terça-feira, 22 de outubro de 2013

Falsos profetas, um problema urgente


            Que sempre houve falsos profetas – homens que dizem falar em nome de Deus, mas não falam –, não é surpreendente nem estranho. Visto que Deus revelou a si mesmo por meio dos seus profetas desde que começou a ajuntar um povo para si (Abraão foi o primeiro chamado profeta, cf. Gn 20:7), sempre houve um dilema em torno do problema: qual profeta realmente fala de Deus e qual não fala? A grande crise é que nunca na história houve tantos falsos profetas tolerados por aqueles que professam a fé cristã. A cessação da profecia após o cânon bíblico ficar completo foi um grande antídoto de Deus para que a Igreja se protegesse contra esses falsos, como é comprovado por toda a história da Igreja. O herege Montano, do século II, foi rejeitado pela Igreja ortodoxa devido às suas estranhas profecias, reveladas supostamente devido à chegada de uma nova era espiritual. Os reformadores rechaçaram as novas seitas místicas, como os quacres, que pretendiam que Deus falasse com eles novas revelações diretamente, contrariando a Sola Scriptura. Mas, em nossa época, a grande explosão carismática trouxe de volta o misticismo e a busca por novos profetas de Deus em larga escala. É possível encontrar a cada esquina uma igreja com um sujeito que tem “dom de profecia”; alguns montam verdadeiros “consultórios” e fazem propagandas de si. E não é admirável que tais profetas novos estão sempre associados a teologia estranha e a descontinuidade com a Igreja histórica. Como é grande o número de iludidos!
           
O senso comum esqueceu que falar em nome de Deus é coisa seríssima. A lei de Deus trata com a máxima severidade aqueles que profetizam falsamente. E oferece, inclusive, critérios pelos quais se pode identificar quem é falso. Veja Deuteronômio 13: um profeta, que diz ter sonhos e visões, e instigar o povo de Deus a adorar falsos deuses, deveria ser morto. Ora, qualquer examinador meticuloso do primeiro mandamento dos Dez sabe que a idolatria não vem necessariamente acompanhada de nomes de deuses pagãos ou de estátuas. A idolatria está presente em qualquer desvio da Lei de Deus, de seus princípios. Logo, qualquer profeta que oferecer ideias estranhas às normas bíblicas, que legisla em nome de Deus – agora que a Bíblia está completa – é falso e mentiroso. Ainda que profetas verdadeiros no passado tenham falado em nome de Deus para trazer maior revelação, isso não existe mais hoje, pois a Palavra de Deus está completa. A profecia existe hoje somente na medida em que o pregador expõe as Escrituras. A suficiência das Escrituras é ensinada nas últimas epístolas, como 2Timóteo e Judas, e com ela concorda a Igreja histórica, desde os Pais.
           
Infelizmente, os crentes têm mais medo de duvidar de algum profeta do que de concordar com ele. O temor de que “e se for de Deus?” induz muitos a aceitarem qualquer profecia só para tranquilizar a consciência. Porém, Deuteronômio 18:22 diz o contrário: se um profeta profetizar falsamente, não tenham medo dele. Esse capítulo abrange a advertência do capítulo 13 para caracterizar o falso profeta não apenas como alguém que fala em favor de outros deuses, mas também que fala em nome de Deus sem que Deus tenha realmente mandado. Ambos os capítulos trazem enfaticamente que esse profeta é réu de morte. Isso coloca a falsa profecia como um pecado mais grave do que o furto, o qual é penalizável apenas com multa. Coloca-a ao lado do adultério, da prostituição, do assassinato e da feitiçaria. Pense: você permitiria que um pastor em adultério impenitente pregasse na sua igreja? Você iria visitar a irmã com dom de prostituição? O diácono da sua igreja pode ser um macumbeiro? Por que, então, falsos profetas são tolerados e cridos tão facilmente?

            A verdade é que falar em nome de Deus sem que ele tenha ordenado é uma transgressão clara do terceiro mandamento: “Não usarás em vão o nome do Senhor teu Deus”, com a cláusula grave “pois o Senhor não deixará impune quem usar o seu nome em vão”. Falsos profetas transgridem esse mandamento. Eles abusam do nome de Deus. Dizem que Deus “colocou essa palavra no meu coração” para que seja mais aceito pelos ouvintes. Não confiam que a exposição da Escritura é a verdadeira profecia eficaz para penetrar os corações (Hb 4:12). Confundem os seus sentimentos e intuições com a voz de Deus e, além de quebrar o terceiro mandamento, quebram o primeiro, por chamarem a si mesmos de deuses. E enquadram-se nas proibições de Deuteronômio 13 e 18. Um verdadeiro profeta chamará a Igreja para ouvir o que a Bíblia diz, pois a Bíblia é a única Palavra que certamente vem do verdadeiro Deus. A interpretação do pastor não é palavra de Deus, por mais que ele insista que recebeu a mensagem por sonho, visão ou aquela percepção esquisita que os carismáticos tanto adoram.

            Deuteronômio 18 também coloca um outro critério para que o povo de Deus reconheça um falso profeta: que as profecias não se cumprirão. Se um profeta falar algo que não acontecer, ele falou falsamente em nome de Deus, pois a palavra de Deus é fiel e verdadeira. Esse é um critério óbvio. Quem ler os livros dos profetas no Antigo Testamento verá que os verdadeiros profetas sempre falavam contra os falsos. Os falsos pregavam a segurança da cidade (Ez 11:1-3). Pregavam que Jerusalém não seria conquistada pelos babilônios, embora merecesse (Jr 28). E veja as observações de Jeremias nos versículos 7-9: o falso profeta prega o que o povo quer ouvir. Por que não é surpreendente que os profetas de hoje só falam coisa boa? Que você terá muitas vitórias, que Deus vai resolver o problema no seu casamento, que as portas de emprego vão se abrir, que o seu filho vai sair das drogas... Houve, por acaso, um único profeta bíblico que não pregou contra o pecado? Que não disse que estavam todos errados, precisavam se arrepender e voltar à obediência a Deus? O pregador que faz isso, mesmo em igrejas hoje em dia, é rejeitado e impopular. O próprio evangelho é ofensivo e inconveniente: quem gosta de ouvir que é pecador, que todos os esforços próprios para ser justo são vãos, e que a salvação vem de fora, do Filho de Deus, e que você nada pode contribuir para isso? É uma facada no orgulho. Essa é a mensagem verdadeira que os pregadores, em sua atuação profética, devem proclamar.

