segunda-feira, 27 de maio de 2013

Lei e graça


          Como é a relação entre lei e graça? Frequentemente, temos um pensamento dispensacionalista de que o Antigo Testamento era a “época” (ou dispensação) da Lei e o Novo Testamento é a era da graça. Essa dicotomia pode levar a compreensões erradas a respeito da obra de Cristo e da maneira como um cristão deve viver. É necessário entender que lei e graça são aspectos da dádiva de Deus ao homem que sempre existiram juntas. João 1 diz que “a Lei veio por Moisés; a graça e a verdade vieram por meio do Filho”. Isso faz referência à revelação de Deus, não à efetividade dessas dádivas. Não é como se, no Antigo Testamento, não houvesse graça. E nem é verdade que, no Novo, não há normatividade da Lei.
           
Veja bem: se você pensar que não havia a graça salvadora de Deus no Antigo Testamento, concluirá que era possível ao homem ser salvo por obras ou que nenhum homem foi salvo. Ambas as conclusões estão erradas. Se fosse possível ao homem ser salvo por obras, toda a obra de Cristo é inútil. E, se nenhum homem houvesse sido salvo, nenhum sentido existe nas declarações sobre a justiça de Noé, Moisés, Abraão, Davi, e nem mesmo os profetas de Deus foram salvos, o que é absurdo. Mas, ao contrário: o Novo Testamento justamente vai fundamentar a salvação pela graça mediante a fé nas escrituras do Antigo Testamento. Romanos 4, bem como grande parte do livro de Gálatas, é um argumento de Paulo de que a justificação pela fé sempre existiu, e que isso é claro na história de Abraão. Abraão creu, e essa fé foi-lhe atribuída como justiça. E essa justificação ocorreu antes que Abraão houvesse feito qualquer obra consequente dessa fé – antes da circuncisão, do sacrifício de Isaque. Romanos 9 (calma!) diz que Deus escolheu Jacó pela sua graça, e não Esaú, antes que eles houvessem feito qualquer obra. Hebreus 9 diz que os sacrifícios da Lei nunca puderam perdoar pecados e efetuar purificação e aperfeiçoamento, mas eram oferecidos como um memorial da pecaminosidade humana, demonstrando a necessidade de um real salvador. Romanos 4 usa também o exemplo de Davi, que compreendeu a graça de Deus que perdoa o pecador e remove-lhe a culpa.

            Hebreus 11 também mostra que, mesmo que Jesus ainda não houvesse efetuado o seu sacrifício, aqueles que creram na palavra de graça de Deus foram considerados fieis. Diz o texto que Moisés abandonou o Egito por amor a Cristo. E 1Coríntios 10 também fala do povo israelita bebendo da rocha espiritual, que era Jesus. Notar também João 8, em que Jesus se chama de Eu Sou, o mesmo Deus que falou a Moisés. E que “Abraão viu o meu dia e se alegrou”. Todos os que creram no Deus santo e gracioso no Antigo Testamento, por definição, creram em Jesus, conforme a medida da revelação que foi dada a eles. Ora, Davi, que só tinha a Lei de Moisés, compreendeu que Deus se agrada de um coração contrito, e não de sacrifícios. Isso fica claro nos salmos. Embora com uma revelação tão parcial sobre Deus, em comparação com o que temos hoje, ele percebeu que o mesmo Deus da Lei era um Deus que recebe aqueles que confiam na graça dele e que se voltam a ele arrependidos do pecado. E ele profetizou, no salmo 110, sobre o seu Senhor, que seria o seu próprio descendente, o Messias. Davi creu em Cristo e foi salvo pela graça de Deus, mediante a fé.

            A outra face dessa dualidade é que a Lei vale no Novo Testamento. E, aqui, a compreensão é complicada. Existem textos que falam sobre a Lei estar acabada, outros que falam que ela continua. Como entender? É necessário perceber que o termo “Lei” é escrito com significados diferentes. Em certos contextos, é referência ao conteúdo da Lei de Moisés; em outros, é a lei de Deus de forma geral; ainda em outros, é referência ao pacto da Lei. O que foi abolido é o pacto da Lei, isto é, a maldição da Lei segundo a qual todo o que transgredi-la morrerá. Esse pacto foi abolido por Cristo para todo o que nele crer; quem nele não crê permanece condenado pela transgressão. Nesse sentido, Paulo diz que “o fim da Lei é Cristo”. Também foi abolida a forma externa e antiga da Lei, como uma escritura imposta à qual os homens devem se conformar por esforço próprio. Paulo diz a esse respeito que Jesus “anulou a Lei expressa em ordenanças”. Essa forma foi transformada por outra que não opera de fora para dentro, mas de dentro para fora do fiel. Conforme a aliança prometida em Jeremias 31, o Espírito escreve as leis de Deus no coração humano. É a regeneração santificadora que o Espírito opera a nova forma da Lei de Deus. Paulo diz também que a nova Lei é escrita em tábuas de corações humanos, não em tábuas de pedra. Muitas pessoas pensam que há na Lei de Moisés uma divisão entre lei moral e cerimonial, e que Jesus aboliu a lei cerimonial, mas ratificou a moral. O problema é que não é tão simples encaixar cada uma das leis em moral ou cerimonial (ex: “Não cozinhe o cabrito no leite da própria mãe” é moral ou cerimonial?).

            Portanto, a maldição da condenação da Lei é completamente excluída pela obra de Cristo em nosso favor. A forma da Lei é também redefinida, e todos os sinais que apontavam para Cristo também são cumpridos nele. Por isso, sacrifícios não são mais oferecidos, nem há mais templo ou sacerdotes. Porém, Jesus deixa claro que ele não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la. E diz que é mais fácil céu e terra passarem do que cair o menor traço da Lei. O que isso significa? O que é que permanece da Lei? Algumas coisas: primeiro, permanece o seu testemunho. É por causa da Lei que Jesus realiza sua obra. A própria Lei aponta a necessidade de um real salvador. A carta aos Hebreus explica isso o tempo todo. Se a Lei fosse excluída, se deixasse de existir, tudo o que Jesus fez perderia o sentido. Segundo, a Lei permanece como a descrição do padrão inalcançável de Deus. A Lei deve existir para provar o merecimento da condenação; do contrário, a salvação pela graça também careceria de fundamento. Além disso, a Lei permanece como uma descrição prática do Espírito da vontade de Deus, que é o amor. Segundo Paulo em Romanos 13, o amor é o cumprimento da Lei. Jesus bem disse que amar Deus e amar o próximo é o núcleo de toda a Lei. Logo, esta é a Lei que permanece para os cristãos: o amor. A letra da Lei de Moisés não é mais normativa para os cristãos (pode cozinhar o cabrito no leite da própria mãe tranquilamente), mas o espírito de amor que corre por ela é obrigatório. E, desse espírito, mais plenamente revelado no Novo Testamento do que na Lei, existem todas as normas divinas ditas por Jesus e pelos apóstolos e o próprio exemplo da vida de Jesus.

            Portanto, não é verdade que a Lei não é mais necessária para os cristãos. As leis de Deus, suas normas esclarecidas no Novo Testamento, são totalmente obrigatórias. Não é legalismo exortar os irmãos a obedecer às leis de Deus. Não é legalismo repreender os irmãos quando eles transgredirem um mandamento de Deus. Legalismo é confiar na Lei para a justificação. Também o é acrescentar leis humanas às leis de Deus. A base da obediência à Lei não é mais uma justificação consequente, mas a gratidão e o amor ao Deus que já nos justificou por sua graça. É a fé na salvação de Cristo que leva à obediência. E isso não torna a obediência à Lei menos obrigatória do que sempre foi. Ao contrário, temos hoje um estímulo à obediência muito melhor e mais belo do que antes: não o medo da punição, não o orgulho da autojustificação, mas o amor de Deus em nos resgatar e iluminar.

