sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apresentação: Marcel


                Prazer galera, eu sou Marcel Cintra, tenho 23 anos. Sou graduando em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB). Sou amigo da galera da Resenha de Deus já tem um bom tempo, e, depois de muito tempo, resolvi ajudar com uns artigos aqui e acolá.
                Vim parar aqui porque acho fundamental que o cristão se debruce e estude as Escrituras que nos é dada por Deus, ao contrário de certo movimento dentro da igreja evangélica hoje de “seguir o Espírito”, “a letra mata mas o Espírito vivifica”, entre outras ideais mal formados, por melhor que sejam as intenções.  E o verdadeiro conhecimento vem das Escrituras Sagradas, revelação de Deus, infalível e inerrante. Se você quer seguir o Espírito, veja o que ele nos diz nas Suas Santas Letras; se quiser aprender a se dedicar em oração, você vai ter que ler o que a Bíblia nos ensina a orar, e como não orar; se quiser ficar “em adoração”, por mais vago que seja isso, também vamos depender do que a Escritura nos diz. Se qualquer revelação for contrária a Escritura, tem que ser eliminada; por mais que se tenha “falas de Deus” e “revelações” por aí, o nosso crivo tem que ser a Bíblia, que é a revelação infalível de Deus. Isso nos mostra sua importância crucial para a verdadeira comunhão com Deus. Assim como uma esposa conhece cada dia mais seu marido, e assim tem mais amor e comunhão com ele, devemos ser nós em buscar a amar a Deus e ter mais comunhão com ele. E isso vai se dar em conhecer Ele pelo meio que Ele nos deixou, a saber, a Bíblia. Como já dizia o profeta Jeremias:

“mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” – Jeremias 9.24

                Espero eu que eu possa ajudar aqui para que possamos crescer em conhecer cada dia mais a Deus.

                Ah, é.  A Resenha. A Resenha, de um jeito bonito de se falar, é a alegria de se viver com quem se ama.  É um estado de espírito, é um Dasein de comunhão, pros mais filosóficos, e me perdoem a heresia.  A Resenha é brotheragem; é riso, é pranto, sobretudo, união.

                A Resenha é esse amor e essa comunhão.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Como NÃO argumentar em uma discussão teológica


       Poucas atividades cristãs possuem um potencial tão delicado para edificar ou destruir quanto a discussão teológica. Nossa geração enfrenta o grave problema do analfabetismo bíblico, razão por que discussões teológicas são frequentemente tão infrutíferas. Em muitos casos, a própria existência delas costuma ser rechaçada em nome de antíteses hereges entre conhecimento e prática, doutrina e amor, intelectualidade e sensibilidade, razão e experiência. Qualquer um que realmente gastar tempo estudando a Bíblia, especialmente os escritos de João, perceberá que não existem tais oposições. Pelo contrário, o apóstolo vincula amor, verdade, doutrina, obediência e conhecimento o tempo todo.

            Bem, isso pode ficar para outra hora. Neste post, quero apenas dar dicas práticas para cristãos que se engajam em discussões teológicas, gostando eles ou não. E quero desbancar os principais argumentos contra a existência de discussões e críticas. Nada de exaustivo, apenas o superficial do cotidiano.

            Primeiro, algumas atitudes de bom senso:
    -Escute o interlocutor. Preste atenção nos argumentos dele. Não diga suas opiniões sem primeiro responder ao que foi colocado. Em debates escritos, isso é facílimo. Leia o post, entenda o argumento do interlocutor e responda aos pontos dele antes de colocar os seus. Não pule parágrafos, não ignore informações. Do contrário, o debate perderá sua linha e vocês não vão chegar a lugar nenhum juntos.
     -Interprete o interlocutor com cuidados mínimos. Por exemplo, a gramática. Entenda a construção frasal do argumento do interlocutor. Faça da mesma forma como você resolve questões de interpretação de texto do Cespe. Com isso, você perceberá o que o interlocutor NÃO está dizendo e se livrará de fazer suposições irracionais. Para ter certeza de que você entendeu claramente o argumento, devolva-o com dúvidas, como “Então, você quis dizer isso e isso quando disse aquilo?”. Refaça os argumentos do interlocutor com suas próprias palavras e pergunte a ele se você o fez corretamente. Respostas dadas pela má interpretação e pela suposição de elementos que não existem no último dito acabam com a sobriedade do debate.
      -Limite-se ao que é dito. Não infira nada sobre seu interlocutor. Você não o conhece, não sabe o quanto ele sabe, não sabe de toda a construção teológica dele, não sabe suas intenções. Se você é pentecostal, não infira que o seu interlocutor presbiteriano é um intelectual frio. Se você é presbiteriano, não infira que o seu interlocutor pentecostal é ignorante. Se você é adulto, não infira que o seu interlocutor adolescente é um rebelde sem causa. Se você é adolescente, não infira que o seu interlocutor adulto tem Alzheimer. Desviar a atenção do argumento para a pessoa é uma falácia chamada ad hominem. A plausibilidade de um argumento é totalmente independente da personalidade de quem o expressa.
      -Não fale do que você não sabe. Reconheça que existem assuntos sobre os quais o seu interlocutor sabe mais do que você. Então, não tente chutar informações fantasiosas só para não ter de admitir que você não entende do assunto. Somente fale sobre aquilo que você realmente estudou e aprendeu, e de fontes confiáveis. Não há nada que dê mais gastura em um debate teológico do que um discordante que se enquadra naquilo que Paulo repreende: “Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas” (1Timóteo 1:6,7).
     -Argumente somente com base bíblica. Se é que os discordantes pretendem chegar a um denominador comum debaixo da aprovação bíblica, é necessário que os argumentos incluam declarações bíblicas ou a expressa menção da omissão bíblica sobre o assunto. Já vi muitos debates em que a Bíblia praticamente não é citada. O problema é que toda opinião tem base em alguma coisa: se não é na Bíblia, pode ser em alguma ideologia humanista, em algum sentimento subjetivo, na distorção do próprio coração... Quando a Bíblia é citada, é possível debater sobre o texto bíblico e então corrigir as interpretações erradas do texto em voga. Do contrário, cada um dará sua opinião como bem entender e nada será resolvido.
    -Delimite a base comum. Se um debate não partir de pressupostos com os quais você e o seu interlocutor concordem, ele nem começará. Por exemplo: a Bíblia é verdadeira e infalível. A Bíblia é suficiente. A definição de “suficiente” é conforme o postulado da Reforma Protestante. A Bíblia é boa, mas a tradição é igualmente válida. Pressupostos desse tipo precisam estar claros desde o princípio.
     -Saiba quando parar. Esteja consciente de suas limitações em maturidade emocional. Você não é capaz de conversar sobre qualquer coisa por qualquer medida de tempo. Perceba se você estiver se irritando e dê um tempo. Perceba também quando o debate chegou ao limite em que não haverá mais possibilidade de concordância. Não é necessário prolongar o debate indefinidamente só para não ficar com cara de “perdedor”. É possível detectar quando o debate “trava”. A melhor coisa a fazer é começar a parar.
    -Cortesia sempre. Respeito, humildade e bom humor. Se você atacar o seu interlocutor com qualquer ofensa gratuita, já perdeu a razão.
    -Tudo para a glória de Deus. A intenção não é ganhar ou perder. Não é humilhar com conhecimento nem desencorajar a crítica. Se um debate não agrega novos conhecimentos sobre Deus e não estreita os laços da fraternidade cristã, não vale a pena. Submeta suas convicções aos conhecimentos alheios, não tenha vergonha. Chegar à união em torno da verdade é muito mais importante do que defender-se pessoalmente da admissão do erro.

            Agora, quero expor os argumentos mais comuns para reprimir o debate e a crítica indistintamente:

           -“Você deveria estar pregando o amor de Jesus em vez de discutir essas coisas menores”. Esse raciocínio comete erros bíblicos e práticos. Em primeiro lugar, ele faz uma oposição entre discutir e pregar. Discutir e pregar andam juntos conforme a Bíblia. Cada epístola do Novo Testamento prega o evangelho e discute termos “periféricos”. Cada sermão de Jesus é uma pregação sobre si mesmo e uma crítica aos paradigmas farisaicos. É só prestar atenção. Em segundo lugar, esse raciocínio faz juízos de valor sem justificativa. Que base ele usou para definir o objeto de discussão como algo secundário e dispensável? Que base ele usou para definir o amor de Jesus como algo separado das proposições periféricas? Em terceiro lugar, ele é autoincriminatório. Se a pregação do amor de Jesus – seja lá o que a pessoa pensa que isso é – é tão importante que não pode ceder 15 minutos para discussões periféricas, o autor da proposição peca em utilizar seus minutos para rebater a discussão em vez de usá-los para pregar o amor de Jesus.
           
