 22, 23; 4.3, 4, 20). Certamente, João desejou que, após sua morte, a Igreja tivesse com clareza os tópicos fundamentais da fé cristã a fim de que, pela confissão, fossem distinguidos os verdadeiros crentes dos demais. Sei que essas passagens, por si sós, provam pouco, mas creio que elas estão em harmonia com outras passagens e argumentos que estou usando, como os salmos supracitados.
           
A declaração de fé é enfatizada diversas vezes na Escritura também no contexto de evangelismo. São bem conhecidas as afirmações de Jesus: “Todo aquele que me confessa diante dos homens, eu o confessarei diante do Pai”. Jesus estava falando, evidentemente, do culto particular, na vida ordinária dos crentes, em qualquer circunstância em que fosse necessário confessá-lo como Senhor. Porém, a Bíblia também deixa claro que o culto público é também ocasião de evangelismo para descrentes. Que os descrentes deveriam ouvir a doutrina de Deus na Igreja, na condição de visitantes, para se converterem, é afirmado claramente em 1Coríntios 14.20-25. Assim, a Igreja deve proclamar a sã doutrina aos descrentes também no culto dominical.
           
Por fim, temos os exemplos históricos desde o segundo século. O Credo Apostólico e o Credo Niceno estão entre os mais famosos e antigos da Igreja. Devido à multiplicação de heresias, foi necessário formular credos mais amplos e catecismos. As igrejas reformadas, por exemplo, têm geralmente adotado a Confissão Belga, a Confissão de Heidelberg e a Confissão de Westminster com o Catecismo Maior e o Breve Catecismo.
           
O ponto a que esses textos nos levam é que a Igreja deve, conjuntamente (sem perder a ordem e a reverência no culto), declarar em alta voz a doutrina da fé cristã nos pontos claros e fundamentais para a edificação dos fiéis e a exposição da verdade aos visitantes.

            2. Os benefícios da confissão de fé.

            Quase todas as igrejas evangélicas atuais abandonaram o antigo costume de adotar confissões de fé. Em outros casos, elas adotam, mas nunca a tornam pública para a congregação. Ou, ainda, formulam uma confissão tão rasa que não ajuda a esclarecer quase nada. O argumento mais comum contra a adoção de uma confissão de fé é a “sola scriptura”. Dizem que uma igreja deve ter somente a Bíblia como regra, e não uma confissão inventada por homens. O argumento é falacioso e desprezível, por mais bem intencionado que esteja. Uma igreja confessional saudável deixará claro para os membros que a confissão de fé não tem o mesmo nível de autoridade que a Bíblia, e sim que ela é uma exposição resumida, clarificada e sistemática do que essa igreja crê que a Bíblia ensina. A Bíblia tem pontos mais claros do que outros, mais urgentes do que outros, mais polêmicos do que outros e mais fundamentais para a sã doutrina do que outros. As confissões de fé buscam, então, tornar essas coisas compreensíveis e simplificadas para o público. Uma Igreja que diz que adota somente a Bíblia e nenhuma confissão de fé está se enganando. Pois, se as confissões de fé são interpretações da Bíblia que cremos ser fiéis, então elas não diferem substancialmente do que aquilo em que a congregação de qualquer igreja assente quando ouve um sermão, quando canta um louvor ou simplesmente quando participa do culto de qualquer forma. Nenhuma igreja sobrevive sem apoiar-se em certa interpretação da Bíblia e, na realidade, nenhuma atividade humana é possível sem a mediação da interpretação do mundo. Portanto, o que igrejas confessionais fazem é atribuir unidade, consistência e clareza na interpretação. As não-confessionais, por outro lado, fazem da interpretação algo múltiplo, fluido, sem definição e sem publicidade. Eis aí o ambiente propício para o afloramento de heresias.
           
