terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Tempo, as Coisas, e o Cristão



Há hora certa para todas as coisas nessa vida. Meu intuito é mostrar como a vida pode ser tão mais simples quando nos disciplinamos a deixar a ansiosidade e passamos a compreender melhor aquilo que chamamos de “tempo de Deus”. Quando passamos a, enquanto cristãos, viver pela fé, o tempo já não é mais alguma coisa com a qual nos importemos, simplesmente vamos vivendo nossa vida debaixo da graça e de acordo com a vontade de Deus. Nesse estudo, peço que vocês tenham abertas (ou em mente) as passagens de Ec: 3.1-17 e Mt: 6.25-34, há várias outras muito interessantes também, mas focarei nessas duas.

Primeiro estudando no início do texto de Eclesiastes (3.1-8), o autor trabalha com uma série de antônimos, alocando-os no tempo a fim de mostrar que há o tempo certo para todo tipo de coisa. Dessa forma, temos que ter em mente e a sensibilidade e a sabedoria para saber, desde as coisas mais pequenas, se aquele é de fato o momento apropriado para se fazer tal coisa. Semana passada conversando com o Dc. João Carlos, líder dos jovens e adolescentes da igreja a qual congrego, percebi como muitas vezes julgamos estar fazendo aquilo que é o correto, e de fato é, mas de maneira, ou intenção, ou no tempo inapropriado para aquilo. Por exemplo, você está em uma reunião (da igreja, da repartição, qualquer tipo) e tem alguém dirigindo essa reunião, esse não será, por sabedoria e sensibilidade, o tempo mais apropriado para você discutir com algum colega acerca do tema dessa reunião ou qualquer outra coisa, é uma falta de respeito com o aquele que dirige a reunião e você pode discutir tal assunto depois e/ou em outro lugar num outro momento, por que então não deixar para depois e evitar algum mal-estar? Não que seja pecado fazer isso, mas é sábio deixar de fazê-lo. Porém é interessante lembrar que muitas das vezes perdemos oportunidades e até mesmo a chance de sermos abençoados, por deixarmos de fazer alguma coisa quando o tempo certo chegou, é aquela velha história do cavalo da oportunidade que passa correndo selado apenas uma vez diante de você, cabe a você decidir se irá pular nele, ou o deixará passar.

Na seqüência do texto (9-13), Salomão começa a questionar o esforço do trabalhador e vê o trabalho como algo que Deus deu, de acordo com a tradução Almeida Contemporânea e Revisada, Nova Tradução Internacional, para nos afligir e como um fardo, já numa tradução católica, como algo para nos ocupar, cita sobre como é maravilhoso isso que ele fez, pois deu trabalho, mas também colocou a eternidade em nossos corações e nós ainda assim não conseguimos compreender o porquê, e encerra dizendo que o melhor que os trabalhadores têm a fazer é se alegrar e fazer o bem na vida, comer e beber e aproveitar o bem que seu trabalho lhe dá, chamando isso de dom de Deus. O autor no fundo quer trazer o seguinte, que não importa ou adianta nada você se esforçar exaustivamente no trabalho, se você mesmo não buscar fazer o bem e alguma de se alegrar e se permitir curtir do fruto do seu trabalho. Trazendo isso para o nosso tema, qual o propósito do trabalho nesse texto (por isso citei a tradução católica)? Ocupar-nos de alguma forma, e, não ficarmos ociosos e sem ter alguma coisa para fazer, “mente vazia é oficina do diabo” e afins. Precisamos nos ocupar e viver nossas vidas, e o desejo da eternidade é algo que motivaria o homem a trabalhar, pois saberia que chegaria um dia que poderia descansar desse fardo, e finalmente se ocupar com as coisas que de fato importam, como um dia estaremos na glória a fim de louvarmos eternamente a Deus e em Sua presença. Pelo menos para mim, isso me motiva a estar sempre buscando algo para me ocupar e parar de estar ansioso por alguma coisa, o que importa é viver a vida debaixo da obediência a Deus.

Na parte final a ser estudada (14-17), Salomão nos relata a solidez e a imutabilidade da criação de Deus, fazendo contrapartida com a volatilidade e a corruptibilidade das coisas, e por fim nos diz que Deus colocará a todos sob o mesmo julgamento, pois há um tempo certo para todas as coisas. Aqui o autor nos quer levar a ter segurança naquilo que provém do Senhor a fim de temê-lo e respeitá-lo ainda mais, e não buscarmos coisas (materiais e imateriais) que não provém do Senhor e que não nos podem satisfazer e ainda nos levar pecar por conta delas. Temos que ter cuidado quando estamos atrás de algo, para que possamos buscar isso em Deus, e não ficarmos ansiosos demais e acabarmos nem aproveitando de fato aquilo que Ele tem preparado para nossas vidas, e, trocando isso por coisas superficiais que passam tão rápido quanto vêm. Nossa postura é agora é ter a sensibilidade para discernir a origem das coisas que vêm até nós. Não digo para se tornar alguém bitolado e desconfiado de tudo, acredito que alguém que realmente é seguidor de Cristo, tem o Espírito dentro de si e sabe muito bem discernir naturalmente o certo do errado, de outra forma, não faria sentido Paulo, em sua primeira carta à Igreja de Tessalonicenses, nos instruir sobre abster-se da aparência do mal.

