segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Post Natalino 4 – Os Magos e a Luz dos Gentios



            O relato da visita dos três reis magos é bem mais famoso do que o da revelação aos pastores, ou a apresentação de Jesus no templo. Em muitos presépios de natal, os magos estão juntos aos pais de Jesus, com o bebê deitado na manjedoura. Na realidade, essa história é bem mais tardia. Os pastores sim visitaram Jesus quando a família ainda estava na estrebaria (ou numa caverna que servia de estábulo, dependendo da tradição), pois eles foram no mesmo dia em que Jesus nasceu. A apresentação de Jesus no templo ocorreu 40 dias após o seu nascimento. A visita dos magos, entretanto, ocorreu quando Jesus já tinha mais de um ano de idade, quase dois. Já sabia andar, provavelmente já sabia falar... e, obviamente, a sagrada família não passou esses dois anos morando num estábulo, mas tinham uma residência própria em Belém. A evidência desse tempo é o fato de que Herodes, para se livrar de Jesus, ordenou o genocídio das crianças com até dois anos de idade. Os magos, portanto, não foram visitar um recém-nascido em uma manjedoura, mas um bebê crescido em uma casa normal.

            Outra ideia pressuposta é que os magos seguiram a estrela durante todo o tempo. Na realidade, o texto de Mateus 2 diz que os magos foram a Jerusalém porque viram a sua estrela quando estavam no oriente. Ora, se já houvesse uma estrela móvel indicando o caminho até Jesus, os magos teriam ido diretamente até Belém. O mais provável é que esses magos eram astrólogos que, ao verem uma estrela diferenciada no céu, interpretaram-na como o sinal do nascimento de um rei judeu – e, então, foram a Jerusalém porque era a capital da Judeia. Não sabemos se essa estrela era especial e um sinal exclusivo, ou se Deus usou uma estrela comum para induzir os magos à interpretação que ele queria. O ponto é que os magos imediatamente reconheceram que o novo rei era digno de adoração. É notável que um grupo de magos do Oriente, talvez do Império Persa, fizeram viagem até a esquecida e pobre região da Judeia para adorarem um rei de outra nação. À sua maneira, Deus revelou a eles que o rei divino, que reinaria sobre toda a terra, chegara ao mundo. É o cumprimento do que Simeão havia indicado, que Jesus seria luz para os gentios, para a glória de Israel.

            A nação de Israel, é claro, ficou perturbada. Entretanto, é pouco provável que os líderes religiosos dessem crédito a uma interpretação astrológica de magos pagãos. Herodes, entretanto, não ignorou a notícia. Afinal, para ele, não poderia haver qualquer outro pretendente ao trono. Preferiu então ir conhecer a crença dos judeus para verificar se a notícia era verídica, com a única intenção de poder matar o tal novo rei, se é que ele existia. As atitudes de Herodes são assunto do próximo post.

Os rabinos e sacerdotes, entretanto, conheciam as Escrituras e sabiam onde o Messias nasceria. Eles citam Miqueias 5:2. O profeta, após falar tanto sobre a destruição de Israel e Judá, profetiza que, de Belém, viria o novo líder, que guiaria o seu povo. A citação feita é livre, pois tem algumas diferenças com o texto do profeta. Miqueias chama a cidade de “Belém-Efrata”, devido à ligação de Belém com a cidade que havia ali no passado, Efrata. Esse nome antigo não era mais relevante para o primeiro século; por isso, os rabinos dizem “Belém de Judá”, enfatizando a nação preservada. Além disso, Miqueias diz sobre a cidade: “embora seja a menor das cidades”, pois isso era verdade na época. Os rabinos, no entanto, chamam a cidade assim “de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá”, ou seja, ela é a maior cidade, ou quase. Não que Belém houvesse mudado muito, mas o nascimento do Cristo tornou a cidade a mais importante e, mesmo que os rabinos ainda não tivessem certeza de que o Messias já estava lá, a expectativa de que ele viria era muito grande, o que valorizara a pequena cidade. Outra diferença é que Miqueias usa o termo “governante”, enquanto o texto em Mateus diz “pastor”. Juntando a outras profecias, os judeus entenderam que o Messias teria um caráter de pastor – por exemplo, Ezequiel 37. Essas diferenças podem não ter sido ditas pelos rabinos, mas sim por Mateus, ao escrever o evangelho já conhecendo tudo o que Jesus realizou e o que ele significava. É mais um exemplo de profecia clarificada pelo seu objeto.