Confissões de fé trazem vários outros benefícios. Elas mostram aos crentes visitantes exatamente que tipo de igreja está ali e o que ele pode esperar dela caso deseje tornar-se membro. Elas limitam o poder dos pastores, de forma que eles não podem pregar nada nem exercer tal autoridade que a confissão adotada não autorize. Elas tornam os pontos fundamentais da fé claros e explícitos para que nenhum membro da Igreja consiga disseminar heresias. Elas dão aos membros sensação de consistência, coerência e, portanto, segurança. Elas também mostram os critérios usados para a disciplina eclesiástica, para a acepção de novos membros e para a doutrina que se permite ser ensinada. Também elas anunciam aos descrentes, de maneira simples, as coisas em que a Igreja crê, e que todos os membros podem proclamar como um só corpo para o mundo. Elas identificam a igreja ali presente com a cristandade histórica, mostrando ao povo de Deus que ela está inserida em um contexto maior, no qual Deus trabalha por séculos. Nesse sentido, elas unem os cristãos presentes aos outros tantos que os precederam.

            Basta comparar igrejas confessionais com as não confessionais e qualquer um admitirá qual dos tipos possui maior unidade na fé e na comunhão. Fui de uma igreja não confessional por muitos anos e congrego hoje em uma confessional histórica, e dá pra perceber que grande diferença faz. Essa igreja não confessional, na verdade, até possui uma confissão de fé. Mas, em todos os meus 15 anos como membro, somente duas vezes ela foi lida publicamente (e eu sempre fui membro assíduo). E ela é tão curta que pode ser lida inteira em menos de um minuto. Ela não explica praticamente nada. Em certo lugar, ela diz “Cremos na ordenança da Ceia do Senhor”. E só. Não resolve nada sobre transubstanciação, consubstanciação, simbolismo, quem pode ministrar, quem pode participar, para quê serve, se pode pizza no lugar do pão, etc. O único ponto específico e que não causa ambiguidade é o que afirma o continuísmo dos dons, justamente o que consideramos errado. Não há absolutamente nada sobre soteriologia. Teoricamente, uma pessoa pode pregar o calvinismo e o arminianismo. Porém, na prática, existe um consenso entre os pastores sobre uma série de coisas que nós membros nem ficávamos sabendo e pelas quais éramos repreendidos mesmo assim. Unidade nenhuma pode subsistir nesse tipo de igreja.

            Outra ilustração, pertinente ao que qualquer um no Brasil pode observar, é o contraste entre igrejas batistas e presbiterianas. No geral, apesar das exceções, as igrejas presbiterianas preservaram até hoje a sã doutrina muito melhor do que as batistas. Há vários motivos por que isso aconteceu, mas um deles é o seguinte: o povo das igrejas presbiterianas (no geral) está repetindo a mesma confissão de fé domingo após domingo, enquanto o das batistas não. A falta de consistência das igrejas batistas sobre sua identidade deu entrada aos espíritos liberal, carismático e empresarial. Não há dúvida de que, após uma ou duas gerações, os crentes que deixam de lado sua confissão de fé histórica acabam esquecendo quem eles são.


            André Duarte

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

PRC 7 – Leitura pública e pregação da Bíblia



                No culto público bíblico, vemos frequentemente as ordens para a leitura pública das Escrituras e o ensino a respeito dela. O ensino bíblico, a pregação da Palavra, é realmente o centro do culto cristão, o mais importante momento da adoração. Afinal, trata-se da própria Palavra de Deus proclamada e aplicada, a qual penetra até o íntimo do ser (Hb 4.12). Leitura e pregação são coisas distintas, mas resolvi tratar de ambas no mesmo post para não ficar desnecessariamente longo e repetitivo.

