sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

PRC 7 – Leitura pública e pregação da Bíblia



                No culto público bíblico, vemos frequentemente as ordens para a leitura pública das Escrituras e o ensino a respeito dela. O ensino bíblico, a pregação da Palavra, é realmente o centro do culto cristão, o mais importante momento da adoração. Afinal, trata-se da própria Palavra de Deus proclamada e aplicada, a qual penetra até o íntimo do ser (Hb 4.12). Leitura e pregação são coisas distintas, mas resolvi tratar de ambas no mesmo post para não ficar desnecessariamente longo e repetitivo.

            A leitura da Bíblia em voz alta é ordenada desde Moisés até o Apocalipse. Em Dt 31, Deus ordenou que, no ano do cancelamento das dívidas, a Lei fosse lida em voz alta pelos levitas para o povo “para que ouçam e aprendam a temer o Senhor, o seu Deus, e sigam fielmente todas as palavras desta lei”. Ao entrarem em Canaã, Josué leu para os israelitas toda a Lei de Moisés, conforme havia sido ordenado (Js 8). A leitura pública regular da Lei, juntamente ao ensino dos levitas, era necessária para manter o povo sempre consciente da natureza de sua fé e dos mandamentos de Deus. Em contrapartida, quando o povo esquecia da Lei, o resultado era a apostasia. Isso fica claro quando os servos do rei Josias encontram o livro da Lei no templo abandonado. O povo estava no auge da rebeldia contra Deus porque as Escrituras estavam completamente esquecidas, jogadas em um canto qualquer. Mais ou menos como hoje.

            O ensino da Lei, que consiste no esclarecimento da Lei lida, era também dever dos levitas (Lv 10.11; Ml 2.7). E, mesmo que as Escrituras não houvessem sido totalmente esquecidas, a corrupção religiosa do povo era frequentemente acompanhada de um ensino parcial e distorcido da Lei. Veja que atuais as reclamações dos profetas: “os intérpretes da Lei não me conheciam” (Jr 2.8); “como podem dizer ‘somos sábios, pois temos a Lei do Senhor’ quando a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?” (Jr 8.8); “profetas e sacerdotes igualmente praticam o engano” (Jr 6.13); “Seus sacerdotes cometem violência contra a minha lei e profanam minhas ofertas sagradas; não fazem distinção entre o sagrado e o comum; ensinam que não existe nenhuma diferença entre o puro e o impuro; e fecham os olhos quanto à guarda dos meus sábados, de maneira que sou desonrado no meio deles” (Ez 22.26); “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos” (Os 4.6); “Seus profetas são irresponsáveis, são homens traiçoeiros. Seus sacerdotes profanam o santuário e fazem violência à lei” (Sf 3.4); “porque vocês não seguem os meus caminhos, mas são parciais quando ensinam a lei” (Ml 2.9). Veja como Deus é zeloso pela correta pregação da sua Palavra. Não basta que o ensino seja derivado de um texto bíblico, o ensino precisa ser fiel e correto ao que o texto realmente ensina. E a história se repete sempre e permanece real hoje em dia: os cristãos vivem ignorantes a respeito da revelação de Deus, cheios de humanismo, subjetividade e vazio espiritual, ao mesmo tempo em que os pastores dão semanalmente sermões parcos, ocos, tortos e infiéis.

            O melhor exemplo de leitura e pregação da Bíblia que vemos no Antigo Testamento é o do escriba Esdras, um levita. Quando os muros de Jerusalém foram restaurados por Neemias, Esdras fez a leitura da Lei de Deus (Neemias 8.3) e os levitas “leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido” (8.8). Que era ocasião de culto público, embora excepcional, deduz-se dos versículos 9 e 10, que dizem que aquele dia era santo ao Senhor. Notar também que o versículo 6 diz que todo o povo ouvia com atenção a leitura, que demorou do amanhecer ao meio-dia. Esse é o modelo que as igrejas devem seguir: que o ministro ordenado faça a leitura das Escrituras e então exponha o seu significado para a congregação a fim de que todos entendam bem o texto. E, pelo princípio da reverência, é claro que os cristãos devem ouvir a leitura e a pregação com todo o amor, temor, fé e submissão (naturalmente, desde que a pregação seja mesmo fiel – não esqueçamos dos bereanos).