Após ser informado de que o Messias nasceria em Belém, Herodes enviou os magos para ir verificar. Nessa ocasião, a estrela moveu-se até a casa em que Jesus morava. Entrando na casa, os magos encontraram o bebê, alegraram-se e o adoraram. Lá estava o rei de toda a terra, gentil e manso. E lá estavam nobres astrólogos, talvez já conselheiros do rei deles, como os astrólogos do faraó na época de Moisés, ou de Nabucodonosor na época de Daniel. Talvez esse ato de dirigir-se a um novo rei e adorá-lo tenha sido considerado de traição pelo rei na nação do oriente. Os magos, sem dúvida, converteram-se ao Deus encarnado. Aí estão os primeiros gentios do Novo Testamento entrando para o povo salvo. Será que os magos levaram o evangelho para o seu povo? Bem, isso me faz pensar na obscuridade do início do cristianismo na Índia. Diz uma tradição que foi o apóstolo Tomé quem primeiro pregou lá. Às vezes, fico pensando se teria sido possível que foram os magos quem começaram tudo... mas, não há evidência alguma.

Os magos não apenas prestaram adoração a Jesus, mas deram-lhe presentes. Por que ouro, incenso e mirra? O ouro é fácil de entender, afinal, é um presente caro e valioso, comum e adequado para um rei. Entretanto, incenso e mirra também são presentes reais. Incenso é o conjunto de materiais extraídos de plantas aromáticas que, quando queimados, produzem um aroma agradável, razão por que era um tipo de oferta no templo, no Lugar Santo. Esse presente pode indicar o caráter sacerdotal de Cristo, além do real. Mirra era também extraída de plantas aromáticas, tinha alto valor e poderia ser usada como produto de beleza, como foi o caso de Ester, bem como para mistura com vinho em caso de enfermidade. Foi também usada para ungir o corpo de Jesus quando foi sepultado. O ponto é que todos os presentes são de alto valor, dos quais um rei é certamente digno.  Com os presentes, os magos estavam provando para Maria que eles reconheciam o novo e eterno rei, o Filho de Deus.

Nessa história, vemos que o rei prometido a Israel, Jesus Cristo, filho de Davi, começa a converter nações à fé desde bebê. Sendo ainda infante, o próprio Pai revelou o Filho às pessoas que ele escolheu. Primeiro, o Senhor foi revelado a pastores; depois, a Simeão e Ana no templo; agora, ele atrai pagãos estrangeiros. A história como um todo prefacia a dimensão do reinado de Jesus: todos os povos, raças, línguas e nações. Também compreendemos o sinal de uma conversão genuína – o dobrar-se diante do humilde e aparentemente inofensivo rei, oferecendo a ele adoração e entrega. Lembremo-nos de que Jesus teve um momento em que parecia ainda menor do que quando bebê: quando foi crucificado, humilhado como um criminoso. O rei dos judeus crucificado era, de acordo com Paulo em 1Coríntios 1, um completo absurdo para judeus e para gregos. Pois, como pode o grande rei, o logos do universo, ser tão fraco a ponto de morrer em completa vergonha? É porque essa é a nossa imagem para Deus. Jesus tornou-se semelhante a nós – fracos, humilháveis, malditos diante de Deus – para nos salvar, sendo nosso substituto. Os magos compreenderam que havia um grande rei por trás da singela e pobre aparência. Será que conseguimos olhar para o bebê e para o crucificado e enxergamos força além da fraqueza? Vitória, e não pena? Um leão escondido em um cordeiro? O rei do universo, e não mais um sofredor?

André Duarte

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Post Natalino 3 – O Templo e o Supremo Templo



            Após o nascimento de Jesus, seguindo pelo relato de Lucas, sua família realiza fielmente as prescrições da Lei de Moisés para o nascimento de um menino. Esse relato demonstra a humanidade do Senhor, sendo submetido aos costumes que estavam impostos aos homens para com eles se identificar. Deus se tornou não apenas um homem, mas um homem cumpridor da Lei que ele mesmo tinha criado. Veremos que Jesus veio como servo da Lei para sobrepujá-la.

