domingo, 12 de maio de 2013

Devocional: Bíblia, meditação e oração



Sabemos que é necessário praticar a leitura da Bíblia e a oração para mantermo-nos acesos no amor a Deus. São meios de graça maravilhosos que Deus nos entregou para realizarmos comunhão com ele. A maioria dos crentes chama a prática diária dessas coisas de devocional. Não sei por quê, mas não tem problema. Normalmente, pratica-se a devocional, como foi dito, diariamente. É uma regularidade boa e tem certo fundamento na petição do Pai Nosso “dá-nos o pão de cada dia”. A rotina humana é baseada no tempo de um dia mais do que em qualquer outra medida temporal, e convém que a devocional seja também semelhantemente periódica. Mas, como qualquer outra prática cristã, existem os desvios para o legalismo e para o antinomismo.

O legalismo está presente quando um crente se torna tão dependente de uma inquebrável rotina devocional que passa a fazer dela o salvador da sua vida. Conheço pessoas que, se falham em ler a Bíblia e orar em um só dia, começam a se apavorar com o dia seguinte, pensando que já estão se desviando de Deus e suscetíveis à apostasia. É muito importante entender que a salvação, a segurança e a santidade estão na obra de Cristo, e não na sua obra em usar os meios de graça dele. É uma distinção sutil, mas que faz grande diferença. Se você confiar na sua devocional rígida e inflexível para a manutenção da sua salvação, declara que Jesus é dispensável e chama a si mesmo de seu próprio redentor. Já o antinomismo está ligado à necessidade da sensação subjetiva de espontaneidade e disposição para realizar a devocional. A ideia é: hoje estou cansado, tive muita coisa pra fazer e não estou com vontade de ler a Bíblia e orar. Melhor, então, não fazer nada. Senão, vai ficar muito mecânico e artificial. Bem, acontece que Deus é quem manda, e o que ele ordena é para ser cumprido. Se você for obedecer à vontade de Deus apenas quando sente muita vontade, então quem dá a última palavra é você e, assim, você se proclama como o chefe de Deus, tal qual o legalista. Deus ordena que você examine e ame as Escrituras, e que você ore sempre. Não que as ordens de Deus ignorem a sua disposição subjetiva. Mas a espontaneidade não surge do seu coração – lembre-se de que a única coisa que você faz totalmente espontaneamente é pecar. A espontaneidade é criada, educada, construída pelo trabalho do Espírito enquanto você obedece aos mandamentos divinos. Primeiro, vem a obediência, depois vem a sua vontade.

Vamos a algumas orientações sobre como aproveitar com excelência uma devocional. Dividirei em três partes: a leitura da Bíblia, a meditação no que foi lido e a oração.

Leitura da Bíblia: Em primeiro lugar, saiba que você deve ler a Bíblia toda. Você não vai progredir na compreensão de Deus se ficar lendo sempre os textos fáceis de que você mais gosta. Além de perder partes importantes da Bíblia – pois, ao contrário do que o seu coração diz, todas as partes são importantes –, você acaba sendo arbitrário quanto àquilo que você deseja aprender. Leia, portanto, em sequência. Se quiser, pode ler outro texto que tenha relação com o principal de sua leitura, mas não perca a sequência. Já ouvi muitas pessoas dizendo “O problema é que eu esqueço do que eu li anteriormente. Por isso, não posso avançar e fico voltando para o mesmo texto várias vezes”. Por mais estranho que pareça, minha resposta é: não importa que você tenha esquecido. Em primeiro lugar, você nunca esquece completamente; alguma coisa do texto ficou registrada no seu inconsciente. Em segundo lugar, de acordo com esse raciocínio, você nunca lerá a Bíblia toda. Você realmente acha que todas as pessoas que leram a Bíblia toda só concluíram a primeira leitura completa depois de memorizar completamente os ensinos de todo o resto? Meio impossível, não? Siga a sequência, não importa que você ache que não está sendo de bom proveito. No futuro, você verá que foi fundamental. E, é claro, as dicas de sempre: leia com atenção, entenda o contexto, respeite a gramática. Compare versões diferentes da Bíblia (as boas, por favor; sugiro que esqueça a NTLH). Se não entendeu algum versículo, procure um comentário bíblico.

Meditação: Este é um ponto quase sempre esquecido, mas essencial para a edificação pessoal. Tim Keller diz que a meditação é o meio-termo entre a leitura e a oração. Nela, você vai gastar um tempo silencioso pensando (no meu caso, faço isso melhor escrevendo do que só pensando) no que você acabou de ler. Pensando no que o texto significa. Não é o momento intelectual da exegese, mas sim a reflexão sobre as aplicações e implicações. Pense no que o texto significa sobre você, sua vida, sua Igreja. No que ele ensina sobre Deus. Em como ele se relaciona com Jesus o que o que ele fez. Você vai fazer um sermão para si mesmo, pregar para si mesmo. Keller conta a história em que Martinho Lutero estava no barbeiro, e este lhe perguntou “Mestre Lutero, como você ora?”, e Lutero, conciso como pôde, respondeu-lhe com um artigo de 40 páginas sobre a oração. A maior parte desse escrito, na verdade, ensina a como se preparar para orar, que é justamente a prática de meditar. Lutero diz que ele segue a oração do Pai Nosso, depois os 10 mandamentos e então algum outro texto bíblico, palavra por palavra, respondendo a si mesmo a 5 perguntas com base no que ele leu: Como posso adorar Deus por isso? Como posso confessar um pecado a Deus baseado nisso? Como posso agradecer a Jesus por me dar isso? Do que eu preciso hoje para conseguir cumprir isso? Qual comportamento errado, qual emoção danosa e qual atitude falsa resultam de mim quando eu me esqueço da realidade disso? E Lutero não daria início à sua oração até que alguma verdade de Deus acendesse em sua alma. E veja que a meditação não é moralista, como se tudo o que você tivesse de aprender fossem leis de Deus, e nem é motivacional, como se tudo fosse para confortar o seu coração ansioso. A meditação deve ir do amor de Deus para o pecado humano, o evangelho de Cristo e a sua eficácia para ajudar você a parar de pecar, reconhecer a glória de Deus e amá-lo.

Oração. Enfim, na oração, você fala com Deus. E será bem mais fácil após você trazer as verdades para o seu coração na etapa da meditação. Para as orientações na oração, temos todo o livro dos salmos e a Oração Dominical, que é o Pai Nosso. São textos que ensinam quais são as coisas que Deus deseja que você diga a ele. Ele graciosamente concede modelos para que você diga palavras ensinadas por ele mesmo ao orar. Você aprende que é bom orar pelo Reino de Deus, para louvá-lo e declarar seus atributos, agradecê-lo por toda a sua obra e o seu cuidado, pedir que ele o ajude com seus problemas. Compreenda que a oração não serve para que Deus se convença a fazer o que você quer, mas sim para que você, ao orar, seja por ele tratado, com base nas etapas anteriores da devocional, a se transformar conforme o caráter e a vontade dele. Verbalize para Deus o resultado daquilo em que você meditou. Agradeça-o por suas bênçãos, especialmente as bênçãos espirituais da adoção por meio de Cristo. Peça-lhe para que ele guarde o seu coração de pecar e se desviar, que ele cative sua mente para que você cresça em amor. Louve-o por seu poder, sua graça e sua soberania. Confesse seus pecados e suas “boas obras” com motivos pecaminosos. Ore em consciência da comunidade de cristãos da sua Igreja e do mundo, oferecendo ações de graças e petições. Acredite, assunto para orar não falta. Basta que você prepare o seu coração pela leitura da Bíblia e pela meditação, e você verá que há muito mais para ser orado do que o seu mesmo probleminha de sempre.

Para muitas pessoas, é realmente difícil realizar uma devocional assim, com o tempo necessário. Embora haja pessoas que simplesmente enrolam, há aquelas que de fato têm uma rotina apertada e cheia. Porém, procure aproveitar os momentos oportunos para realizar sua devocional, conforme suas possibilidades. Não pense que vai morrer só por ter aberto mão da devocional em um dia ou outro. Mas também não se acomode com o hábito da procrastinação. Lembre-se, tudo depende do fato de que você crê em Jesus, ama-o e a ele se sujeita. Aja em conformidade com esse fato.