            Perceba, então, que sempre houve em toda a história do povo de Deus a Lei e a graça para efetuar a redenção: a Lei para condenar e a graça para salvar. Se não houvesse condenação, do que seríamos salvos? Se não houvesse salvação, que lugar os santos do Antigo Testamento teriam? Que sentido haveria em sermos considerados filhos de Abraão? Todos os herdeiros da vida eterna, de Abel ao último mártir, foram, primeiro, condenados pelo seu pecado e salvos pela graça de Deus. Nunca alguém foi justificado por obras; nunca alguém será salvo sem obras.


            André Duarte

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Namorar ou esperar?



           Bem, lá vamos nós de novo falar sobre namoro. Falo aqui como um jovem para um público jovem. Sabemos que uma das maiores preocupações dos adultos com nossa formação moral tem a ver com namoro. Já ouvimos inúmeras pregações, desde a adolescência, sobre isso. E grande parte das regras morais favoritas dos pregadores tem a ver com namoro. Mas essa preocupação não é só deles, é também nossa, que, na adolescência, pensamos que vamos morrer se não namorarmos tal pessoa ou se demorarmos mais do que tal tempo para namorarmos. E, quando ficamos jovens, temos a impressão de que o tempo está acabando, as opções estão ficando escassas – especialmente as mulheres, por existirem em maior número. Como lidar com essa situação? Como encontrar uma solução melhor do que o ascetismo e a negação ou do que o desespero ao tentar qualquer coisa?
           
Uma das dificuldades surge a partir de uma premissa óbvia: a Bíblia não fala sobre namoro. Não adianta tentar encontrar namoro na história de Sansão, como já vi muita gente fazendo. Namorar é uma prática cultural. Pode-se perguntar, por conseguinte, se o namoro é realmente necessário para o casamento, mas não penso ter uma boa resposta pra isso. Mas há de se notar algo importante, que já serve para dar um limite para as possibilidades de compreensão teológica: se uma prática cultural não deve ser sacralizada como absoluta, isso serve não apenas para o namoro, mas para qualquer das alternativas que alguns crentes de linha mais ascética determinam. Por exemplo, a tal da “amizade especial”. Ou a “corte”. Muitos adultos e jovens desse tipo de consciência pensam que namorar, por si só, já é errado, que alternativas mais ascéticas (por não envolverem beijo na boca, penso eu) são as certas. Mas, como diz o Tim Keller no livro “O significado do casamento”, determinar o namoro como ruim e a corte como boa é nada mais do que trocar uma prática cultural por outra. Assim, se for por meio de namoro, corte ou amizade especial, o importante é não determinar qualquer dessas práticas como “bíblicas”, mas sim como opções intercambiáveis conforme a conveniência prática delas para o alcance do objetivo do par, o casamento.
           
O temor ascético do namoro também afeta negativamente a maneira como decidimos iniciar ou não os namoros. Implicitamente, existe uma regra consensual em muitos crentes que, pra ser bem claro, diz que quanto menos pessoas você beijar na boca, mais santo você é. Baseado nessa visão negativa de contatos íntimos primários, o crente solteiro tenta namorar o mínimo de pessoas que puder, para que, conforme suas expectativas, haja a máxima probabilidade de ele casar com quem namorar, e da forma “mais pura”. O problema é que essa prática é tão danosa quanto o tentar namorar qualquer pessoa que aparecer, sem reflexão. Namorar, com o intuito de conhecer – aliás, o intuito principal do namoro em sua concepção contemporânea, já quase esquecido – é uma prática boa, que dá experiência, maturidade. Você não aprende a ser um bom cônjuge só com teoria. Algumas pessoas precisam sim namorar mais de uma ou duas vezes para aprenderem lições que só o racionalismo cartesiano em clausura não ensina. E não há nada de impuro se você acabar beijando na boca de algumas pessoas diferentes. Não há dogma bíblico a respeito disso.
           
Outra razão para a preferência ascética é a defesa própria contra sofrimentos altamente temidos que podem surgir durante o curso e principalmente o término de um namoro. Acontece muito com quem já namorou e foi horrível. Mas essa solução ajuda mesmo? Porque você teve um namoro péssimo e sofrido, a melhor maneira de lidar com isso é evitar namoros que tenham um mínimo de suspeita de imperfeição? Sério: todo namoro vai fazer você sofrer em algum momento. Não há par perfeito, e nem você é perfeito. E encare de uma vez a verdade de que sofrer não tem problema nenhum. Qual o problema de sofrer? Você acha que teria aprendido alguma coisa na vida se nunca tivesse sofrido? Vislumbre a possibilidade não do inexistência de sofrimento, mas da superação de sofrimentos que certamente virão. Você sofre quando precisa estudar para uma prova, mas nem por isso deixa de fazê-la. Agora, existe um tipo de sofrimento que pode ser perfeitamente eliminado: o sofrimento que vem da idolatria, do não reconhecimento de que Jesus é tudo de que você precisa. Muita gente permanece no ascetismo porque procura um par que seja o seu salvador, o redentor de sua felicidade. E, obviamente, não acha nunca. E, quando pensa que acha, fracassa. Você deve ser completo em Jesus, dependente somente dele para a felicidade e a estabilidade psicológica e emocional. Nenhum cônjuge no mundo fará isso pra você. Quando você compreender isso, terá muito menos medo de sofrer quando for escolher alguém para namorar. Se o seu ascetismo é dessa natureza, você é tão idólatra quanto a pessoa que você julga por estar sempre namorando todo mundo que aparece. Os dois estão buscando significância pessoal no par.
           
Sabendo dessas coisas, fica muito mais fácil descobrir a pessoa certa pra você. Claro, é sempre importante lembrar: concentre-se, em primeiro lugar, em ser a pessoa certa. É risível a pessoa que namora terrivelmente, mas exige um par maravilhoso. Que pensa naquela pessoa toda santa e enviada por Deus, mas que mal cuida da própria santidade e sabedoria. Se você for a pessoa certa, mesmo quando namorar a errada, vai saber lidar com isso sabiamente. Voltando: sabendo do que foi colocado nos parágrafos anteriores, ficou faltando uma última dica para encontrar a pessoa certa: tentativa e erro. Empirismo. Claro que existem pessoas do seu conhecimento que você pode eliminar do seu mapa de possibilidades apenas enxergando incompatibilidades óbvias. Mas, quanto ao resto todo, você só saberá quem é certo e quem é errado pela tentativa de namorar. Sério, vá sem medo. Chegue na pessoa, mande a conversa, seja direto (claro, há sutilezas na conquista que levam um tempinho). Esqueça aquela frescura de pré-adolescente de ficar com medinho de ser rejeitado. Você já cresceu, você já sabe que o mundo não vai se acabar se você ouvir um não. E digo isso para homens e mulheres igualmente. Sim, mulheres também podem dar a “chegada”. Se o homem que ouvir a sua iniciativa julgar você como uma piriguete, ele já provou ser contaminado pelo mundanismo e poupou o seu trabalho de descobrir se ele é a pessoa certa. Lembre-se: namorar vem antes do conhecer, e não o contrário. Se você preferir, use a corte ou sei lá, mas ficar parado não adianta. No mais, lembre-se de que achar logo um par não é a razão da sua vida, não é motivo para desespero e pode ser sinal de idolatria.
           
Quero também expor minha crítica ao movimento ascético no facebook do Eu Escolhi Esperar. Calma, deixe-me esclarecer: minha briga é com a página do facebook, não com o blog. O blog fala sobre esperar o casamento para fazer sexo, e não é contra isso que falo. A página do facebook fala para esperar alguma coisa indefinida e divina para namorar. E, para ser mais específico, não são todas as publicações da página nesse sentido, mas a maioria. Não sei como ela é hoje, porque eu já tirei do meu feed de notícias as pessoas que compartilhavam compulsoriamente aquelas coisas (quem compartilhava só esporadicamente parece que parou). Outra coisa: minha briga não é pessoal, mas teológica. Claro, como poderia ser pessoal, se eu já tenho a minha gata, que escolheu namorar em vez de esperar 8)? Não é problema meu se há tantas meninas ascéticas. Mas, porque eu me preocupo que a verdade de Deus seja crida pelas minhas irmãs (falo no feminino porque não conheci ainda nenhum homem que aderisse seriamente ao movimento da página do facebook), quero fazer essa crítica.
           
