quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

João 3 e o novo nascimento




Transcrevo aqui o meu comentário de João 3:1-21.

O novo nascimento (1-8)

   Tem-se aqui a continuação do princípio da pregação de Jesus. Sobre essa época ainda não tardia da sua jornada pública, João oferece ao leitor, de diversas conversas que certamente Jesus teve, algumas particulares entre ele e um indivíduo. Primeiro, no capítulo 3, Jesus fala a um judeu fariseu – o partido farisaico mais popular, conservador e seguidor das tradições rabínicas. Em seguida, no capítulo 4, ele fala a uma samaritana e, logo depois, a um gentio, tipificando a progressão da missão de seus apóstolos (Atos 1:8). O diálogo entre Jesus e Nicodemos é um exemplo maravilhoso de evangelização profunda, individualizada, atenciosa, altamente doutrinária e completa em seus pontos principais. As lições e os insights são inesgotáveis, e os missionários e pregadores contemporâneos têm muito a aprender aqui.

Nicodemos era um dos poucos fariseus e rabinos que respeitavam a mensagem de Jesus. Após o episódio tenebroso no templo, a popularidade de Jesus entre os grandes mestres certamente caiu muito. Mas, Nicodemos manteve, no mínimo, curiosidade a respeito do Senhor. Ele era autoridade entre os judeus, provavelmente um membro do Sinédrio, e participou positivamente da história de Jesus no final da jornada, como será explicado. Ainda havia compreendido pouco sobre Jesus, mas reconheceu que ele era profeta de Deus, por fazer tantos milagres. Ele dirigiu-se a Jesus com respeitosa curiosidade, buscando entender qual era o significado e a finalidade do que Jesus fazia, e quem ele realmente era. Nicodemos reconheceu que os milagres de Jesus eram a prova de que ele realmente era profeta de Deus. Uma apologia constante na Bíblia é que a evidência de que Jesus fala da parte de Deus são os milagres que ele faz. Este evangelho tratará disso diversas vezes. Mesmo no Antigo Testamento, o poder verdadeiro, público, sobrenatural e inquestionável de Deus é proclamado como prova de que só o Senhor é real (Êx 9:16, 29; 20:1; Dt 4:7, 32-35; 1Rs 18:22-39). Como bom conhecedor das Escrituras, Nicodemos admite que, somente pelo poder de Deus, milagres como os que Jesus fez em Jerusalém poderiam ser feitos. E, visto que nenhum profeta fez milagres desacompanhados de uma nova revelação em mensagem, é isso que o fariseu foi ouvir. Deve-se notar, porém, que o fato de que Nicodemos foi se encontrar com Jesus à noite indica, provavelmente, medo de ser identificado pelos colegas, o que não é justificável (Mc 8:38; Lc 9:26; ver também 2Tm 1:7).
   
Jesus sabe qual era a curiosidade de Nicodemos e responde-lhe diretamente com a mensagem do evangelho: é necessário nascer de novo para entrar no Reino de Deus. Uma das mais preciosas descrições da conversão é a metáfora do novo nascimento. Significa mortificar o passado de rebeldia e pecaminosidade e renascer, isto é, tornar-se uma nova pessoa. O nascer de novo não é uma mera resolução volitiva, nem apenas uma nova decisão para a vida. O ponto é que, no primeiro nascimento, o carnal, todo homem é pecador e corrupto em sua natureza. Esse tipo de homem não pode entrar no Reino da santidade. A única maneira de herdar o Reino de Deus é nascer novamente, o que se dá espiritualmente. Nasce no homem um novo coração, uma nova mente, uma nova natureza. O termo “nascer de novo” pode também ser traduzido como “nascer do alto”, o que também é correto, pois Deus é o autor paterno desse renascimento. A pessoa renascida é descrita por João como filha de Deus, de natureza semelhante à do Pai (v. 6; 1Jo 3:1-3; 5:1; ver também Gl 2:20; 2Pe 1:4) . O prólogo deste evangelho já havia dito isso: os que receberam Jesus nasceram da vontade do Espírito. O novo nascimento significa essencialmente o que comumente se chama de regeneração – o milagre de Deus em transformar o coração ímpio e um coração obediente e verdadeiramente adorador (Dt 30:6; Jr 31:33; Ez 11:9; 36:26;; 2Co 3:3, 6, 14-17; 5:17; Tt 3:5).

A questão de Nicodemos não é uma falta de entendimento da metáfora. Um rabino jamais seria tão ingênuo em pensar que Jesus estava falando de renascer em termos literais, de um adulto retornar ao ventre da mãe. O que o fariseu fez foi acompanhar Jesus em sua metáfora, declarando não saber como renascer, que não era possível fazer-se novo, romper com um passado perverso e começar uma nova vida. Tão impossível quanto um homem voltar ao útero de sua mãe é o homem mau reconciliar-se com Deus e começar tudo de novo. Nicodemos fala a verdade aqui. Nenhum homem pode, por ele mesmo, nascer de novo. Assim como o homem não faz esforço algum quando nasce, mas sai do ventre pela força de pessoas externas, também não é o homem que faz qualquer coisa para nascer do alto. O novo nascimento é obra de Deus somente, de sua benevolência e graça.
   
É precisamente esse o argumento de Jesus. O renascido não realiza isso de seu esforço ou de uma obra humana, mas é nascido de Deus, espiritualmente. Quem entra no Reino de Deus é quem nasce da água e do espírito, referências à purificação e à regeneração. A água não deve ser entendida aqui como o batismo, visto que esse sacramento não é agente para a salvação, mas sim um sinal externo do pertencimento ao povo de Deus. É uma metáfora para a purificação, que é uma das consequências da regeneração. E é adequada, visto que desde a Lei é a água que purifica cerimonialmente (Nm 19) e permanece na linguagem do Novo Testamento (Ef 5:26; Tt 3:5). Esse nascimento espiritual é tão real e concreto quando o nascimento carnal. Quem nasceu apenas do útero humano é um homem comumente carnal, mas quem nasceu do Espírito é um homem espiritual (1Co 2:14-16). Sendo o novo nascimento espiritual, não é absurdo que ele seja possível. Jesus compara o nascido no espírito com o vento. Em grego, a metáfora é mais intensa, porque o mesmo “pneuma” significa vento e espírito. Há duas aplicações dessa comparação: primeiro, a soberania de Deus na regeneração. O vento, ou Espírito, sopra onde quer, e em sua vontade é insondável e incontestável (1Co 2:11, 15, 16; ver também 14:11). Isso responde à objeção de Nicodemos: que não depende do homem esforçar-se para nascer de novo, mas da vontade soberana do Espírito (Rm 9:15-18). A segunda aplicação é que o resultado das obras do Espírito é perceptível por meio do fruto espiritual nos cristãos (Mt 7:15-20; Gl 5:16-25; Ef 5:9; ver também o capítulo 15 deste evangelho). Dessa forma, é possível aceitar que o novo nascimento existe. Logo, duas coisas “acontecem aos nascidos do Espírito” no que tange às características da regeneração: são renascidos pela soberania de Deus e para se assemelharem a ele.

Portanto, no princípio da evangelização de Jesus, o leitor deve notar duas características esquecidas pela pregação contemporânea: enfatizar a soberania de Deus de forma monergística e proclamar a necessidade primária da regeneração para a recepção da vida eterna. Deve-se levar em conta que o homem que Jesus evangeliza é um fariseu altamente instruído nas bases bíblicas e intelectualmente pronto para a linguagem de Jesus; mas, ainda assim, é menos que um bebê na fé cristã, e precisa lidar, como todo aquele que busca a mensagem de Deus, com essas doutrinas comumente consideradas pelos preguiçosos como difíceis demais ou desnecessárias.
           
As Escrituras e a fé (9-15)

Nicodemos pergunta novamente como tudo isso pode ser verdade. Seu coração ainda estava duro para acomodar seu entendimento à verdade da regeneração. Pela reposta de Jesus, fica claro que a limitação de Nicodemos não é intelectual, mas sim em fé. Ele pode entender toda a lógica e as proposições e metáforas sobre o novo nascimento, mas ainda resiste a crer; devolve o assunto com mais dúvidas, esperando que haja algum argumento capaz de, por si mesmo, convencer seu espírito. Jesus, porém, censura sua falta de entendimento. “És mestre em Israel e não entendes?”. Isso não faz crítica, como estamos insistindo, à sua inteligência lógica, mas sim ao seu mau uso do conhecimento das Escrituras. Um rabino sabia de memória centenas de textos do Antigo Testamento; como não compreende que o novo nascimento é uma promessa bíblica? Não é sem razão que Tiago ensina que os mestres serão cobrados com maior rigor (Tg 3:1). Jesus passa, após censurar Nicodemos, a falar sobre si mesmo, suas credenciais para, com justa autoridade, afirmar a verdade do evangelho; e, em seguida, dá prosseguimento à pregação.

Cristo veio do céu. Ele estava com o Pai, partilhando da divindade e sabe perfeitamente aquilo que diz. Ele diz “nós testemunhamos”; é difícil definir quem mais é parte do “nós”. Pode ser quaisquer das testemunhas que João relata no capítulo 5. João Calvino sugere que Cristo fala de si juntamente aos profetas bíblicos, que Nicodemos tanto conhecia. Embora fale do que viu em sua eterna e insondável onisciência, os homens não recebem a mensagem. Os olhos do Senhor veem claramente o novo nascimento, pois ele é Deus onisciente e infinitamente sábio, mas a dureza do homem não lhe permite crer. Eis o problema: o homem que não nasceu de novo não pode crer que possa nascer de novo, pois a regeneração antecede a fé. Ninguém pode crer em Deus se não tiver seu entendimento e sua vontade restauradas por ele. A descrença é, portanto, o natural do ser humano, e ele é justamente responsabilizado por Deus por esse pecado. Além disso, Jesus apenas falou de coisas terrenas – isto é, comparações simples com elementos do cotidiano que afetam os sentidos e os hábitos. A ênfase do contraste entre coisas terrenas e celestiais não é no conteúdo da doutrina, pois todo ensino do evangelho é naturalmente celestial; mas recai sobre a linguagem que Jesus usou. O que temos dito até agora, e muito mais que não foi dito, foi resumido por Cristo em poucas frases simples, as quais usaram “coisas terrenas” para ilustrar as verdades celestiais. Por essa razão, ele comparou o vento com o Espírito, e falou da regeneração espiritual como um novo nascimento. Se nem com tão simples proposições Nicodemos pôde crer, quão embaraçada será sua mente quando Jesus Cristo falar em linguagem complexa e dogmática?
   