E como não ser bitolado e desconfiado de tudo? Seguindo as instruções de Jesus no sermão do monte (Mt. 7:25-34). É um texto muito curioso, onde Jesus faz uma longa introdução (25-31), desenvolve Seu raciocínio e traz sua mensagem de forma objetiva (32 e 33), finalmente concluindo Sua idéia no último versículo. A introdução basicamente situa os ouvintes acerca do problema a ser tratado, a saber, a ansiosidade. Jesus cita como exemplo a ansiosidade sobre necessidades básicas, levando o ouvinte a uma reflexão do valor que este possui perante Deus quando comparado a outros seres, e ainda nos revela o quão ridícula e absurda é ansiosidade no versículo 27. Alcançado esse objetivo, Jesus prossegue mostrando que não há o porquê de andarmos ansiosos e preocupados com essas coisas, quem se preocupa com isso são os gentios, são eles que levam uma vida em busca de coisas, já nós, que seguimos a Cristo, devemos ter em mente e confiar que Deus já sabe do que nós precisamos ou queremos. Nós, enquanto cristãos, devemos ter uma única preocupação, na verdade uma única ocupação, que é simplesmente buscar o Reino e a justiça de Deus, e o mais Ele fará. Ao concluir o assunto, Jesus nos mostra como tudo funciona no Reino, onde se vive um dia de cada vez, mas agora, não andar ansioso pelo dia de amanhã não significa viver inconsequentemente sem planejamento, mas significa confiar que se algo não sair conforme o planejado, foi porque Aquele que já escreveu toda a sua vida tem algo de diferente para você, Deus já se preocupou com o dia de amanhã.

Portanto meus queridos e minhas queridas, primeiro: saiba que há um tempo certo para tudo debaixo dos céus, busque sabedoria para discernir os momentos e adquira um bom “timing”. Segundo: ocupe-se, trabalhe, desfrute de seu trabalho, viva, se permita ser feliz, e faça o bem, tudo isso é um presente que Deus te deu para não ficar à toa e começar a confabular coisas em sua cabecinha. Terceiro: seja o que for buscar, busque em Deus, uma busca fora Dele não passa de uma verdadeira perda de tempo e crescimento, busque sabedoria para discernir o certo do errado. E por fim: não seja bitolado, viva uma vida ocupada com as coisas do alto, e as demais coisas, serão (não necessariamente, isso fica para o próximo assunto) acrescentadas, acontecerão (sobre)naturalmente. João como que eu consigo fazer isso tudo? Você tem o manual perfeito para aprender a fazer todas essas coisas, você, assim como eu, precisa desenvolver uma relação de amizade com a Bíblia, pois é por meio dela que Deus falará ao seu coração, discipline-se. Uma vida com Cristo pode ter mais lutas, mas é mais simples do que parece, você só precisa deixar Ele levar o seu fardo.

João Renato

domingo, 28 de outubro de 2012

Boneco, acorde. O dom da vida é seu. - I



            Resolvi voltar às resenhas de filme. Vou fazer essa do Pinóquio, que vai levar mais de um post, e depois pretendo fazer uma do Matrix. Na minha visão, o filme do Pinóquio conta detalhadamente toda a vida do homem, desde o seu nascimento, sua queda, seu renascimento e a entrada na vida eterna. Assistir a esse filme é como ler a Bíblia do Gênesis ao Apocalipse.

            Colocarei o velho Geppetto como o Pai. Embora haja algumas diferenças, que eu não ignorarei, há comparações muito válidas também. Ele é, pela sua profissão, um criador. Ele criou vários brinquedos e relógios para a sua satisfação, assim como Deus criou o universo para a sua glória, embora não houvesse vida espiritual em nada do que foi criado. Geppetto também tem dois animais, o gato Fígaro e a peixinha Cléo. Eles em nada participam da criação, exceto em contemplar e se alegrar com o designer – acho que são como os anjos que, de acordo com alguns salmos, exultaram diante das obras do Criador como expectadores.

            Ainda faltava algo na criação: alguém que pudesse ter uma vida compartilhável com Geppetto. Ele esculpiu o mais belo de seus bonecos e o chamou Pinóquio. Ele tanto se agradou desse boneco em especial que lhe desejou vida, uma vida compartilhável e relacional, assim como o Pai formou o homem do pó da terra. Geppetto queria um boneco que ele pudesse chamar de filho, e creio que essa é uma boa comparação para entendermos o que significa ser imagem e semelhança de Deus, entre outras coisas: apenas os humanos podem ser filhos dele, semelhantes a ele como qualquer filho é semelhante ao seu pai. Nesse sentido, de ser uma criação com característica de filho, a genealogia de Jesus em Lucas 3 chama Adão de filho de Deus. O filme, assim, concorda com a Bíblia em mostrar que o filho foi criado para ter uma relação familiar com o seu criador.

            Uma das diferenças do filme para a Bíblia é que, na história bíblica, o mesmo Deus que deu forma também deu a vida, pois o Pai e o Espírito são um. No filme, quem dá a vida é a Fada Azul, agindo em total autonomia com relação a Geppetto. De qualquer forma, vou definir a Fada como o Espírito Santo, por ser a doadora da vida e a auxiliadora. Como diz Gênesis 2:7 (yeah, atendendo a milhares de pedidos, vou começar a colocar referências): “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente”. Ela disse “Boneco feito de pinho, acorde. O dom da vida é seu”. Pinóquio acordou e começou a falar e a se mexer alegremente.

