No culto público bíblico,
vemos frequentemente as ordens para a leitura pública das Escrituras e o ensino
a respeito dela. O ensino bíblico, a pregação da Palavra, é realmente o centro
do culto cristão, o mais importante momento da adoração. Afinal, trata-se da
própria Palavra de Deus proclamada e aplicada, a qual penetra até o íntimo do
ser (Hb 4.12). Leitura e pregação são coisas distintas, mas resolvi tratar de
ambas no mesmo post para não ficar desnecessariamente longo e repetitivo.
A leitura da Bíblia em voz alta é ordenada desde Moisés
até o Apocalipse. Em Dt 31, Deus ordenou que, no ano do cancelamento das
dívidas, a Lei fosse lida em voz alta pelos levitas para o povo “para que ouçam
e aprendam a temer o Senhor, o seu Deus, e sigam fielmente todas as palavras
desta lei”. Ao entrarem em Canaã, Josué leu para os israelitas toda a Lei de
Moisés, conforme havia sido ordenado (Js 8). A leitura pública regular da Lei,
juntamente ao ensino dos levitas, era necessária para manter o povo sempre
consciente da natureza de sua fé e dos mandamentos de Deus. Em contrapartida,
quando o povo esquecia da Lei, o resultado era a apostasia. Isso fica claro
quando os servos do rei Josias encontram o livro da Lei no templo abandonado. O
povo estava no auge da rebeldia contra Deus porque as Escrituras estavam
completamente esquecidas, jogadas em um canto qualquer. Mais ou menos como
hoje.
O ensino da Lei, que consiste no esclarecimento da Lei
lida, era também dever dos levitas (Lv 10.11; Ml 2.7). E, mesmo que as
Escrituras não houvessem sido totalmente esquecidas, a corrupção religiosa do
povo era frequentemente acompanhada de um ensino parcial e distorcido da Lei.
Veja que atuais as reclamações dos profetas: “os intérpretes da Lei não me
conheciam” (Jr 2.8); “como podem dizer ‘somos sábios, pois temos a Lei do
Senhor’ quando a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?” (Jr
8.8); “profetas e sacerdotes igualmente praticam o engano” (Jr 6.13); “Seus
sacerdotes cometem violência contra a minha lei e profanam minhas ofertas
sagradas; não fazem distinção entre o sagrado e o comum; ensinam que não existe
nenhuma diferença entre o puro e o impuro; e fecham os olhos quanto à guarda
dos meus sábados, de maneira que sou desonrado no meio deles” (Ez 22.26); “Meu
povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o
conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês
ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos” (Os 4.6); “Seus
profetas são irresponsáveis, são homens traiçoeiros. Seus sacerdotes profanam o
santuário e fazem violência à lei” (Sf 3.4); “porque vocês não seguem os meus
caminhos, mas são parciais quando ensinam a lei” (Ml 2.9). Veja como Deus é
zeloso pela correta pregação da sua Palavra. Não basta que o ensino seja
derivado de um texto bíblico, o ensino precisa ser fiel e correto ao que o
texto realmente ensina. E a história se repete sempre e permanece real hoje em
dia: os cristãos vivem ignorantes a respeito da revelação de Deus, cheios de
humanismo, subjetividade e vazio espiritual, ao mesmo tempo em que os pastores
dão semanalmente sermões parcos, ocos, tortos e infiéis.
O melhor exemplo de leitura e pregação da Bíblia que
vemos no Antigo Testamento é o do escriba Esdras, um levita. Quando os muros de
Jerusalém foram restaurados por Neemias, Esdras fez a leitura da Lei de Deus
(Neemias 8.3) e os levitas “leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e
explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido” (8.8).
Que era ocasião de culto público, embora excepcional, deduz-se dos versículos 9
e 10, que dizem que aquele dia era santo ao Senhor. Notar também que o
versículo 6 diz que todo o povo ouvia com atenção a leitura, que demorou do amanhecer
ao meio-dia. Esse é o modelo que as igrejas devem seguir: que o ministro
ordenado faça a leitura das Escrituras e então exponha o seu significado para a
congregação a fim de que todos entendam bem o texto. E, pelo princípio da
reverência, é claro que os cristãos devem ouvir a leitura e a pregação com todo
o amor, temor, fé e submissão (naturalmente, desde que a pregação seja mesmo
fiel – não esqueçamos dos bereanos).