André Duarte

terça-feira, 7 de maio de 2013

Testemunho e evangelismo



         Bem, lá vamos nós de novo para esse tema. Creio que ainda não falei muito sobre a questão do testemunho, e é um ponto que causa dúvidas. Embora muito tenha sido dito sobre evangelismo, ainda há aquela dúvida: como, exatamente, eu devo evangelizar se eu não sou um missionário viajante? Meus outros posts falaram bastante sobre o conteúdo da mensagem de evangelismo, e não quero ser repetitivo. Quero focar aqui no aspecto mais prático, pois há várias doutrinas discrepantes sobre o “como”. Algumas pessoas pensam que todos os crentes têm a obrigação de fazer proclamações programadas sobre o evangelho. Isto é, cada crente deve fazer em seus círculos sociais a mesma coisa que missionários no estrangeiro fazem: chamar a atenção, reservar um tempo e falar sistematicamente sobre o evangelho. Outras pessoas são mais moderadas, entendendo que crentes que não fazem missões não precisam pregar nada, mas apenas viver.

            O problema com o primeiro ponto de vista é que ele não tem muito fundamento bíblico. Efésios 4:11 menciona o ministério de evangelistas dentre vários outros, indicando que não são todos os crentes que devem exercê-lo (assim como não são todos apóstolos, pastores, profetas...). Há, portanto, um ministério e um dom específico que o Espírito concede a alguns. O conteúdo geral das epístolas concorda com isso. Não há nenhuma ordem à Igreja para que ela evangelize dessa forma. Paulo fala sobre si mesmo como missionário, dá orientações para Timóteo, assim como Jesus falou aos discípulos, mas nenhuma Igreja recebeu esse comando para que todos os crentes evangelizem como missionários – embora a maioria das pregações atuais seja exatamente isso, uma ordem para todos evangelizarem, o que contrasta fortemente com a prioridade das cartas. Existem algumas poucas orientações para uma postura respeitável e digna perante os de fora, mas não para uma proclamação específica sobre o evangelho. O segundo ponto de vista também é problemático, pois ele se baseia somente na frase atribuída a Francisco de Assis “Pregue o evangelho; se necessário, use palavras”. Não sei o contexto original dessa frase, mas o contexto em que ela é colocada hoje não é concordante com a Bíblia. É como se ela dissesse que o testemunho de vida fosse suficiente e que palavras frequentemente não são necessárias. Não é possível, porém, que um descrente seja evangelizado sem que você use palavras. Entendo que o testemunho de vida seja o principal, mas está incluso nesse testemunho as suas palavras, pois o que você diz reflete aquilo que importa em seus conceitos, aquilo em que você crê. Se você ama Jesus, ele estará em suas falas comuns.
           
Portanto, quero, em primeiro lugar, fazer distinção entre o ministério de evangelismo, do qual não são todos os crentes que devem fazer parte, e o testemunho pessoal. Os ortodoxos gregos entendem corretamente que evangelismo, como missão, é algo que deve ser feito em sociedades que não conhecem ou que rejeitam o cristianismo. Em países como o Brasil ou os Estados Unidos, não faz sentido você evangelizar do nada, como se dissesse “Você conhece Jesus?”. A religião cristã é algo presente na cultura, não é estranho para ninguém. Claro que há muita bobagem religiosa misturada. Mas a mensagem do evangelho é acessível a todos os que quiserem, basta que procurem uma Igreja que proclama o evangelho, que leiam a Bíblia, até a internet está cheia de artigos cristãos e uma Bíblia online. Não significa que a Igreja deve ser inerte. O que ela deve fazer é de fato ser coerente com aquilo que ela tem como propósito, que é manifestar o ser de Cristo para o mundo. Por essa razão, o principal para que a Igreja como um todo e todos os crentes individualmente façam é ser testemunhas de Jesus, expressando o seu caráter e a regeneração espiritual. O testemunho é o que atrai as pessoas confusas sobre o evangelho para fazerem perguntas. Provavelmente vai atrair também para fazerem piadas e críticas. Mas o crente, sendo coerente com os seus princípios cristãos, esclarecerá o evangelho ao dialogar com os descrentes.
           
Vamos ser ainda mais práticos. Afinal, é pra usar palavras ou não? É muito estranho pensar que palavras são dispensáveis. A própria existência e eficácia da palavra é um tema central na Bíblia como revelação de Deus. É a palavra de Deus que vem ao povo, é ela quem cria o mundo, é ela quem encarna em Jesus. Seria um grande erro descartar palavras, como se somente o bom comportamento bastasse. E como seria se o crente não usasse palavras? Quer dizer, ele mostra um comportamento moral, ele se limita a dizer “sou cristão”, e fica calado quando o seu círculo social começa a discutir religião, ou quando fala sobre conceitos mundanos, ou sobre práticas pecaminosas? Já que estamos falando de testemunho, vou falar um pouco do meu. Eu estou lentamente aprendendo isso tudo. Já sei que não tenho o dom de evangelismo. Não sou do tipo “Vou agora aproveitar esse momento de silêncio para falar de Jesus para essa pessoa”, e já compreendi que essa prática específica não é obrigatória, embora eu muito me culpasse antigamente por essa “omissão”. Tenho boa relação com meus colegas de trabalho, brinco com eles, rimos juntos, como pessoas normais. Mas o ponto fraco deles é quando vamos falar sobre casamento e traição. Quase todos os meus colegas já traíram suas esposas, e todos detestam o casamento. No momento em que surge o assunto, eu coloco minha posição cristã. Digo que não vou trair minha mulher porque a minha fidelidade é fundamentada na perfeita fidelidade de Deus a seu povo, e não em minha vontade esforçada. E digo que o casamento é maravilhoso e que o meu vai dar certo porque ele é um reflexo da aliança de Cristo com sua Igreja, não uma instituição humanamente resolvida. Bem simples, pura verdade, sem moralismo chato nem negligência. Como consequência, um dos colegas me perguntou sobre Igreja e Bíblia, e então eu expliquei o evangelho de forma mais sistemática. E ordenei que ele se arrependesse de sua vida de pecado e cresse em Jesus.
           
Percebe o ponto? O testemunho de vida não é forçado. Aliás, seria bem estranho se você é um crente e, quando se junta aos mundanos, pensa “opa, hora de dar bom testemunho”, como se seu testemunho pudesse ser removido quando você quisesse. Testemunho é questão de ser, de identidade. Você não simplesmente resolve dar bom testemunho ou não: ou você é testemunha de Cristo ou não. Se você é, falará sobre ele naturalmente. Envolve esforço, sim, mas o esforço se baseia na realidade de que você ama Jesus e tem consciência da suficiência dele para a sua aceitação e sua autoridade. Você sabe que não precisa ser aceito pelos súditos se é aceito pelo Rei. Não é um esforço para ser aceito por Deus, mas porque você já é aceito. Não é para aliviar a consciência, mas porque a sua consciência já foi tranquilizada por Jesus. Enfim, não pense que é necessário programar um tempo e uma ocasião para evangelizar, porque as oportunidades surgirão naturalmente, e você responderá a elas conforme uma testemunha de Jesus. Também não pense que é só mostrar comportamento moral e pronto, pois a vida centrada em Jesus afeta todo o nosso ser: pensamentos, emoções, axiomas, atos, hábitos e palavras.
           
Lembre-se também de que o bom testemunho deve ser diretamente dependente do evangelho como um todo. Isso significa que você deve expressar a repreensão ao pecado e a humildade de Jesus. Se você só aponta tudo o que há de errado em todo mundo, você não está se assemelhando a Jesus, e sim a um moralista chato típico. Se, por outro lado, você for só a pessoa legal e gentil (o extremo em que eu sempre vivi), o descrente nunca saberá que o pecado dele é coisa séria. Muita gente acha que, se você deixar claro que você é crente, mas ter uma amizade toda feliz e compreensiva com o descrente, ele vai ver a compaixão de Jesus em você e será atraído para o evangelho. Mas que evangelho é esse que não fala nada sobre o “arrependa-se”? O descrente não vai ver diferença nenhuma entre ele e você.
           