            Agora, os falsos profetas de hoje são mais espertos do que os da época do cerco em Jerusalém. Eles sabem que, se, por acaso, a palavra deles não se cumprir, vai pegar mal. Então, eles profetizam quase sempre coisas tão vagas que ficam inverificáveis. Quando eu era membro de igreja neopentecostal, presenciei vários exemplos. Em certo acampamento de adolescentes, um homem “cheio do Espírito” profetizou que “Deus me disse que há um adolescente aqui que está brigado com os pais, mas Deus está restaurando o relacionamento”. Eram mais de 100 adolescentes. Que há, no mínimo, um adolescente brigado com os pais dentre 100, é um fato estatístico óbvio, não uma revelação sobrenatural! Em certa vigília, noutra ocasião, um adulto respeitado se levantou e disse que Deus mostrou para ele que um grande mal estava vindo sobre Brasília, mas que Deus o havia afastado. Como alguém pode averiguar isso? Não obstante, todos os presentes assumiram como verdadeiro sem nenhum bom motivo e gritaram “aleluia”. Em outra vigília, um pastor convidado, de uma Assemb das maiores denominações pentecostais, mandou fazer uma fila para receber profecias dele. Estupidamente, entrei na fila, querendo ouvir qualquer coisa boa. Ele orou por mim e disse “Olha... eu vi direito na sua vida”. De quantas maneiras convenientes eu poderia interpretar isso?  Que eu vou cursar direito no Ensino Superior? Que será na pós-graduação? Que eu vou estudar direito para passar em concurso público – o que é também estatisticamente muito provável, tratando-se de Brasília? Que um dia eu contratarei um advogado para me defender? Que eu vou casar com uma? Um último exemplo: certa vez, fui por conta própria, ainda adolescente, a uma famosa “profetisa” na Ceilândia. Era dessas malucas que usam o método de usar versículo-biscoito-da-sorte (abrir a Bíblia aleatoriamente, e dizer que o texto aberto era a resposta pro meu problema particular). Não lembro muito bem o que ela me disse, mas, à minha mãe, disse que ela tinha culpa na questão dela. Quem não tem culpa? Quem pode dizer que sofre inocentemente neste mundo caído? Assim são todas as profecias modernas: vagas, impassíveis de verificação e quase sempre dizem o que é agradável. Quando um falso profeta moderno profetiza com especificidade, sua palavra tem tanta probabilidade de se cumprir como de não se cumprir; as duas maneiras são atestáveis. E não faltam aqueles que usam de charlatanismo para fazer profecias específicas certas (como aquele pastor carismático que usava fones de ouvido para que sua esposa passasse para ele informações sobre os membros da igreja). As profecias dos verdadeiros homens bíblicos são exatamente o contrário: frequentemente dizem o que dói no orgulho, as profecias são verificáveis e específicas e apontam sempre para a glória de Deus.

            E quanto às congregações enganadas por esses profetas? São vítimas? Em realidade, eles são culpados também. Pois nenhum falso profeta existiria se não houvesse quem o admirasse. Ezequiel 14 diz algo severíssimo: que Deus detesta tanto o falso profeta como quem vai procurá-lo (1-8). E os versos 9 a 11 acrescentam: o próprio Deus engana o falso profeta para que ele minta ao povo, e depois destrói ambos por crerem na mentira. Falsos profetas são ímpios instrumentos de Deus para castigarem aqueles que os procuram. Paul Washer disse que falsos mestres são o juízo de Deus sobre a multidão idólatra. Se o povo já não estivesse anteriormente desejando regozijar-se na mentira, jamais iria atrás de um falso profeta, o qual, por sua vez, cessaria de existir. Não há lugar para o pensamento humanista “poxa, mas a pessoa estava tão bem intencionada e sincera”. Ninguém que não ouve a voz do Bom Pastor, cujos ensinos estão registrados pelos apóstolos, está bem intencionado e sincero diante dele.

            Não são apenas pastores ou “profetas” que dizem falar em nome de Deus. Devido à crença carismática em que o Espírito fala audivelmente e independentemente da Bíblia, todos os crentes carismáticos tendem a confundir seus próprios pensamentos com a fala de Deus, ou seus sentimentos com a direção do Espírito. E mesmo leigos são encorajados a “ouvir a voz de Deus”, a elevar suas intuições a uma normatividade espiritual. E qualquer um que disser “Deus me disse isso”, ou “Deus colocou essa palavra no meu coração” é automaticamente aprovado com grande júbilo. Vimos que a Bíblia fala severamente sobre o cuidado com os profetas – inclusive, na própria época em que a profecia era dom comum na Igreja (1Co 14:29). Hoje em dia, como podemos responder à questão do “e se”? Como saber se alguém falou de Deus ou de si mesmo? Simples: se alguém estiver pregando fielmente o que a Bíblia ensina, está exercendo a profecia corretamente. Se alguém, por outro lado, disser que suas próprias palavras são palavras de Deus, é mentiroso. Por que? Porque a única segurança que a Igreja tem é dentro do que as Escrituras já ensinam. Elas são definitivas e eternas. Jesus Cristo já veio – o grande profeta dado como solução em Deuteronômio 18 já falou ao seu povo. Veja como o escrito de Hebreus diz: “No passado Deus nos falou pelos profetas; agora, ele nos falou pelo seu Filho” (Hb 1:1, 2). Jesus é o nosso grande profeta que nos ensina pelo seu Espírito (Jo 14, 16). E ele faz isso não em vozes particulares e novas, mas pela própria Escritura. A Bíblia é a palavra proclamada por Deus, ela é a manifestação da vontade do Espírito para as nossas vidas. As revelações novas cessaram com os apóstolos e os poucos profetas do primeiro século. A Bíblia é útil e eficaz para nos instruir a respeito de tudo o que precisamos (2Tm 3:16, 17). A mania profética dos carismáticos precisa ser execrada pelos fiéis.


            André Duarte

domingo, 13 de outubro de 2013

Ordenação feminina: uma heresia tolerada



          Acredito que há poucos sintomas do mundanismo do século XX que subjugaram a Igreja com tanto sucesso quanto o feminismo. É raro encontrar igrejas atualmente que ainda mantêm o ensino bíblico de que somente homens podem ser líderes e mestres no culto público. Interessantemente, o feminismo teve pouco sucesso no que diz respeito à liderança do homem no casamento, mas muito no que é relativo ao governo masculino na Igreja. Neste post, veremos o que a Bíblia diz sobre as permissões e proibições da mulher e as falácias que os crentes feministas usam para justificar seus desvios.

            1Coríntios e as cartas pastorais são livros normativos importantíssimos quando pretendemos saber como cultuar Deus no culto público oficial da Igreja. 1Coríntios é uma das primeiras epístolas (antecedida apenas por Gálatas e as duas aos tessalonicenses), e normatiza diversas das disposições típicas da era apostólica, como dons miraculosos. Já as cartas pastorais foram escritas no fim da vida de Paulo, quando ele procurou ensinar a Igreja sobre como o culto e a vida eclesiástica deveriam ser conduzidos após a liderança dos apóstolos. Deve saltar aos olhos que, em ambas, Paulo proíbe que as mulheres liderem ou ensinem homens, o que já deveria ser argumento suficiente para rechaçar as alegações de que esses dogmas eram transitórios. E, em ambas, o mesmo apóstolo diz também o que as mulheres podem e devem fazer. Vejamos, pois, as normas.

            Em 1Coríntios 11 e 14, estão as notas sobre as mulheres. Na primeira referência, os versículos 3 a 16 falam sobre a submissão feminina ao governo masculino; na segunda, os versículos 33 a 35 falam sobre a submissão ao ensino dos homens. Veja a referência em 11:3: o cabeça do homem é Cristo e o cabeça da mulher é o homem. Nenhum verdadeiro cristão diria que a liderança de Cristo sobre o homem é transitória ou cultural. O mesmo pode ser dito do versículo 7: o homem é a imagem e glória de Deus, e isso é um estatuto perpétuo e espiritual; logo, a disposição seguinte de que a mulher é a glória do homem também deve ser. Argumentar o contrário é arbitrar sobre o contexto das Escrituras. Paulo baseia sua ordem sobre a submissão feminina ao homem não em qualquer disposição cultural de sua época, mas na ordem da pura criação de Deus antes da queda: é o que dizem os versículos 8 e 9. E Paulo diz: “por essa razão e por causa dos anjos, as mulheres devem ter sobre a cabeça um sinal de autoridade”. Assim, ele estabelece esta relação de causalidade ou base: a mulher deve ser submissa ao homem em matéria eclesiástica por causa das funções atribuídas pelo próprio Deus desde a criação. Tal como os estatutos da criação são absolutos, também são essas ordens.