-“Você não deveria julgar”. Por algum motivo, a massa da cristandade absorveu a mania de que julgar é errado sempre e em qualquer aspecto. Primeiro: se o autor da proposição passasse mais tempo lendo a Bíblia do que exercitando sua indiferença, perceberia que a Bíblia diz SIM que nós devemos julgar: 1Coríntios 6:1-6; João 7:24; 1João 4:1-3; 2João  9-11 e inúmeros outros exemplos implícitos. Os textos que ordenam o não julgamento devem ser analisados em seuscontextos e propósitos, assim como os que ordenam o julgar. O temor indistinto de estar julgando é completamente estranho ao ensino bíblico. Segundo, essa proposição é também autoincrminatória devido ao seu potencial de relativização. Se eu digo que o pastor tal está errado em falar X, estou julgando; se a pessoa diz que eu estou errado em falar o meu julgamento sobre o pastor, não está ela também me julgando? Acaso ela também não julga que um estuprador cometeu um pecado, que um ateu precisa se converter ou que Satanás é “do mal”? É impossível não julgar em alguma medida. Para compreender, portanto, o que a Bíblia permite e proíbe quanto ao julgamento, é necessário analisar os textos, e não lançar proposições soltas no ar.
           
-“Você ignora o quanto Deus tem abençoado as pessoas através desse que você está criticando”. Essa proposição confunde a soberana graça de Deus e a responsabilidade humana. Essa confusão, se levada às suas últimas consequências, justificará os maiores absurdos. Por exemplo, Natã falhou em repreender Davi pelo seu adultério + homicídio, porque não percebeu a bênção que Deus trouxe desse relacionamento – o rei Salomão. Judá não pode ser recriminado por ter comido incesto e prostituição com sua nora Tamar, porque dessa relação saiu Perez, que foi um ancestral de Jesus. Os judeus e romanos que crucificaram Jesus fizeram algo lindo, porque desse homicídio Deus fez a maior bênção de todos os tempos. Pessoas que gostam de confundir a moralidade do ato com o benefício de seus efeitos simplesmente adotam a total amoralidade. Porque, caso não tenham percebido, Deus é o governante do universo e seus decretos são eficazes para produzir quantas bênçãos ele desejar, inclusive a partir dos pecados humanos. Até Hitler tornar-se-ia desculpável, visto que tudo o que ele fez, em longo prazo, redundou em uma compaixão mundial pelo povo judeu. Deus abençoa o mundo apesar do pecado humano, não em parceria com ele! Não importa quantas bênçãos resultem de um pecado, ele deve ser repreendido. O mundo já tem uma proposição parecida: os fins justificam os meios.
           
-“Deus vê o coração”. A ideia é que qualquer coisa feita de coração está imune ao juízo. O humanista que propaga essa ideia ignora que o coração é a coisa mais maligna que Deus pode ver no ser humano. Ele vê o coração e só encontra idolatria e imoralidade, nunca intenções bondosas. Segundo Jeremias, o coração é o que há de mais enganoso no mundo. Segundo 1João, o coração é usado por nós mesmos para nos condenar, apesar de Deus nos ter justificado. Provérbios diz que devemos guardar o nosso coração acima de qualquer coisa. Se o coração fosse algo tão puro e bem intencionado, não haveria necessidade de tantas advertências. Saul desobedeceu a Deus, mas “de bom coração”, e recebeu como recompensa o fim do reinado, um espírito atormentador e uma morte sangrenta. Os filhos de Arão prestaram culto de coração, mas em desobediência à Lei, e foram mortos pelo fogo. Amor e obediência sempre andam juntos. Ninguém pode fazer nada por amor a Deus se não estiver debaixo de sua santa lei.
           
-“Você perde tempo só querendo conhecer, sendo que o que importa é viver”. Viver o quê? Acaso você vive alguma coisa que você não supõe conhecer? É sem razão que a Bíblia ordena a meditação na lei de Deus, o “gloriar-se em conhecer-me e compreender-me” (Jeremias 9:24), o falar sobre a Bíblia ao deitar, ao levantar e ao andar (Deuteronômio 6:7)? Foi por imaturidade que a Igreja em Jerusalém “perseverava na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42)? Jesus não se deixou enganar pela interpretação errada de um texto bíblico usado pelo diabo, porque ele conhecia não apenas alguns textos, mas sim todos eles, e a maneira certa de interpretá-los. Jesus repreendeu os samaritanos por "adorarem o que não conhecem" (João 4). E disse aos saduceus "Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". É pela muita vontade de praticar e nenhuma vontade de compreender que o povo da cristandade sai justificando qualquer tradição e moda, enganados por doutrinas vãs e falsas (Colossenses 2:8). 
           
-"Desse jeito, você acaba racionalizando a Bíblia e fechando o coração para a voz de Deus". Quem diz isso precisa, em primeiro lugar, definir o que é “racionalizar”, provar que as análises gramaticais, contextuais e históricas dos textos bíblicos são “racionalizações” e – o mais difícil – provar que o ouvir a voz de Deus só é possível ao excluir a tal “racionalização”. Nada disso tem apoio nas Escrituras. Examinar, meditar e estudar são encorajamentos das Escrituras para justamente proporcionar uma melhor compreensão sobre a vontade de Deus. Os apóstatas de Israel não se importavam com os profetas de Deus porque a lei havia sido jogada fora. “Meu povo perece por falta de conhecimento”. Além disso, a razão é uma faculdade humana que serve aos propósitos de Deus quando redimida. Quem acha que a razão é sempre algo ruim, associando-a sempre a ceticismo e humanismo, deve provar que o empirismo e o misticismo não sofrem da mesma deficiência, para oferecê-los como o caminho certo para “ouvir a voz de Deus”.
           
That’s all, folks.


            André Duarte

terça-feira, 30 de julho de 2013

A Bíblia e o álcool


                       
O que a Bíblia diz sobre o álcool? Muitos crentes, especialmente da geração passada, pensam que bebida alcoólica é totalmente proibida em qualquer dose e espécie. Crentes que conviveram desde crianças com parentes alcoólatras podem adquirir um compreensível horror a respeito da bebida e acabam distorcendo as declarações bíblicas para se amoldarem a esse mecanismo de defesa. Já outros crentes vão ao oposto e frequentemente se embriagam, focalizando apenas os argumentos bíblicos permissivos sobre a bebida. Façamos, portanto, uma análise global para elucidar essa questão.

Em primeiro lugar, é claramente errado determinar o álcool como sempre proibido. Permissões para a bebida alcoólica, inclusive na forma de mandamentos, estão por toda a Bíblia. O pastor Doug Wilson, em seu livro “Joy at the end of the tether”, diz que há, no mínimo, cinco usos para o vinho que a Bíblia permite explicitamente:

Religioso. A Lei de Moisés ordena o uso do vinho para certas ofertas (Êxodo 29:40; Levítico 23:13; Números 28:14, etc). Deus estabelecia critérios claros e rígidos quanto a quais elementos deveriam ser ofertados e quais eram proibidos, por serem impuros. O vinho não foi declarado impuro por Deus, ao contrário do porco e dos ratos, por exemplo. O vinho era aceitável a ele. O vinho era também dado junto aos outros alimentos do dízimo (Deuteronômio 14:26) e de outras ofertas dadas aos levitas (18:4). Deus expressamente ordena que os israelitas deem vinho aos levitas. Notar que, além de vinho, Deus diz “e qualquer outra bebida fermentada”, um termo genérico para qualquer bebida alcoólica. A Páscoa era celebrada com vinho e, de todos os alimentos envolvidos nessa cerimônia, Jesus preservou somente o pão e o vinho para a ceia cristã (Marcos 14:23,24; 1Coríntios 11:25,26). Os cristãos receberam a ordem de tomar vinho no sacramento da ceia. Quem acha que tomar bebida alcoólica é sempre um pecado simplesmente profana um sagrado sacramento ordenado por Jesus.

