terça-feira, 26 de março de 2013

A Páscoa


         
             O feriado do Natal, embora seja essencialmente religioso, tem sua repercussão secular em todo o Ocidente. Para essa ocasião, fiz 5 posts. Já o feriado da Páscoa, embora cause menos comoção cultural, é igualmente importante para a religião. Mas, devido à extensão textual que a Bíblia dedica aos acontecimentos que duram de quinta-feira até o domingo, é impraticável fazer posts para cada um deles. Este post é, então, um resumo do que ocorreu e seu significado para a fé cristã.

            A Páscoa celebra tanto a morte como a ressurreição de Jesus. Sua morte ocorreu na sexta-feira à tarde, e sua ressurreição deu-se na madrugada do domingo. Mas a situação que o levou a morrer, na verdade, teve início desde o domingo anterior, quando Jesus chegou em Jerusalém montando num jumento, sendo saudado pela mesma multidão que, na semana seguinte, pediu sua execução. Desde esse domingo, Jesus enfrentou a maior série de combates aos falsos religiosos. Chamou a atenção ao expulsar os feirantes do templo, que abusavam financeiramente dos gentios que buscavam adorar o Senhor e que eram fascinados pelo dinheiro do mercado de animais para sacrifício. Em seguida, derrotou fariseus, saduceus, rabinos e herodianos nas perguntas maliciosas deles. Derrotou inclusive o seu próprio traidor, Judas, quando este se indignou pelo perfume derramado sobre o Senhor. Nessa ocasião, Judas finalmente percebeu que Jesus não era o Messias que ele pensava que fosse. Sua frustração foi consumada, e sua amizade foi transformada em ódio. Não que tenha acontecido tudo de repente. Mas o perfume “desperdiçado” foi a gota d’água. Cheio de más intenções, Judas combinou o local e a hora perfeitos para entregar Jesus às escondidas às autoridades. E, para isso, aceitou suborno.

          Jesus sabia de tudo isso. Ele sempre soube quem seria o traidor, sempre soube que seria abandonado por seus amigos. Ele nunca foi surpreendido e nunca tentou fugir de sua missão. Sua obediência à vontade do Pai e seu imenso amor pela humanidade eram maiores que seu medo e suas tentações pessoais. Na quinta-feira, Jesus celebra a refeição da Páscoa com seus discípulos. O centro dessa celebração era o cordeiro, o qual relembrava os cordeiros do êxodo. Na instituição da Páscoa, Deus ordenou que as famílias matassem e comessem um cordeiro macho e sem defeito e lambuzassem as laterais de suas portas com o seu sangue. Esse sangue desviaria o anjo destruidor de Deus, garantindo assim a salvação do povo israelita. Isso libertaria Israel da escravidão do Egito. E em todos os anos, pelos séculos seguintes, essa refeição foi celebrada pela nação em memória do êxodo. Mas, quando Jesus a comeu com seus discípulos, essa foi a última das páscoas da velha ordem. Pois ele mesmo estava cumprindo a prefiguração da Páscoa. Ela não apontava apenas para o passado no Egito, mas também para o futuro em Cristo. É por isso que os cristãos celebram também a Páscoa. Jesus Cristo é o verdadeiro cordeiro de Deus, macho e sem defeito, que morreu em lugar dos outros. Por sua morte, seu sangue derramado, a ira destruidora de Deus contra o pecado é desviada da humanidade e transferida para ele, embora fosse um homem perfeito. E essa é a única maneira pela qual o povo de Deus é liberto da escravidão ao pecado.

            Nessa ceia, Jesus sabia de todas essas coisas, mas ainda não explica isso aos seus amigos. Eles nunca iriam engolir a história de que Jesus teria de morrer, até que chegasse o momento. Mas, Jesus já inova a ceia ordenando aos discípulos uma nova maneira de guardá-la. Deveriam comer o pão, que simboliza o corpo de Cristo entregue por nós, e beber o vinho, que alude ao seu sangue derramado, o sangue de uma nova aliança. Os discípulos e toda a Igreja, a partir de então, devem lembrar do sacrifício do Senhor por meio desses elementos. A atenção é desviada para o pão e o vinho enquanto o cordeiro perde o seu espaço. Isso porque não seria mais necessário matar um cordeiro – o último e definitivo Cordeiro já estava para morrer.

            Além de instituir a ceia eclesiástica, Jesus também deu orientações últimas a seus discípulos. Como um amigo compassivo, Jesus insiste com eles que ele terá de morrer (embora eles não aceitassem isso) e deixá-los sozinhos por um breve tempo. E, mesmo depois de ressuscitar em glória, Jesus voltaria para o Pai, mas, mesmo assim, continuaria para sempre com eles, por meio do Espírito Santo que enviaria. Não deveriam os discípulos ficar tristes pela ida de Cristo, pois o seu Espírito continuaria com eles, e o próprio Jesus voltaria um dia para reinar plenamente da terra. Além disso, Jesus ensina seus discípulos, por meio do ato de lavar os pés, a essência do espírito de um seguidor do Caminho: um representante do Senhor, mas, mesmo assim, um humilde escravo. E, por fim, Jesus ora pela sua Igreja. Ele pede, a começar pelos Onze, que todos aqueles que viessem a crer nele permanecessem em união e santidade tal qual ele, o Filho, é um com o Pai. Aprendemos, assim, que a união em amor, verdade e pureza da Igreja deve ser um reflexo do ser triúno de Deus.

            Saindo da casa onde cearam, vão todos para o jardim do Getsêmani – exceto Judas, que já havia saído para pôr em prática o seu crime. No jardim, Jesus se angustia muito devido à iminência do que haveria de enfrentar. Nenhum homem jamais enfrentou tamanha dor, tamanha ansiedade e agonia. Jesus estava prestes a sofrer toda a concentração da ira de Deus devida aos pecados de toda a humanidade. E mais, ele estaria para se separar de Deus – o Deus Filho sendo rejeitado pelo Deus Pai, como uma cisão na Trindade. Totalmente humano em sua tristeza, ele ora para que o Pai afaste dele esse cálice de ira e, totalmente maravilhoso, reitera que está pronto para cumprir a vontade do Pai, seja ela qual for. Nessas horas de suspense, ele está totalmente sozinho, pois os discípulos nada fazem a não ser dormir, até que chegou Judas e vários guardas armados para prender Jesus. Sem resistência alguma, o Senhor se entrega aos seus captores, enquanto todos os seus discípulos fogem.

            O julgamento feito pelo Sinédrio foi totalmente ilegal e irregular. Reuniram-se de noite, na casa do sumossacerdote, sem nenhum defensor para Jesus e com nada mais que testemunhas falsas. Jesus mantém-se em silêncio. Ele poderia facilmente se livrar, como mesmo Paulo fez mais tarde. Mas a única coisa que Jesus diz é que ele, de fato, é o Cristo. E, como Cristo, é ele quem voltaria para julgar o mundo, como disse Daniel, embora fosse réu naquele momento. O Sinédrio o acusou de blasfêmia, maltratou-o e o entregou a Pilatos, para que ele fosse condenado à morte. Mais falsos testemunhos foram apresentados. Temerário por sua posição, Pilatos deixou que Jesus fosse condenado à crucificação. Todos se voltaram contra ele. Jesus foi esmurrado, zombado, cuspido, rasgado por uma coroa de espinhos – o mesmo Deus que estava criando o mundo no princípio!

