segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 2: Casamento com Descrentes



Acabadas as diretrizes específicas sobre como funciona um Casamento, com a analogia de Cristo e a Igreja, vamos a alguns tópicos polêmicos, com a ajuda tanto de Efésios, como de outras partes da Escritura. Vou tentar pegar tópicos bem discutidos sobre o assunto, e tentar resolvê-los à luz da Escritura. E primeiro destes tópicos é o Casamento do cristão com o descrente. Enfim, vamos lá:

Desde o Antigo Testamento, há várias asseverações contra casamentos mistos (Ne 13.23-27 – este trecho é a maior mostra dos povos não-israelitas ensinando suas heresias e profanando a aliança do Deus de Israel, mediante casamentos), mostrando o perigo de tal união. Alguns podem pensar que era algo cultural, um tipo de xenofobia judia, principalmente quando se trata do Antigo Testamento, mas a verdade é outra.

Primeiro, era um mandamento divino. Não era algo inventado por homens, mas o próprio Deus mandou que assim fosse. E se foi o próprio Deus, obedeçamos, ao invés de tentar questioná-Lo.

Segundo, não era algo racial, mas sim, pactual. Deus é um Deus de pactos, de alianças. No Antigo Testamento, Israel era o povo de Deus, tinham feito um pacto com Ele desde Abraão; era uma aliança que se perpetuaria até o Novo Testamento (Gl 3.6-16). Outra mostra dessa visão pactual ao invés de racial são as inúmeras leis do Antigo Testamento valorizando o “estrangeiro”, que viviam com eles, mas que seguiam a Lei de Deus (Ex 12.48; Ex 23.9; Nm 15.16). A questão era que, a priori, os pagãos eram os gentios, enquanto os judeus era os guardiões dos oráculos de Deus (Rm 3.2; 9.4,5)

Casar-se com alguém descrente já é uma grande mostra que esse relacionamento não tem por objetivo glorificar a Deus, já que o cônjuge em questão adorava outros deuses. Hoje em dia, poderiam falar “ah, mas o cara é ateu/budista/espiritual/acredita em Deus, mas sem religiões”; entretanto, tudo isso, e muito mais, não é o verdadeiro pacto e união com Deus Triúno que a Escritura revela então, é tão pagão quanto os outros povos semíticos do Antigo Testamento. Pode ser que tal casamento seja agradabilíssimo, vocês nunca briguem, vocês “se amam” (questão de amor pode dar um outro post inteiro, por isso me limito a colocar entre aspas esse tipo de explicação pra dizer que não condiz com a definição bíblica de amor), mas isso nada vale. O casamento foi instituído por Deus para que o casal glorifique a Deus; se fosse pra se sentir bem, relacionamentos com qualquer não-cristão seria válido diante de Deus. Felizmente, não é esse o propósito, pois glorificar a Deus é infinitamente melhor que “se sentir bem”.

Isso não nega a realidade de que um relacionamento entre cristãos não é perfeito. Os cristãos ainda são pecadores, e por seus pecados, que distorcem e corrompem o bom proceder, machucam e fogem desse propósito divino. Ainda assim, são os cristãos, aqueles verdadeiramente remidos e regenerados por Deus, que vão buscar, cada dia mais, odiar o pecado e amar a santidade; cada vez mais, que vão lutar para amar mais a Deus, e, por consequência, amar o seu cônjuge em santidade.

Entretanto, existe uma exceção para relacionamento entre cristãos e descrentes, e ela se encontra em 1 Co 7.12-16:

“Aos mais digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher incrédula, e esta consente em morar com ele, não a abandone; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em viver com ela, não deixe o marido. Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos. Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz. Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?”

Neste caso específico, Paulo trata da situação de alguém que se converte DEPOIS de ter se casado. Neste caso, Paulo aconselha que se mantenha a união, se a parte incrédula concordar com esta união; caso não concorde, a parte crente está livre (sendo uma das poucas situações válidas para a separação; entretanto, isso será tratado posteriormente). Já que se estabeleceu a união, o incrédulo da relação pode ser abençoado e Deus pode alcançá-lo através de seu cônjuge. Então, porque não se pode casar com alguém incrédulo para “ajudar a se converter”, mesmo sendo cristão antes do casamento? Porque, sendo você cristão, tem o mandato de glorificar a Deus em todas as áreas, inclusive, a de escolher um cônjuge com quem se une, por meio do Casamento, para adorar a Deus. Alguém que converte depois de casado, não tem mais essa opção, pois se respeita a união feita anteriormente. Logo, o seu glorificar a Deus é no bom trato com o cônjuge e esperar em Deus que Ele o converta, o que pode não acontecer, ainda assim (e Deus terá Seus motivos e propósitos para tal, não me cabe aqui tentar fazer uma explicação universal pra isso).

Assim, Deus demanda do Seu Povo que se case e se una somente com aqueles que são Dele (1 Co 7.39), pois somente assim Ele será glorificado, visto toda a casa estar submissa ao Senhor (Js 24.15). Assim como Deus não permite que Seu Povo se volte pra outros deuses, pela aliança exclusiva que fez com Ele, para O servir e glorificar, nós não podemos nos casar com aqueles com quem não tem o pacto com nosso Deus, visto que não glorificam a Deus na sua vida.


Que Deus abençoe a todos nós
Marcel Cintra

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Aladdin e o evangelho


            Somando mais um post ao grupo de paralelos, vamos analisar as correlações entre o filme do Aladdin (1992) e a obra de Jesus Cristo conforme revelada na Bíblia. Para isso, é importante lembrar o pressuposto essencial dos paralelos: que o homem, embora tenha caído e corrompido sua natureza, não pode destruir completamente em si a sua semelhança com Deus, que em si foi incutida pelo Senhor na criação. Isso resulta em que o homem, sendo semelhante ao Criador na capacidade de criar e de trabalhar no mundo, ainda reflete a luz de Deus em suas obras, por mais que estejam também maculadas de trevas. Portanto, vamos cavar o tesouro do evangelho nessa obra da Disney.
           
