quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PRC 5 – Música no louvor – Parte 1/2 - Sobre as letras


            1. Expondo o problema.

Vamos passar agora a esse tema tão complexo da música no culto público, chamada comumente de “louvor”. Talvez não haja nada mais paganizado na liturgia dominical do que o elemento da música. E não é difícil entender o porquê. Música é um dos maiores ídolos da humanidade, sempre foi. A música sempre serviu como meio de expressão subjetiva, como uma arte que atinge as profundezas da alma como nenhuma outra. Porém, desde a revolução do Rock, a música atingiu um nível de influência astronômico, quase que de governo sobre o pensamento humano, por causa da mistura com a indústria, o consumismo e a ideia de liberdade de expressão. E, sendo a música também um elemento de culto público ordenado por Deus nas Escrituras várias vezes, uma batalha pela pureza do culto foi travada, uma batalha teológica, que deveria “distinguir o santo e o profano”. Os evangélicos, infelizmente, foram devastados nesse embate, absorvidos pelas bases mundanas. Ainda que muitos deles ainda entendam que deve haver base bíblica para as orações, a pregação da Palavra e os sacramentos, quase nenhum aplicará o mesmo à música. Dirão, ao contrário, que, na música, o que importa é o coração, a intenção, e que qualquer regra que porventura os tempos mais sábios já impuseram à música é mera norma de cultura.
           
O mais estranho é que ainda existem vários evangélicos que tentam colocar normas na música, mas as normas erradas. Misturam legalismo com mundanismo em um raciocínio praticamente sectário. A mais comum, penso eu, é a distinção maniqueísta entre música de louvor e música do mundo. Músicas que falem de Deus são liberadas, e músicas laicas são todas pecaminosas. Augustus Nicodemos apontou com maestria a inconsistência dessa regra carnal. Se música produzida por artistas mundanos é um pecado, então todas as outras produções mundanas também devem ser: logo, não podemos usar roupas, nem comprar comida, nem habitar em lugares feitos por mundanos. Isso torna a vida impossível. Se música mundana é a que expressa valores mundanos, então quase todas as músicas gospel devem ser também execradas por suas heresias. Além disso, todo tipo de lazer deveria ser também proibido, pois todos eles refletem algum grau de mundanismo. Porém, as Escrituras comandam o lazer com vistas à glória de Deus (Ec 9:7-10), e de forma alguma encorajam esse ascetismo maniqueísta grego (1Co 5:9, 10; Cl 2:20-23). Naturalmente, espera-se que o cristão não se divirta com músicas que encorajam o pecado, mas criar regras que façam esse tipo de distinção entre coisas de Deus e coisas do mundo é moralismo de gente imatura.

A distinção é, mais uma vez, entre os pressupostos do culto particular e os do culto público. No culto particular, podemos inventar o que quisermos que não seja transgressor para glorificar Deus. No culto público, devemos nos ater ao que a Bíblia manda e não trazer as coisas mundanas. Porém, vou mais longe e afirmo que há certas coisas muito comuns na música evangélica que são erradas em qualquer dos cultos. É óbvio que músicas com letras hereges são pecaminosas em toda circunstância. São inumeráveis as músicas gospel que são autocentradas, lançam ao chão a soberania e a santidade de Deus e tornam-no um terapeuta bobo, um namorado ou um Papai Noel. Ora, se ninguém pode glorificar Deus cometendo prostituição, por que alguém pensa que pode fazer isso usando em vão o nome dele, dizendo mentiras sobre o seu santo nome? E, tal qual os falsos profetas e blasfemos eram punidos com morte na Bíblia, também qualquer artista gospel que espalhe mentiras sobre Deus não deve ser apoiado pelo povo de Deus, mas sim excomungado e declarado anátema (já que homicídio é pecado e o Estado, único ente que poderia aplicar a pena de morte bíblica, não faz isso). Deixo pra vocês ruminarem as consequências disso.

2. Sejam as letras ditadas pela Escritura e pela reverência.

 Como sabemos que os cânticos fazem parte do culto público? Em primeiro lugar, Davi instituiu sob inspiração divina o ofício de músicos para um certo grupo de levitas (1Cr 25). As músicas que eles executavam eram os salmos de música que se encontram no livro dos Salmos. Asafe e Hemã foram dois proeminentes compositores. E os próprios salmos conclamam o povo para participar dos cânticos. É indubitável que as músicas eram parte do culto no templo de Jerusalém. No Novo Testamento, embora o templo e o ministério dos levitas tenha cessado – sim, não existem mais levitas na Igreja – a prática de cantar salmos continuou (Ef 5:19; Cl 3:16; cf. também Tg 5:13). Isso é suficiente para provar que a música é necessária no culto público.

Sobre o quê eram os cânticos? Quais eram as letras? Já vimos que os salmos eram usados na música. Os puritanos mais conservadores, por causa disso, pregam a salmodia exclusiva: que somente os salmos, e todos os salmos, devem ser cantados na Igreja. A composição espontânea é proibida. Afinal, a Bíblia nunca autorizou pessoas não inspiradas por Deus para compor seus próprios cânticos espirituais e colocá-los na Igreja; em lugar disso, o Espírito concedeu esse maravilhoso livro de salmos. O argumento é bom e tem muitas consequências positivas: a entrada de letras hereges fica impedida com maior eficiência, a conservação e o equilíbrio dos temas das letras ficam bem próximos do que a Bíblia ordena, e outras. Ainda assim, deve-se perceber que nem todos os salmos bíblicos são feitos especialmente para serem cantados. Muitos são orações, outros são ensinos sapienciais. Vemos vários cânticos na Bíblia que não são salmos (por exemplo, o Magnificat de Maria). Embora eles sejam inspirados e não equiparáveis a composições não inspiradas atuais, fica difícil arrazoar que outros cânticos além dos salmos não eram cantados pela Igreja. Além disso, a metrificação dos salmos acaba por transformá-los em músicas que se parecem com eles, mas que não são realmente os próprios salmos exatos. Portanto, se a metrificação é uma atividade não inspirada em cima dos salmos, fica incoerente proibir que haja composições cujos versos sejam também extraídos das Escrituras inspiradas.

Ora, há tantos cânticos no livro dos salmos, inspirados, inerrantes, perfeitos, entregues por Deus para que o seu povo cante a ele! É um pecado negligenciá-los. É uma desonra omiti-los. Os salmos devem sim ser cantados pela Igreja. Assim como Deus inspirou orações para nos mostrar como orar, também ele inspirou músicas para nos ensinar a cantar. Muitas igrejas praticamente abandonaram os salmos, e isso é terrível. Que músico pode arrogar que suas composições são melhores do que as de Deus? Se alguém quiser compor músicas, que extraia das palavras das Escrituras as letras. A criatividade é perigosa nesse ponto. Músicas de louvor não podem ter como base a expressão subjetiva do que o homem sente sobre Deus. Devem ser declarações verdadeiras a respeito de quem Deus é e do que ele faz por nós na providência e na redenção. Elas devem expor a majestade de Deus e a fragilidade do homem, e não o fervor do homem e a doçura de Deus. As letras mundanas, com seu sentimentalismo hollywoodiano, tornaram-se fonte de inspiração, mesmo que inconsciente, para os músicos crentes. Muitas músicas gospel são praticamente declamações apaixonadas por um namorado. Ou petições a respeito de sentimentos e liberdade de expressão, que, misturados com a Bíblia, resultam em coisas estranhas. Não interessa se você quer dançar na chuva ou sentir o fogo – essas coisas não são bíblicas.

O que as letras dos salmos dizem sobre Deus? O que os cânticos de Moisés, Débora, Davi, Maria e Zacarias dizem? Não devem esses temas ditarem o que cantamos? Como não cantar sobre Cristo, sobre a salvação e graça soberana do Senhor? Por isso, Paul Washer já disse que os músicos crentes que atuam no culto devem ser bons de teologia. Se os músicos passarem mais tempo lendo a Bíblia e outros livros teológicos e menos tempo tentando expressar os seus sentimentos ao som do violão, conseguirão produzir músicas corretas.

