Caros
leitores, é necessário que cada um seja apto e mesmo treinado para interpretar
a Bíblia corretamente. Não é bom que um crente fique dependente de pregações e
artigos; ele deve usá-los como ajuda, mas também ser capaz de compreender a
Bíblia por si mesmo. Afinal, existe todo tipo de loucura dita sobre a Bíblia, e
certos princípios e limites de interpretação são necessários para que um
entendimento razoável seja atingido. As orientações aqui são bem simples.
Se você crê
na sola scriptura, deve saber que a Bíblia interpreta a si mesma. Isto é, a
Bíblia não tem um intérprete oficial além dela mesma. Um texto deve ser
compreendido em harmonia com todos os outros. Não é alguém com um dom especial
que vai determinar o significado de algum texto bíblico, mas é ela mesma. Pois
a Bíblia não se contradiz e é suficiente para toda a revelação de Deus. Isso
não significa que você pode dispensar exposições, opiniões de teólogos e
comentários bíblicos. Todas essas coisas ajudam, mas elas apenas são válidas
enquanto se submetem ao princípio da sola scriptura. Isto é, são trabalhos de
pessoas que já estudaram a Bíblia mais do que você e facilitaram para que você
entenda. Dessa forma, tradições, historicidade e outras formas de opinião
conferem razoabilidade a uma interpretação, mas a palavra final é a da própria
Bíblia.
Fique
consciente de que você pratica sim a hermenêutica (ciência da interpretação de
uma mensagem). Não pense algo como “eu não interpreto a Bíblia, eu apenas a
leio como ela é”. Essa frase é totalmente irreal. Você tem pressupostos
subjetivos e expectativas como qualquer outra pessoa, e a sua tendência natural
será adaptar a Bíblia a eles, e não o contrário. É impossível colocar-se como
uma “tábula rasa” frente à Bíblia. Posto isso, fique também consciente de que a
interpretação da Bíblia é absolutamente importante para toda a sua maneira de
viver. Ao contrário do que muitos pensam, doutrina tem consequência prática.
Todos os seus comportamentos, sentimentos e pensamentos dependem dos seus
credos, e os seus credos dependem de como você interpreta a Palavra de Deus.
Portanto, não pense que hermenêutica é um luxo relevante apenas a acadêmicos e
pastores. Todo crente precisa aprender a interpretar.
Dentro dos
artifícios que compõem a hermenêutica, o central é a exegese. Exegese significa
trazer o significado original do texto para a sua mente de agora. É o contrário
do que a maioria das pessoas faz – levar os seus conceitos para aplicá-los ao
significado do texto. Exegese envolve um exercício mental do leitor para que
ele se transporte ao tempo e ao espaço em que o texto foi escrito. Isso nos
leva a lembrar de um ponto essencial: todo texto bíblico foi escrito por uma
determinada pessoa e para um determinado destinatário que não é, primariamente,
nós. Quando Paulo escreveu aos coríntios, ele realmente estava pensando só nos
coríntios, e não em você. É a inspiração de Deus que torna os escritos bíblicos
canônicos para a Igreja, mas a correta interpretação dessa Palavra depende
daquilo que o escritor humano original pretendia.
Isso nos
leva a outro importante princípio: um texto bíblico jamais pode significar algo
para nós que nunca poderia ter significado para os leitores originais. Esse
princípio já coloca grandes limites ao que você pode entender com o texto. Veja
que, em tudo isso, estamos considerando princípios sóbrios e que você já
naturalmente aplica a qualquer outro texto. Você não lê uma bula de remédio com
outro pensamento senão a intenção original dela. Você não lê um jornal
alegorizando os fatos que ele relata. Você não lê uma argila da Mesopotâmia sem
perguntar “como isso estava inserido naquela época e naquela cultura?”. Isso
não reduz a transcendência temporal da Bíblia. Ao contrário, interpretá-la
conforme queremos, sem conhecer o propósito do texto para o autor e para os
leitores originais é que retira a aplicação dela para o tempo deles.