Opa, eu disse “diferença”? Vamos desfazer essa noção moderna de “fazer a diferença”. Fazer a diferença é mera consequência do bom testemunho. Não sei de onde as pessoas inventaram que não ficar, não beber e não ir à boate fazem alguma diferença. Quer dizer, se o descrente convida você pra ir à boate, e você diz “Não, não, obrigado”, você realmente espera que ele vá responder “Puxa vida, como você é diferente! Explique melhor a razão de você ser tão peculiar!”? Nãããão, ele apenas vai dizer “Ah, tudo bem, até mais”. Acredite, existem descrentes que não vão à boate! O que não existem é descrentes que creem em Jesus e se submetem ao seu reinado, isso sim será a diferença entre você e o seu colega ateu. Pare de inventar estereótipos e entenda o que a Bíblia diz sobre quem é descrente. A Bíblia não diz que o descrente é a pessoa que finge ser feliz na frente dos outros, mas sente uma solidão tremenda e depois cai em choro no seu quarto. Descrentes são sim sorridentes e pensam sim que são felizes e realizados. Existem descrentes que não ficam. Existem os que não bebem. Existem os que respeitam a religião. Nada dessas coisas é central no bom testemunho. O que a Bíblia diz é que o descrente é perverso, odeia a justiça de Deus e as suas leis e ama os seus próprios caminhos idólatras. Uma testemunha de Jesus será diferente nisso. Você não é boa testemunha por não ir às festas, por estar sempre alegre – o que é absurdo, porque o crente fica sim triste de vez em quando  - ou por sair dizendo “Deus te abençoe” e “Glória a Deus” bem alto pra todos os descrentes ouvirem.
           
A sua vida de bom testemunho deve ser sábia e deve fluir da sua fé no evangelho e no seu amor a Jesus. Examine-se a esse respeito. Veja se você está envergonhando o nome de Deus, mesmo pensando que o está honrando. Manifeste o caráter de Cristo, porque é ele quem vive em você, não por apenas cumprir norma.

            André Duarte

domingo, 5 de maio de 2013

Avivamento verdadeiro



          O que é avivamento? Tem sido um desejo das igrejas atuais um novo avivamento. Percebemos que há uma grande mortandade mundana na maioria das igrejas, que os “prazeres desta vida e as riquezas deste mundo” têm sufocado uma espiritualidade fervorosa nas comunidades cristãs. Muitas igrejas nada mais são do que uma repetição litúrgica ineficaz para a santificação; muitos crentes vivem em carnalidade enquanto atendem às rotinas eclesiásticas. Percebemos que o evangelho tem sido abandonado em troca de doutrinas fáceis que exigem pouco de alguém que professa a fé. Sabemos que há uma necessidade urgente de que as igrejas despertem para o fato de que Jesus Cristo é o centro e o fim de tudo o que fazemos e de quem nos tornamos. A esse despertar chamamos de avivamento.
           
Mas como o avivamento realmente se dá e se manifesta na prática? Ora, se o avivamento é um retorno de uma Igreja morta espiritualmente para uma vivificação no evangelho, é absolutamente necessário que se redescubra o evangelho. O testemunho histórico nos confirma isso. Em pouco mais de um século da reforma protestante, surgiu o movimento pietista nas igrejas luteranas. A situação das igrejas era de uma ortodoxia muito exata, sobre a qual era necessário simplesmente manifestar concordância. Não que a ortodoxia fosse ruim, mas ela era praticamente a única coisa que importava. Após ir às igrejas ouvir pregações bem bíblicas, os membros praticamente se esqueciam de aplicá-las em suas vidas e se davam ao pecado sem remorso. Faltava também um senso de relacionamento pessoal com Jesus; era como se toda a verdade bíblica pregada fosse uma abstração meramente intelectual. O movimento pietista propôs-se a reavivar as igrejas, isto é, enfatizar a necessidade da fé frutífera e da submissão alegre à vontade de Deus, com devocionais e uma relação pessoal com Jesus que se estendesse para fora dos ambientes de igreja. Isso só foi possível com a redescoberta do evangelho – não uma redescoberta meramente de textos bíblicos, mas da relevância e da maravilha que ele significa. O movimento pietista foi o precursor do movimento morávio e de outros avivamentos em séculos seguintes, como o Primeiro Grande Despertar, cujas grandes figuras são John Wesley (fundador dos metodistas), George Whitefield e Jonathan Edwards, e do Segundo Grande Despertar, com destaque para Dwight Moody. Embora não tenham sido movimentos isentos de defeitos, eles tiveram impactos marcantes sobre o planeta (especialmente no contexto da colonização da América do Norte) devido à intensa evangelização, ao fervor espiritual pelo reino de Deus e à atenção a uma vida devota e santa coerente com a doutrina.
           
Avivamento é diferente de reforma. Na reforma, houve a derrubada de pressupostos errados para o estabelecimento de outros totalmente diferentes. Algumas igrejas atuais realmente precisam de reforma. No avivamento, há apenas a redescoberta de algo que a Igreja esqueceu, mas que está nominalmente na crença. Igrejas evangélicas têm uma crença que é certa em suas raízes históricas, mas elas frequentemente se esquecem delas e estabelecem novos costumes errados que acabam esmagando o fluir do evangelho verdadeiro. Mas, se isso é verdade, e se realmente as igrejas têm buscado avivamento, então por que ele não acontece? Por que há tantas falas e tantos programas, e tudo continua igual? Minha sugestão é que as igrejas esqueceram até mesmo o que é o avivamento. Na verdade, elas precisam de um avivamento para redescobrir o que é avivamento (yo dawg!). Nesse caso, precisamos definir o que não é avivamento.
           
Avivamento não é explosões emocionais. Embora mesmo os avivamentos históricos tenham sido marcados por êxtases emocionais, não é esse o objetivo e não é esse o motor. Nunca uma forte emoção pode ser evidência de renovação espiritual. Emoções são as faculdades mais mutáveis e flutuantes do ser humano, mas Jesus e o seu evangelho são eternamente inabaláveis. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre”. Em um momento, o povo da Igreja está chorando e surtando, movido por um clima sustentado pela música de fundo, orações e gritos do ministro. Horas depois, tudo isso acaba e a mesma mediocridade de sempre retorna. Avivamentos não duram meia hora, não duram uma noite. A redescoberta do evangelho tem resultados de longo prazo, pois ela renova toda a nossa maneira de crer e de viver. Não importa quantas pessoas choraram e “se derramaram”, se não houve mudança de vida para a santificação, aquele momento foi perda de tempo. Avivamentos também não são controlados por programas. Embora haja campanhas e acampamentos, e essas coisas tenham sua importância, não são garantia de avivamento. Pois o avivamento não depende do homem, mas sim de Deus. Ele é quem tem soberania para conceder ao povo a paixão pelo evangelho ou não. Isso não retira a nossa responsabilidade de buscar, mas nos humilha para que saibamos que Deus tem poder para agir conforme sua perfeita vontade, e não conforme nossos desejos. Dessa forma, não é possível controlar um avivamento e determinar que ele ocorra.
           
A Bíblia alerta fortemente contra o avivamento falso. O rei Josias tentou promover uma renovação da aliança com Deus. Foi talvez mais uma reforma do que um avivamento, mas o ponto é que ele tentou controlar a busca do povo por Deus. Embora ele tivesse as melhores intenções e tenha feito o que pôde, não foi suficiente. Ele obrigou o povo a se afastar dos ídolos, confirmar o pacto do Sinai, celebrar a Páscoa com grande festividade e matar os profetas pagãos. Ele foi movido por zelo pelo Senhor. Porém, tão longo o próximo rei assumiu o poder, sendo ele ímpio, tudo foi desfeito imediatamente. O povo teve o seu momento de “avivamento” que não durou nada. Jeremias 3:6-10 dá o diagnóstico divino sobre o ocorrido. Deus diz que Israel, o reino do norte, foi ímpio do começo ao fim, e por isso sofreu o exílio. Judá, porém, nos dias de Josias, voltou-se para Deus com fingimento, para logo depois voltar às práticas perversas comuns. E Deus diz que Judá, por essa razão, agiu de maneira pior do que Israel. A mensagem é clara. É menos pior ser coerente com sua impiedade e viver afastado de Deus sempre do que ter os seus “momentos de renovação” que são pura fachada e não duram nada.
           
Com tudo isso, compreendemos a consistência do avivamento. É uma redescoberta do evangelho que resulta em vida santificada, relacionamento pessoal e fervoroso com Cristo pelo seu Espírito e testemunho digno diante dos descrentes. Mas, como examinar a sua Igreja para ver se ela está reavivada mesmo? Tim Keller, repetindo o que o professor dele ensinou, diz que há 6 características de uma Igreja que são tanto a causa para ela se renovar como também o resultado de que ela está se renovando. São elas: ensino bíblico teologicamente profundo; louvor vibrante e passional – que nada tem a ver com o duelo entre guitarras e órgãos ou música de rock contra hinos –; comunhão e irmandade ricas; evangelismo destemido e límpido; preocupação social com os pobres; adaptação moderada à cultura. Uma Igreja reavivada apresentará esses frutos. Tudo começa, porém, com a conversão genuína à fé cristã, ao testemunho das Escrituras e ao amor a Cristo. Pois é a sua verdade que moverá todas as coisas para nele convergirem, de forma que a vida determinada pelo evangelho poderá iniciar.
           