Ora, desde o princípio do filme, vemos claramente que existe um reino. E o primeiro personagem que nos é apresentado é o Jafar, o grão-vizir. Esse Jafar deseja tornar-se o Sultão para ter plenos poderes. Para isso, ele precisa entrar na caverna de tesouros e pegar a lâmpada do Gênio. A caverna diz, porém, que somente uma pessoa, “de grande valor interior”, pode entrar. O que tudo isso significa, em comparação com a Bíblia? Ora, Jafar é obviamente Satanás, aquele que tem alta autoridade sobre o mundo, embora não seja o grande rei. Jafar exerce sua autoridade de forma maligna, como Satanás faz. É frequente vermos Jafar enganando o Sultão com sua serpente enfeitiçada para conseguir o que quer. Nesse sentido, ele praticamente consegue atuar como Sultão. Ele, de fato, domina sobre o Sultão – mas, ainda assim, não pode ter precisamente o poder dele. Onde vemos essa tensão na Bíblia? Não se pode pensar que, nesse caso, o Sultão seja Deus, pois seria absurdo que Deus fosse enganado pelo diabo. O conflito é, antes, entre a semente da mulher – não o Cristo, mas a humanidade – e a semente da serpente. Não é apenas pela coação do Jafar que o Sultão é ludibriado, mas pela própria tolice deste. Foi o Sultão quem colocou Jafar em sua posição privilegiada, e ele mesmo se orgulha de “saber julgar bem as pessoas”. Logo, Jafar domina sobre o Sultão porque o Sultão lhe deu ouvidos em primeiro lugar. Em algum momento anterior ao filme, houve uma queda do Sultão semelhante à queda do homem no Éden. Não é notável que é precisamente uma serpente que Jafar usa para enganar o Sultão? Ora, se assim é a situação, porque Jafar não pode simplesmente tornar-se Sultão, se ele tem grande poder mágico? Não é simples sem o máximo poder do Gênio, é claro. Veja, portanto, o salmo 8, que descreve a posição do homem dada por Deus: um pouco menor que os anjos, coroado de glória e honra. Deus decretou que o homem fosse assim, mesmo depois da queda. Por isso, por mais que Satanás domine sobre o homem, nunca poderá ter a honra que foi dada aos filhos de Adão. Esse é o decreto de Deus. Porém, a falha do homem resulta na necessidade de um novo homem, um homem ideal, que reine sobre o mundo como Adão falhou – um segundo Adão. A falha do Sultão também aponta para a necessidade de que um novo Sultão chegue ao poder. E essa é a tensão do filme: quem será o novo Sultão: Jafar, ou um digno príncipe? Na Bíblia, também vemos uma tensão parecida: o domínio sobre o mundo e sobre a raça humana pertencerá ao diabo ou ao Messias?

            O que garante a vitória do Aladdin na conquista do Gênio – o poder para ascender ao sultanato? Simplesmente o decreto da caverna de que somente uma pessoa poderia nela entrar. Jafar não poderia entrar, senão seria esmagado. Descobrindo que Aladdin era esse eleito, ele leva-o à caverna para pegar a lâmpada e tomá-la dele. A cena da caverna é muito semelhante à da tentação e do batismo de Jesus. É claro que existem diferenças: em primeiro lugar, foi o Espírito que levou Jesus ao deserto (hmm, deserto, como no filme), e não o diabo. A diferença se dá pelo seguinte: na Bíblia, Jesus foi primeiro batizado – revestido pelo poder do Espírito – e depois tentado. No filme, o Aladdin primeiro passa pela tentação na caverna (todos os tesouros proibidos que o afastariam de sua missão) para depois receber o poder do Gênio. Por essa razão, ele é levado ao deserto por Jafar. Agora, se pensarmos no batismo e na tentação de Jesus como acontecimentos inter-relacionados para o início de seu ministério, podemos nos satisfazer com esse mesmo bloco no filme do Aladdin, não importando a ordem em que cada coisa tenha acontecido. Claro que a ordem traz importâncias teológicas fundamentais, mas estamos enfatizando a parte da “luz” aqui. Bem, como Satanás tentou Jesus para que servisse a ele, também Jafar tentou ludibriar Aladdin para pegar a lâmpada para ele. No último minuto, porém, Aladdin venceu e ficou com a lâmpada, e Jafar ficou derrotado.

            Vamos interromper a história aqui para analisarmos as credenciais do Aladdin. Ele era um ladrão. É claro que o Salvador real não poderia ser um ladrão, pois sua moralidade deveria ser perfeita para que pudesse transferir aos eleitos os seus méritos. Mas, na fantasia Disney, é possível que um homem seja ladrão, mas ainda assim “um bom ladrão”. Vamos nos ater ao decreto de que esse ladrão era moralmente aceitável diante do juízo da caverna. Uma semelhança melhor com Jesus é o fato de ele ser pobre. Cristo, que era rico, fez-se pobre em sua encarnação (2Co 8, 9). O novo rei veio em humildade, não em esplendor (Zc 9:9). Outra semelhança é a perseguição. Aladdin era constantemente perseguido pelos guardas (por motivos bem diferentes dos de Jesus, mas never mind), e Jesus era também perseguido pelas autoridades de seu tempo. Tais autoridades, que deveriam representar fielmente as santas aspirações do reino, tornaram-se legalistas, corruptas e opressoras.

            Vamos voltar ao fim da caverna. Aladdin descobre o Gênio, uma entidade serva, que glorifica o seu dono (como Jesus disse que o Espírito o glorificaria), mas cheia de poderes. É uma pena que as limitações do Gênio sejam justamente a maior glória do Espírito: poder ressuscitar mortos, matar pessoas e produzir o amor conjugal (no caso bíblico, especialmente entre Cristo e a Igreja, a regeneração). Independentemente disso, tudo mudou na vida de Aladdin depois de conseguir o Gênio: seu primeiro pedido foi tornar-se príncipe para poder casar com a princesa Jasmine. Essa princesa jamais foi seduzida por príncipes orgulhosos e estúpidos, o que contrasta com a constante rebelião do povo de Deus ao ir atrás de ídolos. Vemos, ainda assim, um conflito opressor entre a Jasmine e o seu pai, o Sultão. Sultão, representando o tolo homem caído, busca impor domínio sem juízo sobre a princesa, o símbolo do povo de Deus que seria resgatado. Um eufemismo daquilo que a Igreja vetero-testamentária sofria com o poder das nações ímpias. De qualquer forma, o ponto é que Aladdin realmente amou a Jasmine, por iniciativa própria (como Cristo, que primeiro nos amou para que o amássemos) e decide tornar-se um príncipe.