Celebrante: A abundância de vinho é uma bênção prometida por Deus aos israelitas fiéis (Gênesis 27:28; Deuteronômio 7:13; Provérbios 3:10), enquanto a sua escassez é sinal de sua maldição pela desobediência do povo (28:39; Lamentações 2:12). O salmo 104:15 cita o vinho como uma bênção de Deus para alegrar o coração. O rei Melquisedeque levou pão e vinho a Abraão para celebrar a derrota dos inimigos de Sodoma (Gênesis 14:18). Salomão diz para bebermos o vinho com alegria como celebração da vida (Eclesiastes 9:7). O vinho é uma bênção de Deus, e o álcool é dado por ele ao homem para que festeje e celebre a alegria de viver. Para alegrar-se diante de Deus e de sua graça, o vinho é incentivado pelas Escrituras, pois simboliza a própria mão de Deus abençoadora. Então, sim, é perfeitamente possível e legítimo festejar com bebida alcoólica para a glória de Deus. Proibir algo que o próprio Deus prometeu como dádiva de alegria é chamar a sua bênção de maldição. É pisar um presente de alegria que ele concedeu aos homens. É uma afronta contra a sua graça.

Medicinal: Nos tempos bíblicos, a água era frequentemente encontrada contaminada. Para resolver esse problema, as pessoas adicionavam vinho à água, por ser um antisséptico natural. É com essa finalidade que Paulo ordena a Timóteo que beba vinho com água (1Timóteo 5:23). Aparentemente, Timóteo não queria “dar mau testemunho” pela ingestão de vinho, visto que ele estava sendo enviado como presbítero de Éfeso e, portanto, deveria ter, entre as qualificações, “não ser dado ao vinho” (3:3). Porém, por conta disso, ele ficava enfermo frequentemente. Paulo diz que a prioridade é a saúde. Ele deve sim permanecer no costume de purificar a água com um pouco de vinho. Eu conheço uma crente tão fanática que diz que Paulo estava errado em dar essa ordem! Mas, se o apóstolo, em uma escritura inspirada, dá a ordem de usar o vinho para o bem da saúde, é óbvio que esse fim é legítimo. Hoje, ainda existem muitas cidades sem o mínimo de saneamento básico (o Egito inteiro não tem nenhuma estação de tratamento da água, por exemplo). O conselho de Paulo continua sendo sábio. Existem outras aplicações desse princípio. Até várias décadas, o vinho era usado em ferimentos abertos como desinfetante. Descobriu-se recentemente que um copo de vinho por dia faz bem ao coração e ajuda a prevenir infartos. O vinho é um remédio natural dado por Deus.

Simples prazer: Jesus transformou água em vinho no casamento em Caná (João 2). Mas ele não produziu qualquer vinho. Ele fez questão de oferecer o mais saboroso dos vinhos, mais do que o vinho normal que havia acabado. O vinho que Jesus transmutou foi tão admirável que rendeu elogios no fim da festa. O vinho é saboroso. Ele dá prazer ao paladar. Veja Provérbios 31:6,7. A mãe de Lemuel o aconselha a dar vinho como um ato de misericórdia aos infelizes e condenados da terra. Bebendo vinho – não apenas pelo sabor, mas pelo leve estado de alegria que ele induz –, os pobres da terra terão alguns momentos de prazer em sua vida amarga. O argumento falacioso de que “a bebida só oferece um prazer momentâneo” cai aqui, pois Provérbios ensina que esse prazer momentâneo é melhor do que nenhum.

Matar a sede: Quando Jesus estava na cruz, em seus últimos momentos, ele gritou de sede. Alguém, com más intenções, embebeu uma esponja em vinagre – um vinho barato da época – e a levantou até a boca dele por uma vara. Jesus provou o vinagre e morreu. Ainda que o desejo de Jesus fosse água, e não vinho, e que o vinho só foi dado pela maldade de alguém que queria ver Jesus passar mais tempo sofrendo na cruz, o fato é que ele não recusou. Jesus bebeu o vinagre para matar a sede. Se isso fosse um pecado, todo o sofrimento que ele passara até então teria sido em vão, pois ele estaria imperfeito para ser sacrificado a Deus.

Todos esses usos de bebida alcoólica são expressamente permitidos ou ordenados por Deus na Bíblia. É impossível sustentar a crendice de que bebida alcoólica é sempre um pecado. Na verdade, ela não é nem mesmo vista com suspeição. Agora, existe um único uso distorcido dessa bênção, que é proibida pela Bíblia: a embriaguez descontrolada. É nesse sentido que o presbítero não deve ser dado ao vinho (1Timóteo 3:3; Tito 1:17), que o crente não deve se embriagar e dar-se à libertinagem (Efésios 5:18), que o vinho é perigoso por tirar a lucidez (Provérbios 23:30; 21:17; 20:1; 31:4; 23:21). Provérbios 23:29-35 descreve vividamente a sensação de estupor de um bêbado. Ele diz como o bêbado fica tonto, com ilusões e acaba sendo zombado e espancado. E, no fim, o bêbado percebe que não estava consciente quando lhe fizeram mal e acha isso ótimo, desejando a próxima bebida para repetir a sensação. A Bíblia permite e incentiva o uso do álcool até o estado mental de leveza e riso, mas proíbe que isso seja levado ao estado de descontrole e falta de juízo.

Não é difícil entender por que a embriaguez é um pecado. Ela retira qualquer capacidade de domínio próprio. Ela bloqueia o senso moral e permite a vazão dos impulsos da natureza depravada. A embriaguez é uma forma de dizer ao Espírito Santo “Não quero o seu domínio, quero ser deixado por conta própria”. Ela profana o templo de Deus, por expô-lo a tolices e a atos lascivos. Ela impossibilita que o homem vigie contra o pecado. A maneira mais eficiente para o homem se dar aos seus desejos transgressores é bebendo até perder o juízo. É nesse sentido que tantas vezes o pecado desenfreado de uma pessoa ou nação é comparado à embriaguez com vinho (Jeremias 51:7; Sofonias 1:12; Apocalipse 17:2; 14:8, etc). Também é nesse mesmo sentido que Deus diz que a sua ira é como um cálice de vinho dado às nações para beberem (Jeremias 13:13; 25:15; Apocalipse 14:10). Um povo que sofre a ira de Deus fica perdido e desnorteado, como se estivesse embriagado. Porém, esse uso proibido do vinho nada mais é do que uma distorção de uma boa criação de Deus – como qualquer outro pecado. A bebida alcoólica não deve ser vista com mais suspeição do que qualquer outra criação divina, porque qualquer coisa pode ser usada pelo homem de forma pecaminosa.

Como a bebida deve ser tratada hoje pela Igreja? No contexto do respeito mútuo, Paulo diz que o reino de Deus não é comida ou bebida (Romanos 14:17). É óbvio que, pelas circunstâncias atuais e pela dica desse texto, a bebida deve ser colocada no rol de práticas possivelmente alienáveis. Entramos na velha questão do “não escandalizar”. E, mais uma vez, enfatizamos que o “não escandalizar” deve receber uma compreensão imparcial. Escandalizar significa “fazer pecar”, não simplesmente ofender. Romanos 14 e 1Coríntios 8-10 tratam dessa questão. O crente maduro em sua liberdade sabe que pode beber. O imaturo ainda possui resistência. Há duas maneiras de causar o pecado por meio da bebida: induzir (“pressionar”) o imaturo a beber contra a sua própria consciência ou provocar uma divisão na irmandade pela falta de sensibilidade. Dessa forma, um crente maduro não deve tomar bebida na presença de um imaturo. Isso resultaria em uma ofensa desnecessária. Por outro lado, o imaturo também recebe a ordem de não condenar e não olhar de cima para baixo um crente que bebe. Ambos possuem responsabilidades mútuas. E há algo maior, que é a defesa da verdade. O imaturo deve sim ser ensinado que beber não é pecado, que o uso de bebida alcoólica é autorizado pelas Escrituras em circunstâncias determinadas. Saiba que quem resiste a bebidas alcoólicas por razões teológicas está perdendo o desfrute de uma das bênçãos que Deus mais enfatiza na Bíblia. É um ato de amor ser sensível à imaturidade desse irmão, mas é ainda mais amoroso doutrinar esse irmão para que ele receba essa bênção divina. Ele terá mais um motivo para se alegrar e dar graças a Deus. O maduro não deve abandonar o imaturo em sua ignorância.