Pense também no que significa a palavra “avivamento”. A ideia não é trazer vida ao que está morto? Como não lembrar da ressurreição de Cristo? Não é a ressurreição de Jesus que nos concede o novo nascimento, para que morramos para a carne e revivamos para Deus? É isso que avivamento significa: morrer para o mundo e ressuscitar para as coisas do alto.  

André Duarte

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Hermenêutica, a arte de interpretar a Bíblia



Caros leitores, é necessário que cada um seja apto e mesmo treinado para interpretar a Bíblia corretamente. Não é bom que um crente fique dependente de pregações e artigos; ele deve usá-los como ajuda, mas também ser capaz de compreender a Bíblia por si mesmo. Afinal, existe todo tipo de loucura dita sobre a Bíblia, e certos princípios e limites de interpretação são necessários para que um entendimento razoável seja atingido. As orientações aqui são bem simples.

Se você crê na sola scriptura, deve saber que a Bíblia interpreta a si mesma. Isto é, a Bíblia não tem um intérprete oficial além dela mesma. Um texto deve ser compreendido em harmonia com todos os outros. Não é alguém com um dom especial que vai determinar o significado de algum texto bíblico, mas é ela mesma. Pois a Bíblia não se contradiz e é suficiente para toda a revelação de Deus. Isso não significa que você pode dispensar exposições, opiniões de teólogos e comentários bíblicos. Todas essas coisas ajudam, mas elas apenas são válidas enquanto se submetem ao princípio da sola scriptura. Isto é, são trabalhos de pessoas que já estudaram a Bíblia mais do que você e facilitaram para que você entenda. Dessa forma, tradições, historicidade e outras formas de opinião conferem razoabilidade a uma interpretação, mas a palavra final é a da própria Bíblia.

Fique consciente de que você pratica sim a hermenêutica (ciência da interpretação de uma mensagem). Não pense algo como “eu não interpreto a Bíblia, eu apenas a leio como ela é”. Essa frase é totalmente irreal. Você tem pressupostos subjetivos e expectativas como qualquer outra pessoa, e a sua tendência natural será adaptar a Bíblia a eles, e não o contrário. É impossível colocar-se como uma “tábula rasa” frente à Bíblia. Posto isso, fique também consciente de que a interpretação da Bíblia é absolutamente importante para toda a sua maneira de viver. Ao contrário do que muitos pensam, doutrina tem consequência prática. Todos os seus comportamentos, sentimentos e pensamentos dependem dos seus credos, e os seus credos dependem de como você interpreta a Palavra de Deus. Portanto, não pense que hermenêutica é um luxo relevante apenas a acadêmicos e pastores. Todo crente precisa aprender a interpretar.

Dentro dos artifícios que compõem a hermenêutica, o central é a exegese. Exegese significa trazer o significado original do texto para a sua mente de agora. É o contrário do que a maioria das pessoas faz – levar os seus conceitos para aplicá-los ao significado do texto. Exegese envolve um exercício mental do leitor para que ele se transporte ao tempo e ao espaço em que o texto foi escrito. Isso nos leva a lembrar de um ponto essencial: todo texto bíblico foi escrito por uma determinada pessoa e para um determinado destinatário que não é, primariamente, nós. Quando Paulo escreveu aos coríntios, ele realmente estava pensando só nos coríntios, e não em você. É a inspiração de Deus que torna os escritos bíblicos canônicos para a Igreja, mas a correta interpretação dessa Palavra depende daquilo que o escritor humano original pretendia.

Isso nos leva a outro importante princípio: um texto bíblico jamais pode significar algo para nós que nunca poderia ter significado para os leitores originais. Esse princípio já coloca grandes limites ao que você pode entender com o texto. Veja que, em tudo isso, estamos considerando princípios sóbrios e que você já naturalmente aplica a qualquer outro texto. Você não lê uma bula de remédio com outro pensamento senão a intenção original dela. Você não lê um jornal alegorizando os fatos que ele relata. Você não lê uma argila da Mesopotâmia sem perguntar “como isso estava inserido naquela época e naquela cultura?”. Isso não reduz a transcendência temporal da Bíblia. Ao contrário, interpretá-la conforme queremos, sem conhecer o propósito do texto para o autor e para os leitores originais é que retira a aplicação dela para o tempo deles.

Logo, você precisa ler a Bíblia tendo consciência de quem escreveu o texto, para quem, em que local, em que tempo, em que sociedade, em que cultura e sob quais circunstâncias particulares. Você não vai entender 1Coríntios sem saber como era aquela cidade em questão de filosofias e liberdades morais. Você não vai entender Colossenses sem entender o sincretismo religioso que começou a atacar a Igreja. Além disso, você precisa conhecer a Bíblia toda, especialmente as particularidades do Antigo Testamento e do Novo. Frequentemente, o Novo Testamento alude ao Antigo, especialmente para explicar atributos de Jesus. Por outro lado, o Novo conta o “final do filme”, o que significa que o Antigo não pode receber interpretações diferentes daquilo que o Novo permite. Em nenhum momento você pode ler um texto do Antigo pensando que ele está, por exemplo, ensinando salvação por obras. Pense sempre nos princípios do evangelho ao ler qualquer texto.

Sabemos, portanto, que há uma só interpretação da Bíblia. Não pense que a Bíblia tem várias interpretações diferentes. Somente uma é certa. E o dever de cada crente é alcançá-la, embora jamais consigamos realizar isso plenamente na Bíblia toda. A Bíblia tem várias aplicações, implicações, ilustrações e orientações, todas essas coisas úteis para a edificação, mas elas dependem da interpretação, que é única. Talvez seja difícil compreender esse rigor por estarmos acostumados a pensar que, pelo fato de a Bíblia ser a Palavra de Deus, ela tem um sentido óbvio, múltiplo, subjetivo e imediato. Esse é um pressuposto errado. A Palavra de Deus é sim comunicada pela Bíblia, e é exatamente esse o motivo por que o nosso entendimento superficial e precipitado vem errado. Lembre-se de que a sua tendência carnal é justamente transformar a Bíblia naquilo que você quer que ela seja. Submeter-se à autoridade da Bíblia significa também buscar o significado dela com paciência, humildade e cautela.

Observe também o gênero literário do texto. Ora, a Bíblia tem narrativas, exposições de doutrinas, profecias, poesias e cartas pessoais, e eles não podem ser todos lidos da mesma forma. Narrativas não são fonte de doutrinas, mas sim exemplos vívidos da aplicação ou rejeição de doutrinas expostas em outros lugares. E elas são, frequentemente, exemplos negativos. Poesias não são literais e imperativas como textos doutrinários, mas são belas pela sua capacidade de ilustração. Profecias pretendem ensinar, primariamente, sobre o objeto direto delas. Pense, reflita sobre as intenções do autor. Cada texto, com sua linguagem, tem um propósito, e você deve desvendar qual é. Não é difícil, só requer um certo trabalho maior do que ler e ficar esperando Deus soprar a cola.

Pois é, muitas pessoas pensam que é só ler o texto e orar para Deus dar o entendimento e pronto. Claro, é necessário que o Espírito ajude a interpretar. Mas o Espírito não vai falar toda o significado “mastigado” pra você. Ele vai, principalmente, dar a você humildade para se submeter ao significado do texto que não convém aos seus interesses. Vai também aumentar sua vontade de entender, seu amor pela Palavra. Mas não despreze aquilo que o Espírito já fez – guiou a história para que muitos outros homens entendessem, estudassem e publicassem o que eles aprenderam com a Bíblia. Leia sobre a história da Igreja, leia pensamentos de teólogos referendados, compre um bom comentário bíblico e Bíblias de estudo. Você não é humilde quando despreza tudo o que homens brilhantes aprenderam e tenta extrair diretamente de Deus tudo o que você quer. Oriente-se segundo o princípio de que Deus não vai lhe falar o que ele já falou e você não quer buscar. Pense em Deus falando “Pare de me perguntar e vá ler!”.