            Sua identidade como príncipe carrega também uma grande tensão. Aladdin veste-se como príncipe, consegue todos os adornos e aparências de príncipe, mas ele sabe que, em sua natureza, ele não é. A roupagem de príncipe pode ser comparada ao ministério popular de Jesus. Após ser revestido do Espírito, Jesus iniciou uma jornada que foi, em muitos aspectos, altamente popular e aclamada. Embora houvesse muitos inimigos, as multidões cresciam cada vez mais. No início, as multidões o viam apenas como milagreiro; no fim do seu ministério, na última semana, Jesus foi recebido às vivas como o rei davídico libertador. Ele era, para todos os efeitos, o príncipe que o povo esperava. Infelizmente, isso não perdurou, pois Cristo veio, realmente, como um pobre servo, não como rei glorioso. Da mesma forma, após tudo parecer ter sido ganho na missão de conquistar a princesa – inclusive mais uma derrota de Jafar, que foi expulso do palácio, semelhantemente ao diabo que caiu como relâmpago durante a missão de Jesus (cf. Lc 10:18) –, o verdadeiro ser do Aladdin foi revelado. Ele foi despojado de toda a honra e glória que havia recebido quando Jafar conseguiu roubar-lhe a lâmpada. O início da paixão de Cristo foi também chamado por ele de “a hora em que as trevas reinam”. O império do Jafar se estabeleceu e Aladdin foi novamente revelado como frágil, pobre, e ele mesmo foi lançado para fora da terra dos viventes (Is 53).

            No entanto, foi em fraqueza que ele trinfou. Em realidade, não foi apenas a sua aparência desprezível que foi posta à vista, mas também a essência do Jafar mostrou-se. Ele virou uma serpente gigante para matar o Aladdin militante (cf Ap 12). Mas, na batalha em que o pobre pivete parecia não ter a menor chance, por meio do Gênio, ele derrotou o Jafar, já transformado também em gênio, prendendo-o em sua própria lâmpada. Jesus Cristo, da mesma forma, venceu o diabo em sua morte e, especialmente, em sua ressurreição e ascensão, operadas pelo Espírito. Por mais que o diabo tenha se mostrado crescentemente poderoso ao instigar os homens violentos contra Cristo, foi na humilhação do Senhor que a derrota de Satanás foi executada. De forma interessante, o Aladdin não destruiu o Jafar, mas o aprisionou. Preso, Jafar não pode mais enganar o Sultão. Da mesma forma, Jesus Cristo “prendeu” o diabo quando venceu na cruz – algo que amilenistas e pós-milenistas compreendem bem, conforme a conexão entre Apocalipse 12 e 20. Ainda em seu ministério, Jesus disse que o ladrão só pode saquear o homem forte se primeiro o prender. Comparou-se, naquele momento, com aquele que amarra o homem para salvar as almas por ele feitas cativas. Satanás está preso não literalmente, geograficamente, mas sim no sentido de ter seu poder grandemente limitado, impossibilitado de fazer com que as nações não creiam no evangelho. Aladdin prendeu o Jafar e salvou a princesa, o Sultão e o reino. Jesus prendeu Satanás, salvou sua noiva e o homem caído – lembrando que, na realidade, a noiva de Cristo e o homem pecador regenerado convergem para a mesma coisa.

            Após derrotar Jafar, Aladdin liberta o Gênio. O Gênio não mais ficaria contido numa lâmpada, manifestando-se apenas em poucas ocasiões. Isso se encaixa no momento em que Cristo enviou o Espírito Santo à terra. Na ascensão de Jesus Cristo, ele confere maior atuação ao Espírito. Não que os detalhes correspondam tanto, mas...

            Por fim, o Sultão recobra sua sanidade compreendendo que Aladdin, embora não fosse o príncipe que todos esperavam, era o príncipe verdadeiro, pela pureza do seu coração. E concede que ele se case com a princesa e torne-se ele mesmo o novo Sultão. Jesus Cristo, após salvar o reino e o homem, faz que o homem caído seja regenerado, recobre seu entendimento espiritual e submeta-se ao único rei digno, o Messias. Assim, Jesus estabelece sua aliança com sua noiva, reina sobre os homens que o adoram e vence o diabo.


            André Duarte

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 1: Definição



Bem, chegamos à parte mais central da série, pelo qual as seguintes postagens dependerão de alguns dos princípios aqui expostos. Hoje, falaremos sobre Casamento. Entretanto, vamos por partes: conceituação do que é Casamento, e suas implicações.

Vemos no texto anterior que o Casamento é o meio pelo qual se glorifica a Deus na área de relacionamentos conjugais. Todos os outros relacionamentos, como Noivado e Namoro (“ficar” aqui sai por razão óbvia. Se discordarem, o último texto da série tratará bem disso), necessitam de tê-lo como objetivo, e andar retamente para que aconteça. O Casamento, em si, é análogo ao relacionamento de Deus e Seu Povo, que acontece mesmo antes da fundação do mundo, como visto anteriormente.

Não é de se estranhar que no Antigo Testamento, várias vezes, trata o Seu Povo numa figura de mulher, de noiva (Ez 16.3-35; Jr 2.32; Is 49.18); o próprio livro de Cântico dos Cânticos é exemplo mor disso: sempre foi lido como uma forma alegórica do relacionamento de Deus e Seu Povo. E não só isso: quando o Povo de Deus pecava, quando Israel adorava outros deuses, feitos de pedra e madeira, os profetas falavam como se fosse um adultério, não poucas vezes, como prostituição (Ez 16.3-35; Os 2.1-23; Ez 23.37; Jr 3.8,9). Entretanto, no Novo Testamento há um relato interessante: ao invés de caracterizar o relacionamento de Deus e Seu Povo como um relacionamento de casamento, ele vai dar diretrizes divinas para o casamento POR CAUSA do relacionamento de Deus e Seu Povo, no caso específico aqui, de Cristo e a Igreja. Vamos ao texto por completo:

“As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.

 Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.” Efésios 5.22-33 (ARA)

Nesta passagem magnífica tem uma diretriz principal, e definições importantíssimas que passam despercebidas. Curiosamente, começaremos pelo final:

1. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja.