3. Sejam as letras ditadas, secundariamente, pelo princípio da edificação mútua.

Não basta que as músicas no culto público usem palavras da Escritura. Os versos devem tomar temas relevantes para o propósito do culto dominical, e não aqueles que, fora de seu contexto, destroem e não edificam. Um exemplo bem simples: a famosa música de prosperidade que segue Deuteronômio 28 e outras bênçãos da Lei bem de perto, dizendo que os celeiros se encherão, que possuiremos qualquer lugar onde pisemos os pés, etc. Essas coisas são bíblicas, mas não são adequadas para a canção na Igreja. Fora de seu contexto, viram teologia da prosperidade, o maior horror de nosso tempo. Essa música torna-se um cântico que só louva o próprio homem e aplica de forma errada as bênçãos prometidas por Deus (as bênçãos materiais da Lei são prometidas para a nação, e não para o nível individual). Também transgridem esse princípio todas as músicas que falam sobre coisas transitórias do Antigo Testamento – arca, Santo dos Santos, etc – e sobre metáforas vagas. Nisso, as músicas gospel são mestres. Isto é, Jesus compara o Espírito Santo a rios de águas vivas. Aí, o músico gospel compõe uma música que só fala de água, e nada de Deus. Isso é totalmente inadequado. Metáforas bíblicas nunca são usadas sem explicação e como centro de uma exposição; são meramente incidentais. São usadas para clarear o entendimento teológico. Nas músicas gospel, em vez disso, só obscurecem o significado espiritual e tornam-se balbuciações vagas pelo povo de Deus.

Além disso, os cânticos devem cantar sobre Deus e sua salvação. É isso que celebramos no culto dominical. Dessa forma, estão também proscritas as músicas que exaltam personagens e narrativas bíblicas. No culto, nós vamos cantar sobre Jesus Cristo, e não sobre Josué, Davi ou Abraão. Embora músicas sobre personagens bíblicos sejam boas para instrução em outros contextos, não correspondem à finalidade do culto público. Consequentemente, não atendem ao princípio da edificação mútua. Por quê? Não podemos aprender com o exemplo dos “heróis da Bíblia”? O ponto é que o propósito deles na história bíblica nunca foi servir de exemplo público. O nosso único inspirador e exemplo deve ser Jesus Cristo, e a história desses homens é sobre o que Deus fez por eles, e não sobre o exemplo próprio. É tolice cantar sobre pecadores salvos em lugar de cantar sobre o Salvador. Não é para eles o culto, não é sobre eles, mas sim para e sobre o Senhor.

Por fim, as letras de músicas devem ser, além de ortodoxas, profundas e instrutivas. Os cânticos são declarações artísticas sobre verdades de Deus. Eles devem conter teologia dita de forma simples, mas profunda, que realmente inspire a congregação a apreender no coração a revelação bíblica de Deus. Isso é edificação espiritual. Pensar que edificação é fazer o povo chorar e se emocionar é tolice, é doutrina mundana não bíblica. Edificação tem a ver com fé e com aprendizado, não com provocar expressões emocionais. Com isso, não negamos a emoção, mas a colocamos no lugar certo: como resultado da verdade crida e amada, e não como sinal de devoção. Emoções só duram um instante, mas a crença na verdade é perpétua.  Colocar letras emotivas e não instrutivas é como colocar um vácuo na adoração.

O próximo post tratará das outras coisas: estilo de música, papel da equipe de louvor, etc.

André Duarte

domingo, 24 de novembro de 2013

PRC 4 – Oração pública


            Vamos agora aplicar os princípios já colocados aos elementos de culto que a Bíblia autoriza. Só para relembrar em poucas palavras, os princípios são: regulamento claro das Escrituras; reverência; ordem e decência; uso de palavras, especialmente as palavras da Bíblia; relevância para a edificação coletiva. Antes de começarmos a entender como deve ser a oração no culto público, é necessário dedicar um pequeno espaço para o esclarecimento das coisas que pertencem à categoria do adiaphora.
           
Esse termo grego adiaphora – ou simplesmente adiáfora, pela transliteração – significa indiferente, ou insignificante, coisa que não é proibida nem permitida. Ora, já deixamos claro que os elementos de adoração são regulados expressamente pela Escritura e que a adição de elementos humanos não autorizados é errado. O que podem ser, então, as coisas adiáforas? São aquelas que não configuram elementos de culto, mas sim circunstâncias em que a adoração é prestada. São as que tornam humanamente possíveis as formas de adoração, ou que, pelo menos, dão grande ajuda, sem tornarem-se propriamente adoração em si. Horário de culto, por exemplo. A Bíblia não diz a que horas deve começar e a que horas deve terminar o culto. Porém, se não houver nenhuma hora, não pode haver culto. Então, os representantes da Igreja devem escolher as horas com base na conveniência das circunstâncias. Ou então: deve haver assentos? Se sim, de qual tipo: bancos, cadeiras de plástico ou cadeiras comuns? Nesse caso, alguém até poderia inferir que as casas em que a Igreja se reunia na época do Novo Testamento certamente continham assentos. Mas, a Bíblia mesmo não diz nada. Porém, se não houver assento nenhum, o culto perde sua característica pública e torna-se inviável. Pois quantas pessoas podem permanecer em pé por pelo menos uma hora? E, dessas, quais realmente disporão seus corações à edificação no culto, em vez de desviarem a mente para as dores nas pernas? Assim, é sábio que haja assentos, e do tipo que atender melhor ao princípio da edificação mútua e pública.
           
Sobre a oração, quais coisas são adiáforas? Primeiro, algo que vale para todos os outros elementos: a ordem que ocupa entre os outros elementos. Isto é, a Bíblia não diz se a oração vem depois do cântico, se vem antes da pregação, se depois dos sacramentos. Mas ela deve existir em algum momento. Os representantes da Igreja, então, escolhem em que ordem a oração é feita. E são quantas as orações? A Bíblia também não diz. O único elemento associado diretamente à oração é o sacramento da ceia (1Co 10:16). Mas, há diversos conteúdos que devem estar presentes na oração pública, e muitos deles não têm qualquer relação com a ceia. Então, é bom que haja mais de uma oração, em momentos diferentes, de forma a abarcar todas as coisas essenciais pelas quais se deve orar. E por quanto tempo deve durar a oração? Naturalmente, não deve ser tão curta que omita um conteúdo importante ou que falhe em expressar as ânsias do povo. Por outro lado, não deve ser tão longa que eclipse a centralidade da pregação da Palavra, que seja insuportável para os membros manterem a atenção, que torne-se vã repetição e que perca o seu caráter público para transformar-se em uma expressão pessoal de quem estiver orando. Então, que os ministros que orarem sejam sábios quanto à administração dessas coisas.

            Passemos a pontos mais sérios. Quem deve realizar a oração pública? Naturalmente, todos os crentes são chamados a orar. Mesmo as mulheres, que não podem exercer ofício de ensino público, oravam juntamente com os homens (1Co 11:4, 5). Paulo diz à Igreja indistintamente para orarem sempre e com gratidão (1Ts 5:17, 18), e que os homens devem orar em todo lugar (1Tm 2:8). Agora, uma conclusão errada sobre essa verdade é que, na oração, todas as pessoas devem orar e falar ao mesmo tempo as suas orações particulares. Nas narrativas bíblicas, não vemos nem um único exemplo disso acontecendo; ao contrário, é uma só pessoa que ora enquanto as outras ficam em silêncio (2Cr 6:12-42; Ed 9:5-10:1), ou, dito de outra forma, havia uma só oração feita por várias pessoas (Ne 9:4-37; At 4:24-31). Isso implica em que a oração falada da Igreja deve ser feita por um representante do povo, e as pessoas devem orar em silêncio concordando com o que ouvem. À primeira vista, isso não parece ser uma oração coletiva. Fica a impressão de que uma pessoa orando e as outras ouvindo é como restringir a oração ao ministro e impedir os outros de orarem. Por outro lado, se todos levantarem a voz ao mesmo tempo, então a oração é participativa e, portanto, coletiva. Porém, quando isso é colocado em prática, vemos que é exatamente ao contrário. Pois, se todos oram em voz alta ao mesmo tempo, cada um com as suas palavras, então cada pessoa não entenderá a outra. Se ela prestar atenção na oração da outra, parará de atentar para a própria fala. Não haverá o “a uma só voz”. Em vez disso, o resultado será que cada pessoa orará individualmente, e a coletividade significará nada mais que a contingência geográfica. Será a soma de orações individuais, e não uma oração do povo de Deus. Essa forma de oração, portanto, não é mutuamente edificante, não expressa a união da Igreja e não é adequada para o culto público.

Se, ao contrário, houver uma só pessoa orando em voz alta e todas as outras concordando com o que é dito, então sim, todos oram juntos e com uma só mente e um só propósito. E essa oração deve ser representativa para a Igreja. O ministro que realiza as orações deve orar aquilo que for adequado para que toda a Igreja concorde. Ele deve, então, ser cauteloso para não colocar a sua subjetividade no centro das palavras, mas sim os assuntos comuns, que forem relevantes para a congregação. Que seja, portanto, uma só oração por vez. Existe apenas uma possibilidade para que todas as pessoas orem em voz alta juntas: por meio de um tipo de livro de orações. É o caso em que já existem orações prescritas, e a congregação lerá as palavras de cada oração em uníssono. Embora isso seja possível, é menos preferível do que a oração representativa. Pois orações fixas e preordenadas frequentemente falham em expressar os motivos do povo de Deus relacionados às circunstâncias, que são bem flexíveis. A oração representativa pode ter essa flexibilidade, nuances que se adequam melhor à circunstância de cada dia. É possível colocar orações prescritas, mas elas não devem, de forma alguma, suprimir as orações representativas.