Após essa repreensão, Jesus começa a entrar na essência do evangelho de forma mais direta. Ele sempre existiu no céu e de lá veio ao mundo como homem – a necessária doutrina da pré-existência de Cristo. Ao dizer isso, Jesus estava ousadamente se proclamando como Deus encarnado. Diz ele que ter sido o único a subir ao céu. Deve-se excluir da semelhança com Cristo a ascensão de Elias e Enoque. “Subir ao céu” tem aqui outro sentido, visto que Jesus não havia ascendido literalmente ao céu até esse momento. O que ele tem é pleno acesso aos mistérios e verdades celestiais. Além disso, ele seria o único a realmente subir ao céu após sua ressurreição, e se assentaria à direita do Pai como ninguém jamais fez. Logo, todo aquele que deseja entrar no céu deve apoiar-se em Cristo somente. Aquele que conhece toda a verdade celestial também desceu até a condição humana, veio do paraíso à terra. E, embora tenha descido, esse “filho de homem” deveria ser levantado à vista de todos, para que todos os que nele cressem tivessem vida eterna. O levantar de Cristo é mencionado mais algumas vezes neste evangelho e sintetiza em si a verdade da humilhação e da exaltação de Jesus. Quanto a isso, o Senhor se compara à serpente de bronze que Moisés fez no deserto (Nm 21:8,9). Deus havia decretado, na ocasião, que todos aqueles rebeldes que olhassem para a serpente fundida, confiando na palavra de Deus, seriam curados do veneno das serpentes reais. Semelhantemente, Jesus seria posto publicamente para que todo o que olhasse para ele com fé fosse salvo da morte e sanado do veneno do pecado. Ora, aqui Cristo usa um texto da Escritura como um sinal de si mesmo. Isso, naturalmente, atiçaria o raciocínio do rabino, e é também essencial na hermenêutica e na pregação. Ninguém, na Bíblia, fala sobre Jesus sem usar a própria Bíblia. Que isso sirva de exemplo.

Como Cristo salva (16-21)

Deve-se tomar especial cuidado com essa próxima sessão, especialmente em vista dos abusos que ela tem sofrido nas mãos de pregadores precipitados e descuidados. Não é raro encontrar o costume de recitar o versículo 16 isoladamente, de conscientemente insistir que ele é um resumo de todo o evangelho, que é o versículo mais importante da Bíblia e que ele é, inclusive, a principal e primeira afirmação que se deve fazer em pregações evangelísticas. Nada disso resiste a uma análise hermenêutica criteriosa e a uma compreensão holística das Escrituras. A enorme popularidade exclusiva desse versículo encontra base na distorção da cultura de nossas décadas, que, como muitos tem notado corretamente, reduziu Deus à proposição do amor e lançou ao mar do esquecimento sua ira, sua soberania e sua justiça. Não são necessários tantos argumentos; basta ver como Jesus usou esse versículo – ou melhor, como ele não usou. Ele não começou a evangelização de Nicodemos com ele, mas o colocou justamente no princípio do fim, de sua conclusão, na última sessão. Isso não foi por acaso, mas sim porque o amor de Deus só tem sentido em face das doutrinas expostas antes: que o homem não entra no céu em sua condição natural, mas apenas regenerado; que não crê na pregação a menos que o Espírito lhe abra o coração; que não pode pretender chegar ao céu se não for em Cristo; que, por fim, Cristo desceu do céu para dar ao homem a subida. Somente então o amor de Deus é exposto sem vieses errados. É ridículo pensar que o homem pode abraçar o amor de Deus sem antes perceber a sua miséria, sua urgente necessidade dele. Obviamente, Jesus não usou apenas esse versículo e deixou Nicodemos a meditar por si mesmo. Ele gastou tempo ensinando diversas coisas que compõem o evangelho, às quais os pregadores contemporâneos não se dão ao trabalho. Por fim, o amor de Deus, mesmo na última sessão, não foi apresentado sem contexto. Que tipo de examinador tomaria o versículo 16 como supremo e ignoraria o versículo 18, a não ser que tivesse interesse em acobertar a doutrina da condenação e da ira? Assim, toda a pregação de Jesus perfeitamente elaborada tem sido violada pela preguiça e pelo comodismo de infantes ávidos por serem justificados pelo número de ouvintes que se comovem ante o “amor” de Deus, que rasgam o texto, trituram a hermenêutica e dizem com suas ações que tudo o que Jesus disse é inútil, a não ser o versículo 16. Eis a ironia desse pecado: aquele que deseja enfatizar tanto o amor de Deus a ponto de esquecer a sua ira para a evangelização, devido ao medo de que a doutrina da ira seja tão terrível que afaste os ouvintes da fé, demonstra ser ele mesmo amedrontado por tal doutrina diante da qual não consegue olhar com confiança e destemor; e, em outro lugar, o mesmo apóstolo diz que “aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1Jo 4:18) – justamente esse amor tido em tão grande estima. A conclusão é: se alguém fala tanto do amor porque não se agrada da verdade da ira prova, na verdade, ser ignorante a respeito desse amor. Encerrando esse parêntese: dissemos essas coisas não para diminuir a importância do belíssimo versículo 16, mas sim para aumentar a de todos os outros versículos igualmente belos, e para exaltar o esplendor da consistência da mensagem do Senhor.

O que, então o versículo 16 significa? Que o decreto de Deus explicado anteriormente – que todo o que olhasse para Cristo com fé seria salvo - vem do eterno e imutável amor de Deus. Deus amou a humanidade de tal forma – isto é, com a mesma forma com que amou os que se rebelaram contra Moisés no caso das serpentes –, embora ela não mereça e seja rebelde contra Deus constantemente, que deu a ela o seu Filho Unigênito. Ele sacrificou seu único Filho gerado a fim de trazer órfãos para sua família. O santíssimo Deus teve tal amor por perversos e alheios que enviou seu perfeito e divinal Filho como resgate por eles. Não há causa para o amor de Deus; ele é eterno e a causa última. Todo aquele que crer no Filho Unigênito terá a vida eterna. Deus não desejou que a morte continuasse reinando, como tem sido desde Adão. A morte separa o homem de Deus, mas, através da fé no Filho, o amor de Deus é selado e a vida eterna em comunhão fica irrevogável. O princípio da salvação pelo Filho encarnado é o amor incondicional de Deus, não qualquer obra humana ou tentativa da criatura. “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4:19). Como diz Paulo, nada pode nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus, isto é, o amor pactual. Não há base aqui para pensarmos em expiação ilimitada; o mundo que Deus amou contempla os eleitos em todo o mundo e o resto da criação caída, e não todas as pessoas do mundo. O mundo merece a ira de Deus e, se ele enviasse um representante, seria esperado que viesse em julgamento para o “terrível Dia do Senhor” de que os profetas falam. Mas a graça de Deus ainda não trouxe esse julgamento; antes, enviou o seu Filho para salvar o mundo. Essa é a missão de Jesus na terra: salvar, não condenar. Essa mensagem prepara o ouvinte para saber que Jesus não virá como o rei grandioso que “governa as nações com cetro de ferro”, mas sim como um sacrifício substituto para aplacar a ira de Deus, salvando assim os pecadores. O dia do julgamento virá, mas não antes da mais plena e maravilhosa manifestação do amor de Deus, a missão do Filho como homem. A condenação somente continua para aqueles que recusam essa oportunidade magnífica da salvação pelo Filho. Aqueles que não creem no Filho de Deus, apesar de toda a sua missão salvífica como o manso Cordeiro, continuam em condenação. Por essa razão, Jesus faz tantos milagres e tantas maravilhas, inclusive a sua ressurreição – para dar aos homens todas as provas de que ele é o Cristo, Filho de Deus. Quem continuar sem crer, mesmo depois de tudo isso, está condenado por Deus com justiça. É necessário nascer de novo para entrar no Reino dos céus porque somente os regenerados podem exercer a fé, que é o meio pelo qual se recebe a salvação. Deve-se partir do princípio que todo homem não crê e, por isso, está condenado. Então, compreende-se que Jesus veio salvar o mundo, especificamente aqueles que nele creriam. Cristo veio salvar todos aqueles a quem ele mesmo concederia fé salvífica e deixar os outros em seu estado natural – a condenação.

  Os condenados e os fiéis são comparáveis a trevas e luz. Jesus era a luz do mundo, mas os homens amaram mais as trevas. Quando ele diz “Este é o julgamento”, esclarece que é pelos seguintes critérios que os homens serão julgados: aqueles que amaram as trevas e rejeitaram a luz de Cristo estão sob condenação, ao passo que os que foram cativados por sua luz e o amaram estão na condição de salvos. E quais os motivos pelos quais os homens amam trevas ou luz? Ora, as trevas ocultam a maldade dos homens; eles acham que podem praticar o mal em segredo, por trás de uma proteção, um manto de justiça própria, uma máscara. A luz os ofende porque revela o mal escondido no coração, clarifica cada recanto da alma perversa e expõe à vergonha toda maldade para que seja extirpada. Em vez de arrependimento e humilhação, os homens preferem a intransigência de seu orgulho, e abrigar em segurança os seus pecados – como se fosse possível. Quiseram continuar com a sensação de serem deuses. Entretanto, dá-se o inverso com aqueles que nasceram de novo. Estes são praticantes da verdade, creem no verdadeiro Filho de Deus e nele se refugiam. Sabendo que não há nada de bom neles, mas somente em Deus, eles se achegam à luz de Cristo, para que as obras que Deus efetua neles sejam manifestas diante do mundo. Não precisam construir uma muralha em torno de seus atos vergonhosos, porque sua vida e sua fé estão no Filho de Deus. Seu desejo não é esconder seus pecados, mas confessá-los, e mostrar para o mundo a luz de Deus refletida em suas obras, não para glória própria, mas para a glória de Deus. É assim que Jesus explica os resultados de alguém ser condenado ou ser salvo: não é apenas uma declaração judicial de Deus, mas uma realidade que ele opera nas almas dos homens.


 A conversa entre Jesus e Nicodemos acaba aqui. O fariseu desaparece da história, apenas para ser mencionado novamente na Festa dos Tabernáculos, defendendo Jesus dos outros fariseus, e no sepultamento dele, levando especiarias para honrar o seu corpo. Isso deve indicar que Nicodemos creu em Jesus, ou, pelo menos, admirou-o muito.

André Duarte

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Arrebatamento: um entendimento deixado para trás...