            No oitavo dia, Jesus foi circuncidado. Esse fato é o início do cumprimento das profecias sobre o Messias judeu. A circuncisão era o sinal da aliança de Deus desde Abraão, como diz Gênesis 15. A promessa de Deus foi passada através de Isaque e Israel, e era necessário ser circuncidado para pertencer ao povo israelita, para herdar a promessa. Mesmo os estrangeiros que quisessem se converter à fé israelita precisavam passar pela circuncisão. Visto que o Messias deveria ser um rei judeu, também ele deveria se submeter ao ritual. Seus pais, fiéis a Deus, não negligenciaram essa lei. Posteriormente, após cumprir sua missão, Jesus iria revolucionar a Lei, provendo uma circuncisão superior, a regeneração efetuada pelo Espírito nos corações. A presença do Espírito Santo passaria a ser o novo sinal de pertencimento ao povo de Deus.

            Em seguida, José e Maria apresentam-se no templo para cumprir o ritual de purificação do parto e para realizar o resgate do primogênito. Lucas cita as passagens da Lei que determinam essa regra. Em Êxodo 13, Deus ordena aos israelitas que resgatem todo primogênito. Posteriormente, Deus explica melhor o porquê dessa regra (Números 3:40-51). A ideia é que todos os primogênitos pertencem a Deus; entretanto, ele escolheu os levitas para o serviço sagrado em lugar daqueles. Por isso, o primogênito precisa ser resgatado, isto é, ele precisa pagar para que o levita atue no templo (ou tabernáculo) em seu lugar. É notável que o grande resgatador da humanidade precisou ser resgatado primeiro para poder realizar a sua jornada. Temos aqui mais um exemplo de como Jesus se submeteu à Lei, como um homem, para que fosse perfeitamente justo no cabe aos homens, a fim de imputar a nós a sua justiça. Além disso, podemos meditar no fato de que o resgatado efetuou o resgate: fomos redimidos do poder do pecado para sermos “levitas”, dedicados a Deus inteiramente. Cristo faz o caminho inverso da Lei e nos provê uma bênção superior, possível apenas devido ao seu poder divino.

            Em Levítico 12, Deus ordena que as mulheres, ao darem à luz um homem, aguardem 40 dias para irem ao templo oferecer um sacrifício pelo pecado. A modalidade “sacrifício pelo pecado” servia como um memorial da pecaminosidade humana diante de Deus; não se refere necessariamente a um pecado específico por causa do parto. Lucas diz que José e Maria ofereceram “duas rolinhas ou dois pombinhos”, que era a oferta permitida para quem não tivesse recursos. É uma das evidências de que os pais de Cristo eram realmente pobres (pelo menos nessa parte da vida). Jesus também foi uma oferta pelo pecado na cruz, apaziguando para sempre a ira de Deus contra o pecado de todos os que nele creem. A oferta dos judeus, como a que Maria ofereceu, era apenas uma sombra; o sacrifício do Senhor é perfeito e eternamente eficaz. Mal sabiam José e Maria que estavam encenando toda a obra do seu filho naquele momento.

            Jesus já tinha mais de um mês de idade, mas a sua vinda ainda era novidade para muitos. Um homem chamado Simeão recebeu uma revelação de Deus de que ele veria o salvador antes de morrer. E foi compelido pelo Espírito a ir ao templo encontrar-se com José e Maria. Lá, ele reconheceu o Messias. Segurou Jesus no colo e prestou louvor a Deus, dizendo “agora, podes despedir o teu servo em paz, pois os meus olhos já viram a tua salvação”. Essa é a reação de um verdadeiro convertido: compreender que, uma vez tendo sido salvo por Cristo, nada mais importa; a morte é a passagem para a vida eterna, e o temor é dissipado. Simeão também demonstra ser um bom entendedor do Antigo Testamento, pois chama Jesus de “luz para os gentios”. Era excepcional que um judeu compreendesse esse papel do Messias; na época, os judeus quase ignoravam esse fato, pois detestavam os gentios. Simeão compreendeu, à luz de Isaías 42:6 e 49:6, que a profecia estava realizada naquele bebê. Jesus seria o Messias não só de Israel, mas de todo o mundo – como diz Paulo em Romanos 1:5, “para converter todas as nações à obediência que vem pela fé”. Voltando a Abraão, Jesus cumpriu o propósito do pacto de Deus com o patriarca: ser uma bênção para todos os povos da terra (Gênesis 12:3).

