quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PRC 3 – Palavra X Imagem


            Temos este último post básico antes de passarmos aos elementos específicos do culto. Já vimos a distinção entre o culto particular e o público, e que o culto público deve ser marcado por reverência e solenidade em todos os seus elementos. Agora, vamos esclarecer mais um princípio geral do culto: ele deve ser essencialmente verbal, e não pictórico. Em resumo: o culto público deve ser prestado com palavras, especialmente com a própria Palavra de Deus – lida, declarada, cantada e pregada –, e não com elementos icônicos não-verbais.
           
1. Seja a palavra a forma de comunicação no culto.

Por que a comunicação do povo com Deus no culto deve ser verbal? Uma análise holística da Bíblia demonstra que a palavra “Palavra” é uma palavra-chave (yo dawg!) para o entendimento da relação de Deus com o homem. A palavra é a maneira principal e ordinária com a qual Deus se revela ao homem, e também a maneira como ele exige que respondamos. Antes da queda, Deus simplesmente falava ao homem, e o homem falava a Deus. Não havia imagens, cerimônias nem nada desse tipo. Porém, após o homem cair e se afastar do conhecimento da verdade, Deus instituiu ícones cerimoniais para ilustrar ao povo realidades sobre o Messias vindouro, aquele que restauraria o que Adão perdeu. Por isso, o culto do Antigo Testamento continha objetos sagrados, símbolos visíveis, um cenário específico, roupas que comunicavam significados. Todas essas coisas palpáveis, que apelavam a vários dos sentidos, foram encerradas na obra de Cristo. Por isso, a adoração é hoje em Espírito e em verdade: porque não precisamos mais de símbolos do que é espiritual, mas recebemos plenamente do próprio Espírito para adorar o Pai. (Os sacramentos são uma exceção que pertencem a outro post.) Jesus Cristo é o sumossacerdote eterno, o último e suficiente sacrifício, a água purificadora, o templo de Deus etc. E mais uma coisa é dita sobre ele: ele é a Palavra de Deus. O Filho de Deus é a Palavra pela qual o Pai criou o mundo, sustenta o universo e revela a si mesmo aos homens. Como Palavra divina, Jesus exerce seu ofício de profeta. Ele é a imagem de Deus – sim, a única e última imagem que realmente expressa o ser de Deus (Cl 1; Hb 1). E, pela sua doutrina e seu ensino, pelas Escrituras que testificam sobre ele e pela instrução do Espírito, ele permanece sendo a Palavra de Deus em nós.

         Tudo isso foi dito para deixar claro que a maneira como Deus quer ser adorado é por meio da palavra. A Palavra é o mediador entre nós e Deus. É por meio da Palavra divina que prestamos culto a Deus. Visto que Cristo é a Palavra encarnada e a Bíblia é o testemunho fidedigno sobre ele, segue-se que é por meio da Palavra escrita que, na dimensão dos sentidos, o culto deve ser prestado. Digo isso porque, no plano espiritual, é Cristo que faz a mediação. Porém, no plano físico, precisamos usar a Palavra que Deus nos deixou acessível nesse plano, e que corresponde à revelação de Jesus. Portanto, são inseparáveis Jesus e a Bíblia, de sorte que ninguém deve pensar que realmente adora o Pai por meio de Cristo se não usar para isso a Bíblia. Todos os símbolos e elementos de imagem somente fizeram parte do culto temporariamente, para ilustrar o que viria, mas essa não é a forma ordinária segundo a qual Deus ordena o culto. Nas palavras de Jesus: “No princípio, não era assim”.

            A Bíblia é a Palavra de Deus, e é uma palavra verbal. Calma, já explico essa aparente redundância: biblicamente, nem toda palavra de Deus é verbal no sentido a que estamos acostumados. Um exemplo é o próprio Jesus: ele é a Palavra de Deus, mas é um ser pessoal, com corpo e Espírito, não um conjunto de letras. Talvez seja o único exemplo. Mas o ponto é que a Palavra de Deus revelada na Bíblia é um conjunto de textos, frases, palavras, livros. Não é uma revelação em imagens, em esculturas ou em gifs. E é utilizando essas palavras que devemos prestar o culto a Deus. Qual é a implicação disso, na prática? É que os elementos do culto devem ser verbais, e mais do que isso – devem derivar das Escrituras o seu conteúdo verbal. Veja o que aparece no culto do Novo Testamento: oração, ensino e leitura da Bíblia e cânticos – todos elementos verbais regulados pelas Escrituras. E nenhuma dessas coisas é adornada por imagens.
           
2. Sejam proscritas as comunicações por imagens:

-Católicas romanas ou gregas: Quando pensamos em imagens no culto, talvez o mais óbvio exemplo sejam os ícones católicos: estátuas de santos e anjos, o crucifixo, as vestes sacerdotais dos padres, os vitrais e todos os adornos desse tipo. Até hoje, as duas igrejas católicas – a do Ocidente e a do Oriente – seguem a tese de João Damasceno, teólogo do oitavo século, de que imagens são obrigatórias no culto, por derivarem do princípio da encarnação: tal qual adoramos Deus Pai por sua imagem, que é Jesus, também devemos adorá-lo por meio de imagens de santos, visto que homens são também imagem de Deus. Logo, negar o uso de imagens no culto é negar a encarnação de Cristo. Não é necessário gastar tempo apontando as muitas falácias dessa heresia. A Bíblia deixa claro que Jesus é a única imagem que expressa perfeitamente o ser de Deus. E a ordem de Deus é: não fazer imagens nem dele mesmo e nem de qualquer criatura na terra, o que inclui os mais santos homens. Cristo é a única imagem de Deus que não é uma criatura. A aplicação maior desse mandamento, como as confissões reformadas reconhecem, é que Deus deseja manter íntegros todos os elementos que ele prescreveu para o seu culto. E o exemplo maior que ele dá é a repugnância ao uso de imagens. As imagens podem ser belíssimas e impressionantes aos olhos carnais. Eu mesmo amo vitrais. Mas que essas coisas não existam no culto público, e que nem sejam superestimadas no culto particular a ponto de obscurecerem a revelação principal de Deus, as Escrituras.

-Judaicas: Um grande número de igrejas neopentecostais têm flertado com o judaísmo de maneira doentia. A teologia dispensacionalista que elas adotam demonstram bem isso. Muitos pensam nos judeus como “quase irmãos”: já seguem a Bíblia quase toda, só falta Jesus. E nisso confundem judaísmo com a religião do Antigo Testamento. Mas não é a mesma coisa, de forma alguma. Judeus só se aproximam do Antigo Testamento por meio do Talmude, o livro de tradições rabínicas, e não compreendem em nada o verdadeiro sentido do Antigo Testamento. Pois o Novo ilumina o Antigo. Esse flerte com o judaísmo e essa confusão das religiões têm afetado seriamente a teologia de culto da tais igrejas. A consequência é que o culto fica cheio de imagens do Antigo Testamento: uma “menorá” no fundo do edifício (o candelabro de sete braços); uma procissão de “levitas” trazendo a “arca da aliança” (igualzinha à que aparece no filme do Indiana Jones, por sinal); às vezes um véu entre a arca e o público etc. Por mais que respeitemos esses elementos em seu lugar adequado – no Antigo Testamento, para prefigurar a realidade em Jesus –, devemos execrar por completo a continuidade dessas coisas no culto. Trazer para a prática atual os elementos transitórios da Lei é uma forma de legalismo, contra a qual os apóstolos se levantaram no Concílio de Jerusalém. Muitas das cartas de Paulo são duras a esse respeito, como a carta aos gálatas. Prestar culto a Deus por meio dessas imagens é despojar Jesus de sua majestade, é afirmar que o Messias nem veio. É adorar o que não se conhece (Jo 4). Uma blasfêmia desorientada.
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-Evangélicas: Nem todas as igrejas neopentecostais usam imagens do judaísmo. E, obviamente, nem todas as igrejas são católicas. Em vez disso, a maioria das igrejas usa tipos de imagens da modernidade, por influência não do judaísmo nem do catolicismo, mas do próprio mundo secular. A ideia é: vamos pegar essas coisas que existem no mundo e dar uma caracterizada gospel nelas. Devo dizer que essa mentalidade é a regra para igrejas novas; as que rejeitam tais imagens são chamadas chatas e preconceituosas. A que me refiro? Retornemos ao tema do primeiro post: o problema do entretenimento. A fim de tornar o culto mais parecido com o mundo, para que os mundanos gostem mais de comparecer à liturgia, vamos adorná-lo com elementos que apelam ao visual mundano. Em casos mais extremos, vemos igrejas enfeitadas com imagens laicas, sem conotação religiosa direta. No momento das músicas, por exemplo: efeitos de luzes coloridas, flashes e até fumaça. No sermão, o púlpito torna-se um banco como os de um bar, ou mesmo uma prancha de surf. O pastor se veste com uma fantasia bem descolada e jovial; ou mesmo com uma fantasia árabe. Imagens que comunicam não um culto a Deus, mas um culto aos mundanos; os visitantes pagãos tornam-se o centro e o propósito do culto. Algumas igrejas colocam a imagem do seu pastor no outdoor do edifício: o centro do culto é o pastor, nesse caso. Esses exemplos são mais pontuais (embora a parte da música seja mais complexa, e receberá mais atenção em outro post). Mas há outros dois exemplos que são encontrados em praticamente toda denominação evangélica: dança litúrgica e teatro.

