terça-feira, 16 de abril de 2013

A obra de Cristo


            
            Vou praticamente plagiar a última aula da EBD da Semear, porque achei muito boa pra virar artigo. Bem, costumamos pensar que somos salvos simplesmente porque Jesus morreu por nós. Se, porém, pensarmos que a obra de Cristo para nos salvar consiste somente de sua morte, o evangelho torna-se apenas uma mensagem emotiva, uma chantagem emocional. Já vi pessoas pregando e dando essa tônica, como se dissessem “Puxa, Jesus morreu por você e você nem liga?”. O erro do escolástico Pedro Abelardo foi justamente pensar dessa maneira, que o sacrifício de Cristo só foi necessário porque era a melhor maneira de conquistar o nosso amor e de dar o exemplo para o amor ao próximo, devido a essa emoção de compaixão. De fato, a morte de Jesus é o centro de sua obra. Mas, para a sua morte ser válida para a salvação, foi necessário que esse sacrifício tivesse qualificações prévias e desdobramentos para além da morte. É correto dizer que somos salvos por causa da morte de Jesus, mas é mais completo dizer que somos salvos pela sua obra. Qual é, então, a sua obra? Vamos entendê-la em seis pontos.

            A encarnação de Jesus. Essa é uma das principais ênfases de João em seu combate ao gnosticismo, tamanha a sua importância. Também é o centro de toda a discussão dos séculos pós-apostólicos a respeito da divindade de Cristo, a união de suas duas naturezas (divina e humana) e até mesmo a questão da veneração de imagens. 1João 4 diz que, se alguém nega que Jesus veio em carne, é um anticristo. Ora, a encarnação pressupõe que o Filho de Deus já existia antes de vir em carne. É importantíssimo que Jesus tenha sido Deus e homem para nos salvar. Sendo Deus preexistente, o valor do sacrifício de Jesus é infinito, e somente assim a infinita dívida contra Deus pode ser quitada. Se o Deus Altíssimo foi ofendido pelo pecado, somente ele tem poder para fazer reparação a si mesmo, pois qualquer um que fosse menos que Deus já seria, por definição, imensamente inferior a ele e incompetente para pagar a dívida do pecado (Aaah, a brilhante teoria do bispo Anselmo!). Por outro lado, é também absolutamente necessário que Jesus seja humano. Pois somente um humano poderia representar os humanos diante de Deus. É necessário que o nosso substituto seja um igual a nós, logicamente. Como homem, Cristo se identifica conosco, representa-nos e morre como substituto. Pense também que o tornar-se humano já é um ato grandioso do Deus eterno em amor por nós. Filipenses 2 aqui – Cristo, mesmo sendo Deus, humilhou-se, deixando a glória e o paraíso, assumindo a condição fraca e pequena do homem, vindo a ser mesmo um servo dos outros homens. Assim, desde a sua encarnação, Jesus já estava iniciando a sua jornada para a nossa salvação.

            A vida perfeita de Jesus. Tendo se tornado humano, Jesus precisa viver como um humano. Sua vida é marcada pela perfeita obediência à vontade de Deus. Jesus jamais pecou. Pense que fascinante: Jesus jamais pecou em atos, em palavras ou mesmo em pensamentos. Embora Jesus tivesse a fraqueza de uma vontade humana sujeita a tentações, ele jamais cedeu a qualquer delas. Ele derrotou o diabo no deserto. Lucas diz que Jesus foi tentado durante todos os 40 dias em que esteve lá – não foram só aquelas três vezes descritas. Cristo era a palavra de Deus encarnada, e da própria Escritura de Deus ele tirava o seu alimento espiritual. Jesus cita a Bíblia o tempo todo. Foi com as Escrituras que ele derrotou a tentação do diabo, e  foi com ela que ele venceu os seus inimigos. Com a máxima absorção da Bíblia, Jesus foi perfeitamente sábio em tudo o que fez e jamais se desviou de qualquer dos mandamentos de Deus. Como diz Hebreus 5, ele em tudo foi tentado e nunca pecou, sendo assim hábil como sumossacerdote para se compadecer de nós. E por que a perfeita santidade de Cristo é necessária? Ora, apenas o sacrifício perfeito poderia agradar a Deus e aplacar a sua ira. Apenas alguém absolutamente justo poderia imputar sua justiça aos pecadores. A imensa santidade de Deus não se satisfaz com nossos melhores esforços, mas apenas com a vida perfeita do Senhor Jesus. Mesmo os antigos sacrifícios já prenunciavam isso – Deus só se agradava dos animais sem defeito. Nenhum pecador pode dar a vida pelo outro, pois ele também está em dívida. Como um endividado ajudará o outro? Não, somente um homem perfeito, que cumpriu tudo aquilo que cabe ao homem cumprir, é apto para ser um sacrifício substituto, retirando a ira de Deus dos pecadores e justificando-os por sua própria obra.

            A morte humilhante de Jesus. Havendo provado sua total aptidão e competência para sofrer em nosso favor, Cristo submeteu-se à mais terrível provação que qualquer homem já passou. Pense que Jesus sempre habitou no paraíso, em perfeita beatitude. Agora, ele está sangrando, sofrendo o escárnio dos ignorantes, sua carne dilacerada, os pregos dos chicotes arrancando pedaços de si, os cravos da cruz segurando seus pulsos e pés, sendo chamado de mentiroso e ridículo. Mais do que tudo, Jesus sofreu toda a ira de Deus devida aos pecados de toda a humanidade concentrada apenas em si mesmo. Ele sofreu a mais terrível dor que o Filho Unigênito poderia sentir – sua separação do Pai. Naquele momento, a Trindade foi dividida. Jesus foi abandonado pelo Pai para sofrer sozinho, pois, tendo tomado sobre si a maldição dos pecados, não pode o santíssimo Pai comungar com ele. Cristo sofreu tudo aquilo que os pecadores devem sofrer. A máxima humilhação e dor física que existia na época para castigar criminosos, o sofrimento espiritual de receber o santo ódio de Deus – tudo o que nós merecíamos por nossa afronta. Jesus não teve uma morte rápida e indolor, ele sofreu por longas horas, como alguém condenado ao inferno. Mas é esse sacrifício que quita a dívida humana contra Deus. É na morte de Cristo que morremos para o domínio do pecado (Romanos 6), pois o seu sangue derramado purifica o nosso espírito, conforme Hebreus 9. Na cruz, embora sendo total vítima, Jesus foi também vitorioso sobre a maldição da Lei que nos condenava, pregando na cruz todo o poder do diabo (Colossenses 2, Hebreus 2) e o poder do pecado e da morte.

            A ressurreição majestosa de Jesus. Mas como a morte poderia deter aquele que sobre ela triunfou? Como o justo poderia ser destruído por Deus? Não, a missão de Cristo como servo estava cumprida, mas sua missão como Rei estava para começar. No terceiro dia após a sua morte, Jesus ressurgiu dos mortos. Jesus Cristo é a própria vida eterna, é essencial que ele seja vivo. Sua ressurreição é a parte complementar da sua morte; uma não pode ser eficaz sem a outra. Sua morte é o fim do poder do pecado e da dívida; sua ressurreição é o início da nova vida em santidade e eternidade. 1Coríntios 15 é o mais longo e detalhado texto que fala da importância da ressurreição. Se Jesus tivesse apenas morrido e não ressuscitado, o que ele poderia fazer por nós? Se até ele tivesse sido tragado pela morte – ele, que é Deus eterno – que chance nós teríamos? Onde estaria o seu poder para também nos ressuscitar no último dia? Colossenses 1 diz que Jesus é o primogênito dentre os mortos, isto é, ele foi o iniciador da gloriosa ressurreição para o Dia do Senhor. Mesmo que dois personagens do Antigo Testamento (livro dos Reis) e mais alguns no Novo já haviam ressuscitado antes de Cristo, eles apenas voltaram à vida corrupta para morrerem de novo. Quando Jesus ressuscitou, ele já estava em seu corpo glorioso, de cuja substância também participaremos quando formos renovados.  Se Cristo não houvesse ressuscitado para a vida eterna e pura, nem nós seríamos. Sua ressurreição, dessa forma, é parte essencial de sua obra de salvação.
           
A ascensão de Jesus. Raramente pensamos na importância de Jesus ter subido ao céu. Entretanto, se o homem Jesus voltou à sua santa habitação celestial, significa que ele recuperou toda a sua plenitude divina que ele tinha antes de ter encarnado. Os sermões de Atos frequentemente mencionam a ascensão de Jesus, embora não com esse termo. A recuperação de Jesus de seus poderes no céu foi a sua recompensa como o servo obediente na cruz. Isso significa que tudo voltou a ser como antes? De forma alguma. De fato, Jesus voltou a reinar sobre o universo, mas o seu novo reino tem consequências derivadas de sua missão como homem. Sentado no trono à direita de Deus, Cristo é o sumossacerdote que eternamente intercede por nós. Sempre que pecamos, Jesus apela a Deus para o seu sacrifício, para que nenhuma condenação caia sobre nós. Por isso dizemos que o sacrifício foi único, mas que o sacerdócio é eterno. Hebreus nos ensina que Jesus serve no tabernáculo celestial, não mais se sacrificando, mas baseando a sua defesa por nós no seu sacrifício. Por essa razão, temos o eterno perdão de Deus. A atuação constante de Cristo por nós no céu é o sustentáculo de nossa salvação e é a parte complementar de sua obra sacrificial (veja outro motivo porque não são nossas obras que sustentam a nossa salvação). Além disso, Jesus, uma vez no céu, envia o Espírito Santo sobre a Igreja. Na última ceia, Jesus falou muito sobre a importância de sua ida para longe dos discípulos, embora não fosse abandoná-los, justamente porque seria a única maneira de ele enviar o Paráclito. O Espírito Santo é o agente de Cristo que provê para a sua Igreja a santificação, o consolo, o discernimento, a sabedoria – isto é, é o próprio Espírito de Jesus em nós. Assim como ele esteve corporalmente conosco, também está agora espiritualmente. Para a existência e a manutenção do seu reino da terra, foi necessário que ele subisse para junto de Deus, a fim de que ele continue reinando, intercedendo e guiando os seus pelo Espírito. Assim a ascensão é parte de sua obra salvífica.
           