            Segundo ainda o capítulo 11, o que a mulher pode então fazer no culto público? O versículo 5 diz que ela pode orar e profetizar. Isso é importante para o entendimento da referência em 14:33-35, que diz que as mulheres não podem falar na Igreja. A ordem sobre o não falar não deve ser um silêncio absoluto, pois o mesmo apóstolo dissera anteriormente que elas podem orar e profetizar (obs: “profetizar”, aqui, significa o dom sobrenatural de revelação, não a pregação da Palavra, como em outros textos bíblicos; conferir Atos 21:9). Se a proibição em 14:33-35 não abarca a oração e a profecia, o que então está proscrito? O contexto do capítulo 14, que fala sobre a ordem e a sobriedade no culto, indica que as mulheres não devem falar de forma a atentar contra essas coisas; por exemplo, intrometendo-se nas profecias dos homens, de forma subversiva. Também ali, Paulo diz “permaneçam em submissão, como diz a Lei”. Duas coisas podem ser aprendidas dessa expressão: que a ordem tem, mais uma vez, fundamento na Lei de Deus, e não na cultura dos coríntios, e que a submissão está posta em oposição ao “falar”. Logo, deduz-se que essa fala proibida é de natureza rebelde contra a autoridade masculina. E é exatamente essa a transgressão das pregadoras e pastoras: a fala delas no culto público ignora totalmente a submissão ao homem. Pois não é apenas na administração da Igreja (regência) que existe liderança, mas também na pregação (docência): quando uma mulher prega a Palavra de Deus aos homens no culto público, ela está exercendo a autoridade da Palavra sobre aquilo em que se deve crer e a que se deve obedecer. Assim, ela transgride a ordem da criação divina: que é o homem que deve liderar a mulher.

            Em 1Timóteo 2, Paulo dá mais ensinos sobre a adoração no culto público. Os últimos versículos reforçam o que foi dito sobre 1Coríntios: a mulher deve aprender do homem, jamais ensiná-lo. E a base para essa ordem é, de novo, a criação: que Eva foi enganada pela serpente e então enganou Adão. Mais em seguida, no capítulo 3, Paulo fala sobre os oficiais da Igreja: todos homens. Só mais uma referência: em Atos 1, quando Pedro conclama os presentes para a escolha do apóstolo substituto de Judas, ele determina vários critérios, dentre os quais: ser homem. “É necessário que escolhamos um dos homens que estiveram conosco...”. O termo aqui não é o anthropos, o ser da espécie humana, mas sim o andros, o homem, masculino, XY. Essas referências devem bastar para chancelar o ensino que a Igreja segue desde a sua fundação, e que, somente nos dias de hoje, após a revolução feminista, tem sido perversamente combatido: não existem pastoras, mestras, professoras (a não ser de crianças), líderes, convidadas especiais para pregar, etc. A mulher não pode ensinar autoritativamente o homem no contexto eclesiástico, nem deve administrar a Igreja. A liderança foi dada aos homens.

            Por outro lado, temos diversas tarefas que são dadas às mulheres na Igreja. Já vimos que orar e profetizar são permitidas por Paulo. Outras, por exemplo, são: dedicar-se à criação de filhos piedosos (1Tm 2:15); oferecer hospitalidade, “lavar os pés dos santos” e socorrer os atribulados (1Tm 5:10), ensinar as mulheres mais jovens a serem piedosas (2Tm 2:3-5), pregar o evangelho a descrentes fora do contexto de culto (Jo 4:28-30), ser missionária em suporte ao marido (At 18:26). Além disso, elas podem participar das atividades de culto em que não se faz distinção entre homens e mulheres, como cantar (Cl 3:16), exortar-se mutuamente e participar dos sacramentos. É um grande erro que as mulheres hoje almejem participar de ministérios exclusivamente masculinos – liderar e ensinar homens – e deem pouca importância a todos esses outros serviços. Até mesmo liderar e ensinar outras mulheres é permitido, mas isso parece não ser suficiente para os apetites errantes das feministas crentes.

            Agora, vamos aos argumentos mundanos. Em primeiro lugar, existe um pressuposto mundano muito comum e generalizado de que submissão é algo humilhante e liderança é algo positivo. Mulheres modernas têm horror à palavra submissão. Porém, Jesus subverte completamente esse pressuposto quando diz: “os reis da terra governam a terra e exercem poder sobre ela. Não será assim, porém, entre vós. Ao contrário, quem quiser ser o primeiro deverá ser o último, e quem quiser ser grande deverá ser o escravo de todos. Pois nem o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20:25-28; Mc 10:42-45). Veja que maravilhoso: o Filho de Deus, Rei e Criador, voluntariamente decidiu servir à humanidade que criou. E é com base em sua obra e exemplo que devem os cristãos agirem uns com os outros (Ef 5:21). Lembrem também de João 13 e a história do lavar os pés. Biblicamente, submissão é algo honroso e muitíssimo agradável a Deus. Quem vê com desdém um papel de submissão está falando contra a própria obra do Senhor Jesus, e assemelha-se aos mesmos governantes e reis sobre os quais Jesus disse: não será assim entre vós.

           Submissão não é sinônimo de inferioridade, nunca. Jesus Cristo serviu a humanidade, e nisso provou-se superior a todos os homens, único digno de ser aceito por Deus como sacrifício. E, de forma alguma, a Bíblia atribui inferioridade à mulher. Pois as referências supracitadas dizem que o homem e a mulher são interdependentes. A mulher veio da costela do homem, mas o homem nasce da mulher, e ambos são criados por Deus (1Co 11:11, 12). A única vez em que a Bíblia atribui fraqueza à mulher é para a proteção dela pelo marido (1Pe 3:7). Pressupor inferioridade a partir da submissão é um argumento mundano, não canônico. Para Deus, o homem e a mulher são iguais em valor e favor; diferem apenas na função.

            Os defensores da ordenação feminina dizem que as proibições bíblicas são argumentos culturais. Ou seja: porque na época de Paulo as mulheres eram oprimidas pelos homens, ele ordenou que elas não fossem líderes na Igreja, para não escandalizar os convertidos. Ou então algumas variantes: que as mulheres na época eram analfabetas e, por isso, não tinham capacidade para ensinar, ou que o apóstolo estava apenas tentando corrigir um problema local de indisciplina. Essas explicações são meras especulações insustentáveis por dois motivos: primeiro, porque Paulo fundamenta suas proibições na ordem da criação de Deus, e não nas circunstâncias locais, como já foi demonstrado; segundo, porque Paulo não está de forma alguma sendo conivente com a cultura. Pelo contrário, ele está sendo contracultural. Nas religiões gregas e romanas, as mulheres eram frequentemente sacerdotisas, dirigentes de cultos pagãos. Paulo diz: não pode ser assim na Igreja. (Inclusive, a controvérsia toda sobre o uso do véu e do cabelo em 1Co 11 tem a ver com a identificação com tais sacerdotisas prostitutas, o que as mulheres cristãs devem rejeitar: logo, também contracultural). Não há razão alguma para pensar que Paulo estava apenas sendo bonzinho com a sociedade, ou ajustando a Igreja para as limitações da época. Ele estava sendo desafiador. E, aparentemente, continua sendo hoje. As sacerdotisas prostitutas pagãs de Corinto e Éfeso se foram, mas as feministas vieram substituí-las.

            E quanto às mulheres líderes na Bíblia? Simples: todas elas foram líderes civis, nunca de Igreja. Ester foi rainha, Débora foi juíza. Líderes políticas, não espirituais. Vale notar que a própria Débora era “machista”: pois ela apenas tomou o lugar de juíza porque o fraco Baraque não quis assumir o seu papel masculino, e ela admitiu que isso era uma desonra para ele. Se as feministas realmente querem seguir o exemplo de Débora, devem dizer aos homens o que ela disse: sejam homens! O que ocorre em muitas igrejas modernas é que os homens não estão cônscios de seus papéis masculinos. São preguiçosos e lentos. A lacuna é preenchida pelas mulheres, que tendem a ser mais prestativas. A culpa é dos dois gêneros: das mulheres, por usurparem a função dos homens; dos homens, por permitirem isso, recusando-se indolentemente a tomar seus postos. Ester e Débora não são desculpa para essa usurpação. O exemplo delas, que é aprovado por Deus, apenas ilustra que as mulheres podem ser líderes na esfera civil: gerentes, diretoras, presidentes. Na esfera eclesiástica, isso é errado.
           