A maioria dos que aprovam dança litúrgica no culto acreditam sinceramente que esse é um elemento autorizado pela Bíblia. Ainda que saibam que o culto deve ser regulado pelas Escrituras, entendem que a dança faz parte do que Deus se agrada no culto, por causa dos exemplos de Miriam e Davi. Quando alguém diz que a dança não deve ser parte do culto, a primeira resposta que vem à mente é “Mas Miriam dançou, mas Davi dançou”. E, para elucidar a questão, é necessário recordar a distinção básica entre o culto particular e o público. Miriam e Davi dançaram em seus cultos particulares. Miriam estava exultante pela libertação do Egito, e Davi estava alegre pelo retorno da arca ao tabernáculo. Sim, dançar é muito bom, dançar pela honra de Deus é aprovado biblicamente. Mas os exemplos de Miriam e Davi não justificam a dança no culto público. São exemplos pontuais que ocorrem fora do contexto do culto litúrgico. Davi dança por todo o caminho, mas não há nenhum registro, nem na Bíblia nem nas tradições judaicas, de que houve dança no culto do tabernáculo e do templo. Muito menos no Novo Testamento, e nunca na história da Igreja, até esse século de sincretismo. Muitos salmos são escritos como ordens para o povo de Deus fazer tal ou qual coisa no culto do templo, mas nenhum fala da dança (os poucos que falam da dança fazem-no no contexto de culto particular, como uma exegese cuidadosa provará).

A dança não comunica nada verbalmente – e a maioria não comunica realmente nada e limita-se à exibição de talento. Por falar em exibição, caso as dançarinas sejam ingênuas a esse respeito, quero afirmar que os homens da congregação são levados a admirar os corpos delas e desviar a mente de Deus. Pedro instrui as mulheres a irem à igreja com vestes decentes e modestas. Isso é bom, para que os homens não sejam incitados a pensamentos inconvenientes. Mas a dança é igualmente provocante. Por mais que não seja sensual aos olhos do mundo, ainda assim bagunça os pensamentos dos homens. É mais fácil para um homem pensar “Hmm, com qual dessas varoas ungidas eu vou me casar?” do que concentrar-se no ser de Deus. A disposição imaginativa masculina é um pouco mais cortante do que as moças ousam especular. E, cá entre nós, só os parentes das dançarinas gostam da dança. A maioria dos membros sai do culto rindo da desajeitada e da gordinha. Não é isso que queremos num culto congregacional. Contrária à edificação mútua e sem autorização bíblica, a dança litúrgica deve ser proibida. Enfatizo que a dança no culto particular é permitida, inclusive com músicas laicas e em lugares laicos, como discotecas (porque “boate” é um termo muito escandalizante). Com sobriedade e domínio próprio, dançar é louvável. Mas, no culto público, é errado.

Sobre o teatro, não há muito o que comentar. Se retirarmos os elementos icônicos – a atuação, o cenário, os personagens – e deixarmos só o elemento verbal da fala, temos uma pregação em vez de um teatro. Naturalmente, o teatro não é autorizado pela Bíblia. Na sua esfera profissional de culto particular, pode fazer teatro o quanto quiser. No culto, não. E é bom lembrar: nem mesmo para propósitos evangelísticos. É comum que o teatro seja um encorajamento para os membros da igreja convidarem mundanos. O convite é “vamos assistir a uma peça”. E os mundanos vão, porque eles gostam de ir ao teatro e assistir a espetáculos em suas vidas laicas. Neste ponto, espero não ser redundante, e acho que já dá pra adivinhar o problema aí: mitigação da exposição da Palavra, centralidade no mundano e exibição artística supérflua, que atrai também atenção ao artista, e não a Deus.

3. Conclusão.

Este é o terceiro post básico sobre o PRC. Até aqui, foram esclarecidos os princípios que definem o culto público e que dão forma a tudo o que é feito nele. Os próximos posts serão mais específicos e aplicarão esses princípios com mais detalhes em cada um dos elementos de culto: oração, cânticos, leitura e pregação da Palavra, declaração de fé e administração dos sacramentos.

Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. E o evangelho é o centro da Palavra de Deus. Se crermos nisso e em tudo o que isso implica, entenderemos que é tolo confiar em qualquer outra coisa além do evangelho para que alguém creia. Confiar em teatros, danças, shows, cenários e piadas é um desvio da fé no evangelho somente. Não há carência alguma no evangelho para que ele precise ser adornado. É essa verdade que nos impedirá de especular “o que mais podemos fazer de diferente, para que os mundanos nos ouçam, além de pregar o evangelho” e que nos manterá apaixonados e zelosos pela verdade da salvação em Cristo.


André Duarte

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 4: O Sexo Pré-Marital



Seguimos então com a série sobre relacionamentos conjugais à luz da Escritura, e o tema de hoje é um bem discutido no meio cristão: o sexo pré-marital, o sexo antes do casamento. Vamos retomar algumas coisas dos posts anteriores, e discuti-las sob esse espectro da discussão, para melhor desenvolvimento da exposição.

Primeiramente, eu gostaria de rever um conceito que foi colocado anteriormente, a saber, que o Casamento é uma aliança que reflete a união de Deus e Seu Povo, de Cristo e a Igreja. Nós somos imagem e semelhança de Deus e isso se estende também para o pacto familiar, a aliança do Casamento, refletindo o relacionamento de Deus conosco. É um pacto, uma aliança, que é algo que oferece benefícios e exige responsabilidades.

Em relação a Deus e Seu Povo, temos a máxima que representa a questão de como se dá a aliança: “Eu serei o seu Deus e vós sereis Meu Povo” (Jr 30.22; Lv 26.12; Jr 11.4). Deus, no Antigo Testamento, tem a iniciativa de propor uma aliança a Israel. Ele seria o Deus deles, os guiando, protegendo, e fazendo-os prosperar sobre a terra, desde que eles O obedecessem (Dt 28.1). Há esta reciprocidade. Os benefícios desta união se dão na manutenção da mesma, crivada pelos próprios mandamentos de Deus. No Novo Testamento, na passagem de Efésios (Ef 5.22-33) mostra a analogia entre o homem e a mulher no Casamento com o relacionamento de Cristo e a Igreja: o homem, e Cristo, se dão pelas suas noivas – futuras esposas-, as cuidam, as amam, e as noivas (a mulher e a Igreja) obedecem seus noivos –futuros maridos- em submissão e amor. Ainda sobre o Novo Testamento, é curioso notar que se diz que a Igreja é a noiva de Cristo. Eles ainda não casaram, por assim dizer. A consumação deste casamento se dará nos Novos Céus e Nova Terra completos, depois do Juízo Final. Então, naquele dia glorioso, teremos a plenitude dos benefícios dessa aliança, o regozijo eterno e profundo com Deus.

Da mesma maneira, o Casamento é a Aliança pela qual se pode obter a plenitude das bênçãos estabelecidas para o relacionamento conjugal entre homem e mulher. E o sexo é uma delas, pois é o ápice da intimidade física, reflexo do ápice da intimidade que teremos com Deus no mundo vindouro, onde ele será tudo em todos (1 Co 15.28). No Casamento é onde se cria uma família (Gn 1.28), uma aliança se forma, ali se fundamenta todas as responsabilidades de um homem para com a mulher e vice-versa. É no Casamento que se tem a totalidade da intimidade com a outra pessoa, de modo que são uma só carne (Gn 2.24). Num namoro não se deve ter essa intimidade, tampouco no Noivado, pois é reservado àqueles que se uniram de modo análogo a União de Deus e Seu Povo que se consumará no fim dos tempos. Um namoro pode acabar, assim como um Noivado, mas o Casamento de um homem e uma mulher tem que ser igual ao Casamento de Deus e Seu Povo, que será indissolúvel e eterno. Assim, o sexo, a maior intimidade para com o outro só é possível com a maior das Alianças, o Casamento, entre um homem e uma mulher, tal qual será a intimidade entre Deus e Seu Povo no Casamento glorioso que há de vir.

Há quem diga, então, que o sexo é o selo do Casamento, ou mesmo o próprio Casamento. Dizem que “cerimônias religiosas” não contemplam os episódios bíblicos tampouco os mandamentos que concernem ao Casamento e sexo; que é uma invenção humana. Assim, estariam desimpedidos de terem relações sexuais sem a necessidade de formar isso em um papel ou coisa do gênero. Entretanto, esse tipo de visão traz problemas horríveis, vejamos:

1.       Se sexo fosse selo do Casamento, aquela primeira pessoa que alguém teve relações sexuais quando mais nova, de maneira imprudente e impensada, seria seu cônjuge. Assim, todo e qualquer relacionamento que se teria depois era nada mais do que adultério ferrenho e indiscriminado;
2.       Se sexo fosse Casamento, o pecado de fornicação seria inexistente. Se quisessem verter fornicação em adultério, concordando com o ponto 1, ainda assim teria problemas visto que em passagens como 1 Co 6, faz-se uma distinção entre fornicadores e adúlteros.
3.       Se sexo fosse selo de Casamento, casais que se unissem, mas não podem praticar o ato sexual (seja por alguma doença, acidente que debilitou, ou qualquer variável do gênero) não seriam casados de verdade, visto que o sexo é o selo necessário.

Isso, entre vários outros motivos, mostram que não somente a Aliança é diferente do sexo em si, mas que é a Aliança que faz o Casamento, não o sexo. Seria complicado pra alguém defender que não se pode fazer a aliança do Casamento sem que se pratique o ato sexual. Tanto que não poderia se dizer que um casal de idosos não são casados pela falta de sexo, mostrando que há algo que os mantém casados que não se define por sexo.

E, considerando as considerações anteriores, vimos que a intimidade completa se dá com uma aliança completa; assim como teremos nossa união e intimidade máxima com Deus no Casamento no mundo vindouro, a intimidade máxima, a saber, o sexo, entre homem e mulher se dá no Casamento, que é a Aliança análoga à Aliança que Deus faz conosco, Seu Povo.