O retorno de Jesus. Essa é a parte referente à nossa salvação futura. Assim como fomos salvos pela vida, morte e ressurreição de Jesus, e somos salvos continuamente pela sua atuação no céu, também seremos salvos quando ele retornar visivelmente. O seu retorno é a consumação de toda a história dirigida por Deus para a sua glória. É a renovação de todas as coisas, a volta do paraíso perfeito, o novo e melhor Éden. Será o ponto culminante de toda a comunhão com Deus, a nossa união com o Filho. O fim de todo pecado, a destruição completa do mal e a total santidade e majestade do reino de Deus sobre os homens. Será o cumprimento de tudo aquilo que Jesus fez antes. A eternidade, a glória, a felicidade. O juízo de Deus e a sua redenção finais. Enfim, toda a dor terá findado, e a maravilha da beleza de Deus será plena para todos os seus filhos. Assim seremos salvos. A essa esperança nos agarramos.

            André Duarte

domingo, 14 de abril de 2013

Lei, tradição e verdadeira espiritualidade



            

            Do que consiste a vida cristã? Um conjunto de regras? Sentimentos corretos? Um relativismo em que o que importa é a intenção? Ora, é evidente que ser seguidor de Jesus envolve obediência. Mas obediência a quê, exatamente? A obediência ao evangelho precisa ser bem compreendida com relação aos seus pressupostos, sua finalidade, seus objetos. Todos os crentes sérios concordam que o pecado é algo ruim, presente em pensamentos, palavras e atos, que deve ser evitado. No entanto, quando se pergunta a um crente exatamente quais coisas são pecados, é difícil receber uma resposta completa. Na verdade, em certo sentido, essa será uma pergunta eterna. Todos nós temos dúvidas sobre quais práticas são pecaminosas, quais são os limites do pecado. Mas existem várias doutrinas gerais na Bíblia sobre a maneira de se lidar com o pecado, e elas ajudarão muito no discernimento. Para esse estudo, quero colocar uma delas a partir dos textos nos evangelhos sinóticos – a briga de Jesus com a tradição dos anciãos – com um paralelo em Colossenses 2. Basicamente, o que esses relatos ensinam é que tanto o pecado quanto a obediência encontram-se no espírito do homem e se manifestam em frutos, e não que eles vêm de fora para dentro.

            O texto é bem conhecido. Jesus é confrontado pelos fariseus porque os discípulos não lavavam as mãos antes de comer. Esse lavar de mãos não era higiênico, era apenas cerimonial. De acordo com algumas proposições do Talmud, o homem que não lavava as mãos antes da refeição era como um assassino. Essa ordem é parte da tradição dos anciãos, não dos mandamentos de Deus. E Jesus confronta esses religiosos justamente no amor que eles tinham por suas tradições, a ponto de elevá-las a uma normatividade maior do que a própria Lei de Deus. Jesus cita o profeta Isaías, dizendo “Em vão me adoram; seus mandamentos não passam de regras ensinadas por homens”. Aqui, Jesus combate a hipocrisia de pessoas que querem legislar por conta própria, enquanto ignoram as ordens divinas. Para ilustrar, pense no seguinte exemplo: o crente que diz que ir à boate é pecado (absolutamente), mas, na hora de dar carona aos amigos, não se importa de esconder um deles no porta-malas ou de colocar mais de três pessoas no banco de trás. O que ele está fazendo? Simplesmente se justificando com base em uma regra inventada por homens – pois Deus nunca disse que era pecado ir à boate – e pecando em desobedecer a uma ordem sensata do Estado, o qual é colocado por Deus para reger os atos civis.

            Jesus ensina aqui um limite para o que se pode definir como pecado. Pecado é sempre definido pelas Escrituras, nunca por invenções humanas. Tradição dos anciãos não é só problema dos judeus, mas também da Igreja. Católicos romanos e ortodoxos abertamente nivelam Bíblia com tradição da Igreja, quando não elevam a tradição para acima. Protestantes tradicionais bem sabem da “sola scriptura”, mas frequentemente caem no erro de elevar a opinião dos reformadores e da história de suas igrejas ao mesmo patamar que a Bíblia, como se fossem todos igualmente inerrantes e inspirados. E pentecostais, que apenas começaram uma tradição e uma história, costumam cair no erro de sacralizar líderes e grandes figuras clericais – o famoso argumento do “ungido do Senhor” – de forma a crer neles cegamente. Especialmente se um pastor inicia o seu sermão dizendo que “Deus colocou isso no meu coração”, é difícil ter a coragem de pensar que, talvez, ele esteja dizendo algo errado e vindo apenas de si mesmo. Nenhum ser humano é inspirado divinamente como autoridade sobre fé e prática. Todos devem estar sujeitos às Escrituras. Tradição dos anciãos não pode definir pecado. Mesmo o mais sábio pastor, o mais brilhante teólogo da história, está sujeito à possibilidade de errar.

          Entenda que isso é algo muito sério. Atribuir a si mesmo ou à tradição de nossa preferência autoridade divina e canonicidade é um produto do orgulho humano. Veja como os fariseus se orgulhavam de suas tradições, da sensação de que, por elas, eles se tornavam mais puros. É um orgulho por definição, pois somente Deus tem a competência para legislar sobre pecado e santidade. Se a sua fé está nas definições de outro que não Deus, você está chamando esse outro de deus. Indo mais longe, a legislação humana sobre pecado tem raízes na rebelião e no ódio contra os padrões de Deus. A corrupção humana é avessa às leis de Deus, o que Paulo mostra claramente em Romanos 7. O homem que se apoiar em justiça própria, mesmo que se considere cristão, vai inventar regras para definir o que é pecado, o que é santidade, o que é piedade. Dessa forma, ele contornará as leis de Deus e conseguirá submeter-se a um ente de sua imaginação, crendo nisso como seu salvador e prescindindo de Jesus. É disso que consiste a distorção da falsa religião no cristianismo.

      Além disso, veja a essência das regras humanas: elementos externos. Regras humanas têm a característica de partir do exterior para o interior. No caso dos fariseus, eles pensavam que o alimento que entra no homem sobre o qual mãos não lavadas tocaram tornaria o homem impuro. É inerente ao ser humano também pensar que o problema tem origem no ambiente, e é o ambiente que corrompe o coração. Mas Jesus ensina algo único aqui. Ele diz que inerente ao homem é a impureza. É a sua maldade inata que transborda em atos externos. O homem não é levado a pecar por aquilo que ele come, ou pelo lugar onde ele está, ou pelas pessoas ao seu redor – embora esses elementos tenham sua importância. Em última instância, o homem peca porque isso é de sua natureza. E não há regra alguma que possa mudar isso. Ora, é tão risível que homens religiosos ainda tentem moldar o caráter de seus liderados por meio de regras inventadas. Se nem mesmo a Lei de Deus foi eficaz para transformar o coração humano, que chance leis humanas têm? A lei, seja ela a de Deus ou a da consciência, tem papel condenatório, nunca santificador.

          Veja o mesmo problema em Colossenses 2. Fico pensando, o que será que legalistas pensam quando leem esse texto? Que isso só pode ser com os outros, nunca com eles? Por que será que nunca ouvi uma pregação sobre isso? Penso que é um dos textos mais esquecidos da história. Não me refiro ao capítulo todo, claro, mas aos versículos 20 a 23, em especial: “Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: Não toque, não manuseie, não prove? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne”. Cada termo sintático é maravilhoso e confrontador. Regras não mudam o espírito. Ninguém consegue combater seus maus desejos por meio da observância de regras exteriores. Não é o tempo, não é o lugar, não são as pessoas, não são os objetos – nada disso é a causa para o seu pecado e nem o poder para detê-lo.

         Mas não é assim que a cristandade parece funcionar. Somos bombardeados com tradição dos anciãos, interpretações fixas e indiscutíveis sobre a Bíblia, adição de ordenanças sem fundamento escriturístico, dizendo-nos que é assim que não pecamos. É a música laica que entra em nossos ouvidos e nos faz pecar, sendo a solução apartar-se disso. É a boate que incita desejos sexuais, logo, o mandamento é não ir à boate. Os namoros precisam de uma rotina e uma observância de regras convencionais porque é isso que atribuirá santidade e que impedirá o pecado. Assim, a religião cristã torna-se idêntica a qualquer outra religião, com seus ascetismos, suas esquivas de contatos com coisas definidas como mundanas demais e sua confiança em invenções humanas. Mas a fé cristã compreende o pecado da maneira como Jesus ensina – que ele está inato ao homem, que ele parte do interior para o exterior, e que ele não pode ser refreado por regras. Qual é, então a solução? Quem não compreende a crítica ao legalismo costuma temer o antinomismo, a ideia de que, posto tudo isso, um crente pode fazer o que quiser e agir como bem entender. O evangelho, porém, é outro caminho.