A ordenação feminina é uma distorção da própria natureza do pacto de Deus com a sua Igreja. Sabemos que, no casamento, a mulher é submissa ao homem, assim como a Igreja é submissa a Cristo. A mesma analogia é usada por Paulo em 1Coríntios 11:3 ao dizer que, como Cristo é o líder dos homens, o homem é o líder da mulher. Ambas as relações – matrimoniais e eclesiásticas – derivam suas estruturas da aliança entre Deus e o seu povo. Quando uma Igreja permite que mulheres governem sobre homens, seja por decisões administrativas, seja pela pregação da Palavra, ela peca contra as propriedades do pacto de Deus. É tão absurdo quanto a esposa mandar no marido, quanto a Igreja mandar em Jesus. O movimento feminista na esfera civil tem algo a contribuir. Nas esferas matrimoniais e eclesiásticas, não há nada. Que o homem não deve oprimir a mulher, isso já é dito na Bíblia, não é nenhuma novidade trazida por mundanos do século XX. O resto é lixo satânico. A Igreja deve seguir as ordens bíblicas colocadas pelos apóstolos e profetas há 2000 anos, e é ridículo pensar que um movimento de 50 anos veio finalmente levar o povo de Deus à interpretação correta da Bíblia.
           
O que fazer, então? As mulheres devem abandonar suas atividades masculinas e dedicar-se às femininas. E os homens devem tomar posse de suas atividades de liderança e ensino. Para que o propósito de Cristo em purificar a sua Igreja e fazê-la conforme a sua imagem seja cumprido, é necessário que a Igreja se arrependa de sua simpatia pelo feminismo eclesiástico e torne à submissão à Palavra de Deus, imutável, infalível e suficiente.


            André Duarte

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 3: O Divórcio



Hoje, ainda no tópico do casamento, trataremos da questão, atualmente, um tanto quanto difícil: o divórcio. Muito tem se debatido sobre o assunto, e hoje vemos uma triste realidade, que consiste num constante aumento do número de divórcios entre cristãos. Entretanto, quais são as prerrogativas bíblicas para o divórcio? O que a Escritura permite ou proíbe? Vejamos a seguir:

Uma das primeiras ocorrências sobre o assunto se encontra em Deuteronômio 24.1-4:

“Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança.”

Segundo esta porção da Escritura, já podemos verificar algumas coisas. Quando se achava “coisa indecente” (que, ao contrário do que muitos pensam de ser algo arbitrário - como se Deus fosse arbitrário -, “coisa indecente” aqui se refere a pecados sexuais, como discutiremos mais tarde) no cônjuge, se lavrava um termo de divórcio, as duas pessoas, pra todos os efeitos, se tornavam solteiras (que até poderiam se casar novamente, como diz em “se ela... for e se casar com outro homem”). Aqui até mesmo vemos uma advertência com uma mulher que teve um segundo casamento, se o segundo marido morrer, ou se divorciar dela, não pode voltar para o primeiro marido. Entretanto, como vemos em 1 Co 7.10,11, se não houve um segundo casamento, o ideal para o caso seria a reconciliação com o antigo cônjuge ou até mesmo o celibato. O segundo casamento é lícito, entretanto, não incentivado pela Escritura, como bem vemos aqui.

Um grande erro é ignorar o que o Antigo Testamento tem a nos dizer pois “já se passou”, “estamos na era do Novo Testamento”, na “era da Graça” ou qualquer coisa do gênero, com o intuito de denegrir a autoridade do Antigo Testamento para nossas vidas. Na pessoa de Jesus Cristo, claro, houve uma nova aliança, e o Antigo Pacto foi atualizado e plenificado no Novo testamento, mas isso não pode ser desculpa para não ler e entender o Antigo Testamento. O próprio Jesus disse que não veio para revogar a Lei ou os Profetas, antes, para cumprir o que eles diziam (Mt 5.17). E um grande exemplo dessa ignorância com o Antigo Testamento reside na questão do divórcio: com o pretexto do Antigo Testamento “não valer mais”, tudo é possível, tudo é plausível no que tange casamento, divórcio e recasamento, deixando de obedecer ao que o SENHOR demanda de Seu povo, pecando contra ele. Na verdade, são apenas seus corações pecaminosos que disfarçam libertinagem sob um véu de pseudo-piedade, pois querem fazer o que seus corações querem, e não o que o SENHOR demanda.

Entretanto, mesmo para esses, cujos corações negam o Antigo Testamento, o Novo Testamento tem muito a dizer sobre isso, e em nada discorda com a Antiga Aliança. Vejamos um trecho bastante conhecido sobre o assunto:

Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]. Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita.” Mateus 19.3-12.

Aqui, avaliamos uma série de ensinamentos ditos por Jesus. Os fariseus vieram a ele perguntando se poderiam repudiar sua mulher por qualquer motivo; Jesus, porém, só abriu uma cláusula possível para o divórcio, que são as relações sexuais ilícitas, assim como Deuteronômio previa. Aquele que repudia da sua mulher por qualquer outro motivo, na verdade, não se divorciou dela licitamente e, casando com outra, adultera, pois nunca deixou de ser casado.

Mais, Jesus arroga a autoridade do casamento desde o Primeiro Casal, mostrando que o casamento não é uma união vã, um contrato entre partes, como muito se vê por aí, mesmo entre crentes. O Casamento é uma união completa de duas pessoas; não são mais dois, apenas uma só carne. A ideia de divórcio, sob o espectro do Primeiro Casamento, seria uma coisa impensável, pois como vai se dividir em pedaços e ainda assim fazer viver algo que é uma coisa só? Novamente, é algo muito sério a ser levado em consideração, que o Casamento é um passo pra uma união sobremodo maravilhosa, que exige responsabilidades sobremodo grandiosas, mas recompensadoras. Lembremo-nos que o Casamento é figura, é “imagem e semelhança” do relacionamento de Deus e Seu Povo; como se pode dividir tão maravilhosa união? Como se pode destruir comunhão tão poderosa? Nada nos separará do amor de Cristo (Rm 8.31-39), tampouco se deve destruir o relacionamento humano do qual é imagem, do qual glorifica a Deus em semelhança, que é o Casamento.

Entretanto, a Moisés foi dado permitir o divórcio, tão somente no caso de adultério porque assim também é o caso com alguém que “adultera” seu relacionamento com Deus que, ao trocar o verdadeiro Deus por outros deuses (paganismo, dinheiro, poder, sexo, misticismo, e por aí vai; Calvino já dizia que “o coração humano é uma fábrica de ídolos”, logo, qualquer coisa é motivo pra idolatria, se você elevá-la o suficiente no seu coração), Deus então lavra sua carta de divórcio, relegando oficialmente como fora do corpo de Cristo, fora da comunhão com o Deus Vivo, sobrando apenas a condenação eterna para “adúltero espiritual” (Ezequiel 16 é o maior exemplo dessa figura, vale a pena conferir). Como diria Hebreus 10.26-30:

"Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo."

Então, aquela pessoa que deliberadamente continua imerso em pecado, aquela que tem outros deuses em seu coração, merecerá o castigo eterno de Deus, o eterno divórcio da união com o Eterno Deus.

Enfim, vemos então que o Casamento, como figura do relacionamento de Cristo e a Igreja, não deveria ser anulado, pois a união reflete a união de Deus com Seu povo. Entretanto, o divórcio é permitido, somente no caso de relações sexuais ilícitas, que é um ensinamento que percorre do Antigo para o Novo Testamento, nunca sendo por qualquer outro motivo. Por mais que um Casamento esteja ruim, destruído, estilhaçado, isso não será motivo diante de Deus para que haja divórcio. Apesar de muito difundida, a ideia de que é o amor que segura a aliança e o compromisso é uma ideia humanista e não bíblica; é a aliança que segura o amor, é o compromisso que alimenta e sustenta o amor do Casamento. Atentemos e roguemos a Deus para que entendamos estas verdades e vivamos para Ele, cada dia mais.