Aqui reside o primeiro princípio do Casamento. O homem e a mulher, pelo pacto e aliança do Casamento, se tornarão um só, assim como Cristo, por pacto e a aliança, se torna um só Corpo com Sua Noiva (1 Co 10.17; 1 Co 12.12,27). Assim como somos co-participantes da natureza divina (2 Pe 1.4), por nossa união com Cristo, no selo do Espírito (2 Co 1.22), o homem e a mulher se tornam um só, uma diversidade dentro de uma unidade; cada um com um papel específico para funcionalidade específica. O homem tem por funcionalidade divina e criacional a liderança (1 Co 11.3; Ef 5.23) e a mulher, a de auxílio (Gn 2.18; 1 Tm 2.12-15). E isso se dá na prática segundo o que o resto da passagem ensinará, como se vê a seguir.

2. As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Aqui está tão terrível e polêmica “submissão feminina”, na qual feministas e simpatizantes, até mesmo dentro do meio cristão, se alvoroçam e repudiam a bel prazer. Entretanto, a não ser que queiram rasgar a Revelação Divina, e seguir seus próprios conselhos ao invés de Deus, mais atenção tem que ser dada aqui. Nesta Santa Analogia de Deus e o homem, Cristo se mantém como cabeça da Igreja, Seu Corpo, lhe dá direção e entendimento, e o Corpo obedece; no Casamento, a esposa deve ser submissa ao marido, seguindo-o, crendo que Deus o pôs como líder da casa, e que o orientará, se verdadeiro servo de Deus for. Isso não quer dizer obediência cega, antes, amor servil, amor que auxilia e dá forças ao marido, como foi designado desde a Criação (Gn 2.18).

O pensamento atual despreza a ideia de servidão, relegando-o como papel inferior ao de liderança, e aí reside todo o mal desta questão. A Escritura traz a servidão como coisa maravilhosa, símbolo e expressão magnífica de amor pelo próximo, sendo o próprio Jesus o maior exemplo, que, sendo Deus, o Ser Absoluto, Majestoso e Perfeito, se humilhou, tomando forma de homem, forma de servo, e morrendo uma morte horrenda, por Seu Povo, feito de seres humanos, pequenos, finitos e pecaminosos, ainda assim, alvo de Seu Infinito Amor (Filipenses 2.2-11). Um exemplo, enquanto na terra, de servidão de Jesus está relatado no Evangelho de João, no capítulo 13. Ele lava os pés dos discípulos, sendo o lavar pés coisa dada como inferior, coisa de escravos para se fazer; ele , o Messias, se reduzindo pelos discípulos, ao ponto que diz: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.” (Jo 13:13-17)

Bem-aventurado é aquele que serve, sendo servidão princípio de amor. Porque então esbravejam feministas e afins porque a mulher foi designada para tão grande e focalizado papel no relacionamento com seu marido? Bem, pelo que se vê, não é por motivos bíblicos. Liderança e servidão são elementos complementares dessa união, nunca hierarquizados no Casamento. E é essa que veremos na última parte.

3. Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.

É designado ao esposo amar sua esposa, como Cristo amou a igreja, e quão sério isso deve ser levado por nós, homens, casados ou desejosos de casar um dia. Paulo aqui faz uma comparação do entregar de Cristo por nós, para que fôssemos salvos, purificados para a vida eterna, com o mandamento divino dado sobre o homem de cuidar e se entregar para sua esposa.  Assim como a Igreja é o Corpo de Cristo, o cabeça da Igreja, este, por sua vez, se entrega para que eleve sua Noiva como pura e imaculada, o homem tem por extensão do próprio corpo a mulher, pois são um só, e, amando-a, ama a si mesmo. Ao homem é dado o mandato divino de amar sua esposa em cuidado e carinho, dedicação e liderança, pois lhe é cabeça. Como disse antes, é heresia moderna considerar servidão algo inferior do que liderança. Cristo, em amor, dá direcionamento para a Igreja, que O serve e o ama, esforçando-se para glorificá-Lo nessa união; o homem, direcionado por Deus, em amor, dá por sua vez direcionamento e cuidado à esposa, que o serve e o ama, esforçando-se para glorificar a Deus nessa união, refletindo a servidão da Igreja pelo Senhor.

Enfim, em Efésios vimos então que o Casamento, assim como a União de Deus e Seu Povo, é, resumidamente:

1.       Um pacto, uma aliança. Os dois lados se unem com um fim específico, glorificar a Deus; com benefícios e responsabilidades mútuas;
2.       É uma união. Nesta união os dois lados são identificados como extensão um do outro, assim como a Igreja é de Cristo;
3.       Existem responsabilidades divinas. Uma diversidade dentro da unidade, o homem lidera e a mulher serve; ambos se amam e fortalecem o pacto que reflete e glorifica a Deus.

Acabada essa primeira parte, não seguiremos para o Noivado, como havíamos planejado antes. Dada a necessidade de escrever mais sobre o assunto do Casamento, continuaremos a escrever sobre o Matrimônio, agora em tópicos dignos de discussão sobre o assunto, a saber, o Casamento com descrentes, o sexo pré-marital e o divórcio. Creio que cada um desses assuntos gerará uma postagem própria, e depois seguiremos com o Noivado e os outros assuntos previamente propostos.

Que Deus nos abençoe,

Marcel Cintra

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - I



Vamos continuar aqui o assunto proposto anteriormente: o de falar sobre relacionamentos conjugais à luz da Escritura. Vemos, então, que uma grande falta da Igreja hoje reside em faltar para com uma interpretação bíblica robusta sobre o assunto, prendendo-se a questões e versículos pontuais. E isso acaba gerando o que também foi apresentado no post anterior da série: uma geração descontrolada de regras, que não contemplam a verdade bíblica sobre o assunto, o “cimento” que une as regras e lhes dá propósito.

Disse também que abordaria de uma maneira “de cima para baixo”, e aqui começa isso. Antes mesmo de nos perguntarmos “o que pode e não pode”, “o que se deve fazer”, devemos primeiro pensar em algo sobremodo superior: a nossa finalidade, o porquê de termos sido criados pelo próprio Deus, o objetivo de nossa existência. Com base nisso, teremos uma luz mais clara sobre o propósito e limitações dos relacionamentos conjugais.

Existe um certo documento cristão¹ que faz uma série de perguntas e respostas acerca de vários pontos da fé cristã. Entre elas tem um interessante item, que se vê a seguir:

“Qual é o fim supremo e principal do homem?
Resposta. O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.”