O grande problema de muitas publicações da página é o uso em vão do nome de Deus. Toda vez em que você coloca uma expectativa pessoal na boca de Deus, você usa o nome dele de forma profana. Primeira coisa: Deus nunca prometeu que você se casaria. Você pode morrer solteiro e isso em nada vai tornar Deus menos fiel e verdadeiro. Já pensou em fazer voto de celibato? É um conselho de Paulo para quem deseja servir o evangelho com exclusividade, sem ser atrapalhado pela vida em família. Mas quase ninguém pensa nisso, por ser tão condicionado a idolatrar a necessidade de se casar (onde eu me incluo pela minha história, sim). Menos ainda Deus prometeu que, se você for bonzinho e agradá-lo, ele vai te dar o cônjuge ideal e perfeito. A própria motivação de fazer a vontade de Deus para que ele dê uma recompensa já é pecaminosa. Casar com a pessoa ideal é vontade sua, nunca foi promessa de Deus. E se Deus quiser te dar um cônjuge péssimo, por propósitos didáticos? Uma enorme parte das publicações do EEE no facebook morre aqui, pois elas frequentemente assumem como certa essa bênção de Deus sem que ele jamais tenha prometido isso nas Escrituras. Muito menos dado um método, “esperar”, para que tais promessas sejam aplicáveis.
           
Segue-se, com isso, uma fé irracional nesse método. Supostamente, ele só dá certo porque é o método desejado por Deus. Mas, além de ele ser totalmente estranho à Bíblia, sendo conveniente apenas para a pulsão ascética; se você remover a garantia de Deus da sua eficácia, ele se torna completamente absurdo e louco. O emprego é uma bênção de Deus, o ingresso na universidade também, a aquisição de um imóvel igualmente, mas nenhuma dessas coisas acontece se você ficar esperando. Você precisa correr atrás. Agora, sabe o que Deus realmente prometeu? Comida e vestimenta. E você fica esperando que ele dê o alimento de colherzinha na sua boca, ou que ele chegue na sua casa com uma sacola da feira (porque roupa da Renner já é exigir demais)? Não, você vai ao mercado, compra aquele filé de frango, tempera, frita e se delicia. Se, para adquirir o que Deus prometeu, você faz esforço, por que você pensa que obterá o que ele não prometeu sem fazer esforço? Claro que algumas pessoas dirão que escolheram esperar e conseguiram encontrar o seu par maravilhoso. Mas, não foi por causa do método, mas da graça soberana de Deus que pode te dar o par que ele quiser, inclusive o certo. Porém, isso não justifica o uso blasfemo do nome de Deus em colocar como promessa dele algo que é apenas o seu desejo. E nem desmente o fato de que o método carece da mínima razoabilidade. Perceba que eu me refiro a extremismos da proposta da página do facebook. Se você curte a página e gosta do movimento, mas sem assumir os absurdos que eu critiquei, tudo bem.
           
Sei que esse post é parcial e incompleto. Sei que há muito mais sobre namoro que precisa ser considerado. Mas não caberia num post. Apenas coloquei questões que eu considero mais urgentes e menos aprendidas do que outras. Coloquei muitas dicas, muitas opiniões, e eu não espero que você concorde com todas elas. Mas, se pareceu-lhe bem, tenho dito.

            André Duarte

terça-feira, 14 de maio de 2013

Apologética e alguns argumentos



            Olá, pessoal. Vamos passar agora a um tema importantíssimo para a exposição da fé cristã diante do mundo: a apologética, isto é, a defesa da fé. Esse tema tem sua relevância derivada de uma promessa que Jesus nos fez: que seríamos perseguidos pelo mundo. Quando isso começou a acontecer de forma mais generalizada, em nível político, Pedro nos disse que deveríamos estar prontos para dar a razão de nossa fé para quem perguntasse. Referia-se à inquisição diante das autoridades romanas, mas aplica-se a qualquer situação em que mundanos comecem a acusar a fé cristã de ser estúpida, irracional e infantil. O filósofo pagão Celso muito ridicularizou o cristianismo, e o bispo Orígenes, extremamente erudito, foi quem rechaçou os argumentos de Celso com inteligência e sentido. E foi a apologética, em muitos aspectos, que serviu de instrumento divino para atrair ao evangelho pessoas mais cultas.

      Como está a apologética hoje em dia? Bem, hoje temos muitos argumentos que defendem a razoabilidade da fé que antigamente não tínhamos. Além de descobertas científicas e arqueológicas, contamos com uma grande historicidade que nos apoia quando pensamos em cristãos de mente brilhante que já escreveram em defesa do evangelho. Por outro lado, há cada vez menos pessoas dispostas a usar essas ferramentas. Por causa da banalização dos estudos cristãos e da valorização dos sentimentos como meios mais eficazes para a aquisição da verdade de Deus, temos uma grande massa de cristãos que rejeita a apologética sem nem conhecê-la. Pensam que evangelho é fé cega, que a espiritualidade é oposta ao racionalismo, que argumentos racionais e lógicos minam a essência divina da Palavra, que a erudição é perigosa por induzir à apostasia... São preconceitos sem fundamento nenhum. Talvez, por perceberem que os opositores à fé são “intelectuais”, querem reforçar que o evangelho não pode se assemelhar a eles. Bem, ocorre que ignorar a racionalidade para manter-se apenas no intuitivo é também destruidor. Inclusive, ignorar a investigação e o estudo é contrário à Palavra de Deus. Os profetas, tentando levar o povo a perceberem a obviedade de seus desvios, dão várias ordens como “Pensem”, “reflitam”, “investiguem”, mas nunca um “sintam”. Conformar-se com a própria intuição e com o aprendizado restrito é uma forma de idolatria ao próprio conforto, uma esquiva de ser desafiado quanto a possíveis erros. É mais fácil acomodar-se com os conhecimentos já adquiridos e não abrir a mente para outros, porque assim você nunca terá de enfrentar os seus erros.

       É claro que existe uma possibilidade para o extremismo na apologética. Deve ficar claro que apologética não é evangelismo. Os “haters” têm razão em dizer que o Espírito é quem convence o coração para crer, e não argumentos racionais. É tolice pensar que a probabilidade da conversão depende da profundidade e do número de argumentos que defendem a fé. Por isso, é necessário entender que apologética serve para dar razoabilidade, e não uma certeza de 100% (pleonasmo, sim, para enfatizar) de que o evangelho é verdadeiro. Entretanto, isso não significa que a apologética é inútil. Ora, se tudo o que não convence for inútil, não existe nada na vida cristã a não ser a existência do Espírito; nem a pregação da Palavra seria válida. A apologética é uma ferramenta dada por Deus, graciosamente, para nos induzir a crer nele de forma inabalável, para que nenhuma sabedoria mundana possa derrubar a Igreja e as Escrituras.

          Existem centenas de argumentos e incontáveis fontes do conhecimento laico para servir à apologética. Sendo assim, quero apenas citar alguns desses argumentos, para exemplificar por que o evangelho é único no mundo. Os mundanos gostam de pensar no cristianismo como se fosse só mais uma religião do mundo, sem perceber diferenças óbvias e gritantes entre o evangelho e todo o resto. Não sou especialista em apologética, há muita coisa de que não sei. Mas, aí vão algumas coisas que você pode dizer ao descrente quando ele questionar a sua fé.