            Em seguida, Simeão dá algumas profecias a Maria. Ele diz que Jesus seria um sinal de contradição, causando a queda de muitos e o soerguimento de outros e revelando o que há de oculto nos corações. De fato, Jesus inverteu todo tipo de paradigma humano e expectativa carnal. Ele expôs a hipocrisia dos rabinos, compadeceu-se de pecadores, humilhou os orgulhosos, amou os incircuncisos, proclamou-se Senhor do sábado e perdoador de pecados. E ainda zombou da morte ao levantar-se do sepulcro. Ele trouxe a espada, colocando homens uns contra os outros, dividindo a humanidade entre seus seguidores e seus inimigos – sendo ainda o Príncipe da Paz. Não há palavras para explicar como Jesus é indescritível e eternamente surpreendente. Quem nele crê é iluminado para compreendê-lo, mas quem não crê não entende nada, é encoberto pelas trevas da confusão. Por fim, Simeão diz que uma espada atravessaria o coração de Maria, certamente devido à crucificação do singelo bebê que ela dera à luz.

            Além de Simeão, Lucas menciona outra mulher, uma profetiza chamada Ana, dita da tribo de Aser. Essa menção da tribo é importante porque, na época, os israelitas que não eram da tribo de Judá estavam dispersos. Seria possível apontar, no máximo, os samaritanos, que eram israelitas mestiços. Era quase impossível identificar alguém como de uma ou outra tribo de Israel. Mas Ana, sendo da tribo de Aser, era devota a Deus, louvando e jejuando continuamente no templo. Era uma mulher bem idosa, de 84 anos, e viúva. E ela reconheceu Jesus também, e deu graças a Deus pelo Salvador. Em outras palavras, uma mulher da tribo de Aser creu no Messias. Nesse relato, então, vemos que Jesus é salvador de judeus, gentios e israelitas. A menção de Ana é a “cereja do bolo”, o ponto que faltava para que Jesus fosse compreendido, neste texto, como o salvador de toda a humanidade, sem distinção étnica.

            Toda essa história situa-se no templo. Já foi dito, ao longo do post, sobre como Jesus cumpriu a Lei, como um humano comum. O eterno e divino Filho de Deus limitou-se à forma humana e se submeteu às regras impostas aos homens. Ele fez isso para que, pela sua fidelidade infalível, pudesse cobrir os nossos pecados e nos apresentar inocentes diante de Deus. Entretanto, ele foi reconhecido como muito mais que um homem comum: ele era o libertador prometido, o salvador de todo o mundo. Jesus provê a circuncisão superior, a oferta sacrificial verdadeira, a purificação perfeita, a conversão global. Ainda há um aspecto da religião dada aos homens que Jesus revolucionou a ser comentada: o templo.

            Depois, quando adulto, Jesus disse que, se o templo fosse destruído, ele poderia levantá-lo em três dias. E disse que esse seria um sinal de sua autoridade, quando questionado pelos judeus. Mas João explica que Jesus referia-se ao seu corpo, não ao templo literal (João 2:18-22). Ora, foi no templo judaico que Jesus foi apresentado para cumprir a Lei. Pois tudo o que diz respeito ao culto a Deus deveria acontecer no templo, o local onde a presença de Deus estaria representada. Jesus é, como o meio de culto a Deus, o supremo templo. Como ele diz em João 4, não importa mais o lugar de adoração, e sim que se adore em espírito e em verdade. Jesus tornou-se o novo templo, a pessoa a quem podemos nos achegar para termos acesso a Deus para adorá-lo de forma aceitável. A intermediação do templo era uma prefiguração da intermediação do Senhor Jesus. Lembremo-nos também de que a Igreja, por ser o corpo de Cristo, também é identificada como o templo, no sentido de ser o organismo onde o Espírito habita. Jesus e a Igreja são um.

            Jesus é o supremo templo, infinitamente superior ao primeiro, porque ele quebrou as limitações de culto. Em Hebreus 9, somos lembrados de que, no templo judaico, há um véu que nos separa do acesso a Deus no Lugar Santíssimo. Jesus Cristo rasgou o véu do templo judaico enquanto o seu próprio corpo era rasgado na cruz. Fez isso para que todo o seu povo não mais precisasse viver afastado de Deus, mas pudesse entrar na plenitude da adoração. O templo físico inspirava um culto ainda com uma barreira para ser rompida, pois o acesso do povo era restrito. Através de Jesus, não há mais restrição. Nossa adoração a Deus é completa por meio dele, a qual não mais carrega medo, mas sim contrição e amor.