Entretanto, a Fada avisou-lhe que ele só poderia se tornar um menino de verdade se provasse ser corajoso, verdadeiro e altruísta (a tradução do filme não é muito boa). Significa que, para aquele destinado a ser filho se tornar filho verdadeiramente, ele deve ter esse caráter. Esses termos só podem se aplicar a quem crê em Jesus, pois tais características são dons inseridos por Deus. Quanto à coragem, temos na Bíblia que “Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, amor e equilíbrio” (2Tm 1:7) e segue descrevendo a coragem “Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor (...) mas suporte comigo os meus sofrimentos pelo evangelho”. E também “os covardes (...) o lugar deles será no lago de fogo” (Ap 21:8). Coragem é dom do Espírito de Deus. Além de corajoso, Pinóquio precisa ser verdadeiro. Afinal, o pai da mentira é o diabo (João 8), mas Jesus é “o Caminho, a Verdade, e a Vida” (Jo 14:6). Naturalmente, o homem é mentiroso, pois, segundo Romanos 1:18, “suprimiu a verdade pela injustiça”. Mas 1João descreve os filhos de Deus em vários momentos como praticantes da verdade  (ex: 2:21, 5:20). Por último, é necessário ser altruísta, o que, em termos bíblicos, significa amar o próximo. Paulo nos diz para “levar os fardos pesados uns dos outros” (Gl 6:2) e “Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns com os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, revistam-se do amor, que é o elo perfeito” (Cl 3:13,14). Colocando a suprema importância do amor autossacrificial, João diz “Nós amamos alguém porque ele nos amou primeiro. Se alguém afirmar ‘Eu amo Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso (...) Ele nos deu este mandamento: quem ama Deus, ame também seu irmão” (1Jo 4:19,20). (E ainda tem gente que diz que Disney é do demônio...)

Pinóquio fica assustado com tantas exigências e pergunta “Como vou saber o direito e o errado?”, e a Fada nomeia o Grilo Falante a consciência do boneco. Os termos que a Fada usa são bem bíblicos: “Guardião do conhecimento do bem e do mal” – como Deus se chama em Gênesis 3:22 – “conselheiro nos momentos de tentações” – João 14:16 e 16:13 – e “guia no caminho reto e estreito” – Mateus 7:14. Aposto que você nem notou isso quando era criança 8). Bem, essas características são de uma consciência regenerada pelo Espírito Santo. Como Pinóquio e o Grilo ainda não haviam caído, não poderiam já se voltar de coração a esse ideal. A relação do Grilo com Pinóquio nas próximas cenas é mais parecida com o que Paulo descreve em Romanos 2. Diz ele que o homem tem a consciência que lhe diz o que é certo e errado, e ele pode obedecer-lhe ou não. Por mais que o homem afunde na depravação, sempre haverá a consciência moral exercendo o seu papel de testemunhar das ações dele, como diz o versículo 15: “Pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os”. Voltaremos mais à carta aos romanos em outros posts.

Temos então, no fim da cena, a repetição do lema “Deixe sua consciência ser seu guia”. Essa é, a princípio, a regra para o homem criado. Uma vez que ele recebe o espírito de vida e a consciência moral, o Pai se alegra na criação de seu filho. O resto da história fica para os próximos posts.

André Duarte

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Salmos 1



            Assim como fiz com o hino cristológico de Colossenses, coloco aqui na íntegra um pedaço do meu comentário sobre os salmos (o qual vai demorar um tempão pra ficar pronto, mas tudo bem):

“O primeiro salmo, colocado aqui como uma introdução ao saltério, descreve sucintamente o contraste entre o justo e o ímpio. Esse contraste é constante nos salmos, nos provérbios e em escritos poéticos dos profetas. Não há meio termo; toda a humanidade se encaixa na categoria de justo ou de ímpio. No Antigo Testamento, ainda não era conhecida claramente a revelação de justificação pela fé; no entanto, os salmistas inspirados por Deus conheciam pelo Espírito a graça de Deus e o conceito de fé ou confiança no Senhor como o fundamento da retidão. Mas, como o grande profeta Jesus ainda não havia proclamado o evangelho, os salmistas enfatizam os resultados e as características de um justo ou de um ímpio, sem explicar muito a base da fé em Deus. Posto isso, não precisamos ter a impressão de que os salmistas acreditavam em justificação por obras.

            O salmista chama o homem descrito nas linhas seguintes de bem-aventurado. É uma expressão abrangente que inclui felicidade interna, garantia do favor de Deus e sucesso naquilo que empreende. Esse é o constante elogio bíblico à pessoa que faz a vontade de Deus. O homem é bem-aventurado porque Deus graciosamente melhora as circunstâncias para o bem dele à medida que melhora o coração dele para aceitar as circunstâncias nas quais o ímpio não teria satisfação.

            Que características omitivas estão no bem-aventurado? Ele não anda no conselho dos ímpios, isto é, não rege sua vida segundo as opiniões dos maus, consciente de que a sabedoria mundana é contrária à de Deus. O conselho dos ímpios é voltado à ganância, ao egocentrismo e é afastado das leis de Deus; por isso, o bem-aventurado não os ouve. Além disso, ele não para no caminho dos pecadores. O caminho dos pecadores é descrito diversas vezes como cheio de espinhos e com seu fim na ruína e na morte. E é um caminho aparentemente largo e fácil, como o Senhor disse. O bem-aventurado não cruza esse caminho e nem mesmo fica inerte nele, esperando que o pecador andarilho o encontre ou esforçando-se para ter coragem de seguir nele. Dito de outra forma, o bem-aventurado nem flerta com a possibilidade de pecar. Também ele não se assenta na roda dos zombadores. A poesia descreve as ações do bem-aventurado na progressão andar-parar-sentar. Após ser seduzido pelo conselho do ímpio e escolher permanecer no caminho do pecador, o último resultado da rebelião é se assentar para confraternizar com outros que fizeram a mesma escolha. O bem-aventurado não cai no assentar-se, mesmo porque ele já evitou o parar e o andar. Os ímpios, escravos do pecado, constantemente se juntam para rir e zombar daquilo que Deus preza; zombam de suas leis, de seus fiéis e alegram-se com a desgraça dos inocentes. Longe disso está o bem-aventurado, pois o destino dos praticantes dessas coisas é a total desgraça.