           

            Nos últimos anos, tem crescido o número de crentes que acreditam em um arrebatamento pré-tribulacionista. Parte da causa tem sido o sucesso da herege história “Deixados para Trás”, uma obra de péssima hermenêutica do Apocalipse, mas que tem sido considerado canônico por muitos crentes que pouco compreendem sobre o ensino escatológico bíblico. Outra parte, eu penso, é a mentalidade secularista contemporânea que idolatra o conforto e repercute nos axiomas cristãos como triunfalismo e entendimento imediatista da graça.
           
Com a expressão “arrebatamento pré-tribulacionista”, refiro-me ao dogma de que os cristãos serão arrebatados antes da perseguição do Anticristo. Um possível adorno ainda mais errado a esse dogma é que somente os cristãos “realmente santos” serão arrebatados, os “crentes carnais” não. Bem, crentes carnais não existem. Jesus é indivisível (João é o maior defensor disso), e não é possível alguém aceitá-lo como Salvador e não como Senhor. É possível que um crente aja como se fosse carnal excepcionalmente, mas não que tenha uma vida marcada por carnalidade. Todos os verdadeiros cristãos são salvos e participantes da graça de Deus.
           
De qualquer forma, os crentes não serão poupados da perseguição promovida pelo chamado “Anticristo”. Não há um só texto na Bíblia que afirme o contrário, enquanto há muitos que confirmam isso. Creio que parte da incompreensão advém de um entendimento confuso sobre as maldições do Apocalipse. Acho que muita gente não sabe separar o que é perseguição do Anticristo e o que é praga de Deus contra o mundo ímpio. Veem todos os fenômenos horríveis do Apocalipse e pensam “credo, claro que eu terei sido arrebatado antes disso”. Verdade. Quando Deus executar sua punição final sobre o mundo, os cristãos já estarão no céu, livres da ira. Apocalipse 7 fala sobre o selo de Deus sobre os seus santos, os quais não sofrerão as pragas. Daniel 7 é um texto que organiza bem o pensamento: o rei ímpio perseguirá os santos, depois o Filho do homem voltará, destruirá os perversos e todos os fiéis reinarão com ele para sempre.
           
Mas a perseguição do Anticristo é outra história. Ela virá e será necessária antes do arrebatamento e antes das pragas de Deus. Quem acha que está tudo bem, que será arrebatado e vai ficar em paz, bem, terá uma desagradável surpresa. Ora, a Bíblia está o tempo todo falando de perseguição contra os santos. Os salmos são cheios de imprecações. Os profetas afirmam isso em muitas circunstâncias. Jesus repete isso sempre. E não podemos achar que todas as perseguições da Bíblia são só para aquela época. Veja: os profetas foram perseguidos e mortos pelos israelitas ímpios. Os judeus do Império Grego foram perseguidos por Antíoco IV, conforme as visões de Daniel. Os cristãos foram perseguidos pelos judeus. Depois, em Jerusalém, foram perseguidos pelos romanos quando a cidade foi destruída. No tempo de João, havia perseguição romana da parte do imperador Domiciano. E cada profeta via no grande imperador da época uma figura do Anticristo e o fim do mundo vindo imediatamente depois. E de nenhum desses grandes vilões os fiéis foram poupados. Todos foram perseguidos até que Deus vingou o sangue deles.
           
Por que, eu pergunto, os cristãos do fim dos tempos, do grande julgamento e do cumprimento pleno da representação anticristã seriam poupados? Por que nós, crentes medíocres, receberíamos esse livramento que foi negado aos grandes exemplos da Bíblia? Deus resolveu dar um surto de bênção? Acho mais sensato presumir que foram os crentes quem esqueceram o seu lugar, o que é necessário para entrar no Reino do céu. Historicamente, a Igreja sempre compreendeu que haveria perseguição nos últimos tempos. A crença de que seremos arrebatados antes da perseguição é muito recente, quase tão recente quanto o secularismo a que estamos acostumados. Sei que muitos estão prontos para serem perseguidos no caso de haver algum tipo de veto à liberdade cristã. Mas a situação é mais séria. A perseguição aos cristãos não é uma hipótese, e sim uma certeza. E será a maior de todas.
           
Perdemos a noção do que é sofrer por Cristo. Pensamos que o máximo de perseguição que veremos é a perda de amizades, receber uma injúria aqui e ali. Infelizmente, uma grande massa da Igreja não está pronta para ser perseguida da maneira terrível que será quando o filho da antinomia vier (2Tessalonicenses 2:3). Será alarmante o número de apostasias. Não temos ideia do que é a sensação descrita em Atos 5:41 – “alegres por serem considerados dignos de sofrer por Cristo”. A maior parte da Igreja não é treinada para suportar perseguição, para considerar Jesus o seu único bem. Ouvimos o tempo todo mensagens de vitória, conquista e bênção. Sim, temos vitória, conquista e bênção, mas totalmente distintas daquilo que o padrão mundano considera como tais. Veja, Jesus diz, em seu discurso escatológico, que os dias de tribulação serão abreviados por causa dos eleitos (Marcos 13:20). Não significa que os eleitos não participarão deles, mas que Deus, por sua fidelidade e compaixão, não permitirá que a perseguição seja tão intensa que ninguém suportará – como provou em toda a história. Seremos perseguidos, mas venceremos, assim como Cristo sofreu, morreu, mas ressurgiu em triunfo.
           
            André Duarte
                       
           

             
           

domingo, 27 de janeiro de 2013

Tota scriptura



            “Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Timóteo 3:15-17).
           
Uma das maiores conquistas da Reforma foi o dogma da “sola scriptura” – que somente as Escrituras são o cânon da fé cristã, não tradições e leis humanas. Somente a Bíblia contém a revelação necessária para a vida cristã, o conhecimento de Deus e a sabedoria na justiça. Apenas a Bíblia é infalível e inerrante para nos ensinar acerca de Deus. Além disso, a Bíblia interpreta a si mesma. Não há uma pessoa com poderes divinos capaz de dar a interpretação canônica da Bíblia – ela explica a si mesma. Todo ensino precisa derivar da Bíblia para ser considerado procedente da vontade de Deus.
           
A face complementar da “sola scriptura” é a “tota scriptura” – TODA a Escritura. Significa que a Bíblia não pode ser fracionada em textos mais ou menos canônicos ou necessários, nem deve a compreensão e o estudo serem parciais. Não é só “a Escritura” vagamente, mas toda ela, completa. Não é a parte que você gosta de ler e entende com facilidade + a parte que você deixa pro seu pastor ensinar, se ele achar relevante. Como eu disse, a Bíblia interpreta a si mesma. Isso significa que não é possível assegurar-se de uma interpretação de um texto particular se todos os outros não forem conhecidos. Afinal, como você saberá se a sua interpretação condiz com todo o resto? Não adianta orar para que o Espírito o ajude a entender se a resposta dele é “Primeiro passo é acabar de ler tudo”.
           
Um breve testemunho: sempre ensinaram-me, desde criança, que a Bíblia era a Palavra de Deus e que toda a fé deve ser firmada nela. Comecei a desejar ler a Bíblia aos 8 anos, quando me batizei e fiquei naquela empolgação. Li os 4 evangelhos rapidamente, depois li Atos (numa viagem de carro pra São Paulo, quando eu estava fazendo 9 anos) e cheguei em Romanos. Não gostei do estilo literário. Para mim, textos narrativos eram bem mais legais do que textos cheios de doutrina. Parecia um monte de ensinos óbvios (embora eu perceba agora que eu não estava entendendo nada, era apenas uma mente de criança). Deixei a Bíblia pra lá, achei que já tinha dado. Depois, ainda aos nove anos, tive o tal “encontro com Deus”, voltei a ficar empolgado e resolvi ler de novo a Bíblia. Dessa vez, comecei no Gênesis, pra ver se eu encontrava coisas mais legais. Gostei muito das histórias, cheguei no Êxodo, adorei a história de Moisés e aí começou a interminável descrição do tabernáculo... de novo, parei, larguei pra lá e só recomecei a ler seriamente aos 13 anos (por um motivo errado, ganhar uma garota :P) e, bem, não parei mais. (Sorry, não foi tão breve)
           
Por várias vezes, em meus longos intervalos, eu me perguntava se não deveria voltar a ler. E eu me respondia com a seguinte ideia: “Bem, talvez eu não precise realmente ler tudo. Afinal, eu tenho minha família e minha igreja. Certamente eles já aprenderam tudo o que há de importante na Bíblia e, se eu estivesse fazendo alguma coisa errada, eles me falariam”. Na minha infantilidade, eu não tinha ideia de que a Bíblia e os adultos crentes poderiam estar em desacordo, e nem que os adultos crentes também negligenciavam a tota scriptura. Essa ideia era a única desculpa que eu tinha para não ler. Talvez a Bíblia fosse coisa de gente grande. Eu só precisaria da educação cristã heterônoma...
           
Não faço a menor ideia do motivo da “gente grande” não estudar a Bíblia toda. Não creio que a “gente grande” seja tão ingênua quanto eu era quando criança. Não sei quais são as desculpas. O que eu observo é que, por alguma razão, as pessoas têm textos favoritos da Bíblia – os realmente belos e importantes – enquanto a maior parte é chata. Sim, chata. Somente teólogos – os nerds crentes – se interessariam. Não sei se devo apelar às emoções e lembrar quantos litros de sangue foram derramados para que a Bíblia estivesse no seu idioma, para que você pessoalmente pudesse ler. Quantas vidas foram sacrificadas pelo ideal do livre exame. Para muitos que colocam “protestante” no facebook e se dizem evangélicos, não faria a menor diferença se a Bíblia ainda fosse propriedade exclusiva dos clérigos e ensinada em latim.
           
A grande ironia vem em cima do salmo 119. Um dos salmos mais belos da Bíblia é alvo de piadas. Dizem que é um salmo muito grande, e dá preguiça de ler. Bem, em primeiro lugar, sua extensão tem um propósito artístico. Ele é um enorme acróstico. Cada grupo de 8 versos começa com a mesma letra do alfabeto hebraico, e assim os grupos de sucedem na ordem alfabética. 22 letras do alfabeto hebraico vezes 8 resulta nos 176 versos. E cada um dos versos fala sobre o grande prazer da lei de Deus, a delícia de sua palavra, a perfeição dos seus ensinos. É o salmo metalinguístico da Bíblia, o maior e mais belo texto em que a Bíblia fala sobre a própria Bíblia. Pensem que o compositor exaltou a Palavra de Deus de 176 maneiras diferentes, seguindo uma lógica artística e poética, uma grande obra prima. Mas, para muitas pessoas, é apenas um salmo grande e chato.
           