André Duarte

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Post Natalino 2 – Os Pastores e o maior Pastor



            No post anterior, vimos que, na concepção do Senhor, um grande milagre foi dado como sinal de sua grandeza: sua geração por meio de uma virgem. Poderíamos esperar que algo sobrenatural ocorresse na ocasião de seu nascimento. Hoje, veremos que, em Jesus, glória e humildade se encontram.

            Lemos em Lucas 2 que o César Augusto (Otaviano) ordenou um recenseamento. Cada homem deveria retornar à sua cidade natal para lá ser alistado. José residia em Nazaré, na Galileia; porém, deveria se alistar em Belém, visto que era de linhagem real e Davi havia nascido lá. A viagem seria especialmente complicada devido à gravidez de Maria em estado avançado. O casal, ao chegar em seu destino, não encontrou local para repousar, pois a estalagem (o “hotel”) estava lotado. Não sendo prudente caminhar mais para encontrar outro lugar, provavelmente porque Maria estava dando sinais do início de trabalho de parto, decidiram repousar no estábulo. Ali, no meio da palha e cercada de animais, Maria deu à luz o salvador e o colocou deitado em uma manjedoura.

Fora anunciado a Maria que o filho em seu ventre seria o rei de Israel prometido nas Escrituras. O libertador de Jacó, instaurador de um governo eterno, deveria ser tremendamente grandioso e notório desde sempre. Alguém que seria não apenas um rei, mas o maior rei de todos os tempos, seria digno de nascer em berço esplêndido. O plano de Deus, entretanto, era que o reinado de Cristo fosse marcado, na terra, pela pequenez humana. As circunstâncias do nascimento do Senhor são um prenúncio da doutrina da essência do reino de Deus.

Se seguirmos na narrativa de Mateus, o próximo acontecimento é a visita dos magos; entretanto, esse é um acontecimento mais tardio. O fato seguinte ao nascimento de Jesus é o anúncio dos anjos aos pastores. Não foi em absoluta escuridão que o rei nasceu. Todos os anjos estavam contemplando e exultando diante da maravilhosa chegada do salvador. Lemos em Hebreus 1:6 uma citação do cântico de Moisés no final de Deuteronômio 32: quando o Filho foi introduzido ao mundo, foi dito “que todos os anjos o adorem”. Quem poderia imaginar que os mais magníficos anjos de Deus, semelhantes a relâmpagos, se ajoelhariam diante de um bebê humano em um estábulo? E não estavam apenas prestando um culto formal, mas uma adoração cheia de alegria, como fãs ao assistirem o seu ídolo em um concerto ou o seu time ganhar um campeonato. Isso porque Jesus tinha simplesmente nascido, nem tinha ainda cumprido sua missão. Deveríamos entender que mesmo o menor sinal da vitória do Senhor é um motivo para grande alegria.

Os anjos não apenas cultuaram o Senhor, mas compartilharam essa alegria com um grupo de homens. Quem deveria ser o primeiro a receber a notícia da chegada do divino rei? Não foram rabinos, sacerdotes, líderes nem mesmo pessoas ricas e de prestígio. Foram, sim, homens que partilhavam do mesmo espírito humilde do rei nascido e dos anjos adoradores. Conforme Jesus dirá mais tarde, Deus se ocultou dos grandes e se revelou aos pequenos. Como curiosidade, podemos afirmar aqui que os pastores foram os primeiros homens a serem evangelizados, pois foi a primeira vez que alguém anunciou a “boa nova” – em grego, “euangelion”. Pastores eram, provavelmente, pessoas de poucos recursos, e eles dedicavam a sua vida cuidando de ovelhas. Para cuidar de uma ovelha, é necessário ter paciência e diligência, pois elas facilmente se desviam do caminho. Entretanto, se o pastor chamar pela ovelha, ela reconhece a sua voz e volta ao seu lugar. Isso não lembra João 10? Ora, o pastor é uma figura constante nas Escrituras sobre o ofício de Jesus. Inclusive, vemos que precursores de Jesus eram também pastores, como Jacó e Davi. O pastor é um símbolo cultural e realista da virtude da humildade. O pastor ideal sinceramente ama suas ovelhas, cuida delas, provê direção e, se necessário, usa a “vara e o cajado”, conforme o salmo 23. Se Deus tem uma profissão, é a de pastor. Jesus se compara, em Lucas 15, a um pastor que viaja para buscar uma ovelha perdida. É adequado, portanto, para prenunciar a natureza da obra de Cristo, que os primeiros a serem chamados para adorá-lo sejam pastores.