Só mais um ponto importante. Geralmente, as pessoas vão à Bíblia buscando respostas imediatas para suas questões existenciais e morais. Querem aprender princípios de vida, regras divinas, “o que esse texto me ensina que eu devo ou não devo fazer”. Saiba, porém, que tudo isso é secundário. O mais importante para se buscar na Bíblia é o que tal texto pode me ensinar ou ilustrar sobre Jesus. Como Jesus cumpriu esse princípio moral e como ele me ajuda? O que esse texto tem a ver com a sua obra? Jesus é o centro da Bíblia. Não ignore a pessoa de Jesus e o seu evangelho ao tentar aplicar um texto em sua vida.

André Duarte

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cinco solas e a atualidade



        Se uma Igreja não é católica, ela deve ser, muito provavelmente, evangélica. E por que ela é evangélica, e não católica? Ah, porque, há 500 anos, Matinho Lutero rompeu com a Igreja Católica quando fez a Reforma Protestante. Aí, essa Igreja em questão, como não é católica, e por causa de sua ancestralidade, ela é do “grupo” da Reforma, certo?
           
Esse tipo de pensamento informal é muito comum para evangélicos que não conhecem sua história. Geralmente, pensa-se que evangélico é sinônimo de protestante. Essa ideia só faz sentido se pensarmos em ancestralidade. Quer dizer, se uma Igreja não é católica, pensamos que ela deve ter origem na cisão protestante da Idade Moderna (tirando ramos menos conhecidos, como católicos ortodoxos, monofisistas, nestorianos, etc). E, por causa da ancestralidade, assumimos que há uma similaridade doutrinária entre os ideais da Reforma e os da Igreja evangélica em questão. O problema é que, hoje em dia, isso frequentemente se prova errado. A maioria das igrejas evangélicas mal sabem o que os reformadores pensavam e raramente seguem suas interpretações. Se Lutero vivesse hoje, falaria contra os evangélicos tanto quanto falou contra os católicos.
           
Embora haja ramos diferentes do protestantismo – luteranismo, calvinismo, arminianismo, anglicanismo, etc –, os protestantes estão unidos pelas cinco “solas”. Se você escreve “cristão protestante” no facebook, deveria conhecer as cinco solas. E mais, deveria saber o que essas cinco solas significam no contexto protestante. Ei-las:
           
Sola Scriptura (somente a Escritura). Somente a Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada, canônica, autoridade sobre fé e prática. Há dois subpontos aqui: a Tota Scriptura – a Bíblia inteira é Palavra de Deus, não apenas pedaços dela; e a Claritas Scriptura – a Bíblia é clara, inteligível para todo tipo de pessoa. Os reformadores afirmam com esse termo que a Igreja Romana erra em pensar que a tradição é tão inspirada quanto a Bíblia, que as decisões papais e conciliares são divinas, que a Bíblia tem um intérprete oficial extrínseco e que somente o clero é capaz de entendê-la. A Bíblia inteira é autoridade sobre a vida de cada crente e sobre a forma da Igreja.
            Portanto, se alguma Igreja evangélica despreza a capacidade de leigos entenderem a Bíblia; se os seus líderes pensam que falam palavras diretas de Deus no púlpito; se alguém acha que que teve uma visão, sonho, revelação ou profecia de uma verdade divina autoritativa, esse ente não é protestante e retornou aos erros do catolicismo. Se uma Igreja, oficial ou implicitamente, tem seu direcionamento inspirado em partes da Bíblia, contradizendo outros trechos, ela é uma nova seita relativista. Se algum pastor pensa que ele tem uma capacidade mais plena de entender a Bíblia que um leigo “não ungido”, ele trai sua afirmação de protestantismo. Se alguém firma a sua vida em textos favoritos e ignora os outros; se uma Igreja pensa que decisões conciliares, ordens pastorais e pregações no púlpito são inspiradas e canônicas; se alguém comete qualquer desses erros, retrocedeu aos paradigmas hereges medievais.
           
Sola Fide (somente a fé). Deus jamais se satisfaz com obras nossas para aplacar a sua ira contra nossos pecados. A única maneira de alcançar a absolvição de Deus e de ser por ele aceito é através da fé em Cristo. Somente a fé no que Jesus fez por nós, e não no que nós mesmos fazemos, é capaz de cumprir o requerimento de Deus. Quem crê em Jesus e em sua obra é aceito por Deus. Essa doutrina se contrapõe à ideia romana de que a salvação é por fé mais obras, isto é, que é necessário cumprir ordens além de crer em Jesus. Protestantes, entretanto, sabem que as obras são necessárias, mas que elas não podem ser efetuadas independentemente da verdadeira fé, pois é a fé que produz as obras. Assim, confiar em obras para a salvação é heresia. Também, por consequência da sola scriptura, é heresia pensar que existem obras para serem cumpridas além daquelas indicadas pela Bíblia.
        Por essa razão, todo aquele que desloca a fé em Cristo para a fé no líder, ou no programa, ou na sensação do templo está cometendo idolatria. Se alguém ora tendo fé em sua própria oração, e não no Deus que é sábio e soberano, adora a si mesmo. Quem confia em qualquer obra humana para ser amado por Deus não o conhece. Se alguém pensa que permanecerá em Cristo por causa de uma rotina de devocional inflexível, ou acha que a segurança da Igreja está nas mãos do líder, ou define fé como uma vida pautada por certas regras ascéticas, ou catexiza a fé em qualquer pessoa, objeto, prática, rotina ou sentimento, tirando a exclusividade de Jesus, esqueça que concorda com a Reforma. De igual modo, todo aquele que esvaziar a fé de seus bons frutos, definindo-a como uma simples profissão oral, capacidade sentimental ou abstração mental comete transgressão contra o evangelho. Se alguém pensa que a fé consiste de uma oração “aceitando Jesus” e uma vida medíocre, dando frutos carnais, precisa de arrependimento. Quem diz que crê em Cristo mas, na verdade, crê em sua própria performance religiosa, iludindo-se por uma sensação de estabilidade e conforto, é mentiroso. Quem professa fé em Jesus, mas não obedece-lhe como o Senhor que ele é, incorre em incoerência fatal. Se algum pastor ensina que é necessário praticar certas obras além da própria obra da fé, é, na melhor hipótese, um neófito.   
           
Sola Gratia (somente a graça). Protestantes sabem que nunca merecerão o favor de Deus. Não é por qualquer coisa que façamos que Deus nos aceita, mas unicamente por sua graça dada por meio do que Jesus já fez. Deus nos ama mesmo que sejamos pecadores, pois, quando ele nos olha, são os méritos de Cristo que ele vê, não os nossos. Quem crê em Jesus recebe o dom da graça de Deus, porque Cristo satisfez a justa ira e nos concedeu o seu favor imerecido. Nossas obras de justiça não valem nada, jamais melhorariam o saldo nos nossos pecados. Somente a graça de Deus é o motivo de sermos salvos e é o poder para nos libertar do domínio do pecado. Não é, por exemplo, através de muitas orações, jejuns ou da compra de indulgências que alcançamos a bondade de Deus.
Dessa forma, se alguém pensa que é salvo por causa de suas obras de justiça, é herege. Se alguma Igreja prega que o apego às ordens morais é suficiente para subjugar a carne, não conhece o evangelho. O pastor que acrescenta regras humanas para a justificação é desviado, e quem pensa que o amor de Deus vem por causa da mais recente performance religiosa comete idolatria. Qualquer tipo de ascetismo crido como necessário ou de cargo ministerial ocupado com o fim de assegurar a aceitação de Deus é odioso aos olhos do Senhor que realizou toda a obra necessária. Se alguém, de maneira ridícula, diz que crê na graça de Deus, mas pensa que é preciso obedecer a certas regras para assegurar essa graça, está confuso e perdido. Quem diz que é salvo pela graça, mas pensa que a segurança dessa salvação está nos últimos atos morais praticados, não sabe o que diz e não conhece o Senhor. Igualmente, quem fala sobre a graça enquanto se deleita no pecado é hipócrita e não compreendeu nada. Quem usa a graça de Deus para abrandar a gravidade do pecado, e não para nela encontrar refúgio contra as tentações, zomba do Espírito. A Igreja que vive uma graça que é mera abstração e sentimento, e não um real poder para fortalecer o espírito contra a carne, e busca esse poder em moralismos rígidos e extra-bíblicos ainda não foi reformada, mas vive a perdição romana medieval.