Que Deus possa abençoar a todos nós.
Marcel Cintra

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 2: Casamento com Descrentes



Acabadas as diretrizes específicas sobre como funciona um Casamento, com a analogia de Cristo e a Igreja, vamos a alguns tópicos polêmicos, com a ajuda tanto de Efésios, como de outras partes da Escritura. Vou tentar pegar tópicos bem discutidos sobre o assunto, e tentar resolvê-los à luz da Escritura. E primeiro destes tópicos é o Casamento do cristão com o descrente. Enfim, vamos lá:

Desde o Antigo Testamento, há várias asseverações contra casamentos mistos (Ne 13.23-27 – este trecho é a maior mostra dos povos não-israelitas ensinando suas heresias e profanando a aliança do Deus de Israel, mediante casamentos), mostrando o perigo de tal união. Alguns podem pensar que era algo cultural, um tipo de xenofobia judia, principalmente quando se trata do Antigo Testamento, mas a verdade é outra.

Primeiro, era um mandamento divino. Não era algo inventado por homens, mas o próprio Deus mandou que assim fosse. E se foi o próprio Deus, obedeçamos, ao invés de tentar questioná-Lo.

Segundo, não era algo racial, mas sim, pactual. Deus é um Deus de pactos, de alianças. No Antigo Testamento, Israel era o povo de Deus, tinham feito um pacto com Ele desde Abraão; era uma aliança que se perpetuaria até o Novo Testamento (Gl 3.6-16). Outra mostra dessa visão pactual ao invés de racial são as inúmeras leis do Antigo Testamento valorizando o “estrangeiro”, que viviam com eles, mas que seguiam a Lei de Deus (Ex 12.48; Ex 23.9; Nm 15.16). A questão era que, a priori, os pagãos eram os gentios, enquanto os judeus era os guardiões dos oráculos de Deus (Rm 3.2; 9.4,5)

Casar-se com alguém descrente já é uma grande mostra que esse relacionamento não tem por objetivo glorificar a Deus, já que o cônjuge em questão adorava outros deuses. Hoje em dia, poderiam falar “ah, mas o cara é ateu/budista/espiritual/acredita em Deus, mas sem religiões”; entretanto, tudo isso, e muito mais, não é o verdadeiro pacto e união com Deus Triúno que a Escritura revela então, é tão pagão quanto os outros povos semíticos do Antigo Testamento. Pode ser que tal casamento seja agradabilíssimo, vocês nunca briguem, vocês “se amam” (questão de amor pode dar um outro post inteiro, por isso me limito a colocar entre aspas esse tipo de explicação pra dizer que não condiz com a definição bíblica de amor), mas isso nada vale. O casamento foi instituído por Deus para que o casal glorifique a Deus; se fosse pra se sentir bem, relacionamentos com qualquer não-cristão seria válido diante de Deus. Felizmente, não é esse o propósito, pois glorificar a Deus é infinitamente melhor que “se sentir bem”.

Isso não nega a realidade de que um relacionamento entre cristãos não é perfeito. Os cristãos ainda são pecadores, e por seus pecados, que distorcem e corrompem o bom proceder, machucam e fogem desse propósito divino. Ainda assim, são os cristãos, aqueles verdadeiramente remidos e regenerados por Deus, que vão buscar, cada dia mais, odiar o pecado e amar a santidade; cada vez mais, que vão lutar para amar mais a Deus, e, por consequência, amar o seu cônjuge em santidade.

Entretanto, existe uma exceção para relacionamento entre cristãos e descrentes, e ela se encontra em 1 Co 7.12-16:

“Aos mais digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher incrédula, e esta consente em morar com ele, não a abandone; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em viver com ela, não deixe o marido. Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos. Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz. Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?”

Neste caso específico, Paulo trata da situação de alguém que se converte DEPOIS de ter se casado. Neste caso, Paulo aconselha que se mantenha a união, se a parte incrédula concordar com esta união; caso não concorde, a parte crente está livre (sendo uma das poucas situações válidas para a separação; entretanto, isso será tratado posteriormente). Já que se estabeleceu a união, o incrédulo da relação pode ser abençoado e Deus pode alcançá-lo através de seu cônjuge. Então, porque não se pode casar com alguém incrédulo para “ajudar a se converter”, mesmo sendo cristão antes do casamento? Porque, sendo você cristão, tem o mandato de glorificar a Deus em todas as áreas, inclusive, a de escolher um cônjuge com quem se une, por meio do Casamento, para adorar a Deus. Alguém que converte depois de casado, não tem mais essa opção, pois se respeita a união feita anteriormente. Logo, o seu glorificar a Deus é no bom trato com o cônjuge e esperar em Deus que Ele o converta, o que pode não acontecer, ainda assim (e Deus terá Seus motivos e propósitos para tal, não me cabe aqui tentar fazer uma explicação universal pra isso).

Assim, Deus demanda do Seu Povo que se case e se una somente com aqueles que são Dele (1 Co 7.39), pois somente assim Ele será glorificado, visto toda a casa estar submissa ao Senhor (Js 24.15). Assim como Deus não permite que Seu Povo se volte pra outros deuses, pela aliança exclusiva que fez com Ele, para O servir e glorificar, nós não podemos nos casar com aqueles com quem não tem o pacto com nosso Deus, visto que não glorificam a Deus na sua vida.


Que Deus abençoe a todos nós
Marcel Cintra

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Aladdin e o evangelho


            Somando mais um post ao grupo de paralelos, vamos analisar as correlações entre o filme do Aladdin (1992) e a obra de Jesus Cristo conforme revelada na Bíblia. Para isso, é importante lembrar o pressuposto essencial dos paralelos: que o homem, embora tenha caído e corrompido sua natureza, não pode destruir completamente em si a sua semelhança com Deus, que em si foi incutida pelo Senhor na criação. Isso resulta em que o homem, sendo semelhante ao Criador na capacidade de criar e de trabalhar no mundo, ainda reflete a luz de Deus em suas obras, por mais que estejam também maculadas de trevas. Portanto, vamos cavar o tesouro do evangelho nessa obra da Disney.
           
Ora, desde o princípio do filme, vemos claramente que existe um reino. E o primeiro personagem que nos é apresentado é o Jafar, o grão-vizir. Esse Jafar deseja tornar-se o Sultão para ter plenos poderes. Para isso, ele precisa entrar na caverna de tesouros e pegar a lâmpada do Gênio. A caverna diz, porém, que somente uma pessoa, “de grande valor interior”, pode entrar. O que tudo isso significa, em comparação com a Bíblia? Ora, Jafar é obviamente Satanás, aquele que tem alta autoridade sobre o mundo, embora não seja o grande rei. Jafar exerce sua autoridade de forma maligna, como Satanás faz. É frequente vermos Jafar enganando o Sultão com sua serpente enfeitiçada para conseguir o que quer. Nesse sentido, ele praticamente consegue atuar como Sultão. Ele, de fato, domina sobre o Sultão – mas, ainda assim, não pode ter precisamente o poder dele. Onde vemos essa tensão na Bíblia? Não se pode pensar que, nesse caso, o Sultão seja Deus, pois seria absurdo que Deus fosse enganado pelo diabo. O conflito é, antes, entre a semente da mulher – não o Cristo, mas a humanidade – e a semente da serpente. Não é apenas pela coação do Jafar que o Sultão é ludibriado, mas pela própria tolice deste. Foi o Sultão quem colocou Jafar em sua posição privilegiada, e ele mesmo se orgulha de “saber julgar bem as pessoas”. Logo, Jafar domina sobre o Sultão porque o Sultão lhe deu ouvidos em primeiro lugar. Em algum momento anterior ao filme, houve uma queda do Sultão semelhante à queda do homem no Éden. Não é notável que é precisamente uma serpente que Jafar usa para enganar o Sultão? Ora, se assim é a situação, porque Jafar não pode simplesmente tornar-se Sultão, se ele tem grande poder mágico? Não é simples sem o máximo poder do Gênio, é claro. Veja, portanto, o salmo 8, que descreve a posição do homem dada por Deus: um pouco menor que os anjos, coroado de glória e honra. Deus decretou que o homem fosse assim, mesmo depois da queda. Por isso, por mais que Satanás domine sobre o homem, nunca poderá ter a honra que foi dada aos filhos de Adão. Esse é o decreto de Deus. Porém, a falha do homem resulta na necessidade de um novo homem, um homem ideal, que reine sobre o mundo como Adão falhou – um segundo Adão. A falha do Sultão também aponta para a necessidade de que um novo Sultão chegue ao poder. E essa é a tensão do filme: quem será o novo Sultão: Jafar, ou um digno príncipe? Na Bíblia, também vemos uma tensão parecida: o domínio sobre o mundo e sobre a raça humana pertencerá ao diabo ou ao Messias?