Essa afirmação é verdadeira. A finalidade da humanidade, a razão de existir reside nisso: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. E é isso que devemos almejar, esse é o objetivo de nossa existência, e, se esse é o objetivo de TODA a nossa existência, então TODOS os aspectos da nossa vida tem que ser voltar para Deus e o que Ele requer. Esses aspectos da nossa vida existem em imagem e semelhança aos aspectos do próprio Deus, ainda que em analogia, e têm como objetivo glorificá-Lo. Dentre estes aspectos da vida poderíamos citar: trabalho, estudos, lazer, comércio, política, arte, ciência, relacionamentos conjugais e família, etc. Todas estas áreas da existência, e mais outras, devem glorificar a Deus; em tudo, tem que existir os princípios divinos regendo-as e retificando-as.

Entretanto, uma pergunta fica: como se pode glorificar a Deus nessas áreas? Qual é o princípio maior, o padrão maior para tal? Uma resposta dentre muitas, visto seus vários enfoques, é analisar a humanidade em relação à sua imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27; 9.6), uma doutrina um tanto quanto posta de lado pela Igreja. A humanidade, ao contrário de todo o resto da Criação, foi criada à similitude do Criador; é sua imagem perfeita. Ainda que não sejamos como Deus por completo, somos semelhantes a Ele por analogia.

Vários exemplos ilustram essa realidade:

1.    1.   Nós trabalhamos, porque, desde o Éden, temos o mandato de trabalhar, de dominar a terra e tudo que nela há (Gn 1:28), como mordomos da Criação para o Grande Rei. Isso se dá justamente porque Ele também trabalhou na Criação, a sustenta, e continua operando nela, fazendo d’Ele o Trabalhador Original no qual o homem é apenas trabalhador por semelhança. O trabalho não existe por si só, mas serve a um propósito, o de produzir sustento e exercer domínio sobre a terra; trabalho por trabalho acaba se tornando pecado, como workaholics vivem, por exemplo.

2.    2.   À semelhança de Deus, nós também descansamos, porque Ele mesmo descansou no sétimo dia, e é o momento onde contemplamos o fruto das obras de nossas mãos, assim como no sétimo dia da criação Ele folgou e viu sua obra completa (Gn 2.2,3). Se o descanso passar disso, como a preguiça, como a procrastinação, é erro crasso e deturpação do propósito divino do descanso em nós.

3.    3.   Os pais só o são porque Deus mesmo é Pai (Mt 7.11), e da Paternidade dele se deriva e se modela toda paternidade humana; toda Filiação, de Deus também se deriva, porque Deus também é Filho (Sl 2.7), e todo filho tem por molde o Filho Eterno.

Assim, glorificamos a Deus quando nos voltamos para Aquele de quem nós somos imagem e agimos de acordo com a semelhança divina que temos em nós. Assim, imitaremos o Criador, seremos santos como Ele é santo (Lv 20.26), e teremos alegria e comunhão com Ele.

Um ponto a se notar aqui, como falei de leve acima, há o pecado. Desde a queda da humanidade no Éden, o pecado e a morte entraram no mundo e na vida humana, corrompendo-os por completo. A perfeita imagem e semelhança do Deus Triúno foi corrompida na Queda. Desde então, temos nenhuma aptidão para a santidade, antes, total inclinação para o pecado e o mal. Isso vai se aplicar, visto nossa imagem deturpada, a todas as áreas da nossa vida. Por exemplo, trabalho pode virar vício ou crime, o descanso vira preguiça, a política vira corrupção e egoísmo.

A única solução para isso é a fé em Jesus Cristo e seu sacrifício na Cruz. A Epístola de Paulo aos Colossenses vai dizer que “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20). Em Cristo, todas as coisas são reconciliadas, tudo começa a ser restaurado, tendo sua completude no mundo vindouro. Nossa santificação é a restauração da imagem e semelhança de Deus em nós, que começa com nossa regeneração e se completa na glorificação (quando seremos como anjos nos céus – Mc 12.15; 1 Co 15.35-54). Assim, tornando-nos co-participantes da natureza divina (2 Pe 1.4), com o próprio Espírito Santo de Deus habitando em nós, somos redimidos de nossos pecados, indo em direção à glorificação futura, a redenção completa, no mundo vindouro, tornando-nos mais do que nossos primeiros pais o foram: seremos como Cristo Jesus assunto aos Céus.

O que relacionamentos conjugais têm a ver com tudo isso?

Bem, vimos que tudo da nossa vida serve pra glorificar a Deus, inclusive esse tipo de relacionamento. Analisamos também que somos imagem e semelhança de Deus, e que O glorificamos quando, pelo Espírito que nos santifica, agimos de acordo com a similitude original. Semelhança essa que é o que Deus nos propôs a ser, como Ele próprio O é, ainda que por analogia. Então, o que há em Deus que temos de semelhante, que se reflita em relacionamentos conjugais? O relacionamento de Deus por Seu povo, que se reflete na humanidade na figura do casamento. Esse relacionamento Divino-humano é uma aliança, um pacto, fundado em amor e compromisso, bênçãos e responsabilidades. E o maior exemplo disso está na Epístola aos Efésios, na figura de Cristo e a Igreja.

É pelo casamento que glorificamos a Deus nos relacionamentos conjugais. O casamento existe PORQUE existe antes o relacionamento de Deus e seu Povo todo, antes mesmo da fundação do mundo (1 Pe 1.20; Ap 13:8; Ef 1.4). Assim, todo e qualquer relacionamento conjugal entre homem e mulher tem que visar e andar para o casamento, e nele viver de modo santo e correto, senão, incorrerá em pecado e necessidade de arrependimento. E é disso que trataremos no próximo capítulo dessa série.

Que Cristo abençoe a todos nós.