Solus Christus (somente Cristo): Jesus Cristo é tudo o que precisamos para cumprir o propósito para o qual fomos criados. Somente nele há salvação, apenas nele há santificação. Jesus é o único Cabeça da Igreja. Para os reformadores, isso significava que o papa não é o chefe da Igreja, que o clero usurpa o sacerdócio único de Jesus Cristo, que a missa não pode ser uma repetição do sacrifício dele. Jesus Cristo fez uma obra perfeita, a qual foi única e suficiente na história, e toda a vida cristã é fundamentada nisso. Jesus pagou o preço dos nossos pecados, transferiu seus méritos para nós, purificou o nosso espírito pelo seu sangue e nos deu vida eterna em sua ressurreição. E, agora, assentado no trono, ele governa a Igreja conforme deseja, pelo seu Espírito.
Qualquer pastor que se pronuncie como o chefe incontestável, o “intocável ungido do Senhor”, é um anticristo. Qualquer Igreja que tem as ordens e as palavras do seu pastor em primazia sobre as de Cristo é idólatra e anátema. Qualquer crente que busque acrescentar rituais e programas espirituais à obra de Cristo para fortalecer o acesso a Deus está dividido entre dois senhores. Se alguém pensa que há alguma obra pendente a ser feita além do que foi efetuado por Jesus, não o reconhece como único e suficiente Salvador. Se uma Igreja assume autoridades eclesiásticas paralelas à de Jesus, como chefes inspirados e inerrantes, está cega. Se um pastor pensa que o seu governo sobre a Igreja é automaticamente aprovado por Jesus devido ao seu posto, é um usurpador do Cabeça. Se alguém desobedece a Jesus para obedecer ao pastor, esclareceu quem é o seu senhor. Aquele que pensa no pastor como um sacerdote, isto é, alguém que faz a mediação entre o leigo e Deus, retornou ao catolicismo. Quem pensa que pode aumentar sua comunhão com Deus em função de sua atuação ministerial ou de seus dons escandalosos, e não por causa da completa e perfeita obra sacerdotal de Jesus, está em grave erro. Quem busca se santificar com base na própria vontade, e não no sacrifício eficaz de Cristo, proclamou a si mesmo como Salvador e não reconhece a própria fraqueza. O pastor que lidera a Igreja com base em uma suposta vitaliciedade e inerrância, e não como humilde servo do Senhor Jesus, não conhece nem a si mesmo nem ao Senhor. Se alguém se submete ao Espírito Santo para dele aprender ou receber qualquer coisa alheia à glorificação de Jesus, é ignorante quanto ao Deus que diz servir. E toda Igreja que, em seus ensinos e pregações, não invoca a obra de Cristo para a salvação, mas atém-se apenas às regras e à autoestima, está apartada do evangelho.

Soli Deo gloria (somente a Deus a glória). Significa que tudo o que fazemos, dentro e fora da Igreja, tem como finalidade a glória de Deus. E a glória deve ser dada somente a ele, contrariando a doutrina da glória dada a Maria, aos santos, aos anjos e ao papa. Não há ninguém digno de toda a glória a não ser Deus, pois somente ele é a razão de todas as coisas. Dele procedem todas as bênçãos, dele é o governo absoluto, dele é a eternidade e a perfeição, dele é a boa e soberana vontade. A Igreja não existe senão para ele.
Portanto, a Igreja que glorifica os seus líderes é idólatra. Líderes que se proclamam como celebridades, buscando aplausos para suas inflamações orais, amando a bajulação, bem como as igrejas que os apoiam e os servem nessas coisas, esqueceram-se de Deus. O líder que pensa que a Igreja é sua, e não de Deus, erra gravemente. Se uma Igreja sacraliza programas, mantras, lemas e metas, como se fossem inabaláveis, inquestionáveis e divinamente inspirados, desviou-se de dar glória somente a Deus. A Igreja que busca se afirmar por meio da propaganda voltada às suas próprias qualidades, ou por artifícios estranhos à Palavra que a tornam admirável perante o mundo, que preocupa-se mais com crescimento numérico e financeiro do que com a santidade de seus membros, que proclama-se como o verdadeiro organismo capaz de conquistar o mundo, que vive para satisfazer os desejos e ordens do seu líder e não os de Deus, essa Igreja glorifica a si mesma e dispensa o Cabeça. Se uma pregação tem como finalidade glorificar qualquer evento, programa, resolução ou pessoa, mesmo que seja personagem bíblico, além de Deus, ela é herege em seu fim. Se um crente, uma Igreja ou um pastor achar que existe para cumprir qualquer outro objetivo que não for a glória de Deus, deve se arrepender.

Sabendo dessas coisas, seja coerente. Você é um cristão protestante que resgatou a doutrina dos apóstolos, ou pertence a qualquer seita que se pareça com cristianismo?

           André Duarte

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Como ter certeza da salvação



          Sou salvo mesmo? Tenho tanto o que melhorar, tanto o que entender, vivo caindo no mesmo erro bobo... e se eu não for realmente um crente? E se o que eu vivo não tiver nada a ver com o que um crente deve viver? Todo crente cai nessas dúvidas de vez em quando. Em parte, a razão por que isso acontece é que nós não realmente sabemos perfeitamente todos os detalhes da fé, todas as possíveis práticas de pecado. Talvez também por existirem tantas vertentes e linhas teológicas no cristianismo, ou pelo resquício carnal de confiar em justificação por obras – e, obviamente, sempre estamos em falta nisso. Claro que também existe a boa motivação de querer agradar a Deus e rever as próprias posições, e isso é louvável. Para lidar com essas dúvidas, existe a belíssima carta de 1João. Ela tem como finalidade distinguir quem é cristão mesmo e quem é gnóstico, conforme a confusão da época, mas sua aplicação transcende o contexto imediato. Para isso, o apóstolo propõe diversos testes em forma de antíteses e coloca ainda uma verdade imensamente confortadora. Vamos ver cada uma dessas coisas, mas não antes de desfazer certas noções erradas.

            Em primeiro lugar, a dúvida não deve ser reprimida. Não é verdade que qualquer dúvida é acusação de Satanás. Mesmo que seja, não é para ser simplesmente negada, mas investigada. E se você descobrir que sua dúvida era correta e que realmente você deve se arrepender e se converter de verdade? Não confie na oração que você fez no passado aceitando Jesus. Verifique o seu procedimento à luz dos testes de João e você resolverá a sua dúvida. Por outro lado, não conviva com a dúvida. Não espere até que ela desapareça, não a ignore. Ela é importante para ser desvendada. É inevitável que venha a dúvida, mas ela deve ser tratada como a Escritura ensina. Não reprima como se fosse mentira do diabo nem esqueça-a como se ela não importasse. Trate-a com a seriedade e com o bom senso que é devido.

            O cristão anda na luz para a purificação e comunhão. A luz de Cristo revela quem somos, nossa pecaminosidade. Ela é a verdade santificadora de Deus. Por outro lado, quem vive em trevas ainda esconde a verdade e se ilude na própria “justiça”. Isso significa que o verdadeiro crente, em primeiro lugar, reconhece que é pecador. Não porque tenha pecado algumas vezes na vida, mas porque sua inclinação natural é para o pecado. Mentiroso é quem se acha capaz de ser iluminado pelas próprias obras. Mas a verdade é que a luz vem de Deus. É necessário, em primeiro lugar, que o crente se humilhe e saiba que ele é indigno e totalmente dependente da graça de Deus para segui-lo. Apenas isso o capacitará para ter verdadeira comunhão com a Igreja, pois quem se orgulha de sua própria justiça não pode se relacionar com aqueles que sabem que são purificados somente por Cristo. O crente peca sim, mas ele confessa seus pecados; o falso pensa de si mesmo como muito correto. Esse é o primeiro teste: você se reconhece como pecador e merecedor da ira, e sabe que somente na luz de Deus existe santificação? Ou você ainda confia em seus esforços e méritos para agradá-lo?

            O crente é obediente aos mandamentos. Quem anda na luz de Cristo, quem foi iluminado pela sua verdade não reagirá de outra forma senão com profunda devoção e obediência. Não é possível que alguém conheça Deus ou o ame de verdade sem uma vida de obediência. Se você não obedece a Deus, ainda não o reconheceu como Deus. Você não deve obedecer-lhe para conquistar o seu amor; do contrário, você ainda não foi iluminado pela verdade a respeito do sacrifício de Jesus. Se você realmente crê em Deus, oferecer-se-á em obediência. João escreve várias vezes que, se alguém ama Jesus, obedecerá aos seus mandamentos. Examine-se nesse teste também: você vive em obediência às leis de Deus? Ou vive para servir aos próprios interesses e conceitos? Você se entrega totalmente à vontade dele, ou procura um meio-termo? Veja que esse teste está intimamente relacionado ao primeiro. O verdadeiro cristão é obediente a Deus e, ao mesmo tempo, sabe que sua obediência é mera gratidão por quem Deus é, e não como um meio para dele alcançar a bênção e o favor. A obediência vem da humildade, não do orgulho.