            O que garante a vitória do Aladdin na conquista do Gênio – o poder para ascender ao sultanato? Simplesmente o decreto da caverna de que somente uma pessoa poderia nela entrar. Jafar não poderia entrar, senão seria esmagado. Descobrindo que Aladdin era esse eleito, ele leva-o à caverna para pegar a lâmpada e tomá-la dele. A cena da caverna é muito semelhante à da tentação e do batismo de Jesus. É claro que existem diferenças: em primeiro lugar, foi o Espírito que levou Jesus ao deserto (hmm, deserto, como no filme), e não o diabo. A diferença se dá pelo seguinte: na Bíblia, Jesus foi primeiro batizado – revestido pelo poder do Espírito – e depois tentado. No filme, o Aladdin primeiro passa pela tentação na caverna (todos os tesouros proibidos que o afastariam de sua missão) para depois receber o poder do Gênio. Por essa razão, ele é levado ao deserto por Jafar. Agora, se pensarmos no batismo e na tentação de Jesus como acontecimentos inter-relacionados para o início de seu ministério, podemos nos satisfazer com esse mesmo bloco no filme do Aladdin, não importando a ordem em que cada coisa tenha acontecido. Claro que a ordem traz importâncias teológicas fundamentais, mas estamos enfatizando a parte da “luz” aqui. Bem, como Satanás tentou Jesus para que servisse a ele, também Jafar tentou ludibriar Aladdin para pegar a lâmpada para ele. No último minuto, porém, Aladdin venceu e ficou com a lâmpada, e Jafar ficou derrotado.

            Vamos interromper a história aqui para analisarmos as credenciais do Aladdin. Ele era um ladrão. É claro que o Salvador real não poderia ser um ladrão, pois sua moralidade deveria ser perfeita para que pudesse transferir aos eleitos os seus méritos. Mas, na fantasia Disney, é possível que um homem seja ladrão, mas ainda assim “um bom ladrão”. Vamos nos ater ao decreto de que esse ladrão era moralmente aceitável diante do juízo da caverna. Uma semelhança melhor com Jesus é o fato de ele ser pobre. Cristo, que era rico, fez-se pobre em sua encarnação (2Co 8, 9). O novo rei veio em humildade, não em esplendor (Zc 9:9). Outra semelhança é a perseguição. Aladdin era constantemente perseguido pelos guardas (por motivos bem diferentes dos de Jesus, mas never mind), e Jesus era também perseguido pelas autoridades de seu tempo. Tais autoridades, que deveriam representar fielmente as santas aspirações do reino, tornaram-se legalistas, corruptas e opressoras.

            Vamos voltar ao fim da caverna. Aladdin descobre o Gênio, uma entidade serva, que glorifica o seu dono (como Jesus disse que o Espírito o glorificaria), mas cheia de poderes. É uma pena que as limitações do Gênio sejam justamente a maior glória do Espírito: poder ressuscitar mortos, matar pessoas e produzir o amor conjugal (no caso bíblico, especialmente entre Cristo e a Igreja, a regeneração). Independentemente disso, tudo mudou na vida de Aladdin depois de conseguir o Gênio: seu primeiro pedido foi tornar-se príncipe para poder casar com a princesa Jasmine. Essa princesa jamais foi seduzida por príncipes orgulhosos e estúpidos, o que contrasta com a constante rebelião do povo de Deus ao ir atrás de ídolos. Vemos, ainda assim, um conflito opressor entre a Jasmine e o seu pai, o Sultão. Sultão, representando o tolo homem caído, busca impor domínio sem juízo sobre a princesa, o símbolo do povo de Deus que seria resgatado. Um eufemismo daquilo que a Igreja vetero-testamentária sofria com o poder das nações ímpias. De qualquer forma, o ponto é que Aladdin realmente amou a Jasmine, por iniciativa própria (como Cristo, que primeiro nos amou para que o amássemos) e decide tornar-se um príncipe.

            Sua identidade como príncipe carrega também uma grande tensão. Aladdin veste-se como príncipe, consegue todos os adornos e aparências de príncipe, mas ele sabe que, em sua natureza, ele não é. A roupagem de príncipe pode ser comparada ao ministério popular de Jesus. Após ser revestido do Espírito, Jesus iniciou uma jornada que foi, em muitos aspectos, altamente popular e aclamada. Embora houvesse muitos inimigos, as multidões cresciam cada vez mais. No início, as multidões o viam apenas como milagreiro; no fim do seu ministério, na última semana, Jesus foi recebido às vivas como o rei davídico libertador. Ele era, para todos os efeitos, o príncipe que o povo esperava. Infelizmente, isso não perdurou, pois Cristo veio, realmente, como um pobre servo, não como rei glorioso. Da mesma forma, após tudo parecer ter sido ganho na missão de conquistar a princesa – inclusive mais uma derrota de Jafar, que foi expulso do palácio, semelhantemente ao diabo que caiu como relâmpago durante a missão de Jesus (cf. Lc 10:18) –, o verdadeiro ser do Aladdin foi revelado. Ele foi despojado de toda a honra e glória que havia recebido quando Jafar conseguiu roubar-lhe a lâmpada. O início da paixão de Cristo foi também chamado por ele de “a hora em que as trevas reinam”. O império do Jafar se estabeleceu e Aladdin foi novamente revelado como frágil, pobre, e ele mesmo foi lançado para fora da terra dos viventes (Is 53).

            No entanto, foi em fraqueza que ele trinfou. Em realidade, não foi apenas a sua aparência desprezível que foi posta à vista, mas também a essência do Jafar mostrou-se. Ele virou uma serpente gigante para matar o Aladdin militante (cf Ap 12). Mas, na batalha em que o pobre pivete parecia não ter a menor chance, por meio do Gênio, ele derrotou o Jafar, já transformado também em gênio, prendendo-o em sua própria lâmpada. Jesus Cristo, da mesma forma, venceu o diabo em sua morte e, especialmente, em sua ressurreição e ascensão, operadas pelo Espírito. Por mais que o diabo tenha se mostrado crescentemente poderoso ao instigar os homens violentos contra Cristo, foi na humilhação do Senhor que a derrota de Satanás foi executada. De forma interessante, o Aladdin não destruiu o Jafar, mas o aprisionou. Preso, Jafar não pode mais enganar o Sultão. Da mesma forma, Jesus Cristo “prendeu” o diabo quando venceu na cruz – algo que amilenistas e pós-milenistas compreendem bem, conforme a conexão entre Apocalipse 12 e 20. Ainda em seu ministério, Jesus disse que o ladrão só pode saquear o homem forte se primeiro o prender. Comparou-se, naquele momento, com aquele que amarra o homem para salvar as almas por ele feitas cativas. Satanás está preso não literalmente, geograficamente, mas sim no sentido de ter seu poder grandemente limitado, impossibilitado de fazer com que as nações não creiam no evangelho. Aladdin prendeu o Jafar e salvou a princesa, o Sultão e o reino. Jesus prendeu Satanás, salvou sua noiva e o homem caído – lembrando que, na realidade, a noiva de Cristo e o homem pecador regenerado convergem para a mesma coisa.