A alegação da extensão da Bíblia revela uma grande incoerência. A Bíblia não é nem um pouco extensa, se comparada a outros livros. Muitos crentes leem a série Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Crônicas de Nárnia, Crepúsculo... e acham a Bíblia muito grande. O conjunto de livros que uma pessoa lê em cada ano do Ensino Médio é bem maior que a Bíblia. Onde ficou a ideia de que a Bíblia é o livro primordial? Por que ler autoajuda se a Bíblia conforta e ensina? Por que ler romances e negligenciar a história mais heroica que já existiu, a vida de Cristo? Por que ler tanta matéria científica e se esquecer de que o logos do universo é uma pessoa, Jesus?
           
A Igreja foi arrebatada pelo secularismo. A leitura da Bíblia foi renegada à tarefa mais chata das obrigações humanas, quando deveria ser considerada o maior prazer e privilégio. Que bom seria se os homens conhecessem melhor a Bíblia do que os games, melhor a vitória do Cordeiro do que as vitórias do seu time de futebol. Passassem mais tempo exercitando a alma do que os músculos. Que as mulheres compartilhassem mais dicas de beleza no espírito do que de maquiagens (1Pedro 3:3,4), que conhecessem mais os ensinos bíblicos do que os novos modelos de Iphone. Que os pais observassem melhor o quanto seus filhos têm se dedicado a estudar a Bíblia do que em vigiar suas notas na escola. Que os filhos procurassem seus pais mais para compartilhar a Escritura do que para pedirem pra ficar fora até tarde no fim de semana à noite. Os frutos do conhecimento da Bíblia são eternos e perfeitamente eficazes e puros na vida presente também. O maior tesouro que Deus colocou para os homens é a sua revelação na Escritura.
           
A Escritura é perfeita para ensinar as boas obras. Ela clareia o caminho da virtude. Ela prova a necessidade da humildade. Ela acusa você dos seus pecados e aponta o caminho do perdão pelo Senhor Jesus. Ela dá sabedoria para diversas questões da vida. Ela ensina o correto desempenho de todos os papéis sociais. Ela conforta o atribulado e atribula o confortado. Ela dá acesso e concretude ao Deus transcendente. Ela protege a Igreja das heresias, tão alarmantes na espiritualidade decadente de hoje. Ela é a defesa contra o diabo. Ela mostra a vereda para a vida eterna. Ela é a instrução da bem-aventurança. Ela mostra o que realmente importa na jornada da vida. Ela ilumina, abre a visão, amplia o entendimento. Ela conduz à adoração. Não partes dela, mas toda ela. Sim, toda ela, inclusive os textos que você não gosta. As genealogias, as descrições do tabernáculo e do templo, os detalhes sobre os tipos de sacrifícios, os recenseamentos, as batalhas sangrentas, os lamentos proféticos, as listas de cidades, as cartas minúsculas, as filosofias de Eclesiastes, as cerimônias de Números, cada profeta, cada história, cada personagem, cada carta, cada martírio, cada visão mirabolante, cada um dos livros é posto com um propósito por Deus nas suas mãos, o propósito de se revelar e de ser, através do estudo do texto, adorado e amado. Jonas é mais do que aquele cara que foi engolido pela baleia. Daniel fez mais do que sair da cova dos leões. Davi ensina mais do que como matar gigantes com uma funda e uma pedra. Abraão é mais do que um velho barbudo, Adão significa mais do que um cara pelado e bobo, Moisés apenas começou seu legado quando tirou Israel do Egito. Jesus...
           
A maior sacada de Martinho Lutero sobre a Escritura é que ela é inteira sobre Jesus. Ela não é um amontoado de dogmas abstratos, de regras morais, de bons exemplos ou de histórias inspirativas. Ela é um testemunho sobre a mais precisa e gloriosa revelação do Deus invisível – a sua perfeita imagem, seu Filho. Ora, Jesus Cristo é chamado de “Palavra de Deus” por João. Ele é o logos divino. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, significa que ela deve ser o próprio Jesus Cristo posto em letras. O que torna a Bíblia Palavra de Deus é justamente o seu testemunho constante sobre o centro da fé, Jesus. Por conseguinte, um conhecimento deficiente da Bíblia significa um relacionamento incompleto com Jesus. A estagnação no conhecimento bíblico leva à estagnação no casamento com o Cordeiro – e o mundo sabe como os casamentos estão sujeitos ao enfado da mesmice. Fazendo essa analogia, que tal tentar coisas diferentes no casamento? Por exemplo, estudar textos bíblicos novos? Meditar neles de uma forma diferente? Estabelecer uma nova rotina, ou roteiro de meditação, ou o que for?
           
Não há limites no que se pode chegar ao estudo da Bíblia. Sempre estamos aprendendo mais e amadurecendo na adoração. A única maneira de alguém achar que já sabe o suficiente é parando de ler, e essa pessoa estará tão enganada quanto alguém que nem conhece o evangelho.

André Duarte

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Quem é Satanás 3 - Suas armas

          
           Este é o meu último post da minha série sobre Satanás, embora não esgote o assunto. No post anterior, enfatizei a alta limitação das ações do diabo. Não quero correr o risco de parecer negligente quanto à sua importância e, agora, exporei a maneira como Satanás atinge aqueles que não pertencem à sua autoridade. Sistematizarei em três atos: tentação, acusação e heresias.
           
O termo “satanás” não é apenas o nome próprio de um anjo. É uma palavra hebraica que significa “inimigo” ou “acusador”. A palavra “diabo” significa “caluniador”. Por toda a Bíblia, vemos que a dinâmica celestial é comparada a um tribunal. Nesse tribunal, o ser humano é o réu, Satanás é o promotor, Jesus é o advogado e Deus é o juiz. O nome Satanás associa-se com essa função de promotor. Mas, para que a acusação dele tenha fundamento, ele faz também o papel de tentador. A tentação é o ato de Satanás que visa a obter os resultados que subsidiem sua acusação diante de Deus. E é Deus quem determina a situação da tentação. Como diz a oração do Pai Nosso, literalmente no grego, “e não nos induzas à tentação”. Veja 1Reis 22, em que Deus pede a um dos seus anjos que engane o rei Acabe para que ele morra na guerra. Mas, de acordo com Tiago, Deus não realiza diretamente a tentação e não pode ser culpado por ela (Tiago 1:13).
           
O primeiro exemplo de tentação é o Éden. Embora Satanás não esteja mencionado no texto, sua atuação é deduzida devido à sua constante prática de tentar os homens no resto da Bíblia. É difícil compreender exatamente quanto da tentação vem do diabo e quanto vem da própria pessoa – pois, no texto supracitado, Tiago diz que “cada um é tentado pelo seu mau desejo” (Tiago 1:14). Satanás coopera para enganar o homem, induzindo-o a fazer o que ele quer apesar da lei de Deus. Há muito o que falar sobre a situação no Éden, mas é interessante notar que a serpente não diz mentiras explícitas para enganar Eva. É sua maneira de dizer que induz dolosamente a uma compreensão errada sobre Deus. Ao fazer isso, o diabo retira a palavra de Deus semeada no coração da pessoa (Marcos 4:15). Outro exemplo de tentação, mas que não funciona, está na história da tentação de Jesus no deserto. O diabo apelou para maus desejos que poderiam ocorrer em Jesus, mas o Senhor resistiu pela palavra de Deus. Satanás inclusive usou a própria Bíblia para levar Jesus a pecar, porém o Senhor era a própria Palavra encarnada e não seria enganado. Entretanto, Jesus foi o único a “em tudo ser tentado, porém sem pecar” (Hebreus 4:15); com os outros homens, não é assim. Construindo um conceito novo condizente com o real desejo perverso, o humano peca, e o diabo encontra suas “provas” para levar a Deus.
           
Então, vem a etapa da acusação. Satanás, uma vez tendo feito o humano pecar, vai acusá-lo de pecado diante do juiz. A sentença de Deus determinará o que ocorrerá com o réu. O inferno não é uma opção para aqueles de quem Cristo é advogado. Nem mesmo a ira de Deus. A punição divina pode ocorrer, mas com o caráter de disciplina, não de destruição. Deus pode decidir perdoar também. Vejamos alguns exemplos em que Satanás faz a acusação: em Zacarias 3, o diabo acusa o sumossacerdote Josué e o anjo do Senhor apela para a repreensão de Deus, que decidiu perdoar e exaltar o seu réu. Em Apocalipse 12:10, a derrota do diabo é expressa pelos santos como “caiu aquele que acusava nossos irmãos dia e noite”. Há o exemplo de Jó, que já foi visto. Como os exemplos mostram, bem como os princípios, Satanás leva a acusação a Deus, que decide o que vai acontecer. A teoria da “brecha” é errada. Explicaram-me, quando eu tinha 11 anos, em um acampamento, que o pecado faz uma brecha na muralha de anjos ao meu redor, e o diabo pode entrar por essa brecha e fazer a festa que quiser. Nessa teoria, Deus é apenas um figurante. Como eu disse no post anterior, Satanás não tem essa liberdade contra os crentes. É Deus quem determina a sentença, e a única iniciativa do diabo é a de fazer a petição.
           
Abrindo um parênteses para fazer uma constatação. Onde Satanás e os demônios atuam? Mais ou menos por volta do século VIII, começou-se a imaginar Satanás no inferno, torturando os condenados e assentado num trono com o seu tridente. Essa imagem é adequada para Poseidon. Estranho é que até hoje muitos cristãos creem nesse mito. Pensam que Satanás é dominador do inferno. Aprendi essa mentira ouvindo Diante do Trono (III, faixa 4) quando criança (oh, God, why...). Até aqui, mostrei biblicamente que a atuação de Satanás é na terra, dominando sobre os descrentes e atacando os crentes, e no céu, acusando as pessoas diante de Deus (o que torna ainda mais estranha a ideia de que Satanás foi expulso do céu). Inferno é domínio de Deus, e não tem relação nenhuma com o poder do diabo. Satanás será lançado ao inferno no dia do julgamento, junto a todos os seus filhos e anjos (Mateus 25:41), mas ele não está lá na era presente.
           