            Colossenses 3 mostrará o caminho. Se a observância de regras ascéticas é ineficaz contra o impulso pecaminoso, o que é eficaz? Esse texto fala da ressurreição em Cristo para uma nova vida. Ele diz “pensem nas coisas do alto”. O que isso significa? Que a solução não está na criatividade para regras circunstanciais, e sim em tudo aquilo que Cristo realizou por nós. Ele veio como homem, viveu perfeitamente sob todas as regras e morreu em nosso lugar. Ele saldou nossa dívida com Deus e transferiu a nós a sua justiça. E ele ressuscitou para nos dar a esperança de uma renovação interior e de uma glorificação no fim. Manter a mente nessas coisas, nas bênçãos espirituais de Cristo, isso sim é um golpe nos impulsos pecaminosos. O evangelho é o poder de Deus. Sabendo que somos pecadores amados pelo rei, compreendemos que não há nada além dele de que precisamos para nos mantermos justos. Recebemos a paz para servi-lo por gratidão, não mais por medo ou orgulho. Somos verdadeiramente libertos do domínio do pecado quando abraçamos em profunda humildade o perdão do Senhor. Meditar no evangelho, em tudo o que Jesus significa, em tudo o que ele é, suas implicações para a vida, isso resulta em rejeição do pecado, em não mais achá-lo tão atraente quanto antes.

      E o texto prossegue dizendo “portanto, façam morrer em vocês essas coisas”. Paulo fala da regeneração, do nascer de novo. Ele fala da nossa morte da vida passada com Cristo e de nossa nova vida em sua ressurreição, como homens transformados. O resultado dessa união com Cristo, feita mediante a fé, é que o pecado é mortificado no interior. A obra de Jesus é o que atinge o pecado no espírito humano, o que nenhuma regra jamais poderia fazer. Assim como o pecado está no interior e se expande para fora, também é necessário que a purificação mate o pecado na raiz, no coração do homem. Hebreus 9 mostra que o sacrifício de Cristo é totalmente eficaz, único, definitivo e suficiente para não apenas perdoar pecados, mas para realizar verdadeira purificação interior. É o evangelho que conduz à obediência, não é a obediência que força um apego ao evangelho. Por essa razão, Paulo resume a mensagem proclamada em Romanos no termo “obediência que vem pela fé”. A obediência conforme as pretensões das regras humanas não vem pela fé, e sim pela idolatria. Nem deve a fé ser pensada como um credo proclamado sem poder. Mas a obediência que vem pela fé é a característica de um verdadeiro adorador. Alguém que obedece a Deus por amor e gratidão, por saber quem ele é, por descansar em suas promessas e em seus atos. Que observa as regras de Deus, deixando as de homens como secundárias, por saber que Deus é o verdadeiro Senhor e Salvador, e que só ele é digno de toda a confiança e devoção.

            André Duarte

           

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Louvor litúrgico e os pressupostos de sua adequação



            Já existem posts sobre quase todos os elementos da liturgia. Já comentei sobre o sermão, sobre a oração (embora não a litúrgica), os sacramentos, liderança da Igreja, comunhão, evangelismo. Embora sejam todos assuntos que mereçam mais atenção, vou colocar meus pensamentos sobre o louvor litúrgico, isto é, o louvor expresso por meio da música durante um culto público. Defino assim esse tema porque louvor, como é do senso comum, é expresso em todo tipo de ato feito para a exaltação de Deus; entretanto, é da linguagem usual chamar a música de “louvor”. É sobre isso que escrevo aqui.
           
Durante a história da Igreja, esse tem sido um assunto que muito recebeu a atenção dos teólogos. Nunca foi motivo de descaso. O entendimento da Igreja sempre foi de que o louvor com música é parte essencial do culto congregacional, devido ao legado dos salmos no velho templo. Por conseguinte, uma distorção no louvor afetará a adoração como um todo, enquanto um louvor adequado é eficaz para a edificação espiritual da Igreja. Talvez seja importante, didaticamente, dividir a forma do louvor em três momentos: a forma da Igreja Católica Romana, a do protestantismo tradicional e a do neopentecostalismo – esse último, tendo aparecido há poucas décadas. A Igreja Romana trabalhava o louvor por meio de um coral, que cantava em latim. O povo, consequentemente, não conseguia participar, por não compreender a letra. Na Reforma, houve todo aquele cuidado para que o culto fosse feito na língua vernácula. As pessoas foram incentivadas a participar cantando. Em algumas igrejas, era permitido o instrumento do órgão. Até a primeira metade do século XX, o louvor era cantado pelo povo, dirigido ainda por um coral, por meio de hinos. Ainda hoje existem igrejas tradicionais que usam o hinário Cantor Cristão. As Assembleias de Deus usam a Harpa Cristã. Em igrejas negras, o estilo musical dos hinos era um tanto diferente, mais emotivo, passional. A renovação do neopentecostalismo mudou completamente a maneira do louvor em igrejas que imitaram esse “avivamento”. O louvor eclesiástico passou a refletir a revolução do rock, com a mania por bandas, instrumentos elétricos e barulhentos. A ideia é que o louvor fosse feito com mais emoção, sem aquela sensação mecânica que, segundo a opinião dos revolucionários da época, caracterizava os antigos hinos.

             Não quero cair em um extremismo de dizer que o louvor por hinos é o certo e o louvor por músicas modernas com bandas é o errado. Se eu fizesse isso, estaria apenas sacralizando um modelo cultural para condenar outro. Mas é importante fazer críticas a esse louvor moderno, pois os seus danos não são poucos. Não porque o princípio dele seja essencialmente errado, mas porque suas consequências factuais foram, sob muitos aspectos, desastrosas. Em primeiro lugar, é um louvor que se alheia de sua comunhão histórica com outros protestantes, na maioria dos casos. As bandas de louvor costumam prezar por novidades, as músicas mais novas, como se o mais novo fosse potencialmente mais interessante. Ora, os hinos têm inspirado os cristãos por séculos, e apenas modernamente existe essa resistência, essa rejeição. Mas esse paradigma de preferir a novidade ao tradicional é uma ideia mundana. São os mundanos que consideram as coisas velhas como descartáveis e inúteis.

Entretanto, a idade das músicas não pode ser o único critério para a escolha e a performance delas. Vamos supor que os hinos de antigamente fossem hereges e as músicas de hoje representassem uma reforma teológica. Nesse caso, obviamente o mais novo seria melhor. Mas o caso parece ser exatamente o contrário. Se você passar cada uma das músicas cristãs da história pelo crivo da verdade bíblica, da adequação pública e do cumprimento da finalidade de exaltar o nome de Deus, o antigo supera o novo imensamente. Quase todos os hinos antigos são ortodoxos e centrados em Cristo, enquanto as músicas modernas são frustrantemente rasas na teologia, quando não completamente erradas, centradas no homem e, como se não bastasse, de uma musicalidade e poesia pobres. Não digo que são todas assim. Algumas músicas de hoje ainda se salvam, mas são grãos de ouro num monte de areia. Você já deve ter reparado em quantas canções de hoje recebem críticas de alguns poucos que se dispõem a fazer a análise. E os hinos antigos, quantos deles você consegue criticar?

Repare na centralização no homem. Como as músicas de hoje falam “eu”. Tudo “eu”. Eu é que louvo, eu adoro, eu prospero, eu obtenho a vitória, eu faço, eu falo, eu me prostro. Alguns desses “eus” estão totalmente errados, outros estão certos, mas, mesmo para os que estão certos, não devem eles predominar sobre os versos que têm como sujeito Deus. Deus é mostrado simplesmente como um abençoador dos meus interesses nessas músicas. Pegue cada música e pergunte “essa música está louvando Deus ou louvando a mim mesmo?”. Não é suficiente que a música diga coisas boas sobre Deus. Se Deus é louvado por servir ao meu bem-estar, não é realmente um louvor a Deus.

A centralidade no homem ultrapassa a letra das músicas. Ela também se mostra presente quando o louvor vira um show. Você sabe que existem louvores que nada mais são do que bandas fazendo shows com uma letrinha gospel. Isso é especialmente perigoso para qualquer banda. Algumas bandas realmente conseguem deixar transparecer humildade e desviar a atenção de si para Deus, mas isso é bem difícil. O caráter animado e festivo das músicas é outro fator que contribui para o foco no talento dos músicos. (Mais uma vez, não estou falando de um princípio necessário que vai atingir qualquer banda de louvor, mas sim da generalidade dos casos concretos.) Ora, uma série de músicas que falam sobre o eu com uma banda que ostenta seus talentos não está realmente adorando Deus.

E ainda existe mais um aspecto da centralidade no homem: a ideia de que o louvor é o momento da “ministração”, isto é, do seu êxtase espiritual. Na maioria das vezes, a finalidade é levar as pessoas a elevar seus sentidos para fazer um contato superior com Deus, com expressões emotivas, por meio de uma música repetitiva que serve para “criar um clima”. Já reparou que as músicas frequentemente servem de instrumento acalentador das emoções para facilitar o êxtase? E fica a questão: biblicamente, é para isso que serve o louvor? As músicas devem ser feitas para deixar você mais emotivo e mais fragilizado? Repare no fundamento dessa ideia: as emoções são a causa para uma contemplação do divino e para o arrependimento. Esse fundamento está totalmente errado. É a verdade do evangelho que me leva ao arrependimento e à adoração passional, não emoções forçosamente induzidas. Se o evangelho estiver presente e profundo na música, ela será muito mais eficaz para a edificação e prescindirá totalmente desses climas forçados. A consequência desse estilo de música ministrador é, mais uma vez, a centralidade no homem: o louvor existe para aquecer o meu coração, para que Deus resolva meus problemas internos, para me dar uma sensação gostosa.