Marcel Cintra

terça-feira, 12 de novembro de 2013

PRC 2 – Reverência X Entretenimento


        Tratemos agora da seguinte regra do culto público: a reverência. Um princípio tão central e tão repudiado abertamente nas pseudoigrejas atuais. Não que haja algo novo debaixo do sol, visto que até Charles Spurgeon, há mais de 100 anos, já alertava para o mesmo problema. Mas o império do entretenimento é mais forte agora do que jamais foi. Se o bondoso Jesus Cristo não nos tivesse garantido que as portas do inferno não prevaleceriam contra a sua Igreja, poderíamos ficar realmente desesperados diante desse monstro secular, obeso que está de tanto engolir igrejas. Entretenimento é o deus deste período, e tem sido adorado em falsas igrejas no lugar do Deus verdadeiro, que exige reverência e temor no seu culto.
           
Há algum problema com o entretenimento no culto particular? Certamente que não. Divirta-se, assista a filmes, jogue Playstation, pratique esportes, dance e festeje com seus amigos, tudo em gratidão a Deus por essas pequenas dádivas que ele concede aos corações dos homens. Por que não? A diversão faz parte do domínio do homem sobre a criação, da exploração do que Deus criou para a glória dele. Deixar de se divertir é um pecado, inclusive. As pequenas alegrias da vida são um fruto do trabalho do homem, um presente de Deus, e ninguém deve negá-los. Mas o culto particular não deve ser confundido com o culto público. Não apenas não encontramos nada na Bíblia que apoie o entretenimento no culto público, como também encontramos uma exigência que lhe é incompatível, a reverência. Que Eclesiastes 5 nos ensine.

            Diz Salomão “Guarda o pé quando entrares no santuário de Deus”. Embora, no contexto, ele esteja falando do culto no templo de Jerusalém, permanece o princípio desse temor sempre que a Igreja se reunir para cultuar no Dia do Senhor. Ele explica logo adiante a razão da reverência: Deus está no céu e tu, na terra. A grandeza de Deus, sua soberania, seu poder incomensurável e sua santidade absoluta – essas coisas devem inspirar em nós a reverência. Quem trata culto como brincadeira não tem ideia do Deus que diz adorar. Pense que Deus criou cada uma das estrelas com uma só palavra. Ele as chama e conhece pelo nome (Is 40), todas elas. Cada uma delas, geralmente muito maior do que o sol. O número é indizível, visto que só na nossa galáxia existem mais bilhões de estrelas do que grãos de areia no planeta. E Deus criou cada uma, conhece cada uma. Seu exército celestial, o universo que ele criou presta a ele toda a adoração, toda a obediência (Ap 5). Ele é eterno, é o Princípio e o Fim. Ele rege os mares e os ventos, faz e desfaz o que bem entender. Domina sobre as nações e as vê como miniaturas. Você tem ideia de quem você está adorando quando presta culto com a Igreja? E ainda há um detalhe que Salomão não sabia: você tem a compreensão do que custou para que você, um verme imundo e cheio de mácula, pudesse apresentar-se diante de tal Deus sem ser consumido por sua santidade? Foi o Filho de Deus, o Deus encarnado, que tomou para si nossas manchas, morrendo em nosso lugar, para que pudéssemos adentrar no Santo dos Santos com intrepidez (Hb 9, 10). E você acha que o culto é pra fazer barulho e divertir?

            Que analogias poderiam nos ajudar aqui? Os que chamam o entretenimento de “Deus” conhecem bem as suas. Para eles, o culto ao Deus excelso é comparável ao futebol a que você assiste na TV. Ou ao show da sua banda favorita. Dizem que, se ficamos exultantes, extravagantes e gritantes ao ver nosso time fazendo gol, muito mais devemos pular e bancar os palhaços na presença de Deus. A ideia é que o entretenimento do culto particular é apenas um nível básico de entretenimento, e o Deus que dizemos amar acima de todas as coisas é o Sumo Entretenimento, naturalmente dependente dos pressupostos laicos sobre o que entretenimento significa. Já tive o desgosto de ouvir de pastores, mais de uma vez, essa comparação entre Deus e o futebol. Se isso não é idolatria demoníaca, não sei o que é. Esse tipo de blasfêmia apenas revela que o homem idolatra seus entretenimentos laicos, não que ele ama Deus. Porém, os que sabem que devem prestar reverência a Deus devem buscar analogias mais adequadas. Na verdade, a própria Bíblia nos oferece essas analogias. Veja o começo do profeta Malaquias, no qual Deus é o Sumo Pai, o Sumo Senhor. Veja o começo de Isaías 1, em que nós somos o boi estúpido e Deus é o nosso dono. E o que Daniel diz sobre Deus ser o Sumo Rei? Não é também isso que Paulo e João dizem – Rei dos reis, Senhor dos senhores? Não é Jesus designado o Sumo Juiz? Portanto, eis a analogia correta: se muito respeito, reverência e temor são prestados a essas autoridades terrenas, muito mais deve ser atribuído ao Senhor Deus do universo.

            Reverência, então, deve ser um princípio presente em todos os elementos de culto autorizados. A música deve ser executada com solenidade e respeito. As orações precisam ser cautelosas com as palavras. A pregação deve expor as Escrituras e o evangelho com todo o temor e consciência. Todas as palhaçadas e as extravagâncias estão vetadas. Sua vontade de se divertir e de expressar seus sentimentos de qualquer jeito não interessam. E deixe para colocar o papo em dia com seus amigos depois do culto.

            Eclesiastes 5 continua falando sobre o cuidado com a quantidade de palavras. Deus está no céu e tu na terra; por isso, fale pouco. Do muito falar, nasce a prosa vã do tolo. Isso significa que você simplesmente não pode sair se expressando de qualquer jeito no culto. O culto não é lugar para você desabafar seus sentimentos, contar suas histórias ou algo assim. É por isso que testemunhos pessoais não fazem parte do culto público. Não é qualquer um que pode falar em nome de Deus diante da assembleia. A mania atual de deixar o culto em liberdade pras pessoas falarem o que quiserem, contarem histórias de testemunhos, orarem da sua maneira pessoal e exacerbarem as emoções é errada e danosa para o culto. Tenho certeza de que você já viu coisas vergonhosas brotarem dessas práticas: a pessoa que conta um testemunho completamente maluco, a oração que deixa escapar alguma bobagem, os gritos sem sentido. Culto não é consultório de psicólogo pra você “se derramar” diante de Deus com suas falas e emoções tolas. As ministrações pentecostais transgridem a reverência e o pouco falar.

            No Novo Testamento, temos algo parecido: o princípio de Paulo em 1Coríntios 14 do “tudo seja feito com decência e ordem”. Ele estava repreendendo o abuso do dom de línguas e do dom de profecias, em seus exemplos. Mesmo nessa nova época de revelação, com abundância de dons sobrenaturais e milagres, Paulo não deixou a coisa correr só na base da espontaneidade. Se alguém profetizar, cale-se o primeiro, e os outros julguem o que for dito. Quanto mais ordem deve existir no culto pós-apostólico, no qual tais espécies de dons cessaram. As cartas pastorais deixam claro que quem fala durante o culto é o presbítero. Somente o ministro ordenado tem a prerrogativa de fazer pregações, falar em nome de Deus para o público. Nisso, o público deve permanecer em silêncio, ouvindo a Palavra de Deus com alegria e fé. O ouvir é elogiado por Salomão. Portanto, qualquer manifestação que atente contra a reverência, solenidade, a ordem e a decência do culto é proibida.

            O que são as liberações pentecostais, senão a desobediência a esses princípios bíblicos? Desordem é a descrição precisa sobre os momentos de "ministração": todos falando e chorando ao mesmo tempo, manifestando-se como dá na telha. Gritos de “amém” e “glória a Deus” durante as orações e o sermão parecem, na superfície, que estão exaltando o nome de Deus, mas atentam contra a reverência e a ordem. Atrapalham o pregador e os outros ouvintes, e nisso são contrários à edificação. Aplausos são inadequados, rompem a solenidade e, principalmente, quebram com o Soli Deo Gloria: pois quem no culto liberal recebe aplausos, senão os homens? Seja sincero, a mania do “uma salva de palmas pra Jesus” é papo furado. Os aplausos são sim dados aos homens. Se assim não fosse, não surgiriam sempre que uma música gospel animada acaba, quando o pastor muda o tom e a cadência da voz para algo provocante, e assim por diante. Não há diferença alguma entre os aplausos no culto e aqueles que são prestados em shows laicos e em discursos passionais de políticos. E, se alguém refuta essa “rigidez” alegando a liberdade do Espírito em nos mover, digo que não é o Espírito Santo que dá glória a outro além de a Cristo, e não é ele que inspira os homens a transgredir a Palavra que ele mesmo inspirou. É blasfêmia da pior sorte pecar contra a Bíblia e atribuir ao Espírito o mandatário.

            Ainda sobre o uso de palavras e a reverência, Salomão fala sobre o cuidado com os votos. Logo, o fazer votos faz parte sim do culto público. Porém, por causa do temor a Deus, é necessário ter cautela com os votos que se faz. É melhor não fazer votos do que fazê-los e não cumpri-los. Sendo assim, nenhum ministro deve constranger o seu público a fazer votos. É ridículo quando o pastor ordena à congregação que faça compromissos como ler a Bíblia todo dia durante a semana, falar de Jesus pra pelo menos uma pessoa, entrar numa “corrente de jejum” ou coisa do tipo. E o público prefere fazer o voto só de boca (ou levantando a mão) a passar a vergonha de ser coerente. Isso deve nos levar também à seriedade do chamado à conversão: ninguém deve ir a Cristo precipitadamente, sem antes “calcular o custo da casa”, como Jesus diz em Lucas. Fazer o voto de tornar-se discípulo de Jesus é o mais sério dos votos, e aqueles que voltam em sua decisão são apóstatas punidos com a ira irrevogável de Deus (Hb 6). Por isso, é um pecado colocar como parte da liturgia o apelo ou qualquer exigência geral de que se faça um compromisso com Deus: quem pode saber se realmente deseja seguir Jesus por causa de uma hora de culto?