            O crente ama os seus irmãos. Frequentemente, João diz que, se alguém odeia o seu irmão, é um assassino, mas quem ama o seu irmão é alguém que foi iluminado pelo amor de Deus. Perceba que o amor é amplo, engloba todo tipo de bem que possamos fazer ao próximo. João dá o exemplo de alguém que vê o seu irmão em necessidade e não o ajuda – esse alguém não conheceu o amor de Deus. O amor ao irmão só é possível para alguém que conheceu o amor de Deus. Pois Deus é amor, e somente dele procede toda a introjeção e a vida em amor. Esse amor é o reflexo do amor de Cristo, que buscou a reconciliação com os perdidos, que doou sua vida e viveu em altruísmo em todo o tempo. Além disso, se o meu irmão é alguém como eu diante de Deus, por quem Cristo também morreu, que Deus também amou para salvá-lo, como posso eu dizer que amo Deus e não amar esse amado dele, que o é tanto quanto eu? Examine-se quanto às manifestações de amor: você perdoa o seu irmão ou passa o tempo todo cobrando dele a ofensa que ele lhe fez, seja em fato, seja em sua imaginação? Você busca se reconciliar com ele quando vocês brigam? Você gasta tempo com ele quando ele precisa? Você discute doutrina com ele para edificá-lo ou para humilhá-lo? Você se alegra com ele e se entristece com ele, conforme ele precisa? Por outro lado, você o repreende com franqueza e ponderação para discipliná-lo, ou fica todo fofo diante dos pecados dele?

            O crente demonstra crescimento. Quem fica estagnado em seus conhecimentos e sua maturidade atual demonstra afastamento de Cristo. Veja que João fala a “pais”, “filhos” e “jovens”, termos que os estudiosos interpretam como fases simbólicas do crescimento de todo crente. Entenda que todos esses sinais de ser um cristão não são perfeitos de imediato. Há um processo de santificação e maturação que melhorará progressivamente as respostas a esses testes. Mas deve haver esse crescimento. A salvação tem justamente o propósito de nos levar, pelo Espírito da graça, a uma semelhança com Jesus cada vez maior. Muitos crentes ficam estagnados em mediocridade por anos e, só depois que algum fator renovador ocorre, ele percebe que estava enganado e começa a desejar uma plenitude maior do conhecimento e da obediência a Deus. Não é o desejo de Deus que a vida cristã seja marcada por altos e baixos o tempo todo. Deve haver progressão, a sede por Deus precisa aumentar. Para isso, a irmandade é imprescindível. Todo crente precisa da ajuda dos irmãos para crescer e, em especial, de um amigo com um pouco de mais maturidade para influenciá-lo. Então, vamos ao exame: você está realmente melhorando ou está confortável na mediocridade? Se está estagnado, você procura a ajuda de crentes mais maduros, ou apenas fica quieto esperando algo acontecer? Você é vencido vez após vez pelo mesmo pecado, ou ele fica cada vez menos atraente pra você? Você busca conhecer mais as Escrituras, ou a leitura repetitiva e não meditada dos seus textos favoritos já está de bom nível? Lembre-se de que você somente reformará suas imperfeições constantemente se manter fixos seus pensamentos na obra de Cristo. Não adianta apenas adotar rotinas e métodos se a sua confiança não estiver no que Jesus já fez e ainda faz por você.

            O crente rejeita o pecado. Esse é um complemento do segundo teste. João diz que quem vive pecando (“peca”, no grego, está escrito no contínuo, não no aoristo) é filho do diabo, não de Deus. Novamente, lembremo-nos de que ser cristão não é ter perfeição moral, e sim confessar os pecados e resolver, por amor a Cristo, não voltar a cometê-los. O pecado não pode ser eliminado, mas pode ser derrotado pela graça de Deus. Momento do exame: como você lida com seus pecados? Você os confessa em contrição logo que toma consciência deles, ou apenas deixa acumular como se pouco importassem? Você se avalia constantemente para encontrar em si o erro e abandoná-lo, ou dá mais importância ao pecado dos outros do que aos seus?

        O crente crê na doutrina certa. A doutrina nunca pode ser subestimada, pois todo o comportamento e as crenças menores dependerão da doutrina. João diz que quem nega que Jesus é o Cristo ou quem nega que ele veio em carne é um anticristo, mas quem confessa Jesus como o Cristo, o Deus encarnado, é realmente cristão. Agora, é muito importante entender que aqui a doutrina não é só aquela professada de boca, mas aquela que é verdadeiramente crida de forma a nortear toda a vida cristã. Lembre-se daqueles homens no texto do sermão do monte que dirão “Senhor, Senhor, não curamos em seu nome etc?”. Esses homens sabem a correta doutrina, pois chamam Jesus de Senhor – e mais, chamam Jesus de Deus, visto que o grego “kurios” é o título de Senhor que os governantes usavam para si mesmos com sentido de divindade. Mas essa profissão de fé nada fez para que esses condenados se submetessem à vontade de Deus. Dessa forma, não é verdade que todo aquele que professa a ortodoxia é cristão, mas todo o que nega a ortodoxia não é cristão. Portanto, verifique: você crê nas doutrinas fundamentais do evangelho, ou você inventou suas próprias relativizações? Você realmente vive de acordo com o que você diz, ou são apenas palavras abstratas? Você deseja aprofundar-se na doutrina cada vez mais mediante o estudo das Escrituras e do aprendizado com os mestres, ou você despreza essas coisas como se fossem secundárias?

            Já que tocamos no ponto do sermão do monte, vamos ver três características que crentes falsos têm em comum com crentes verdadeiros (oh, Tim Keller...). Primeiro, a profissão da doutrina correta, que já vimos. Segundo, intensa emoção diante de Deus. A repetição “Senhor, Senhor” é uma expressão emotiva forte; essa é a função da repetição no hebraico. Veja outros exemplos na Bíblia: “Deus meu, Deus meu” em grande desespero, “Absalão, Absalão, meu filho, meu filho”, com muito choro e muita tristeza, “Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor”, fortes emoções no santuário de Deus pela sensação de invencibilidade (Jeremias 7). Assim, tanto crentes falsos como verdadeiros se emocionam com Deus. Terceiro, ministério ativo. Os tais que foram apartados de Cristo se vangloriaram de sua atuação ministerial, com curas, pregações, exorcismo. Atividades eclesiásticas, por mais belas e bem sucedidas que pareçam, não são prova de verdadeira fé. Pense, portanto, da seguinte forma: a presença de profissão de ortodoxia, emoções intensas com Deus e exercício de dons não é prova de conversão verdadeira, mas ausência dessas coisas é prova de falsidade.
           
Resumindo o que João diz: se você é cristão, você apresenta as características: fé na doutrina fundamental correta, crescimento na maturidade espiritual, humildade e transparência quanto aos próprios erros, confiança somente no sacrifício de Cristo para a purificação, repugnância pelo pecado, vida de obediência à lei de Deus e amor servil e zeloso pelos irmãos. Se você dá esse fruto, você é um cristão. Se você não os apresenta, arrependa-se e creia em Cristo. Se você acha que está mais ou menos, arrependa-se também, reveja seus fundamentos e apegue-se ao Senhor para o crescimento. E lembre-se da grande verdade consoladora que João nos diz: “Assim saberemos que somos da verdade; e tranquilizaremos o nosso coração diante dele quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas. Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada (1 João 3:19-22)”. A sua salvação não depende de você  sentir-se salvo, sentir-se santo. Ela é um fato. E Deus, que sabe que você está seguro com Cristo, consolará o seu coração pelo Espírito.

            André Duarte

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O amor, a fé e os mandamentos



           Quando pensamos em salvação e relacionamento com Deus, costumamos pensar apenas na questão de fé. Afinal, toda a teologia protestante é firmada na doutrina da justificação pela fé, o tema central de Romanos e Gálatas. Eu mesmo uso muito esse raciocínio. Quero, agora, desafiar a mim mesmo a falar um pouco sobre a supremacia do amor, o que costuma ficar em segundo plano.
           