Jesus se submeteu à mais alta prova de obediência por amor aos caídos. Levando sua cruz até o Calvário, lá foi crucificado entre ladrões. Em total humilhação e escárnio, Jesus amou os perdidos. Do alto da cruz, ele clamou para que Deus perdoasse a multidão soberba e enfurecida. Sua petição continua sendo feita eternamente no santuário do céu, onde Jesus atua como sumossacerdote intercedendo pelos seus. Dali a mais um tempo, Jesus clamou o salmo 22 – “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Este é o único momento em toda a história em que Jesus referiu-se a Deus assim, não o chamando de Pai. Jesus perdeu até mesmo sua condição de filho naquele momento, para que fosse nossa. Não muito tempo depois, ele morreu. O Cordeiro de Deus foi morto e o véu do templo foi rasgado. Pela sua morte, o povo de Deus foi perdoado de seus pecados. Mais do que isso, nós recebemos todos os méritos de Cristo, e fomos declarados justos pela justiça dele. Jesus é o nosso substituto na morte e na justiça. A dívida foi paga e o poder do pecado foi extirpado. Mas isso não é tudo.

Se Jesus tivesse apenas morrido, a morte ainda teria o poder. Como diz Paulo em 1Coríntios 15, se Jesus não ressuscitou, nossa fé é inútil, ainda estamos em nossos pecados e somos os mais miseráveis. Mas a ressurreição de Cristo selou o seu triunfo sobre a morte. Nunca o Filho de Deus, a Verdade e a Vida, poderia ser derrotado pela morte. Jesus Cristo venceu a morte e ressurgiu dos mortos. E não foi uma ressurreição para depois morrer de novo, como foi o caso de Lázaro e tantos outros. Jesus ressuscitou como o homem glorificado, à semelhança de quem nós também seremos quando ressuscitarmos. Por causa da ressurreição dele é que nós temos a esperança da vida eterna e da ressurreição. Sua ressurreição é também o poder para o nosso novo nascimento, nossa nova vida em santidade e adoração a Deus. A morte e a ressurreição de Cristo são igualmente importantes; na verdade, elas são inseparáveis. Na cruz de Cristo, nós morremos para o mundo; em seu retorno dos mortos, nós vivemos para Deus. Todos conspiraram contra o nosso Senhor, mas ele esteve no controle de tudo e venceu o mundo. Herodes não pôde matá-lo, os fariseus não puderam incriminá-lo, Pilatos não pôde culpá-lo, a cruz não o destruiu, a morte não o conquistou e o túmulo não o deteve! Em total humildade e verdade, submisso a Deus e movido por amor, Jesus Cristo foi vitorioso por nós, e nele somos também vencedores. Não há mais medo da Lei, pois Jesus é a nossa justiça. Não há mais medo da morte, pois Cristo é a nossa vida. Não há solidão, pois o seu Espírito é conosco. Nada há que possa desfazer o que Jesus fez. Sua vitória é definitiva e irrevogável. Seu novo pacto é perpétuo e indestrutível. Não há força alguma, nem vontade alguma, nem plano algum que possa apagar o amor de Deus por nós, o amor que Deus provou através do seu Filho Jesus Cristo, o verdadeiro Rei e o Salvador do mundo.

André Duarte

quinta-feira, 21 de março de 2013

Gênesis e a introdução à Bíblia 2 – A criação de Deus



            Vamos passar agora a estudar um pouco sobre a criação de Deus. Mais do que simplesmente narrar as obras de Deus, o texto nos mostra o propósito de sua criação: refletir o ser do Criador.

            Nos últimos três séculos, o texto da criação tem atraído curiosidade principalmente para comparações a teorias seculares e ditas científicas sobre a origem do universo. Algumas palavras precisam ser ditas sobre isso. Em primeiro lugar, não há como conciliar a teoria predominante da formação do universo com o relato bíblico. O texto bíblico coloca Deus criando a vegetação antes de criar os astros, por exemplo, além de várias outras discrepâncias literais. A teoria naturalista é muito mais orientada por uma filosofia do que por dados comprobatórios, então essa tentativa de conciliação é desnecessária. Além disso, o texto não tem o propósito de narrar cronologicamente a criação. Veja quanta poesia existe nas expressões, como “passaram-se a tarde e a manhã”, que não faz sentido cronológico. Veja também que as etapas da criação são organizadas para reverter o caos descrito no termo do versículo 2: “sem forma e vazia”. No primeiro dia, Deus cria a forma da luz; no quarto, preenche a luz com os astros que lhe dão origem. No segundo dia, Deus separa as águas, criando o céu e o mar; no quinto, preenche esses espaços com animais marinhos e aves. No terceiro, Deus ajunta as águas para dar forma à terra seca com sua vegetação; no sexto, Deus coloca animais e o homem no solo. Tendo em vista esse propósito com essa literatura peculiar, não há que se falar em cronologia ou sequência cronológica.

            O que o texto pretende ensinar é que a criação é um reflexo de Deus.  Note a insistência, em cada um dos dias, de que a obra criada por Deus é boa. Tudo o que Deus criou ex nihilo é bom. A excelência da criação é um testemunho da perfeição de Deus. Volte às referências do post anterior, perceba como tantos pontos da Bíblia enfatizam isso. O pecado do homem é fazer mau uso do que Deus criou como bom, inclusive de si mesmo. O homem antigo pensava que as coisas criadas eram deuses. Moisés dá ênfase em que Deus criou cada elemento do universo, para asseverar que há somente um Deus, onipotente e perfeito em sabedoria, que criou absolutamente tudo o que existe, e que uma análise da criação feita por um espírito humilde compreenderá isso. O homem moderno, por outro lado, pensa apenas em si mesmo como o deus não criador, mas descobridor das coisas criadas. Em lugar de louvar a sabedoria de Deus em criar tantos elementos e leis naturais fascinantes, ele louva a si mesmo por entendê-las. O que esse homem moderno louva é mínimo, pois a sua inteligência para descobrir o que existe não chega aos pés da sabedoria de quem fez. É tão ridículo quanto alguém admirar-se por saber trocar uma lâmpada e desprezar a inteligência do inventor dela. Mas o que a Bíblia nos mostra é que há um Deus que criou tudo com maestria, funcionalidade e eterna beleza, e ao homem só cabe adorá-lo e reconhecê-lo.

            O sábado é uma parte essencial da criação, mas quase esquecida. Estranho é que as pessoas que querem encontrar cronologias nos seis dias da criação, ou pensar em dias como eras, não falam nada sobre o sábado. O que é essa “longa era” em que Deus não fez nada? Na realidade, como bem observou um antigo colega judeu meu, Deus fez sim uma obra no sábado: o próprio sábado. Diz a Bíblia que Deus santificou o sábado e nele descansou de suas obras (ou seja, cessou de criar, pois Deus não se cansa). Veja a sacralidade do sábado: ele existe desde a criação, não foi uma novidade na Lei de Moisés. Como fica esse ponto após a nova ordem da nova aliança? Poucos cristãos ainda pensam que é necessário descansar no sábado. A maioria entende que o sábado cristão é o domingo, embora não haja nenhuma indicação bíblica nesse sentido. O que podemos inferir, lendo Hebreus 4, é que Jesus Cristo tornou-se o nosso pleno sábado. Nele, nós podemos descansar de nossas obras, pois sabemos que toda obra meritória já foi feita por ele. Não precisamos nos desgastar fazendo obras para conquistar o favor de Deus, mas já temos o favor de Deus para realizá-las em paz e alegria. Em outro sentido, Jesus conquistou por nós o descanso sabático da vida eterna. Nossos seis dias de trabalho são a nossa vida na terra, tendo de lidar com situações, esforçar-nos para sobreviver e para resistir no dia mau. Mas nosso eterno sábado está garantido no novo jardim, quando Deus recriar todas as coisas e nos der de volta o paraíso que rejeitamos.