            E quais são as características comitivas do bem-aventurado? Ele tem prazer em meditar na lei do Senhor. A satisfação e a alegria do justo é se maravilhar com a profundidade da sabedoria e do poder de Deus. Ele lê as Escrituras, medita em suas verdades e as pratica, e essa é a sua vida rotineira. Ele ama obedecer a Deus e ler e estudar repetidamente a vontade de Deus revelada (visto que os judeus não meditam apenas pensando, mas lendo várias vezes em voz alta). Mas é importante notar que é impossível para alguém ter prazer na lei de Deus se não tiver sido convertido ao evangelho da graça. Pois a lei está o tempo todo condenando o leitor. Só tem prazer na lei do Senhor quem encontrar a paz na sua graça e receber a alegria de ter seus pecados perdoados. Quem acredita em justificação por obras não sente alegria em obedecer a Deus, mas apenas uma obrigação pesada e mecânica.

            Qual é a recompensa desse justo? Assim como árvore plantada junto ao ribeiro, ele tem um fundamento firme. Ele é constantemente suprido pela provisão graciosa de Deus para o seu amadurecimento. E nessa provisão ele confia, de forma que não se abala quando chega o dia mau. Como diria Jesus, ele construiu sua casa sobre a rocha. O justo pode tropeçar, mas o Senhor o levanta. Assim, o justo está seguro e bem cuidado pelo Altíssimo. Sua nutrição pelo ribeiro lhe rende a frutificação no tempo certo. O acompanhamento zeloso do Senhor pelo justo lhe proporciona resultados concretos de suas ações. O justo dá os bons frutos de sua justiça, tanto no caráter como na conquista de seus objetivos. E tais objetivos são, ao mesmo tempo, modelados por Deus para que se adequem à sua vontade maravilhosa, o que, para o justo, é exatamente o que significa sucesso. A alegria do justo está na vontade de Deus, de forma que o sucesso do justo corresponde ao desejo do Senhor. Em outras palavras, o justo prospera no que faz. Seus empreendimentos dão resultados altamente satisfatórios e transbordantes de bênçãos.

            O ímpio é descrito nas características omissivas do justo. Isto é, ele é cheio de sabedoria carnal, caminha na estrada do pecado e zomba daqueles que fazem a outra escolha. O castigo do ímpio é ser levado como a palha. Ele não tem fundamento algum, mas é perdido nas circunstâncias e é abatido pelas dificuldades que o seu próprio caminho lhe trouxe. Muito facilmente é derrotado pelas consequências de seus atos tolos. Por isso, o ímpio é vencido pelo justo. Não há esperança para o perverso quando o íntegro se coloca contra ele. A figura do tribunal é uma boa metáfora para a vida. Deus está do lado da justiça e da retidão, e ele sustentará a posição dos justos enquanto provoca a queda dos maus. O conflito entre o bem e o mal é seguido pela vitória do bem.

            Resumidamente, o motivo da vitória dos justos é que eles são observados, cuidados e aprovados pelo Senhor, o Eu Sou que com eles fez uma aliança; do outro lado, os perversos estão abandonados e solitários para seguirem o caminho da destruição. Sem a dispensação do favor de Deus, o homem sozinho fatalmente se matará. Viver sem Deus é condenar-se ao suicídio.”

André Duarte

domingo, 21 de outubro de 2012

Julgar ou não julgar?




        Geralmente, as pessoas têm um conceito desequilibrado sobre a questão do julgar. Ou elas são demasiadamente ousadas, julgando qualquer pessoa que não corresponda aos seus preconceitos e conceituando-a como inferior, ou sendo complacente como tudo e todos, sendo por demais tímida. Vamos ver aqui o que as Escrituras dizem sobre como e quando julgar.

        Em primeiro lugar, o julgamento não pode ser relativizado, assim como qualquer outro dogma das Escrituras. Conheço muita gente que convenientemente não julga nada sobre os pastores da própria Igreja, mas julga destemidamente os de outras. Ou, não julga nada que é feito em sua Igreja na liturgia, mas julga o comportamento pessoal dos membros dela. Ou, como é muito comum também, julga o que quiser, mas ressente-se de ser julgado por outros. As Escrituras respondem “sim, você tem a obrigação de julgar” e “não, você não pode julgar” para condições e contextos amplos que precisam ser avaliados.

        Textos que falam para não julgar são o de Jesus no sermão “do monte” e o de Tiago. Jesus diz “não julguem, para que não sejam julgados”. Para os mais tímidos, essa costuma ser a regra suprema para qualquer situação. Mas, veja que o Senhor continua explicando o porquê desse não julgar: “com a mesma medida com que julgarem, serão também julgados” e denuncia a hipocrisia do julgamento. Seu ensino completo nessa passagem é que ninguém pode julgar se está também em erro. Jesus não proíbe qualquer julgamento, e sim o julgamento hipócrita. Essa verdade é frequentemente esquecida, pois é lamentavelmente comum que crentes julguem os erros dos outros, mas saibam dar uma “boa reposta” para os próprios. Paulo escreve aos romanos sobre esse mesmo problema quando denuncia o pecado dos judeus ao transgredirem a Lei e exortarem os outros a não fazê-lo. Ou, voltando a Jesus: “Façam o que os fariseus falam, mas não o que fazem, pois não praticam o que pregam”.

         Quando a Tiago, ele denuncia o julgar pelos parâmetros próprios. Pois ele diz “Quem é você para julgar o seu irmão, visto que há um só Legislador e Juiz?”. Aqui, Tiago conclama os irmãos para serem humildes e reconhecerem que somente Deus manifestará a verdade dos corações quando julgar o mundo. Não podemos elaborar nossos próprios critérios de julgamento, nossas próprias leis morais, e depois julgar os outros por não cumpri-las. Além disso, mesmo se julgarmos segundo as Escrituras, precisamos ter extrema cautela para não nos tomarmos de espírito de orgulho e superioridade de justiça própria.