            A leitura da Bíblia em voz alta é ordenada desde Moisés até o Apocalipse. Em Dt 31, Deus ordenou que, no ano do cancelamento das dívidas, a Lei fosse lida em voz alta pelos levitas para o povo “para que ouçam e aprendam a temer o Senhor, o seu Deus, e sigam fielmente todas as palavras desta lei”. Ao entrarem em Canaã, Josué leu para os israelitas toda a Lei de Moisés, conforme havia sido ordenado (Js 8). A leitura pública regular da Lei, juntamente ao ensino dos levitas, era necessária para manter o povo sempre consciente da natureza de sua fé e dos mandamentos de Deus. Em contrapartida, quando o povo esquecia da Lei, o resultado era a apostasia. Isso fica claro quando os servos do rei Josias encontram o livro da Lei no templo abandonado. O povo estava no auge da rebeldia contra Deus porque as Escrituras estavam completamente esquecidas, jogadas em um canto qualquer. Mais ou menos como hoje.

            O ensino da Lei, que consiste no esclarecimento da Lei lida, era também dever dos levitas (Lv 10.11; Ml 2.7). E, mesmo que as Escrituras não houvessem sido totalmente esquecidas, a corrupção religiosa do povo era frequentemente acompanhada de um ensino parcial e distorcido da Lei. Veja que atuais as reclamações dos profetas: “os intérpretes da Lei não me conheciam” (Jr 2.8); “como podem dizer ‘somos sábios, pois temos a Lei do Senhor’ quando a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?” (Jr 8.8); “profetas e sacerdotes igualmente praticam o engano” (Jr 6.13); “Seus sacerdotes cometem violência contra a minha lei e profanam minhas ofertas sagradas; não fazem distinção entre o sagrado e o comum; ensinam que não existe nenhuma diferença entre o puro e o impuro; e fecham os olhos quanto à guarda dos meus sábados, de maneira que sou desonrado no meio deles” (Ez 22.26); “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos” (Os 4.6); “Seus profetas são irresponsáveis, são homens traiçoeiros. Seus sacerdotes profanam o santuário e fazem violência à lei” (Sf 3.4); “porque vocês não seguem os meus caminhos, mas são parciais quando ensinam a lei” (Ml 2.9). Veja como Deus é zeloso pela correta pregação da sua Palavra. Não basta que o ensino seja derivado de um texto bíblico, o ensino precisa ser fiel e correto ao que o texto realmente ensina. E a história se repete sempre e permanece real hoje em dia: os cristãos vivem ignorantes a respeito da revelação de Deus, cheios de humanismo, subjetividade e vazio espiritual, ao mesmo tempo em que os pastores dão semanalmente sermões parcos, ocos, tortos e infiéis.

            O melhor exemplo de leitura e pregação da Bíblia que vemos no Antigo Testamento é o do escriba Esdras, um levita. Quando os muros de Jerusalém foram restaurados por Neemias, Esdras fez a leitura da Lei de Deus (Neemias 8.3) e os levitas “leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido” (8.8). Que era ocasião de culto público, embora excepcional, deduz-se dos versículos 9 e 10, que dizem que aquele dia era santo ao Senhor. Notar também que o versículo 6 diz que todo o povo ouvia com atenção a leitura, que demorou do amanhecer ao meio-dia. Esse é o modelo que as igrejas devem seguir: que o ministro ordenado faça a leitura das Escrituras e então exponha o seu significado para a congregação a fim de que todos entendam bem o texto. E, pelo princípio da reverência, é claro que os cristãos devem ouvir a leitura e a pregação com todo o amor, temor, fé e submissão (naturalmente, desde que a pregação seja mesmo fiel – não esqueçamos dos bereanos).

            No Novo Testamento, esse padrão continua, em ainda maior glória. Timóteo, o jovem pastor de Éfeso, recebe a seguinte instrução de Paulo: “dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino” (1Tm 4.13) e que “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4.2). O que se aplica a Timóteo também se aplica aos outros presbíteros, os quais são ditos que trabalham “na pregação e no ensino” (1Tm 5.17) e que devem ser “aptos para ensinar” (3.2). E, no famoso versículo de 2Tm 3:16, Paulo fala sobre a total perfeição, inspiração, aplicabilidade e eficácia das Escrituras. Assim, o ofício da leitura e da pregação da Palavra permanece a cargo dos presbíteros da Igreja tal qual fora com os levitas para Israel.