Marcel Cintra


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - Intro


             Relacionamentos amorosos. Quando se lê essas duas palavras juntas, num ambiente cristão, já se imagina duas coisas: conversas infindáveis, junto de si um conjunto de igualmente infindáveis motivos para brincadeiras, e, quando se fala sério, desculpas esfarrapadas dos dois lados da moeda. E o que são esses lados da moeda? São justamente aqueles que seguem um lado, por assim dizer, mais conservador, que defende que o cristão não deve “ficar”, não deve fazer sexo antes do casamento, e afins (coisas que eu mesmo defendo, só não concordo com alguns métodos para se defender tais ideias); outros, que acham que as coisas “não são bem assim”, e acha exageros em demasia da primeira parte em querer zelar por um relacionamento santo, colocando regras que não são bíblicas. Entretanto, no final, nunca se sabe quem tem mais razão, e toma-se partido mais por preferência pessoal do que por argumentações e motivos bíblicos.

              Claro que isso é reflexo de um ensino bíblico defeituoso, que não contempla o ser humano como um todo, como sua origem e finalidade; sobretudo, como imagem e semelhança de Deus. Este ensino é vital para um melhor entendimento do relacionamento de Deus e o homem em todas as áreas da vida, inclusive a área de relacionamentos amorosos, como veremos adiante.

              Com um ensino incompleto no assunto, que não investiga as bases fundadas no próprio Deus sobre essa questão, os cristãos são obrigados, por falta de opção e erroneamente, a desenvolver uma teologia “de baixo para cima”: enchem-se de regras vagas, que carecem de referências bíblicas - tornando a instrução à Igreja sobre o assunto igualmente vago -, para que então se alcance o objetivo proposto, a saber, agradar e glorificar a Deus. É como se, para se defender do pecado, se junta um amontoado com tijolos de regras sem usar cimento, sem saber que existe algo que liga todos aqueles tijolos e pode fazer deles um muro de verdade; e esse cimento é justamente o fundamento bíblico, as razões divinas para que esses tijolos se mantenham de pé. Desse modo, é muito fácil fazer um muro mal construído a ponto do pecado conseguir derrubá-lo, visto não ter cimento que o junte e sustente. E é por isso que tem vários contestadores que, por falta de resposta melhor, se rebelam e se aventuram em desvarios sexuais, pecados segundo a Escritura, achando que estão corretos, visto que os “conservadores” são vagos e infundados em suas explicações.

              Contudo, minha proposta ao longo das postagens é mostrar justamente uma teologia “de cima para baixo”: o próprio Ser de Deus, e nossa imagem e semelhança com Ele, nos dá a estrutura para todas as cosias na vida, por sermos seres análogos ao próprio Deus, que é Absoluto sobre todas as coisas, visto as ter criado. Ele é o “molde” pelo qual fomos feitos, e como Deus também tem suas relações com todas as coisas, inclusive com Ele mesmo na Trindade, isso vai refletir também na nossa relação com todas as coisas, porque somos seres análogos ao próprio Deus. E, no meio disso tudo dessa Santa Analogia, que abarca toda a existência do ser humano, relacionamentos amorosos estarão inclusos com certeza.

             No primeiro capítulo de uma série que farei sobre o assunto, vamos analisar como a doutrina bíblica sobre o homem, com foco em sua similitude com Deus, afeta escabrosamente o que se entende por relacionamento amoroso.  Falaremos o porquê do homem existir, qual a sua razão de viver, segundo o propósito que o próprio Deus quis fazê-lo, e como todas as áreas da sua vida são relacionadas e direcionadas para Deus.

            No segundo capítulo, trataremos do assunto do Casamento, segundo esta perspectiva “de cima para baixo”. Falaremos de como a nossa imagem e semelhança com Deus afeta, direciona, e dá propósito ao Casamento, segundo a figura de Cristo e a Igreja, na Epístola aos Efésios. Assim, determinaremos as diretrizes divinas para o Matrimônio, suas bênçãos e suas responsabilidades.

       No terceiro capítulo, trataremos do Noivado, e suas implicações bíblicas, no Antigo e Novo Testamentos. Aqui, se verá quais são as responsabilidades dele, e para onde ele aponta.

         No quarto capítulo, o assunto a ser discutido é o Namoro. O que é o Namoro? Quais são seus limites? Quais são seus objetivos? Isso e mais será discutido nessa, tenho que admitir, polêmica questão.

            No quinto e último capítulo, o tema será o “Ficar”, tão discutido entre adolescentes e certos jovens.  Discutiremos esse assunto, por vezes, polêmico, ao tratar dos seus porquês e o que a Escritura tem a dizer sobre isso. E, acredite, a Bíblia fala.

Espero que seja do agrado de todos, e que Deus possa nos edificar hoje e sempre, para a glória e honra d’Ele.


Marcel Cintra

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apresentação: Marcel


                Prazer galera, eu sou Marcel Cintra, tenho 23 anos. Sou graduando em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB). Sou amigo da galera da Resenha de Deus já tem um bom tempo, e, depois de muito tempo, resolvi ajudar com uns artigos aqui e acolá.
                Vim parar aqui porque acho fundamental que o cristão se debruce e estude as Escrituras que nos é dada por Deus, ao contrário de certo movimento dentro da igreja evangélica hoje de “seguir o Espírito”, “a letra mata mas o Espírito vivifica”, entre outras ideais mal formados, por melhor que sejam as intenções.  E o verdadeiro conhecimento vem das Escrituras Sagradas, revelação de Deus, infalível e inerrante. Se você quer seguir o Espírito, veja o que ele nos diz nas Suas Santas Letras; se quiser aprender a se dedicar em oração, você vai ter que ler o que a Bíblia nos ensina a orar, e como não orar; se quiser ficar “em adoração”, por mais vago que seja isso, também vamos depender do que a Escritura nos diz. Se qualquer revelação for contrária a Escritura, tem que ser eliminada; por mais que se tenha “falas de Deus” e “revelações” por aí, o nosso crivo tem que ser a Bíblia, que é a revelação infalível de Deus. Isso nos mostra sua importância crucial para a verdadeira comunhão com Deus. Assim como uma esposa conhece cada dia mais seu marido, e assim tem mais amor e comunhão com ele, devemos ser nós em buscar a amar a Deus e ter mais comunhão com ele. E isso vai se dar em conhecer Ele pelo meio que Ele nos deixou, a saber, a Bíblia. Como já dizia o profeta Jeremias:

“mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” – Jeremias 9.24

                Espero eu que eu possa ajudar aqui para que possamos crescer em conhecer cada dia mais a Deus.

                Ah, é.  A Resenha. A Resenha, de um jeito bonito de se falar, é a alegria de se viver com quem se ama.  É um estado de espírito, é um Dasein de comunhão, pros mais filosóficos, e me perdoem a heresia.  A Resenha é brotheragem; é riso, é pranto, sobretudo, união.