            Se o culto não for voltado para a reverência, inevitavelmente ele voltará ao entretenimento e a vários outros acréscimos que mais servem ao mundo que a Deus. Muitos argumentam que isso é necessário hoje em dia, porque o culto tradicional é antiquado e ineficaz para alcançar as pessoas. Isso é mentira. O culto voltado para Deus, regulado pela sua Palavra, é o único que ensina aos homens o caráter do verdadeiro Deus. Os outros apenas oferecem às pessoas aquilo que querem. E, ironicamente, até nisso eles falham. Ora, os mundanos não são bobos. Eles sabem muito bem quando uma igreja quer passar uma imagem “cool”, quando ela vê o descrente de uma maneira estereotipada e preconceituosa. Nenhum mundano que se dispõe a ir à igreja está buscando um clube social gospel. A única coisa que uma igreja consegue quando mistura o evangelho com o mundo é tornar o mundo mais chato e ridículo. Quem vai trocar shows laicos por shows gospel? Vi uma frase em Os Simpsons sobre isso muito perspicaz: “Stop! You’re not making Christianity better, you’re just making rock-and-roll worse”. As poucas pessoas que realmente aderem à moda do entretenimento gospel são as que veem o evangelho como a cereja do bolo, o pedacinho que faltava na vida para dar uma consciência auto-justificada. No geral, os mundanos que se dão ao trabalho de visitar uma igreja estão buscando nela justamente algo respeitoso, solene, diferente do que eles veem no mundo. E um culto público feito com reverência é o melhor testemunho que uma igreja pode dar. A igreja que oferece entretenimento é apenas a concorrente mais incompetente contra as ofertas do mundo.

        Entenda que Jesus não é “tão humano” que permita que sua divindade seja sacrificada. Ele é perfeitamente humano, sim, mas não com as mesmas manchas que nós temos. Sendo assim, ele não é o seu amigão, o seu camarada gente boa que deixa você fazer cultos maneiros. Sua amizade e seu companheirismo devem ser compreendidos à luz da Bíblia, e não à luz do que nós achamos que um amigo deve ser. Qual dos seus amigos lhe dirá “Serás meu amigo se fizeres o que ordeno”? Jesus é o seu Rei, o seu Soberano, e ele não relativizará isso em prol da sua “amizade”.

         Reverência e liberalidade não são questões culturais. São questões reguladas pela Bíblia. O culto reverente e solene não é uma das formas possíveis na diversidade do planeta: é a única forma certa. Se você congrega em uma igreja estilo clube social ou estilo rock-and-roll, ou ainda – por que não? – estilo pentecostal, desordeiro e gritante, é melhor mudar-se para uma que segue o PRC.


            André Duarte

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PRC 1 - Culto público X culto particular


           Se você não está familiarizado com essa sigla, deixe-me esclarecer: trata-se do Princípio Regulador de Culto. Esse termo envolve uma das maiores discussões da Reforma, que dividiu inclusive os próprios reformadores: qual é a regra bíblica para o culto? Como deve ser prestado o culto a Deus?
           
Lutero, apesar de suas tremendas contribuições teológicas, não conseguiu desenvolver o tema com tantos detalhes. Ele tinha certeza de que o culto deveria ter como elemento central o sermão, e não a eucaristia. No entanto, ele seguia o pressuposto de que é permitido cultuar a Deus da maneira como a Bíblia ordena e também com o que ela não proíbe. Naturalmente, ele pensava em questões simples, como a permissão do órgão para acompanhar os cânticos – coisa que a Bíblia nem ordena nem proíbe. Mas ele tinha certeza de que o culto deveria ser sóbrio, reverente e centrado na pregação da Palavra, com ênfase no evangelho de Jesus Cristo. Foi somente em anos posteriores que os reformados desvendaram com mais detalhes o PRC. O princípio deles era diferente do de Lutero: somente o que a Bíblia expressamente permite ou ordena pode ser realizado no culto público. Havia, é claro, divergências na radicalidade com que esse princípio era seguido: muitos puritanos usavam somente salmos nos cânticos, e sem instrumentos, por exemplo.

Porém, as questões urgentes para o nosso século são outras. Dado que a regra para o culto nas igrejas evangélicas atuais é que qualquer coisa feita com “boa intenção” ou que traga bons resultados é válida, é necessário reafirmar o PRC com estreiteza em suas implicações mais básicas. Faz-se também relevante trazer à pauta esse problema devido a abusos no ecumenismo que, na realidade, significam um total desapego pessoal a qualquer denominação. Refiro-me, naturalmente, à percepção do culto como um produto de consumo, sobre cuja escolha o critério mais importante é o meu gosto pessoal. Outra face do mesmo problema é a facilidade com que se pode transitar entre igrejas. É raro, em cidades desenvolvidas, encontrar um crente que sempre pertenceu à mesma igreja, ou até à mesma denominação. Dessa forma, o crente pode escolher a igreja que ele quiser com base no quanto ele gosta de tal ou qual liturgia: se com hinos ou com bandas de rock, com sermões sérios ou com palhaçadas, com oração silenciosa ou clamores gritantes...

E é lamentável ver cristãos bem intencionados dizer que isso é bom. Que é uma vantagem de nosso tempo que existam cultos para “todos os estilos”: dessa forma, cada crente, com sua cultura e personalidade, pode congregar na igreja em que ele mais se sente bem. E daí surgem liturgias montadas para estereótipos: cultos jovens com coisas bem “jovens”, muito rock, muitas piadas; salas para crianças que são verdadeiras creches cheias de brinquedos só para passar o tempo, com nada ou quase nada de ensino bíblico; etc. É tanto erro que é até difícil saber por onde começar a refutação.

Primeiro, o pressuposto de que o gosto pessoal é relevante só tem a possibilidade de fazer sentido se você tomar como pressuposto anterior que a Bíblia não dá regras e formas para o culto. Se o culto público possui regras claras e específicas na Bíblia, obviamente que o não gostar delas não tem importância. Claro que existem aqueles que dirão que a cultura da época e o gosto pessoal são mais relevantes que as leis bíblicas, mas com tais insanos não vale a pena perder tempo, pelo menos não agora. De outro modo, se a Bíblia realmente não oferecer leis para o culto e deixar essa questão em liberdade, então, sim, talvez o gosto pessoal seja de alguma relevância. Mas, como veremos nos próximos posts, esse não é o caso.

Segundo, o gosto pessoal ainda precisa de outro pressuposto para ser determinante: que o culto é feito pra você, e não para Deus. Nisso, os reformadores foram enfáticos: Soli Deo Gloria! Pergunte aos evangélicos, após um culto, o que eles acharam do culto e por quê. Garanto que a imensa maioria, se gostou, responderá algo em torno de “Porque eu me senti bem”, ou “Porque eu senti Deus falando comigo”, ou ainda “Porque eu senti uma alegria, uma coisa...”. Isso é típico daqueles que vão aos cultos para consumir emoções e incentivos, e não para adorar Deus. Semelhantemente, os que não gostaram vão dizer “Ah, porque eu não senti Deus falando muito comigo”. A resposta certa para que um culto seja avaliado como bom é “Os cânticos realmente exaltaram a obra de Cristo”; “O pastor pregou o evangelho com fidelidade à Bíblia”; “O tema do sermão realmente trouxe luz à Igreja para servir melhor ao Reino”. O não gostar deveria ser por motivos como “A Palavra não foi centralizada em Cristo”; “Os cânticos tinham letras muito egoístas”; “Esse pastor convidado falou heresia, blasfemou contra a Palavra”. O que quero dizer que o nosso gosto é importante somente à medida que se alinha com a vontade do Deus Triúno de ser glorificado. Se você não gosta do que Deus gosta, está em pecado e precisa se arrepender.

            Até aqui, dissemos que a Bíblia dá sim regras sobre o culto público. E também que o culto público tem a finalidade de glorificar o nome de Deus, e não de trazer satisfação pessoal. Lembre-se sempre de que você nunca deve sair de casa no domingo para ir “assistir ao culto”, e sim para “prestar culto”. Ora, se o culto não serve para me apetecer, e sim para glorificar uma só pessoa, o Senhor Deus, cujas normas são absolutas, segue-se que a pergunta que devo fazer a respeito de onde congregar e prestar culto não é “Qual culto me dá mais benefícios emocionais e sociais”, e sim “Qual igreja cultua Deus como ele deseja”. Se o culto é para a glória de Deus, ele deve ser prestado conforme sua vontade revelada, pois ninguém deve pensar que está agradando Deus em desobediência. Os adeptos do paradigma do gosto pessoal e do “fazer de coração” dizem que Deus se agrada de qualquer coisa bem intencionada. Isso é verdade? O que importa é “fazer para Deus”, “fazer de coração”, sendo irrelevantes as formas?