            Pense, por exemplo, na publicidade da doutrina. Perceba que, na Bíblia, tudo aquilo que é feito por Deus ou por seus ministros é público, para todo mundo ver. Quando um descrente perguntar “por que a sua religião é a certa e as outras são erradas?”, diga que a religião cristã é a única testemunhada por centenas, milhares de pessoas. Maomé teve um encontro pessoal com um anjo, e depois foi proclamar a mensagem pro povo. Joseph Smith teve um sonho com um anjo e resolveu basear suas doutrinas no que ele descobriu sozinho. Qualquer religião começou com uma ideia particular, um encontro pessoal ou um anjo – nada que um público pudesse comprovar. Jesus, no entanto, fez milagres à vista de todos, morreu publicamente e ressuscitou publicamente. Paulo diz que Jesus apareceu várias vezes aos discípulos e, certa vez, apareceu a mais de 500 deles. Não é possível que tenha havido um delírio coletivo de milhares de pessoas. Os milagres no Antigo Testamento foram semelhantes: Deus fez maravilhas ao povo de Israel todo. Nunca foi para apenas uma ou duas pessoas. O cristianismo surgiu de uma forma simples como qualquer outro acontecimento real: Jesus fez tudo para todo mundo ver, e todos os que viram saíram contando para mais pessoas. E nisso o cristianismo é único. A fé cristã é baseada em testemunho público, não em inspiração pessoal.

            Note também que o evangelho é a única religião em que a salvação é dada pelos méritos de outra pessoa, e não nos próprios. Em todas as outras religiões, você é salvo se você for bom, conforme os credos e as ordens delas. Você precisa provar a Deus, ou aos deuses, ou à sociedade que você é bom, pela sua própria performance. De outro lado, existem as religiões totalmente relativistas, que admitem qualquer coisa que faça de você uma pessoa “melhor”, que dizem que qualquer caminho leva a Deus, que Deus salvará todo mundo no final, ou coisas do tipo. O evangelho, no entanto, é a única religião em que justiça e amor são perfeitamente combinados. Apenas no evangelho é necessário que você seja justificado e que essa justiça venha de fora, e não de você mesmo. O Deus do evangelho é tão amoroso que se dispôs a pagar pessoalmente o preço da sua salvação – não foi um amor bobo e relativista que não exigiu nada de Deus. Também ele é tão justo e santo que não se satisfez com qualquer vida moral dos homens, mas somente com a perfeição de Jesus Cristo. O Deus do evangelho é, ao mesmo tempo, mas amoroso e santo do que todas as outras invenções humanas, e a justificação pela fé é um raciocínio completamente contrário à inventividade humana. É o ponto em que a criatividade humana para. Tal doutrina só pode ter sido revelada, nunca criada.
           
Até aqui, foram argumentos internos, da própria Bíblia. Quero colocar mais um que tem a ver com a área de arqueologia. Trata-se dos manuscritos da Bíblia. Desde o século XVIII, a Bíblia tem sido criticada por liberais devido aos manuscritos muito recentes que existiam, especialmente do Antigo Testamento. O texto mais antigo do AT que se tinha era o Texto Massorético, datado do ano 1008 d.C. Veja, mais de 1400 anos após os originais. Por isso, havia muita discussão, muita relativização. Começaram a dizer que as histórias eram todas inventadas pelos judeus, que Davi e Salomão não existiram mesmo, e todo tipo de loucura. Aparentemente, ninguém havia notado que o manuscrito mais antigo de Platão era também medieval e continua sendo; isso ainda passa sem crítica. Entretanto, uma grandiosa descoberta mudou todo esse quadro. Em 1947, um pastor beduíno, por acidente, descobriu uma caverna, quando estava cuidando de sua ovelha no deserto ao sul de Israel, perto do Mar Morto. Nessa caverna, havia inúmeros vasos cheios de manuscritos. Os arqueólogos começaram a investigar e descobriram diversas cavernas, que eram as habitações dos judeus essênios na época do Império Romano. E, dentre muitos manuscritos, estavam vários do Antigo Testamento. A maioria destes é de cerca de 200 ou 100 anos antes de Cristo. O mais antigo é um fragmento de Êxodo datado de oito séculos antes de Cristo. E o melhor de tudo: estão praticamente idênticos ao Texto Massorético! Ou seja, por séculos e séculos de cópias, o texto bíblico estava intacto. A preservação é surpreendente e provou que, de fato, a fidelidade dos copistas aos textos era séria. Quanto ao Novo Testamento, a preservação é igualmente magnífica. Não há nenhuma escritura antiga que esteja tão bem preservada quanto os textos bíblicos. O evangelho de João tem uma cópia do ano 130 d.C.. É muito aproximado do original. Os textos bíblicos ganham – e ganham longe! – de todos os textos antigos em número de cópias, proximidade das cópias aos originais e exatidão entre as cópias. Os desinformados gostam de achar que a Igreja Católica mudou a Bíblia na Idade Média. Totalmente falso. A preservação da Bíblia não tem par e pode ser considerada um milagre.
           
Esses foram apenas alguns exemplos de argumentos apologéticos. Existem inúmeros outros. Os cristãos devem sim buscar os fatos que defendam a fé. Devem saber pensar filosoficamente e logicamente, devem tomar ciência dos conhecimentos laicos, devem estudar e pesquisar. Isso não apenas ajuda o evangelho a ser respeitado, mas guarda os próprios crentes de caírem na lábia de mundanos pretensamente sábios.

            André Duarte

domingo, 12 de maio de 2013

Devocional: Bíblia, meditação e oração



Sabemos que é necessário praticar a leitura da Bíblia e a oração para mantermo-nos acesos no amor a Deus. São meios de graça maravilhosos que Deus nos entregou para realizarmos comunhão com ele. A maioria dos crentes chama a prática diária dessas coisas de devocional. Não sei por quê, mas não tem problema. Normalmente, pratica-se a devocional, como foi dito, diariamente. É uma regularidade boa e tem certo fundamento na petição do Pai Nosso “dá-nos o pão de cada dia”. A rotina humana é baseada no tempo de um dia mais do que em qualquer outra medida temporal, e convém que a devocional seja também semelhantemente periódica. Mas, como qualquer outra prática cristã, existem os desvios para o legalismo e para o antinomismo.

O legalismo está presente quando um crente se torna tão dependente de uma inquebrável rotina devocional que passa a fazer dela o salvador da sua vida. Conheço pessoas que, se falham em ler a Bíblia e orar em um só dia, começam a se apavorar com o dia seguinte, pensando que já estão se desviando de Deus e suscetíveis à apostasia. É muito importante entender que a salvação, a segurança e a santidade estão na obra de Cristo, e não na sua obra em usar os meios de graça dele. É uma distinção sutil, mas que faz grande diferença. Se você confiar na sua devocional rígida e inflexível para a manutenção da sua salvação, declara que Jesus é dispensável e chama a si mesmo de seu próprio redentor. Já o antinomismo está ligado à necessidade da sensação subjetiva de espontaneidade e disposição para realizar a devocional. A ideia é: hoje estou cansado, tive muita coisa pra fazer e não estou com vontade de ler a Bíblia e orar. Melhor, então, não fazer nada. Senão, vai ficar muito mecânico e artificial. Bem, acontece que Deus é quem manda, e o que ele ordena é para ser cumprido. Se você for obedecer à vontade de Deus apenas quando sente muita vontade, então quem dá a última palavra é você e, assim, você se proclama como o chefe de Deus, tal qual o legalista. Deus ordena que você examine e ame as Escrituras, e que você ore sempre. Não que as ordens de Deus ignorem a sua disposição subjetiva. Mas a espontaneidade não surge do seu coração – lembre-se de que a única coisa que você faz totalmente espontaneamente é pecar. A espontaneidade é criada, educada, construída pelo trabalho do Espírito enquanto você obedece aos mandamentos divinos. Primeiro, vem a obediência, depois vem a sua vontade.

Vamos a algumas orientações sobre como aproveitar com excelência uma devocional. Dividirei em três partes: a leitura da Bíblia, a meditação no que foi lido e a oração.