            Mas a maior glória desse ensino hoje é devido à expansão das Escrituras, tanto na quantidade de textos como na clareza que eles transmitem sobre Cristo. É bem claro que, já na época dos apóstolos, os escritos neotestamentários eram considerados inspirados por Deus no mesmo nível do Antigo Testamento. Várias vezes, Paulo exige que sua carta seja lida em voz alta para a Igreja que a recebesse, sendo tal carta imbuída de autoridade canônica (Cl 4.16; 2Ts 3.14; cf. 1Co 14.37). Paulo também atribuiu ao evangelho de Lucas autoridade divina (1Tm 5.18). Pedro considerou as cartas de Paulo com “as demais Escrituras”, e atribuiu a ela sacralidade quanto ao modo de ser interpretada (2Pe 3.15, 16). E, por fim, o Apocalipse de João contém as advertências próprias de Escritura Sagrada: “Bem-aventurado aquele que lê e aquele que ouve as palavras desta profecia” (Ap 1.3); “Bem-aventurado o que guarda as palavras deste livro” (22.7); “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas” (22.16); “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém retirar alguma palavra deste livro, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa” (22.18, 19).

            O que vimos até aqui é o seguinte: a Bíblia deve ser lida, tanto o Antigo como o Novo testamentos, pelos presbíteros ordenados em voz alta para a congregação e, em seguida, explicada e esclarecida; e esta deve ouvir com alegria, atenção e temor.

            No que isso implica? Em primeiro lugar, que, na leitura e na pregação, os princípios da sola scriptura e da tota scriptura devem ser obedecidos. O pregador não deve ler outra coisa senão a Bíblia (em outro post, falarei sobre as confissões de fé), nem pregar de outra forma que não a exposição do texto bíblico. Logo, não é certo pregar, no culto público, sobre um livro cristão famoso. Algumas igrejas se fascinam tanto por algum best-seller (ex: Uma Vida com Propósitos) que resolvem fazer séries de pregações sobre ele, bem no culto do domingo. É de estranhar que tal fascínio não havia sido demonstrado em direção à própria Bíblia. Também é totalmente errado substituir a pregação da Palavra por testemunhos pessoais ou contos de histórias. Ao contrário, somente textos da Bíblia podem ser lidos e servir de base para a pregação, e somente a exposição dela deve ser aceita. Outro desvio comum é partir de um tema arbitrário para então buscar os textos bíblicos que falam sobre ele. Por exemplo: o pregador decidiu, do nada, que vai pregar sobre amor, então ele junta todos os textos da Bíblia sobre amor para embasar o que ele quer dizer. Embora isso não seja tão grave, é um artifício perigoso, porque é a vontade do pregador que dita o tema da mensagem, e não o texto bíblico. Além disso, fica difícil para a congregação discernir se os textos citados realmente fundamentam a conclusão do pregador. Por fim, o pregador pode muito facilmente evitar temas difíceis e jamais mencionar tal ou qual texto bíblico. Por essas razões, a forma certa e bíblica de expor as Escrituras é ler o texto e explicar para a congregação o que ele significa, como fez Esdras. Isso parece simples, mas não é, e logo ficará claro o porquê. Quanto à tota scriptura, é óbvio que o pregador não tem como falar da Bíblia inteira a cada sermão. Ele deve escolher textos, de preferência livros inteiros, para fazer séries de pregações, a fim de que a mensagem seja passada com o máximo de consistência. E deve ter o equilíbrio de pregar sobre textos de todas as partes da Bíblia conforme o passar das semanas permitir. Se ele deliberadamente nunca menciona Levítico ou prega todo dia sobre João 3.16 ou Romanos 12.2, está ignorando a relevância que toda a Escritura possui.