Por que Jesus ordenou o vinho como símbolo de seu sangue derramado? Por causa de todo o simbolismo que o vinho já possuía nas Escrituras. O vinho é símbolo da ira de Deus, como já vimos, e é também símbolo de alegria e favor dos céus. Tim Keller diz, comentando sobre a parábola do filho pródigo, que nós entramos no banquete do Pai porque Jesus Cristo tomou o cálice da ira para nos dar o cálice da alegria. Seu sangue derramado é sinal da ira de Deus contra o pecado e do amor de Deus pela humanidade. Quando Jesus orou “afasta de mim este cálice”, referia-se justamente à ira de Deus. Porém, ele tomou esse cálice. Para nós, está reservado o banquete celestial, no casamento com o Cordeiro. Após dar a ordem de tomar o vinho na ceia, Jesus disse que beberia do fruto da videira somente quando viesse em seu reino – e conosco (Mateus 26:29)! Esse banquete é o casamento entre Cristo e a Igreja, conforme Apocalipse 19. O vinho é uma bênção escatológica! Na verdade, é uma promessa escatológica. Quando a Igreja se encontrar com Jesus, todos os seus beberão vinho com ele. Ninguém ficará escandalizado, nem dando sermão em Jesus por induzir as pessoas a esse “pecado”.

Isso nos leva a uma conclusão rígida. O crente que condena a bebida de todas as formas e critica quem bebe está blasfemando contra uma promessa de Cristo. Está odiando uma conquista maravilhosa de Jesus para nós, que lhe custou a sua vida. Ora, será que Jesus Cristo realizou a sua obra para dar o vinho novo no Reino de Deus a crentes que odeiam bebida alcoólica? Se alguém pensa que beber é sempre errado, que tomar álcool é um pecado em si, é mais coerente que negue a fé cristã, visto que lança na sarjeta uma caríssima bênção do Cordeiro. Se beber é pecado ou não, isso não é uma questão polêmica. É uma questão para a qual a Bíblia dá ensinos claríssimos. Quem persiste em condenar a bebida não está apenas emitindo uma opinião, está contradizendo a Bíblia e deve ser levada ao arrependimento.

André Duarte


domingo, 28 de julho de 2013

Disney and the gospel

        
        Although there have been posts of mine about specific movies, I wish to draw now some parallels between the whole Disney culture and the message of the gospel. It’s undeniable Disney has greatly influenced the Western culture and printed its concepts on the general sense. Who can look at a juicy apple and not wonder if it’s poisoned? Who doesn’t feel that, if they believe, they can make their dreams come true? Who falls in love and don’t see themselves happily ever after with the enchanted and loved one? Especially for those who go frequently to the Disney parks, there are very clear and persistent messages from the foundations of the company’s productions that are proclaimed to convert the guests (as the clients are called) to its doctrines. Hence, let’s treat about the basic and primary Disney concepts and take notice of the work of God, the Savior, through them.
           
The Damsel in distress. Maybe the very Disney productions’ atom is the endangered princess. It’s interesting to observe, by the way, how bolder and self-acting those princesses have become through the decades. Snow White, Cinderella and Aurora, who are older princesses, really are completely undefended until a prince appears to save them. Jasmine, Ariel, Nala and Belle, who are newer, already show a more rebel spirit against the rules and actively contribute to the victorious ending of the script. Mulan... well, she is Asian, so she doesn’t count. :P. She is the one heroine of the story, but remember she can only be so by taking literally the role of a man; she can do nothing as a woman. Rapunzel, one of the newer princesses, accomplishes almost everything in the story with independence, determination. Nevertheless, every Disney princess end up needing the male hero, the prince, even if only at the last minutes. Giselle, although saves Robert in the end, reveals to be always the girl who yearns to be saved by her prince (including own Robert, when getting close to the end). This state of need, of self-incompleteness, of yearn for covenantal love – for Disney always works love within the context of marriages – is true about God’s people, the church. We, the church, were made not to find meaning apart from the groom, Jesus Christ. We are indeed victims of Satan’s traps, of sin and death, and totally undefended against them. We need a royal Savior. Also notice the princesses are always virgins and pure. In the same way, the church which shall encounter her Savior is pure, without stain or wrinkle (Ephesians 5, Revelations 14:4, etc.). Purity is essential so the church marries her Prince. However, purity comes from the outside, and that’s the next point.

The Prince Charming. In order to pair with Disney princesses, nothing more adequate than the charming princes. The prince is a man of battle, and it is him who gives the final act for the girl’s redemption. Eric killed Ursula, Aladdin trapped Jafar, Simba defeated Scar, Phillip killed Maleficent. The Disney prince is brave, heroic and constantly risks his life to save the princess. We need a Savior like that. Jesus Christ, our perfect Prince Charming, is brave and lovely enough to not only risk his life, but to give it up willingly and consciously to save us from the villain. Ezekiel 16 tells us how God is the Prince Charming who marries his people, which is personified as a woman whom he made pure. Now here we have a crucial difference to emphasize: in Disney, both man and woman are pure. Sometimes, the man is not apparently pure, but is pure in the inside (Aladdin and Eugene are thieves, but “good thieves”), while the woman is always pure. In the gospel, we have the opposite: Jesus Christ is the ultimate pureness and perfection, but the church… is actually a prostitute! We prostituted ourselves with our made-up gods, committing adultery against our Prince. But Jesus Christ creates inside us, by the cleanse of his shed blood, spiritual pureness. He takes care of us and prepares us to be stainless when we meet him in heaven. He is our Prince. Not the boy whom you, girl, chose to worship! Nor can you, man, play the redeemer of your girlfriend. It is the Son of God, who shall come to defeat evil on his white horse, bearing a sword from inside his mouth, the most handsome groom of his church.

True love’s kiss. “It’s the most powerful thing in the world”, Giselle said. Also, for the comfort of traditional families, Disney always pictures the first kiss in the context of a marriage or, at least, with an expectation of a future marriage. Kisses are never shown in a lame way by Disney. The kiss is the guarantee sign of a marriage to come, if it doesn’t happen only at the time of the marriage. It is definitive, something that transforms the relation between the prince and the princess, it divides the relationship in “before” and “after”. Frequently, it awakes ever sleeping princesses, like Snow White and Aurora. Just like so, Christ’s cross and his resurrection are our “true love’s kiss”. Given we have been in an eternal sleep by the power of evil, by sin’s spell and poison, it is necessary our Prince do something to arise us. What Jesus did was give up his life, and then take it back. By the sacrifice of our Prince, we are awaked for only then be irresistibly attracted by his love and able to marry him. Repeating, kiss is the guarantee sign of an assured future marriage. Our marriage with Jesus in heaven, as Revelations 19 tells us, is assured out of the kiss he gave us at the cross. Because we were rescued and captivated by his kiss, we receive the promise of becoming his wife, ruling with him forevermore. So, yes, it is true our Lord’s work at the cross “is the most powerful thing in the world”.

The Fairy Godmother. Many of Disney’s tales show fairies that, by their supernatural power, enable the princess to achieve her goal of reaching the prince. Let’s draw another distinction: in Disney, it is usually the princess who longs so much for her prince, and what he does is a reaction towards her wish. Although I said God’s people yearns for a rescuer, this rescuer is always a distortion of the true one. We never really want God while we are dead in our sins. It is his the plan, the initiative, the beginning and the end of our salvation. Despite this difference, the fairy has yet an interesting role alike the Holy Spirits’ while regenerator. Look: it was the Blue Fairy who gave Pinocchio life and movement – as the Spirit of Christ revives us to start our journey with him. It was the Fairy Godmother who gave Cinderella the robes of a princess and a carriage, as the Holy Spirit makes us holy, wearing us with the New Man nature and leads us to the groom. It was Tinker Bell who cast the pixie dust on the children so they could fly, in the same way the Spirit of God will rise us and take us to the heights, where the holy groom dwells. Only a supernatural power of fairies allows the script to end up in marriage. Only through the supernatural power of the Spirit, we are regenerated and led in spirit and in body unto our Prince.