Outra consequência desse louvor estilo rock é a banalização da grandeza de Deus. Músicas exageradamente festivas pressupõem que a adoração a Deus deve ser corporalmente expressiva da emoção “alegria” – outras emoções não são importantes. Quando um ministro diz que eu sou livre para cantar, sair do meu lugar, pular e gritar, minha pergunta é: tudo bem, mas sou livre também para não fazer essas coisas? Deus é drasticamente reduzido se eu penso nele apenas como uma pessoa legal que me dá alegria. E, mais uma vez, é uma alegria forçada pelo barulho da música, pela interminável repetição de versos e pela própria alegria do ministro. Mas, quando eu me deparo com uma música que chama a atenção para Deus, e não para o clima, que me apresenta o evangelho em música, e não letras rasas, eu sinto emoções genuínas de alegria pela salvação, tristeza pelo meu pecado, espanto pela soberania de Deus, paz pela sua segurança, contrição pela minha condição humilde. A impressão de que hinos são uma adoração mecânica é errada, embora não faltem exemplos de pessoas que assim os usam. Muito mais mecânica é a emoção expressiva induzida (e, às vezes, coagida) por elementos externos da situação – barulho, repetição, apelos do ministro.

A preocupação de quem apoia o louvor por bandas é a relevância cultural delas. Ou seja, descrentes prestam muito mais atenção em bandas do que em hinos antigos. Essa é uma preocupação legítima. Mas, até que ponto um louvor deve se adaptar culturalmente? Os músicos devem ostentar seus dons, como os músicos seculares fazem em seus shows? Ela deve induzir animação corporal, com saltos e gritos? Ela deve prezar mais pelo barulho dos instrumentos do que por uma letra verdadeira e profunda? Aqui, vou apresentar a opinião que aprendi com a tese de mestrado do Zazo. É bom que os louvores se adaptem culturalmente, mas não tanto. Se você adaptar demais, você só vai dar ao povo o que eles querem. Se adaptar de menos, poucos o ouvirão. E que ensino bíblico existe sobre essa moderação na adaptação cultural? Os salmos de louvor. É óbvio que os salmos são perfeitamente ortodoxos, infinitamente profundos, completamente centrados na exaltação de Deus. Mas eles não são estranhos à cultura pagã. Frequentemente os salmos falam sobre como Deus criou e governa sobre os astros – e isso chama a atenção de pagãos que adoram os corpos celestiais. O salmo 104 menciona o Leviatã, uma figura mitológica dos cananeus, e diz que foi Deus quem criou o Leviatã para que ele brinque no mar – ou seja, o ensino da superioridade de Deus sobre quaisquer elementos da natureza. Os salmos mencionam cidades conhecidas, países estrangeiros. Eles aludem o tempo todo para a inutilidade de ídolos. Veja que maravilhosa comunicação cultural! Os salmos não são fechados à realidade do judaísmo, e nem são prejudicados em seu conteúdo e formalidade para chamar a atenção dos descrentes.

Os músicos de Igreja precisam aprender a fazer como os salmistas: combinar com excelência o seu ensino teológico verdadeiro e profundo, bem como a finalidade de colocar a atenção em Deus, com a relevância cultural para chamar a atenção de descrentes. Os elementos do mundanismo devem aparecer nas músicas para serem rechaçados pelo evangelho, não para suprimirem o evangelho e serem reforçados.

André Duarte

terça-feira, 9 de abril de 2013

Batalha espiritual – acontece mesmo?


           
         O cristianismo renovado das últimas décadas é marcado por uma ênfase na chamada batalha espiritual. Há livros e mais livros ensinando como fazê-la, pregações a respeito disso e inteiras teologias com esse centro. Entendo bem essa crença, porque eu fiz parte dela durante o começo da minha adolescência. Era viciado na literatura de Daniel Mastral e Rebecca Brown. E, de fato, o fundamento da teologia da batalha espiritual, da maneira épica que é ensinada hoje, é esses livros de testemunhos pessoais.
           
Uma mania que o próprio Daniel Mastral registra em seu testemunho é justamente que os crentes adoram livros de ex-satanistas. Ele mesmo percebeu que esses relatos sobre demônios e magia negra incitam a curiosidade dos cristãos que acabam se fascinando por um sobrenatural cheio de guerra medieval e mágica. São cristãos usando métodos espirituais, ajudados por anjos com espadas, em guerra contra satanistas e suas magias com demônios horrendos, e a vitória dependerá da quantidade das orações, clamores e santificação. A soberania de Deus sobre essa batalha fica deixada de lado. Deus não decide muita coisa, ele espera que nós façamos tudo. É isso que a ficção do Este Mundo Tenebroso mostra: pessoas, anjos, quantidade e frequência de orações, e nada de Deus.
           
O problema é que testemunhos de ex-satanistas não são canônicos. Não interessa o que eles dizem que experimentaram. Imagine se os ensinos que um ex-satanista aprendeu podem servir de complemento à Bíblia! E esses livros não demonstram uma mudança de pensamento quando da conversão desses autores. Quando você lê, por exemplo, Filho do Fogo, um monte de heresias estão lá, mas você pode pensar “Ah, mas ele era satanista e aprendeu tudo errado mesmo, normal”. Mas, quando você continua a saga em Guerreiros da Luz, as mesmas bobagens mágicas são ensinadas, com a única diferença de que é Deus quem ganha no final. Rebecca Brown também conta de sua conversão no Ele Veio Para Libertar os Cativos, mas seus livros de crente repetem a percepção errada sobre Deus que ela aprendeu com satanistas. Complementos à Bíblia a partir do que os supostos ex-satanistas viveram não podem ser aceitos. Se nem a sua experiência pessoal pode servir de cânon equiparável à Bíblia, muito menos a experiência de algum outro.

            Batalha espiritual não pode ser o centro da vida cristã. Não é nem mesmo um tema relevante para que a Bíblia explique. Precisamos, então, dar uma olhada em certos textos que são frequentemente adaptados ao pressuposto da batalha espiritual, mas que não têm nada a ver. Para começar, o famoso Efésios 6. Ah, o texto mais lido de Efésios, a armadura do cristão. O que esse texto ensina? Lembre-se de que a Bíblia é centrada e fundamentada na salvação em Cristo. O texto não ensina sobre o revestimento da armadura para a proteção contra ataques do diabo às circunstâncias da vida. Isto é, em primeiro lugar, pare de pensar em diabo quando você está com algum problema. Se é que você é um salvo, se é que você está em Cristo, os seus problemas não são causados por demônios. No máximo, demônios podem ser usados por Deus para cumprir o propósito dele na sua vida. Mas quem manda na sua vida é Deus, não o diabo. Se você ficou doente, se você perdeu o emprego, se você foi assaltado, se você tem problemas no casamento, a causa dessas coisas é Deus, não demônios. As circunstâncias desagradáveis são determinadas por Deus, seja para construir uma maturidade espiritual melhor em você, seja para fins disciplinares por conta de algum pecado ou erro.

            Se o diabo não ataca as circunstâncias da sua vida, então ele ataca o quê? Ele ataca a sua relação com Deus. Seus intentos são para levar você a pecar e ofender o Senhor e, assim, ele pode acusar você diante de Deus. É para isso que você precisa da armadura. O problema é o seu pecado, não suas dificuldades na vida. Não desvie o foco daquilo que Deus considera importante. Bem, nesse caso, como fazer esse revestimento da armadura? Ocorre que a armadura é uma metáfora, não um elemento mágico. Existem muitas pessoas que realmente imaginam uma armadura invisível e um ataque de espadas e arcos. Mas a metáfora da armadura nada mais comunica a não ser valores cristãos fundamentais. Veja a consistência dela: justiça, verdade, testemunho, salvação, fé e palavra de Deus. É comum ver pessoas orando para serem revestidas dessas coisas. A pergunta consequente é: por que você estava sem elas antes? Todos os salvos usam essa armadura. Se você não tem a justiça dada por Cristo, se nega a verdade encarnada, se não testemunha do evangelho, se não tem a salvação, se falta a fé em Jesus, se não tem Bíblia... bem, fica bem óbvio que essa pessoa nem crente é. A armadura é uma metáfora da consistência da vida cristã, simplesmente. E essa armadura protege você de ser tragado pelo maligno para se afastar de Deus. Um ensino básico dado em todo o Novo Testamento, apenas dito com essa linguagem bela em Efésios 6. Agora, você pode aplicar esse mesmo fundamento em textos como “O diabo anda ao redor de nós, rugindo como um leão”. A reação a isso não é medo, paranoia e declaração de guerra. É simplesmente manter-se fiel à aliança, confiante na salvação em Jesus.