            Porém, a maior maravilha da criação é a humanidade. Quando Deus criou o homem, deu a ele o domínio sobre toda a criação. E ele disse ao homem e à mulher que deveriam se multiplicar para encherem toda a terra. O propósito de Deus para a humanidade é que ela encha a terra e domine-a para a glória de Deus. Podemos imaginar que, através do tempo e do espaço, a humanidade cresceria e, cada vez mais, conheceria e contemplaria a criação de Deus através do trabalho e do bom uso dela, e assim louvaria e admiraria Deus mais e mais. E, para tanto, Deus fez o homem com uma particularidade que o distingue de todos os outros entes do universo: ser imagem e semelhança de Deus. O homem é o único ser criado que tem consciência, pensamentos, criatividade, imaginação, pessoalidade, vontade, capacidade para relacionamentos... e tudo isso nos leva ao mais importante: somente o homem, assim como Deus, é capaz de fazer alianças. De todos os seres, apenas Deus e o homem podem fazer pactos. E é a aliança de Deus com o homem a espinha dorsal da Bíblia e da história. Somente por meio de  alianças pode o homem ser aquilo que Deus o criou para ser. E, apenas em aliança com Deus, o homem pode se relacionar com a criação como Deus deseja.

            Mas, a grande ironia disso tudo é que o homem, por ser imagem e semelhança de Deus, também herdou dele a capacidade para fazer coisas à sua imagem e semelhança (yo dawg). E, tendo o homem sido feito para adorar Deus, mas querendo fazer coisas parecidas com ele mesmo, a síntese catastrófica é a adoração a falsos deuses conforme convém. O homem foi feito para ser um reflexo, a imagem de Deus. Em lugar disso, o homem faz deuses para serem o seu reflexo. É intrínseco ao homem a pulsão por adorar e por ser justo, pois foi para isso que Deus o criou. Mas, rejeitando Deus, o homem satisfaz essas pulsões por obras próprias, invenções de sua imaginação, buscando nelas a plenitude da satisfação existencial, moral e intelectual. Agindo assim, o homem declara sua independência de Deus. A consequência óbvia e natural é a morte, pois Deus é vida (conforme 1João). Apartar-se de Deus e buscar significância e sentido apenas em si mesmo é suicídio.

            Entretanto, houve um homem que não seguiu essa tendência. Apenas um que realizou em plena perfeição o desígnio de Deus. Um que foi com total clareza, sem distorção alguma, a imagem do Deus invisível, alguém tão humano que pôde declarar verdadeiramente “quem vê a mim vê o Pai”. Isso mesmo, Jesus foi mais humano do que qualquer um. Veja o salmo 8 e a aplicação em Hebreus 1: o homem, sendo o ápice da criação e coroado de glória e honra, feito um pouco menor que os anjos – esse é o homem ideal, o homem que Deus criou originalmente, o homem que é aquilo que Deus lhe ordena que seja em Gênesis 1. Pela graça de Deus, os humanos ainda são amados por Deus dessa forma, conforme o salmo. Mas Jesus Cristo foi o perfeito homem do Éden. Aquele que realmente reina sobre a criação para a glória de Deus, aquele que de fato é o homem completo, que multiplica por toda a terra os filhos de Deus através de milhões de novos nascimentos pelo Espírito – e mais, que não é um homem criado por Deus, mas sim o único gerado, sendo assim totalmente semelhante a Deus. Esse é Jesus Cristo. E, somente por meio dele, pode o homem restaurar a sua aliança com Deus e tornar-se de acordo com o desígnio original da criação.

            André Duarte

domingo, 17 de março de 2013

Festa de Pentecostes - como é isso?



       Olá, turma da JNV. Interrompendo brevemente a série sobre Gênesis, e atendendo à demanda temporal do iminente evento do retiro com sua festa de tema “Festa de Pentecostes”, quero lançar aqui um estudo não muito longo it’s a trap! sobre esse evento bíblico. Pra ser sincero, também não sei que roupa vou usar no dia. Mas, para dar um norte à preparação mental, vamos estudar agora o que é o Pentecostes para o Antigo Testamento, a tradição histórica judaica e o Novo Testamento. Também aproveito para desfazer algumas confusões que acabam por erroneamente relacionar a Festa Pentecostes com toda essa mania pentecostalista moderna.
           
A Lei de Moisés instituiu várias festas anuais, das quais três eram da máxima importância e envolviam a peregrinação de todos os homens com suas famílias até o local apropriado de culto. Essas três festas eram a páscoa, a festa das semanas e a festa dos tabernáculos. De acordo com Levítico 23, a festa das semanas ocorreria após sete semanas desde o sábado em que os israelitas apresentassem a Deus os primeiros frutos da terra que haveriam de conquistar. Essa contagem em semanas é que dá o nome de “festa das semanas”. Sete semanas são 49 dias, e essa festa ocorre no dia seguinte, ou seja, 50 dias depois da festa dos primeiros frutos. Daí vem o nome grego Pentecostes, que significa “50 dias”. Ocorre que esse sábado em que os israelitas apresentaram as primícias da terra coincidiu com a comemoração da páscoa. Por essa razão, a festa de Pentecostes tem sua data em 50 dias depois da páscoa.
           
E o que se comemora nessa festa? Bem, ela se situa justamente na estação do ano em que se colhe os cereais, como o trigo. Ela é uma festa em que toda a nação comemora a provisão fiel de Deus ao seu povo. Esse é o motivo do culto. E nós temos de entender que as festas judaicas eram alegres sim. Nós costumamos imaginar uma multidão bagunçada de judeus tentando apresentar pro sacerdote algum animal pra ele matar e pronto. Mas não, era uma verdadeira festa, cheia de risos, abraços e fanfarra. A festa era solidária, havendo o compartilhar de refeições entre as famílias, com os sacerdotes e os desamparados, pobres, viúvas, estrangeiros. Toda a nação se reunia em um lugar para louvar o Senhor por sua graça em permitir ao povo o desfrute do trabalho da terra. Seria mais ou menos como se todos os ocidentais fizessem uma mega festa transnacional para comemorar o salário de meses.
           
Ocorre que, devido à destruição do templo em 586 a.C., vindo sobre os judeus o exílio pelos babilônicos, muita coisa teve de mudar na rotina deles. Não havia mais local fixo de culto para a comemoração das festas. Foi nesse tempo que as sinagogas locais começaram a aparecer para substituir o templo. Os sacrifícios, que tiveram de ser interrompidos, perderam sua importância para o estudo da Lei. Afinal, a razão do exílio foi a desobediência constante à Lei, tendo havido tal descaso que a Lei passou a ser praticamente desconhecida do povo. Surgiram os escribas, copistas da Bíblia, para disseminar o conhecimento das ordenanças de Moisés. Com essa ênfase na Lei, e sem a possibilidade de apresentar sacrifícios, os judeus atribuíram um novo significado ao Pentecostes. De alguma maneira, desenvolveu-se a tradição de que a entrega das tábuas da Lei no monte Sinai ocorreu 50 dias após a páscoa, a libertação do Egito. Até hoje, os judeus comemoram, no Pentecostes, principalmente a dádiva da Lei.

            Como as outras duas festas de peregrinação, o Pentecostes ganhou novo significado após a vinda de Cristo. Ele morreu na páscoa. No terceiro dia de sua morte, ele ressuscitou, e subiu ao céu 40 dias depois. Fazendo as contas, os discípulos ficaram por conta própria durante 7 ou 8 dias. E então veio o dia de Pentecostes, com a cidade de Jerusalém lotada de gente de todas as raças indo adorar o Senhor no templo. E Jesus Cristo, em seu trono soberano no céu, cumpre o que prometeu aos discípulos e envia o seu Espírito para guiar a Igreja em seu propósito. Jesus nos prometeu que não nos deixaria abandonados, que estaria conosco até o fim dos tempos. Por meio do Espírito Santo, o Senhor continua presente em sua Igreja. Não é fascinante que, no mesmo dia em que Deus deu a Lei, ele deu também o Espírito? Até nesse sentido Jesus cumpriu a Lei. Pois o Pentecostes comemora a provisão de Deus, seja do alimento da terra, seja de seus mandamentos. Mas a maior dádiva que Deus ofereceu aos homens foi o seu Filho e, por meio dele, o seu Espírito, para nos santificar, guiar, ensinar e proporcionar a comunhão com o Eterno, e assim selar como garantia a promessa da salvação e do retorno do Rei dos reis.