            Outro ponto: somente presbíteros ordenados devem ler e pregar sobre a Bíblia no culto público. Por que Paulo diz que os presbíteros devem ser aptos para ensinar? Por causa do ofício sagrado que eles possuem da exposição bíblica. Chamar leigos para subir ao púlpito e pregar, ou mesmo qualquer pessoa estudiosa que seja bem vista aos olhos da Igreja, é uma prática de igrejas modernas que não tem qualquer base bíblica. Sempre foram ministros ordenados que pregaram tanto antes como depois de Cristo. Isso porque o “ser apto para ensinar” não é fruto do Espírito (de todo crente), e sim um dom do Espírito (para apenas alguns crentes). É comum hoje em dia vermos igrejas que aceitam qualquer pessoa bem intencionada para ir dar um testemunho ou falar “o que Deus colocou em seu coração” sobre algum texto da Bíblia. Essa é a porta de entrada para total confusão doutrinária, pois pessoas leigas ainda discordam entre si a respeito de muitos pontos na doutrina. Se cada um expor sua opinião para a congregação, com a proteção do presbítero, sendo que as opiniões certamente vão discordar várias vezes, como o público conseguirá discernir o certo do errado? Esse tipo de democracia é bem bonita aos olhos do mundo, mas não possui sanção bíblica.

            Também, é sempre importante lembrar dos princípios ditos em todos os posts: primeiro, que a reverência deve marcar a leitura e a pregação. O presbítero não deve ficar fazendo piadas, não deve ficar tentando animar o público (visto como “plateia”), arrancar aplausos e gritos de “amém” etc. A congregação deve ouvir em silêncio e respeito, e o presbítero deve expor a Bíblia com todo o temor reverencial, sem perder a ousadia em proclamar a verdade. O princípio do verbo também deve ser observado: o presbítero deve usar palavras para pregar, não teatro, dança, fotos ou vídeos. Nem mesmo slides são inofensivos nesse sentido. Na simplicidade da pura palavra, o texto bíblico deve ser explicado.

            Algumas observações sobre a leitura: ela não precisa estar necessariamente vinculada à pregação. É bom que o presbítero leia em voz alta a Bíblia com a congregação, em uníssono, mesmo que não seja o texto sobre o qual a pregação será feita. Hoje, temos uma vantagem que o império romano não tinha: alfabetização geral. É bom que a congregação, hoje letrada, leia em voz alta a Bíblia junto ao presbítero. Isso é edificante e não fere nenhum princípio. Para isso, a versão da Bíblia deve ser a mesma, pra não resultar em confusão. Então, é necessário que os presbíteros decidam qual versão usar oficialmente. Segundo Augustus Nicodemos, a melhor versão é a Almeida Revista e Atualizada e, em segundo lugar, a NVI. Mais simplificada que a NVI já é exagero. Versões como NTLH deveriam ser queimadas como nos bons e velhos tempos.
           
Eu disse que a exposição da Palavra não é tão simples. A razão? Bem, quem lê a Bíblia sozinho em casa já percebeu que não é fácil pegar o sentido do texto imediatamente. O presbítero deve saber o sentido do texto com o máximo de certeza. Não deve seguir intuições, e sim pesquisar para não errar. O sentido de um texto é um só, e ele é objetivo. Não existe “isso significa X pra mim, mas pode significar Y pra você”. E, para saber o sentido de um texto, o presbítero deve conhecer bem toda a Bíblia e o sentido dela inteira. Além disso, ele precisa esclarecer o texto de tal forma que seja compreensível para o público enquanto não omite verdades teológicas complicadas. Deve também conhecer bem as opiniões erradas e hereges sobre o texto, para assim rechaçar os incansáveis falsos mestres. Eu esqueci de algo? Ah, sim: e ele deve pregar o evangelho em todo texto, fazendo a conexão pertinente entre o texto e Jesus. A pregação deve ser sempre cristocêntrica. Como disse Charles Spurgeon, se você não for pregar sobre Cristo, é melhor ficar em casa até descobrir algo melhor sobre o que pregar. Eu já fiz um post sobre pregação cristocêntrica, então não vou explorar muito isso. Mas, que o presbítero saiba que, conforme Jesus mesmo disse, toda a Escritura dá testemunho sobre ele, e ele é o centro da Bíblia. Se ele é o centro da Bíblia, naturalmente deve ele ser o centro da pregação.