The poisoned apple. Although this is particular to one movie, Snow White and the Seven Dwarfs, it is one of the most central Disney icons. The poisoned apple is offered by the witch queen, disguised as a poor beggar, in order to “kill” Snow White. What did Satan do to the first woman? In a distinct disguise, he deceptively offered the forbidden fruit, with the same intention. Although we don’t know which was the forbidden fruit, it is interesting to notice how often it is thought as an apple, precisely the same fruit as Snow White’s. What did the queen say to deceive the princess? “Taste it and all your dreams will come true”. What did Satan say? “Taste it, and you will be like God”. Deceived and in disobedience, Eve ate the fruit, just like the Disney princess (for Snow White also disobeyed the dwarfs, who told her not to talk to anyone who tried to enter the house). That fall is the end of the beginning of the Bible, and the end of the beginning of Disney long productions. The fruit was poisoned and the princess falls asleep. But it isn’t possible for this fruit to be permanently lethal. There is an antidote, about which I already spoke. As the kiss given by the prince awakes the poisoned princess, the work of our Prince cancels sin’s deadness.
           
Dreams come true. I think this is the most repeated sentence in Magic Kingdom. The song at the parades have this chorus “Celebrate the dream inside of you, dream that just came true”. The show Dream Along With Mickey teaches us that, if we repeat loud and clear and with much faith “Dreams Come True”, evil is defeated (on the stage, Maleficent flees). The chorus of the main song in this show is “Come join the party where dreams really do come true” (yep, I memorized it after so many trips). And the final song says “Find your dream inside of you”. The second Disney feature Pinocchio (1940) contains the Oscar winner song “When you wish upon a star”, which says, in the end, that... your dream comes true. The great celebration for Cinderella is that “her dream of happiness came true”. Gaston, flirting with Belle, says “this is the day your dreams come true”. This phrase is everywhere! Unfortunately, I think it is also the most led astray from the gospel phrase. It teaches, in all the Disney context, it is up to you to make whatever dream of yours come true. “Anything your heart desires will come to you”, said Jimny Cricket. According to Magic Kingdom, all your dreams may come true if you believe it “very much”. This is the kind of thought that ends up denying God’s sovereignty and proclaiming ourselves as gods of our lives. James said the boast about tomorrow is demoniac.  And what’s “funny” is that a considerable part of Christianity thinks of God exactly like that, like the Gennie of Aladdin, that makes true everything we ask, as long as we ask with “much” faith. Now, let’s redeem the phrase “dreams come true”. I don’t think it is right, as some believers do, we must “dream God’s dreams”, because the omniscient and sovereign God doesn’t dream, he just determines and does. This anthropomorphism is exaggerated. However, if we understand the princess’ only dream is to find her prince, if we understand that this is only possible when a fairy comes to aid, and that it is up to the prince to fight and make this dream come true… then, it’s a whole other matter. Cinderella’s fairy came because she had faith. The truth is, however, the Spirit comes and then he grants us faith. Faith isn’t a man’s deed, it’s a God’s gift. And the true faith is the one who points to the true object, which is Jesus Christ. Aware of all that, knowing our greater dream as a bride is to meet the Prince of Peace, then we can truly declare that dreams come true. For, as Paul says in Romans 5, this hope does not put us to shame.
           
Happily Ever After. Every Disney movie ends with the marriage. Every prince’s and princess’ story is finished with the aim of all the script, which is the covenant, fulfilled. Disney stories aim to the marriage. The centrality in the covenant is biblical – naturally, the right covenant. We can be certain that the aim of all the world history, the object of scatology, the inexorable result of everything, is the marriage of Christ and the church. A marriage with a true happily ever after. In fullness of communion with the Savior, we shall enjoy eternal happiness, for “God will wipe away every tear”. This is the purpose for which the true love’s kiss – yes, the kiss from he who is Love and True – is given at the cross. As the fairy is empathic with the princess, the Spirit and the Bride cry “Come, Lord Jesus”. There is no other happily ever after than with the only Prince Charming, the Son of God, Jesus Christ. The end of all Disney story is like the end of the Bible: “And they lived happily ever after”.


André Duarte.

domingo, 14 de julho de 2013

Disney e evangelho


           Embora já tenha havido posts a respeito de filmes específicos, quero aqui retratar paralelos entre toda a cultura Disney e a mensagem do evangelho. É inegável que a Disney influenciou grandemente a cultura ocidental e imprimiu seus conceitos no imaginário coletivo. Quem pode olhar uma maçã vermelha e suculenta e não pensar se ela está envenenada? Quem não sente que, se você acreditar, pode realizar os seus sonhos? Quem se apaixona que não pensa em viver feliz para sempre com o par encantado? Especialmente para quem vai aos parques Disney, existem mensagens muito claras e insistentes que formam a base das produções dessa empresa, e que procuram converter os convidados (assim são chamados os clientes) às doutrinas dela. Vamos tratar, então, de conceitos fundamentais e primários da Disney e ver a obra de Deus, o Salvador, através delas.
           
The Damsel in distress. Talvez o que haja de mais atômico nas produções Disney seja a princesa que corre perigo. É interessante observar, inclusive, como que, através das décadas, essas princesas têm se tornado cada vez mais autônomas e ousadas. Branca de Neve, Cinderela, Aurora, que são princesas antigas, são realmente completamente indefesas até que um príncipe as salve. Jasmine, Ariel, Nala e Bela já demonstram um espírito mais rebelde contra a cultura e tomam parte ativa no desfecho vitorioso do enredo. Mulan... é asiática, então não conta :P. Ela é a heroína completa da história, mas lembre-se de que ela faz isso assumindo o papel literal de homem; não faz isso como mulher. Rapunzel, uma das princesas mais recentes, faz tudo na história, com independência, determinação. Mesmo assim, todas as princesas Disney acabam precisando do herói masculino, o príncipe, mesmo que seja nos últimos minutos. Giselle, embora salve o Robert no final, demonstra ser sempre a moça que almeja ser conquistada pelo seu príncipe (inclusive, no fim, pelo próprio Robert). O estado de necessidade, de incompletude em si mesma, de anseio pelo amor pactual – pois a Disney sempre trabalha o amor no contexto de casamentos – é verdade a respeito do povo de Deus, a Igreja. Nós, a Igreja, fomos criados para não termos sentido à parte do noivo, Jesus Cristo. Somos sim vítimas dos perigos de Satanás, do pecado e da morte, e completamente indefesos contra eles. Precisamos de um Salvador real. Note também que as princesas são sempre virgens e puras. Da mesma forma, a Igreja que se encontrará com o seu Salvador é pura, sem mácula ou ruga alguma (Efésios 5, Apocalipse 14:4, etc). A pureza é essencial para a Igreja se casar com o seu príncipe. Porém, a pureza dela vem de fora, e esse é o próximo ponto.

The Prince Charming. Para fazer par com as princesas da Disney, nada mais adequado do que os príncipes encantados. O príncipe é batalhador, e é ele quem dá o último ato na redenção final da mulher. Eric matou a Úrsula, Aladdin prendeu o Jafar, Simba derrotou Scar, Felipe matou Malévola. O príncipe da Disney é valente, heroico e frequentemente arrisca a sua vida para salvar a princesa. É de um Salvador como esse que nós precisamos. Jesus Cristo, nosso Príncipe Encantado perfeito, é corajoso e amoroso o suficiente para não apenas arriscar a sua vida, mas entregá-la em total voluntariedade e consciência para nos salvar do vilão. Ezequiel 16 demonstra como Deus é o príncipe encantado que se casa com o seu povo, este personificado como uma mulher que ele tornou pura. Temos, aqui, uma diferença importantíssima a salientar: na Disney, o homem e a mulher são puros. Às vezes, o homem não é puro exteriormente, mas é puro de coração (Aladdin e José Bezerra são ladrões, mas “bonzinhos”), enquanto a mulher é sempre pura. No evangelho, temos o inverso: Jesus Cristo é o máximo da pureza e da perfeição, e a Igreja... é, na verdade, uma prostituta! Nós nos prostituímos com deuses que inventamos, somos adúlteros contra o nosso príncipe. Mas Jesus Cristo efetua em nós, pela limpeza do seu sangue derramado, a purificação espiritual. É ele quem cuida de nós e nos prepara para sermos imaculados quando nos encontrarmos com ele no céu. Ele é o nosso Príncipe. Não é o garoto por quem você escolheu esperar! Tampouco, homem, é você o redentor da sua namorada. É o Filho de Deus, que virá para vencer o mal em seu cavalo branco, portando uma espada em sua boca, o belíssimo noivo de sua Igreja.