            Esse significado tem se perdido por causa da confusão com o pentecostalismo. “Pentecostal”, como termo eclesiológico moderno, significa as igrejas que seguem a doutrina proclamada pelo fundador do seu movimento, Charles Parham. Inicialmente um bispo metodista de uma Igreja negra (no ano 1906, quando a segregação ainda era comum), ele viu um dos membros entrar em transe extático e manifestar a glossolalia – o descontrole da fala. Charles interpretou isso como uma repetição de um dos sinais visíveis do Pentecostes de Atos, o “falar em línguas”. Esse assunto do falar em línguas fica pra outro post. Mas o que o pentecostalismo realmente prega, desde que a Assembleia de Deus americana, fundada em 1910 por um discípulo do Charles, escreveu o seu credo, é o seguinte: existem dois batismos – o nas águas e o no Espírito Santo. Aqueles que se convertem a Jesus são batizados nas águas e são salvos, mas eles não têm ainda o Espírito Santo. Para a “segunda bênção”, o batismo no Espírito, é necessário um tempo de intensa santificação, busca por Deus e fervor em oração (uma ironia, porque ninguém pode fazer essas coisas sem o Espírito Santo, obviamente). E, então, no momento em que a pessoa fala em línguas, é o sinal de que o Espírito Santo veio sobre ela. E agora ela está capacitada a ser mais madura e mais útil no ministério.

            Agora, certamente você notou que não é toda igreja que se diz pentecostal ou neopentecostal que segue esses pensamentos. Essa crença é a do pentecostalismo original. Hoje em dia, há muita flexibilidade nesse sentido dentro das denominações. Mesmo dentro de uma mesma Igreja, podem haver pastores com opiniões diferentes nesse sentido. O que eu quero enfatizar é que o Pentecostes não tem nada a ver com falar em línguas ou manifestar outros sinais espirituais. Também não tem a ver com ser uma Igreja mais gritante, liturgicamente espontânea, ou moralmente cerceadora. O Pentecostes, biblicamente, é uma data, não um fenômeno. É a data em que Deus provou o melhor da sua provisão com o seu Espírito enviado pelo Filho. A data em que a Igreja foi marcada por Deus como sua propriedade. Foi o dia em que a maravilhosa promessa de Cristo, de estar conosco para sempre, foi cumprida. O Pentecostes judaico celebra a colheita da terra e da entrega da Lei. Para a Igreja, o Pentecostes comemora a colheita de Deus dos seus primeiros frutos, que são os crentes, e a entrega do seu próprio Espírito para o seu povo.

            André Duarte

quinta-feira, 14 de março de 2013

Gênesis e a introdução à Bíblia 1 – O Deus Criador

         

            Este é o início de uma nova série que versará sobre os primeiros capítulos de Gênesis. O começo deste livro, principalmente antes da queda, é riquíssimo em doutrinas fundamentais sobre Deus. Tenho sentido uma forte negligência quanto à importância devida a esses textos. Quase nunca ouvi pregações sobre eles, mas já os vi em muitas histórias infantis coloridas e mal feitas. Há muita poesia e jogos de palavras envolvidos, e as lições são extraordinárias. Na realidade, todo o resto da Bíblia depende diretamente do que é ensinado no início de Gênesis. Consequentemente, uma falha na compreensão de Gênesis resulta em mau entendimento de toda a Bíblia.
           
O Gênesis nos dá, por assim dizer, limites bem definidos da doutrina cristã. Ele não explica a fé cristã por inteiro, mas demonstra diretamente o que não pode ser aceito como verdadeiro. Assim começa a Sagrada Escritura: “No princípio, Deus criou os céus a terra”. Há uma infinidade de implicações desse primeiro verso. A primeira, bem clara, é que há um Deus pessoal. Fora da verdade revelada está qualquer forma de ateísmo, agnosticismo, ou qualquer sistema religioso que se refira a Deus como um termo vago para uma energia ou substância amorfa espiritual. Um Deus que criou céus e terra é um ente dotado de vontade e de poder para tanto. Em segundo lugar, há apenas um Deus – eis aqui o monoteísmo. Religiões dualistas como o zoroastrismo, muito comum aos antigos persas, admitiam dois deuses em constante conflito. Outras religiões, como as tribais e algumas formas de hinduísmo, falam em vários deuses criadores. Inclusive, quase todas as religiões antigas que ameaçavam os israelitas postulavam essa multiplicidade de deuses. O mesmo se repetiu nos mitos do ocidente. Entretanto, as pessoas fiéis à Escritura somente podem crer em um Deus que criou tudo sozinho. Se ele é o Deus criador de tudo e é único, não há rival algum para ele: ele é o Todo-poderoso. Aliás, essa é a implicação do termo “elohim” aplicado a Deus. Ao contrário do que muitos dizem, ele não é sempre um termo plural, portanto ele não está, ainda, indicando a Trindade. Se ele fosse um termo plural, significaria literalmente “deuses”. O “elohim”, quando se refere a Deus, indica um superlativo. Sendo um termo relacionado a poder, literalmente o sentido no versículo seria “o Poderosíssimo criou céus e terra”. Deus é um só e é onipotente.
           
Quanto ao termo “céus e terra”, podemos compreendê-lo significando toda a criação. Deus não é ligado a apenas uma ou outra coisa da criação. Esse foi o erro dos pagãos vizinhos de Israel. Em 1Reis 20:23-28, temos um exemplo em que Deus mostrou a sua glória ao provar para os sírios que ele é um Deus também dos vales, não apenas das montanhas, e que ele poderia comandar a guerra no local em que ele quisesse. O salmo 139 nos ensina que Deus está em toda parte; não há lugar algum da terra, ou do céu, ou do mar, nem mesmo das profundezas da morte, em que alguém pode se esconder de Deus. Ele criou tudo e exerce domínio sobre toda a criação. E veja que interessante: Deus criou mesmo os céus, o “lugar” onde muitos pensam que é onde Deus mora. Se Deus literalmente morasse no céu, o céu seria maior que ele. Não, o céu é parte da criação de Deus. Deus é imenso, em vista de quem todo o universo é como um nada. Isaías 40 muito fala sobre a grandeza de Deus em face de sua criação. Também é importante notar que Deus criou céus e terra: qualquer filosofia naturalista é totalmente errada, desde o epicurismo grego até o neo-darwnismo. O universo tem sim o seu Criador. Ele não apareceu do nada. É totalmente absurdo pensar em um universo eterno, pois a morte e a entropia estão presentes em toda parte. Somente um poder criador e volitivo pode dar origem a um tão complexo conjunto de obras, leis físicas e vida.
           
O salmo 104 é uma belíssima poesia que constata todos os feitos de Deus, as obras singelas e as imponentes. Deus é o Criador de tudo. E ele é anterior a criação. O versículo 2 de Gênesis 1 nos diz que não havia nada além de Deus antes que ele decidisse efetuar uma criação organizada. Não sabemos o que significam as trevas na face do abismo e as águas sobre as quais o Espírito de Deus pairava. Talvez sejam termos metafóricos para nos ensinar que, antes de Deus criar o universo coeso, havia simplesmente um nada caótico. Obviamente, não é possível dar ilustrações literais do que é um nada. A criação é, portanto, algo criado a partir do nada – ex nihilo. Se não havia nada além de Deus antes de ele criar o universo e os seres celestiais, então absolutamente tudo o que existe é criação de Deus. Se algo não é criado por Deus, é o próprio Deus. Só existe o Criador e a criação dele, e nada mais.