            Vamos agora ao assunto mais palatável: por que motivos deve a Igreja orar? Ao contrário da espontaneidade quase sem limites que vigora nas igrejas modernas, a Bíblia deixa bem claro quais motivos são legítimos e, inclusive, obrigatórios para serem levados à oração, e que tipo de motivo é proibido. Em Tiago 4, Deus proíbe que oremos por motivos egoístas e mesquinhos. Quanto aos ordenados, o que poderia ser melhor do que o livro de Salmos? Pense que Deus não apenas comanda o seu povo para que ore, mas que também entregou as palavras que ele quer que usemos, e os assuntos que ele deseja que tragamos. As orações nos salmos declaram quem Deus é: sua eternidade, sua soberania, sua santidade, sua justiça, sua misericórdia, sua providência, seu poder criador e redentor. Há muitos agradecimentos por livramentos, dos quais o central é o que hoje sabemos: a libertação que Cristo efetuou na cruz para nós. Há também gratidão pelas bênçãos particulares e históricas do Senhor: o que ele já fez pelo seu povo, acontecimentos especiais, eventos importantes, pequenas graças que ele nos concede diariamente. E há confissão de pecados diversas vezes, com o reconhecimento de nossa miséria e com a certeza da misericórdia de Deus.

            Além desse livro maravilhoso de orações e cânticos, Jesus ainda nos deu a Oração Dominical, a qual Martinho Lutero disse amar mais do que a todos os salmos juntos. Sabemos que essa oração nos é dada para o culto público por causa da introdução “Pai nosso”, algo que ficaria estranho se aparecesse em uma oração particular. Nela, aprendemos que devemos orar pelo reconhecimento da santidade do nome de Deus em toda a terra e em nossas vidas; pela expansão do Reino de Deus e pela derrota do reino de Satanás; pela rendição de todos os seres da terra à vontade perfeita de Deus; pela provisão básica de que precisamos diariamente; pelo perdão de nossos pecados e pela capacitação para o perdão ao próximo; pelo livramento de pecados posteriores. Cada petição da Oração Dominical pode ser desdobrada em inúmeras especificidades. Por exemplo, a petição do “Santificado seja o vosso nome” inclui: o sucesso das obras missionárias, o amadurecimento do povo de Deus, a tradução de Bíblias para diversos idiomas, o arrependimento dos inimigos da Igreja etc. E assim por diante.

            Mas ainda há mais. Os apóstolos adicionam outros motivos importantes da oração pública. Os ministros devem orar em favor dos doentes (Tg 5:14), em favor do alívio das ansiedades da vida do povo (Fp 4:6), pela intrepidez na pregação do evangelho (At 4:29), por causas particulares de indivíduos em circunstâncias especiais (At 12:5; Rm 15:30; Ef 6:19; Hb 13:18 etc), pela coragem diante do fim do mundo (1Pe 4:7), pelo envio de missionários (At. 13:3), pelos governantes civis (1Tm 2:1, 2; cf. também Ed 6:10). Esse último motivo é interessante para nós que vivemos em Brasília, sede do governo. Dos crentes que reclamam do governo e da corrupção, quantos têm o hábito de orar sobre essas coisas?­ E quantas vezes vemos os pastores orando com a Igreja pela justiça civil? Um dos melhores testemunhos da Igreja perseguida por Roma foi o hábito de que ela orava pelo imperador. Tertuliano usou esse argumento na sua apologia. E é um motivo importantíssimo a oração pelos governantes, porque deles dependerá a paz da Igreja.

Faltou fazer algumas aplicações mais pontuais dos princípios. A oração deve ser feita com sobriedade e seriedade. Nada de fazer piadinhas na oração. Também a fala com Deus deve ser permeada por um senso de submissão e respeito. Jesus é nosso amigo, mas é Rei e Senhor. Para quem não consegue conjugar bem a segunda pessoa, que se dirija a Deus com o termo “Senhor”. Chamá-lo de “você” é uma intimidade que, ao meu ver, é exagerada, pelo menos para a solenidade do culto público. O termo mais íntimo que ele nos concedeu para que o chamemos é “Pai” e devemos encontrar nisso o limite. Outra aplicação do princípio da edificação mútua é que o pastor não pode orar “em línguas”. Essa mania carismática deve ser execrada, pois é uma transgressão explícita de todo o argumento de 1Coríntios 14. De fato, não há nenhuma diferença entre o pastor pentecostal que ora em línguas e o padre medieval que prega em latim.

Por fim, a Igreja pode ter a confiança e a ousadia de orar a Deus porque Jesus Cristo nos tornou apresentáveis à presença dele, por meio da imputação dos seus méritos e da dádiva do livre acesso ao trono da graça (Hb 10:19-22). É isso que significa orar “em nome de Jesus”: orar com base na obra de reconciliação e purificação realizada por ele. Se orássemos em nosso próprio nome, seríamos amaldiçoados, pois Deus detesta a prece do ímpio (Pv 15:29; 28:9). E, se falhamos em orar segundo o padrão de Deus, temos o conforto do Santo Espírito que nos auxilia na intercessão (Rm 8:26, 27). E o próprio Cristo intercede continuamente diante do Pai em nosso favor, apelando ao seu sacrifício único. Que a Igreja tenha certeza de que, sempre que ela orar, toda a Trindade estará envolvida nessa atividade. E nisso nós podemos descansar.


André Duarte

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PRC 3 – Palavra X Imagem


            Temos este último post básico antes de passarmos aos elementos específicos do culto. Já vimos a distinção entre o culto particular e o público, e que o culto público deve ser marcado por reverência e solenidade em todos os seus elementos. Agora, vamos esclarecer mais um princípio geral do culto: ele deve ser essencialmente verbal, e não pictórico. Em resumo: o culto público deve ser prestado com palavras, especialmente com a própria Palavra de Deus – lida, declarada, cantada e pregada –, e não com elementos icônicos não-verbais.
           
1. Seja a palavra a forma de comunicação no culto.

Por que a comunicação do povo com Deus no culto deve ser verbal? Uma análise holística da Bíblia demonstra que a palavra “Palavra” é uma palavra-chave (yo dawg!) para o entendimento da relação de Deus com o homem. A palavra é a maneira principal e ordinária com a qual Deus se revela ao homem, e também a maneira como ele exige que respondamos. Antes da queda, Deus simplesmente falava ao homem, e o homem falava a Deus. Não havia imagens, cerimônias nem nada desse tipo. Porém, após o homem cair e se afastar do conhecimento da verdade, Deus instituiu ícones cerimoniais para ilustrar ao povo realidades sobre o Messias vindouro, aquele que restauraria o que Adão perdeu. Por isso, o culto do Antigo Testamento continha objetos sagrados, símbolos visíveis, um cenário específico, roupas que comunicavam significados. Todas essas coisas palpáveis, que apelavam a vários dos sentidos, foram encerradas na obra de Cristo. Por isso, a adoração é hoje em Espírito e em verdade: porque não precisamos mais de símbolos do que é espiritual, mas recebemos plenamente do próprio Espírito para adorar o Pai. (Os sacramentos são uma exceção que pertencem a outro post.) Jesus Cristo é o sumossacerdote eterno, o último e suficiente sacrifício, a água purificadora, o templo de Deus etc. E mais uma coisa é dita sobre ele: ele é a Palavra de Deus. O Filho de Deus é a Palavra pela qual o Pai criou o mundo, sustenta o universo e revela a si mesmo aos homens. Como Palavra divina, Jesus exerce seu ofício de profeta. Ele é a imagem de Deus – sim, a única e última imagem que realmente expressa o ser de Deus (Cl 1; Hb 1). E, pela sua doutrina e seu ensino, pelas Escrituras que testificam sobre ele e pela instrução do Espírito, ele permanece sendo a Palavra de Deus em nós.