Pois a justificação pela fé é, na verdade, uma linguagem para expressar uma realidade que, em outras textos da Escritura, recebe outros termos. Embora seja conhecida como a marca paulina, a justificação pela fé quase não aparece nas outras cartas de Paulo e nem nas de outros apóstolos. A carta aos Efésios expõe toda a salvação realizada por Cristo sem mencionar justificação pela fé. Agora, vamos pensar em João: os escritos joaninos falam muito a respeito de doutrina e fé, mas são centrados no amor. Como entender essa relação entre amor e fé? São aspectos diferentes da mesma realidade metafísica, ou conceitos bem distintos? Vemos que, em 1Coríntios 13, Paulo diz que o amor é maior que a fé. No entanto, não penso eu que Paulo esteja falando da mesma fé salvadora e primordial de Romanos e Gálatas. Pois, em 1Coríntios, essa fé viva e suficiente não é comentada. A fé em 1Coríntios é um termo para visão otimista. No capítulo 12, Paulo diz que alguns recebem o dom da fé, e não é possível que isso se refira à fé necessária para todos os crentes serem salvos. No próprio capítulo 13, Paulo diz “ainda que eu tivesse uma fé capaz de mover montanhas, se não tivesse amor...” Ora, essa descrição da fé em nada se relaciona com a confiança da vida em Jesus, mesmo porque é impossível que a fé salvadora de Romanos seja vazia de amor. Por essas razões, penso que, quando Paulo distingue entre amor e fé no fim do capítulo 13, essa fé não é a fé da justificação e salvação, mas sim esse dom visionário e assertivo mencionado antes.
           
Quando vamos para João, vemos a fé essencial unida ao amor. Isso nem sempre fica explícito. Em João 6, por exemplo, vemos que a multidão é acusada de não crer em Cristo e, ao mesmo tempo, é patente que ela não tinha amor a ele, mas apenas aos seus benefícios. Também, assim como aprendemos com Paulo que a fé necessariamente resulta em obediência, vemos em João que o amor é expresso na prática das ordenanças. Fé e amor são inseparáveis. A fé em Cristo produz imediatamente amor por ele, e o amor a Cristo cumpre o propósito da fé. Por conseguinte, como bem explica João, é necessário amar Deus para ser salvo. É tão correto falar da salvação pela fé quanto da salvação pelo amor. E, assim como essa fé é definida biblicamente, também é o amor salvador. Esse é um ponto difícil para compreendermos, porque não estamos tão acostumados a pensar em termos de amor como estamos em termos de fé e, consequentemente, os conceitos mundanos sobre amor nos afetam mais do que os erros sobre a fé. Como compreender o amor salvador à luz da Bíblia?
           
Amor é autossacrifício. Assim como fé em Jesus significa confiar em toda a sua obra e sua palavra para nossa salvação, resultando em uma total entrega de nós mesmos e o abandono do pecado, o amor – bem, é tudo isso também. Talvez, na nossa imaginação, amor e fé tenham cores e texturas diferentes, mas existencialmente são a mesma coisa. Por isso, podemos falar sobre amor com tanta centralidade quanto falamos sobre a fé.

Amor é, também, a nossa resposta ao amor de Deus. João diz que Deus é amor. Amar é divino. Por conseguinte, é impossível que o amor surja de nós mesmos, por esforço próprio, força de vontade. Nós apenas amamos Deus porque ele nos amou primeiro. É o amor de Deus que conquista o nosso. Quando Jesus doou sua vida por nós, ele o fez por amor ao Pai, para cumprir sua vontade, e por amor a nós, para sermos resgatados. Agora, perceba que não basta a ideia de que Deus ama todo mundo automaticamente para nos cativar a amá-lo. O que nos move a amá-lo é o fato de que o amor dele foi custoso. Deus tanto nos amou que se dispôs a pagar pessoalmente o preço da nossa salvação. Vendo nós em dívida, totalmente perdidos e condenados, Deus mostrou-se tão amoroso que não poupou seu único Filho por nós. É essa realidade que nos move a responder com amor. Nós não conquistamos o amor dele por nada que fizemos, mas foi ele quem nos amou primeiro quando ainda éramos rebeldes.

Quando somos conquistados por Jesus pelo amor, podemos realmente servi-lo. Pois Cristo nada amou neste mundo a não ser os seus perdidos a quem resgatou. Da mesma forma, não mais necessitamos amar o mundo, visto que temos o único amor que importa, o amor de Deus. Somente a ele precisamos amar. Apenas o amor a Deus é plenamente satisfatório. Dessa maneira, entendemos porque o amor a Deus e o amor ao próximo são os maiores mandamentos. Se amamos Deus com toda a nossa vida, não mais amamos as vaidades que ele odeia. Se Deus ama também o nosso próximo, não nos damos o direito de não fazer o mesmo. Se amamos Deus, como não amaremos quem ele também ama? Essa é a base da obediência a Deus e do amor ao próximo.

Perceba o contraste com o amor mundano. O mundo ensina que o amor é um forte sentimento. É dessa forma que muitos crentes “amam” Deus: sentindo um grande acalento ao pensar nele, com fortes emoções, mas ignorando o que ele ordena. Em outro aspecto que resulta na mesma consequência, o amor mundano é totalmente relativo. Isto é, “quem realmente ama não impõe regras”. Ora, faz algum sentindo você dizer que ama o seu pai, mas não obedecer ao que ele diz? Ou dizer que ama sua esposa enquanto adultera contra ela? O amor a Deus é comprovado pela obediência. Pois o amor de Cristo também dependeu de completa obediência ao plano do Pai. Quem não obedece aos mandamentos de Deus não o ama, sendo totalmente irrelevantes as emoções chorosas em ministrações e as mensagens gospel no Facebook. A ação da obediência é tão importante que ela não depende do sentimento do amor a Deus. Isto é, você deve obedecer a Deus por amor a ele mesmo se não estiver com vontade. Parece contraditório à nossa maneira de pensarmos em amor. Pensamos que, se não estivermos com vontade de obedecer às regras de Deus, é melhor não obedecer, senão não seremos “autênticos”, ou cairemos em “legalismo”. Mas o amor a Deus é também mostrado nisto: servi-lo e agradá-lo mesmo se você teve um dia ruim ou de está de má vontade. Se você obedece a Deus apenas quando tem vontade, está amando apenas a si mesmo, por considerar que sua vontade é mais importante que a de Deus. O amor a Deus de forma alguma excluirá a vontade. Mas é a ação que antecede o ânimo, e não o contrário. Pratique o que Deus ordena por amor a ele, não por amor próprio, e você aprenderá a ter deleite nisso.

Quanto ao amor ao próximo, ele vem em segundo lugar porque ele depende do amor a Deus. Jesus disse que Deus concede sol e chuva aos justos e aos ímpios. Isto é, Deus mostra bondade até mesmo com os perversos. Da mesma forma, devemos amar as pessoas mundanas. Esse amor depende também da definição do amor de Deus. Não significa gentileza diante das práticas perversas delas, não significa a troca da repreensão pela aprovação. Pessoas mundanas precisam ser exortadas com a verdade de Deus, e isso é o um ato de amor muito maior do que apenas o sorrir e ser compreensivo. Pois, como essas pessoas se arrependerão e serão salvas para o amor a Deus se não forem convocadas? É importante também que os mundanos não participem plenamente das bênçãos eclesiásticas que aos salvos foram dadas; do contrário, poderão pensar que são salvos simplesmente por conviver com os santos e estarão mais perdidos do que nunca. A verdade deve ser proclamada, e  a dureza do evangelho não pode ser escondida para não ofender, pois não há maior ato de condenação do que mascarar a límpida mensagem de salvação com palavras agradáveis.

Ainda mais crucial é o amor aos irmãos. Isso é tão sério que João diz que, se alguém não ama o seu irmão, nunca conheceu Deus. São os irmãos que foram salvos e perdoados por Deus. Como não perdoaremos quem Deus já perdoou? Como não comungaremos com alguém que é unido a nós pelo mesmo Espírito? Como deixaremos de ajudar alguém a quem Deus se dispôs a ajudar ao custo de seu Filho? Como não repreender um irmão em pecado, se Deus também disciplina a quem ama? Jesus ensina que devemos servir em amor aos nossos irmãos assim como ele o fez primeiro. O amor é o ser de Deus, e a Igreja é chamada a imitá-lo em seu caráter. O amor de Deus em nós é princípio do nosso amor a ele e do nosso amor aos irmãos. Assim, somos todos unidos pelo amor selado pelo Filho de Deus através do seu Espírito. 1Coríntios 13 é mais do que uma descrição do amor entre irmãos, mas é também a exposição do amor que Deus dispensou a nós primeiro. Viva com essa base, e essa será a prova de sua salvação.

André Duarte