         Agora, as afirmações de que devemos julgar. Veja, não é apenas “podemos” e sim “devemos”. É uma ordem. Se a Igreja não julgar quando deve, incorrerá em problemas bem maiores. Bem, Paulo diz aos coríntios que “como não há entre vocês quem julgue? Não sabem que os santos julgarão o mundo, e mesmo os anjos? Como então não conseguem julgar uma pequena causa entre vocês?” Paulo tem aqui em foco duas situações de julgamento: litígios entre irmãos e excomunhão de impenitentes. É necessário julgar litígios entre irmãos porque, senão, será impossível chamar o errado ao arrependimento e manter a paz na comunidade. Também é necessário emitir o veredicto de excomunhão caso o irmão errado recuse-se a se arrepender. A Igreja não pode ser tolerante com crentes que vivem em pecado. E deveria passar mais tempo cuidando da própria santidade do que da “santidade” dos descrentes. Pois Paulo mesmo diz em seguida “Não devem vocês julgar os de dentro? Deus julgará os de fora. Expulsem esse perverso do meio de vocês” e, um pouco antes, “Não estou dizendo que não devem se associar com nenhum idólatra ou imoral; do contrário, teriam de sair deste mundo. Mas digo que não devem se associar com ninguém que, dizendo-se irmão, é idólatra ou imoral”. Infelizmente, há inúmeros idólatras e imorais participando da comunhão da Igreja, e ninguém faz nada porque acha que “não deve julgar”. Paulo diz exatamente o contrário.

        O mesmo Jesus que disse “não julguem para que não sejam julgados” também disse, em um texto quase desconhecido: “Não julguem segundo a aparência, mas segundo a reta justiça”. Ele diz isso na ocasião da Festa das Cabanas, registrada no evangelho de João. Quando começa a pregar verdades escandalizantes para os judeus cheios de preconceitos e que o acusavam de estar falando pelo demônio, Jesus lhes mostra a contradição das ideias deles e diz isso “Não julguem segundo a aparência, mas segundo a reta justiça”. Ele complementa a ideia de Tiago de não formar leis e juízos nossos, dizendo que devemos julgar segundo a objetividade da justiça de Deus. O Senhor nos revelou o seu caráter e seus mandamentos, descreveu as profundezas do coração humano e até explicitou o fruto da carne e o fruto do Espírito. Ele fez isso não apenas para que cada pessoa individualmente cuide de si mesma, mas para que a Igreja, o corpo de Cristo, saiba administrar a sua santidade coletiva por meio do cuidado e da avaliação mútua. Se não fizermos isso, deixaremos que costumes e regras heréticas entrem na Igreja, e incorreremos em falta de zelo pela noiva do Cordeiro e pelo irmão em risco.

          Existe também algo chamado discernimento. Muitas vezes, o julgar é confundido com o discernir por pessoas imaturas. É da vontade de Deus que os irmãos saibam, como diz João, “discernir os espíritos”. Discernimento de espíritos não tem nada a ver com enxergar anjos e demônios por aí, e sim com a compreensão profunda do que há de oculto em cada um quando tal ocultação é refletida pelos frutos. João deu uma boa dica para a sua época, ameaçada pela heresia docética: “o espírito que não confessa que Jesus encarnou é do anticristo”. Quem insistentemente prega heresias e manifesta frutos carnais deve sim ser julgado através da capacidade espiritual dada por Deus à Igreja de discernir. Conforme os exemplos de dons espirituais listados por Paulo aos coríntios, há irmãos com maior capacidade de discernir que outros. Ora, o próprio Jesus disse que conheceríamos os falsos profetas pelos seus frutos. Concomitantemente, há também o provérbio que diz “os propósitos do coração do homem são como águas profundas, mas o homem de discernimento (ou sabedoria) às trará à tona”. Para tal empreendimento, é absolutamente necessário que os crentes estejam cheios de conhecimento das Escrituras e de um espírito transformado pelo evangelho. Do contrário, cairemos em precipitação e seremos condenados pelo nosso obscurecimento.

        O equilíbrio entre o julgar e o não julgar é um dos alvos do processo de maturação espiritual. Sem a humildade necessária, seremos precipitados, rancorosos, cheios de justiça própria, cheios de critérios próprios e esqueceremos que nós apenas somos julgados certos por Deus devido à sua graça manifesta em Cristo, e não a nós mesmos; sem a graça de Deus, seríamos todos julgados como igualmente perversos. E, sem a coragem necessária, seremos covardes, complacentes e, na prática, aquiescentes com o erro, pisoteando a santidade e as aspirações do Espírito, dando às costas ao propósito para o qual Jesus deu a sua vida. O evangelho nos dará o equilíbrio.

André Duarte

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Justificação pela Fé - II


Olá! Long time, no post!

       No postagem anterior da série "Justificação pela Fé", vimos que na bíblia uma pessoa é chamada de "justa" se, e somente se, ela tem fé em Deus, pois é essa fé que a torna justa.

        Até aí, tudo bem! Ter fé em Deus nos torna justos. Mas, então, qual é a importância da fé em Jesus? Ter fé em Deus e ter fé em Jesus são coisas iguais ou são diferentes? Como é possível que alguém que morreu antes de Jesus nascer tenha fé em Jesus? É isso que essa postagem vem tentar mostrar!

         Primeiramente, pensemos no seguinte: você acredita que Jesus é Deus? Se não, isso fica pra um outro debate, mas já afirmo que sim, Jesus é Deus! Se sim, não acha que é plausível entender que, se você tem uma fé verdadeira em Deus, você também tem uma fé verdadeira em Jesus? Pois a máxima, melhor e mais completa revelação de Deus que foi dada aos seres humanos se chama Jesus Cristo de Nazaré. Ele é não só a perfeita manisfestação de Deus entre os homens mas também, ele é o próprio Deus! Como escreve Paulo aos Filipenses: "que [Jesus], embora sendo Deus, não considerou que ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;" (leia o trecho de Filipenses 1:5-11). Isso me faz entender que, quem tem fé em Deus, tem fé em Jesus, necessariamente.
  