            Outro texto comumente compreendido erroneamente é o de Daniel 10, em que há uma luta entre o anjo que fala a Daniel, o anjo Miguel e o tal príncipe da Pérsia. (Ensinaram-me, quando criança, que eu não podia jogar Príncipe da Pérsia, porque é o demônio da Bíblia...) Aparentemente, existem anjos em conflito aqui. Embora haja interpretações judaicas diferentes – por exemplo, que Miguel e o príncipe da Pérsia não são anjos, e sim nomes das autoridades nas nações -, a interpretação do conflito de anjos é mais coerente e natural. Bem, para se entender essa luta, é necessário saber o que o resto da Bíblia ensina sobre a relação de anjos com Deus. A Bíblia frequentemente descreve os seres celestiais deliberando no céu tendo Deus como autoridade. Em 1Reis 22, por exemplo, Deus reúne os anjos e pede sugestões de como enganar o rei Acabe para que ele morra na guerra, e cada anjo se manifesta com uma ideia. Zacarias dá o exemplo de Satanás acusando o sumossacerdote Josué, e um anjo repreendendo-o em nome de Deus. O céu é revelado como um tribunal. Na noção moderna de batalha espiritual, a figura do tribunal é substituída pela figura do exército. As falas viraram armas.

E é assim que costumamos imaginar esse texto de Daniel 10: um anjo indo até Daniel e sendo detido no caminho por um demônio autônomo, iniciando algum duelo de espadas, até que Miguel chega e toma parte na briga. Essa imagem está em desarmonia com as descrições de tribunal. Em nenhum momento o texto diz que essa luta foi de natureza bélica. É bem mais coerente pensarmos em uma apresentação de causas diante de Deus por parte dos anjos. Mesmo porque não se pode conceber um conflito entre anjos no qual a decisão soberana de Deus está ausente. Anjos não são autônomos, e isso incluí obviamente demônios. Lembremo-nos do que diz a oração do Pai nosso: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Essa petição pressupõe que, no céu, a vontade de Deus é cumprida perfeitamente (conforme a Confissão de Westminster, por exemplo). Ou seja, não há bipolaridade nos poderes celestiais. Não existem anjos brigando contra demônios. O que existem são deliberações nas quais Deus decide o que é feito. E se você pensar “ah, mas demônios não estão inclusos no céu”, lembre-se de que, tanto no prólogo de Jó como no texto de 1Reis 22, os demônios estão no céu com os outros anjos diante de Deus. Se você ainda imagina Satanás e os demônios reinando no inferno, afastados daquela brancura do céu, sugiro que clique no tag “anjos” e leia os posts sobre Satanás.

Para terminar, uma perguntinha: você já reparou que houve pessoas na Bíblia que ficaram empolgadas com batalha espiritual, e que elas foram repreendidas por Jesus? Refiro-me ao retorno dos discípulos de Jesus da segunda vez em que foram enviados para pregar por aí (Lucas 10:17-20). É daí que vem o versículo famoso do “eis que vos dou poder para pisardes cobras e escorpiões e todo o poder do inimigo”. Recortar esse versículo dá exatamente o sentido contrário da pretensão do ensino de Jesus. Pois ele responde isso quando os discípulos voltam empolgados, dizendo “Senhor, até os demônios se submeteram à nossa ordem!”, e Jesus, após dizer aquele versículo, complementa com o “porém, não vos alegrais porque os demônios se submetem a vós, e sim porque os vossos nomes estão no livro da vida”. Essa parte, parece que ninguém lembra. Veja o que Jesus diz: alegrem-se em sua salvação! O poder contra demônios é o de menos. O centro da nossa vida deve ser a nossa salvação pela graça de Deus. Pense no evangelho, deixe como nota de rodapé esse fanatismo por exorcismo.

Sendo assim, como devemos entender as dificuldades da vida? Em primeiro lugar, não existe problema nenhum em sofrer e passar problemas. Geralmente, quem fica pensando em batalha espiritual faz um drama desnecessário e até idólatra com os probleminhas do cotidiano. A pessoa é uma satanista e está me perseguindo – apenas porque um colega teve alguma antipatia. É o pneu do carro que furou porque os demônios estão me pegando. Alguém ficou doente – é obra do maligno, é a macumba do vizinho. Esse tipo de pensamento, embora pretenda enxergar o sobrenatural, na verdade, tem o foco fixo neste mundo passageiro e sombrio. Se você se alegra na esperança do reino de Deus, não dará esse valor exagerado às pequenas dores da vida.

Essa cosmovisão errada afeta a maneira como oramos também. Nossas orações são voltadas para a repreensão ao poder do mal. Eu reparei que, quando as pessoas fazem uma roda de oração, a maioria das cláusulas recebe um “amém”, mas, quando a pessoa clama por alguma variante do “toda seta do maligno caia por terra”, o resultado é o maior amém de todos. Se você não percebeu isso, é só prestar atenção, chega a ser cômico. O foco e as emoções realmente estão em Satanás. Ele parece bem mais palpável e próximo do que Deus, e isso é um erro grave. Não há nenhuma oração na Bíblia que se dirija a Satanás; não somos autorizados a nos dirigir a ele em oração. Também não há necessidade nenhuma de mencionar sua possível atuação nas circunstâncias pelas quais oramos, pois Deus sabe exatamente se ele está lá ou não, e sabe precisamente como fazer. Deus não precisa que cubramos todas as hipóteses para as causas sobrenaturais em nossas orações, porque ele já sabe – e não apenas sabe, mas também não revelou a nós. Ore a Deus, ele sabe o que fazer.

André Duarte

domingo, 7 de abril de 2013

Gênesis e a introdução à Bíblia 4 – A queda e a promessa



Para terminar essa série, vamos analisar o relato da queda, o que isso significou para a criação e para a posteridade, e como essa queda seria solucionada. Eu saltei o importante trecho em que Deus ordena a Adão para que ele trabalhe no jardim. Esse é um tema importante, mas, sinceramente, eu não me julgo competente para comentar sobre ele. Na minha carnalidade, ainda tenho uma visão negativa sobre o trabalho. Por isso, vou direto à queda, isto é, ao momento catastrófico em que a aliança de Deus com a humanidade foi rompida, mas não a sua graça.

Dentre todas as árvores do jardim, duas se destacavam: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida, conforme é demonstrado posteriormente, dava ao homem vida enquanto do seu fruto ele comesse. Já a outra árvore dava fruto que, se provado, causaria a morte. Ainda em preparação para o relato da queda, o texto diz que o homem e a mulher não sentiam vergonha de sua nudez. Não havia por que esconder nada, não havia motivo para bloquear a transparência. Sem pecado, a humanidade não sentiria necessidade de criar nada que representasse uma persona, pois nada haveria de vergonhoso para ser ocultado.

Surge então a misteriosa serpente. Como compreendê-la?­ É óbvio que Satanás está atuando por ela, pois ele é sempre o tentador da humanidade no resto da Bíblia. Seria a serpente o animal comum que conhecemos? Neste ponto, eu tomarei um rumo mais heterodoxo. Não penso que era uma serpente literal e física, não entendo por que todas as serpentes do mundo seriam castigadas devido ao erro de uma serpente ancestral. Não se pode aplicar uma analogia do castigo à descendência da humanidade, pois, na realidade, todo homem depois de Adão é praticante do pecado e merecedor do castigo; o mesmo não ocorre às serpentes. Devido à poesia do texto hebraico, acredito que a serpente seja um ente imaginário, uma extensão personalizada das pulsões humanas. Afinal, o humano foi criado sem pecado, mas já com tendência à transgressão, com um impulso para a rebelião. Do contrário, não teriam se deixado seduzir. O termo para “serpente” no hebraico é escrito de forma muito semelhante à palavra “desejo”, como se houvesse um jogo de palavras. O diálogo de Eva é feito com ela mesma, e é uma descrição fascinante de como o humano resolve e satisfaz internamente o seu senso de justiça e o seu mau desejo simultaneamente – como o conflito entre um id e um superego é solucionado. Não é dessa forma que nós também nos convencemos a desobedecer a Deus? Não é assim que também caímos nas doces e venenosas sugestões do diabo para seguir os seus planos?*

Talvez a noção pressuposta de que o homem e a mulher eram ingênuos antes da queda atrapalhe o entendimento acima descrito. Costumamos pensar neles como seres de mente infantil e boba, porque eles não tinham o conhecimento do bem e do mal. Mas o termo “conhecimento” precisa ser devidamente compreendido. Não é que os humanos eram mentalmente amorais. Afinal, se eles sabiam que não deveriam comer da árvore para não morrerem, no mínimo, eles sabiam que desobedecer a Deus nesse sentido era um mal. Eles tinham o conhecimento teórico de bem e mal; o que não tinham era a experiência. Eles não haviam ainda experimentado o mal e suas consequências. No entanto, a mente humana, desde o princípio, preferiu voluntariamente o caminho de Satanás ao caminho de Deus.

E como Eva enganou-se? Em primeiro lugar, a serpente sugestiona um exagero absurdo na ordem de Deus: ele proibiu todos os frutos do jardim. Essa frase representa o ódio generalizado contra a lei divina e seu caráter percebido como grandemente cerceador, intromissivo e desproporcional. Eva, em sua razoabilidade, responde ao seu “id” que, na verdade, Deus só proibiu o fruto da árvore do conhecimento, mas acrescentando uma sutileza: que Deus proibiu tocar no fruto. Deus nunca disse que era proibido tocar, mas apenas que era proibido comer. Eva, mesmo contrariando a sugestão da serpente, já se mostra por ela enganada em um aspecto quase imperceptível sobre a ordem moral. Isto é, ao mesmo tempo em que Eva rejeita a sugestão da serpente, acaba revelando-se já influenciada, distorcendo apenas no detalhe o comando divino. O senso moral combate o impulso, mas não sai incólume desse conflito.