            Essa ideia tão comum baseia-se em uma confusão com o culto público e o culto particular. Por isso, é necessário dedicar algumas linhas sobre isso. É verdade que o culto a Deus, em sua totalidade, abrange o que fazemos em nossa esfera pessoal a cada minuto da vida e também o momento litúrgico do domingo. Vemos, na Bíblia, esses dois tempos de adoração bem distintos conceitualmente. O culto particular é regulado pelas normas gerais da Lei de Deus: honestidade, humildade, fé em Jesus, pureza, amor, fidelidade... e nisso sim nós podemos fazer o que quisermos se estivermos de acordo com essas leis. Isso significa que toda atividade humana que for adequada aos limites da Lei de Deus e da finalidade delas – glorificar Deus – pode ser executada, mesmo se não estiver explícita na Bíblia. E a razão disso é simples: seria impossível haver a menção na Bíblia de todo e qualquer tipo de atividade humana lícita. A Bíblia dá alguns princípios sobre o trabalho, mas não diz exaustivamente sobre todo trabalho possível. Logo, posso exercer qualquer profissão que glorifique Deus. O lazer também entra nessa categoria: todo lazer exercido dentro da Lei de Deus e para glorificá-lo é permitido. Por isso o cristão (não legalista) sabe que ele pode jogar videogame, ir ao cinema, jogar futebol e nadar na piscina sem se atormentar com o “Onde a Bíblia diz isso?”. É no culto particular que vale o princípio de 1Coríntios 10 – “Quer comais, quer bebais, façais tudo para a glória de Deus”.

           Crentes mais conservadores e legalistas tendem a diminuir a importância do culto particular, enquanto enaltecem o culto público dominical. Porém, a Bíblia nos mostra que ninguém realmente pode prestar um culto público agradável se o culto particular estiver cheio de pecado. Os profetas falam sobre isso o tempo todo (e.g. Isaías 1 e todo o profeta Malaquias). Prestar culto público sem a pureza no culto particular é hipocrisia, causa repugnância ao Senhor.

            Por outro lado, os crentes mais moderninhos tendem a banalizar o culto público por acharem que só o particular realmente importa. Assim dizem, por exemplo, coisas como “eu estou cultuando Deus o tempo todo, não preciso ir à igreja”. Também profanam o culto público ao tentar aplicar nele o mesmo paradigma que se dá ao culto particular, isto é, de fazer qualquer coisa que não seja proibida. Nesse caso, precisamos observar por que defendemos um pressuposto diferente. A grande questão é que o homem não sabe prestar culto a Deus. Todos somos maculados pela idolatria e pelo humanismo desde a corrupção original da natureza humana. É justamente por causa da tentativa de prestar culto com base em nossas próprias ideias que todas as religiões falsas surgiram. Consequentemente, um culto distorcido reflete uma percepção distorcida do próprio Deus. A fim de ensinar a seriedade e os atributos de Deus e de como ele deseja ser cultuado, deu o Senhor as cerimônias a Moisés.

            O autor de Hebreus descreve muito bem como os elementos do culto público da Lei davam ao adorador uma ideia de distanciamento de Deus. Eram três as áreas do tabernáculo; no Santo dos Santos, somente o sumossacerdote podia entrar para fazer propiciação. Os sacrifícios demonstravam claramente a grosseria do pecado humano, o merecimento da pena de morte. E, se um mínimo detalhe das regras do culto fosse descumprida, a pena era também a morte. Deus, dessa forma, revelava quão distante ele era em dignidade e santidade dos seres humanos. Porém, ao mesmo tempo, ele mostrava o outro lado: a promessa do Messias. Os sacrifícios mostravam a grave penalidade, mas ao mesmo tempo a imensa misericórdia de Deus ao prover um substituto. O Santo dos Santos era a imagem de um caminho que não poderia ser percorrido pelo povo até a presença de Deus, mas um representante abriria a vereda.

            Aprendemos, no Novo Testamento, que Jesus Cristo é o sumossacerdote que rasgou o véu do templo transitório, mas adentrou o Santo dos Santos celestial para dar ao seu povo livre acesso. Ele tornou cada um de nós sacerdotes, e purificou nossas consciências com o seu sacrifício único e definitivo. Ele nos capacitou com intrepidez para adorarmos o verdadeiro Deus diretamente, dando-nos alívio e regozijo. O seu corpo ressurreto é o novo templo (João 2). A adoração é prestada em espírito e em verdade (João 4), pois todas as figuras sombrias da lei cerimonial estão realizadas na obra de Cristo de uma vez por todas.

            Por isso, o culto público do Novo Testamento teve algumas mudanças. Não há mais necessidade de um espaço físico particular, pois o povo peregrino de Deus é a habitação do Espírito. O símbolo de pertencimento ao pacto deixou de ser a circuncisão para se tornar o batismo, pela alusão à purificação espiritual e por não mais ser necessário derramar sangue. Semelhantemente, a refeição sagrada tornou-se a ceia com pão e vinho, em memória do corpo e do sangue de Cristo entregues na cruz. Não mais matamos animais, porque o último substituto já foi morto.

            O que quero assinalar com tudo isso é que existe continuidade e descontinuidade entre o culto público de Israel e o culto público da Igreja. Naturalmente, elementos como templo, vestes sacerdotais, arca da aliança, sacrifícios, etc, não pertencem mais ao nosso culto, porque sua significância permanece plenamente satisfeita em Jesus. Porém, existem sim aspectos de continuidade, e um deles é a estrita observância das normas. Aquelas que Deus não disse que mudaram devem ser assumidas que continuam. Por isso, encontramos normas ainda válidas para o culto público da Igreja no Antigo e no Novo Testamentos. Tudo isso precisa ser bem estudado. Agora, veja como Deus é zeloso pelas suas leis: os dois filhos mais velhos de Arão resolveram oferecer para Deus um “fogo estranho”, contrário às normas. Resultado: fulminação – e não importa se “fizeram de coração”. Uzá, com toda a boa intenção de ajudar, tocou na arca do Senhor para que ela não caísse da carroça, e Deus o matou na hora por violar sua santidade e sua lei de que a arca jamais poderia ser tocada. Isso é coisa só do Antigo Testamento? Ora, lemos em 1Coríntios 11 que a profanação da ceia resultou também em disciplina divina com enfermidade e morte. Além disso, não lemos em nenhum lugar do Novo Testamento que houve descontinuidade na subordinação estrita à lei: portanto, não devemos considerar esse pressuposto transitório. Continuam valendo as ordens divinas: “Não removam nem acrescentem nada às minhas ordens” (Dt 4:2; 12:32)

            É comum que os crentes de raso entendimento distorçam alguns textos em prol dessa alegada descontinuidade. Por exemplo, a adoração em espírito e em verdade de João 4. Já vimos o que isso significa: que a adoração é direta a Deus, por meio do Espírito onipresente de Cristo. Jesus pretende contrastar a adoração restrita ao templo e às cerimônias com a adoração prestada por meio somente dele próprio, conforme o contexto indica. Nada há nesse texto para advogar que o culto pode ser regulado pela espontaneidade e pela criatividade. Outro exemplo é o de 2Coríntios 3:17, usado para justificar a liberdade na maneira de cultuar. Mas o contexto é totalmente outro. Paulo explica, em todo o capítulo 3, que somente pela regeneração operada pelo Espírito de Deus pode o homem compreender o evangelho prometido por Moisés. Não tem nada a ver com a subjetividade ideacional do culto, mas simplesmente com a liberação da mente e do espírito para crer em Jesus e entender as verdades da nova aliança nas Escrituras.
           
A compreensão das regras para o culto público não é simples – tanto é que nem Lutero conseguiu realizar esse trabalho totalmente. Existem regras transitórias e permanentes no Antigo Testamento, no livro de Atos, e até mesmo nas epístolas. Os próximos posts buscarão explicar pelo menos algumas dessas coisas.

            Ah, e eles serão mais curtos, prometo!


            André Duarte

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Falsos profetas, um problema urgente


            Que sempre houve falsos profetas – homens que dizem falar em nome de Deus, mas não falam –, não é surpreendente nem estranho. Visto que Deus revelou a si mesmo por meio dos seus profetas desde que começou a ajuntar um povo para si (Abraão foi o primeiro chamado profeta, cf. Gn 20:7), sempre houve um dilema em torno do problema: qual profeta realmente fala de Deus e qual não fala? A grande crise é que nunca na história houve tantos falsos profetas tolerados por aqueles que professam a fé cristã. A cessação da profecia após o cânon bíblico ficar completo foi um grande antídoto de Deus para que a Igreja se protegesse contra esses falsos, como é comprovado por toda a história da Igreja. O herege Montano, do século II, foi rejeitado pela Igreja ortodoxa devido às suas estranhas profecias, reveladas supostamente devido à chegada de uma nova era espiritual. Os reformadores rechaçaram as novas seitas místicas, como os quacres, que pretendiam que Deus falasse com eles novas revelações diretamente, contrariando a Sola Scriptura. Mas, em nossa época, a grande explosão carismática trouxe de volta o misticismo e a busca por novos profetas de Deus em larga escala. É possível encontrar a cada esquina uma igreja com um sujeito que tem “dom de profecia”; alguns montam verdadeiros “consultórios” e fazem propagandas de si. E não é admirável que tais profetas novos estão sempre associados a teologia estranha e a descontinuidade com a Igreja histórica. Como é grande o número de iludidos!
           
O senso comum esqueceu que falar em nome de Deus é coisa seríssima. A lei de Deus trata com a máxima severidade aqueles que profetizam falsamente. E oferece, inclusive, critérios pelos quais se pode identificar quem é falso. Veja Deuteronômio 13: um profeta, que diz ter sonhos e visões, e instigar o povo de Deus a adorar falsos deuses, deveria ser morto. Ora, qualquer examinador meticuloso do primeiro mandamento dos Dez sabe que a idolatria não vem necessariamente acompanhada de nomes de deuses pagãos ou de estátuas. A idolatria está presente em qualquer desvio da Lei de Deus, de seus princípios. Logo, qualquer profeta que oferecer ideias estranhas às normas bíblicas, que legisla em nome de Deus – agora que a Bíblia está completa – é falso e mentiroso. Ainda que profetas verdadeiros no passado tenham falado em nome de Deus para trazer maior revelação, isso não existe mais hoje, pois a Palavra de Deus está completa. A profecia existe hoje somente na medida em que o pregador expõe as Escrituras. A suficiência das Escrituras é ensinada nas últimas epístolas, como 2Timóteo e Judas, e com ela concorda a Igreja histórica, desde os Pais.
           