        Isso me faz lembrar de uma questão curiosa que eu vejo ser falada no meio cristão. Muitas vezes, já ouvi o seguinte: "O deus dos povos islâmicos, que é Alah, é o mesmo deus que nós, cristãos, servimos! Pois, o pai tanto de Isaque quanto de Ismael era o mesmo, o pai Abraão! O Deus da bíblia é o mesmo deus do Alcorão!", entre outras coisas. Bom, a meu ver, as pessoas que afirmam isso estão se esquecendo da declaração de Jesus registrada em João 8:42: "Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui." Desse trecho eu entendo que todo aquele que conhece Jesus mas abertamente o rejeita como sendo o Unigênito Filho de Deus, rejeita Deus, que o enviou. Por isso, aquele que aceita Deus mas rejeita Cristo como senhor dos senhores, na verdade, está rejeitando o próprio Deus.

        Outra questão interessante é: como alguém que morreu antes de Jesus nascer pode ter fé em Jesus? Ou até mesmo: como era a salvação no Antigo Testamento, já que Jesus ainda não havia nascido? 

Esse post já tá muito grande! Então, esse assunto fica pro próximo!

Continua...

Davi Resende

domingo, 14 de outubro de 2012

Pai Nosso


        O Senhor Jesus, em seu chamado “sermão do monte” (e, segundo o evangelho de Lucas, em outra ocasião a sós com os discípulos), deu-nos um maravilhoso ensino sobre a oração. Em primeiro lugar, ele diz o que oração não é: barulho para chamar atenção, alerta a Deus sobre os problemas que ele está esquecendo, solução para se conseguir o que quer através da repetição. “Eles pensam que, por muito falarem, serão ouvidos”. Oh, não consigo imaginar nenhum paralelo atual com essa prática farisaica ignorante, lalala...

        Ele então nos dá a ordem: “Vocês, porém, orem assim”. Embora a oração possa variar em muito o conteúdo dependendo das circunstâncias, existem os seguintes elementos essenciais que devem estar presentes, pelo menos regularmente. Ei-los:

        Pai. Jesus nos revelou o Pai, como ele diz em outro lugar: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho quiser revelar”. A consciência de que Deus é Pai traz para o nosso coração a realidade de que ele é o provedor de todas as nossas necessidades, como o Senhor disse no mesmo discurso “o Pai sabe do que vocês precisam mesmo antes de pedirem”. Além disso, a verdade de Deus como o Pai coloca-o como o disciplinador de seus filhos. O escritor da carta aos hebreus diz “se vocês se submetiam à disciplina dos seus pais terrenos, muito mais devem se sujeitar ao Pai celestial” e cita o provérbio que diz “Não se magoem com a disciplina do Senhor, pois ele corrige a quem ele ama”. O Pai também traz a realidade da segurança e estabilidade carinhosa familiar. Ele é o Pai de Jesus Cristo, seu único Filho gerado, de quem nós, filhos por adoção, somos irmãos e herdeiros dos tesouros celestiais garantidos pelo Pai.

        Nosso. O Pai não é só meu, ele é nosso. Se ele é o Pai de Jesus, e se a Igreja é o corpo de Jesus, é natural que ele seja o Pai não só do indivíduo, mas de toda a Igreja como uma só. Jesus nos ordena que oremos em comunidade. A oração mútua é edificante para a Igreja e uma magnífica disciplina contra o egoísmo e o individualismo. Tiago nos diz para confessarmos nossos pecados uns aos outros e esse remédio obviamente inclui a oração em conjunto. As epístolas são repletas de encorajamentos para que a Igreja esteja sempre agradecendo a Deus, com os membros dela dizendo palavras de “ações de graça” entre si. Ninguém pode achar que tem uma relação individual com Deus na qual ninguém tem nada a ver. Quem ora a Deus precisa reconhecer que ele é Pai do Cristo eclesiástico, o que inclui todos os santos.

       Que estás no céu. Essa é uma doxologia sintética que reconhece Deus como o Altíssimo. Se o Pai está no céu, ele tem todo o poder e conhecimento, e essa realidade traz a nós confiança e paz quando oramos. Deus não está escondido e nem está limitado, mas preenche todas as coisas com a sua glória e o seu reino. Essa declaração não distancia Deus de nós, mas faz lembrar a belíssima revelação de Isaías: “Habito num lugar alto, mas também habito com o humilde, contrito e de coração quebrantado”.

       Santificado seja o teu nome. As partes anteriores identificam o destinatário da oração. Esta cláusula é o início da petição e ela nos direciona para a questão mais importante: qual o propósito da minha oração? A oração expressa o meu desejo ou o desejo de Deus? Todo mundo é rápido para lembrar do que João diz, que Deus atende as orações que correspondem à sua vontade, mas muitos se perguntam “qual é a vontade de Deus para que eu possa orar por ela?”. É pouco o que Jesus está revelando? Nós devemos pedir e desejar que o nome de Deus seja reconhecido e adorado como santo em toda a terra. A vontade de Deus é que todo o mundo o adore, e é por isso que devemos ansiar quando oramos. Santificar o nome do Senhor começa, obviamente, com a nossa própria vida e com a forma com a qual oramos. Um coração que anseia pela santificação do nome de Deus está verdadeiramente adorando o Pai.