            André Duarte

domingo, 8 de dezembro de 2013

PRC 6 – Música no louvor – Parte 2/2 - Sobre os músicos e o estilo musical


       O assunto da música precisou de dois posts, por causa de sua complexidade e dos abusos grandemente numerosos que têm sido cometidos. O primeiro post expôs o tipo de letra que Deus ordena que seja cantado. Agora, neste post, devo comentar sobre a aplicação dos princípios do PRC sobre a música propriamente e sobre a postura dos ministros e da congregação.

            1. Seja a composição musical feita com reverência e publicidade.
           
Enquanto a Bíblia nos instrui sobre o conteúdo das letras, ela não nos ensina nada claro sobre a melodia. Embora muitos salmos contenham, em seus subtítulos, indicações melódicas, o significado delas ficou perdido na história. Sendo assim, o povo de Deus tem liberdade quanto à melodia das composições para o culto público. Porém, ainda permanecem aplicáveis os princípios de reverência e publicidade para a música. Pela reverência, entende-se que a composição musical não pode instigar as emoções humanas a perderem o senso de solenidade. A esse ponto, a execução da melodia pelos instrumentos está vinculada, e trataremos disso no próximo ponto. Basta enfatizar aqui que a melodia deve ser regulada pela reverência devida ao Senhor, e não servir às voláteis emoções humanas. Pois é perceptível que a melodia, bem como o andamento e o ritmo, possui o potencial de instigar a sensação dos ouvintes às mais variadas emoções, no tipo e na intensidade. Nenhuma dessas emoções deve desviar-se da adoração racional ao Santo Deus, e a composição musical deve zelar por isso. Por publicidade, entende-se que as músicas devem ser facilmente executadas pela congregação. Pois não é a uma equipe especializada que as Escrituras ordenam cantar e tocar, mas sim a todo o povo de Deus em conjunto. Consequentemente, nenhuma música deve ter tonalidade tal que as mais variadas capacitações de homens e mulheres não consigam atingi-la. Nem devem ter melodia difícil de aprendizagem. E tampouco devem os músicos abusar da seleção de músicas novas; do contrário, a congregação estará sempre ouvindo e tentando aprender, e nunca realmente cantando com segurança. Essa foi uma das preocupações dos reformadores com a música: torná-la pública. Hinos com melodia fácil e previsível, letras compreensíveis para o leigo, e o refreio na suplantação do velho pelo novo. Se os músicos buscarem sempre músicas novas e negligenciarem as velhas, estarão roubando da comunidade o direito de cantar em paz.