Infelizmente, os crentes têm mais medo de duvidar de algum profeta do que de concordar com ele. O temor de que “e se for de Deus?” induz muitos a aceitarem qualquer profecia só para tranquilizar a consciência. Porém, Deuteronômio 18:22 diz o contrário: se um profeta profetizar falsamente, não tenham medo dele. Esse capítulo abrange a advertência do capítulo 13 para caracterizar o falso profeta não apenas como alguém que fala em favor de outros deuses, mas também que fala em nome de Deus sem que Deus tenha realmente mandado. Ambos os capítulos trazem enfaticamente que esse profeta é réu de morte. Isso coloca a falsa profecia como um pecado mais grave do que o furto, o qual é penalizável apenas com multa. Coloca-a ao lado do adultério, da prostituição, do assassinato e da feitiçaria. Pense: você permitiria que um pastor em adultério impenitente pregasse na sua igreja? Você iria visitar a irmã com dom de prostituição? O diácono da sua igreja pode ser um macumbeiro? Por que, então, falsos profetas são tolerados e cridos tão facilmente?

            A verdade é que falar em nome de Deus sem que ele tenha ordenado é uma transgressão clara do terceiro mandamento: “Não usarás em vão o nome do Senhor teu Deus”, com a cláusula grave “pois o Senhor não deixará impune quem usar o seu nome em vão”. Falsos profetas transgridem esse mandamento. Eles abusam do nome de Deus. Dizem que Deus “colocou essa palavra no meu coração” para que seja mais aceito pelos ouvintes. Não confiam que a exposição da Escritura é a verdadeira profecia eficaz para penetrar os corações (Hb 4:12). Confundem os seus sentimentos e intuições com a voz de Deus e, além de quebrar o terceiro mandamento, quebram o primeiro, por chamarem a si mesmos de deuses. E enquadram-se nas proibições de Deuteronômio 13 e 18. Um verdadeiro profeta chamará a Igreja para ouvir o que a Bíblia diz, pois a Bíblia é a única Palavra que certamente vem do verdadeiro Deus. A interpretação do pastor não é palavra de Deus, por mais que ele insista que recebeu a mensagem por sonho, visão ou aquela percepção esquisita que os carismáticos tanto adoram.

            Deuteronômio 18 também coloca um outro critério para que o povo de Deus reconheça um falso profeta: que as profecias não se cumprirão. Se um profeta falar algo que não acontecer, ele falou falsamente em nome de Deus, pois a palavra de Deus é fiel e verdadeira. Esse é um critério óbvio. Quem ler os livros dos profetas no Antigo Testamento verá que os verdadeiros profetas sempre falavam contra os falsos. Os falsos pregavam a segurança da cidade (Ez 11:1-3). Pregavam que Jerusalém não seria conquistada pelos babilônios, embora merecesse (Jr 28). E veja as observações de Jeremias nos versículos 7-9: o falso profeta prega o que o povo quer ouvir. Por que não é surpreendente que os profetas de hoje só falam coisa boa? Que você terá muitas vitórias, que Deus vai resolver o problema no seu casamento, que as portas de emprego vão se abrir, que o seu filho vai sair das drogas... Houve, por acaso, um único profeta bíblico que não pregou contra o pecado? Que não disse que estavam todos errados, precisavam se arrepender e voltar à obediência a Deus? O pregador que faz isso, mesmo em igrejas hoje em dia, é rejeitado e impopular. O próprio evangelho é ofensivo e inconveniente: quem gosta de ouvir que é pecador, que todos os esforços próprios para ser justo são vãos, e que a salvação vem de fora, do Filho de Deus, e que você nada pode contribuir para isso? É uma facada no orgulho. Essa é a mensagem verdadeira que os pregadores, em sua atuação profética, devem proclamar.

            Agora, os falsos profetas de hoje são mais espertos do que os da época do cerco em Jerusalém. Eles sabem que, se, por acaso, a palavra deles não se cumprir, vai pegar mal. Então, eles profetizam quase sempre coisas tão vagas que ficam inverificáveis. Quando eu era membro de igreja neopentecostal, presenciei vários exemplos. Em certo acampamento de adolescentes, um homem “cheio do Espírito” profetizou que “Deus me disse que há um adolescente aqui que está brigado com os pais, mas Deus está restaurando o relacionamento”. Eram mais de 100 adolescentes. Que há, no mínimo, um adolescente brigado com os pais dentre 100, é um fato estatístico óbvio, não uma revelação sobrenatural! Em certa vigília, noutra ocasião, um adulto respeitado se levantou e disse que Deus mostrou para ele que um grande mal estava vindo sobre Brasília, mas que Deus o havia afastado. Como alguém pode averiguar isso? Não obstante, todos os presentes assumiram como verdadeiro sem nenhum bom motivo e gritaram “aleluia”. Em outra vigília, um pastor convidado, de uma Assemb das maiores denominações pentecostais, mandou fazer uma fila para receber profecias dele. Estupidamente, entrei na fila, querendo ouvir qualquer coisa boa. Ele orou por mim e disse “Olha... eu vi direito na sua vida”. De quantas maneiras convenientes eu poderia interpretar isso?  Que eu vou cursar direito no Ensino Superior? Que será na pós-graduação? Que eu vou estudar direito para passar em concurso público – o que é também estatisticamente muito provável, tratando-se de Brasília? Que um dia eu contratarei um advogado para me defender? Que eu vou casar com uma? Um último exemplo: certa vez, fui por conta própria, ainda adolescente, a uma famosa “profetisa” na Ceilândia. Era dessas malucas que usam o método de usar versículo-biscoito-da-sorte (abrir a Bíblia aleatoriamente, e dizer que o texto aberto era a resposta pro meu problema particular). Não lembro muito bem o que ela me disse, mas, à minha mãe, disse que ela tinha culpa na questão dela. Quem não tem culpa? Quem pode dizer que sofre inocentemente neste mundo caído? Assim são todas as profecias modernas: vagas, impassíveis de verificação e quase sempre dizem o que é agradável. Quando um falso profeta moderno profetiza com especificidade, sua palavra tem tanta probabilidade de se cumprir como de não se cumprir; as duas maneiras são atestáveis. E não faltam aqueles que usam de charlatanismo para fazer profecias específicas certas (como aquele pastor carismático que usava fones de ouvido para que sua esposa passasse para ele informações sobre os membros da igreja). As profecias dos verdadeiros homens bíblicos são exatamente o contrário: frequentemente dizem o que dói no orgulho, as profecias são verificáveis e específicas e apontam sempre para a glória de Deus.

            E quanto às congregações enganadas por esses profetas? São vítimas? Em realidade, eles são culpados também. Pois nenhum falso profeta existiria se não houvesse quem o admirasse. Ezequiel 14 diz algo severíssimo: que Deus detesta tanto o falso profeta como quem vai procurá-lo (1-8). E os versos 9 a 11 acrescentam: o próprio Deus engana o falso profeta para que ele minta ao povo, e depois destrói ambos por crerem na mentira. Falsos profetas são ímpios instrumentos de Deus para castigarem aqueles que os procuram. Paul Washer disse que falsos mestres são o juízo de Deus sobre a multidão idólatra. Se o povo já não estivesse anteriormente desejando regozijar-se na mentira, jamais iria atrás de um falso profeta, o qual, por sua vez, cessaria de existir. Não há lugar para o pensamento humanista “poxa, mas a pessoa estava tão bem intencionada e sincera”. Ninguém que não ouve a voz do Bom Pastor, cujos ensinos estão registrados pelos apóstolos, está bem intencionado e sincero diante dele.

            Não são apenas pastores ou “profetas” que dizem falar em nome de Deus. Devido à crença carismática em que o Espírito fala audivelmente e independentemente da Bíblia, todos os crentes carismáticos tendem a confundir seus próprios pensamentos com a fala de Deus, ou seus sentimentos com a direção do Espírito. E mesmo leigos são encorajados a “ouvir a voz de Deus”, a elevar suas intuições a uma normatividade espiritual. E qualquer um que disser “Deus me disse isso”, ou “Deus colocou essa palavra no meu coração” é automaticamente aprovado com grande júbilo. Vimos que a Bíblia fala severamente sobre o cuidado com os profetas – inclusive, na própria época em que a profecia era dom comum na Igreja (1Co 14:29). Hoje em dia, como podemos responder à questão do “e se”? Como saber se alguém falou de Deus ou de si mesmo? Simples: se alguém estiver pregando fielmente o que a Bíblia ensina, está exercendo a profecia corretamente. Se alguém, por outro lado, disser que suas próprias palavras são palavras de Deus, é mentiroso. Por que? Porque a única segurança que a Igreja tem é dentro do que as Escrituras já ensinam. Elas são definitivas e eternas. Jesus Cristo já veio – o grande profeta dado como solução em Deuteronômio 18 já falou ao seu povo. Veja como o escrito de Hebreus diz: “No passado Deus nos falou pelos profetas; agora, ele nos falou pelo seu Filho” (Hb 1:1, 2). Jesus é o nosso grande profeta que nos ensina pelo seu Espírito (Jo 14, 16). E ele faz isso não em vozes particulares e novas, mas pela própria Escritura. A Bíblia é a palavra proclamada por Deus, ela é a manifestação da vontade do Espírito para as nossas vidas. As revelações novas cessaram com os apóstolos e os poucos profetas do primeiro século. A Bíblia é útil e eficaz para nos instruir a respeito de tudo o que precisamos (2Tm 3:16, 17). A mania profética dos carismáticos precisa ser execrada pelos fiéis.