A fé cristã deve admitir três coisas: a existência do Criador, a existência da criação total e a distinção ontológica entre ambos. Já foi dito que é inadmissível não crer no Deus Criador. Também não é correto duvidar da criação. Filosoficamente, é possível pensar que nada existe. Descartes pensou que, talvez, antes de concluir qualquer coisa, poderíamos pensar que tudo o que vemos é um delírio coletivo. Filmes como Matrix e A Origem mexem com a nossa cabeça nesse sentido. A Ciência Cristã, seita fundada no século XIX pela Dra. Eddy, ensina que a dor, o sofrimento e o mal são ilusões, não existem realmente. Entretanto, como fica mais claro nos próximos capítulos de Gênesis, Deus é o criador também dessas coisas, portanto elas existem. E a distinção entre Criador e criação também nos ajuda a não venerar excessivamente o que é criado. É condenável qualquer noção de panteísmo, mesmo essas ideias modernas de que “temos de cuidar da terra porque ela é a nossa mãe”, ou o que o filme do Avatar demonstra. A criação de Deus é a maneira universal pela qual ele se revela, e ela deve levar os homens a glorificá-lo, tal qual qualquer obra artística prova a genialidade de seu autor, ou qualquer grande invenção leva o seu inventor ao Prêmio Nobel. A criação não deve ser maltratada e nem adorada. Deve sim nos levar a adorar o Criador. Um importantíssimo monge medieval reformista, Bernardo de Claraval, disse que “as árvores ensinam mais sobre Deus do que os livros”.

Você deve ter notado que, no versículo 2, aparece o Espírito de Deus. Percebemos, então, que toda a Trindade está envolvida na criação. Onde está o Filho? No versículo 3, certamente. Não é na parte do “Deus”, nem do “luz” – e, sim, eu já ouvi um “crente” dizendo que a luz do versículo 3 era Jesus. Se Jesus foi criado por Deus, isso é nada mais que um arianismo ressuscitado e totalmente condenável. Jesus está no “disse: haja luz”. A fala de Deus é Jesus. Sim, o logos de Deus, a palavra poderosa, viva e eficaz pela qual Deus criou o mundo é o Deus encarnado em Jesus. Aprendemos, no Novo Testamento, que Deus criou o mundo por meio de Cristo – Colossenses, João e Hebreus dizem isso. Não apenas ele criou o mundo através do Filho, mas o Filho sustenta o mundo com o seu ser – outra atribuição do logos, ser a “razão”, a coerência do universo. Nas palavras de Obi-Wan Kenobi, Jesus “nos cerca, nos envolve e sustenta a galáxia una”. Ou, nas de Paulo mesmo, “ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste”. Jesus é a Palavra de Deus, a qual é o próprio Deus, que dá existência e sentido a todas as coisas. Essa Palavra de Deus, que se manifestou em “haja luz”, “separem-se as águas”, “faça a terra gerar todo tipo de árvore”, “encha-se o mar, os céus e a terra de todo tipo de animal”, “faça-se os luminares”, “façamos o homem conforme nossa imagem e semelhança” – manifestou-se também, mais plenamente do que nunca, no ser humano que desceu do céu, morreu numa cruz voluntariamente e ressuscitou, derrotando a morte e perdoando nossos pecados.

André Duarte

terça-feira, 12 de março de 2013

Cristãos e desafios atuais



           Para quem vive hoje, há uma distância histórica de, no mínimo, dezenove séculos até os tempos bíblicos. A forma do mundo de hoje mal pode ser comparada à do mundo daquela época. Da última vez em que alguém escreveu um texto canônico, havia um imperador romano cheio de poder e menos de 100 mil cristãos no mundo. O governo era tirânico, impositivo, e cristãos poderiam ser perseguidos com tortura e morte dependendo do humor do governante. Os cristãos eram poucos e quase todos pobres. O mundo era cheio de desrespeito por minorias, o que incluía os próprios cristãos.
           
Hoje em dia, tudo é bem diferente. Existe toda essa noção de paz mundial, amor entre os diferentes, confraternização entre ricos e pobres, governos democráticos, liberdade religiosa e filosófica, amparo às minorias, valorização do meioambiente. A humanidade progrediu muito, e está cada vez mais perto de construir um paraíso com suas próprias forças. O lema disperso é “vamos tornar o mundo um lugar melhor”. Se cada pessoa viver isso, um dia chegaremos ao ideal de sociedade justa e igualitária.
           
Bem, é isso que os mundanos dizem. E esse tipo de convicção nunca vai mudar. O ápice da confiança na bondade e na inteligência humana produziu os horrores da 2ª Guerra Mundial. Os próprios humanos ficaram chocados com a dimensão da destruição que causaram – eles, os homens, os seres evoluídos, conscientes, em processo crescente de aprimoramento. Claro que não demorou muito para o trauma da 2ª Guerra sair do pensamento coletivo e os humanos começarem a novamente confiar no êxito de seus esforços para produzir um mundo maravilhoso. Afinal, os humanos descobriram aquilo que faltava: o apreço pela paz. O único problema é que, antes, eles não sabiam que a guerra poderia ser tão ruim. Agora, aprenderam a lição e sabem que a meta certa é a paz. Pronto, resolvido, é só questão de tempo.
           
Veja que interessante: valores ordenados por Deus foram apropriados por mundanos para que, rejeitando Deus, os próprios homens pudessem ser os deuses dos valores. Deus ordena a vivência da paz, mas os homens querem eles mesmos produzir a paz independente de Deus. Deus comanda o amor mútuo, e os humanos repetem essa proclamação retirando todo o conceito divino sobre o amor e estabelecendo o seu próprio. E é assim que os crentes são enganados pelas aparências do mundo caído e se deixam convencer de que Jesus não é tão necessário assim para a edificação de um mundo “melhor”.

Mas o mundo não está, de forma alguma, mas justo e bondoso do que no passado. A aparência desse humanismo feliz é construída sobre a areia, não sobre a rocha. Por isso, ela sempre deixará efeitos colaterais. O avanço científico é desejável, mas, para a maioria das pessoas, substitui a fé em Deus. A liberdade religiosa é certamente melhor do que a conversão forçada, mas dá impulso às ameaçadoras heresias à sã doutrina. A escravatura foi abolida, mas a prostituição é tolerada. Como diz o Dr. Manhattan, “eles alegam que seus esforços construirão um paraíso, todavia esse paraíso está preenchido com horrores”. De que maneira, então, pode-se ser um cristão fiel nesses tempos distintos? Há duas escolhas erradas possíveis: a escolha do legalista, de criticar tudo o que é moderno e fechar a mente, e a escolha do antinomista, de mundanizar o evangelho. Como fazer a escolha certa?

O cristão precisa, em primeiro lugar, ter essa noção de que o mal do mundo é imutável, apenas suas manifestações são variadas. Legalistas tendem a ver a modernidade com pessimismo, como se as coisas estivessem piorando e o mundo de antigamente fosse melhor. Lembram-se de que antes não havia banalização do sexo (porque, pros legalistas, o maior problema do mundo é o sexo), drogas pra todo lado, homossexualismo difundido. Esse ponto de vista é errado, porque esses problemas sempre existiram. Se na época de Abraão já existia Sodoma e Gomorra... Mesmo com regras mais repressivas, sempre houve um número alto de transgressões, embora não fosse tão comentado. Por exemplo, Freud verificou tantos casos de abuso sexual na infância por parte dos pais que se recusou a crer que eram todos verdadeiros e postulou que a maioria deles era só fantasia inconsciente da mulher. Embora essa possibilidade seja verdadeira, hoje sabemos que, realmente, havia muito mais abuso sexual há 100 anos do que era comentado na época. Por outro lado, os antinomistas enfatizam as melhoras do mundo, as liberdades, o respeito às minorias, o progresso científico e tudo o mais que já foi comentado. Esse ponto de vista também é errado, pois é totalmente herético afirmar que o mundo pode progredir em justiça e bondade à parte de Deus. Então, o primeiro ponto para o cristão é este: a maldade do mundo é sempre a mesma, apenas suas manifestações variam conforme as novas necessidades de justificação própria que a cultura demanda.