2. Seja a execução musical feita com reverência e publicidade.

Esse ponto depende do anterior em muitos aspectos. Pois, certamente a composição tem em vista a forma da execução, de forma que esta depende daquela. Porém, ainda que a composição preze pela simplicidade e pelos princípios já expostos, é comum que os músicos esbanjem sua criatividade em arranjos e em acréscimos de harmonias, linhas melódicas sobrepostas e instrumentos. Nisso, devem ser eles também refreados. Sobre os instrumentos musicais, a Bíblia dá ordens para a sua execução, como os salmos e os exemplos dos levitas nos livros das Crônicas nos mostram. Muitos puritanos aboliram os instrumentos do culto cristão por entenderem que eles estavam necessariamente vinculados ao momento dos sacrifícios, que foram evidentemente encerrados. Porém, a Bíblia nos dá exemplos de instrumentos musicais tocados no culto mesmo sem haver sacrifícios. Se Deus não ordenou que parássemos com eles, então eles podem continuar. Porém, ainda assim, seu uso deve ser moderado, especialmente em nosso tempo em que os maiores ídolos humanos são artistas musicais. O músico, no culto público, não pode de forma alguma equiparar o brilho de sua execução musical ao dos artistas mundanos. Ele não pode deixar seus talentos tão evidentes de forma que eles chamem a atenção do público e obscureçam a glória de Deus. Isso não quer dizer tocar mal, mas sim não tocar tanto. Os instrumentos devem ser poucos e secundários, limitando-se a auxiliar o público na execução do canto. É natural que os músicos objetem a isso alegando que, quanto maior a magnificência da execução e da complexidade instrumental, mais apropriado é o louvor a Deus, pois “devemos fazer o nosso melhor”. Isso pode ser aceitável em outras ocasiões, mas não no culto público, por causa do princípio da publicidade. No culto público, inclusive na música, o principal é o cântico da congregação. Instrumentos muito complexos, numerosos ou notórios não ajudam em nada a congregação a cantar a uma só voz. Em lugar de um canto público, teríamos uma tocada particular para um público. Isso tem sentido somente em shows, não em cultos. O mesmo vale para as vozes. Os cantores devem limitar-se a servir de apoio para a congregação. Corais, orquestras e solistas não fazem mais do que roubar para si o que é do povo. A Igreja não é chamada para ir assistir a uma apresentação musical, mas sim para cantar a Deus. Alguma arte ajuda a Igreja a louvar; muita arte é exibicionismo reprovável. Em lugar de glorificar o nome de Deus, os músicos que abusam dos instrumentos e da voz colocam os seus talentos no foco, e cobrem a glória de Deus como uma neblina. Portanto: que a música preze pela simplicidade, pelo uso contido dos instrumentos e por uma execução que pertença em igual nível aos músicos e à congregação. Se os músicos estão fazendo mais do que a congregação pode fazer, extrapolando o que é necessário para ajudá-la, algo está errado.   

3. Que nenhum músico roube a atenção devida a Deus.

Como sabemos que é necessário haver músicos no culto? Com que direito das Escrituras sancionamos o “ministério da música”, ou algo do tipo? Ora, é óbvio que a congregação precisa do direcionamento de alguém que entenda de música. Como poderão tantos leigos cantar a uma só voz, no mesmo tom, em uníssono, no mesmo ritmo? Entendemos que a existência dos músicos valida-se pela própria existência de diversidade de dons, os quais Deus concede para a edificação do seu povo. Agora, é difícil colocar músicos de forma que não chamem a atenção para si, mas que limitem-se a ajudar a congregação a cantar corretamente, quando aprendemos na vida ordinária a admirar além da medida sóbria os músicos temporais. Por isso, a Igreja deve tomar medidas para que os músicos não fiquem em evidência além do necessário. Percebe-se, então, que grande desvio cometem as igrejas que, confundindo culto com show, fazem questão de colocar os músicos no lugar mais visível e que insistem que a comunidade deve olhar para eles e imitar seus gestos, danças e outras invenções humanas. Não é Cristo dissipado das mentes do povo quando toda a atenção é exigida dos músicos para si? A verdade teológica das letras não some da sensação do povo quando os músicos ficam falando e balbuciando suas emoções durante o andamento da música? Quando os músicos fazem isso, imitam os ídolos gospel, os quais não se envergonham se assentarem-se em tronos de anticristos quando percebem que podem comandar e manipular o povo como quiserem por meio de manifestações teatrais de sua presença. Mas as Escrituras ordenam o contrário: que imitem humildes servos do Senhor, que apontem e chamem a atenção para o Filho de Deus, e não para si. Isso nunca poderia ser demasiadamente enfatizado, devido à posição peculiarmente difícil inerente àquele que serve como músico.