Bem, vamos agora à terceira forma de Satanás atacar: heresias. Esse deve ser um dos seus maiores sucessos contra a Igreja. Inclusive, ele inventa heresias sobre ele mesmo, como todas as que eu estou expondo nesta série. O foco na adoração ao Cordeiro fica desviado pelas concepções erradas sobre o diabo. Mas, as heresias podem ser infinitas. Os falsos mestres são chamados anticristos por João (1João 2:22; 4:1-3) e associados ao diabo por Paulo (2Coríntios 11:13-15), também colocados contiguamente em Romanos 16:17-20. Heresias não são um problema superficial. As cartas nos chamam continuamente para resistirmos às heresias e aos falsos mestres. As cartas a Timóteo, as de João, 2Coríntios, Gálatas, Colossenses... 2Pedro e Judas são veementes e já supõem que as heresias não são mais um risco, mas uma realidade arrasadora. Inclusive, Pedro e Judas descrevem os falsos mestres como pessoas que difamam os anjos com injúria (2Pedro 2:10,11; Judas 8,9). Judas, usando a história da Assunção de Moisés, mostra que nem os próprios anjos dirigem-se com infâmia a Satanás. Não é interessante vermos por aí exatamente isso: pastores que xingam e enchem a boca de insultos contra Satanás e demônios? E não é triste que tão poucas pessoas conhecem esse ensino nessas cartas que quase passam despercebidas? Falsos mestres servem ao diabo, mesmo que proclamem o seu ódio contra ele. E eles são eficazes em destruir o conhecimento da verdade na Igreja.
           
Onde fica a tal guerra espiritual? Bem, se o diabo ataca dessas formas, nossa guerra deve ser contra elas. Não há guerra espiritual quando se trata de circunstâncias da vida, como doença, problema financeiro, problema familiar, drogas... não é nisso que Satanás está interessado. Devemos, sim, revestirmo-nos com a armadura de Deus (Efésios 6) para resistirmos à tentação, vencermos o pecado e rechaçarmos toda doutrina que se levanta contra o conhecimento e os mandamentos de Deus. O conhecimento bíblico profundo é fundamental.  Afinal, os falsos mestres usam a Bíblia para suas mentiras. Satanás, ao tentar Jesus, usou a Bíblia, como foi dito. Entretanto, usou um texto fora de contexto para adequá-lo ao mau desejo que ele queria despertar. Por isso, o padre Vieira diz que “Palavras da Bíblia fora de contexto são palavras do diabo”. Pouco conhecimento bíblico é terreno fértil para heresias. A Igreja precisa fundamentar-se nas Escrituras – não em partes da Escritura, mas em toda ela. Em breve, farei um texto sobre a importância da Bíblia inteira.           

            André Duarte

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Quem é Satanás 2 - Sua jurisdição




       Este é o segundo post da série sobre Satanás. No primeiro, vimos a questão controversa de sua origem, e eu expus por que Deus já criou Satanás mau. Agora, vou explicar a esfera do seu poder. O próximo e último post será sobre suas maneiras de agir.
           
Como eu coloquei no primeiro post, Deus e Satanás não são inimigos diretos, agindo pessoalmente um contra o outro. Satanás é um anjo de Deus que cumpre suas funções ordenadas. Mesmo assim, a Bíblia define o reino de Satanás como distinto do reino de Deus. O diabo é posto para governar sobre aqueles que rejeitam a autoridade de Deus, mesmo isso não sendo praticamente possível. Satanás é o anjo do pecado. Como diz João, ele vem pecando desde o princípio (1João 3:8a) e ele é pai e senhor sobre os escravos do pecado. Ele governa sobre o mundo ímpio e seu sistema (Lucas 4:6) e a obra de Cristo é transportar pessoas do domínio dele para o domínio direto de Deus (Atos 26:18, Colossenses 1:13). Através do sacrifício de Jesus e da perpetuação do seu evangelho, o poder de Satanás é subjugado (Hebreus 2:14, 1João 3:8b).

Temos de maneira clara na Bíblia que o domínio de Satanás é somente sobre os descrentes. Se um crente tem medo de que sua vida seja dirigida pelo diabo, está negando a obra do seu Senhor. Paulo repreende fortemente os colossenses devido ao medo que eles tinham dos demônios (Colossenses 2:8, 20 – a expressão “princípios elementares” refere-se a regras que, conforme os pagãos acreditavam, estavam sujeitas ao poder de demônios), pois Jesus Cristo já havia triunfado sobre eles na cruz (2:15). É comum vermos crentes atribulando-se em preocupações sobre a intervenção de Satanás em suas vidas. Essa atitude demonstra grande ignorância sobre o diabo e sobre o próprio Cristo. Pelo contrário, o decreto para os crentes é que “todas as coisas cooperam para o bem dos que amam Deus” (Romanos 8:28). Os passos do cristão são dirigidos diretamente por Deus, na jurisdição do seu Filho, Jesus Cristo. Satanás não tem poder nenhum sobre os santos. (E você não precisa lembrar Satanás do seu lugar quando estiver orando apaixonadamente)

Além disso, o domínio de Satanás tem relação direta com o domínio do pecado. Ele age devido ao pecado dos homens, instigando a rebelião contra Deus. Com isso, quero lembrar que ele o poder dele não tem nada a ver com marcas, grifes, objetos, alimentos, lugares ou tempos. A literatura pagã, que eu mencionei no post anterior, ensina a heresia de que, se um crente obtiver um produto supostamente associado com Satanás, é uma “brecha” para que o diabo bagunce sua vida. Ora, isso significa que o diabo tem mais poder do que Jesus. Afinal, se Jesus é o meu Senhor, mas eu ganho uma roupa consagrada ao diabo, Jesus fica incapaz de me proteger. Queridos, bitch, please, o governo de Jesus não tem brechas! Sua obra foi completa, seu poder sobre a santidade e sobre os seus fieis é absoluto. Se é necessário um esforço pessoal nosso por não se associar com objetos consagrados ao diabo para complementar a proteção de Deus, significa que a obra de Jesus é débil. O que Paulo ensinou aos coríntios mesmo? Capítulos 8 e 10, por favor. Ah, sim, podemos comer alimentos consagrados a ídolos (que Paulo associa com demônios, sim, no capítulo 10), porque eles não têm poder nenhum sobre a vida dos crentes. Pertencemos ao reino de Cristo, onde Satanás não nos toca. É claríssimo o ensino em 8:4-6: há um só Deus e um só Senhor, a quem pertencemos e sobre quem nenhuma outra entidade tem poder. O comércio de coisas consagradas é irrelevante para o nosso consumo, pois, no mesmo contexto, veja 10:25. Se você acha que a consagração de objetos ao diabo é eficaz para o seu domínio, está concordando com a fé dos satanistas, e não com a do evangelho.

O domínio de Satanás sobre os crentes é totalmente nulo. No próximo post, comentarei que tipo de ataques ele faz aos crentes. Mas, sobre os descrentes, ele governa. A posse do mundo descrente é do diabo. Entretanto, mesmo o domínio sobre os descrentes está debaixo da permissão de Deus. Retoricamente, todo mundo afirma o mantra de que “Satanás não faz nada sem a permissão de Deus”. Na prática, entretanto, a construção imaginária é a de que Deus está distante, apenas olhando, enquanto Satanás ferozmente apronta tudo o que quiser, até que Deus resolva se levantar e ordenar que ele pare (o que só acontece depois de orarmos muito e fazermos mil coisas, claro). O que a Bíblia mostra, entretanto, é que a permissão de Deus se dá de maneira expressa, e não omitiva.

Com relação aos descrentes, a Bíblia não dá exemplos. Há apenas um indício em 1Coríntios 5:5, que fala para a Igreja “entregar a Satanás” o pecador impenitente. Aparentemente, ao ser governado pelo diabo novamente, o excomungado sofre e deseja retornar à comunhão santa. O mesmo ocorre com Alexandre e Himeneu, que Paulo entrega a Satanás “para aprender a não blasfemar” (1Timóteo 1:20). Não há outros exemplos. Mas, pelas inúmeras declarações da soberania de Deus sobre todo o mundo, é óbvio que o domínio de Satanás sobre os descrentes não é totalmente livre e arbitrária. Com relação aos crentes, existem alguns exemplos. Um não muito claro é o de 1Crônicas 21:1. O texto paralelo em 2Samuel 24 diz que Deus se irou contra Israel e incitou Davi a realizar um censo. Em 1Crônicas, está escrito que foi Satanás quem fez isso. É um exemplo tácito em que Satanás age de acordo e subordinado à vontade de Deus.

Temos, no entanto, dois exemplos claros da permissão expressa de Deus. O primeiro, bem conhecido, é o de Jó. Satanás requisita a permissão de Deus para testar Jó, e Deus o permite, dizendo “só vá até este ponto”. É bem diferente da ideia comum de Deus “permitindo” simplesmente ao não fazer nada. O outro exemplo está em Lucas 22:31, quando Satanás requisita permissão para testar os discípulos de Jesus. Jesus diz que orou para que a fé de Pedro permanecesse firme. Mais uma vez, o diabo só realizou sua ação após pedir permissão e Jesus (ou o Pai, o texto não esclarece) a conceder.

Com essas explicações, quero mostrar que Satanás possui um reino onde ele age com liberdade subordinada, e esse reino abrange apenas os descrentes. Aqueles que se submetem a Jesus não são tocados pelo diabo. Também quero mostrar que as ações do diabo podem ser de iniciativa dele, mas necessariamente precisam passar pela sanção de Deus, com ou sem vetos parciais (concurseiros entenderão :P). O poder de Satanás existe, mas é limitado pela vontade de Deus, e disso os crentes não podem se esquecer. Não adianta responsabilizar Satanás pelo mal que acontece. Também não é certo pensar que existe guerra pessoal entre Satanás e Deus. Deus é o único soberano, aquele rege sobre o bem e o mal, e tudo procede dele. Satanás não deve ocupar um lugar central na vida cristã, ao contrário do que ocorre a muitos. Se um crente percebe o poder de Satanás com mais realidade e concretude do que o de Deus – um Deus distante e abstrato, que faz pouco mais que supervisionar –, deve retornar aos seus fundamentos e reavaliar sua fé.

André Duarte
             

domingo, 20 de janeiro de 2013

Quem é Satanás 1 - Sua origem




           Às vezes, acho que a palavra “satanás” causa o mesmo efeito que a palavra “sexo”: se você ouve ou lê, imediatamente dirige sua atenção, quase inconscientemente. Há grande interesse dos cristãos em Satanás – livros totalmente não bíblicos que falam sobre Satanás, como Filho do Fogo, Ele Veio Para Libertar os Cativos e Este Mundo Tenebroso vendem muito, fazem sucesso e são facilmente aceitos como canônicos, modificando toda a teologia. Existem muitos mitos sobre Satanás e, por esta série, quero redescobri-lo através das Escrituras. Uma maneira errada de compreender Satanás pode influenciar a maneira como entendemos Deus.
           