Leitura da Bíblia: Em primeiro lugar, saiba que você deve ler a Bíblia toda. Você não vai progredir na compreensão de Deus se ficar lendo sempre os textos fáceis de que você mais gosta. Além de perder partes importantes da Bíblia – pois, ao contrário do que o seu coração diz, todas as partes são importantes –, você acaba sendo arbitrário quanto àquilo que você deseja aprender. Leia, portanto, em sequência. Se quiser, pode ler outro texto que tenha relação com o principal de sua leitura, mas não perca a sequência. Já ouvi muitas pessoas dizendo “O problema é que eu esqueço do que eu li anteriormente. Por isso, não posso avançar e fico voltando para o mesmo texto várias vezes”. Por mais estranho que pareça, minha resposta é: não importa que você tenha esquecido. Em primeiro lugar, você nunca esquece completamente; alguma coisa do texto ficou registrada no seu inconsciente. Em segundo lugar, de acordo com esse raciocínio, você nunca lerá a Bíblia toda. Você realmente acha que todas as pessoas que leram a Bíblia toda só concluíram a primeira leitura completa depois de memorizar completamente os ensinos de todo o resto? Meio impossível, não? Siga a sequência, não importa que você ache que não está sendo de bom proveito. No futuro, você verá que foi fundamental. E, é claro, as dicas de sempre: leia com atenção, entenda o contexto, respeite a gramática. Compare versões diferentes da Bíblia (as boas, por favor; sugiro que esqueça a NTLH). Se não entendeu algum versículo, procure um comentário bíblico.

Meditação: Este é um ponto quase sempre esquecido, mas essencial para a edificação pessoal. Tim Keller diz que a meditação é o meio-termo entre a leitura e a oração. Nela, você vai gastar um tempo silencioso pensando (no meu caso, faço isso melhor escrevendo do que só pensando) no que você acabou de ler. Pensando no que o texto significa. Não é o momento intelectual da exegese, mas sim a reflexão sobre as aplicações e implicações. Pense no que o texto significa sobre você, sua vida, sua Igreja. No que ele ensina sobre Deus. Em como ele se relaciona com Jesus o que o que ele fez. Você vai fazer um sermão para si mesmo, pregar para si mesmo. Keller conta a história em que Martinho Lutero estava no barbeiro, e este lhe perguntou “Mestre Lutero, como você ora?”, e Lutero, conciso como pôde, respondeu-lhe com um artigo de 40 páginas sobre a oração. A maior parte desse escrito, na verdade, ensina a como se preparar para orar, que é justamente a prática de meditar. Lutero diz que ele segue a oração do Pai Nosso, depois os 10 mandamentos e então algum outro texto bíblico, palavra por palavra, respondendo a si mesmo a 5 perguntas com base no que ele leu: Como posso adorar Deus por isso? Como posso confessar um pecado a Deus baseado nisso? Como posso agradecer a Jesus por me dar isso? Do que eu preciso hoje para conseguir cumprir isso? Qual comportamento errado, qual emoção danosa e qual atitude falsa resultam de mim quando eu me esqueço da realidade disso? E Lutero não daria início à sua oração até que alguma verdade de Deus acendesse em sua alma. E veja que a meditação não é moralista, como se tudo o que você tivesse de aprender fossem leis de Deus, e nem é motivacional, como se tudo fosse para confortar o seu coração ansioso. A meditação deve ir do amor de Deus para o pecado humano, o evangelho de Cristo e a sua eficácia para ajudar você a parar de pecar, reconhecer a glória de Deus e amá-lo.

Oração. Enfim, na oração, você fala com Deus. E será bem mais fácil após você trazer as verdades para o seu coração na etapa da meditação. Para as orientações na oração, temos todo o livro dos salmos e a Oração Dominical, que é o Pai Nosso. São textos que ensinam quais são as coisas que Deus deseja que você diga a ele. Ele graciosamente concede modelos para que você diga palavras ensinadas por ele mesmo ao orar. Você aprende que é bom orar pelo Reino de Deus, para louvá-lo e declarar seus atributos, agradecê-lo por toda a sua obra e o seu cuidado, pedir que ele o ajude com seus problemas. Compreenda que a oração não serve para que Deus se convença a fazer o que você quer, mas sim para que você, ao orar, seja por ele tratado, com base nas etapas anteriores da devocional, a se transformar conforme o caráter e a vontade dele. Verbalize para Deus o resultado daquilo em que você meditou. Agradeça-o por suas bênçãos, especialmente as bênçãos espirituais da adoção por meio de Cristo. Peça-lhe para que ele guarde o seu coração de pecar e se desviar, que ele cative sua mente para que você cresça em amor. Louve-o por seu poder, sua graça e sua soberania. Confesse seus pecados e suas “boas obras” com motivos pecaminosos. Ore em consciência da comunidade de cristãos da sua Igreja e do mundo, oferecendo ações de graças e petições. Acredite, assunto para orar não falta. Basta que você prepare o seu coração pela leitura da Bíblia e pela meditação, e você verá que há muito mais para ser orado do que o seu mesmo probleminha de sempre.

Para muitas pessoas, é realmente difícil realizar uma devocional assim, com o tempo necessário. Embora haja pessoas que simplesmente enrolam, há aquelas que de fato têm uma rotina apertada e cheia. Porém, procure aproveitar os momentos oportunos para realizar sua devocional, conforme suas possibilidades. Não pense que vai morrer só por ter aberto mão da devocional em um dia ou outro. Mas também não se acomode com o hábito da procrastinação. Lembre-se, tudo depende do fato de que você crê em Jesus, ama-o e a ele se sujeita. Aja em conformidade com esse fato.

André Duarte

terça-feira, 7 de maio de 2013

Testemunho e evangelismo



         Bem, lá vamos nós de novo para esse tema. Creio que ainda não falei muito sobre a questão do testemunho, e é um ponto que causa dúvidas. Embora muito tenha sido dito sobre evangelismo, ainda há aquela dúvida: como, exatamente, eu devo evangelizar se eu não sou um missionário viajante? Meus outros posts falaram bastante sobre o conteúdo da mensagem de evangelismo, e não quero ser repetitivo. Quero focar aqui no aspecto mais prático, pois há várias doutrinas discrepantes sobre o “como”. Algumas pessoas pensam que todos os crentes têm a obrigação de fazer proclamações programadas sobre o evangelho. Isto é, cada crente deve fazer em seus círculos sociais a mesma coisa que missionários no estrangeiro fazem: chamar a atenção, reservar um tempo e falar sistematicamente sobre o evangelho. Outras pessoas são mais moderadas, entendendo que crentes que não fazem missões não precisam pregar nada, mas apenas viver.

            O problema com o primeiro ponto de vista é que ele não tem muito fundamento bíblico. Efésios 4:11 menciona o ministério de evangelistas dentre vários outros, indicando que não são todos os crentes que devem exercê-lo (assim como não são todos apóstolos, pastores, profetas...). Há, portanto, um ministério e um dom específico que o Espírito concede a alguns. O conteúdo geral das epístolas concorda com isso. Não há nenhuma ordem à Igreja para que ela evangelize dessa forma. Paulo fala sobre si mesmo como missionário, dá orientações para Timóteo, assim como Jesus falou aos discípulos, mas nenhuma Igreja recebeu esse comando para que todos os crentes evangelizem como missionários – embora a maioria das pregações atuais seja exatamente isso, uma ordem para todos evangelizarem, o que contrasta fortemente com a prioridade das cartas. Existem algumas poucas orientações para uma postura respeitável e digna perante os de fora, mas não para uma proclamação específica sobre o evangelho. O segundo ponto de vista também é problemático, pois ele se baseia somente na frase atribuída a Francisco de Assis “Pregue o evangelho; se necessário, use palavras”. Não sei o contexto original dessa frase, mas o contexto em que ela é colocada hoje não é concordante com a Bíblia. É como se ela dissesse que o testemunho de vida fosse suficiente e que palavras frequentemente não são necessárias. Não é possível, porém, que um descrente seja evangelizado sem que você use palavras. Entendo que o testemunho de vida seja o principal, mas está incluso nesse testemunho as suas palavras, pois o que você diz reflete aquilo que importa em seus conceitos, aquilo em que você crê. Se você ama Jesus, ele estará em suas falas comuns.
           