True love’s kiss. “It’s the most powerful thing in the world”, Giselle disse. Também, para a alegria das famílias de boa tradição, a Disney sempre retrata o primeiro beijo no contexto de um casamento ou, pelo menos, de um princípio de noivado. O beijo nunca é banalizado na Disney. Ele é o sinal garantido de que haverá um casamento, se não ocorre somente no casamento. Ele é algo definitivo, que transforma a relação entre o príncipe e a princesa, é um divisor de águas. Frequentemente, ele desperta princesas adormecidas, como a Branca de Neve e a Aurora. Da mesma forma, a cruz de Cristo e sua ressurreição são o nosso “beijo de amor verdadeiro”. Estando nós adormecidos eternamente pelo poder do mal, pelo veneno e pelo feitiço do pecado, é necessário que o nosso príncipe faça algo para nos ressuscitar. O que Jesus Cristo fez foi dar a sua vida e tomá-la de volta. Pelo sacrifício do nosso príncipe, somos despertados para, somente então, sermos cativados por seu amor e aptos para nos casarmos com ele. Repetindo, o beijo é a garantia de que haverá casamento. Nosso casamento com Jesus Cristo, no céu, como Apocalipse 19 nos diz, é garantido pelo beijo que ele nos deu na cruz. Por termos sido resgatados e cativados pelo seu beijo, recebemos a promessa de nos tornarmos sua esposa, reinando com ele para sempre. Então, sim, é verdade que a obra do nosso Senhor na cruz “is the most powerful thing in the world”.

The Fairy Godmother. Muitos contos Disney mostram fadas que, pelo seu poder sobrenatural, capacitam a princesa para atingir o seu objetivo de conquistar o príncipe. Vamos fazer aqui outra distinção: geralmente, na Disney, é a princesa que quer muito encontrar o seu príncipe, e cabe a ele reagir para isso. Embora eu tenha dito que o povo de Deus anseia por um resgatador, esse resgatador é sempre uma distorção do verdadeiro. Nós nunca realmente desejamos Deus enquanto estamos mortos em nossos pecados. É dele o plano, a iniciativa, o princípio e o fim da nossa salvação. Apesar dessa diferença, ainda assim a fada tem um paralelo interessante com o Espírito Santo enquanto regenerador. Veja: foi a Fada Azul quem capacitou Pinóquio a tornar-se vivo e atuante – como o Espírito de Cristo nos reaviva para iniciarmos nossa jornada com ele. Foi a Fada Madrinha quem deu à Cinderela vestes de princesa e uma carruagem, assim como o Espírito Santo nos santifica e nos conduz ao noivo. Foi a Sininho quem lançou o pó mágico para as crianças voarem, da mesma forma que o Espírito de Deus nos ressuscitará e nos levará às alturas, onde o santo noivo habita. Apenas um poder sobrenatural das fadas permite que o enredo termine em casamento. Apenas pelo poder sobrenatural do Espírito, somos regenerados e conduzidos em espírito e em corpo até o nosso Príncipe.

The poisoned apple. Embora seja uma particularidade de um único filme, Branca de Neve e os Sete Anões, é um dos mais fortes ícones da ideia Disney. A maçã envenenada é oferecida pela rainha bruxa, disfarçada de mendiga, para que Branca de Neve “morra”. O que Satanás fez à primeira mulher? Em roupagem diversa, de serpente, oferece enganosamente o fruto proibido pela mesma intenção. Embora não saibamos qual era o fruto proibido, é interessante observamos que ele costuma ser pensado como uma maçã, que é justamente o fruto da Branca de Neve. O que a rainha diz para enganar a princesa? “É só prová-la e todos os seus sonhos se realizarão”. O que Satanás diz? “É só provar, e você será como Deus”. Em engano e desobediência, Eva comeu do fruto, como a princesa Disney (pois os anões também haviam ordenado que Branca de Neve não falasse com ninguém que viesse à casa). O fruto era envenenado, e a princesa adormece. Porém, não é possível que esse fruto seja perpetuamente letal. Há um antídoto, e disso nós já falamos. Como o beijo do príncipe reaviva a princesa envenenada, a obra do nosso Príncipe anula a mortandade do pecado.
           
Dreams come true. Acho que essa é a frase mais repetida no Magic Kingdom. A música tema das paradas tem isto como refrão “Celebrate the dream inside of you, dream that just came true”. O show Dream Along With Mickey ensina que, se repetirmos bem alto e com muita fé que “Dreams Come True”, o mal é derrotado (no caso, a Malévola foge). E o fim da última música diz “Find your dream inside of you”. O segundo longa-metragem da Disney, Pinóquio (1940), tem como música vencedora do Óscar “When you wish upon a star”, a qual diz, no final, que... your dream comes true. A grande celebração para Cinderela é que “o seu sonho de felicidade se realizou”. Gaston, ao cantar a Bela, diz “hoje é o dia de realizar o seu sonho”. Esse termo está em toda parte! Infelizmente, penso eu que esse é também o termo mais desviado do evangelho. Ele ensina, em todo o contexto Disney, que a realização desse sonho depende de você. “É só você pedir e a estrela transformar”. De acordo com o Magic Kingdom, todos os seus sonhos podem se realizar se você acreditar “muito”. Esse tipo de pensamento acaba por negar a soberania de Deus e nos proclamar como deuses de nossa vida. Tiago diz que a vanglória sobre o dia de amanhã é demoníaca. E o “engraçado” é que boa parte da cristandade vê Deus exatamente assim, como o gênio da lâmpada do Aladdin, que realiza tudo o que nós pedimos, desde que tenhamos “muita fé”. Agora, vamos redimir o termo “dreams come true”. Não acho correto, como certos crentes dizem, que “você tem de sonhar os sonhos de Deus”, porque o Deus onisciente e soberano não sonha, ele simplesmente determina e faz. O antropomorfismo é exagerado. Porém, entendendo que o sonho da princesa é encontrar o seu príncipe, entendendo que isso só é possível quando uma fada a ajuda, e que depende do príncipe lutar e vencer a realização desse sonho... aí a coisa muda de figura. A fada da Cinderela veio porque ela teve fé. A realidade, porém, é que o Espírito vem e então ele nos concede fé. Fé não é obra humana, mas é dádiva de Deus. E a fé verdadeira é aquela que tem um alvo verdadeiro, que é Jesus Cristo. Tendo isso em mente, sabendo que o maior sonho nosso, como noiva, é encontrar o Príncipe da Paz, então aí sim podemos declarar que Dreams Come True. Pois, como Paulo diz em Romanos 5, “a esperança não nos decepciona”.
           
Happily Ever After. Todo filme Disney termina com o casamento. Toda história de príncipe e princesa encerra com o fim de todo o enredo, a aliança, realizado. As histórias Disney visam ao casamento. Essa fixação pelo pacto é algo bíblico – naturalmente, o pacto correto. Podemos ter a certeza de que o fim de toda a história do mundo, aquilo de que trata a escatologia, o resultado inexorável de todas as coisas, é o casamento entre Jesus e a Igreja. Um casamento onde verdadeiramente existe um felizes para sempre. Na plena comunhão com o Salvador, gozaremos de felicidade eterna, pois “Deus enxugará toda lágrima de seus olhos”. É para esse fim que o beijo do amor verdadeiro – sim, o beijo daquele que é Amor e é Verdadeiro – é dado na cruz. Como a fada é empática com a princesa, o Espírito e a noiva dizem “Vem, Senhor Jesus”. Não há feliz para sempre senão com o único Príncipe Encantado, o Filho de Deus, Jesus Cristo. O encerramento de toda história Disney é como o encerramento da Bíblia: “E viveram felizes para sempre”.

(E tem gente ignorante o suficiente pra dizer que Disney é do demônio...)