            No Novo Testamento, esse padrão continua, em ainda maior glória. Timóteo, o jovem pastor de Éfeso, recebe a seguinte instrução de Paulo: “dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino” (1Tm 4.13) e que “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4.2). O que se aplica a Timóteo também se aplica aos outros presbíteros, os quais são ditos que trabalham “na pregação e no ensino” (1Tm 5.17) e que devem ser “aptos para ensinar” (3.2). E, no famoso versículo de 2Tm 3:16, Paulo fala sobre a total perfeição, inspiração, aplicabilidade e eficácia das Escrituras. Assim, o ofício da leitura e da pregação da Palavra permanece a cargo dos presbíteros da Igreja tal qual fora com os levitas para Israel.

            Mas a maior glória desse ensino hoje é devido à expansão das Escrituras, tanto na quantidade de textos como na clareza que eles transmitem sobre Cristo. É bem claro que, já na época dos apóstolos, os escritos neotestamentários eram considerados inspirados por Deus no mesmo nível do Antigo Testamento. Várias vezes, Paulo exige que sua carta seja lida em voz alta para a Igreja que a recebesse, sendo tal carta imbuída de autoridade canônica (Cl 4.16; 2Ts 3.14; cf. 1Co 14.37). Paulo também atribuiu ao evangelho de Lucas autoridade divina (1Tm 5.18). Pedro considerou as cartas de Paulo com “as demais Escrituras”, e atribuiu a ela sacralidade quanto ao modo de ser interpretada (2Pe 3.15, 16). E, por fim, o Apocalipse de João contém as advertências próprias de Escritura Sagrada: “Bem-aventurado aquele que lê e aquele que ouve as palavras desta profecia” (Ap 1.3); “Bem-aventurado o que guarda as palavras deste livro” (22.7); “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas” (22.16); “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém retirar alguma palavra deste livro, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa” (22.18, 19).

            O que vimos até aqui é o seguinte: a Bíblia deve ser lida, tanto o Antigo como o Novo testamentos, pelos presbíteros ordenados em voz alta para a congregação e, em seguida, explicada e esclarecida; e esta deve ouvir com alegria, atenção e temor.

            No que isso implica? Em primeiro lugar, que, na leitura e na pregação, os princípios da sola scriptura e da tota scriptura devem ser obedecidos. O pregador não deve ler outra coisa senão a Bíblia (em outro post, falarei sobre as confissões de fé), nem pregar de outra forma que não a exposição do texto bíblico. Logo, não é certo pregar, no culto público, sobre um livro cristão famoso. Algumas igrejas se fascinam tanto por algum best-seller (ex: Uma Vida com Propósitos) que resolvem fazer séries de pregações sobre ele, bem no culto do domingo. É de estranhar que tal fascínio não havia sido demonstrado em direção à própria Bíblia. Também é totalmente errado substituir a pregação da Palavra por testemunhos pessoais ou contos de histórias. Ao contrário, somente textos da Bíblia podem ser lidos e servir de base para a pregação, e somente a exposição dela deve ser aceita. Outro desvio comum é partir de um tema arbitrário para então buscar os textos bíblicos que falam sobre ele. Por exemplo: o pregador decidiu, do nada, que vai pregar sobre amor, então ele junta todos os textos da Bíblia sobre amor para embasar o que ele quer dizer. Embora isso não seja tão grave, é um artifício perigoso, porque é a vontade do pregador que dita o tema da mensagem, e não o texto bíblico. Além disso, fica difícil para a congregação discernir se os textos citados realmente fundamentam a conclusão do pregador. Por fim, o pregador pode muito facilmente evitar temas difíceis e jamais mencionar tal ou qual texto bíblico. Por essas razões, a forma certa e bíblica de expor as Escrituras é ler o texto e explicar para a congregação o que ele significa, como fez Esdras. Isso parece simples, mas não é, e logo ficará claro o porquê. Quanto à tota scriptura, é óbvio que o pregador não tem como falar da Bíblia inteira a cada sermão. Ele deve escolher textos, de preferência livros inteiros, para fazer séries de pregações, a fim de que a mensagem seja passada com o máximo de consistência. E deve ter o equilíbrio de pregar sobre textos de todas as partes da Bíblia conforme o passar das semanas permitir. Se ele deliberadamente nunca menciona Levítico ou prega todo dia sobre João 3.16 ou Romanos 12.2, está ignorando a relevância que toda a Escritura possui.