E o que fazem os pastores quando recebem a visão dos anjos? Partem imediatamente para a estrebaria e prestam culto ao bebê recém-nascido. Em atitude de fé e maravilha, reconhecem quem era aquele bebê e ainda quem ele viria a ser. Depois disso, saem por toda parte espalhando a boa nova. Os pastores de fato correspondem à humildade e alegria que o ofício deles presume. Também é por essa razão que os líderes eclesiásticos, os homens mais maduros na semelhança a Cristo, são também chamados pastores, conforme Efésios 4:11. Cabe aqui uma crítica aos chamados pastores que correspondem exatamente ao contrário do que o seu título supõe. Orgulho em lugar de humildade, opressão em lugar de cuidado, egoísmo em lugar de amor (mais sobre isso em Ezequiel 34). Tais usurpadores jamais seriam como os pastores que receberam a revelação dos anjos, mas sim com o inimigo do bebê, Herodes, assunto dos próximos posts.

O nascimento do Senhor foi marcado por duas figuras: anjos e pastores. Ambos prestaram adoração ao Senhor, reconhecendo quem ele é, apesar das aparências. Aquele que foi adorado pelos pastores viria a ser o maior pastor, o grande líder compassivo do seu povo. É adequado que o rei eleito por Deus seja como um pastor, o que se pode notar na origem de Davi. Jesus Cristo é anunciado como um rei, não como um rei opressor de seu povo, mas como um pastor, alguém que é soberano sobre suas ovelhas, mas imensamente compassivo e empático. Por isso, Pedro diz em sua carta que Jesus é o nosso Supremo Pastor (1Pedro 4:4), pela sua intervenção misericordiosa e sua constante proteção.

          Por outro lado, aquele que foi adorado pelos anjos viria a subir ao trono celestial acima deles. Mais uma vez, podemos consultar Hebreus 1, que é um discurso que explica a superioridade de Jesus aos anjos. Enquanto humano, Jesus era “um pouco menor que os anjos”. Os anjos adoraram aquele que era menor do que eles, porque perceberam além de sua humanidade. Jesus era totalmente humano, mas sua divindade jamais foi esquecida pelos contempladores celestiais. Uma vez tendo vencido a morte e cumprido sua missão redentora, Jesus “tornou-se tão superior aos anjos quanto o nome que herdou é superior ao deles”. Jesus é rei dos céus e da terra, dos grandes e pequenos, dos poderosos e dos fracos. Independentemente dessas características, todo aquele que se humilha diante de Cristo, como os anjos fizeram, pertence às suas ovelhas hoje e recebe a esperança de pertencer à sua hoste celestial na era vindoura. Como foi dito no início: em Jesus, glória e humildade se encontram.

André Duarte

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Post Natalino 1 – O Nascimento Virginal



            Saudações, leitores. Em vista da iminência do Natal, a data em que se comemora o papai noel o nascimento de Jesus, a encarnação do Filho, vou postar alguns estudos natalinos sobre os textos dos evangelhos de Mateus e Lucas que contam essa história. Sinceramente, tenho sentido falta de estudos sobre esse tema. O nascimento do Senhor virou história ilustrada para crianças; entre os adultos, praticamente não vi pregações sobre esse evento. Entretanto, é um evento tão significativo quanto a morte e a ressurreição do Senhor, e a data do 25 de dezembro é ainda mais comemorada do que a da Páscoa (embora Jesus obviamente não tenha nascido no inverno, mas essa é outra história). Fala-se muito sobre a importância de não se deixar levar pelas manias mundanas que tem o consumismo como objetivo, o que é certamente importante. Mas, o ensino sobre o Natal não é apenas sobre o que ele não é. Quero expor reflexões sobre o que ele é.