Se o mal do mundo é constante, então ele deve ser identificável em todos os tempos. E de fato é. O mal do mundo é a sua rejeição do rei Jesus. É o pecado, a construção de um verniz de sabedoria e retidão em cima de uma alma sombria e perversa. E é isso que os cristãos devem combater. As boas obras dos crentes são um adorno à sua fé para dela testemunhar, e não o seu objetivo último no mundo. Legalistas estão engajados em destruir manifestações flagrantes de “grandes pecados”, despreocupando-se do pecado holisticamente; antinomistas querem misturar mundo e Igreja para que a Igreja pareça mais “legal” e interessante. O que o crente realmente precisa saber é que sua missão no mundo não é fortalecer as regras contra as coisas mais feias – isso já existia antes e não se sustentou -, nem é unir mundo e Igreja por discursos abertos e fofos – pois não há comunhão alguma entre luz e trevas -, e sim testemunhar do eterno e imutável evangelho por meio de toda a vida. Testemunhar de Jesus diante do mundo não é ser uma pessoa chata e repressiva o tempo todo. Também não é só falar de amor e praticar caridade, pois isso os mundanos também fazem. O crente deve, por um lado, ter o evangelho como o fundamento inabalável de sua vida, sem concessão e negociação alguma da verdade completa, e, por outro, demonstrar a beleza dele para o mundo. Um cristão deve, por meio da sua vida, chamar atenção não para si, mas para Jesus, por meio de sua firmeza e dos seus bons frutos.

Hoje em dia, na nossa sociedade, os cristãos têm o grande desafio de resistir à tolerância. Sim, tolerância. Quer dizer, os cristãos precisam resistir à moda de aceitar tudo e achar que qualquer coisa que se faça “por amor” e “por sinceridade” está correta. “Amor” é o termo da contemporaneidade. “All we need is love”, cantam os Beatles. Jamais pode ser confundido com o amor bíblico, encarnado no Deus-homem. A única semelhança entre ambos é o substantivo. O amor cristão é totalmente definido pelo ser de Deus. Terrivelmente, os crentes estão redefinindo o amor de Deus a partir do amor mundano! Isso acontece, por exemplo, quando os crentes falam que Deus ama todas as pessoas, seja como elas forem, e só quer o melhor para elas, independentemente de qualquer exigência para uma mudança de vida. Acontece que Deus não nasceu em 1960 e não virou um hippie. O que o mundo chama de “amor”, Deus chama de orgulho e libertinagem.

Assim, não importa se homossexuais se “amam”, Deus não vai aprová-los. Talvez, a questão da homossexualidade seja a que tenha maior potencial para resultar em perseguição aos cristãos. Existem os legalistas, que combatem a homossexualidade como se fosse o pior pecado do mundo, e os antinomistas, que só ficam falando que Deus os ama como eles são e pronto. Cristãos devem responder com o evangelho inflexível, porém libertador, de Jesus Cristo. Pode ser que chegue o dia em que as autoridades inquirirão os crentes sobre a sua religião, devido a essa controvérsia da homossexualidade, e eles precisam fazer como Pedro orienta, saber explicar a razão de sua fé.

É muito provável que o mundo continue caminhando cada vez mais para a tolerância a qualquer coisa – exceto, é claro, aos cristãos “intolerantes”. Paulo diz, em 2Tessalonicenses, que, antes de Jesus voltar, o “filho da perdição” se levantará e se oporá a Deus e a tudo o que é sagrado. Em grego, a expressão usada para o termo “homem do pecado” significa literalmente “homem sem lei”. Parece que é nessa direção que o mundo está indo: cada vez menos regras e maior permissividade. É Direitos Humanos de um lado, facilitando a vida dos bandidos e ressaltando o suposto valor intrínseco do ser humano com seus fantasiosos direitos naturais – sem vínculo algum com o valor que Deus dá ao homem -, relaxamento sexual e de drogas do outro, multiplicação de alternativas religiosas inclusive dentro do que se chama de igreja evangélica... Esse é o mundo para o qual os crentes devem estar preparados, firmados no perfeito evangelho de Cristo – a imutável e sólida verdade.

André Duarte

domingo, 10 de março de 2013

Decisões e a consulta a Deus

         
           Uma das grandes marcas do caráter cristão é a submissão à vontade de Deus para a tomada de decisões para a vida. É louvável que um crente busque compreender os planos de Deus para si e faça suas escolhas vinculadas a eles. A finalidade, embora correta, depende do meio adequado, e é nesse ponto que há tantas falhas. A eterna pergunta “como vou saber o que Deus quer pra minha vida” só é respondida através do método de consulta correto. E é importante saber que essa pergunta não é recente. Desde a Lei de Moisés, existe essa ordem para a consulta a Deus, e ele mesmo instituiu o procedimento certo. Existem diversos exemplos na Bíblia que mostram como essa consulta foi feita. Entretanto, o modo como Deus era consultado na época bíblica não é mais o mesmo hoje. É necessário compreender como podemos conhecer a vontade de Deus para uma decisão atual.
           
Em primeiro lugar, precisamos partir do princípio de que a vontade de Deus deve ser clara e indubitável. Deus nunca exigiu de nós uma capacidade extrassensorial para alcançarmos o mais misterioso e enigmático de seus pensamentos. Por essa razão, não podemos pensar que a oração é o meio principal para efetuar esse desvendamento, embora seja o mais comumente valorizado. Não podemos contar que, ao orarmos, Deus vai falar-nos alguma coisa nova, personalíssima e perfeitamente clara, como ele falou aos profetas da Bíblia. Se você pensa assim, nega o pressuposto fundamental da suficiência das Escrituras (se quiser rejeitar esse pressuposto, tudo bem, pode criar uma nova religião :P). Pois, em uma oração independente da Bíblia, não há como saber se a “voz” que você ouve é de Deus mesmo ou é apenas um eco dos seus sentimentos. Deus nunca ordenou que você descobrisse os pensamentos obscuros dele através de uma oração e uma força sentimental transcendente subsequente.
           
Biblicamente, a consulta a Deus sempre foi bem clara. Lemos, por exemplo, que Josué falhou em consultar o Senhor antes de fazer acordo com os gibeonitas (Josué 9). Pela sua negligência, Israel sofreu consequências gravíssimas, até mesmo à época de Davi (2Samuel 21). Falando nele, o próprio Davi também fazia consultas a Deus constantemente, principalmente quando fugia de Saul, pois Abiatar levava o colete sacerdotal com ele. De que forma Josué ou Davi poderiam conseguir respostas de Deus? Na Lei de Moisés, Deus ordenou a posse do Urim e do Tumim pelos sacerdotes (Êxodo 28:30). A Bíblia não explica como eles funcionavam, mas eram pedras que, de alguma maneira, eram usadas para descobrir a vontade de Deus. Uma interessante opinião judaica diz que o Urim representava o “sim”, e o Tumim, o “não”, e a pedra correspondente à resposta de Deus brilhava diante da pergunta. De qualquer forma, a consulta a Deus era feita através desses objetos. Posteriormente, o ministério profético ganhou impulso a partir de Elias e Eliseu, e os profetas vieram a ser a forma alternativa e preferencial de consulta a Deus. Havia, é claro, profetas que falavam em nome de Deus enganosamente. Mas a palavra dos verdadeiros profetas permaneceu, e os seus livros estão no cânon para serem conhecidos. Por meio deles, podemos consultar Deus.
           