            André Duarte

domingo, 13 de outubro de 2013

Ordenação feminina: uma heresia tolerada



          Acredito que há poucos sintomas do mundanismo do século XX que subjugaram a Igreja com tanto sucesso quanto o feminismo. É raro encontrar igrejas atualmente que ainda mantêm o ensino bíblico de que somente homens podem ser líderes e mestres no culto público. Interessantemente, o feminismo teve pouco sucesso no que diz respeito à liderança do homem no casamento, mas muito no que é relativo ao governo masculino na Igreja. Neste post, veremos o que a Bíblia diz sobre as permissões e proibições da mulher e as falácias que os crentes feministas usam para justificar seus desvios.

            1Coríntios e as cartas pastorais são livros normativos importantíssimos quando pretendemos saber como cultuar Deus no culto público oficial da Igreja. 1Coríntios é uma das primeiras epístolas (antecedida apenas por Gálatas e as duas aos tessalonicenses), e normatiza diversas das disposições típicas da era apostólica, como dons miraculosos. Já as cartas pastorais foram escritas no fim da vida de Paulo, quando ele procurou ensinar a Igreja sobre como o culto e a vida eclesiástica deveriam ser conduzidos após a liderança dos apóstolos. Deve saltar aos olhos que, em ambas, Paulo proíbe que as mulheres liderem ou ensinem homens, o que já deveria ser argumento suficiente para rechaçar as alegações de que esses dogmas eram transitórios. E, em ambas, o mesmo apóstolo diz também o que as mulheres podem e devem fazer. Vejamos, pois, as normas.

            Em 1Coríntios 11 e 14, estão as notas sobre as mulheres. Na primeira referência, os versículos 3 a 16 falam sobre a submissão feminina ao governo masculino; na segunda, os versículos 33 a 35 falam sobre a submissão ao ensino dos homens. Veja a referência em 11:3: o cabeça do homem é Cristo e o cabeça da mulher é o homem. Nenhum verdadeiro cristão diria que a liderança de Cristo sobre o homem é transitória ou cultural. O mesmo pode ser dito do versículo 7: o homem é a imagem e glória de Deus, e isso é um estatuto perpétuo e espiritual; logo, a disposição seguinte de que a mulher é a glória do homem também deve ser. Argumentar o contrário é arbitrar sobre o contexto das Escrituras. Paulo baseia sua ordem sobre a submissão feminina ao homem não em qualquer disposição cultural de sua época, mas na ordem da pura criação de Deus antes da queda: é o que dizem os versículos 8 e 9. E Paulo diz: “por essa razão e por causa dos anjos, as mulheres devem ter sobre a cabeça um sinal de autoridade”. Assim, ele estabelece esta relação de causalidade ou base: a mulher deve ser submissa ao homem em matéria eclesiástica por causa das funções atribuídas pelo próprio Deus desde a criação. Tal como os estatutos da criação são absolutos, também são essas ordens.

            Segundo ainda o capítulo 11, o que a mulher pode então fazer no culto público? O versículo 5 diz que ela pode orar e profetizar. Isso é importante para o entendimento da referência em 14:33-35, que diz que as mulheres não podem falar na Igreja. A ordem sobre o não falar não deve ser um silêncio absoluto, pois o mesmo apóstolo dissera anteriormente que elas podem orar e profetizar (obs: “profetizar”, aqui, significa o dom sobrenatural de revelação, não a pregação da Palavra, como em outros textos bíblicos; conferir Atos 21:9). Se a proibição em 14:33-35 não abarca a oração e a profecia, o que então está proscrito? O contexto do capítulo 14, que fala sobre a ordem e a sobriedade no culto, indica que as mulheres não devem falar de forma a atentar contra essas coisas; por exemplo, intrometendo-se nas profecias dos homens, de forma subversiva. Também ali, Paulo diz “permaneçam em submissão, como diz a Lei”. Duas coisas podem ser aprendidas dessa expressão: que a ordem tem, mais uma vez, fundamento na Lei de Deus, e não na cultura dos coríntios, e que a submissão está posta em oposição ao “falar”. Logo, deduz-se que essa fala proibida é de natureza rebelde contra a autoridade masculina. E é exatamente essa a transgressão das pregadoras e pastoras: a fala delas no culto público ignora totalmente a submissão ao homem. Pois não é apenas na administração da Igreja (regência) que existe liderança, mas também na pregação (docência): quando uma mulher prega a Palavra de Deus aos homens no culto público, ela está exercendo a autoridade da Palavra sobre aquilo em que se deve crer e a que se deve obedecer. Assim, ela transgride a ordem da criação divina: que é o homem que deve liderar a mulher.

            Em 1Timóteo 2, Paulo dá mais ensinos sobre a adoração no culto público. Os últimos versículos reforçam o que foi dito sobre 1Coríntios: a mulher deve aprender do homem, jamais ensiná-lo. E a base para essa ordem é, de novo, a criação: que Eva foi enganada pela serpente e então enganou Adão. Mais em seguida, no capítulo 3, Paulo fala sobre os oficiais da Igreja: todos homens. Só mais uma referência: em Atos 1, quando Pedro conclama os presentes para a escolha do apóstolo substituto de Judas, ele determina vários critérios, dentre os quais: ser homem. “É necessário que escolhamos um dos homens que estiveram conosco...”. O termo aqui não é o anthropos, o ser da espécie humana, mas sim o andros, o homem, masculino, XY. Essas referências devem bastar para chancelar o ensino que a Igreja segue desde a sua fundação, e que, somente nos dias de hoje, após a revolução feminista, tem sido perversamente combatido: não existem pastoras, mestras, professoras (a não ser de crianças), líderes, convidadas especiais para pregar, etc. A mulher não pode ensinar autoritativamente o homem no contexto eclesiástico, nem deve administrar a Igreja. A liderança foi dada aos homens.

            Por outro lado, temos diversas tarefas que são dadas às mulheres na Igreja. Já vimos que orar e profetizar são permitidas por Paulo. Outras, por exemplo, são: dedicar-se à criação de filhos piedosos (1Tm 2:15); oferecer hospitalidade, “lavar os pés dos santos” e socorrer os atribulados (1Tm 5:10), ensinar as mulheres mais jovens a serem piedosas (2Tm 2:3-5), pregar o evangelho a descrentes fora do contexto de culto (Jo 4:28-30), ser missionária em suporte ao marido (At 18:26). Além disso, elas podem participar das atividades de culto em que não se faz distinção entre homens e mulheres, como cantar (Cl 3:16), exortar-se mutuamente e participar dos sacramentos. É um grande erro que as mulheres hoje almejem participar de ministérios exclusivamente masculinos – liderar e ensinar homens – e deem pouca importância a todos esses outros serviços. Até mesmo liderar e ensinar outras mulheres é permitido, mas isso parece não ser suficiente para os apetites errantes das feministas crentes.

            Agora, vamos aos argumentos mundanos. Em primeiro lugar, existe um pressuposto mundano muito comum e generalizado de que submissão é algo humilhante e liderança é algo positivo. Mulheres modernas têm horror à palavra submissão. Porém, Jesus subverte completamente esse pressuposto quando diz: “os reis da terra governam a terra e exercem poder sobre ela. Não será assim, porém, entre vós. Ao contrário, quem quiser ser o primeiro deverá ser o último, e quem quiser ser grande deverá ser o escravo de todos. Pois nem o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20:25-28; Mc 10:42-45). Veja que maravilhoso: o Filho de Deus, Rei e Criador, voluntariamente decidiu servir à humanidade que criou. E é com base em sua obra e exemplo que devem os cristãos agirem uns com os outros (Ef 5:21). Lembrem também de João 13 e a história do lavar os pés. Biblicamente, submissão é algo honroso e muitíssimo agradável a Deus. Quem vê com desdém um papel de submissão está falando contra a própria obra do Senhor Jesus, e assemelha-se aos mesmos governantes e reis sobre os quais Jesus disse: não será assim entre vós.

           Submissão não é sinônimo de inferioridade, nunca. Jesus Cristo serviu a humanidade, e nisso provou-se superior a todos os homens, único digno de ser aceito por Deus como sacrifício. E, de forma alguma, a Bíblia atribui inferioridade à mulher. Pois as referências supracitadas dizem que o homem e a mulher são interdependentes. A mulher veio da costela do homem, mas o homem nasce da mulher, e ambos são criados por Deus (1Co 11:11, 12). A única vez em que a Bíblia atribui fraqueza à mulher é para a proteção dela pelo marido (1Pe 3:7). Pressupor inferioridade a partir da submissão é um argumento mundano, não canônico. Para Deus, o homem e a mulher são iguais em valor e favor; diferem apenas na função.

            Os defensores da ordenação feminina dizem que as proibições bíblicas são argumentos culturais. Ou seja: porque na época de Paulo as mulheres eram oprimidas pelos homens, ele ordenou que elas não fossem líderes na Igreja, para não escandalizar os convertidos. Ou então algumas variantes: que as mulheres na época eram analfabetas e, por isso, não tinham capacidade para ensinar, ou que o apóstolo estava apenas tentando corrigir um problema local de indisciplina. Essas explicações são meras especulações insustentáveis por dois motivos: primeiro, porque Paulo fundamenta suas proibições na ordem da criação de Deus, e não nas circunstâncias locais, como já foi demonstrado; segundo, porque Paulo não está de forma alguma sendo conivente com a cultura. Pelo contrário, ele está sendo contracultural. Nas religiões gregas e romanas, as mulheres eram frequentemente sacerdotisas, dirigentes de cultos pagãos. Paulo diz: não pode ser assim na Igreja. (Inclusive, a controvérsia toda sobre o uso do véu e do cabelo em 1Co 11 tem a ver com a identificação com tais sacerdotisas prostitutas, o que as mulheres cristãs devem rejeitar: logo, também contracultural). Não há razão alguma para pensar que Paulo estava apenas sendo bonzinho com a sociedade, ou ajustando a Igreja para as limitações da época. Ele estava sendo desafiador. E, aparentemente, continua sendo hoje. As sacerdotisas prostitutas pagãs de Corinto e Éfeso se foram, mas as feministas vieram substituí-las.