            Para começar, vamos voltar ao prólogo do nascimento de Jesus. Os profetas falaram diversas vezes sobre a salvação de Deus que libertaria o povo, embora não tivessem em mente como isso ocorreria em uma pessoa específica. Foi a interpretação judaica que começou a desenvolver o conceito de um Messias, um Ungido. Ninguém tinha dúvidas de que o Ungido seria um grande rei, descendente de Davi. O que causava estranheza eram as profecias sobre o Ungido servo e sofredor, como em Isaías 53. Alguns judeus entendiam que haveria um Messias rei e um Messias servo. Os judeus essênios criam num Ungido rei e num Ungido sacerdote. Mas, o plano de Deus era outro. O Ungido seria rei, servo e sacerdote, o único mediador e salvador. Além disso, o rei libertador não viria libertar os judeus do império dominador, fosse ele o Ptolomeu, o Selêucida ou o Romano, mas libertaria o mundo todo do domínio do pecado. Após 2000 anos, ainda é terrivelmente comum o entendimento errado do que Jesus veio destruir para nos libertar: instituições, capitalismo, sofrimentos, autoridades, pobreza. O Senhor veio nos libertar do pecado. Esse é o ponto.

            Somos apresentados a um casal de noivos, José e Maria. Em Mateus 1, temos a genealogia de José. Fica comprovado que José é descendente dos reis de Judá. Desde Abraão, passando por Davi, Salomão, os reis seguintes até o exílio, Zorobabel, que governou Judá com sabedoria durante o domínio dos persas... e chega-se em José, o qual é deliberadamente indicado não como o progenitor de Jesus, mas como o homem que se casou com Maria. O evangelista organiza a genealogia em três grupos de 14 nomes, para fins de organização, saltando alguns nomes, o que torna a lista concisa. O importante é a comprovação histórica de que Jesus Cristo é descendente dos reis de Judá, o que o legitima como rei de direito. Não importa que ele não tenha sido gerado por José, pois, para os judeus, o filho adotivo herda todos os direitos de um filho biológico.

            Apenas para fins de tirar dúvidas, vamos comparar à genealogia em Lucas 3. Em Lucas, temos, tradicionalmente, a genealogia de Maria. Essa interpretação não é estranha, visto que Lucas dá alto valor às mulheres em seus relatos. Mesmo que esteja escrito “José, filho de Eli”, isso pode ser interpretado como “José, genro de Eli”. A quantidade maior de nomes dá-se devido ao que já foi mencionado, que a genealogia em Mateus deliberadamente omite nomes. E ali vemos que Maria também é descendente de Davi, embora não dos reis seguintes. O propósito de Lucas é definir Jesus como humano; por isso, cita sua ascendência até Adão.

            Bem, lemos que um anjo deu a Maria a mensagem de que ela engravidaria, embora fosse virgem. O Espírito de Deus geraria no ventre dela o Salvador do mundo. Essa gravidez virginal era cumprimento de profecia, disse o anjo. A profecia encontra-se em Isaías 7:14. Vamos explorar um pouco essa profecia. Em seu contexto original, Isaías estava falando com o rei Acaz, de Judá. Acaz era um homem perverso; entretanto, foi pai de um dos mais santos reis de Judá, Ezequias. Quando Isaías fala a Acaz, sua profecia refere-se a esse rei Ezequias. O texto original diz  não que uma virgem engravidaria, mas que uma moça jovem engravidaria. Em hebraico, o termo usado significa uma moça que, na maioria dos casos, seria virgem, devido à sua pouca idade. No caso na concepção de Ezequias, obviamente sua mãe não era virgem, mas sim uma moça. Isaías explica que o nascimento de Ezequias seria um sinal de que Deus libertaria os judeus das nações vizinhas por meio da Assíria. O profeta continua descrevendo como o futuro rei seria, e sua descrição não pode se aplicar a Jesus – por exemplo, a sugestão de que haveria uma idade em que o menino não soubesse distinguir o certo do errado. Na história dos reis, vemos essa profecia se cumprindo pouco antes de Ezequias assumir o trono.

            O que isso tem a ver com Jesus? É necessário compreender que os profetas nunca entenderam que estavam falando sobre Jesus. O cumprimento pleno e secundário de suas profecias ocorre em Jesus, e a revelação dessa interpretação foi uma novidade trazida pelo Espírito Santo. Por isso, Paulo diz tanto que Cristo era um mistério para as gerações passadas e uma revelação especial a nós. Por isso, a citação de profecias parece descontextualizada, como veremos em outras. Mas a interpretação é possível. Ora, a Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento extremamente popular nos dias de Jesus, traduziu o termo “moça” como “virgem”. A tradução pode não ser precisa, mas é possível. O sentido oculto da profecia teve sua revelação viabilizada pela Septuaginta e explicada pelo anjo: o nascimento de Ezequias era uma prefiguração do nascimento de Cristo. Maria não era apenas moça, mas era virgem também. Jesus é o verdadeiro e perfeito Emanuel, muito mais do que Ezequias. E seria um libertador muito mais pleno também. Jesus não é apenas a representação de Deus entre nós, mas é o próprio Deus conosco, o qual desceu à terra para que subíssemos ao céu.