         Tudo isso foi dito para deixar claro que a maneira como Deus quer ser adorado é por meio da palavra. A Palavra é o mediador entre nós e Deus. É por meio da Palavra divina que prestamos culto a Deus. Visto que Cristo é a Palavra encarnada e a Bíblia é o testemunho fidedigno sobre ele, segue-se que é por meio da Palavra escrita que, na dimensão dos sentidos, o culto deve ser prestado. Digo isso porque, no plano espiritual, é Cristo que faz a mediação. Porém, no plano físico, precisamos usar a Palavra que Deus nos deixou acessível nesse plano, e que corresponde à revelação de Jesus. Portanto, são inseparáveis Jesus e a Bíblia, de sorte que ninguém deve pensar que realmente adora o Pai por meio de Cristo se não usar para isso a Bíblia. Todos os símbolos e elementos de imagem somente fizeram parte do culto temporariamente, para ilustrar o que viria, mas essa não é a forma ordinária segundo a qual Deus ordena o culto. Nas palavras de Jesus: “No princípio, não era assim”.

            A Bíblia é a Palavra de Deus, e é uma palavra verbal. Calma, já explico essa aparente redundância: biblicamente, nem toda palavra de Deus é verbal no sentido a que estamos acostumados. Um exemplo é o próprio Jesus: ele é a Palavra de Deus, mas é um ser pessoal, com corpo e Espírito, não um conjunto de letras. Talvez seja o único exemplo. Mas o ponto é que a Palavra de Deus revelada na Bíblia é um conjunto de textos, frases, palavras, livros. Não é uma revelação em imagens, em esculturas ou em gifs. E é utilizando essas palavras que devemos prestar o culto a Deus. Qual é a implicação disso, na prática? É que os elementos do culto devem ser verbais, e mais do que isso – devem derivar das Escrituras o seu conteúdo verbal. Veja o que aparece no culto do Novo Testamento: oração, ensino e leitura da Bíblia e cânticos – todos elementos verbais regulados pelas Escrituras. E nenhuma dessas coisas é adornada por imagens.
           
2. Sejam proscritas as comunicações por imagens:

-Católicas romanas ou gregas: Quando pensamos em imagens no culto, talvez o mais óbvio exemplo sejam os ícones católicos: estátuas de santos e anjos, o crucifixo, as vestes sacerdotais dos padres, os vitrais e todos os adornos desse tipo. Até hoje, as duas igrejas católicas – a do Ocidente e a do Oriente – seguem a tese de João Damasceno, teólogo do oitavo século, de que imagens são obrigatórias no culto, por derivarem do princípio da encarnação: tal qual adoramos Deus Pai por sua imagem, que é Jesus, também devemos adorá-lo por meio de imagens de santos, visto que homens são também imagem de Deus. Logo, negar o uso de imagens no culto é negar a encarnação de Cristo. Não é necessário gastar tempo apontando as muitas falácias dessa heresia. A Bíblia deixa claro que Jesus é a única imagem que expressa perfeitamente o ser de Deus. E a ordem de Deus é: não fazer imagens nem dele mesmo e nem de qualquer criatura na terra, o que inclui os mais santos homens. Cristo é a única imagem de Deus que não é uma criatura. A aplicação maior desse mandamento, como as confissões reformadas reconhecem, é que Deus deseja manter íntegros todos os elementos que ele prescreveu para o seu culto. E o exemplo maior que ele dá é a repugnância ao uso de imagens. As imagens podem ser belíssimas e impressionantes aos olhos carnais. Eu mesmo amo vitrais. Mas que essas coisas não existam no culto público, e que nem sejam superestimadas no culto particular a ponto de obscurecerem a revelação principal de Deus, as Escrituras.

-Judaicas: Um grande número de igrejas neopentecostais têm flertado com o judaísmo de maneira doentia. A teologia dispensacionalista que elas adotam demonstram bem isso. Muitos pensam nos judeus como “quase irmãos”: já seguem a Bíblia quase toda, só falta Jesus. E nisso confundem judaísmo com a religião do Antigo Testamento. Mas não é a mesma coisa, de forma alguma. Judeus só se aproximam do Antigo Testamento por meio do Talmude, o livro de tradições rabínicas, e não compreendem em nada o verdadeiro sentido do Antigo Testamento. Pois o Novo ilumina o Antigo. Esse flerte com o judaísmo e essa confusão das religiões têm afetado seriamente a teologia de culto da tais igrejas. A consequência é que o culto fica cheio de imagens do Antigo Testamento: uma “menorá” no fundo do edifício (o candelabro de sete braços); uma procissão de “levitas” trazendo a “arca da aliança” (igualzinha à que aparece no filme do Indiana Jones, por sinal); às vezes um véu entre a arca e o público etc. Por mais que respeitemos esses elementos em seu lugar adequado – no Antigo Testamento, para prefigurar a realidade em Jesus –, devemos execrar por completo a continuidade dessas coisas no culto. Trazer para a prática atual os elementos transitórios da Lei é uma forma de legalismo, contra a qual os apóstolos se levantaram no Concílio de Jerusalém. Muitas das cartas de Paulo são duras a esse respeito, como a carta aos gálatas. Prestar culto a Deus por meio dessas imagens é despojar Jesus de sua majestade, é afirmar que o Messias nem veio. É adorar o que não se conhece (Jo 4). Uma blasfêmia desorientada.
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-Evangélicas: Nem todas as igrejas neopentecostais usam imagens do judaísmo. E, obviamente, nem todas as igrejas são católicas. Em vez disso, a maioria das igrejas usa tipos de imagens da modernidade, por influência não do judaísmo nem do catolicismo, mas do próprio mundo secular. A ideia é: vamos pegar essas coisas que existem no mundo e dar uma caracterizada gospel nelas. Devo dizer que essa mentalidade é a regra para igrejas novas; as que rejeitam tais imagens são chamadas chatas e preconceituosas. A que me refiro? Retornemos ao tema do primeiro post: o problema do entretenimento. A fim de tornar o culto mais parecido com o mundo, para que os mundanos gostem mais de comparecer à liturgia, vamos adorná-lo com elementos que apelam ao visual mundano. Em casos mais extremos, vemos igrejas enfeitadas com imagens laicas, sem conotação religiosa direta. No momento das músicas, por exemplo: efeitos de luzes coloridas, flashes e até fumaça. No sermão, o púlpito torna-se um banco como os de um bar, ou mesmo uma prancha de surf. O pastor se veste com uma fantasia bem descolada e jovial; ou mesmo com uma fantasia árabe. Imagens que comunicam não um culto a Deus, mas um culto aos mundanos; os visitantes pagãos tornam-se o centro e o propósito do culto. Algumas igrejas colocam a imagem do seu pastor no outdoor do edifício: o centro do culto é o pastor, nesse caso. Esses exemplos são mais pontuais (embora a parte da música seja mais complexa, e receberá mais atenção em outro post). Mas há outros dois exemplos que são encontrados em praticamente toda denominação evangélica: dança litúrgica e teatro.

A maioria dos que aprovam dança litúrgica no culto acreditam sinceramente que esse é um elemento autorizado pela Bíblia. Ainda que saibam que o culto deve ser regulado pelas Escrituras, entendem que a dança faz parte do que Deus se agrada no culto, por causa dos exemplos de Miriam e Davi. Quando alguém diz que a dança não deve ser parte do culto, a primeira resposta que vem à mente é “Mas Miriam dançou, mas Davi dançou”. E, para elucidar a questão, é necessário recordar a distinção básica entre o culto particular e o público. Miriam e Davi dançaram em seus cultos particulares. Miriam estava exultante pela libertação do Egito, e Davi estava alegre pelo retorno da arca ao tabernáculo. Sim, dançar é muito bom, dançar pela honra de Deus é aprovado biblicamente. Mas os exemplos de Miriam e Davi não justificam a dança no culto público. São exemplos pontuais que ocorrem fora do contexto do culto litúrgico. Davi dança por todo o caminho, mas não há nenhum registro, nem na Bíblia nem nas tradições judaicas, de que houve dança no culto do tabernáculo e do templo. Muito menos no Novo Testamento, e nunca na história da Igreja, até esse século de sincretismo. Muitos salmos são escritos como ordens para o povo de Deus fazer tal ou qual coisa no culto do templo, mas nenhum fala da dança (os poucos que falam da dança fazem-no no contexto de culto particular, como uma exegese cuidadosa provará).

A dança não comunica nada verbalmente – e a maioria não comunica realmente nada e limita-se à exibição de talento. Por falar em exibição, caso as dançarinas sejam ingênuas a esse respeito, quero afirmar que os homens da congregação são levados a admirar os corpos delas e desviar a mente de Deus. Pedro instrui as mulheres a irem à igreja com vestes decentes e modestas. Isso é bom, para que os homens não sejam incitados a pensamentos inconvenientes. Mas a dança é igualmente provocante. Por mais que não seja sensual aos olhos do mundo, ainda assim bagunça os pensamentos dos homens. É mais fácil para um homem pensar “Hmm, com qual dessas varoas ungidas eu vou me casar?” do que concentrar-se no ser de Deus. A disposição imaginativa masculina é um pouco mais cortante do que as moças ousam especular. E, cá entre nós, só os parentes das dançarinas gostam da dança. A maioria dos membros sai do culto rindo da desajeitada e da gordinha. Não é isso que queremos num culto congregacional. Contrária à edificação mútua e sem autorização bíblica, a dança litúrgica deve ser proibida. Enfatizo que a dança no culto particular é permitida, inclusive com músicas laicas e em lugares laicos, como discotecas (porque “boate” é um termo muito escandalizante). Com sobriedade e domínio próprio, dançar é louvável. Mas, no culto público, é errado.