                A Resenha é esse amor e essa comunhão.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Como NÃO argumentar em uma discussão teológica


       Poucas atividades cristãs possuem um potencial tão delicado para edificar ou destruir quanto a discussão teológica. Nossa geração enfrenta o grave problema do analfabetismo bíblico, razão por que discussões teológicas são frequentemente tão infrutíferas. Em muitos casos, a própria existência delas costuma ser rechaçada em nome de antíteses hereges entre conhecimento e prática, doutrina e amor, intelectualidade e sensibilidade, razão e experiência. Qualquer um que realmente gastar tempo estudando a Bíblia, especialmente os escritos de João, perceberá que não existem tais oposições. Pelo contrário, o apóstolo vincula amor, verdade, doutrina, obediência e conhecimento o tempo todo.

            Bem, isso pode ficar para outra hora. Neste post, quero apenas dar dicas práticas para cristãos que se engajam em discussões teológicas, gostando eles ou não. E quero desbancar os principais argumentos contra a existência de discussões e críticas. Nada de exaustivo, apenas o superficial do cotidiano.

            Primeiro, algumas atitudes de bom senso:
    -Escute o interlocutor. Preste atenção nos argumentos dele. Não diga suas opiniões sem primeiro responder ao que foi colocado. Em debates escritos, isso é facílimo. Leia o post, entenda o argumento do interlocutor e responda aos pontos dele antes de colocar os seus. Não pule parágrafos, não ignore informações. Do contrário, o debate perderá sua linha e vocês não vão chegar a lugar nenhum juntos.
     -Interprete o interlocutor com cuidados mínimos. Por exemplo, a gramática. Entenda a construção frasal do argumento do interlocutor. Faça da mesma forma como você resolve questões de interpretação de texto do Cespe. Com isso, você perceberá o que o interlocutor NÃO está dizendo e se livrará de fazer suposições irracionais. Para ter certeza de que você entendeu claramente o argumento, devolva-o com dúvidas, como “Então, você quis dizer isso e isso quando disse aquilo?”. Refaça os argumentos do interlocutor com suas próprias palavras e pergunte a ele se você o fez corretamente. Respostas dadas pela má interpretação e pela suposição de elementos que não existem no último dito acabam com a sobriedade do debate.
      -Limite-se ao que é dito. Não infira nada sobre seu interlocutor. Você não o conhece, não sabe o quanto ele sabe, não sabe de toda a construção teológica dele, não sabe suas intenções. Se você é pentecostal, não infira que o seu interlocutor presbiteriano é um intelectual frio. Se você é presbiteriano, não infira que o seu interlocutor pentecostal é ignorante. Se você é adulto, não infira que o seu interlocutor adolescente é um rebelde sem causa. Se você é adolescente, não infira que o seu interlocutor adulto tem Alzheimer. Desviar a atenção do argumento para a pessoa é uma falácia chamada ad hominem. A plausibilidade de um argumento é totalmente independente da personalidade de quem o expressa.
      -Não fale do que você não sabe. Reconheça que existem assuntos sobre os quais o seu interlocutor sabe mais do que você. Então, não tente chutar informações fantasiosas só para não ter de admitir que você não entende do assunto. Somente fale sobre aquilo que você realmente estudou e aprendeu, e de fontes confiáveis. Não há nada que dê mais gastura em um debate teológico do que um discordante que se enquadra naquilo que Paulo repreende: “Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas” (1Timóteo 1:6,7).
     -Argumente somente com base bíblica. Se é que os discordantes pretendem chegar a um denominador comum debaixo da aprovação bíblica, é necessário que os argumentos incluam declarações bíblicas ou a expressa menção da omissão bíblica sobre o assunto. Já vi muitos debates em que a Bíblia praticamente não é citada. O problema é que toda opinião tem base em alguma coisa: se não é na Bíblia, pode ser em alguma ideologia humanista, em algum sentimento subjetivo, na distorção do próprio coração... Quando a Bíblia é citada, é possível debater sobre o texto bíblico e então corrigir as interpretações erradas do texto em voga. Do contrário, cada um dará sua opinião como bem entender e nada será resolvido.
    -Delimite a base comum. Se um debate não partir de pressupostos com os quais você e o seu interlocutor concordem, ele nem começará. Por exemplo: a Bíblia é verdadeira e infalível. A Bíblia é suficiente. A definição de “suficiente” é conforme o postulado da Reforma Protestante. A Bíblia é boa, mas a tradição é igualmente válida. Pressupostos desse tipo precisam estar claros desde o princípio.
     -Saiba quando parar. Esteja consciente de suas limitações em maturidade emocional. Você não é capaz de conversar sobre qualquer coisa por qualquer medida de tempo. Perceba se você estiver se irritando e dê um tempo. Perceba também quando o debate chegou ao limite em que não haverá mais possibilidade de concordância. Não é necessário prolongar o debate indefinidamente só para não ficar com cara de “perdedor”. É possível detectar quando o debate “trava”. A melhor coisa a fazer é começar a parar.
    -Cortesia sempre. Respeito, humildade e bom humor. Se você atacar o seu interlocutor com qualquer ofensa gratuita, já perdeu a razão.
    -Tudo para a glória de Deus. A intenção não é ganhar ou perder. Não é humilhar com conhecimento nem desencorajar a crítica. Se um debate não agrega novos conhecimentos sobre Deus e não estreita os laços da fraternidade cristã, não vale a pena. Submeta suas convicções aos conhecimentos alheios, não tenha vergonha. Chegar à união em torno da verdade é muito mais importante do que defender-se pessoalmente da admissão do erro.

            Agora, quero expor os argumentos mais comuns para reprimir o debate e a crítica indistintamente:

           -“Você deveria estar pregando o amor de Jesus em vez de discutir essas coisas menores”. Esse raciocínio comete erros bíblicos e práticos. Em primeiro lugar, ele faz uma oposição entre discutir e pregar. Discutir e pregar andam juntos conforme a Bíblia. Cada epístola do Novo Testamento prega o evangelho e discute termos “periféricos”. Cada sermão de Jesus é uma pregação sobre si mesmo e uma crítica aos paradigmas farisaicos. É só prestar atenção. Em segundo lugar, esse raciocínio faz juízos de valor sem justificativa. Que base ele usou para definir o objeto de discussão como algo secundário e dispensável? Que base ele usou para definir o amor de Jesus como algo separado das proposições periféricas? Em terceiro lugar, ele é autoincriminatório. Se a pregação do amor de Jesus – seja lá o que a pessoa pensa que isso é – é tão importante que não pode ceder 15 minutos para discussões periféricas, o autor da proposição peca em utilizar seus minutos para rebater a discussão em vez de usá-los para pregar o amor de Jesus.
           