No Novo Testamento, esse padrão continua, em ainda maior
glória. Timóteo, o jovem pastor de Éfeso, recebe a seguinte instrução de Paulo:
“dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino” (1Tm 4.13)
e que “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda,
corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4.2). O que se aplica a
Timóteo também se aplica aos outros presbíteros, os quais são ditos que
trabalham “na pregação e no ensino” (1Tm 5.17) e que devem ser “aptos para
ensinar” (3.2). E, no famoso versículo de 2Tm 3:16, Paulo fala sobre a total
perfeição, inspiração, aplicabilidade e eficácia das Escrituras. Assim, o
ofício da leitura e da pregação da Palavra permanece a cargo dos presbíteros da
Igreja tal qual fora com os levitas para Israel.
Mas a maior glória desse ensino hoje é devido à expansão
das Escrituras, tanto na quantidade de textos como na clareza que eles
transmitem sobre Cristo. É bem claro que, já na época dos apóstolos, os
escritos neotestamentários eram considerados inspirados por Deus no mesmo nível
do Antigo Testamento. Várias vezes, Paulo exige que sua carta seja lida em voz
alta para a Igreja que a recebesse, sendo tal carta imbuída de autoridade
canônica (Cl 4.16; 2Ts 3.14; cf. 1Co 14.37). Paulo também atribuiu ao evangelho
de Lucas autoridade divina (1Tm 5.18). Pedro considerou as cartas de Paulo com “as
demais Escrituras”, e atribuiu a ela sacralidade quanto ao modo de ser
interpretada (2Pe 3.15, 16). E, por fim, o Apocalipse de João contém as
advertências próprias de Escritura Sagrada: “Bem-aventurado aquele que lê e
aquele que ouve as palavras desta profecia” (Ap 1.3); “Bem-aventurado o que
guarda as palavras deste livro” (22.7); “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar
a vocês este testemunho concernente às igrejas” (22.16); “Declaro a todos os
que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar algo,
Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém retirar alguma
palavra deste livro, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade
santa” (22.18, 19).
O que vimos até aqui é o seguinte: a Bíblia deve ser
lida, tanto o Antigo como o Novo testamentos, pelos presbíteros ordenados em
voz alta para a congregação e, em seguida, explicada e esclarecida; e esta deve
ouvir com alegria, atenção e temor.
No que isso implica? Em primeiro lugar, que, na leitura e
na pregação, os princípios da sola scriptura e da tota scriptura devem ser
obedecidos. O pregador não deve ler outra coisa senão a Bíblia (em outro post,
falarei sobre as confissões de fé), nem pregar de outra forma que não a
exposição do texto bíblico. Logo, não é certo pregar, no culto público, sobre
um livro cristão famoso. Algumas igrejas se fascinam tanto por algum
best-seller (ex: Uma Vida com Propósitos) que resolvem fazer séries de
pregações sobre ele, bem no culto do domingo. É de estranhar que tal fascínio
não havia sido demonstrado em direção à própria Bíblia. Também é totalmente
errado substituir a pregação da Palavra por testemunhos pessoais ou contos de
histórias. Ao contrário, somente textos da Bíblia podem ser lidos e servir de
base para a pregação, e somente a exposição dela deve ser aceita. Outro desvio
comum é partir de um tema arbitrário para então buscar os textos bíblicos que
falam sobre ele. Por exemplo: o pregador decidiu, do nada, que vai pregar sobre
amor, então ele junta todos os textos da Bíblia sobre amor para embasar o que
ele quer dizer. Embora isso não seja tão grave, é um artifício perigoso, porque
é a vontade do pregador que dita o tema da mensagem, e não o texto bíblico.
Além disso, fica difícil para a congregação discernir se os textos citados
realmente fundamentam a conclusão do pregador. Por fim, o pregador pode muito
facilmente evitar temas difíceis e jamais mencionar tal ou qual texto bíblico.
Por essas razões, a forma certa e bíblica de expor as Escrituras é ler o texto
e explicar para a congregação o que ele significa, como fez Esdras. Isso parece
simples, mas não é, e logo ficará claro o porquê. Quanto à tota scriptura, é
óbvio que o pregador não tem como falar da Bíblia inteira a cada sermão. Ele
deve escolher textos, de preferência livros inteiros, para fazer séries de
pregações, a fim de que a mensagem seja passada com o máximo de consistência. E
deve ter o equilíbrio de pregar sobre textos de todas as partes da Bíblia
conforme o passar das semanas permitir. Se ele deliberadamente nunca menciona
Levítico ou prega todo dia sobre João 3.16 ou Romanos 12.2, está ignorando a
relevância que toda a Escritura possui.