A contrapartida da serpente é contestar o espírito da ordem moral ressignificando-a. Isto é, a serpente não disse uma mentira completa, como da primeira vez. Ela adaptou a ordem de Deus aos interesses da Eva. E, ainda, instigou-a a duvidar do caráter de Deus, insinuando que Deus estava com temor de que Eva se tornasse como ele. Veja que, na literalidade, tudo o que a serpente disse é verdade. Eva realmente não morreu fisicamente quando provou do fruto e realmente se tornou conhecedora como Deus, como Deus mesmo diz no versículo 22. Mas a maldade por trás da desobediência mostrou-se presente. O senso moral de Eva ficou satisfeito com o argumento do mau impulso. O desejo de sentir-se divino dominou a vontade do ser humano, e a sua incredulidade quanto aos preceitos de Deus teve o seu início. É notável que o domínio do pecado sobre o homem consiste na sua ausência de fé em Deus, na sua rejeição do que ele diz e no prazer em se tornar um deus. Essa é a idolatria a si mesmo que todo homem tem. Fraquejado pelo impulso maligno, o senso de justiça cede, sofre uma reprogramação e relativiza a moral divina para benefício próprio.

É importante notar também que a tentação ao pecado é extremamente prazerosa. Quando imaginamos o diabo, pensamos em alguém horrendo, mas não é assim que ele se apresenta. Em nossa segurança, imaginamos a prática do pecado com grande desgosto e amargura, mas, quando o momento realmente vem, o prazer carnal é vívido. Eva percebeu que o fruto era belo, que parecia delicioso. E ainda foi seduzida pelo fim dele, que é dar conhecimento sobre bem e mal. A tentação carnal é real e não deve ser subestimada. Eva comeu do fruto, ignorando a orientação de Deus e tudo de bom sobre a sua sabedoria que ele já havia confirmado, e levou ao marido pra ele também comer. Instigado pela mulher, o que o homem não faz? Facilmente Adão foi seduzido e transgrediu. Nesse momento, tanto Adão como Eva representam toda a humanidade posterior. A figura de Adão é mais enfatizada no Novo Testamento. Romanos 5 diz que Adão foi o início do reino da morte, pois em Adão todos pecaram e morreram. Mas Cristo, o perfeito o homem, a plena imagem de Deus e o supremo marido cumpriu todo o propósito no qual Adão falhara. Jesus, pelo seu ato sacrificial, imputou a todos justiça e vida, tal qual Adão havia imputado morte pelo seu ato pecaminoso.

O que se segue é uma total catástrofe. Para começar, o casal percebe sua nudez e se envergonha. O senso de imoralidade domina a alma e cria a necessidade da persona. O homem nunca mais revelaria quem ele é, pois o pecado traz o medo da transparência e a segurança na mentira. Em seguida, o casal se esconde de Deus. Tamanha ingratidão a do homem primitivo e a nossa! Desde esse dia, também buscamos inutilmente nos esquivar de Deus, fechando os ouvidos para a sua palavra e criando nossa ilusionaria zona de estabilidade centrada em nós mesmos. Deus, porém, questiona o homem sobre o que ele fez. O marido, corrompido e ímpio, agora manchado pelo pecado, coloca a culpa na mulher e também em Deus – “a mulher que tu me deste”. Aquele que foi designado para proteger e zelar pela mulher tentou jogar para ela a responsabilidade. Preferiu que ela sofresse, quando deveria dizer “Senhor, castigue-me em lugar dela” – que foi justamente a atitude de Jesus em sofrer a ira no lugar de sua noiva. E Adão ainda se ira com Deus, como se o culpado fosse Deus de colocar a mulher para induzi-lo ao erro. Como diz o Provérbios 19:3, “É a insensatez do homem que arruína sua vida, mas o seu coração se ira contra o Senhor”. Que maldade, que terror, especialmente porque nós repetimos a mesma história. Eva simplesmente repete o mesmo raciocínio e culpa a serpente, como se fosse algo externo a ela que fosse responsável pelo pecado, e não ela mesma. Ainda hoje, as mulheres sofrem esse conflito entre a sua vontade moral e a vontade de seus instintos. Os homens também, claro, mas é mais explícito no caso das mulheres.

Deus dá o castigo a cada parte como cabe. Por causa do homem, Deus amaldiçoou toda a criação. O pecado teve consequências globais. Por isso, Romanos 8 diz que a criação aguarda ansiosamente pelo dia da redenção. Também, diz Colossenses, Deus reconcilia em Cristo todas as coisas, inclusive as que estão no céu. Pois todo o universo foi afetado pela queda do homem. E o homem sofre porque a criação não mais coopera com o seu domínio. O castigo da mulher é também facilmente visível: a sua sujeição ao marido tornou-se uma escravidão, uma opressão, como a história tem atestado sempre. A mulher deixou de ser vista como amiga para tornar-se posse. Em Cristo, porém, “não há judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou livre”. Jesus, sendo o perfeito marido, resgatou a mulher para a sua condição de amiga auxiliadora. Nele, as mulheres se libertam da maldição da queda.

A maldição comum ao homem e à mulher é a separação da árvore da vida. Deus, vendo que o homem tornou-se conhecedor do bem e do mal como ele, não mais permitiu que ele vivesse para sempre. A punição de Deus foi, realmente, a morte, conforme ele havia alertado. O homem pecador e experimentador do mal não mais viverá para sempre. Agora, você já reparou o que nós vemos no Apocalipse? Olhe o 22:2, a árvore da vida sendo devolvida aos salvos. Pela salvação do Cordeiro, que sofreu a maldição do Gênesis por nós, que voluntariamente afastou-se da árvore da vida para oferecer-se em sacrifício, temos novamente acesso à vida eterna.

Mas a maldição mais significativa está no castigo da serpente. Deus condenou a serpente a rastejar, de forma que morda o calcanhar do descendente da mulher e seja por ele esmagada na cabeça. Essa figura é real para a literalidade de um humano lutando com uma cobra, mas lembre-se do que essas coisas significam aqui. A serpente, simbolizando o pecado e, por detrás, a atuação do diabo, morderia o descendente da mulher. Isso ocorreu quando o Senhor Jesus, descendente de Eva segundo a carne, foi assassinado por uma multidão de filhos do diabo. Entretanto, nesse mesmo momento, Jesus esmagou Satanás e o pecado. Hebreus 2:14 diz que Jesus derrotou o diabo, que tinha o poder da morte, e Colossenses 2:15 diz que Jesus trinfou sobre os poderes e autoridades na cruz, isto é, o legalismo que dava pulsão ao pecado. Desde Gênesis 3:15, sabemos que viria aquele para triunfar sobre a serpente após ser por ela ferido, para que o paraíso seja restaurado, para que o acesso à árvore da vida seja novamente dado a nós pela graça de Deus.

Para encerrar, uma última consideração. Existe sempre a pergunta do porquê Deus colocou a maldita árvore se ele sabia que o homem pecaria. A resposta mais comum é que Deus queria que o homem lhe servisse por sinceridade e vontade própria, tendo a possibilidade de escolher não fazê-lo, pois Deus não queria adoradores mecânicos. Minha opinião vai para outro rumo. Em primeiro lugar, porque a Escritura deixa claro que o homem é tendente ao mal desde sempre, e não havia possibilidade alguma da queda não ter acontecido. Segundo, porque, filosoficamente, não é necessário fazer separação entre a sinceridade e a obrigatoriedade. Se o homem fosse obrigado a adorar a Deus, seria uma adoração perfeitamente autêntica, e não há por que duvidar disso. Afinal, a adoração que prestaremos na eternidade será totalmente obrigatória, não haverá mais como cair de novo, e nem por isso ela deixará de ser genuína. Meu pensamento é que Deus colocou ao homem a fatalidade da queda para construir a relação de graça posteriormente. Através da queda, Deus revelou a si mesmo e atraiu glória para si mesmo. Em certo sentido, nós conhecemos Deus melhor do que Adão jamais conheceu. O Adão antes da queda não tinha pecado. Como ele poderia conhecer a misericórdia e a graça de Deus? Como ele poderia conhecer a sua soberania sobre o mal? Não estamos acostumados a pensar assim. Mas a realidade é que Deus, através do seu resgate por nós, do seu triunfo sobre o nosso pecado, revela-se a nós e recebe glória de forma que não seria possível se o mundo fosse sempre um paraíso. Deus é soberano sobre a história e se faz conhecido por todo o mundo em todo o tempo. A ele é devida toda a gratidão e a adoração.

André Duarte

*Após a publicação deste post, fui convencido por um caro irmão de que minha opinião que eu reconheci como heterodoxa estava errada. Preferi seguir uma interpretação mais judaica da "metáfora" da serpente e não percebi que ela não era coerente com princípios cristãos relativos à queda da natureza humana e de sua regeneração pelo evangelho. Hoje, vejo que a serpente era, realmente, um ente externo movido por Satanás, e não uma projeção da natureza humana corrompida de Eva; se ela já houvesse sido criada com natureza caída, a regeneração espiritual pelo evangelho ao estado livre da humanidade criada não faria sentido. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Gênesis e a introdução à Bíblia 3 – Uma só carne, um só espírito




O capítulo 2 de Gênesis descreve em pormenores a criação do ser humano distinguível entre macho e fêmea da qual o capítulo 1 menciona brevemente. No post passado, vimos o que significa o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Falou abordar um ponto, que é justamente o relato principal do capítulo 2: a competência pactual do casamento. Vamos ver, em primeiro lugar, como Deus criou o casal e como o próprio homem avaliou a sua mulééh  mulher. Em seguida, vamos ver como essa aliança deve ser repetida para toda a humanidade posterior e, para terminar, o que isso tem a ver com o ser imagem e semelhança de Deus como Cristo.