André Duarte.

domingo, 9 de junho de 2013

A Necessidade de Teologia - Cheung

A teologia é necessária não somente para as atividades cristãs, mas também para tudo da vida e do pensamento. Visto que Deus é tanto máximo quanto onipotente, ele tem o direito e a capacidade de dirigir todos os aspectos das nossas vidas. A teologia procura entender e sistematizar sua revelação verbal, e é autorizada até onde ela reflete o ensino da Escritura. A necessidade de teologia é uma questão da necessidade de comunicação de Deus. Visto que este é o seu universo, a fonte derradeira de informação e interpretação de tudo da vida e do pensamento é a revelação divina. E, visto que é preciso ouvir de Deus, a teologia é necessária.
A teologia é central para tudo da vida e do pensamento, porque ela trata com a revelação verbal do supremo ser — a realidade essencial que dá existência e significado a tudo. Por exemplo, a ignorância de teorias musicais não tem relevância direta para com a habilidade de alguém mexer com álgebra ou raciocinar sobre assuntos morais. Contudo, a ignorância com respeito à revelação divina afeta tudo da vida e do pensamento, desde a visão de alguém da história e da filosofia, até a interpretação da música e literatura, e o entendimento de matemática e da física.
Visto que este é o universo de Deus, somente sua interpretação sobre tudo está correta, e ele revelou seus pensamentos para nós através das palavras da Bíblia. Segue-se, portanto, que uma ignorância da teologia significa que a interpretação de alguém de cada assunto carecerá do fator definitivo que ponha nessa a perspectiva correta. Na área de éticas, por exemplo, é impossível apresentar qualquer princípio moral universalmente obrigatório, sem recorrer a Deus. Até os conceitos de certo e errado permanecem indefinidos sem sua revelação verbal. E, visto que a Bíblia é a única revelação divina objetiva e pública, o único modo de se recorrer à autoridade de Deus é apelando à Bíblia.
Uma das maiores razões para se estudar teologia é o valor intrínseco do conhecimento sobre Deus. Cada outra categoria de conhecimento é um meio para um fim, mas o conhecimento de Deus é um fim digno em si mesmo. E, visto que Deus Se revelou através da Escritura, conhecer a Escritura é conhecê-lo, e isto significa estudar teologia.
Sucumbindo ao espírito anti-intelectual desta geração, alguns crentes distinguem entre conhecer a Deus e conhecer sobre Deus. Se “conhecer sobre” ele se refere ao estudo formal da teologia, então, para eles, alguém pode saber muito sobre Deus sem conhecê-lo, e alguém pode conhecer a Deus sem conhecer muito sobre Ele. Um conhecimento teológico de uma pessoa é desproporcional a quão bem ela conhece a Deus.
Mas, se é possível conhecer a Deus sem conhecer muito sobre ele, o que significa conhecer a ele? Se conhecer a Deus significar ter companheirismo com ele, então, isso envolve comunhão, que, consequentemente, requer a troca de pensamento e conteúdo intelectual, dessa forma, trazendo de volta o conceito de conhecimento sobre algo. Uma pessoa não pode se comunicar com outra sem trocar informação na forma de proposições, ou de uma maneira na qual a informação conduzida seja redutível a proposições.
Como alguém conhece a Deus, senão através de conhecer sobre ele? Alguém pode responder que conhecemos a Deus através de experiências religiosas, mas até isso é definido e interpretado pela teologia, ou conhecimento sobre Deus. O que é uma experiência religiosa? Como alguém sabe que a recebeu? O que um sentimento ou sensação particular significa? Respostas para estas questões podem somente vir pelo estudo da revelação verbal de Deus. Mesmo se fosse possível conhecer a Deus através da experiência religiosa, o que a pessoa ganha ainda é um conhecimento sobre Deus, ou uma informação intelectual redutível a proposições.
Alguém pode reivindicar conhecer a Deus através da oração e da adoração. Mas, tanto o objeto como a prática da oração e da adoração permanecem indefinidos até que esta pessoa estude teologia. Antes de poder orar e adorar, ela deve primeiro determinar a quem ela deva oferecer isso. Subsequentemente, ela deve determinar, a partir da revelação bíblica, o modo no qual ela deve oferecer oração e adoração. A Escritura governa cada aspecto da oração e da adoração. O conhecimento de Deus, portanto, vem de sua revelação verbal, e não de meios ou exercícios religiosos não verbais. A maioria das pessoas que resistem aos estudos teológicos não pensa sobre tais questões, mas são capazes de orar e adorar, assumindo, frequentemente sem garantia, o objeto e a maneira destas práticas espirituais.
Todavia, outra pessoa pode dizer que conseguimos conhecer a Deus por andar em amor. Mas, novamente, o conceito de amor permanece indefinido até que ela estude teologia. Até o relacionamento entre conhecer a Deus e andar em amor origina-se na Bíblia: "Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1 João 4:7-8).
Sem essa e outras passagens similares na Bíblia, não se pode justificar a reivindicação e que conhecer a Deus é andar em amor. Muitos que alegam conhecer a Deus através de um andar em amor, não estão fazendo nada além de serem bondosos para com os outros, com uma bondade definida pelas normas sociais, e não pela Escritura. Estes indivíduos não possuem nada mais do que uma ilusão de conhecer a Deus.
Uma vez que uma pessoa tenta responder às questões acima sobre como alguém chega a conhecer a Deus, ela está fazendo teologia. O assunto, então, torna-se o seguinte: sua teologia é correta? Portanto, teologia é inevitável. Enquanto que uma teologia errônea leva a um desastre espiritual e prático, uma teologia acurada conduz a uma adoração genuína e a um viver piedoso.
Um slogan que reflete a atitude anti-intelectual de muitos cristãos, diz: “Dê-me Jesus, não exegese”. Contudo, é a Escritura que nos dá informação sobre Jesus, e é através da exegese bíblica que averiguamos o significado da Escritura. Sem exegese, portanto, ninguém pode conhecer Jesus. Deve-se apenas testar essa afirmação questionando aqueles que dizem tais coisas, com este slogan, sobre o que eles sabem sobre Jesus? Na maioria das vezes, sua versão de Jesus não se parece, nem remotamente, com o relato bíblico. Isto significa que eles não o conhecem de forma alguma, sem falar de outros tópicos teológicos importantes, tais como infalibilidade bíblica, eleição divina e governo de igreja. O que temos de dizer é: “Dê-me Jesus através da exegese”.
Um repúdio à teologia é também uma recusa de conhecer a Deus por meio do modo por ele prescrito. O conhecimento da Escritura — conhecer sobre Deus ou estudar teologia — deve estar cima de tudo da vida e pensamento humano. A teologia define e dá significado a tudo que alguém possa pensar ou fazer. Ela está cima de todas as outras necessidades (Lucas 10:42); nenhuma outra tarefa ou disciplina se aproxima dela em significância. Portanto, o estudo da teologia é a atividade humana mais importante.

Referência:
CHEUNG, Vincent; Teologia Sistemática, traduzido e revisado por Felipe Sabino de Araújo Neto e Vanderson Moura da Silva. www.monergismo.com

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pais: educadores cristãos


            É bem sabido, mesmo no mundo laico, que a família é a base da sociedade. Ela é o átomo do mundo social. Da mesma forma, a Igreja é descrita, especialmente pelas epístolas pastorais, como uma grande família. Os idosos são comparados a pais, as idosas como mães, as mulheres jovens como irmãs. Uma das qualificações necessárias para o presbítero-pastor-bispo é ser um pai eficiente, que governa bem o seu lar e não tenha filhos insubmissos e desobedientes. Paulo dá a razão óbvia: se alguém não pode governar a própria família, como guiará a família de Deus? O ponto é que a família é também a base da Igreja. E, embora o relacionamento de cada membro da família nuclear seja orientado pela Bíblia, quero falar especificamente sobre o dever dos pais aos filhos.
           
Todo mundo sabe que uma causa fundamental para o fracasso moral do mundo é a má educação dentro de casa. Os pais frequentemente negligenciam a educação séria de seus filhos e limitam-se a detalhes facilmente expressos em ordens curtas. Confiam na escola para a educação profunda, a qual cada vez mais preocupa-se em nada mais do que preparar para o ingresso em uma universidade por meio de uma prova. Se o filho passar no vestibular, então a missão paterna foi cumprida. E, se o filho for um fracasso em tudo o mais na sua vida, os pais não sabem onde erraram. Tal fracasso repercute na sociedade, cujos componentes são todos filhos de alguma família. Um monte de filhos desorientados, sejam ou não universitários, destrói a harmonia da sociedade.