            Outro ponto: somente presbíteros ordenados devem ler e pregar sobre a Bíblia no culto público. Por que Paulo diz que os presbíteros devem ser aptos para ensinar? Por causa do ofício sagrado que eles possuem da exposição bíblica. Chamar leigos para subir ao púlpito e pregar, ou mesmo qualquer pessoa estudiosa que seja bem vista aos olhos da Igreja, é uma prática de igrejas modernas que não tem qualquer base bíblica. Sempre foram ministros ordenados que pregaram tanto antes como depois de Cristo. Isso porque o “ser apto para ensinar” não é fruto do Espírito (de todo crente), e sim um dom do Espírito (para apenas alguns crentes). É comum hoje em dia vermos igrejas que aceitam qualquer pessoa bem intencionada para ir dar um testemunho ou falar “o que Deus colocou em seu coração” sobre algum texto da Bíblia. Essa é a porta de entrada para total confusão doutrinária, pois pessoas leigas ainda discordam entre si a respeito de muitos pontos na doutrina. Se cada um expor sua opinião para a congregação, com a proteção do presbítero, sendo que as opiniões certamente vão discordar várias vezes, como o público conseguirá discernir o certo do errado? Esse tipo de democracia é bem bonita aos olhos do mundo, mas não possui sanção bíblica.

            Também, é sempre importante lembrar dos princípios ditos em todos os posts: primeiro, que a reverência deve marcar a leitura e a pregação. O presbítero não deve ficar fazendo piadas, não deve ficar tentando animar o público (visto como “plateia”), arrancar aplausos e gritos de “amém” etc. A congregação deve ouvir em silêncio e respeito, e o presbítero deve expor a Bíblia com todo o temor reverencial, sem perder a ousadia em proclamar a verdade. O princípio do verbo também deve ser observado: o presbítero deve usar palavras para pregar, não teatro, dança, fotos ou vídeos. Nem mesmo slides são inofensivos nesse sentido. Na simplicidade da pura palavra, o texto bíblico deve ser explicado.

            Algumas observações sobre a leitura: ela não precisa estar necessariamente vinculada à pregação. É bom que o presbítero leia em voz alta a Bíblia com a congregação, em uníssono, mesmo que não seja o texto sobre o qual a pregação será feita. Hoje, temos uma vantagem que o império romano não tinha: alfabetização geral. É bom que a congregação, hoje letrada, leia em voz alta a Bíblia junto ao presbítero. Isso é edificante e não fere nenhum princípio. Para isso, a versão da Bíblia deve ser a mesma, pra não resultar em confusão. Então, é necessário que os presbíteros decidam qual versão usar oficialmente. Segundo Augustus Nicodemos, a melhor versão é a Almeida Revista e Atualizada e, em segundo lugar, a NVI. Mais simplificada que a NVI já é exagero. Versões como NTLH deveriam ser queimadas como nos bons e velhos tempos.
           
Eu disse que a exposição da Palavra não é tão simples. A razão? Bem, quem lê a Bíblia sozinho em casa já percebeu que não é fácil pegar o sentido do texto imediatamente. O presbítero deve saber o sentido do texto com o máximo de certeza. Não deve seguir intuições, e sim pesquisar para não errar. O sentido de um texto é um só, e ele é objetivo. Não existe “isso significa X pra mim, mas pode significar Y pra você”. E, para saber o sentido de um texto, o presbítero deve conhecer bem toda a Bíblia e o sentido dela inteira. Além disso, ele precisa esclarecer o texto de tal forma que seja compreensível para o público enquanto não omite verdades teológicas complicadas. Deve também conhecer bem as opiniões erradas e hereges sobre o texto, para assim rechaçar os incansáveis falsos mestres. Eu esqueci de algo? Ah, sim: e ele deve pregar o evangelho em todo texto, fazendo a conexão pertinente entre o texto e Jesus. A pregação deve ser sempre cristocêntrica. Como disse Charles Spurgeon, se você não for pregar sobre Cristo, é melhor ficar em casa até descobrir algo melhor sobre o que pregar. Eu já fiz um post sobre pregação cristocêntrica, então não vou explorar muito isso. Mas, que o presbítero saiba que, conforme Jesus mesmo disse, toda a Escritura dá testemunho sobre ele, e ele é o centro da Bíblia. Se ele é o centro da Bíblia, naturalmente deve ele ser o centro da pregação.

            André Duarte

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