Em primeiro lugar, Deus criou somente o homem, Adão. Ele deu ordens para Adão zelar pelas criaturas e dar nomes a elas. Mas, uma lacuna na criação ainda existia. Havia alguém a quem Adão deveria dar nome, mas que Deus ainda não tinha feito. Lembre-se de que, em Gênesis 1, Deus avalia tudo o que cria como bom. Agora, pela primeira vez, Deus vê que algo não estava bom. “Não é bom que o homem fique só”. Desde o início, Deus percebe que havia a necessidade de que o homem tivesse alguém para fazer-lhe companhia. Afinal, assim como Deus tem perfeita comunhão consigo mesmo – o Pai, o Filho e o Espírito – o homem também deveria ter íntima comunhão com outro ser humano. Pode-se perguntar por que Deus fez uma mulher para ser essa companheira. Deus poderia ter criado simplesmente outro homem para lhe ser um amigo? Bem, e o que ocorreria depois disso? Haveria um limite numérico, pois não seria possível encher a terra e dar origem a inúmeros humanos companheiros, como Deus deseja. Deus cria uma mulher para o homem para que a humanidade se multiplique e haja cada vez mais pessoas companheiras umas das outras. E a mulher também cumpre o propósito da máxima amizade e companheirismo. Deus descreve a futura mulher criada como “ajudadora” ou “auxiliadora”. O termo hebraico passa a ideia de intensa amizade. A esposa do homem seria sua melhor amiga (haha, onde está a sua friendzone agora?). Além disso, e ainda mais importante, é que a intimidade entre um homem e uma mulher, como casal, é a mais intensa e simbiótica possível. Essa máxima conjugação é, como veremos no final, necessária para refletir a união de Deus com o seu povo.

Pode ser exagero meu, mas, pela beleza do relato, tenho a impressão de que Deus teve o carinho de fazer ao homem uma surpresa. Como se Deus dissesse “Adão, feche os olhos e só abra quando eu mandar”. Por isso, Deus fez com que Adão dormisse e, com a mais avançada técnica anestésica e cirúrgica, retira uma de suas costelas e dela faz a mulher. Como o escolástico Pedro Lombardo bem observou, a mulher não foi tirada da cabeça do homem para sobre ele governar, nem dos seus pés para ser pisoteada, mas do seu lado para ser amiga e companheira. Quando Adão acordou – surpresa! Já pensou nisso, homem, se Deus mandasse a sua mulher ideal de presente, embrulhada na caixa e tudo? Como o coração de Adão deve ter disparado! Se nós homens, hoje, quando vemos uma mulher distinta, já direcionamos a atenção a ela, imagine para o homem que nunca havia visto uma mulher, que nem teve mãe para saber como elas são. Sua perplexidade é notável pela sua declaração de amor: “Essa sim é minha carne e meu osso!”. No hebraico, o termo pra “essa” é bem enfático, como se Adão quisesse dizer “Chegou, chegou, finalmente, era isso que eu queria, era isso que me faltava!”. Medite nessa passagem, não pense só em dois caucasianos pelados na mata, veja que cena hollywoodiana de romance, equiparável apenas ao Cantares de Salomão.

Vamos ao segundo ponto: a continuidade dessa relação para a posteridade. O versículo 24 é um parêntese de Moisés. Veja que ele descreve toda a maneira como o homem e a mulher foram criados, a característica da união deles e então diz “Por essa razão...”. O seu mandamento é que o homem (e, claro, a mulher) deve deixar os pais e unir-se ao seu cônjuge, tornando-se com ele uma só carne. Essa ordem é surpreendente para a época. A responsabilidade dos filhos para com os pais era muito mais valorizada do que a relação conjugal. Na verdade, o casamento era somente para gerar herdeiros que honrassem os pais, e isso era o mais importante. Moisés revela aqui que o casamento deve ser a prioridade, e os pais ficam em segundo lugar. Uma vez casado, o homem deve considerar essa relação como ainda mais importante do que a relação com os seus pais. É uma mudança de vida. Deixar os pais não é só sair de casa, mas é sair da autoridade deles. A nova família tem primazia sobre a velha.

E esse casamento não é apenas um contrato social, mas um relacionamento íntimo que visa à mais profunda e maravilhosa simbiose entre humanos. Recentemente, algumas pessoas têm entendido que esse “unir-se e tornar-se uma carne” faz referência à relação sexual. Argumentam que o casamento cultural ainda não existia na época de Adão e Eva. Bem, isso é verdade. Porém, existem evidências de que essa união é referência não a um casamento cultural, uma cerimônia, mas sim ao pacto. O pacto não é cultural, ele foi criado e ordenado por Deus. Esse versículo realmente não tem aplicação perfeita sobre Adão e Eva, afinal, eles nem tinham pais para deixar. Antes, é uma ordem de Moisés para o povo fundamentada na criação original de Deus. É como ele estivesse dizendo “Viram como Deus criou o primeiro casal? Então, é por isso que vocês devem fazer assim”. Além disso, as duas citações no Novo Testamento dessa ordem – Jesus, respondendo à questão sobre o divórcio, e Paulo em Efésios 5 – aplicam-na para a aliança do casamento. Se Jesus e Paulo interpretaram esse verso como referência à aliança, e não a uma relação sexual, não há por que interpretarmos diferentemente.

Por fim, essa aliança de casamento é um reflexo da nossa aliança com Deus. Corretamente, os judeus, no Concílio de Jâmnia, no ano 90.C., reconheceram que o livro de Cantares ilustrava o amor de Deus pelo seu povo. Orígenes (185-254 d.C.), aplicou essa ilustração para o amor de Cristo pela Igreja. A natureza dessa ilustração está correta, e nós sabemos disso justamente com base na aplicação que o Novo Testamento faz dessa aliança iniciada em Adão e Eva. Paulo diz que o casamento humano deve imitar o casamento de Jesus com os salvos, e ele se baseia em Gênesis 2:24, acrescentando “esse é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à Igreja”. Certamente, o mistério é muito profundo. O casamento humano não tem outra lei senão ser um espelho do pacto divino com o seu povo. Por isso, os profetas falam o tempo todo (principalmente Jeremias, Ezequiel e Oseias) que a idolatria do povo contra Deus é um adultério, um pecado de mesma natureza que a traição de um cônjuge contra o outro. Jesus e a Igreja, segundo Paulo em 1Coríntios, são um só espírito, assim como o homem e a mulher casados são uma só carne. E em que se baseia a aliança divina? Paulo explica que Jesus amou tanto a Igreja que se doou em sacrifício por ela. Esse é o exemplo para o homem. Através do poder da verdade de Cristo, o homem pode ser o marido que a Deus já visara em Gênesis. E a Igreja responde em gratidão e amor com sua submissão, que é a atribuição da mulher. Assim como Eva, a mulher deve ser essa ajudadora que completa o homem para levá-lo à semelhança do marido ideal, Jesus. Tudo está interligado.

E como conseguimos o poder para cumprir isso? Novamente, temos a capacitação em Jesus. Na queda, vemos que Adão e Eva sofreram a contaminação do pecado e descumpriram totalmente o desígnio de Deus como casal. Eva, em vez de ser a amiga de que Adão precisava, enganou-o e levou-o à desobediência também. Adão, em vez de ser o protetor da esposa, jogou para ela a culpa de seu pecado. Desde então, todos os casais têm sofrido a maldição da iniquidade. Até que entrou o homem Jesus na história. Uma das funções de Jesus foi realizar tudo aquilo em que o primeiro homem, Adão, fracassou. Veja, Jesus, realmente foi o homem que cumpriu o mandamento de “deixará pai e mãe”. Muito mais do que a saída de um humano da casa dos pais, Jesus Cristo deixou o seu lar paradisíaco, sua união divina e metafísica com o Pai no céu, para vir em busca de sua amada. Ele abandonou a glória do seu lar para descer até esse grande prostíbulo. E em que estado estava a sua noiva quando ele veio? Veja Ezequiel 16. Estávamos como prostituta, desprezando a graça de Deus na história, cometendo infidelidade constantemente com os ídolos de nosso coração. Mas o Senhor, o perfeito noivo, o grande herói romântico e épico, doou tudo de si para a nossa restauração. O seu sacrifício é que purifica a sua noiva e conquista o seu amor. Quando experimentamos esse sacrifício, quando cremos nesse amor imenso, recebemos o poder para fazer o mesmo em nossas vidas conjugais. Cristo restaurou os dois casamentos que a queda havia desfeito – o casamento entre Deus e humanidade e entre homem e mulher. E é precisamente nessa ordem. Para ser o cônjuge segundo Deus para o seu par, você deve primeiro ser essa esposa resgatada e conquistada pelo amor de Jesus. O seu casamento terreno refletirá o seu casamento celestial. Através de Cristo, nosso perfeito noivo, podemos ser o casal da criação imaculada do princípio.

André Duarte

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Salvação se perde? Ixi...




            Temos discutido (e brincado) ultimamente sobre os 5 pontos do calvinismo. Eles são, quando corretamente compreendidos, coesos entre si e interdependentes. Mas, para a maioria das pessoas, as doutrinas vêm à mente de maneira esparsa, como moléculas soltas movendo-se na abstração. Por isso, eu compreendo tranquilamente quem crê no livrearbítrio, quem não engole a Expiação Limitada ou a Irresistível Graça. Mas a descrença na Perseverança dos Santos é inaceitável e inegociável, e eu explicarei o porquê. Basicamente, a crença em que a salvação pode ser perdida leva inevitavelmente, em suas últimas consequências, à autojustificação, salvação por obras e negação de Jesus como real Salvador. Antes de se ofender, peço que preste atenção, reflita sobre suas opiniões e entenda que mesmo o menor artigo de fé deve ser harmonizado com o fundamento da fé.