Outro ponto: somente presbíteros ordenados devem ler e
pregar sobre a Bíblia no culto público. Por que Paulo diz que os presbíteros
devem ser aptos para ensinar? Por causa do ofício sagrado que eles possuem da
exposição bíblica. Chamar leigos para subir ao púlpito e pregar, ou mesmo qualquer
pessoa estudiosa que seja bem vista aos olhos da Igreja, é uma prática de
igrejas modernas que não tem qualquer base bíblica. Sempre foram ministros
ordenados que pregaram tanto antes como depois de Cristo. Isso porque o “ser
apto para ensinar” não é fruto do Espírito (de todo crente), e sim um dom do
Espírito (para apenas alguns crentes). É comum hoje em dia vermos igrejas que
aceitam qualquer pessoa bem intencionada para ir dar um testemunho ou falar “o
que Deus colocou em seu coração” sobre algum texto da Bíblia. Essa é a porta de
entrada para total confusão doutrinária, pois pessoas leigas ainda discordam
entre si a respeito de muitos pontos na doutrina. Se cada um expor sua opinião
para a congregação, com a proteção do presbítero, sendo que as opiniões
certamente vão discordar várias vezes, como o público conseguirá discernir o
certo do errado? Esse tipo de democracia é bem bonita aos olhos do mundo, mas
não possui sanção bíblica.
Também, é sempre importante lembrar dos princípios ditos
em todos os posts: primeiro, que a reverência deve marcar a leitura e a
pregação. O presbítero não deve ficar fazendo piadas, não deve ficar tentando
animar o público (visto como “plateia”), arrancar aplausos e gritos de “amém”
etc. A congregação deve ouvir em silêncio e respeito, e o presbítero deve expor
a Bíblia com todo o temor reverencial, sem perder a ousadia em proclamar a
verdade. O princípio do verbo também deve ser observado: o presbítero deve usar
palavras para pregar, não teatro, dança, fotos ou vídeos. Nem mesmo slides são
inofensivos nesse sentido. Na simplicidade da pura palavra, o texto bíblico
deve ser explicado.
Algumas observações sobre a leitura: ela não precisa
estar necessariamente vinculada à pregação. É bom que o presbítero leia em voz
alta a Bíblia com a congregação, em uníssono, mesmo que não seja o texto sobre
o qual a pregação será feita. Hoje, temos uma vantagem que o império romano não
tinha: alfabetização geral. É bom que a congregação, hoje letrada, leia em voz
alta a Bíblia junto ao presbítero. Isso é edificante e não fere nenhum
princípio. Para isso, a versão da Bíblia deve ser a mesma, pra não resultar em
confusão. Então, é necessário que os presbíteros decidam qual versão usar oficialmente.
Segundo Augustus Nicodemos, a melhor versão é a Almeida Revista e Atualizada e,
em segundo lugar, a NVI. Mais simplificada que a NVI já é exagero. Versões como
NTLH deveriam ser queimadas como nos bons e velhos tempos.
Eu disse
que a exposição da Palavra não é tão simples. A razão? Bem, quem lê a Bíblia
sozinho em casa já percebeu que não é fácil pegar o sentido do texto imediatamente.
O presbítero deve saber o sentido do texto com o máximo de certeza. Não deve
seguir intuições, e sim pesquisar para não errar. O sentido de um texto é um
só, e ele é objetivo. Não existe “isso significa X pra mim, mas pode significar
Y pra você”. E, para saber o sentido de um texto, o presbítero deve conhecer
bem toda a Bíblia e o sentido dela inteira. Além disso, ele precisa esclarecer
o texto de tal forma que seja compreensível para o público enquanto não omite
verdades teológicas complicadas. Deve também conhecer bem as opiniões erradas e
hereges sobre o texto, para assim rechaçar os incansáveis falsos mestres. Eu
esqueci de algo? Ah, sim: e ele deve pregar o evangelho em todo texto, fazendo
a conexão pertinente entre o texto e Jesus. A pregação deve ser sempre
cristocêntrica. Como disse Charles Spurgeon, se você não for pregar sobre
Cristo, é melhor ficar em casa até descobrir algo melhor sobre o que pregar. Eu
já fiz um post sobre pregação cristocêntrica, então não vou explorar muito
isso. Mas, que o presbítero saiba que, conforme Jesus mesmo disse, toda a
Escritura dá testemunho sobre ele, e ele é o centro da Bíblia. Se ele é o
centro da Bíblia, naturalmente deve ele ser o centro da pregação.

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