            Após derrotar Jafar, Aladdin liberta o Gênio. O Gênio não mais ficaria contido numa lâmpada, manifestando-se apenas em poucas ocasiões. Isso se encaixa no momento em que Cristo enviou o Espírito Santo à terra. Na ascensão de Jesus Cristo, ele confere maior atuação ao Espírito. Não que os detalhes correspondam tanto, mas...

            Por fim, o Sultão recobra sua sanidade compreendendo que Aladdin, embora não fosse o príncipe que todos esperavam, era o príncipe verdadeiro, pela pureza do seu coração. E concede que ele se case com a princesa e torne-se ele mesmo o novo Sultão. Jesus Cristo, após salvar o reino e o homem, faz que o homem caído seja regenerado, recobre seu entendimento espiritual e submeta-se ao único rei digno, o Messias. Assim, Jesus estabelece sua aliança com sua noiva, reina sobre os homens que o adoram e vence o diabo.


            André Duarte

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 1: Definição



Bem, chegamos à parte mais central da série, pelo qual as seguintes postagens dependerão de alguns dos princípios aqui expostos. Hoje, falaremos sobre Casamento. Entretanto, vamos por partes: conceituação do que é Casamento, e suas implicações.

Vemos no texto anterior que o Casamento é o meio pelo qual se glorifica a Deus na área de relacionamentos conjugais. Todos os outros relacionamentos, como Noivado e Namoro (“ficar” aqui sai por razão óbvia. Se discordarem, o último texto da série tratará bem disso), necessitam de tê-lo como objetivo, e andar retamente para que aconteça. O Casamento, em si, é análogo ao relacionamento de Deus e Seu Povo, que acontece mesmo antes da fundação do mundo, como visto anteriormente.

Não é de se estranhar que no Antigo Testamento, várias vezes, trata o Seu Povo numa figura de mulher, de noiva (Ez 16.3-35; Jr 2.32; Is 49.18); o próprio livro de Cântico dos Cânticos é exemplo mor disso: sempre foi lido como uma forma alegórica do relacionamento de Deus e Seu Povo. E não só isso: quando o Povo de Deus pecava, quando Israel adorava outros deuses, feitos de pedra e madeira, os profetas falavam como se fosse um adultério, não poucas vezes, como prostituição (Ez 16.3-35; Os 2.1-23; Ez 23.37; Jr 3.8,9). Entretanto, no Novo Testamento há um relato interessante: ao invés de caracterizar o relacionamento de Deus e Seu Povo como um relacionamento de casamento, ele vai dar diretrizes divinas para o casamento POR CAUSA do relacionamento de Deus e Seu Povo, no caso específico aqui, de Cristo e a Igreja. Vamos ao texto por completo:

“As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.

 Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.” Efésios 5.22-33 (ARA)

Nesta passagem magnífica tem uma diretriz principal, e definições importantíssimas que passam despercebidas. Curiosamente, começaremos pelo final:

1. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja.

Aqui reside o primeiro princípio do Casamento. O homem e a mulher, pelo pacto e aliança do Casamento, se tornarão um só, assim como Cristo, por pacto e a aliança, se torna um só Corpo com Sua Noiva (1 Co 10.17; 1 Co 12.12,27). Assim como somos co-participantes da natureza divina (2 Pe 1.4), por nossa união com Cristo, no selo do Espírito (2 Co 1.22), o homem e a mulher se tornam um só, uma diversidade dentro de uma unidade; cada um com um papel específico para funcionalidade específica. O homem tem por funcionalidade divina e criacional a liderança (1 Co 11.3; Ef 5.23) e a mulher, a de auxílio (Gn 2.18; 1 Tm 2.12-15). E isso se dá na prática segundo o que o resto da passagem ensinará, como se vê a seguir.

2. As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Aqui está tão terrível e polêmica “submissão feminina”, na qual feministas e simpatizantes, até mesmo dentro do meio cristão, se alvoroçam e repudiam a bel prazer. Entretanto, a não ser que queiram rasgar a Revelação Divina, e seguir seus próprios conselhos ao invés de Deus, mais atenção tem que ser dada aqui. Nesta Santa Analogia de Deus e o homem, Cristo se mantém como cabeça da Igreja, Seu Corpo, lhe dá direção e entendimento, e o Corpo obedece; no Casamento, a esposa deve ser submissa ao marido, seguindo-o, crendo que Deus o pôs como líder da casa, e que o orientará, se verdadeiro servo de Deus for. Isso não quer dizer obediência cega, antes, amor servil, amor que auxilia e dá forças ao marido, como foi designado desde a Criação (Gn 2.18).

O pensamento atual despreza a ideia de servidão, relegando-o como papel inferior ao de liderança, e aí reside todo o mal desta questão. A Escritura traz a servidão como coisa maravilhosa, símbolo e expressão magnífica de amor pelo próximo, sendo o próprio Jesus o maior exemplo, que, sendo Deus, o Ser Absoluto, Majestoso e Perfeito, se humilhou, tomando forma de homem, forma de servo, e morrendo uma morte horrenda, por Seu Povo, feito de seres humanos, pequenos, finitos e pecaminosos, ainda assim, alvo de Seu Infinito Amor (Filipenses 2.2-11). Um exemplo, enquanto na terra, de servidão de Jesus está relatado no Evangelho de João, no capítulo 13. Ele lava os pés dos discípulos, sendo o lavar pés coisa dada como inferior, coisa de escravos para se fazer; ele , o Messias, se reduzindo pelos discípulos, ao ponto que diz: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.” (Jo 13:13-17)

Bem-aventurado é aquele que serve, sendo servidão princípio de amor. Porque então esbravejam feministas e afins porque a mulher foi designada para tão grande e focalizado papel no relacionamento com seu marido? Bem, pelo que se vê, não é por motivos bíblicos. Liderança e servidão são elementos complementares dessa união, nunca hierarquizados no Casamento. E é essa que veremos na última parte.

3. Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.

É designado ao esposo amar sua esposa, como Cristo amou a igreja, e quão sério isso deve ser levado por nós, homens, casados ou desejosos de casar um dia. Paulo aqui faz uma comparação do entregar de Cristo por nós, para que fôssemos salvos, purificados para a vida eterna, com o mandamento divino dado sobre o homem de cuidar e se entregar para sua esposa.  Assim como a Igreja é o Corpo de Cristo, o cabeça da Igreja, este, por sua vez, se entrega para que eleve sua Noiva como pura e imaculada, o homem tem por extensão do próprio corpo a mulher, pois são um só, e, amando-a, ama a si mesmo. Ao homem é dado o mandato divino de amar sua esposa em cuidado e carinho, dedicação e liderança, pois lhe é cabeça. Como disse antes, é heresia moderna considerar servidão algo inferior do que liderança. Cristo, em amor, dá direcionamento para a Igreja, que O serve e o ama, esforçando-se para glorificá-Lo nessa união; o homem, direcionado por Deus, em amor, dá por sua vez direcionamento e cuidado à esposa, que o serve e o ama, esforçando-se para glorificar a Deus nessa união, refletindo a servidão da Igreja pelo Senhor.