            Tudo isso vale para o mundo laico. Mas, será que na Igreja é tão diferente? Pais cristãos têm uma noção melhor, pelo menos teórica, de sua responsabilidade como formadores de valores. O grande ponto é: será que os pais assimilaram o fundamento dos seus próprios valores que eles pretendem transmitir aos filhos? Ou apenas decoraram regras e repetirão regras aos filhos? Ok, uma coisa de cada vez. Primeiro, a generalidade de pais cristãos têm como preocupação principal o mesmo dos pais laicos: vida acadêmica. Mas existem certos acréscimos à vida acadêmica, que é justamente o que os pais crentes pensam que é o diferencial de uma educação cristã: outras regras supérfluas. Pais cristãos, além de serem rígidos com escola, costumam também ser rígidos com regras sobre a hora de dormir, a hora de chegar em casa, a hora e o lugar das refeições, a arrumação do quarto, a frequência nos cultos. Pais de meninas, principalmente, são neuróticos com os namoros delas. Mil regras, observações, ressalvas, tudo em nome da pureza.

            Espere aí. É necessário sim ter regras. Os pais devem conduzir os filhos por meio de regras. Quando os filhos são crianças, principalmente, a existência de regras é importante para a formação do caráter. Mas isso basta? Ora, simplesmente repetir regras e ordens é muito fácil. Não exige tempo, paciência, dedicação... é apenas um negócio a mais para ser administrado. Muitas vezes, os pais também seguem regras próprias sem nem saber por quê. Consequentemente, não têm o zelo de explicar o porquê aos filhos. É difícil encontrar pais cristãos que sejam abertos a conversar com os filhos sobre as regras que eles fazem. Poucos filhos conseguem questionar seus pais sem serem repreendidos ou ouvirem uma resposta evasiva. As regras funcionam somente enquanto a coação está presente. Quando os filhos saem de casa, ou mesmo quando ganham certa independência, as regras sem fundamento serão esquecidas. Os pais devem se preocupar em educar os filhos para que eles sejam verdadeiros cristãos mesmo na idade adulta, quando tiverem possibilidades e recursos para fazer o que quiserem. As regras não esgotam sua finalidade em si mesmas. Talvez haja uma motivação legalista em certos pais, que querem ser aceitos por Deus pela boa obra de criar um filho corretamente. Esses pais, no fundo, não se importam se os filhos realmente permanecerão em Deus para sempre; importam-se consigo mesmos, em garantir que, se o filho se desviar um dia, não foi culpa deles.

            Não acho que seja necessário citar os versículos que falam sobre como os pais devem educar os filhos, como se fossem novidade. Todo mundo sabe que Efésios 6 diz que os pais devem criar os filhos no caminho do Senhor, e não ser irritáveis, tratando os filhos como se fossem meras extensões de sua autoridade. Também em Deuteronômio está escrito que os pais devem falar das palavras de Deus com seus filhos a todo momento, no caminhar, no levantar e no deitar. Agora, todos os pais cristãos acham que estão cumprindo isso. Será mesmo? Em primeiro lugar, será que os pais realmente decidem ter filhos já sabendo o que eles terão de fazer? Será que amadurecem primeiro para então criar filhos? Ora, para um adulto se casar com uma adulta, ambos devem ter profundo conhecimento do que as Escrituras exigem de um casamento. Devem saber o que é o pacto de Deus com o seu povo, o casamento de Cristo com a Igreja. Só então, entenderão como deve ser um casamento comum. O mesmo tipo de reflexão deve haver antes mesmo da decisão de ter filhos. Será que os pais realmente agem como o Pai celestial age com seus filhos? Às vezes, a única semelhança que encontramos é a que não deveria existir – os pais praticamente exigirem ser adorados pelos filhos. Ou então insistindo com os filhos que eles sabem de tudo, que são os grandes sábios da vida.

            Pais cristãos devem saber que estabelecer 3 ou 4 regras – assista os cultos, não fale palavrão, não faça sexo, não bata no seu irmão, vá lavar a louça, etc – é muito longe de fazer educação cristã. Como eu disse antes, dar broncas e proclamar regras não dá trabalho nenhum. O que dá trabalho é passar tempo com o filho, conhecendo-o, ouvindo-o, abrindo-se com ele quanto aos seus próprios defeitos (tolos pais, realmente acham que podem manter uma imagem de invencíveis). Jesus não faz dos filhos de Deus apenas servos, mas amigos. E ele diz que a marca dessa amizade é a revelação transparente e clara que vem de um relacionamento íntimo. Deus, nosso Pai, revelou plenamente de si mesmo aos seus filhos, e conhece perfeitamente os filhos que ele criou. Da mesma forma, os pais devem deixar que seus filhos os conheçam. Não passivamente, como muitos fazem, esperando o filho ter vontade de conhecê-lo. Mas, como Deus não ficou esperando os humanos descobrirem o evangelho sozinhos, os pais precisam falar para os filhos quem eles são. Abrir o coração. Confessar suas angústias, suas expectativas, contar sua história.

            E a parte de ensinar as regras, como fica? Acontece que Deus revelou aos seus filhos não apenas a sua Lei, mas o seu espírito, sua aplicação, seu propósito, sua finalidade, sua motivação. Pais devem ensinar aos filhos por que eles estão ordenando que ele vá arrumar o quarto. Por que é importante que ele estude. Certos pais relapsos levam isso a um lado péssimo, exigindo que o filho lhe obedeça somente quando conseguir convencê-lo. Não é isso. Pais devem sim exercer autoridade e disciplina com rigidez. Mas eles devem retirar das leis de Deus e do seu evangelho as regras próprias para o lar. Nenhum pai deve pensar que pode inventar um sistema moral e sábio melhor do que o de Deus. Pais legalistas deleitam-se na arbitrariedade com que comandam os filhos, sentindo-se deuses. E, quanto ao ensino dos caminhos de Deus, igualmente os pais devem saber explicar, fundamentar, provar pela Escritura e inclusive permitir ser questionados. Por que ir à Igreja todo domingo? Por que orar antes de dormir? Por que ler a Bíblia todo dia? Por que não mentir? Os pais precisam esclarecer isso. Eles devem saber qual é a finalidade das leis de Deus, que é também revelada na Bíblia. Se não compreenderem profundamente os propósitos e motivos das leis de Deus, também não saberão ensinar.
           
Desnecessário é lembrar que o ensino mais eficaz é o exemplo. Pais nunca vão convencer os filhos de que falar palavrão é errado se eles mesmos falam quando estão no trânsito ou assistindo futebol. Não vão ensinar o filho a ser paciente se eles estão sempre angustiados. Não vão ensinar a mansidão se gritam com raiva por qualquer motivo. Não vão ensinar a justiça se eles são injustos. Não serão bons educadores se não educarem a si mesmos. Além de educadores inúteis, são também hipócritas que não fazem mais do que incomodar os ouvidos de Deus. E serão cobrados. Pois o chamado para ser mestre em casa – que é do pai e da mãe igualmente – é seríssimo, a missão mais importante da vida de quem tem filhos.
           
Como os pais seculares confiam a educação moral à escola, também os pais cristãos confiam à Igreja. Erro total. A constância dos filhos como alunos está no lar, não na Igreja. É no lar que eles realmente vivem. Igreja, no início, é percebida apenas como uma rotina. E a Igreja não ensinará todos os filhos membros com total eficiência; além de ser impraticável, nem é papel principal dela. Pais devem dedicar o máximo do seu tempo com os filhos. Ensinar a Bíblia todos os dias, não só quando não estão cansados do trabalho. Falar sobre as Escrituras com naturalidade, não com um clima de medo e tensão. Se os pais não cumprem seu dever correto com os filhos, se acham que estabelecer certas regras é o suficiente, o resultado é a Igreja tornando-se desviada, desorientada e oscilante entre legalismo e antinomismo. O sucesso e o fracasso começam em casa. Relações familiares são um espelho da relação pactual de Deus com o seu povo. Não há manual de instruções nem convenções culturais particulares da família que possam substituir isso.


            André Duarte