Portanto, quero, em primeiro lugar, fazer distinção entre o ministério de evangelismo, do qual não são todos os crentes que devem fazer parte, e o testemunho pessoal. Os ortodoxos gregos entendem corretamente que evangelismo, como missão, é algo que deve ser feito em sociedades que não conhecem ou que rejeitam o cristianismo. Em países como o Brasil ou os Estados Unidos, não faz sentido você evangelizar do nada, como se dissesse “Você conhece Jesus?”. A religião cristã é algo presente na cultura, não é estranho para ninguém. Claro que há muita bobagem religiosa misturada. Mas a mensagem do evangelho é acessível a todos os que quiserem, basta que procurem uma Igreja que proclama o evangelho, que leiam a Bíblia, até a internet está cheia de artigos cristãos e uma Bíblia online. Não significa que a Igreja deve ser inerte. O que ela deve fazer é de fato ser coerente com aquilo que ela tem como propósito, que é manifestar o ser de Cristo para o mundo. Por essa razão, o principal para que a Igreja como um todo e todos os crentes individualmente façam é ser testemunhas de Jesus, expressando o seu caráter e a regeneração espiritual. O testemunho é o que atrai as pessoas confusas sobre o evangelho para fazerem perguntas. Provavelmente vai atrair também para fazerem piadas e críticas. Mas o crente, sendo coerente com os seus princípios cristãos, esclarecerá o evangelho ao dialogar com os descrentes.
           
Vamos ser ainda mais práticos. Afinal, é pra usar palavras ou não? É muito estranho pensar que palavras são dispensáveis. A própria existência e eficácia da palavra é um tema central na Bíblia como revelação de Deus. É a palavra de Deus que vem ao povo, é ela quem cria o mundo, é ela quem encarna em Jesus. Seria um grande erro descartar palavras, como se somente o bom comportamento bastasse. E como seria se o crente não usasse palavras? Quer dizer, ele mostra um comportamento moral, ele se limita a dizer “sou cristão”, e fica calado quando o seu círculo social começa a discutir religião, ou quando fala sobre conceitos mundanos, ou sobre práticas pecaminosas? Já que estamos falando de testemunho, vou falar um pouco do meu. Eu estou lentamente aprendendo isso tudo. Já sei que não tenho o dom de evangelismo. Não sou do tipo “Vou agora aproveitar esse momento de silêncio para falar de Jesus para essa pessoa”, e já compreendi que essa prática específica não é obrigatória, embora eu muito me culpasse antigamente por essa “omissão”. Tenho boa relação com meus colegas de trabalho, brinco com eles, rimos juntos, como pessoas normais. Mas o ponto fraco deles é quando vamos falar sobre casamento e traição. Quase todos os meus colegas já traíram suas esposas, e todos detestam o casamento. No momento em que surge o assunto, eu coloco minha posição cristã. Digo que não vou trair minha mulher porque a minha fidelidade é fundamentada na perfeita fidelidade de Deus a seu povo, e não em minha vontade esforçada. E digo que o casamento é maravilhoso e que o meu vai dar certo porque ele é um reflexo da aliança de Cristo com sua Igreja, não uma instituição humanamente resolvida. Bem simples, pura verdade, sem moralismo chato nem negligência. Como consequência, um dos colegas me perguntou sobre Igreja e Bíblia, e então eu expliquei o evangelho de forma mais sistemática. E ordenei que ele se arrependesse de sua vida de pecado e cresse em Jesus.
           
Percebe o ponto? O testemunho de vida não é forçado. Aliás, seria bem estranho se você é um crente e, quando se junta aos mundanos, pensa “opa, hora de dar bom testemunho”, como se seu testemunho pudesse ser removido quando você quisesse. Testemunho é questão de ser, de identidade. Você não simplesmente resolve dar bom testemunho ou não: ou você é testemunha de Cristo ou não. Se você é, falará sobre ele naturalmente. Envolve esforço, sim, mas o esforço se baseia na realidade de que você ama Jesus e tem consciência da suficiência dele para a sua aceitação e sua autoridade. Você sabe que não precisa ser aceito pelos súditos se é aceito pelo Rei. Não é um esforço para ser aceito por Deus, mas porque você já é aceito. Não é para aliviar a consciência, mas porque a sua consciência já foi tranquilizada por Jesus. Enfim, não pense que é necessário programar um tempo e uma ocasião para evangelizar, porque as oportunidades surgirão naturalmente, e você responderá a elas conforme uma testemunha de Jesus. Também não pense que é só mostrar comportamento moral e pronto, pois a vida centrada em Jesus afeta todo o nosso ser: pensamentos, emoções, axiomas, atos, hábitos e palavras.
           
Lembre-se também de que o bom testemunho deve ser diretamente dependente do evangelho como um todo. Isso significa que você deve expressar a repreensão ao pecado e a humildade de Jesus. Se você só aponta tudo o que há de errado em todo mundo, você não está se assemelhando a Jesus, e sim a um moralista chato típico. Se, por outro lado, você for só a pessoa legal e gentil (o extremo em que eu sempre vivi), o descrente nunca saberá que o pecado dele é coisa séria. Muita gente acha que, se você deixar claro que você é crente, mas ter uma amizade toda feliz e compreensiva com o descrente, ele vai ver a compaixão de Jesus em você e será atraído para o evangelho. Mas que evangelho é esse que não fala nada sobre o “arrependa-se”? O descrente não vai ver diferença nenhuma entre ele e você.
           
Opa, eu disse “diferença”? Vamos desfazer essa noção moderna de “fazer a diferença”. Fazer a diferença é mera consequência do bom testemunho. Não sei de onde as pessoas inventaram que não ficar, não beber e não ir à boate fazem alguma diferença. Quer dizer, se o descrente convida você pra ir à boate, e você diz “Não, não, obrigado”, você realmente espera que ele vá responder “Puxa vida, como você é diferente! Explique melhor a razão de você ser tão peculiar!”? Nãããão, ele apenas vai dizer “Ah, tudo bem, até mais”. Acredite, existem descrentes que não vão à boate! O que não existem é descrentes que creem em Jesus e se submetem ao seu reinado, isso sim será a diferença entre você e o seu colega ateu. Pare de inventar estereótipos e entenda o que a Bíblia diz sobre quem é descrente. A Bíblia não diz que o descrente é a pessoa que finge ser feliz na frente dos outros, mas sente uma solidão tremenda e depois cai em choro no seu quarto. Descrentes são sim sorridentes e pensam sim que são felizes e realizados. Existem descrentes que não ficam. Existem os que não bebem. Existem os que respeitam a religião. Nada dessas coisas é central no bom testemunho. O que a Bíblia diz é que o descrente é perverso, odeia a justiça de Deus e as suas leis e ama os seus próprios caminhos idólatras. Uma testemunha de Jesus será diferente nisso. Você não é boa testemunha por não ir às festas, por estar sempre alegre – o que é absurdo, porque o crente fica sim triste de vez em quando  - ou por sair dizendo “Deus te abençoe” e “Glória a Deus” bem alto pra todos os descrentes ouvirem.
           
A sua vida de bom testemunho deve ser sábia e deve fluir da sua fé no evangelho e no seu amor a Jesus. Examine-se a esse respeito. Veja se você está envergonhando o nome de Deus, mesmo pensando que o está honrando. Manifeste o caráter de Cristo, porque é ele quem vive em você, não por apenas cumprir norma.