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a Bíblia revela bem menos sobre Satanás do que a complexidade dos credos que temos sobre ele. Por vezes, refletimos profundamente sobre toda a personalidade e biografia do diabo tanto quanto meditamos em Deus, o que é totalmente desproporcional à quantidade de informações que a Bíblia mostra. Há lacunas na Bíblia sobre diversos conceitos que, sem motivo, cremos a respeito de Satanás.
           
A crença em sua origem é um exemplo. Como estamos acostumados a pensar? A história clássica é a seguinte: Deus criou todos os anjos bons. Um deles, o mais poderoso, um querubim chamado Lúcifer, decidiu se orgulhar e tentou tomar o trono de Deus. Isso ocorreu antes de Deus criar o universo, antes do Gênesis. Deus então expulsou Lúcifer e um terço dos anjos, que haviam se unido em sua rebelião. Esses anjos se tornaram os demônios e Lúcifer abandonou esse nome e virou Satanás. Algumas pessoas ainda acrescentam o mito de que Lúcifer era um músico do céu. Bem, what if I told you... essa história não está na Bíblia? Na realidade, essa história tão viva no imaginário coletivo dos crentes é feita a partir de tradições sem fundamento e de textos recortados e colados fora de contexto.
           
Onde está o nome Lúcifer? Ele está na Bíblia? Como foi descoberto esse nome primitivo do diabo? Na verdade, Lúcifer é o termo latino que Jerônimo usou quando traduziu a Bíblia para esse idioma no texto de Isaías 14:12 – “estrela da alva”. Na época dele, já estava consolidada a interpretação de que esse texto referia-se ao diabo. Portanto, o acréscimo do nome Lúcifer à tradição já errada foi facilmente aceito. Veja que, antes da versão de Jerônimo, nunca houve o nome Lúcifer na Bíblia – é um termo não bíblico cujo significado foi modificado da simples expressão “estrela da alva” para um nome próprio do diabo pela imaginação humana.
           
Mas o que Isaías 14 tem a ver com o diabo? Tanto quanto Ezequiel 28: nada. Ambas são profecias contra reis humanos nas circunstâncias da época. Em Isaías 14, o profeta fala contra o rei da Assíria (chamado rei da Babilônia nesse texto); em Ezequiel 28, o oráculo é sobre o rei de Tiro. Basta ler o texto inteiro para verificar. Mesmo dentro dos capítulos, muitos versículos não condizem com a atribuição a Satanás. De acordo com Isaías 14, o rei da Assíria foi derrubado por Deus, atirado ao Sheol (v. 15) – portanto, morto – e contemplado com escárnio pelos reis da terra e chamado de “homem” (vs. 16,17) – que rei da terra viu a queda de Satanás? É simplesmente incoerente. Em Ezequiel 28, “Satanás” seria um querubim perfeito que se orgulhou e foi expulso por Deus (vs 12-15). Mas, como foi que o comércio de Satanás contribuiu pra esse orgulho? E como que, outra vez, as nações assistiram à sua queda (vs. 16, 18,19)? As circunstâncias apontam claramente para o que está explícito: a destruição de Tiro. Se Isaías 14 fala que o rei procurou subir às estrelas para firmar o seu trono acima de Deus, ou se Ezequiel 28 diz que o rei era um querubim adornado de pedras preciosas, que pisava no monte santo e andava no Éden, tudo isso é poesia, metáfora, perfeitamente comum na linguagem dos profetas. Os dois profetas falam contra diversas nações e reis em seções específicas dos livros, e o rei da Assíria e o rei de Tiro estão entre eles. Nada há sobre Satanás nesses textos. Esses textos passaram a ser atribuídos a Satanás no fim do 2º século da era cristã. E a história era diferente do que se conhece hoje: Satanás teria se orgulhado e caído do céu no momento em que teve inveja do homem e induziu Eva a pecar por meio da serpente. Ele caiu junto ao homem, no Éden. Embora seja fantasiosa, ainda é menos incoerente do que a opinião de Orígenes no 3º século de que a queda de Satanás ocorreu antes da criação, versão aceita entre as igrejas até hoje.
           
Outro texto comumente usado é Lucas 10:18 – “Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago”. Versículo totalmente descontextualizado. Jesus disse isso devido à comissão dos discípulos, que retornaram relatando como expulsaram demônios. Jesus explicou-lhes que o reino de Satanás estava sendo destruído por meio do início da obra missionária. O Reino de Deus estava se instalando e o poder de Satanás, caindo. O texto por completo evidencia isso. Esse versículo único não pode ser recortado e acrescentado ao mito criado a partir de Isaías 14 e Ezequiel 28. Quanto à história do “um terço dos anjos”, o versículo é de Apocalipse 12:4. Diz que o dragão viu a mulher e arrastou com a cauda um terço das estrelas do céu quando foi persegui-la. Como as estrelas viraram anjos, não tenho ideia (embora a ideia tenha sido também de Orígenes). Como uma profecia para o fim dos tempos tornou-se um relato histórico do início dos tempos, também não sei. O texto inteiro fala sobre a perseguição de Satanás contra a Igreja e sua derrota no fim, não sobre sua rebelião no início.
           
A Bíblia ao menos fala, em algum momento, sobre queda dos anjos? Sim, fala. Há três textos: em Gênesis 6:1-4, em 2Pedro 2:4 e em Judas 6. Gênesis 6 diz que os filhos de Deus foram atraídos pelas filhas dos homens, casaram-se com elas e geraram homens perversos. Embora a interpretação de que os filhos de Deus são anjos e as filhas dos homens são mulheres humanas quaisquer seja a mais natural, não é a única possível. Outra interpretação fala que os filhos de Deus são os descendentes de Sete e as filhas dos homens são de Caim. Tradicionalmente, essas linhagens são referidas como a linhagem dos justos e a dos ímpios, e o texto diria que, em dado momento, elas se misturaram. Uma outra, com a qual Luiz Sayão concorda (portanto, é a certa, lalala) é que os filhos de Deus eram homens de poder, reis, governadores (já que o termo elohim é bem genérico para referência ao poder), e as filhas dos homens eram mulheres acrescentadas ao harém desses governantes. O texto estaria, dessa forma, descrevendo a grande perversidade a que a humanidade chegou e prepara o leitor para o texto do dilúvio, o grande julgamento de Deus. (Detalhe: Luiz Sayão também concorda que Isaías 14 e Ezequiel 28 não falam sobre Satanás – podem, no máximo, figurativamente, comparar a maldade do diabo com a maldade desses reis)
           
Entretanto, grande parte da literatura apócrifa concorda com a primeira interpretação – anjos casando com humanas – como o livro dos Jubileus. Judas, em sua carta, refere-se amplamente à literatura apócrifa para ilustrar seus argumentos. Ele usa A Assunção de Moisés, apócrifo que conta a história da disputa entre Miguel e Satanás pelo corpo de Moisés na qual Miguel repreendeu o diabo usando o nome de Deus, para ilustrar o seu ensino de respeito aos anjos. Ele usa o livro apócrifo de Enoque para falar sobre a iminência do reino de Deus. Da mesma forma, ele pode ter usado apócrifos que falam sobre a queda dos anjos para o seu escrito “mesmo os anjos que abandonaram sua posição de poder não foram poupados, mas sim trancados em masmorras para o julgamento”. Judas diz isso também para adornar o seu ensino de que Deus destruirá os homens rebeldes e blasfemos. Não significa que realmente houve queda dos anjos, mas que a citação desse ensino apócrifo era relevante para o propósito de Judas. A situação em 2Pedro é semelhante. Essa carta é muito semelhante à carta de Judas, os temas coincidem muito, e Pedro pode ter feito o mesmo que Judas. O propósito dos dois com essa ilustração é o mesmo. E, mesmo se houve alguma queda dos anjos, não há descrições de como isso ocorreu, nenhuma evidência da história popular da queda do diabo e, ainda, não condiz com a situação dos demônios. Eles são livres e atuam no mundo, enquanto os anjos caídos em 2Pedro e Judas estão presos no “Tártaro”. Essa prisão, incoerente com a atuação de demônios e de Satanás no mundo, é mais um indício de que a queda dos anjos não aconteceu mesmo.
           
Então, qual é a origem de Satanás? A Bíblia não diz. Satanás sempre foi mau e pecador nos relatos bíblicos. Minha opinião é que Deus já criou Satanás como ele é, para que ele desempenhe suas funções. Estamos acostumados a pensar que Satanás é um grande oposto a Deus, como se representassem polos completamente distintos. Esquecemos de que Deus é o único e verdadeiro poder no universo. Satanás é um anjo que está sob a autoridade de Deus, é um instrumento para que Deus cumpra o seus propósitos. Creio que a razão de esse ensino ser tão estranho é que, mais uma vez, pensamos em grandes opostos: Deus é totalmente bom e só faz o bem, e Satanás é o causador de todo o mal. A crença na queda de Satanás resolve, para muita gente, o problema do mal. Mas esquecemos de que Deus é o criador de todas as coisas, inclusive do mal. Isso não torna Deus mau ou apenas meio bom. Deus é perfeitamente bom porque bondade é atributo essencial de Deus, assim como justiça, misericórdia, amor, fidelidade. Portanto, a bondade é eterna. Deus não criou o bem, pois ele é eternamente bom. O mal é criação de Deus, é preso ao tempo e é distinto de Deus, tal como todo o resto da criação. É isso que torna o mal inferior e incapaz de macular o caráter de Deus. Se pensamos que Satanás criou o mal, atribuímos um poder divino a ele. (Compreendam-me, estou tentando fazer o máximo para não discutir predestinação e liberdade aqui)

“Eu sou o Senhor, o seu Deus, faço a luz e crio as trevas, promovo o bem e o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”. (Isaías 45:7)

André Duarte

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Jejum e óleo: verdade e mitos