Sobre o teatro, não há muito o que comentar. Se retirarmos os elementos icônicos – a atuação, o cenário, os personagens – e deixarmos só o elemento verbal da fala, temos uma pregação em vez de um teatro. Naturalmente, o teatro não é autorizado pela Bíblia. Na sua esfera profissional de culto particular, pode fazer teatro o quanto quiser. No culto, não. E é bom lembrar: nem mesmo para propósitos evangelísticos. É comum que o teatro seja um encorajamento para os membros da igreja convidarem mundanos. O convite é “vamos assistir a uma peça”. E os mundanos vão, porque eles gostam de ir ao teatro e assistir a espetáculos em suas vidas laicas. Neste ponto, espero não ser redundante, e acho que já dá pra adivinhar o problema aí: mitigação da exposição da Palavra, centralidade no mundano e exibição artística supérflua, que atrai também atenção ao artista, e não a Deus.

3. Conclusão.

Este é o terceiro post básico sobre o PRC. Até aqui, foram esclarecidos os princípios que definem o culto público e que dão forma a tudo o que é feito nele. Os próximos posts serão mais específicos e aplicarão esses princípios com mais detalhes em cada um dos elementos de culto: oração, cânticos, leitura e pregação da Palavra, declaração de fé e administração dos sacramentos.

Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. E o evangelho é o centro da Palavra de Deus. Se crermos nisso e em tudo o que isso implica, entenderemos que é tolo confiar em qualquer outra coisa além do evangelho para que alguém creia. Confiar em teatros, danças, shows, cenários e piadas é um desvio da fé no evangelho somente. Não há carência alguma no evangelho para que ele precise ser adornado. É essa verdade que nos impedirá de especular “o que mais podemos fazer de diferente, para que os mundanos nos ouçam, além de pregar o evangelho” e que nos manterá apaixonados e zelosos pela verdade da salvação em Cristo.


André Duarte

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 4: O Sexo Pré-Marital



Seguimos então com a série sobre relacionamentos conjugais à luz da Escritura, e o tema de hoje é um bem discutido no meio cristão: o sexo pré-marital, o sexo antes do casamento. Vamos retomar algumas coisas dos posts anteriores, e discuti-las sob esse espectro da discussão, para melhor desenvolvimento da exposição.

Primeiramente, eu gostaria de rever um conceito que foi colocado anteriormente, a saber, que o Casamento é uma aliança que reflete a união de Deus e Seu Povo, de Cristo e a Igreja. Nós somos imagem e semelhança de Deus e isso se estende também para o pacto familiar, a aliança do Casamento, refletindo o relacionamento de Deus conosco. É um pacto, uma aliança, que é algo que oferece benefícios e exige responsabilidades.

Em relação a Deus e Seu Povo, temos a máxima que representa a questão de como se dá a aliança: “Eu serei o seu Deus e vós sereis Meu Povo” (Jr 30.22; Lv 26.12; Jr 11.4). Deus, no Antigo Testamento, tem a iniciativa de propor uma aliança a Israel. Ele seria o Deus deles, os guiando, protegendo, e fazendo-os prosperar sobre a terra, desde que eles O obedecessem (Dt 28.1). Há esta reciprocidade. Os benefícios desta união se dão na manutenção da mesma, crivada pelos próprios mandamentos de Deus. No Novo Testamento, na passagem de Efésios (Ef 5.22-33) mostra a analogia entre o homem e a mulher no Casamento com o relacionamento de Cristo e a Igreja: o homem, e Cristo, se dão pelas suas noivas – futuras esposas-, as cuidam, as amam, e as noivas (a mulher e a Igreja) obedecem seus noivos –futuros maridos- em submissão e amor. Ainda sobre o Novo Testamento, é curioso notar que se diz que a Igreja é a noiva de Cristo. Eles ainda não casaram, por assim dizer. A consumação deste casamento se dará nos Novos Céus e Nova Terra completos, depois do Juízo Final. Então, naquele dia glorioso, teremos a plenitude dos benefícios dessa aliança, o regozijo eterno e profundo com Deus.

Da mesma maneira, o Casamento é a Aliança pela qual se pode obter a plenitude das bênçãos estabelecidas para o relacionamento conjugal entre homem e mulher. E o sexo é uma delas, pois é o ápice da intimidade física, reflexo do ápice da intimidade que teremos com Deus no mundo vindouro, onde ele será tudo em todos (1 Co 15.28). No Casamento é onde se cria uma família (Gn 1.28), uma aliança se forma, ali se fundamenta todas as responsabilidades de um homem para com a mulher e vice-versa. É no Casamento que se tem a totalidade da intimidade com a outra pessoa, de modo que são uma só carne (Gn 2.24). Num namoro não se deve ter essa intimidade, tampouco no Noivado, pois é reservado àqueles que se uniram de modo análogo a União de Deus e Seu Povo que se consumará no fim dos tempos. Um namoro pode acabar, assim como um Noivado, mas o Casamento de um homem e uma mulher tem que ser igual ao Casamento de Deus e Seu Povo, que será indissolúvel e eterno. Assim, o sexo, a maior intimidade para com o outro só é possível com a maior das Alianças, o Casamento, entre um homem e uma mulher, tal qual será a intimidade entre Deus e Seu Povo no Casamento glorioso que há de vir.

Há quem diga, então, que o sexo é o selo do Casamento, ou mesmo o próprio Casamento. Dizem que “cerimônias religiosas” não contemplam os episódios bíblicos tampouco os mandamentos que concernem ao Casamento e sexo; que é uma invenção humana. Assim, estariam desimpedidos de terem relações sexuais sem a necessidade de formar isso em um papel ou coisa do gênero. Entretanto, esse tipo de visão traz problemas horríveis, vejamos:

1.       Se sexo fosse selo do Casamento, aquela primeira pessoa que alguém teve relações sexuais quando mais nova, de maneira imprudente e impensada, seria seu cônjuge. Assim, todo e qualquer relacionamento que se teria depois era nada mais do que adultério ferrenho e indiscriminado;
2.       Se sexo fosse Casamento, o pecado de fornicação seria inexistente. Se quisessem verter fornicação em adultério, concordando com o ponto 1, ainda assim teria problemas visto que em passagens como 1 Co 6, faz-se uma distinção entre fornicadores e adúlteros.
3.       Se sexo fosse selo de Casamento, casais que se unissem, mas não podem praticar o ato sexual (seja por alguma doença, acidente que debilitou, ou qualquer variável do gênero) não seriam casados de verdade, visto que o sexo é o selo necessário.

Isso, entre vários outros motivos, mostram que não somente a Aliança é diferente do sexo em si, mas que é a Aliança que faz o Casamento, não o sexo. Seria complicado pra alguém defender que não se pode fazer a aliança do Casamento sem que se pratique o ato sexual. Tanto que não poderia se dizer que um casal de idosos não são casados pela falta de sexo, mostrando que há algo que os mantém casados que não se define por sexo.

E, considerando as considerações anteriores, vimos que a intimidade completa se dá com uma aliança completa; assim como teremos nossa união e intimidade máxima com Deus no Casamento no mundo vindouro, a intimidade máxima, a saber, o sexo, entre homem e mulher se dá no Casamento, que é a Aliança análoga à Aliança que Deus faz conosco, Seu Povo.


Marcel Cintra

terça-feira, 12 de novembro de 2013

PRC 2 – Reverência X Entretenimento


        Tratemos agora da seguinte regra do culto público: a reverência. Um princípio tão central e tão repudiado abertamente nas pseudoigrejas atuais. Não que haja algo novo debaixo do sol, visto que até Charles Spurgeon, há mais de 100 anos, já alertava para o mesmo problema. Mas o império do entretenimento é mais forte agora do que jamais foi. Se o bondoso Jesus Cristo não nos tivesse garantido que as portas do inferno não prevaleceriam contra a sua Igreja, poderíamos ficar realmente desesperados diante desse monstro secular, obeso que está de tanto engolir igrejas. Entretenimento é o deus deste período, e tem sido adorado em falsas igrejas no lugar do Deus verdadeiro, que exige reverência e temor no seu culto.
           