Enfim, em Efésios vimos então que o Casamento, assim como a União de Deus e Seu Povo, é, resumidamente:

1.       Um pacto, uma aliança. Os dois lados se unem com um fim específico, glorificar a Deus; com benefícios e responsabilidades mútuas;
2.       É uma união. Nesta união os dois lados são identificados como extensão um do outro, assim como a Igreja é de Cristo;
3.       Existem responsabilidades divinas. Uma diversidade dentro da unidade, o homem lidera e a mulher serve; ambos se amam e fortalecem o pacto que reflete e glorifica a Deus.

Acabada essa primeira parte, não seguiremos para o Noivado, como havíamos planejado antes. Dada a necessidade de escrever mais sobre o assunto do Casamento, continuaremos a escrever sobre o Matrimônio, agora em tópicos dignos de discussão sobre o assunto, a saber, o Casamento com descrentes, o sexo pré-marital e o divórcio. Creio que cada um desses assuntos gerará uma postagem própria, e depois seguiremos com o Noivado e os outros assuntos previamente propostos.

Que Deus nos abençoe,

Marcel Cintra

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - I



Vamos continuar aqui o assunto proposto anteriormente: o de falar sobre relacionamentos conjugais à luz da Escritura. Vemos, então, que uma grande falta da Igreja hoje reside em faltar para com uma interpretação bíblica robusta sobre o assunto, prendendo-se a questões e versículos pontuais. E isso acaba gerando o que também foi apresentado no post anterior da série: uma geração descontrolada de regras, que não contemplam a verdade bíblica sobre o assunto, o “cimento” que une as regras e lhes dá propósito.

Disse também que abordaria de uma maneira “de cima para baixo”, e aqui começa isso. Antes mesmo de nos perguntarmos “o que pode e não pode”, “o que se deve fazer”, devemos primeiro pensar em algo sobremodo superior: a nossa finalidade, o porquê de termos sido criados pelo próprio Deus, o objetivo de nossa existência. Com base nisso, teremos uma luz mais clara sobre o propósito e limitações dos relacionamentos conjugais.

Existe um certo documento cristão¹ que faz uma série de perguntas e respostas acerca de vários pontos da fé cristã. Entre elas tem um interessante item, que se vê a seguir:

“Qual é o fim supremo e principal do homem?
Resposta. O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.”

Essa afirmação é verdadeira. A finalidade da humanidade, a razão de existir reside nisso: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. E é isso que devemos almejar, esse é o objetivo de nossa existência, e, se esse é o objetivo de TODA a nossa existência, então TODOS os aspectos da nossa vida tem que ser voltar para Deus e o que Ele requer. Esses aspectos da nossa vida existem em imagem e semelhança aos aspectos do próprio Deus, ainda que em analogia, e têm como objetivo glorificá-Lo. Dentre estes aspectos da vida poderíamos citar: trabalho, estudos, lazer, comércio, política, arte, ciência, relacionamentos conjugais e família, etc. Todas estas áreas da existência, e mais outras, devem glorificar a Deus; em tudo, tem que existir os princípios divinos regendo-as e retificando-as.

Entretanto, uma pergunta fica: como se pode glorificar a Deus nessas áreas? Qual é o princípio maior, o padrão maior para tal? Uma resposta dentre muitas, visto seus vários enfoques, é analisar a humanidade em relação à sua imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27; 9.6), uma doutrina um tanto quanto posta de lado pela Igreja. A humanidade, ao contrário de todo o resto da Criação, foi criada à similitude do Criador; é sua imagem perfeita. Ainda que não sejamos como Deus por completo, somos semelhantes a Ele por analogia.

Vários exemplos ilustram essa realidade:

1.    1.   Nós trabalhamos, porque, desde o Éden, temos o mandato de trabalhar, de dominar a terra e tudo que nela há (Gn 1:28), como mordomos da Criação para o Grande Rei. Isso se dá justamente porque Ele também trabalhou na Criação, a sustenta, e continua operando nela, fazendo d’Ele o Trabalhador Original no qual o homem é apenas trabalhador por semelhança. O trabalho não existe por si só, mas serve a um propósito, o de produzir sustento e exercer domínio sobre a terra; trabalho por trabalho acaba se tornando pecado, como workaholics vivem, por exemplo.

2.    2.   À semelhança de Deus, nós também descansamos, porque Ele mesmo descansou no sétimo dia, e é o momento onde contemplamos o fruto das obras de nossas mãos, assim como no sétimo dia da criação Ele folgou e viu sua obra completa (Gn 2.2,3). Se o descanso passar disso, como a preguiça, como a procrastinação, é erro crasso e deturpação do propósito divino do descanso em nós.

3.    3.   Os pais só o são porque Deus mesmo é Pai (Mt 7.11), e da Paternidade dele se deriva e se modela toda paternidade humana; toda Filiação, de Deus também se deriva, porque Deus também é Filho (Sl 2.7), e todo filho tem por molde o Filho Eterno.

Assim, glorificamos a Deus quando nos voltamos para Aquele de quem nós somos imagem e agimos de acordo com a semelhança divina que temos em nós. Assim, imitaremos o Criador, seremos santos como Ele é santo (Lv 20.26), e teremos alegria e comunhão com Ele.

Um ponto a se notar aqui, como falei de leve acima, há o pecado. Desde a queda da humanidade no Éden, o pecado e a morte entraram no mundo e na vida humana, corrompendo-os por completo. A perfeita imagem e semelhança do Deus Triúno foi corrompida na Queda. Desde então, temos nenhuma aptidão para a santidade, antes, total inclinação para o pecado e o mal. Isso vai se aplicar, visto nossa imagem deturpada, a todas as áreas da nossa vida. Por exemplo, trabalho pode virar vício ou crime, o descanso vira preguiça, a política vira corrupção e egoísmo.

A única solução para isso é a fé em Jesus Cristo e seu sacrifício na Cruz. A Epístola de Paulo aos Colossenses vai dizer que “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20). Em Cristo, todas as coisas são reconciliadas, tudo começa a ser restaurado, tendo sua completude no mundo vindouro. Nossa santificação é a restauração da imagem e semelhança de Deus em nós, que começa com nossa regeneração e se completa na glorificação (quando seremos como anjos nos céus – Mc 12.15; 1 Co 15.35-54). Assim, tornando-nos co-participantes da natureza divina (2 Pe 1.4), com o próprio Espírito Santo de Deus habitando em nós, somos redimidos de nossos pecados, indo em direção à glorificação futura, a redenção completa, no mundo vindouro, tornando-nos mais do que nossos primeiros pais o foram: seremos como Cristo Jesus assunto aos Céus.

O que relacionamentos conjugais têm a ver com tudo isso?

Bem, vimos que tudo da nossa vida serve pra glorificar a Deus, inclusive esse tipo de relacionamento. Analisamos também que somos imagem e semelhança de Deus, e que O glorificamos quando, pelo Espírito que nos santifica, agimos de acordo com a similitude original. Semelhança essa que é o que Deus nos propôs a ser, como Ele próprio O é, ainda que por analogia. Então, o que há em Deus que temos de semelhante, que se reflita em relacionamentos conjugais? O relacionamento de Deus por Seu povo, que se reflete na humanidade na figura do casamento. Esse relacionamento Divino-humano é uma aliança, um pacto, fundado em amor e compromisso, bênçãos e responsabilidades. E o maior exemplo disso está na Epístola aos Efésios, na figura de Cristo e a Igreja.

É pelo casamento que glorificamos a Deus nos relacionamentos conjugais. O casamento existe PORQUE existe antes o relacionamento de Deus e seu Povo todo, antes mesmo da fundação do mundo (1 Pe 1.20; Ap 13:8; Ef 1.4). Assim, todo e qualquer relacionamento conjugal entre homem e mulher tem que visar e andar para o casamento, e nele viver de modo santo e correto, senão, incorrerá em pecado e necessidade de arrependimento. E é disso que trataremos no próximo capítulo dessa série.

Que Cristo abençoe a todos nós.


Marcel Cintra