Pode-se concluir, naturalmente, que a consulta à vontade de Deus é feita pela Bíblia. É o estudo e o conhecimento das Escrituras que nos ensinam o que Deus quer de nós. Afinal, sabemos que a Bíblia é a palavra de Deus revelada e disponível. A revelação bíblica é totalmente e suficientemente ampla para responder a todas as questões das nossas vidas. Tenha a certeza de que, se Deus já revelou algo na Bíblia, ele não revelará novamente ao seu ouvido em particular. Ele já disse qual é a vontade dele. Cabe a você ir atrás das Sagradas Letras. Não estou dizendo que a oração é desprezível como meio de buscar a orientação de Deus. Quando oramos, pedimos sim a direção divina sobre nossas decisões, e isso é um dever. Mas, a oração não é independente da Bíblia. Você descobre a direção de Deus em oração quando, através de suas expressões, do desenvolvimento do seu raciocínio e da ativação de suas memórias, você compreende a aplicação de uma verdade bíblica à sua situação particular. Deus não fala nenhuma novidade em oração, mas ele ensina você a entender o que você conhece da Bíblia. O Espírito abre o seu entendimento. Não é uma nova revelação nem uma nova interpretação, mas uma nova aplicação circunstancial de um princípio eterno já positivado na Bíblia. Para esse fim, a oração é fundamental.
           
Penso que a maior resistência à dependência das Escrituras é a nossa predisposição egoísta ao nos aproximarmos de Deus. Certamente, todo mundo já passou pela experiência de abrir a Bíblia em busca de uma certa resposta e não encontrá-la no texto aberto. Você quer que a Bíblia diga com quem você deve se casar ou qual curso da faculdade escolher, e o texto fala da genealogia de Jafé, ou de uma guerra entre sírios, moabitas e israelitas. Então você se decepciona pela irrelevância imediata da Bíblia e insiste que Deus responda ao seu ouvido diretamente. Aí está um exemplo do desconhecimento de nossas reais necessidades. Queremos que Deus nos dê respostas às perguntas que nós consideramos importantes, não às que ele considera. Queremos que Deus fale com total particularidade, diretamente às nossas dúvidas, esquecendo-nos de que o seu Filho já é a resposta para o que precisamos. Paulo diz aos colossenses que estão escondidos em Cristo todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria. Não há maneira de entendermos a orientação total de Deus à nossa vida se não buscarmos, primeiro, compreender quem ele é. Pois a nossa identidade é totalmente dependente da identidade dele. Você nunca vai entender o seu lugar e a sua vida sem antes entender quem é Deus. Seria como procurar um reflexo sem o seu respectivo objeto, como buscar luz na lua estando o sol apagado.
           
Ao ler a Bíblia, esqueça um pouco as suas questões particulares, dobre o seu coração às palavras de Deus e compreenda o que ele quer que você saiba, não o que você quer saber. Perceba que Deus não trata as pessoas isoladamente, mas que ele tem princípios universais para todo ser humano. A vontade dele é, em primeiro lugar, que você o ame por quem ele é, não pelo que ele pode fazer por você. Ele quer que você obedeça aos seus mandamentos. Ele quer que você confie em sua graça e soberania, e não no seu próprio esforço. Ele quer que você creia que Jesus é o rei e o salvador, e que não há vida nem significância fora dele. Quando você perceber a glória do Senhor Jesus revelada em toda a Bíblia, seus problemas parecerão menores. Você não sofrerá tanto diante de um dilema. Você sabe que a verdade da vida está em Jesus, e não em certa decisão que você precisar tomar. Você compreenderá que as respostas para todas as suas escolhas dependem apenas do evangelho e da salvação efetuada por Jesus. Sua única necessidade para viver sabiamente é crer mais profundamente e amplamente no evangelho, e ele iluminará todos os cantos do seu coração e todos os becos da sua vida.

            André Duarte

terça-feira, 5 de março de 2013

Ensinos panorâmicos de Jó



O livro de Jó é um dos mais belos da Bíblia, com sua estrutura exclusiva, pessoalidade intensa e, mesmo assim, ensinos eternos. É também um livro facilmente mal compreendido devido à mistura de conceitos certos e errados que os personagens declaram em seus discursos. Quero abordar alguns pontos essenciais do livro, sem entrar muito em frases específicas.

Sabemos que o livro de Jó versa sobre o sentido do sofrimento. Mesmo assim, ele não reponde exaustivamente a quaisquer questões humanas sobre o “problema do mal”. Mas, há parâmetros muito bem definidos sobre os quais podemos meditar. Em primeiro lugar, desde o início do livro, fica totalmente claro que o sofrimento está sob o controle direto de Deus. Não há mal algum que ocorra no mundo que fuja ao desígnio de Deus. O relato de Jó não pode ser algum caso excepcional, mas é um exemplo vívido e íntimo dos princípios declarados nas Escrituras sobre a soberania de Deus no sofrimento. Satanás solicita que Deus decrete a ruína de Jó, mas Deus é quem define os exatos limites do mal ocorrido; não há o menor detalhe que escape ao plano de Deus. E esse já é um pensamento confortador para nós, que sofremos. Davi compreendeu isso muito bem quando teve de escolher entre os castigos oferecidos por Deus (2Samuel 24), e ele optou pela espada do anjo de Deus, declarando “Prefiro cair nas mãos de Deus a cair nas mãos dos homens, pois grande é a sua misericórdia”. Seria terrível se o sofrimento no mundo fosse controlado por homens. Mas, Deus, comprovadamente misericordioso e amoroso, controla o sofrimento de forma perfeitamente sábia, mesmo que não compreendamos isso totalmente. Agora, a intenção de Satanás não é a mesma de Deus com o sofrimento de Jó. Satanás queria que Jó pecasse para poder acusá-lo; Deus, porém, tinha um motivo bem melhor. É o que o fim do livro mostra.

Vamos olhar mais de perto o personagem Jó. Ele era realmente tão bom quanto publicamente se diz? Ele obviamente não era perfeito e tinha pecados. Também havia uma motivação errada em seu esforço para cumprir as leis de Deus. Realmente, ele havia se tornado especialmente justo e sábio, em comparação com outros homens. Mas os seus discursos nos dão indícios do porquê ele era tão correto. Ele tinha medo de Deus. Ora, ele até mesmo oferecia sacrifícios diariamente para cobrir algum pecado hipotético dos seus filhos. Isso não é um grande exemplo de piedade, mas de desconfiança da misericórdia de Deus. Jó não conhecia nada sobre a graça de Deus, e ele mesmo declara, no final, que apenas sabia sobre Deus por ouvir falar. Quando a desgraça bate à sua porta, ele resiste por um tempo, submetendo-se a Deus. Mas não dura muito. O seu espírito quebra, porque todos os seus axiomas sobre a vida baseavam-se na justiça humana. No seu primeiro lamento, ele diz “o que eu temia me ocorreu”. Jó confiava em si mesmo como salvador de sua vida. Ele pensava que obteria o favor de Deus por viver na mais estrita moral. Suas esperanças foram destruídas, porque Deus não se deixa ser controlado. E assim somos todos nós, legalistas, moralistas, que só obedecemos a Deus para o nosso próprio benefício, e não por amor.
           
Talvez você esteja surpreso em perceber que Jó não é o grande herói da justiça como se diz por aí. Essa história não é de um justo que permaneceu justo o tempo todo e nos ensina pelo exemplo, mas sim de um pecador legalista que, por meio do sofrimento, descobriu a graça de Deus. Quem dera todos os legalistas aprendessem isso a cada vez que seus ídolos são destruídos. Agora, vamos ver o que Jó conclui disso tudo. Seus discursos são muito interessantes, porque mostram uma progressão dos axiomas legalistas. Veja se, lá no fundo, o seu coração não quer dizer a mesma coisa.
           