Há algum problema com o entretenimento no culto particular? Certamente que não. Divirta-se, assista a filmes, jogue Playstation, pratique esportes, dance e festeje com seus amigos, tudo em gratidão a Deus por essas pequenas dádivas que ele concede aos corações dos homens. Por que não? A diversão faz parte do domínio do homem sobre a criação, da exploração do que Deus criou para a glória dele. Deixar de se divertir é um pecado, inclusive. As pequenas alegrias da vida são um fruto do trabalho do homem, um presente de Deus, e ninguém deve negá-los. Mas o culto particular não deve ser confundido com o culto público. Não apenas não encontramos nada na Bíblia que apoie o entretenimento no culto público, como também encontramos uma exigência que lhe é incompatível, a reverência. Que Eclesiastes 5 nos ensine.

            Diz Salomão “Guarda o pé quando entrares no santuário de Deus”. Embora, no contexto, ele esteja falando do culto no templo de Jerusalém, permanece o princípio desse temor sempre que a Igreja se reunir para cultuar no Dia do Senhor. Ele explica logo adiante a razão da reverência: Deus está no céu e tu, na terra. A grandeza de Deus, sua soberania, seu poder incomensurável e sua santidade absoluta – essas coisas devem inspirar em nós a reverência. Quem trata culto como brincadeira não tem ideia do Deus que diz adorar. Pense que Deus criou cada uma das estrelas com uma só palavra. Ele as chama e conhece pelo nome (Is 40), todas elas. Cada uma delas, geralmente muito maior do que o sol. O número é indizível, visto que só na nossa galáxia existem mais bilhões de estrelas do que grãos de areia no planeta. E Deus criou cada uma, conhece cada uma. Seu exército celestial, o universo que ele criou presta a ele toda a adoração, toda a obediência (Ap 5). Ele é eterno, é o Princípio e o Fim. Ele rege os mares e os ventos, faz e desfaz o que bem entender. Domina sobre as nações e as vê como miniaturas. Você tem ideia de quem você está adorando quando presta culto com a Igreja? E ainda há um detalhe que Salomão não sabia: você tem a compreensão do que custou para que você, um verme imundo e cheio de mácula, pudesse apresentar-se diante de tal Deus sem ser consumido por sua santidade? Foi o Filho de Deus, o Deus encarnado, que tomou para si nossas manchas, morrendo em nosso lugar, para que pudéssemos adentrar no Santo dos Santos com intrepidez (Hb 9, 10). E você acha que o culto é pra fazer barulho e divertir?

            Que analogias poderiam nos ajudar aqui? Os que chamam o entretenimento de “Deus” conhecem bem as suas. Para eles, o culto ao Deus excelso é comparável ao futebol a que você assiste na TV. Ou ao show da sua banda favorita. Dizem que, se ficamos exultantes, extravagantes e gritantes ao ver nosso time fazendo gol, muito mais devemos pular e bancar os palhaços na presença de Deus. A ideia é que o entretenimento do culto particular é apenas um nível básico de entretenimento, e o Deus que dizemos amar acima de todas as coisas é o Sumo Entretenimento, naturalmente dependente dos pressupostos laicos sobre o que entretenimento significa. Já tive o desgosto de ouvir de pastores, mais de uma vez, essa comparação entre Deus e o futebol. Se isso não é idolatria demoníaca, não sei o que é. Esse tipo de blasfêmia apenas revela que o homem idolatra seus entretenimentos laicos, não que ele ama Deus. Porém, os que sabem que devem prestar reverência a Deus devem buscar analogias mais adequadas. Na verdade, a própria Bíblia nos oferece essas analogias. Veja o começo do profeta Malaquias, no qual Deus é o Sumo Pai, o Sumo Senhor. Veja o começo de Isaías 1, em que nós somos o boi estúpido e Deus é o nosso dono. E o que Daniel diz sobre Deus ser o Sumo Rei? Não é também isso que Paulo e João dizem – Rei dos reis, Senhor dos senhores? Não é Jesus designado o Sumo Juiz? Portanto, eis a analogia correta: se muito respeito, reverência e temor são prestados a essas autoridades terrenas, muito mais deve ser atribuído ao Senhor Deus do universo.

            Reverência, então, deve ser um princípio presente em todos os elementos de culto autorizados. A música deve ser executada com solenidade e respeito. As orações precisam ser cautelosas com as palavras. A pregação deve expor as Escrituras e o evangelho com todo o temor e consciência. Todas as palhaçadas e as extravagâncias estão vetadas. Sua vontade de se divertir e de expressar seus sentimentos de qualquer jeito não interessam. E deixe para colocar o papo em dia com seus amigos depois do culto.

            Eclesiastes 5 continua falando sobre o cuidado com a quantidade de palavras. Deus está no céu e tu na terra; por isso, fale pouco. Do muito falar, nasce a prosa vã do tolo. Isso significa que você simplesmente não pode sair se expressando de qualquer jeito no culto. O culto não é lugar para você desabafar seus sentimentos, contar suas histórias ou algo assim. É por isso que testemunhos pessoais não fazem parte do culto público. Não é qualquer um que pode falar em nome de Deus diante da assembleia. A mania atual de deixar o culto em liberdade pras pessoas falarem o que quiserem, contarem histórias de testemunhos, orarem da sua maneira pessoal e exacerbarem as emoções é errada e danosa para o culto. Tenho certeza de que você já viu coisas vergonhosas brotarem dessas práticas: a pessoa que conta um testemunho completamente maluco, a oração que deixa escapar alguma bobagem, os gritos sem sentido. Culto não é consultório de psicólogo pra você “se derramar” diante de Deus com suas falas e emoções tolas. As ministrações pentecostais transgridem a reverência e o pouco falar.

            No Novo Testamento, temos algo parecido: o princípio de Paulo em 1Coríntios 14 do “tudo seja feito com decência e ordem”. Ele estava repreendendo o abuso do dom de línguas e do dom de profecias, em seus exemplos. Mesmo nessa nova época de revelação, com abundância de dons sobrenaturais e milagres, Paulo não deixou a coisa correr só na base da espontaneidade. Se alguém profetizar, cale-se o primeiro, e os outros julguem o que for dito. Quanto mais ordem deve existir no culto pós-apostólico, no qual tais espécies de dons cessaram. As cartas pastorais deixam claro que quem fala durante o culto é o presbítero. Somente o ministro ordenado tem a prerrogativa de fazer pregações, falar em nome de Deus para o público. Nisso, o público deve permanecer em silêncio, ouvindo a Palavra de Deus com alegria e fé. O ouvir é elogiado por Salomão. Portanto, qualquer manifestação que atente contra a reverência, solenidade, a ordem e a decência do culto é proibida.

            O que são as liberações pentecostais, senão a desobediência a esses princípios bíblicos? Desordem é a descrição precisa sobre os momentos de "ministração": todos falando e chorando ao mesmo tempo, manifestando-se como dá na telha. Gritos de “amém” e “glória a Deus” durante as orações e o sermão parecem, na superfície, que estão exaltando o nome de Deus, mas atentam contra a reverência e a ordem. Atrapalham o pregador e os outros ouvintes, e nisso são contrários à edificação. Aplausos são inadequados, rompem a solenidade e, principalmente, quebram com o Soli Deo Gloria: pois quem no culto liberal recebe aplausos, senão os homens? Seja sincero, a mania do “uma salva de palmas pra Jesus” é papo furado. Os aplausos são sim dados aos homens. Se assim não fosse, não surgiriam sempre que uma música gospel animada acaba, quando o pastor muda o tom e a cadência da voz para algo provocante, e assim por diante. Não há diferença alguma entre os aplausos no culto e aqueles que são prestados em shows laicos e em discursos passionais de políticos. E, se alguém refuta essa “rigidez” alegando a liberdade do Espírito em nos mover, digo que não é o Espírito Santo que dá glória a outro além de a Cristo, e não é ele que inspira os homens a transgredir a Palavra que ele mesmo inspirou. É blasfêmia da pior sorte pecar contra a Bíblia e atribuir ao Espírito o mandatário.