         Provavelmente, na minha formação cristã, esses foram os dois elementos da prática cristã mais distorcidos sobre os quais aprendi. Por anos, acreditei na literatura pagã – Daniel Mastral, Rebecca Brown e semelhantes – que ensinava mitos, quase que mágicos, sobre o uso dessas ferramentas. Vamos retornar às Escrituras, de onde nunca deveríamos ter saído.
            Primeiro, vamos falar sobre o bendito óleo ungido da unção com óleo ungido etc. O que a Bíblia realmente diz sobre o seu uso? Depende do momento. Em Êxodo 30, Deus ordenou que se fizesse um óleo para ungir os sacerdotes para o serviço. Deus ordena uma receita especial para ele e, em seguida, proíbe o povo de confeccionar esse óleo para uso próprio. Ou seja, elemento da Lei, transitório, simbólico e tudo mais. Vemos também alguns profetas ungindo reis com azeite, como símbolo da eleição deles. Também nada que deva ter vigência hoje, visto que era também um costume simbólico e, além disso, o último e eterno Rei de Israel está em seu posto. No Novo Testamento, há apenas duas citações da unção: quando Jesus ordena seus discípulos para fazerem as primeiras pregações (Marcos 6:6-13) – embora Jesus não tenha ordenado a unção, mas foi usada por vontade dos discípulos – e em Tiago 5:14, em que se diz para um doente pedir ao presbítero para ungi-lo.
            Por que óleo? Para entendermos esse uso, precisamos conhecer o sentido do óleo para os judeus. Sim, e apenas para os judeus; note que não há nenhum texto da Bíblia mencionando o uso de óleo por gentios. Existe um aspecto cultural e um aspecto prático. Em primeiro lugar, o óleo de azeite era um dos alimentos mais comuns para os judeus, tanto quanto o café para o Brasil. Portanto, ele era perfeitamente adequado como símbolo universal em Israel. Além disso, a maneira de os judeus pensarem era sempre com símbolos e rituais. Por isso há tantas parábolas, visões simbólicas e pequenos ritos e toques em toda a Bíblia quando observamos o comportamento dos judeus. O judeu não apenas orava por alguém doente, mas ele orava fazendo o gesto palpável de aplicar-lhe óleo. A conveniência do óleo também é devida à sua aplicação medicinal: um banho de óleo sobre o rosto aliviava a febre e, conforme o caso, acelerava a cicatrização de ferimentos. Por isso, a recomendação para ungir os doentes.
            Não há nada de místico sobre o óleo. Não há poder nenhum, mágica nenhuma que cause temor em demônios ou que sacralize um objeto ou pessoa, ou que traga a cura de Deus de maneira mais eficaz, ou que impute santidade em alta dose. Nada há nas Escrituras sobre essas invenções. Certa vez, uma pessoa crente disse-me que era necessário ungir os carros para que eles nunca tivessem acidentes. Pensei que Deus fosse capaz de me proteger sozinho, até eu ouvir esse ensino iluminado... ¬¬ Se alguém quer expandir o Reino de Deus, as Escrituras ensinam claramente como fazê-lo, e não é saindo e pingando óleo por aí.
            Agora, o jejum. Biblicamente, o jejum nada mais é do que um exercício de humilhação própria em face do arrependimento de um pecado. Em algumas ocasiões, o jejum era obrigatório, como no dia de Yom Kippur (Levítico 16:29-32). Em outras, dependia da disposição da pessoa. E, para que ele serve? Se você usá-lo corretamente, serve para melhorar sua santidade; se usar errado, serve para a sua própria glorificação. Em Isaías 58, Deus explica o jejum do qual ele se agrada: que não seja apenas um ritual, mas que de fato haja arrependimento do pecado e prática da justiça. Se o jejum não resultar nesse amadurecimento, de nada vale. Deve ser feito para Deus, não para si mesmo (Zacarias 7:4-10). O que Jesus diz sobre o jejum? Que não fazia sentido nenhum assumir uma postura triste na companhia do noivo (Marcos 2:18-20). O jejum não deve mais causar pesar ou tristeza, pois nosso perdão em Cristo enche-nos de alegria. Mas Jesus também indica que a prática continua, no sermão do monte (Mateus 6:16-18). Ele diz que o jejum deve ser feito como todo o resto – com o objetivo de glorificar Deus, não de se exibir.
            O jejum tinha um elemento cultural, assim como o óleo. Um judeu não apenas sente arrependimento e tristeza, mas o demonstra com atos simbólicos – que é o jejum. Praticar o jejum é desejável, porque percebemos no corpo nossa fragilidade e nossa dependência de Deus, o que deve edificar o nosso caráter. Mas, qual é o entendimento comum sobre o jejum? Por exemplo, que ele serve para dar um turbo na oração. Se oramos, Deus pode responder, mas, se for uma coisa muito importante que Deus tenha de responder infalivelmente, então o jejum é a chave. Ele constrange Deus a cumprir nossas orações. Quando jejuamos, aí sim Deus mexe nas circunstâncias do que jeito que queremos. Nenhum mestre usaria esses termos, mas o entendimento comum é esse. A distorção idólatra do jejum acompanha a da oração. Um ultraje e uma blasfêmia. A imaginação humana para tentar controlar Deus parece não ter limites. Em outras vezes, ouvi que o jejum pode ser a abstenção de um determinado prazer. Não precisa ficar sem comer, basta escolher alguma coisa de que você gosta e deixá-la por um tempo. Isso também não é bíblico, mas sim uma tentativa carnal de burlar as “regras”. É fácil escolher um prazer não tão significativo ou que pode ser sublimado em outro. Mas, a abstenção completa do alimento causa as sensações inevitáveis a que o jejum visa.
            Muitos crentes pensam que o jejum é necessário para a chamada “batalha espiritual” com base em Marcos 9:29 e paralelos – “Esta espécie só sai por oração e jejum”. Mas uma cuidadosa leitura perceberá que o termo “e jejum” está comentado em nota de rodapé ou entre colchetes. Isso porque é um termo que não aparece nos manuscritos mais antigos e confiáveis. Além disso, não há nenhum texto bíblico que exemplifique alguém jejuando para um demônio sair. É bom compreender também que o texto grego para a fala de Jesus em “espécie” ou “casta” é “raça”, um termo que dá ideia mais genérica do que específica. Jesus não estava dizendo que existem demônios fortes e fracos, mas referia-se a demônios em geral. Não se pode expulsar um demônio sem oração. Jejum não entra nessa ensino.
            Esses são apenas dois exemplos de elementos distorcidos, mas qualquer coisa pode sê-lo. O problema desses erros é que eles refletem uma fé errada. Excesso de piedade pode significar falta de fé. Se realmente confiamos na vontade de Deus, que ele é perfeitamente sábio e poderoso para governar o mundo, não precisamos de óleos mágicos e jejuns egoístas. Temos de ter fé em Deus, não em objetos e rituais. É muito fácil termos nossa fé desviada para os meios pelos quais Deus age, em vez de colocá-la no próprio Deus. Quando confiamos em Deus, sabendo que não há nada que possamos fazer para manipulá-lo, aí sim encontramos humildade e paz.

            André Duarte

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Vocês os conhecerão pelos seus frutos...




            “Deem fruto que mostre o arrependimento!”, disse João Batista aos fariseus que foram ser batizados. Ao dizer isso, ele estava distinguindo um costume simbólico de uma vivência espiritualmente verdadeira. O homem que ele anunciava fez o mesmo: em sua última semana de vida em corpo humano, andando por Jerusalém, Jesus amaldiçoa uma figueira que tinha folhas, e não frutos (Marcos 11). Com os acontecimentos posteriores no templo, Jesus ensina aos discípulos que os religiosos haviam se tornado como figueiras cheias de belas folhas, mas nenhum fruto, e que, portanto, seriam lançados ao fogo. Muita aparência, muita liturgia, muitos hábitos; o coração vazio e a mente perversa.
           
Há outra maneira pela qual Jesus trata a metáfora do fruto. Além de comparar o hipócrita à árvore sem fruto, ele também a compara com árvore de maus frutos. Jesus ensina que o fruto é evidência infalível e direta da espiritualidade. “A árvore boa não pode dar maus frutos; a árvore má não pode dar bons frutos”. E mais: “Vocês os conhecerão pelos seus frutos”. Jesus ensina diversas vezes que todo tipo de aparência piedosa é vã se ela for inconsistente com o fruto. Esse ensino deve nos disciplinar constantemente, pois também somos fanáticos por religiosidade externa. Observamos programas, performances religiosas, ministérios que trazem estatísticas, carisma pessoal, música bela, horários e frequência de oração e leitura bíblica, assiduidade na Igreja. Manter uma aparência de bom crente é muito fácil. Muitos acreditam que são crentes corretos por cumprirem uma série de normas protocoladas pela cultura de sua Igreja ou denominação. Jesus, entretanto, observará o fruto. Se ele encontrar maus frutos, ele destruirá a árvore má de vastas folhagens, assim como destruiu o magnífico templo de Jerusalém no devido tempo. Pois “O homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”.
           
Vamos investigar mais a fundo o que é esse tal fruto. Como já foi dito, o fruto é a evidência externa da espiritualidade real do coração. O fruto é o reflexo da alma. E a melhor exemplificação que temos dos frutos é a que Paulo faz em Gálatas 5. A lista é famosa, mas há pouca meditação sobre ela. Além disso, o fruto da carne, descrito antes do fruto do Espírito, passa despercebido muitas vezes. E eles são mutuamente excludentes. Um crente não pode conviver com ambos sem sentir o conflito de Romanos 7. Além disso, deveríamos questionar por que Paulo apresenta essa lista aos gálatas. Em toda a carta, o apóstolo critica veementemente a confiança da Igreja em performances religiosas. Os judaizantes ganharam muito terreno na região da Galácia. Por essa carta, Paulo demonstra que é possível realizar rituais e estabelecer hábitos cristãos e, mesmo assim, estar espiritualmente morto. É possível cumprir todo o protocolo de um meio social cristão, mesmo o nosso – participar dos programas, ler a Bíblia, orar, jejuar, assistir aos cultos, chorar nas ministrações – e, no fim, ser condenado ao inferno.
           