Os primeiros discursos de Jó são um grande lamento irracional. Claro que, pela perda que ele sofreu, sua angústia é compreensível. Ele descreve todo o mal que está sofrendo, e como ele deseja morrer logo para dar fim à dor. Suas descrições sobre Deus são extremamente aterrorizadas. Fica óbvio que ele nada sabe sobre a misericórdia de Deus. Jó reconhece o pleno poder de Deus, mas esvazia-o de toda bondade. Deus é declarado como um sádico, que fere os inocentes por diversão, que trai a confiança dos justos. E Jó diz essas coisas ainda imerso em terror, sem raciocinar tão bem. Ele fica com tanto medo de Deus que nem consegue orar a ele por restauração. Quando somos abatidos pelo sofrimento, também tendemos a essa abordagem a Deus. Sua misericórdia tão falada parece uma abstração, enquanto seu poder para causar o mal é vividamente sentido. Talvez não cheguemos ao extremismo de Jó, mas, mesmo assim, a tristeza que sentimos embaça nossa visão do Deus de amor.
           
Após tantos desabafos, Jó consegue raciocinar melhor, mas ainda mais erronamente. É certo que ele muda de atitude. Nos primeiros discursos, ele dizia coisas como “Não consigo me defender, jamais ousarei apelar a Deus”, e depois ele passa a dizer “Já preparei a minha defesa, já posso falar a Deus em seu tribunal”. Jó consegue se consolar um pouco e mostrar vislumbres de esperança. Isso parece bom, mas é ao pior nível que um legalista pode chegar. Porque suas boas esperanças baseiam-se na justiça própria. A ideia de Jó é “quando eu apelar a Deus, ele terá de me salvar. Pois, como ele é perfeitamente justo, ele não poderá me condenar, pois eu também sou justo e nunca fiz nada errado”. Por vezes, Jó fala sobre Deus ver o seu pecado, mas ele fala apenas como hipótese. Como se dissesse “Deus está vendo pecado onde não existe, então ele terá de mudar de ideia e me salvar”. Não é isso que o nosso coração quer nos dizer quando somos abatidos por Deus? Eu já pensei isso várias vezes. É natural que a mente reorganize seus conceitos para superar o sofrimento. Mas esse rearranjo geralmente leva à mais profunda idolatria própria. Mesmo inconscientemente, é fácil pensarmos “Bem, alguma hora, Deus vai me livrar, pois eu vou convencê-lo a fazer isso pela minha fidelidade e perseverança”. Você faz isso quando empreende correntes de oração ou jejum com a ideia de “No final de todo esse programa, com certeza Deus vai me favorecer”. Eu sei como é isso. Quando adolescente, eu ia a todas as vigílias só para Deus ver como eu sou piedoso pra ele responder minhas orações logo. Pensamos, nesses casos, que Deus está “testando nossa fé”, como ele fez com Jó, pra ver se nós somos bons mesmo. Aí está a chave: Deus nunca teve o propósito de testar a fé de Jó. Jó mesmo nunca passou nesse suposto teste. Deus o restaurou no final apesar de seus conceitos, não por causa deles. Como alguém pode pensar que Jó é o máximo após o seu último discurso, antes de Eliú aparecer? O que Jó diz é basicamente “que Deus me destrua se eu fiz algo errado – mas, ei, eu não fiz nada errado!” É o mesmo que o fariseu da parábola de Jesus diz – “Deus, agradeço por eu não ser ladrão e mau como as outras pessoas”, ou como os bodes em Mateus 25, dizendo “Mas, Senhor, quando foi que não cumprimos essas boas obras?”.
           
Antes de chegar na parte de Deus, temos de compreender também a abordagem errada dos amigos de Jó. No geral, eles falam coisas verdadeiras e bíblicas sobre Deus. O problema é que eles tentaram interpretar a situação com base em seus preconceitos. Eles querem passar a ideia de que Jó foi abatido por Deus por ter cometido algum pecado que traga esse nexo causal. Dessa forma, eles também pregaram justificação por boas obras, pois a conclusão do que eles dizem é “Pare de pecar, e Deus vai restaurá-lo” – como se fosse possível chegar a um estado de pureza de qualquer pecado. Também falharam em consolar o amigo. Mesmo irmãos crentes podem ver o sofrimento do outro e pensar “Hmm, ele deve ter feito algum pecado pra sofrer assim”. Como se alguém estivesse sem pecado. Os amigos de Jó o julgaram erroneamente. Realmente, Jó tinha pecados, mas ninguém pode ler a vida do outro e imediatamente atribuir o seu sofrimento ao pecado, pois Deus tem múltiplos propósitos para causar sofrimento.
           
Eliú foi o único que falou corretamente. Ele repreendeu Jó por sua alegação da própria justiça infalível e ressaltou a soberania de Deus e sua pureza acima de qualquer comparação. Logo em seguida, Deus resolve pessoalmente explicar a Jó o lugar certo das coisas. No magnífico discurso de Deus, ele humilha o coração de Jó, dando dezenas de exemplos da pequenez dele e da perfeição das obras de Deus. O mesmo Deus que criou um mundo tão belo e infalivelmente funcional obviamente não pode ser constrangido por um mero humano. A criação de Deus é uma revelação de seu poder e de seu amor, e Jó nunca havia se dado conta disso. Veja o salmo 8, ou o 104, em que os autores reconhecem os atributos de Deus e sua grande misericórdia na maneira como ele fez o mundo. Jó não conhecia a Bíblia, pois ela ainda estava longe de ser escrita. Por isso, Deus usa a sua revelação na criação para mostrar a Jó a verdade sobre si. Somente então Jó cai em si e, como nunca antes, converte-se a Deus de toda a sua alma. Agora, Jó sabe quem ele é e quem Deus é. Finalmente, Jó foi atingido pela graça de Deus. Esse era o propósito de Deus com o sofrimento. É sofrendo que conhecemos quem Deus realmente é.
           
Jó não é o grande herói da perseverança, mas o Filho de Deus é. Jesus Cristo é o verdadeiro Jó. Ele sim era totalmente inocente. Ele sim poderia dizer sobre sua justiça tudo o que Jó disse sobre a dele. Mas Jesus não fez isso. Ele suportou o máximo do sofrimento, em perfeita inocência e pureza, pois ele sabia que nós falharíamos tão terrivelmente quanto Jó se tivéssemos que nos provar para Deus. Nada há de mais sofrível do que suportar a ira completa de Deus sobre nossos pecados, e Jesus o fez por nós. Não deveria ser humilhante para nós, que pensamos “Deus precisa me ajudar, pois eu sou tão fiel”, sendo que o único que foi realmente fiel jamais tentou controlar Deus dessa forma? Se o perfeito Cristo, que tinha pleno mérito, que era o próprio Deus, foi um servo humilde, quanto mais nós devemos ser! Não estamos poupados de sofrer como Jó, mas sim de sofrer como Cristo. Sua inocência nos é imputada pelo seu sacrifício na cruz, ao mesmo tempo em que o nosso castigo é transferido para ele. Jó teve de aprender sobre a graça de Deus pela revelação na natureza, mas nós temos a máxima revelação desse amor, a própria pessoa de Jesus Cristo, testemunhado pelos apóstolos e pelo Espírito em nós.

E hoje, assim como o Jó restaurado orou e ofereceu sacrifício para Deus perdoar seus amigos injuriadores, também Cristo intercede por nós, como o perfeito e eterno sumossacerdote, pelo perdão do Pai. Jesus não mais precisa oferecer-se em sacrifício, pois ele já fez isso de uma vez por todas. A eficácia de sua oferta é plena, e é para isso que Cristo apela diante do Pai. Como os amigos de Jó o acusaram de pecado impensadamente, também nós acusamos Deus de erro, cuspimos em Jesus, clamamos pela sua crucificação. Todos nós, chamados para ser amigos de Deus, rejeitamos o seu Filho e o traímos. Mas o mesmo Senhor que sangrou na cruz ressurgiu dos mortos em perfeita majestade e glória. E hoje ele usa seu poder para perdoar os seus caluniadores, nós. Se temos algo em que imitar Jó, é em sua conclusão na sua conversão: “Arrependo-me no pó e na cinza”.

André Duarte