            Ainda sobre o uso de palavras e a reverência, Salomão fala sobre o cuidado com os votos. Logo, o fazer votos faz parte sim do culto público. Porém, por causa do temor a Deus, é necessário ter cautela com os votos que se faz. É melhor não fazer votos do que fazê-los e não cumpri-los. Sendo assim, nenhum ministro deve constranger o seu público a fazer votos. É ridículo quando o pastor ordena à congregação que faça compromissos como ler a Bíblia todo dia durante a semana, falar de Jesus pra pelo menos uma pessoa, entrar numa “corrente de jejum” ou coisa do tipo. E o público prefere fazer o voto só de boca (ou levantando a mão) a passar a vergonha de ser coerente. Isso deve nos levar também à seriedade do chamado à conversão: ninguém deve ir a Cristo precipitadamente, sem antes “calcular o custo da casa”, como Jesus diz em Lucas. Fazer o voto de tornar-se discípulo de Jesus é o mais sério dos votos, e aqueles que voltam em sua decisão são apóstatas punidos com a ira irrevogável de Deus (Hb 6). Por isso, é um pecado colocar como parte da liturgia o apelo ou qualquer exigência geral de que se faça um compromisso com Deus: quem pode saber se realmente deseja seguir Jesus por causa de uma hora de culto?

            Se o culto não for voltado para a reverência, inevitavelmente ele voltará ao entretenimento e a vários outros acréscimos que mais servem ao mundo que a Deus. Muitos argumentam que isso é necessário hoje em dia, porque o culto tradicional é antiquado e ineficaz para alcançar as pessoas. Isso é mentira. O culto voltado para Deus, regulado pela sua Palavra, é o único que ensina aos homens o caráter do verdadeiro Deus. Os outros apenas oferecem às pessoas aquilo que querem. E, ironicamente, até nisso eles falham. Ora, os mundanos não são bobos. Eles sabem muito bem quando uma igreja quer passar uma imagem “cool”, quando ela vê o descrente de uma maneira estereotipada e preconceituosa. Nenhum mundano que se dispõe a ir à igreja está buscando um clube social gospel. A única coisa que uma igreja consegue quando mistura o evangelho com o mundo é tornar o mundo mais chato e ridículo. Quem vai trocar shows laicos por shows gospel? Vi uma frase em Os Simpsons sobre isso muito perspicaz: “Stop! You’re not making Christianity better, you’re just making rock-and-roll worse”. As poucas pessoas que realmente aderem à moda do entretenimento gospel são as que veem o evangelho como a cereja do bolo, o pedacinho que faltava na vida para dar uma consciência auto-justificada. No geral, os mundanos que se dão ao trabalho de visitar uma igreja estão buscando nela justamente algo respeitoso, solene, diferente do que eles veem no mundo. E um culto público feito com reverência é o melhor testemunho que uma igreja pode dar. A igreja que oferece entretenimento é apenas a concorrente mais incompetente contra as ofertas do mundo.

        Entenda que Jesus não é “tão humano” que permita que sua divindade seja sacrificada. Ele é perfeitamente humano, sim, mas não com as mesmas manchas que nós temos. Sendo assim, ele não é o seu amigão, o seu camarada gente boa que deixa você fazer cultos maneiros. Sua amizade e seu companheirismo devem ser compreendidos à luz da Bíblia, e não à luz do que nós achamos que um amigo deve ser. Qual dos seus amigos lhe dirá “Serás meu amigo se fizeres o que ordeno”? Jesus é o seu Rei, o seu Soberano, e ele não relativizará isso em prol da sua “amizade”.

         Reverência e liberalidade não são questões culturais. São questões reguladas pela Bíblia. O culto reverente e solene não é uma das formas possíveis na diversidade do planeta: é a única forma certa. Se você congrega em uma igreja estilo clube social ou estilo rock-and-roll, ou ainda – por que não? – estilo pentecostal, desordeiro e gritante, é melhor mudar-se para uma que segue o PRC.


            André Duarte

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PRC 1 - Culto público X culto particular


           Se você não está familiarizado com essa sigla, deixe-me esclarecer: trata-se do Princípio Regulador de Culto. Esse termo envolve uma das maiores discussões da Reforma, que dividiu inclusive os próprios reformadores: qual é a regra bíblica para o culto? Como deve ser prestado o culto a Deus?
           
Lutero, apesar de suas tremendas contribuições teológicas, não conseguiu desenvolver o tema com tantos detalhes. Ele tinha certeza de que o culto deveria ter como elemento central o sermão, e não a eucaristia. No entanto, ele seguia o pressuposto de que é permitido cultuar a Deus da maneira como a Bíblia ordena e também com o que ela não proíbe. Naturalmente, ele pensava em questões simples, como a permissão do órgão para acompanhar os cânticos – coisa que a Bíblia nem ordena nem proíbe. Mas ele tinha certeza de que o culto deveria ser sóbrio, reverente e centrado na pregação da Palavra, com ênfase no evangelho de Jesus Cristo. Foi somente em anos posteriores que os reformados desvendaram com mais detalhes o PRC. O princípio deles era diferente do de Lutero: somente o que a Bíblia expressamente permite ou ordena pode ser realizado no culto público. Havia, é claro, divergências na radicalidade com que esse princípio era seguido: muitos puritanos usavam somente salmos nos cânticos, e sem instrumentos, por exemplo.

Porém, as questões urgentes para o nosso século são outras. Dado que a regra para o culto nas igrejas evangélicas atuais é que qualquer coisa feita com “boa intenção” ou que traga bons resultados é válida, é necessário reafirmar o PRC com estreiteza em suas implicações mais básicas. Faz-se também relevante trazer à pauta esse problema devido a abusos no ecumenismo que, na realidade, significam um total desapego pessoal a qualquer denominação. Refiro-me, naturalmente, à percepção do culto como um produto de consumo, sobre cuja escolha o critério mais importante é o meu gosto pessoal. Outra face do mesmo problema é a facilidade com que se pode transitar entre igrejas. É raro, em cidades desenvolvidas, encontrar um crente que sempre pertenceu à mesma igreja, ou até à mesma denominação. Dessa forma, o crente pode escolher a igreja que ele quiser com base no quanto ele gosta de tal ou qual liturgia: se com hinos ou com bandas de rock, com sermões sérios ou com palhaçadas, com oração silenciosa ou clamores gritantes...

E é lamentável ver cristãos bem intencionados dizer que isso é bom. Que é uma vantagem de nosso tempo que existam cultos para “todos os estilos”: dessa forma, cada crente, com sua cultura e personalidade, pode congregar na igreja em que ele mais se sente bem. E daí surgem liturgias montadas para estereótipos: cultos jovens com coisas bem “jovens”, muito rock, muitas piadas; salas para crianças que são verdadeiras creches cheias de brinquedos só para passar o tempo, com nada ou quase nada de ensino bíblico; etc. É tanto erro que é até difícil saber por onde começar a refutação.

Primeiro, o pressuposto de que o gosto pessoal é relevante só tem a possibilidade de fazer sentido se você tomar como pressuposto anterior que a Bíblia não dá regras e formas para o culto. Se o culto público possui regras claras e específicas na Bíblia, obviamente que o não gostar delas não tem importância. Claro que existem aqueles que dirão que a cultura da época e o gosto pessoal são mais relevantes que as leis bíblicas, mas com tais insanos não vale a pena perder tempo, pelo menos não agora. De outro modo, se a Bíblia realmente não oferecer leis para o culto e deixar essa questão em liberdade, então, sim, talvez o gosto pessoal seja de alguma relevância. Mas, como veremos nos próximos posts, esse não é o caso.

Segundo, o gosto pessoal ainda precisa de outro pressuposto para ser determinante: que o culto é feito pra você, e não para Deus. Nisso, os reformadores foram enfáticos: Soli Deo Gloria! Pergunte aos evangélicos, após um culto, o que eles acharam do culto e por quê. Garanto que a imensa maioria, se gostou, responderá algo em torno de “Porque eu me senti bem”, ou “Porque eu senti Deus falando comigo”, ou ainda “Porque eu senti uma alegria, uma coisa...”. Isso é típico daqueles que vão aos cultos para consumir emoções e incentivos, e não para adorar Deus. Semelhantemente, os que não gostaram vão dizer “Ah, porque eu não senti Deus falando muito comigo”. A resposta certa para que um culto seja avaliado como bom é “Os cânticos realmente exaltaram a obra de Cristo”; “O pastor pregou o evangelho com fidelidade à Bíblia”; “O tema do sermão realmente trouxe luz à Igreja para servir melhor ao Reino”. O não gostar deveria ser por motivos como “A Palavra não foi centralizada em Cristo”; “Os cânticos tinham letras muito egoístas”; “Esse pastor convidado falou heresia, blasfemou contra a Palavra”. O que quero dizer que o nosso gosto é importante somente à medida que se alinha com a vontade do Deus Triúno de ser glorificado. Se você não gosta do que Deus gosta, está em pecado e precisa se arrepender.