O fruto da carne é assim descrito (segundo a NVI): imoralidade, impureza e libertinagem. Termos sinônimos, que levam ao significado do termo grego “porneia”, que abrange todas as práticas sexuais proibidas por Deus, bem como o desejo e as intenções de praticá-las. Idolatria e feitiçaria. Muito comuns nas religiões de mistério gregas; significam, mais amplamente, a inclinação por envolver-se com deuses falsos, seja qual for o objeto que decidimos deificar em nossos corações. Ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo. Nossa relação com os irmãos. Sentimentos e atitudes erradas, que demonstram orgulho e adoração própria. São problemas pouco combatidos na Igreja, o que causa a desunião e o esfacelamento de toda a fraternidade, e refletem total insubmissão a Cristo; vontade de ser o senhor da própria vida. Manifestações descontroladas de ira, principalmente, são tão comuns que todo mundo apenas entende e suporta, quase nunca repreende. Entretanto, quem vive com ira desenfreada contra seus irmãos está morto. Dissensões, facções e inveja. Também são problemas de fraternidade, precisamente a divisão da Igreja em torno de líderes ou ideias. A inveja é especialmente comum entre líderes, tanto quanto era no tempo de Paulo, e é um dos fatores mais causadores de divisões. Embriaguez, orgias e coisas semelhantes. A completa entrega de si mesmo a práticas que o senso de autojustiça proibiria, desistência da justiça e dissolução de si mesmo no pecado. Se há coisas semelhantes, significa que a lista não é taxativa, pois o pecado tem múltiplas manifestações. Há outras listas em outros textos (ex: 1Coríntios 6). Aqueles que praticam essas coisas não serão salvos, diz Paulo.
           
Agora, passemos ao fruto do Espírito. Amor. O princípio de toda virtude, a essência da vida cristã, o norte de qualquer mandamento. Amor a Deus e amor ao próximo, a síntese da santidade. Certamente, o amor é o centro do outros aspectos do fruto do Espírito. Alegria. Um cristão demonstra alegria devido ao reconhecimento e espanto diante da graça de Deus e do seu amor. Quanto mais um crente desvenda as inumeráveis bênçãos de Deus para si, mais alegre ele se torna. Mesmo em calamidade, em circunstâncias difíceis e desagradáveis, a alegria do Espírito está dando suporte ao crente, pois nenhuma ocorrência abala o fundamento imutável da alegria – o amor de Deus. Paz. Tranquilidade diante das frivolidades da vida, domínio emocional da angústia. Significa também a paz entre irmãos, o oposto da discórdia, egoísmo e esses pontos do fruto da carne já comentados. Resolução de conflitos e problemas em amor. Longanimidade (paciência). Associada ao aspecto interior da paz; serenidade e capacidade de aguardar o tempo certo para o cumprimento da vontade de Deus. Evidência do “suportem-se uns aos outros em amor”. Amabilidade, bondade. Direta aplicação do amor em atos e sentimentos, demonstração de humildade e atração para receber amor de volta, prazer em agradar o próximo. Fidelidade. Submissão aos mandamentos de Deus dados na sua aliança, cumprimento da própria palavra, falar e praticar a verdade. Opõe-se à palavra dúbia e à mentira. Mansidão. Domínio do ânimo, contenção da ira, disciplina das emoções e dos atos praticados em momentos de raiva. “Quando ficarem irados, não pequem” (Salmo 4:4). Contrária à gritaria e à vazão injusta ou desproporcional da raiva contra o próximo. Domínio próprio. Extensão do princípio da mansidão a todas as outras tentações. Mansidão tem direta relação com a ira; domínio próprio abrange a ira e todo o resto. Significa a resistência ao impulso pecaminoso, seja qual for – prática sexual ilícita, roubo, sentimentos de ódio ou inveja, explosão de raiva e agressão, mentira e tudo o mais.
           
Paulo diz claramente que a carne e o espírito existem em conflito nos crentes. Todos nós lutamos contra os impulsos da carne e procuramos submeter-nos ao espírito. O que conta é quem de fato domina. Se um crente é dominado pela carne, ele não é verdadeiro crente. É fácil rejeitar falsos irmãos que vivem em práticas sexuais pecaminosas, “embriaguez, orgias”, mas o fruto da carne deve ser combatido holisticamente. Ódio, inveja, ira, divisões, egoísmo – tudo isso é tão condenável quanto os pecados que consideramos erroneamente como mais escandalosos. A ausência de fruto do Espírito infalivelmente significa prevalência da carne. Poucos que consideramos crentes podem evidenciar o fruto espiritual completo. Frequentemente vemos irmãos com falta de amor, com postura triste constante, angustiados inconsolavelmente com a vida, imediatistas (pessoalmente, esse problema é um que me afeta), cultivando inimizades, sem controle dos ímpetos de raiva, falando “sim” e pensando “não”. A Igreja deve exortar-se mutuamente quanto à falta de fruto do Espírito. Não espere que alguém caia em um pecado flagrante e escandalizante para então preocupar-se com a santidade do irmão. Também não tolere o irmão que não aceita repreensão, que se recusa a mudar o cultivo do fruto errado.
           
Lembrem-se de que o argumento de Paulo é que alguém perfeitamente cumpridor de costumes sacros pode ser um cultivador do fruto da carne. Como Igreja, precisamos ser sábios para não criticarmos alguém pela aparência (nem para o bem nem para o mal), e não pensarmos em nós mesmos como santos pelos critérios errados. Jesus era a perfeita árvore com fruto espiritual, mas foi crucificado por não ter “folhas”, não cumprir a expectativa pública e errada da aparência de piedoso, e muito menos de rei messiânico. Tim Keller diz que “capacidade ministerial não significa maturidade espiritual”. Uma Igreja que se torna uma figueira cheia de folhas, mas sem frutos, torna-se não a Nova Jerusalém, mas a velha, que matou Jesus. São como os gálatas, a quem Paulo diz “Ó insensatos, quem os enfeitiçou?”. Jesus adverte: Vocês os conhecerão pelos seus frutos – o bom e o mau.

André Duarte

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Salmo 3


        

       Este é o primeiro salmo de clamor por livramento. Foi escrito por Davi quando fugia de seu filho Absalão. Nessa ocasião, como lemos em 2Samuel, Absalão usurpou o trono de Davi, o qual fugiu com suas tropas leais, estando na iminência de uma guerra civil uma vez que o exército de Israel saísse à perseguição.

Davi inicia o salmo reconhecendo a magnitude do perigo; não era exagero afirmar que os perseguidores eram muitos. Sua reclamação quanto aos inimigos, como é comum nos outros salmos imprecatórios, é que o inimigo que se levanta contra ele é culpado de se levantar contra Deus, pois Deus está a favor do salmista. Assim, quando o exército de Israel e todos aqueles que odiavam Davi perseguiam-no, faziam-no blasfemando contra Deus. Pois, como Davi tinha total consciência, Deus estava com ele devido à sua aliança perpétua, e havia prometido um reinado eterno a ele. As ideias do salmo 2 devem se resgatadas aqui: o exército que rejeita o ungido do Senhor rejeita o próprio Senhor.

Davi, entretanto, age não com o orgulho que se poderia esperar do rei ungido, mas com a humildade de um homem frágil, que não concebe força alguma além de Deus. Ele confia que Deus é o seu defensor, seu ajudador e seu consolador. Deus não apenas protege o corpo da morte infligida pelas armas, mas também a alma da agonia. Ele estabelece a paz no espírito enquanto age sobre as circunstâncias físicas.

Também é elemento comum nos salmos imprecatórios que o salmista inicie expressando angústia e, em seguida, ou no fim do salmo, declare confiança e tranquilidade na resposta de Deus à oração em andamento. Poucos salmos contêm o clamor e omitem a resposta. Neste caso, a confiança de Davi baseia-se, como foi dito, na aliança que Deus selou. Ele diz que Deus o responde do seu santo monte, o qual é representado pelo monte Sião, de onde Davi estava fugindo. O monte Sião representa o encontro de Deus com o seu povo dentro do contexto do pacto messiânico. É a infalível fidelidade de Deus ao que o monte Sião representa o fundamento da esperança de Davi, bem como da Igreja ora perseguida, que confia no Deus que garante a promessa da salvação para o reino do Messias.

Um dos resultados práticos dessa confiança é a percepção de que Davi continua vivo, não sendo assassinado enquanto dorme. Ele nota que, após dormir, ele acorda vivo. Seria fácil atribuir a segurança à sua própria força em qualquer parte do dia em que Davi estivesse consciente e em ação; entretanto, quem pode cuidar dele durante o seu sono? Ele conclui que somente Deus é o protetor, especialmente nas circunstâncias em que ele mais se encontra indefeso e frágil. O fato de Davi estar protegido em momentos em que ele jamais poderia agir em seu próprio favor comprova para ele que Deus está zelando por sua vida. Constatado isso, Davi não sente medo diante dos seus inimigos. A meditação no livramento constante de Deus trouxe para ele a tranquilidade interior da qual necessitava.

Somente agora Davi apresenta sua petição. Ele desabafa sua situação perante Deus, declara o que ele sabe sobre Deus e seu relacionamento com ele, medita em uma constatação prática e, agora preparado, encerrando sua oração, Davi pede a Deus que derrote seus inimigos. Essa petição é totalmente vinculada à confiança de que Deus a atenderá. Pode-se questionar: por quê, então, pedir? Porque a petição é necessária ao nosso amoldamento à atitude de filhos de Deus. É a linguagem humana abrindo o coração para a ação espiritual de Deus.

A última frase de Davi é a declaração, mais uma vez, de que é o Senhor quem dá o livramento e a bênção para o seu povo. Outro ponto típico dos salmos imprecatórios é a conclusão que declara a expansão da bênção de Deus além do próprio salmista e alcançando o povo ou a nação. Neste caso, Davi compreende que ele não é especial diante de Deus, como se tivesse qualquer destaque que atraísse o favor de Deus mais do que outra pessoa o faria. Pois Deus não é exclusivo dele, mas é o Deus que abençoa Israel. Davi também compreende que o livramento em sua vida é diretamente relevante para o livramento de Israel. Ele relembra que foi escolhido por Deus para ser o rei de Israel gerando uma dinastia perpétua e que, portanto, Israel pode cumprir o seu propósito para Deus e diante do mundo. Isto é, se Davi sobreviver aos inimigos, ele poderá voltar ao trono e governar Israel como o devido rei teocrático.

Podemos retirar deste salmo a seguinte aplicação messiânica. Jesus Cristo também abandonou o seu trono – espontaneamente, não como Davi, que foi expulso – e teve de passar por perigos e perseguições de inimigos. No entanto, mesmo sofrendo e ansioso, Jesus orava a Deus constantemente e confiava nele, como diz Hebreus 5. Jesus também foi livrado da morte por Deus, mas de forma muito mais plena que Davi: Jesus de fato morreu, mas triunfou sobre a morte ao ressuscitar. Sua ressurreição e sua vitória sobre a morte e sobre seus inimigos recolocaram-no de volta ao seu trono, de onde reina sobre o seu povo como o perfeito rei teocrático da linhagem de Davi. Porque Jesus venceu a morte, pelo livramento de Deus, a sua bênção está sobre o seu povo.

André Duarte