            Há muita discussão em torno do que o nascimento virginal significa para a natureza de Jesus. Muitos têm dito que o pecado original não atingiu Jesus porque ele só passa através do homem; se Jesus não teve participação masculina em sua concepção, ele não nasceu pecador e, por isso, pôde viver sem pecado. Nestorianos, monofisistas e calcedônios discutem sobre como se dá a natureza divina-humana de Jesus e concentram-se na metafísica de sua concepção. Em minha opinião, isso é correr atrás do vento. É especulação em cima do nada, visto que as Escrituras não explicam nada sobre esse ponto. A única função especial do nascimento virginal que as Escrituras revelam é o seu valor como sinal. Ora, lemos no Antigo Testamento sobre os nascidos de mulheres estéreis. Tais nascimentos eram reconhecidos publicamente como, além de favor de Deus para a mãe, um significante de que o nascido seria um homem especial. Repare na alta estima que Samuel tinha desde que nasceu. Veja também Sansão e mesmo João Batista. Quanto maior é o sinal de um nascido de virgem! Desde que Jesus nasceu, ele já seria indicado diante do povo como um homem especialmente promissor para realizar uma grande obra de Deus, alguém talvez maior que Isaque, Israel, Samuel, Sansão e outros. Aprendemos, assim, que o nascido de virgem é superior aos nascidos de estéreis.

            Em Mateus, vemos a misericórdia de José em aceitar Maria, mesmo antes de compreender sua gravidez sobrenatural. Se Maria estava grávida, obviamente traiu o seu noivo. Na época, o compromisso de noivado era tão estável quanto o do casamento. Pela Lei de Moisés, a adúltera noiva deveria morrer apedrejada. José, entretanto, preferiu desfazer o noivado em segredo, antes que o povo juntasse os pedaços da história e pedisse a morte de Maria. Entretanto, o anjo explicou a José que não era caso de traição, mas que o menino havia sido gerado por Deus no ventre da moça. A maioria dos homens pensaria que isso era loucura, principalmente porque o anjo apareceu a José num sonho. Mas, José creu e recebeu Maria sem nenhuma estranheza. Sem dúvida, foi um dos homens mais piedosos da Bíblia.

            Voltando à mensagem do anjo a Maria: veja em Lucas 1:30-33 que maravilhas o anjo diz. Ele mesmo ordena que o nascituro seja nomeado Jesus. Não há certeza de qual tenha sido o nome em aramaico, mas o nome registrado em grego, Jesus, é a variante do hebraico Josué, que significa “Deus é salvador”. A missão primordial de Jesus é ser o salvador do povo, salvá-lo do domínio do pecado e da justa ira de Deus. Além disso, Jesus é declarado Filho do Altíssimo, demonstrando sua origem celestial, sua identidade como o único Filho gerado por Deus e, consequentemente, sua semelhança com o Pai. E, finalmente, a grandiosa mensagem de esperança: Jesus herdaria o trono de Davi e reinaria sobre Israel para sempre. Aquele que foi esperado ansiosamente por séculos finalmente havia chegado. As palavras “seu reino jamais terá fim” ecoam a profecia de Daniel 2:44. O Ungido havia chegado para trazer o reino de Deus e realizar salvação eterna.

            Por essa razão, nós celebramos o Natal. Celebramos com alegria o cumprimento da fidelidade de Deus, do seu amor e da sua graça. O Messias de fato veio e executou o plano de redenção. Nossa resposta ao saber de tão maravilhosa notícia deve ser como a de Maria, em Lucas 1:46-55: louvar o favor de Deus, adorá-lo por sua fidelidade à aliança, glorificá-lo porque ele humilha aqueles que confiam em si mesmos e exalta aqueles que nele confiam. Agradecemos a Deus por ter escolhido uma virgem para gerar o seu Filho, pois, mais uma vez, o Senhor ridiculariza as expectativas baseadas em nossos paradigmas corruptos e surpreende o seu povo realizando obras impossíveis, para que ao nome dele todo coração se renda.

André Duarte