-“Você não deveria julgar”. Por algum motivo, a massa da cristandade absorveu a mania de que julgar é errado sempre e em qualquer aspecto. Primeiro: se o autor da proposição passasse mais tempo lendo a Bíblia do que exercitando sua indiferença, perceberia que a Bíblia diz SIM que nós devemos julgar: 1Coríntios 6:1-6; João 7:24; 1João 4:1-3; 2João  9-11 e inúmeros outros exemplos implícitos. Os textos que ordenam o não julgamento devem ser analisados em seuscontextos e propósitos, assim como os que ordenam o julgar. O temor indistinto de estar julgando é completamente estranho ao ensino bíblico. Segundo, essa proposição é também autoincrminatória devido ao seu potencial de relativização. Se eu digo que o pastor tal está errado em falar X, estou julgando; se a pessoa diz que eu estou errado em falar o meu julgamento sobre o pastor, não está ela também me julgando? Acaso ela também não julga que um estuprador cometeu um pecado, que um ateu precisa se converter ou que Satanás é “do mal”? É impossível não julgar em alguma medida. Para compreender, portanto, o que a Bíblia permite e proíbe quanto ao julgamento, é necessário analisar os textos, e não lançar proposições soltas no ar.
           
-“Você ignora o quanto Deus tem abençoado as pessoas através desse que você está criticando”. Essa proposição confunde a soberana graça de Deus e a responsabilidade humana. Essa confusão, se levada às suas últimas consequências, justificará os maiores absurdos. Por exemplo, Natã falhou em repreender Davi pelo seu adultério + homicídio, porque não percebeu a bênção que Deus trouxe desse relacionamento – o rei Salomão. Judá não pode ser recriminado por ter comido incesto e prostituição com sua nora Tamar, porque dessa relação saiu Perez, que foi um ancestral de Jesus. Os judeus e romanos que crucificaram Jesus fizeram algo lindo, porque desse homicídio Deus fez a maior bênção de todos os tempos. Pessoas que gostam de confundir a moralidade do ato com o benefício de seus efeitos simplesmente adotam a total amoralidade. Porque, caso não tenham percebido, Deus é o governante do universo e seus decretos são eficazes para produzir quantas bênçãos ele desejar, inclusive a partir dos pecados humanos. Até Hitler tornar-se-ia desculpável, visto que tudo o que ele fez, em longo prazo, redundou em uma compaixão mundial pelo povo judeu. Deus abençoa o mundo apesar do pecado humano, não em parceria com ele! Não importa quantas bênçãos resultem de um pecado, ele deve ser repreendido. O mundo já tem uma proposição parecida: os fins justificam os meios.
           
-“Deus vê o coração”. A ideia é que qualquer coisa feita de coração está imune ao juízo. O humanista que propaga essa ideia ignora que o coração é a coisa mais maligna que Deus pode ver no ser humano. Ele vê o coração e só encontra idolatria e imoralidade, nunca intenções bondosas. Segundo Jeremias, o coração é o que há de mais enganoso no mundo. Segundo 1João, o coração é usado por nós mesmos para nos condenar, apesar de Deus nos ter justificado. Provérbios diz que devemos guardar o nosso coração acima de qualquer coisa. Se o coração fosse algo tão puro e bem intencionado, não haveria necessidade de tantas advertências. Saul desobedeceu a Deus, mas “de bom coração”, e recebeu como recompensa o fim do reinado, um espírito atormentador e uma morte sangrenta. Os filhos de Arão prestaram culto de coração, mas em desobediência à Lei, e foram mortos pelo fogo. Amor e obediência sempre andam juntos. Ninguém pode fazer nada por amor a Deus se não estiver debaixo de sua santa lei.
           
-“Você perde tempo só querendo conhecer, sendo que o que importa é viver”. Viver o quê? Acaso você vive alguma coisa que você não supõe conhecer? É sem razão que a Bíblia ordena a meditação na lei de Deus, o “gloriar-se em conhecer-me e compreender-me” (Jeremias 9:24), o falar sobre a Bíblia ao deitar, ao levantar e ao andar (Deuteronômio 6:7)? Foi por imaturidade que a Igreja em Jerusalém “perseverava na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42)? Jesus não se deixou enganar pela interpretação errada de um texto bíblico usado pelo diabo, porque ele conhecia não apenas alguns textos, mas sim todos eles, e a maneira certa de interpretá-los. Jesus repreendeu os samaritanos por "adorarem o que não conhecem" (João 4). E disse aos saduceus "Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". É pela muita vontade de praticar e nenhuma vontade de compreender que o povo da cristandade sai justificando qualquer tradição e moda, enganados por doutrinas vãs e falsas (Colossenses 2:8). 
           
-"Desse jeito, você acaba racionalizando a Bíblia e fechando o coração para a voz de Deus". Quem diz isso precisa, em primeiro lugar, definir o que é “racionalizar”, provar que as análises gramaticais, contextuais e históricas dos textos bíblicos são “racionalizações” e – o mais difícil – provar que o ouvir a voz de Deus só é possível ao excluir a tal “racionalização”. Nada disso tem apoio nas Escrituras. Examinar, meditar e estudar são encorajamentos das Escrituras para justamente proporcionar uma melhor compreensão sobre a vontade de Deus. Os apóstatas de Israel não se importavam com os profetas de Deus porque a lei havia sido jogada fora. “Meu povo perece por falta de conhecimento”. Além disso, a razão é uma faculdade humana que serve aos propósitos de Deus quando redimida. Quem acha que a razão é sempre algo ruim, associando-a sempre a ceticismo e humanismo, deve provar que o empirismo e o misticismo não sofrem da mesma deficiência, para oferecê-los como o caminho certo para “ouvir a voz de Deus”.
           
That’s all, folks.


            André Duarte