            Até aqui, dissemos que a Bíblia dá sim regras sobre o culto público. E também que o culto público tem a finalidade de glorificar o nome de Deus, e não de trazer satisfação pessoal. Lembre-se sempre de que você nunca deve sair de casa no domingo para ir “assistir ao culto”, e sim para “prestar culto”. Ora, se o culto não serve para me apetecer, e sim para glorificar uma só pessoa, o Senhor Deus, cujas normas são absolutas, segue-se que a pergunta que devo fazer a respeito de onde congregar e prestar culto não é “Qual culto me dá mais benefícios emocionais e sociais”, e sim “Qual igreja cultua Deus como ele deseja”. Se o culto é para a glória de Deus, ele deve ser prestado conforme sua vontade revelada, pois ninguém deve pensar que está agradando Deus em desobediência. Os adeptos do paradigma do gosto pessoal e do “fazer de coração” dizem que Deus se agrada de qualquer coisa bem intencionada. Isso é verdade? O que importa é “fazer para Deus”, “fazer de coração”, sendo irrelevantes as formas?

            Essa ideia tão comum baseia-se em uma confusão com o culto público e o culto particular. Por isso, é necessário dedicar algumas linhas sobre isso. É verdade que o culto a Deus, em sua totalidade, abrange o que fazemos em nossa esfera pessoal a cada minuto da vida e também o momento litúrgico do domingo. Vemos, na Bíblia, esses dois tempos de adoração bem distintos conceitualmente. O culto particular é regulado pelas normas gerais da Lei de Deus: honestidade, humildade, fé em Jesus, pureza, amor, fidelidade... e nisso sim nós podemos fazer o que quisermos se estivermos de acordo com essas leis. Isso significa que toda atividade humana que for adequada aos limites da Lei de Deus e da finalidade delas – glorificar Deus – pode ser executada, mesmo se não estiver explícita na Bíblia. E a razão disso é simples: seria impossível haver a menção na Bíblia de todo e qualquer tipo de atividade humana lícita. A Bíblia dá alguns princípios sobre o trabalho, mas não diz exaustivamente sobre todo trabalho possível. Logo, posso exercer qualquer profissão que glorifique Deus. O lazer também entra nessa categoria: todo lazer exercido dentro da Lei de Deus e para glorificá-lo é permitido. Por isso o cristão (não legalista) sabe que ele pode jogar videogame, ir ao cinema, jogar futebol e nadar na piscina sem se atormentar com o “Onde a Bíblia diz isso?”. É no culto particular que vale o princípio de 1Coríntios 10 – “Quer comais, quer bebais, façais tudo para a glória de Deus”.

           Crentes mais conservadores e legalistas tendem a diminuir a importância do culto particular, enquanto enaltecem o culto público dominical. Porém, a Bíblia nos mostra que ninguém realmente pode prestar um culto público agradável se o culto particular estiver cheio de pecado. Os profetas falam sobre isso o tempo todo (e.g. Isaías 1 e todo o profeta Malaquias). Prestar culto público sem a pureza no culto particular é hipocrisia, causa repugnância ao Senhor.

            Por outro lado, os crentes mais moderninhos tendem a banalizar o culto público por acharem que só o particular realmente importa. Assim dizem, por exemplo, coisas como “eu estou cultuando Deus o tempo todo, não preciso ir à igreja”. Também profanam o culto público ao tentar aplicar nele o mesmo paradigma que se dá ao culto particular, isto é, de fazer qualquer coisa que não seja proibida. Nesse caso, precisamos observar por que defendemos um pressuposto diferente. A grande questão é que o homem não sabe prestar culto a Deus. Todos somos maculados pela idolatria e pelo humanismo desde a corrupção original da natureza humana. É justamente por causa da tentativa de prestar culto com base em nossas próprias ideias que todas as religiões falsas surgiram. Consequentemente, um culto distorcido reflete uma percepção distorcida do próprio Deus. A fim de ensinar a seriedade e os atributos de Deus e de como ele deseja ser cultuado, deu o Senhor as cerimônias a Moisés.

            O autor de Hebreus descreve muito bem como os elementos do culto público da Lei davam ao adorador uma ideia de distanciamento de Deus. Eram três as áreas do tabernáculo; no Santo dos Santos, somente o sumossacerdote podia entrar para fazer propiciação. Os sacrifícios demonstravam claramente a grosseria do pecado humano, o merecimento da pena de morte. E, se um mínimo detalhe das regras do culto fosse descumprida, a pena era também a morte. Deus, dessa forma, revelava quão distante ele era em dignidade e santidade dos seres humanos. Porém, ao mesmo tempo, ele mostrava o outro lado: a promessa do Messias. Os sacrifícios mostravam a grave penalidade, mas ao mesmo tempo a imensa misericórdia de Deus ao prover um substituto. O Santo dos Santos era a imagem de um caminho que não poderia ser percorrido pelo povo até a presença de Deus, mas um representante abriria a vereda.

            Aprendemos, no Novo Testamento, que Jesus Cristo é o sumossacerdote que rasgou o véu do templo transitório, mas adentrou o Santo dos Santos celestial para dar ao seu povo livre acesso. Ele tornou cada um de nós sacerdotes, e purificou nossas consciências com o seu sacrifício único e definitivo. Ele nos capacitou com intrepidez para adorarmos o verdadeiro Deus diretamente, dando-nos alívio e regozijo. O seu corpo ressurreto é o novo templo (João 2). A adoração é prestada em espírito e em verdade (João 4), pois todas as figuras sombrias da lei cerimonial estão realizadas na obra de Cristo de uma vez por todas.

            Por isso, o culto público do Novo Testamento teve algumas mudanças. Não há mais necessidade de um espaço físico particular, pois o povo peregrino de Deus é a habitação do Espírito. O símbolo de pertencimento ao pacto deixou de ser a circuncisão para se tornar o batismo, pela alusão à purificação espiritual e por não mais ser necessário derramar sangue. Semelhantemente, a refeição sagrada tornou-se a ceia com pão e vinho, em memória do corpo e do sangue de Cristo entregues na cruz. Não mais matamos animais, porque o último substituto já foi morto.

            O que quero assinalar com tudo isso é que existe continuidade e descontinuidade entre o culto público de Israel e o culto público da Igreja. Naturalmente, elementos como templo, vestes sacerdotais, arca da aliança, sacrifícios, etc, não pertencem mais ao nosso culto, porque sua significância permanece plenamente satisfeita em Jesus. Porém, existem sim aspectos de continuidade, e um deles é a estrita observância das normas. Aquelas que Deus não disse que mudaram devem ser assumidas que continuam. Por isso, encontramos normas ainda válidas para o culto público da Igreja no Antigo e no Novo Testamentos. Tudo isso precisa ser bem estudado. Agora, veja como Deus é zeloso pelas suas leis: os dois filhos mais velhos de Arão resolveram oferecer para Deus um “fogo estranho”, contrário às normas. Resultado: fulminação – e não importa se “fizeram de coração”. Uzá, com toda a boa intenção de ajudar, tocou na arca do Senhor para que ela não caísse da carroça, e Deus o matou na hora por violar sua santidade e sua lei de que a arca jamais poderia ser tocada. Isso é coisa só do Antigo Testamento? Ora, lemos em 1Coríntios 11 que a profanação da ceia resultou também em disciplina divina com enfermidade e morte. Além disso, não lemos em nenhum lugar do Novo Testamento que houve descontinuidade na subordinação estrita à lei: portanto, não devemos considerar esse pressuposto transitório. Continuam valendo as ordens divinas: “Não removam nem acrescentem nada às minhas ordens” (Dt 4:2; 12:32)

            É comum que os crentes de raso entendimento distorçam alguns textos em prol dessa alegada descontinuidade. Por exemplo, a adoração em espírito e em verdade de João 4. Já vimos o que isso significa: que a adoração é direta a Deus, por meio do Espírito onipresente de Cristo. Jesus pretende contrastar a adoração restrita ao templo e às cerimônias com a adoração prestada por meio somente dele próprio, conforme o contexto indica. Nada há nesse texto para advogar que o culto pode ser regulado pela espontaneidade e pela criatividade. Outro exemplo é o de 2Coríntios 3:17, usado para justificar a liberdade na maneira de cultuar. Mas o contexto é totalmente outro. Paulo explica, em todo o capítulo 3, que somente pela regeneração operada pelo Espírito de Deus pode o homem compreender o evangelho prometido por Moisés. Não tem nada a ver com a subjetividade ideacional do culto, mas simplesmente com a liberação da mente e do espírito para crer em Jesus e entender as verdades da nova aliança nas Escrituras.
           
A compreensão das regras para o culto público não é simples – tanto é que nem Lutero conseguiu realizar esse trabalho totalmente. Existem regras transitórias e permanentes no Antigo Testamento, no livro de Atos, e até mesmo nas epístolas. Os próximos posts buscarão explicar pelo menos algumas dessas coisas.

            Ah, e eles serão mais curtos, prometo!


            André Duarte