            E quanto às mulheres líderes na Bíblia? Simples: todas elas foram líderes civis, nunca de Igreja. Ester foi rainha, Débora foi juíza. Líderes políticas, não espirituais. Vale notar que a própria Débora era “machista”: pois ela apenas tomou o lugar de juíza porque o fraco Baraque não quis assumir o seu papel masculino, e ela admitiu que isso era uma desonra para ele. Se as feministas realmente querem seguir o exemplo de Débora, devem dizer aos homens o que ela disse: sejam homens! O que ocorre em muitas igrejas modernas é que os homens não estão cônscios de seus papéis masculinos. São preguiçosos e lentos. A lacuna é preenchida pelas mulheres, que tendem a ser mais prestativas. A culpa é dos dois gêneros: das mulheres, por usurparem a função dos homens; dos homens, por permitirem isso, recusando-se indolentemente a tomar seus postos. Ester e Débora não são desculpa para essa usurpação. O exemplo delas, que é aprovado por Deus, apenas ilustra que as mulheres podem ser líderes na esfera civil: gerentes, diretoras, presidentes. Na esfera eclesiástica, isso é errado.
           
A ordenação feminina é uma distorção da própria natureza do pacto de Deus com a sua Igreja. Sabemos que, no casamento, a mulher é submissa ao homem, assim como a Igreja é submissa a Cristo. A mesma analogia é usada por Paulo em 1Coríntios 11:3 ao dizer que, como Cristo é o líder dos homens, o homem é o líder da mulher. Ambas as relações – matrimoniais e eclesiásticas – derivam suas estruturas da aliança entre Deus e o seu povo. Quando uma Igreja permite que mulheres governem sobre homens, seja por decisões administrativas, seja pela pregação da Palavra, ela peca contra as propriedades do pacto de Deus. É tão absurdo quanto a esposa mandar no marido, quanto a Igreja mandar em Jesus. O movimento feminista na esfera civil tem algo a contribuir. Nas esferas matrimoniais e eclesiásticas, não há nada. Que o homem não deve oprimir a mulher, isso já é dito na Bíblia, não é nenhuma novidade trazida por mundanos do século XX. O resto é lixo satânico. A Igreja deve seguir as ordens bíblicas colocadas pelos apóstolos e profetas há 2000 anos, e é ridículo pensar que um movimento de 50 anos veio finalmente levar o povo de Deus à interpretação correta da Bíblia.
           
O que fazer, então? As mulheres devem abandonar suas atividades masculinas e dedicar-se às femininas. E os homens devem tomar posse de suas atividades de liderança e ensino. Para que o propósito de Cristo em purificar a sua Igreja e fazê-la conforme a sua imagem seja cumprido, é necessário que a Igreja se arrependa de sua simpatia pelo feminismo eclesiástico e torne à submissão à Palavra de Deus, imutável, infalível e suficiente.


            André Duarte

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Relacionamentos amorosos: uma análise à luz da Escritura - II, O Casamento - Parte 3: O Divórcio



Hoje, ainda no tópico do casamento, trataremos da questão, atualmente, um tanto quanto difícil: o divórcio. Muito tem se debatido sobre o assunto, e hoje vemos uma triste realidade, que consiste num constante aumento do número de divórcios entre cristãos. Entretanto, quais são as prerrogativas bíblicas para o divórcio? O que a Escritura permite ou proíbe? Vejamos a seguir:

Uma das primeiras ocorrências sobre o assunto se encontra em Deuteronômio 24.1-4:

“Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança.”

Segundo esta porção da Escritura, já podemos verificar algumas coisas. Quando se achava “coisa indecente” (que, ao contrário do que muitos pensam de ser algo arbitrário - como se Deus fosse arbitrário -, “coisa indecente” aqui se refere a pecados sexuais, como discutiremos mais tarde) no cônjuge, se lavrava um termo de divórcio, as duas pessoas, pra todos os efeitos, se tornavam solteiras (que até poderiam se casar novamente, como diz em “se ela... for e se casar com outro homem”). Aqui até mesmo vemos uma advertência com uma mulher que teve um segundo casamento, se o segundo marido morrer, ou se divorciar dela, não pode voltar para o primeiro marido. Entretanto, como vemos em 1 Co 7.10,11, se não houve um segundo casamento, o ideal para o caso seria a reconciliação com o antigo cônjuge ou até mesmo o celibato. O segundo casamento é lícito, entretanto, não incentivado pela Escritura, como bem vemos aqui.

Um grande erro é ignorar o que o Antigo Testamento tem a nos dizer pois “já se passou”, “estamos na era do Novo Testamento”, na “era da Graça” ou qualquer coisa do gênero, com o intuito de denegrir a autoridade do Antigo Testamento para nossas vidas. Na pessoa de Jesus Cristo, claro, houve uma nova aliança, e o Antigo Pacto foi atualizado e plenificado no Novo testamento, mas isso não pode ser desculpa para não ler e entender o Antigo Testamento. O próprio Jesus disse que não veio para revogar a Lei ou os Profetas, antes, para cumprir o que eles diziam (Mt 5.17). E um grande exemplo dessa ignorância com o Antigo Testamento reside na questão do divórcio: com o pretexto do Antigo Testamento “não valer mais”, tudo é possível, tudo é plausível no que tange casamento, divórcio e recasamento, deixando de obedecer ao que o SENHOR demanda de Seu povo, pecando contra ele. Na verdade, são apenas seus corações pecaminosos que disfarçam libertinagem sob um véu de pseudo-piedade, pois querem fazer o que seus corações querem, e não o que o SENHOR demanda.

Entretanto, mesmo para esses, cujos corações negam o Antigo Testamento, o Novo Testamento tem muito a dizer sobre isso, e em nada discorda com a Antiga Aliança. Vejamos um trecho bastante conhecido sobre o assunto:

“Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]. Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita.” Mateus 19.3-12.

Aqui, avaliamos uma série de ensinamentos ditos por Jesus. Os fariseus vieram a ele perguntando se poderiam repudiar sua mulher por qualquer motivo; Jesus, porém, só abriu uma cláusula possível para o divórcio, que são as relações sexuais ilícitas, assim como Deuteronômio previa. Aquele que repudia da sua mulher por qualquer outro motivo, na verdade, não se divorciou dela licitamente e, casando com outra, adultera, pois nunca deixou de ser casado.

Mais, Jesus arroga a autoridade do casamento desde o Primeiro Casal, mostrando que o casamento não é uma união vã, um contrato entre partes, como muito se vê por aí, mesmo entre crentes. O Casamento é uma união completa de duas pessoas; não são mais dois, apenas uma só carne. A ideia de divórcio, sob o espectro do Primeiro Casamento, seria uma coisa impensável, pois como vai se dividir em pedaços e ainda assim fazer viver algo que é uma coisa só? Novamente, é algo muito sério a ser levado em consideração, que o Casamento é um passo pra uma união sobremodo maravilhosa, que exige responsabilidades sobremodo grandiosas, mas recompensadoras. Lembremo-nos que o Casamento é figura, é “imagem e semelhança” do relacionamento de Deus e Seu Povo; como se pode dividir tão maravilhosa união? Como se pode destruir comunhão tão poderosa? Nada nos separará do amor de Cristo (Rm 8.31-39), tampouco se deve destruir o relacionamento humano do qual é imagem, do qual glorifica a Deus em semelhança, que é o Casamento.

Entretanto, a Moisés foi dado permitir o divórcio, tão somente no caso de adultério porque assim também é o caso com alguém que “adultera” seu relacionamento com Deus que, ao trocar o verdadeiro Deus por outros deuses (paganismo, dinheiro, poder, sexo, misticismo, e por aí vai; Calvino já dizia que “o coração humano é uma fábrica de ídolos”, logo, qualquer coisa é motivo pra idolatria, se você elevá-la o suficiente no seu coração), Deus então lavra sua carta de divórcio, relegando oficialmente como fora do corpo de Cristo, fora da comunhão com o Deus Vivo, sobrando apenas a condenação eterna para “adúltero espiritual” (Ezequiel 16 é o maior exemplo dessa figura, vale a pena conferir). Como diria Hebreus 10.26-30:

"Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo."

Então, aquela pessoa que deliberadamente continua imerso em pecado, aquela que tem outros deuses em seu coração, merecerá o castigo eterno de Deus, o eterno divórcio da união com o Eterno Deus.

Enfim, vemos então que o Casamento, como figura do relacionamento de Cristo e a Igreja, não deveria ser anulado, pois a união reflete a união de Deus com Seu povo. Entretanto, o divórcio é permitido, somente no caso de relações sexuais ilícitas, que é um ensinamento que percorre do Antigo para o Novo Testamento, nunca sendo por qualquer outro motivo. Por mais que um Casamento esteja ruim, destruído, estilhaçado, isso não será motivo diante de Deus para que haja divórcio. Apesar de muito difundida, a ideia de que é o amor que segura a aliança e o compromisso é uma ideia humanista e não bíblica; é a aliança que segura o amor, é o compromisso que alimenta e sustenta o amor do Casamento. Atentemos e roguemos a Deus para que entendamos estas verdades e vivamos para Ele, cada dia mais.


Que Deus possa abençoar a todos nós.
Marcel Cintra