            Não há, biblicamente, razão alguma para se crer na possibilidade de perder a salvação. O argumento primário de quem crê nessa heresia é filosófico, não escriturístico. A ideia é apresentada como uma retórica mais ou menos assim: “Ora, se a salvação não pode ser perdida, então quer dizer que você pode só ser salvo, sair fazendo o que quiser e ir pro céu mesmo assim?”. Essa frase revela uma grave e perigosa falta de compreensão do que significa salvação. O que é salvação, de acordo com essa ideia? Significa simplesmente confessar a fé em Jesus e então receber um decreto divino de que você irá para o céu, e não para o inferno. E mais nada. A salvação torna-se relevante apenas para o destino na pós vida e descartável para a vida presente. É uma salvação que só se realiza no futuro; no presente, é apenas uma palavra que confere um status de “salvo”. Porém, a Bíblia ensina que a salvação é um ato de graça de Deus real por todo o tempo. Como bem aponta Russel Shedd, a salvação é uma realidade do presente, do passado e do futuro. Nós já fomos salvos quando cremos em Jesus, estamos sendo salvos da pecaminosidade e rumo à santificação, e seremos salvos de todo o mal e da morte quando entrarmos na vida eterna. A salvação não pode ser interrompida por um ato nosso. Do contrário, nossas decisões teriam um poder maior do que o do sacrifício de Jesus.

            Entenda que a Perseverança dos Santos depende do novo nascimento. O que é nascer de novo, para quem crê que pode perder a salvação? Nada mais do que uma abstração, uma espécie de resolução pessoal em mudar de vida que pode ser revogada a qualquer tempo. Mas o que a Bíblia ensina é que o nascer de novo é um ato de Deus, e não do homem. E o que Deus faz, nenhum homem pode desfazer. Nascer de novo é morrer para a carne e ressuscitar para o Espírito. E que é o sacrifício de Jesus, a sua cruz, que tem o poder de efetuar esse renascimento. Veja Hebreus 9, veja como o poder da morte de Cristo tem verdadeiro poder para realizar santificação. Se você acha que pode simplesmente resolver obedecer a Deus e que isso significa ser regenerado, então você não precisa de Jesus. Já pode se salvar pelo próprio esforço. Sua salvação depende de você, do que você faz. Você pode afirmar que, quando você creu e quando Jesus morreu, isso foi um ato de graça de Deus, mas a manutenção dessa salvação é competência sua. O que é isso, a não ser se autoproclamar como o seu próprio salvador? Para quê você precisa da graça de Deus, se a sua salvação depende da sua mais recente performance de “boas obras”? Não, é competência de Deus manter você salvo, e não sua. Isso é uma promessa dele – essa é a promessa que vem com o Espírito Santo. Salvação não é um status ou um mero registro num livro celestial, mas é uma verdade, uma realidade palpável na vida atestável pelos frutos.

            Falando nisso, é facilmente perceptível que a razão por que muita gente não engole a Perseverança dos Santos é o medo de que essa doutrina leve ao descaso com a ética divina. Esse medo, como já foi visto, provém da compreensão deficiente do que significa salvação. Um salvo não é negligente com a ética divina. O seu bom fruto só é possível porque Deus fez de você uma boa árvore. Se um professo crente dá maus frutos, ele não é boa árvore. Não foi salvo, não foi regenerado, não nasceu de novo. A salvação é uma transformação, não só um pensamento na sua mente. E veja que, se você acha que deve obedecer a Deus para não perder a salvação, sua motivação é o medo, e não o amor. Devolvendo a pergunta: se a salvação pode ser perdida, então quer dizer que um salvo obedece a Deus pelo medo de ir pro inferno? Que graça é essa? Obedecer a Deus pelo medo é característica da Antiga Aliança. Veja como Hebreus 12 descreve a cena do Sinai: Deus se manifestou com voz trovejante, tremendo o monte e fazendo-o pegar fogo e exalar densa fumaça. Deus diz a Moisés “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim”. Ezequiel 18 nos ensina que “todo aquele que pecar morrerá”. Isaías 8:13 nos diz que devemos ter pavor do Senhor. Mas, ainda conforme Hebreus 12, esse não é o nosso pacto. A aliança baseada no sacrifício de Cristo é a aliança da graça. A graça de Deus desvia a ira de Deus de nós para Jesus. E o sangue do Cordeiro é puro e eficaz para nos perdoar de toda transgressão. 1João diz que, se alguém tem medo de Deus, não está aperfeiçoado no amor. Pois a nossa obediência a Deus é derivada do nosso novo espírito que foi cativado pelo amor de Deus, o Pai (quem foi do Estranho leu isso com a melodia). Um legalista obedece a Deus por causa de si mesmo, para o seu próprio benefício; um salvo pela graça obedece a Deus por amor a Deus, para se assemelhar a ele, por adorá-lo. Não é salvo quem professa a fé, mas não obedece a Deus; tampouco quem obedece-lhe apenas por amor próprio.

            Nossos eventuais pecados são cobertos pela graça de Deus. É necessário arrependimento, sim, mas mesmo o arrependimento humano é falho e necessita da ajuda divina. Mesmo no tempo da Lei, lemos várias vezes a frase “se alguém pecar, ainda que sem intenção, será culpado. Quando tomar consciência do seu pecado, oferecerá [insira o sacrifício aqui]”. Essa ideia permanece mesmo hoje. Quando pecamos, mesmo sem saber, transgredimos o mandamento de Deus. E, quando percebemos que pecamos, o arrependimento é ordenado. Em vista disso, veja como é falha a ideia do “Você precisa vigiar o tempo todo porque, se você pecar e não der tempo de se arrepender, se Jesus voltar ou se você morrer, você perde a salvação ou o arrebatamento”. O problema é que nós pecamos o tempo todo. Ser pecador não significa que você às vezes comete um ou outro pecado, e sim que você, em sua carne, é marcado pelo pecado constantemente. Você não faz nada além de pecar, a não ser que a graça de Deus o livre disso. Tenha a certeza de que há muitos pecados dos quais você não se arrependeu porque você nem sabe que eles estão lá. Como diz Provérbios, “Quem pode dizer ‘estou livre do meu pecado, estou purificado de coração’?”. O perdão de Deus não vem só se você estiver consciente de todos os seus pecados o tempo todo e se arrependendo de todos eles, porque isso é impossível. A melhor oração que descreve a situação de um crente a respeito desse assunto é a do salmo 19: “Quem pode discernir os próprios pecados? Perdoa-me dos que desconheço! Guarda-me também dos pecados intencionais; que eles não me dominem. Então, serei íntegro, inocente de grande transgressão”. Você não é salvo porque se arrependeu de cada pecado, mas porque a graça de Deus cancela toda a sua dívida – seus pecados passados e futuros – e então move a sua alma para o arrependimento. Do contrário, a sua salvação seria também pela sua boa obra de arrependimento, e não pela graça.

            Vale uma nota para o texto de Hebreus 6. O texto parece dizer que pessoas salvas podem perder a salvação e então nunca mais recuperá-la. A parte do “nunca mais recuperá-la” está bem explícita e correta, e esse é o ensino principal desse texto. Quem abandona a fé totalmente nunca mais será reconduzido pelo Espírito ao arrependimento e não será mais perdoado. Se o tal que caiu era salvo mesmo ou apenas um iludido na Igreja, o texto não deixa claro e não pretende ensinar. Ao meu ver, o texto deliberadamente evita dizer que a pessoa era salva e descreve o máximo das bênçãos eclesiásticas das quais uma pessoa pode desfrutar, mesmo sem estar salva. Mesmo quando o Espírito é mencionado, entendo que a referência é à comunhão proporcionada pelo Espírito, não à regeneração da alma. Estando esse texto obscuro quanto a esse ponto, precisamos buscar evidências mais explícitas. Por exemplo, 1João 2. Lá, o apóstolo diz que os anticristos já estão pelo mundo e saíram “do meio de nós. Porém, não eram dos nossos; se fossem mesmo dos nossos, teriam permanecido conosco. O fato de terem saído mostra que não eram dos nossos”. Creio que esse texto não deixa margem para outra interpretação senão a mais clara.
           
A Perseverança dos Santos não ensina que você é salvo e pode fazer o que quiser e continuar salvo. Ela ensina que Deus jamais deixará você se desviar. Como perfeito Pai, Deus disciplinará em amor os seus filhos (Hebreus 12). Aquele que nasceu de novo jamais se desviará do Bom Pastor (João 10:27-29). Não há absolutamente nada que separará você do amor pactual de Deus sancionado por Cristo pela dádiva do Espírito (Romanos 8). Jesus não pode perder de si nenhum dos que Deus lhe der (João 6:39). Ele jamais nos lançará fora. Deus não nos salvou apenas no momento em que cremos, mas salva-nos constantemente do domínio do pecado. Se você acha que o perigo de perder a salvação é o único ou melhor estímulo para uma pessoa ser santa, eu não acho que você tenha entendido a graça de Deus e a justificação pela fé. Retorne aos seus fundamentos e creia naquele que pode realmente salvá-lo.

            André Duarte