       Venha a nós o teu reino. Oh, que assunto extenso para comentar em poucas linhas! O reino de Deus é uma realidade espiritual entre nós, como Jesus disse mais tarde: “O reino de Deus não é localizado, como se alguém pudesse dizer ‘está ali’, mas ele está entre vocês”. O reino de Deus consiste, segundo Paulo, de “paz, justiça e alegria”. E, de um ponto de vista metalinguístico natural, o reino de Deus é a esfera em que ele é reconhecido por seus súditos como o rei de suas vidas. Isso significa submissão e temor, mas o desejo de que o reino de Deus venha expressa um amor fervoroso pela intervenção de Deus no mundo – ou, como diz Paulo, “Paz seja com os que amam a sua vinda”. O reino de Deus já existe entre nós e ele deve ser intensamente buscado para que nós cresçamos na maturidade de súditos, mas ele é também uma expectativa apocalíptica. Se Deus reina, ele governa a vida de seus súditos e esmaga os rebeldes. É justo e santo pedir que Deus traga punição sobre aqueles que odeiam o seu reino: quem sabe assim eles se arrependem. Mas o reino apocalíptico restaurará todas as coisas e finalizará a rebelião humana. O desejo por esse paraíso deve estar presente quando oramos.

        Seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. Nossa petição deve trazer invariavelmente a submissão à vontade de Deus, que pode rejeitá-la ou acatá-la. Jesus, em sua grande angústia no jardim, orou para que Deus o livrasse da dor de suportar a sua ira, mas acrescentou “que seja feita a sua vontade, e não a minha”. Absolutamente ninguém tem o direito de determinar a ação de Deus, nem de, como é comum atualmente, “profetizar” um evento. Clamamos a Deus para que ele nos atenda, mas confiando que, no mínimo, ele é mais sábio do que nós. Jesus disse que “quando o filho pede pão, o Pai não dá pedra”, mas quem somos nós para determinar que a nossa petição é pão, e não pedra? Nos céus, onde Deus habita, a sua vontade é exercida sem contestação: ele é constantemente adorado por seus anjos, e até mesmo o diabo não deixa de se submeter às ordens dele. Nós, humanos, devemos nos esvaziar quando oramos e quando vivemos e deixarmo-nos ser enchidos pelo espírito de submissão, confiança, adoração e humildade. Devemos expressar o nosso desejo de seguir a vontade de Deus tal qual os seus anjos no céu o fazem.

        Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia. Começa aqui a oração por nós mesmos. Orar pelo sustento básico diário condiz com a vontade de Deus e ele atenderá. Jesus nos disse que não devemos ficar desesperados por comida e roupas, pois o Pai cuida para que sejamos supridos nessas necessidades básicas. Paulo também diz “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas lancem sobre ele suas ansiedades. Tendo o que comer e com o que se vestir, estejam satisfeitos”. É importante reconhecer que, quando oramos pelos propósitos de Deus, devemos fazer isso com paixão e força, mas, quando oramos por nós mesmos, devemos trocar a paixão por humildade. Jesus quer que nos lembremos constantemente em nossas orações que dependemos do Pai para as necessidades mais básicas devido à nossa condição frágil. E que o pão cotidiano nos ensine sobre o Pão vivo que desceu do céu.

        Perdoa nossas ofensas, assim como perdoamos os nossos ofensores. Continuando no espírito de humildade, é necessário reconhecer que o pecado é parte de nossas vidas. Não é necessário tomar consciência de um pecado explícito para pedirmos perdão: veja o salmo 19, em que o compositor diz “Quem pode conhecer seus próprios pecados? Absolve-me dos que desconheço!”. Somos indignos e necessitamos constantemente do perdão gracioso de Deus para nós. No entanto, pedir o perdão de Deus a nós deve supor que nós também estamos perdoando aqueles que pecam contra nós. Do contrário, nem adianta pedir perdão. Jesus adverte várias vezes: “Se não perdoarem os pecados do seu próximo, Deus também não perdoará os seus”. Provavelmente, o pecado de não perdoar é aquele pelo qual nós mais necessitamos pedir perdão. Apenas o poder do evangelho, no qual o santíssimo e onipotente Deus perdoa as ofensas de humanos perversos como nós, pode nos capacitar a perdoar o próximo. É necessário pedir a Deus que nos ajude com a sua verdade a perdoarmos nossos ofensores. Que bom que, segundo o salmo 103, Deus não nos retribui conforme nossos pecados merecem, mas sua misericórdia alcança as nuvens.

        E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. O fato de que precisamos orar constantemente por perdão não significa que o pecado cotidiano pode ser mantido devido ao seu remédio diário na oração. Pecamos sim, mas um verdadeiro cristão repudia o pecado. Ele clama a Deus que não o coloque no perigo de pecar – literalmente, o que está escrito é “não nos induzas à tentação” – mas, se Deus quiser prová-lo, que o livre de cair nessa tentação. O maior anseio que devemos ter por nós mesmos é que sejamos santos como o Pai é santo. Todo o resto é efêmero. Humildemente, o crente deve, em sua oração, reconhecer que depende do Pai para que possa resistir ao pecado. Atendendo a essa oração de forma generalizada, o Pai enviou o Paráclito, o Espírito Santo, que nos ajuda a derrotar a carne. Mas, devido à nossa fraqueza, devemos nos lembrar de nossa necessidade constantemente em oração.

        Porque teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém. Esse final doxológico (com exceção do “amém”) não aparece nos melhores manuscritos, mas é evidente que a oração deve necessariamente conter adoração e reconhecimento do verdadeiro Deus, poderoso para nos atender e também para não nos atender.

        Que maravilhosa revelação sobre a oração o Senhor nos deu! É impossível estudarmos sobre oração sem considerar o que o próprio Jesus nos explicou. E que tristeza em contemplar a grande deturpação que se faz nas orações. O que vemos por aí? Pessoas orando sem nem conhecer quem é o Pai que nos atende; orando em individualismo, fechadas em seu mundinho particular; preocupadas com o sucesso do próprio nome, e não com o de Deus; torcendo para que o reino de Deus demore bastante a vir para que os prazeres mundanos continuem; pressupondo que a vontade de Deus automaticamente corresponde à delas; clamando pelo banquete esplêndido de cada dia; mal se lembrando do seu pecado e falta de santidade, mas pressupondo uma satisfação automática de Deus com as obras delas; sem vontade nenhuma de perdoar os seus inimigos; tratando o pecado como se fosse normal e corriqueiro, sem desejo de extirpá-lo. Sem adoração.