            André Duarte

domingo, 5 de maio de 2013

Avivamento verdadeiro



          O que é avivamento? Tem sido um desejo das igrejas atuais um novo avivamento. Percebemos que há uma grande mortandade mundana na maioria das igrejas, que os “prazeres desta vida e as riquezas deste mundo” têm sufocado uma espiritualidade fervorosa nas comunidades cristãs. Muitas igrejas nada mais são do que uma repetição litúrgica ineficaz para a santificação; muitos crentes vivem em carnalidade enquanto atendem às rotinas eclesiásticas. Percebemos que o evangelho tem sido abandonado em troca de doutrinas fáceis que exigem pouco de alguém que professa a fé. Sabemos que há uma necessidade urgente de que as igrejas despertem para o fato de que Jesus Cristo é o centro e o fim de tudo o que fazemos e de quem nos tornamos. A esse despertar chamamos de avivamento.
           
Mas como o avivamento realmente se dá e se manifesta na prática? Ora, se o avivamento é um retorno de uma Igreja morta espiritualmente para uma vivificação no evangelho, é absolutamente necessário que se redescubra o evangelho. O testemunho histórico nos confirma isso. Em pouco mais de um século da reforma protestante, surgiu o movimento pietista nas igrejas luteranas. A situação das igrejas era de uma ortodoxia muito exata, sobre a qual era necessário simplesmente manifestar concordância. Não que a ortodoxia fosse ruim, mas ela era praticamente a única coisa que importava. Após ir às igrejas ouvir pregações bem bíblicas, os membros praticamente se esqueciam de aplicá-las em suas vidas e se davam ao pecado sem remorso. Faltava também um senso de relacionamento pessoal com Jesus; era como se toda a verdade bíblica pregada fosse uma abstração meramente intelectual. O movimento pietista propôs-se a reavivar as igrejas, isto é, enfatizar a necessidade da fé frutífera e da submissão alegre à vontade de Deus, com devocionais e uma relação pessoal com Jesus que se estendesse para fora dos ambientes de igreja. Isso só foi possível com a redescoberta do evangelho – não uma redescoberta meramente de textos bíblicos, mas da relevância e da maravilha que ele significa. O movimento pietista foi o precursor do movimento morávio e de outros avivamentos em séculos seguintes, como o Primeiro Grande Despertar, cujas grandes figuras são John Wesley (fundador dos metodistas), George Whitefield e Jonathan Edwards, e do Segundo Grande Despertar, com destaque para Dwight Moody. Embora não tenham sido movimentos isentos de defeitos, eles tiveram impactos marcantes sobre o planeta (especialmente no contexto da colonização da América do Norte) devido à intensa evangelização, ao fervor espiritual pelo reino de Deus e à atenção a uma vida devota e santa coerente com a doutrina.
           
Avivamento é diferente de reforma. Na reforma, houve a derrubada de pressupostos errados para o estabelecimento de outros totalmente diferentes. Algumas igrejas atuais realmente precisam de reforma. No avivamento, há apenas a redescoberta de algo que a Igreja esqueceu, mas que está nominalmente na crença. Igrejas evangélicas têm uma crença que é certa em suas raízes históricas, mas elas frequentemente se esquecem delas e estabelecem novos costumes errados que acabam esmagando o fluir do evangelho verdadeiro. Mas, se isso é verdade, e se realmente as igrejas têm buscado avivamento, então por que ele não acontece? Por que há tantas falas e tantos programas, e tudo continua igual? Minha sugestão é que as igrejas esqueceram até mesmo o que é o avivamento. Na verdade, elas precisam de um avivamento para redescobrir o que é avivamento (yo dawg!). Nesse caso, precisamos definir o que não é avivamento.
           
Avivamento não é explosões emocionais. Embora mesmo os avivamentos históricos tenham sido marcados por êxtases emocionais, não é esse o objetivo e não é esse o motor. Nunca uma forte emoção pode ser evidência de renovação espiritual. Emoções são as faculdades mais mutáveis e flutuantes do ser humano, mas Jesus e o seu evangelho são eternamente inabaláveis. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre”. Em um momento, o povo da Igreja está chorando e surtando, movido por um clima sustentado pela música de fundo, orações e gritos do ministro. Horas depois, tudo isso acaba e a mesma mediocridade de sempre retorna. Avivamentos não duram meia hora, não duram uma noite. A redescoberta do evangelho tem resultados de longo prazo, pois ela renova toda a nossa maneira de crer e de viver. Não importa quantas pessoas choraram e “se derramaram”, se não houve mudança de vida para a santificação, aquele momento foi perda de tempo. Avivamentos também não são controlados por programas. Embora haja campanhas e acampamentos, e essas coisas tenham sua importância, não são garantia de avivamento. Pois o avivamento não depende do homem, mas sim de Deus. Ele é quem tem soberania para conceder ao povo a paixão pelo evangelho ou não. Isso não retira a nossa responsabilidade de buscar, mas nos humilha para que saibamos que Deus tem poder para agir conforme sua perfeita vontade, e não conforme nossos desejos. Dessa forma, não é possível controlar um avivamento e determinar que ele ocorra.
           
A Bíblia alerta fortemente contra o avivamento falso. O rei Josias tentou promover uma renovação da aliança com Deus. Foi talvez mais uma reforma do que um avivamento, mas o ponto é que ele tentou controlar a busca do povo por Deus. Embora ele tivesse as melhores intenções e tenha feito o que pôde, não foi suficiente. Ele obrigou o povo a se afastar dos ídolos, confirmar o pacto do Sinai, celebrar a Páscoa com grande festividade e matar os profetas pagãos. Ele foi movido por zelo pelo Senhor. Porém, tão longo o próximo rei assumiu o poder, sendo ele ímpio, tudo foi desfeito imediatamente. O povo teve o seu momento de “avivamento” que não durou nada. Jeremias 3:6-10 dá o diagnóstico divino sobre o ocorrido. Deus diz que Israel, o reino do norte, foi ímpio do começo ao fim, e por isso sofreu o exílio. Judá, porém, nos dias de Josias, voltou-se para Deus com fingimento, para logo depois voltar às práticas perversas comuns. E Deus diz que Judá, por essa razão, agiu de maneira pior do que Israel. A mensagem é clara. É menos pior ser coerente com sua impiedade e viver afastado de Deus sempre do que ter os seus “momentos de renovação” que são pura fachada e não duram nada.
           
Com tudo isso, compreendemos a consistência do avivamento. É uma redescoberta do evangelho que resulta em vida santificada, relacionamento pessoal e fervoroso com Cristo pelo seu Espírito e testemunho digno diante dos descrentes. Mas, como examinar a sua Igreja para ver se ela está reavivada mesmo? Tim Keller, repetindo o que o professor dele ensinou, diz que há 6 características de uma Igreja que são tanto a causa para ela se renovar como também o resultado de que ela está se renovando. São elas: ensino bíblico teologicamente profundo; louvor vibrante e passional – que nada tem a ver com o duelo entre guitarras e órgãos ou música de rock contra hinos –; comunhão e irmandade ricas; evangelismo destemido e límpido; preocupação social com os pobres; adaptação moderada à cultura. Uma Igreja reavivada apresentará esses frutos. Tudo começa, porém, com a conversão genuína à fé cristã, ao testemunho das Escrituras e ao amor a Cristo. Pois é a sua verdade que moverá todas as coisas para nele convergirem, de forma que a vida determinada pelo evangelho poderá iniciar.
           
Pense também no que significa a palavra “avivamento”. A ideia não é trazer vida ao que está morto? Como não lembrar da ressurreição de Cristo? Não é a ressurreição de Jesus que nos concede o novo nascimento, para que morramos para a carne e revivamos para Deus? É isso que avivamento significa: morrer para o mundo e ressuscitar para as coisas do alto.  

André Duarte

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Hermenêutica, a arte de interpretar a Bíblia



Caros leitores, é necessário que cada um seja apto e mesmo treinado para interpretar a Bíblia corretamente. Não é bom que um crente fique dependente de pregações e artigos; ele deve usá-los como ajuda, mas também ser capaz de compreender a Bíblia por si mesmo. Afinal, existe todo tipo de loucura dita sobre a Bíblia, e certos princípios e limites de interpretação são necessários para que um entendimento razoável seja atingido. As orientações aqui são bem simples.