Logo, você
precisa ler a Bíblia tendo consciência de quem escreveu o texto, para quem, em
que local, em que tempo, em que sociedade, em que cultura e sob quais
circunstâncias particulares. Você não vai entender 1Coríntios sem saber como
era aquela cidade em questão de filosofias e liberdades morais. Você não vai
entender Colossenses sem entender o sincretismo religioso que começou a atacar
a Igreja. Além disso, você precisa conhecer a Bíblia toda, especialmente as
particularidades do Antigo Testamento e do Novo. Frequentemente, o Novo
Testamento alude ao Antigo, especialmente para explicar atributos de Jesus. Por
outro lado, o Novo conta o “final do filme”, o que significa que o Antigo não
pode receber interpretações diferentes daquilo que o Novo permite. Em nenhum
momento você pode ler um texto do Antigo pensando que ele está, por exemplo,
ensinando salvação por obras. Pense sempre nos princípios do evangelho ao ler
qualquer texto.
Sabemos,
portanto, que há uma só interpretação da Bíblia. Não pense que a Bíblia tem
várias interpretações diferentes. Somente uma é certa. E o dever de cada crente
é alcançá-la, embora jamais consigamos realizar isso plenamente na Bíblia toda.
A Bíblia tem várias aplicações, implicações, ilustrações e orientações, todas
essas coisas úteis para a edificação, mas elas dependem da interpretação, que é
única. Talvez seja difícil compreender esse rigor por estarmos acostumados a
pensar que, pelo fato de a Bíblia ser a Palavra de Deus, ela tem um sentido
óbvio, múltiplo, subjetivo e imediato. Esse é um pressuposto errado. A Palavra
de Deus é sim comunicada pela Bíblia, e é exatamente esse o motivo por que o
nosso entendimento superficial e precipitado vem errado. Lembre-se de que a sua
tendência carnal é justamente transformar a Bíblia naquilo que você quer que
ela seja. Submeter-se à autoridade da Bíblia significa também buscar o
significado dela com paciência, humildade e cautela.
Observe
também o gênero literário do texto. Ora, a Bíblia tem narrativas, exposições de
doutrinas, profecias, poesias e cartas pessoais, e eles não podem ser todos
lidos da mesma forma. Narrativas não são fonte de doutrinas, mas sim exemplos
vívidos da aplicação ou rejeição de doutrinas expostas em outros lugares. E elas
são, frequentemente, exemplos negativos. Poesias não são literais e imperativas
como textos doutrinários, mas são belas pela sua capacidade de ilustração.
Profecias pretendem ensinar, primariamente, sobre o objeto direto delas. Pense,
reflita sobre as intenções do autor. Cada texto, com sua linguagem, tem um
propósito, e você deve desvendar qual é. Não é difícil, só requer um certo
trabalho maior do que ler e ficar esperando Deus soprar a cola.
Pois é,
muitas pessoas pensam que é só ler o texto e orar para Deus dar o entendimento
e pronto. Claro, é necessário que o Espírito ajude a interpretar. Mas o
Espírito não vai falar toda o significado “mastigado” pra você. Ele vai,
principalmente, dar a você humildade para se submeter ao significado do texto
que não convém aos seus interesses. Vai também aumentar sua vontade de
entender, seu amor pela Palavra. Mas não despreze aquilo que o Espírito já fez –
guiou a história para que muitos outros homens entendessem, estudassem e
publicassem o que eles aprenderam com a Bíblia. Leia sobre a história da
Igreja, leia pensamentos de teólogos referendados, compre um bom comentário
bíblico e Bíblias de estudo. Você não é humilde quando despreza tudo o que
homens brilhantes aprenderam e tenta extrair diretamente de Deus tudo o que
você quer. Oriente-se segundo o princípio de que Deus não vai lhe falar o que
ele já falou e você não quer buscar. Pense em Deus falando “Pare de me
perguntar e vá ler!”.
Só mais um
ponto importante. Geralmente, as pessoas vão à Bíblia buscando respostas
imediatas para suas questões existenciais e morais. Querem aprender princípios
de vida, regras divinas, “o que esse texto me ensina que eu devo ou não devo
fazer”. Saiba, porém, que tudo isso é secundário. O mais importante para se
buscar na Bíblia é o que tal texto pode me ensinar ou ilustrar sobre Jesus.
Como Jesus cumpriu esse princípio moral e como ele me ajuda? O que esse texto
tem a ver com a sua obra? Jesus é o centro da Bíblia. Não ignore a pessoa de
Jesus e o seu evangelho ao tentar aplicar um texto em sua vida.
André
Duarte

gostaria de receber algo sobre "Como interpretar A Biblia como livro Sagrado, ou como um outro livro comum.
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