        Esses são os nossos erros. Confesso que me identifiquei com alguns deles, especialmente minhas raras confissões de pecados e quase nenhum clamor por capacidade para eu mesmo perdoar os outros. Que o Senhor nos ajude.

        Ps: Vamos experimentar fazer orações em todos esses sentidos nos grupos de vida? :D

André Duarte

domingo, 7 de outubro de 2012

Hino cristológico de 1Timóteo – 1



        Seguindo pelos hinos cristológicos das cartas, vemos que nas últimas cartas paulinas, as duas a Timóteo e a Tito, há uma ênfase na ortodoxia. Muitas vezes são mencionadas a “sã doutrina” e a expressão “Esta afirmação é digna de confiança”. Há também uma concentração de hinos cristológicos. Em 1Timóteo, há 3 deles. Vamos ao primeiro, que diz: Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos. Esse foi o testemunho dado em seu próprio tempo.

        Em toda a Bíblia e em toda a história, nós percebemos uma realidade: o homem tem a noção de um Deus perfeito, todo-poderoso e santo (mesmo que reprima isso com invenções idólatras). Ele também tem a noção de que a comunhão com Deus é impossível devido à distância infinita entre Deus e ele. Sempre o homem buscou alguém que promovesse a interação entre ele e Deus. Nunca o homem, em sua pequenez e defeitos, pode ter comunhão direta com o excelso Deus criador.

        A resolução oferecida pelo homem sempre incorreu em erro. As religiões oferecem uma classe de pessoas especiais – e, se necessário, espíritos especiais – para serem mediadores. Religiões fazem distinção entre o homem comum e o homem com elevada espiritualidade. Estes deveriam oferecer sacrifícios, orações e profecias para que a comunicação entre os deuses e os homens fosse efetuada. Essa é uma demonstração de que o homem tem a consciência de sua culpa e sua inferioridade. No entanto, sua resolução foi errada. Na época de Paulo, eram os gnósticos que estavam começando a fazer a dicotomia entre o material e o espiritual, colocando diversas deidades em superioridade gradual entre o Deus supremo e o homem. Essa heresia precisava ser rechaçada.

        Mas havia uma religião correta, uma que foi dada por Deus: a Lei de Moisés. Na instituição da Lei, havia diversos sinais que mais tarde serviriam para ensinar a realidade de Cristo. Deus escolheu sacerdotes e profetas para efetuarem a comunicação e a comunhão entre Deus e os homens. Eles seriam os mediadores. Não haveria como o homem compreender a mediação do próprio Deus Filho se antes não houvesse toda uma cultura e uma religião para servirem como figuras tipificadoras. A carta aos hebreus dirá que Jesus Cristo cumpriu o propósito sacerdotal de propiciar o perdão de Deus por meio de um sacrifício santo. Ele é o sumossacerdote eterno, como Deus jurou no salmo 110. Ele também é o profeta eterno, ensinando a Igreja e ministrando a vontade de Deus nos corações dos crentes por meio do Espírito Santo. Além de profeta e sacerdote, ele também é o perfeito rei teocrático, profetizado desde Jacó. Ele é o único que governa o universo de acordo com a vontade do Pai. Todas as teocracias, inclusive as israelitas, falharam nessa mediação, mas Jesus é o rei teocrático eterno. Como rei, sacerdote e profeta, Jesus Cristo é o mediador único entre Deus e os homens.

        Mas há um aspecto ainda maior sobre a mediação de Cristo. No antigo pacto, havia profetas, sacerdotes e reis eleitos por Deus, mas o homem que o sancionou foi Moisés. Moisés foi o mediador da aliança sinaítica. Ele serviu como um legislador escolhido por Deus e também pelo povo. Quando os israelitas se reuniram perto do monte Sinai, Deus proclamou a eles os Dez Mandamentos. Se você tinha a impressão de que os Dez Mandamentos foram dados diretamente a Moisés pelas tábuas de pedra, enganou-se; Deus os proclamou oralmente a todo o povo, enquanto fazia o monte tremer e incendiar. Essa demonstração do poder de Deus deixou o povo tão assustado que eles pediram para Moisés ir falar com Deus por eles e lhes transmitir as leis divinas. E Deus aprovou esse temor, como ele diz em Deuteronômio: “Quem me dera eles sempre tivessem essa disposição para me obedecer!”. Assim, Moisés foi escolhido para ser o mediador do pacto.

        A carta aos hebreus também dirá que Jesus é o melhor Moisés. Ele é o mediador do novo pacto. Através de Cristo, podemos conhecer as leis de Deus. O hino aqui enfatiza a humanidade de Jesus. Somente porque Jesus foi um humano, pôde ele representar diante de Deus os outros humanos e lhe ser o substituto. Somente porque ele foi humano, pôde ele entregar-se como resgate a eles e pagar-lhes a dívida. Mas a grande revelação é que, além de homem, ele é Deus também. Ele é Deus mediando entre Deus e os homens. É devido a esse paradoxo que a comunhão humana com Deus é possível indiretamente e diretamente. O véu que separava a presença máxima de Deus e o povo foi rasgado. Podemos nos achegar a Deus diretamente, através de Cristo, pois ele é o próprio Deus humano. Ele é o nosso perfeito e eterno mediador, nosso profeta, sacerdote, rei e sancionador do pacto que sela o amor de Deus.

André Duarte