Pela mesma razão, e pela falta de autorização bíblica, dizemos que “ministro de louvor” é um ofício inexistente. Já dissemos que os músicos são necessários. Porém, o ministro de louvor é aquele músico principal, que fica falando inutilidades à congregação, que toma a posição no centro dos músicos e que comanda toda a execução musical, bem como a própria seleção de músicas. Esse ofício não tem a aprovação das Escrituras e não serve em nada para a edificação, mas somente para a confusão. Ele é o principal que faz as coisas reprovadas no parágrafo anterior: que chama a atenção para si, que coloca-se como um dirigente acima dos demais – sendo que os ofícios de autoridade não podem ser outros além daqueles que a Bíblia define, os presbíteros e diáconos –, que usa a sua voz para si mesmo, e não para servir de apoio à comunidade, que fala uma série de coisas particulares e em nada pertinentes, etc. Os outros problemas desse ofício inventado pela imaginação pecaminosa estão no seguinte e último tópico.

4. Que o fim da música seja Deus, e não o homem.

Para encerrar, é adequado que todo adorador de Deus pergunte: pra quê música? Por que Deus ordenou que houvesse música em seu culto instituído? Porque ele não deixou só oração e pregação, prescindindo dessa arte? A Bíblia não explica por quê. Mas, podemos especular algumas coisas. A música tem essa peculiaridade de falar ao coração de uma forma particular. Ela é muito útil quando trazida para o contexto do culto. Ela facilita a memorização das doutrinas por causa da metrificação e da melodia. É muito mais fácil decorar uma música do que decorar um texto de igual extensão. Ela facilita que o povo de Deus aprenda a verdade das Escrituras. Nisso, ela ajuda a congregação a declarar quem Deus é. Essa é a função da música: declarar, proclamar a verdade de Deus, de forma que o povo aprenda facilmente a sã doutrina e a use para adorá-lo. Logo, o fim da música é Deus, e o que ela faz em nós é melhorar nossas mentes para proclamar com mais clareza e riqueza sobre quem Deus é. Isso sim glorifica Deus.

Agora, quase todas as igrejas modernas perderam essa reflexão. Aceita-se, sem contestação, que o fim da música é o homem. Muitos não conseguem imaginar a execução da música sem aquela coisa estranha chamada “ministração”. E essa é outra função do ministro de louvor, outra corrupção do uso da música no culto. Parece que o pressuposto é que a música deve mover nossas emoções para que nos elevemos a um estado espiritual mais sensível e mais límpido para que Deus nos edifique. Isso é, como eu disse, uma corrupção do propósito da música, em nada diferente do que as religiões pagãs fazem por meio dos mantras. A Escritura jamais nos autoriza a usarmos a música no culto para esse fim no homem. Ministração é invenção supersticiosa de mentes maculadas com religiosidade primitiva. É uma transgressão do culto racional, um retorno a religiões romanas e africanas. É incompatível com a solenidade e com a edificação espiritual do culto público. Embora a ministração seja feita com o pretexto de edificação, essa tal edificação tem significado completamente diferente daquilo que a Bíblia define. Em nenhum lugar a Bíblia associa edificação com esse sentir-se bem e emocionar-se positivamente. Edificação, de outro modo, é sempre vinculada à instrução e assimilação da verdade de Deus. A ministração não instrui ninguém, não é o meio ordinário escolhido por Deus para o arrependimento e a santificação e não tem lugar no culto público. Emoções nunca devem existir senão em consequência de perceber a verdade de Deus. Emoções produzidas por mantras ou por quaisquer outros meios psicológicos não são válidas no contexto de adoração. E ninguém deve buscar isso na música do culto. Quem faz isso incorre no pecado do desvio da finalidade. A ministração faz de Deus um meio para o homem; faz do homem o fim. E a insistência em produzir emoções na ministração necessariamente levará à quebra da reverência e da sobriedade. Desses momentos emotivos, surgem as espontaneidades loucas, as glossolalias e outros surtos psicopatológicos; e qualquer observador atencioso perceberá que tais inovações carismáticas nada fazem para produzir fruto espiritual, mas são excelentes para envergonhar o nome de Cristo entre os gentios.


André Duarte