Se você crê na sola scriptura, deve saber que a Bíblia interpreta a si mesma. Isto é, a Bíblia não tem um intérprete oficial além dela mesma. Um texto deve ser compreendido em harmonia com todos os outros. Não é alguém com um dom especial que vai determinar o significado de algum texto bíblico, mas é ela mesma. Pois a Bíblia não se contradiz e é suficiente para toda a revelação de Deus. Isso não significa que você pode dispensar exposições, opiniões de teólogos e comentários bíblicos. Todas essas coisas ajudam, mas elas apenas são válidas enquanto se submetem ao princípio da sola scriptura. Isto é, são trabalhos de pessoas que já estudaram a Bíblia mais do que você e facilitaram para que você entenda. Dessa forma, tradições, historicidade e outras formas de opinião conferem razoabilidade a uma interpretação, mas a palavra final é a da própria Bíblia.

Fique consciente de que você pratica sim a hermenêutica (ciência da interpretação de uma mensagem). Não pense algo como “eu não interpreto a Bíblia, eu apenas a leio como ela é”. Essa frase é totalmente irreal. Você tem pressupostos subjetivos e expectativas como qualquer outra pessoa, e a sua tendência natural será adaptar a Bíblia a eles, e não o contrário. É impossível colocar-se como uma “tábula rasa” frente à Bíblia. Posto isso, fique também consciente de que a interpretação da Bíblia é absolutamente importante para toda a sua maneira de viver. Ao contrário do que muitos pensam, doutrina tem consequência prática. Todos os seus comportamentos, sentimentos e pensamentos dependem dos seus credos, e os seus credos dependem de como você interpreta a Palavra de Deus. Portanto, não pense que hermenêutica é um luxo relevante apenas a acadêmicos e pastores. Todo crente precisa aprender a interpretar.

Dentro dos artifícios que compõem a hermenêutica, o central é a exegese. Exegese significa trazer o significado original do texto para a sua mente de agora. É o contrário do que a maioria das pessoas faz – levar os seus conceitos para aplicá-los ao significado do texto. Exegese envolve um exercício mental do leitor para que ele se transporte ao tempo e ao espaço em que o texto foi escrito. Isso nos leva a lembrar de um ponto essencial: todo texto bíblico foi escrito por uma determinada pessoa e para um determinado destinatário que não é, primariamente, nós. Quando Paulo escreveu aos coríntios, ele realmente estava pensando só nos coríntios, e não em você. É a inspiração de Deus que torna os escritos bíblicos canônicos para a Igreja, mas a correta interpretação dessa Palavra depende daquilo que o escritor humano original pretendia.

Isso nos leva a outro importante princípio: um texto bíblico jamais pode significar algo para nós que nunca poderia ter significado para os leitores originais. Esse princípio já coloca grandes limites ao que você pode entender com o texto. Veja que, em tudo isso, estamos considerando princípios sóbrios e que você já naturalmente aplica a qualquer outro texto. Você não lê uma bula de remédio com outro pensamento senão a intenção original dela. Você não lê um jornal alegorizando os fatos que ele relata. Você não lê uma argila da Mesopotâmia sem perguntar “como isso estava inserido naquela época e naquela cultura?”. Isso não reduz a transcendência temporal da Bíblia. Ao contrário, interpretá-la conforme queremos, sem conhecer o propósito do texto para o autor e para os leitores originais é que retira a aplicação dela para o tempo deles.

Logo, você precisa ler a Bíblia tendo consciência de quem escreveu o texto, para quem, em que local, em que tempo, em que sociedade, em que cultura e sob quais circunstâncias particulares. Você não vai entender 1Coríntios sem saber como era aquela cidade em questão de filosofias e liberdades morais. Você não vai entender Colossenses sem entender o sincretismo religioso que começou a atacar a Igreja. Além disso, você precisa conhecer a Bíblia toda, especialmente as particularidades do Antigo Testamento e do Novo. Frequentemente, o Novo Testamento alude ao Antigo, especialmente para explicar atributos de Jesus. Por outro lado, o Novo conta o “final do filme”, o que significa que o Antigo não pode receber interpretações diferentes daquilo que o Novo permite. Em nenhum momento você pode ler um texto do Antigo pensando que ele está, por exemplo, ensinando salvação por obras. Pense sempre nos princípios do evangelho ao ler qualquer texto.

Sabemos, portanto, que há uma só interpretação da Bíblia. Não pense que a Bíblia tem várias interpretações diferentes. Somente uma é certa. E o dever de cada crente é alcançá-la, embora jamais consigamos realizar isso plenamente na Bíblia toda. A Bíblia tem várias aplicações, implicações, ilustrações e orientações, todas essas coisas úteis para a edificação, mas elas dependem da interpretação, que é única. Talvez seja difícil compreender esse rigor por estarmos acostumados a pensar que, pelo fato de a Bíblia ser a Palavra de Deus, ela tem um sentido óbvio, múltiplo, subjetivo e imediato. Esse é um pressuposto errado. A Palavra de Deus é sim comunicada pela Bíblia, e é exatamente esse o motivo por que o nosso entendimento superficial e precipitado vem errado. Lembre-se de que a sua tendência carnal é justamente transformar a Bíblia naquilo que você quer que ela seja. Submeter-se à autoridade da Bíblia significa também buscar o significado dela com paciência, humildade e cautela.

Observe também o gênero literário do texto. Ora, a Bíblia tem narrativas, exposições de doutrinas, profecias, poesias e cartas pessoais, e eles não podem ser todos lidos da mesma forma. Narrativas não são fonte de doutrinas, mas sim exemplos vívidos da aplicação ou rejeição de doutrinas expostas em outros lugares. E elas são, frequentemente, exemplos negativos. Poesias não são literais e imperativas como textos doutrinários, mas são belas pela sua capacidade de ilustração. Profecias pretendem ensinar, primariamente, sobre o objeto direto delas. Pense, reflita sobre as intenções do autor. Cada texto, com sua linguagem, tem um propósito, e você deve desvendar qual é. Não é difícil, só requer um certo trabalho maior do que ler e ficar esperando Deus soprar a cola.

Pois é, muitas pessoas pensam que é só ler o texto e orar para Deus dar o entendimento e pronto. Claro, é necessário que o Espírito ajude a interpretar. Mas o Espírito não vai falar toda o significado “mastigado” pra você. Ele vai, principalmente, dar a você humildade para se submeter ao significado do texto que não convém aos seus interesses. Vai também aumentar sua vontade de entender, seu amor pela Palavra. Mas não despreze aquilo que o Espírito já fez – guiou a história para que muitos outros homens entendessem, estudassem e publicassem o que eles aprenderam com a Bíblia. Leia sobre a história da Igreja, leia pensamentos de teólogos referendados, compre um bom comentário bíblico e Bíblias de estudo. Você não é humilde quando despreza tudo o que homens brilhantes aprenderam e tenta extrair diretamente de Deus tudo o que você quer. Oriente-se segundo o princípio de que Deus não vai lhe falar o que ele já falou e você não quer buscar. Pense em Deus falando “Pare de me perguntar e vá ler!”.

Só mais um ponto importante. Geralmente, as pessoas vão à Bíblia buscando respostas imediatas para suas questões existenciais e morais. Querem aprender princípios de vida, regras divinas, “o que esse texto me ensina que eu devo ou não devo fazer”. Saiba, porém, que tudo isso é secundário. O mais importante para se buscar na Bíblia é o que tal texto pode me ensinar ou ilustrar sobre Jesus. Como Jesus cumpriu esse princípio moral e como ele me ajuda? O que esse texto tem a ver com a sua obra? Jesus é o centro da Bíblia. Não ignore a pessoa de Jesus e o seu evangelho ao tentar aplicar um texto em sua vida.

André Duarte