O assunto da música precisou
de dois posts, por causa de sua complexidade e dos abusos grandemente numerosos
que têm sido cometidos. O primeiro post expôs o tipo de letra que Deus ordena
que seja cantado. Agora, neste post, devo comentar sobre a aplicação dos princípios
do PRC sobre a música propriamente e sobre a postura dos ministros e da
congregação.
1. Seja a
composição musical feita com reverência e publicidade.
Enquanto a
Bíblia nos instrui sobre o conteúdo das letras, ela não nos ensina nada claro
sobre a melodia. Embora muitos salmos contenham, em seus subtítulos, indicações
melódicas, o significado delas ficou perdido na história. Sendo assim, o povo
de Deus tem liberdade quanto à melodia das composições para o culto público.
Porém, ainda permanecem aplicáveis os princípios de reverência e publicidade
para a música. Pela reverência, entende-se que a composição musical não pode
instigar as emoções humanas a perderem o senso de solenidade. A esse ponto, a
execução da melodia pelos instrumentos está vinculada, e trataremos disso no
próximo ponto. Basta enfatizar aqui que a melodia deve ser regulada pela
reverência devida ao Senhor, e não servir às voláteis emoções humanas. Pois é
perceptível que a melodia, bem como o andamento e o ritmo, possui o potencial
de instigar a sensação dos ouvintes às mais variadas emoções, no tipo e na
intensidade. Nenhuma dessas emoções deve desviar-se da adoração racional ao
Santo Deus, e a composição musical deve zelar por isso. Por publicidade,
entende-se que as músicas devem ser facilmente executadas pela congregação. Pois
não é a uma equipe especializada que as Escrituras ordenam cantar e tocar, mas
sim a todo o povo de Deus em conjunto. Consequentemente, nenhuma música deve
ter tonalidade tal que as mais variadas capacitações de homens e mulheres não consigam
atingi-la. Nem devem ter melodia difícil de aprendizagem. E tampouco devem os
músicos abusar da seleção de músicas novas; do contrário, a congregação estará
sempre ouvindo e tentando aprender, e nunca realmente cantando com segurança. Essa
foi uma das preocupações dos reformadores com a música: torná-la pública. Hinos
com melodia fácil e previsível, letras compreensíveis para o leigo, e o refreio
na suplantação do velho pelo novo. Se os músicos buscarem sempre músicas novas
e negligenciarem as velhas, estarão roubando da comunidade o direito de cantar
em paz.
2. Seja a execução musical feita com
reverência e publicidade.
Esse ponto
depende do anterior em muitos aspectos. Pois, certamente a composição tem em
vista a forma da execução, de forma que esta depende daquela. Porém, ainda que
a composição preze pela simplicidade e pelos princípios já expostos, é comum
que os músicos esbanjem sua criatividade em arranjos e em acréscimos de
harmonias, linhas melódicas sobrepostas e instrumentos. Nisso, devem ser eles
também refreados. Sobre os instrumentos musicais, a Bíblia dá ordens para a sua
execução, como os salmos e os exemplos dos levitas nos livros das Crônicas nos
mostram. Muitos puritanos aboliram os instrumentos do culto cristão por
entenderem que eles estavam necessariamente vinculados ao momento dos
sacrifícios, que foram evidentemente encerrados. Porém, a Bíblia nos dá
exemplos de instrumentos musicais tocados no culto mesmo sem haver sacrifícios.
Se Deus não ordenou que parássemos com eles, então eles podem continuar. Porém,
ainda assim, seu uso deve ser moderado, especialmente em nosso tempo em que os
maiores ídolos humanos são artistas musicais. O músico, no culto público, não
pode de forma alguma equiparar o brilho de sua execução musical ao dos artistas
mundanos. Ele não pode deixar seus talentos tão evidentes de forma que eles
chamem a atenção do público e obscureçam a glória de Deus. Isso não quer dizer
tocar mal, mas sim não tocar tanto. Os instrumentos devem ser poucos e
secundários, limitando-se a auxiliar o público na execução do canto. É natural
que os músicos objetem a isso alegando que, quanto maior a magnificência da
execução e da complexidade instrumental, mais apropriado é o louvor a Deus,
pois “devemos fazer o nosso melhor”. Isso pode ser aceitável em outras
ocasiões, mas não no culto público, por causa do princípio da publicidade. No
culto público, inclusive na música, o principal é o cântico da congregação.
Instrumentos muito complexos, numerosos ou notórios não ajudam em nada a
congregação a cantar a uma só voz. Em lugar de um canto público, teríamos uma
tocada particular para um público. Isso tem sentido somente em shows, não em
cultos. O mesmo vale para as vozes. Os cantores devem limitar-se a servir de
apoio para a congregação. Corais, orquestras e solistas não fazem mais do que roubar para
si o que é do povo. A Igreja não é chamada para ir assistir a uma apresentação
musical, mas sim para cantar a Deus. Alguma arte ajuda a Igreja a louvar; muita
arte é exibicionismo reprovável. Em lugar de glorificar o nome de Deus, os
músicos que abusam dos instrumentos e da voz colocam os seus talentos no foco,
e cobrem a glória de Deus como uma neblina. Portanto: que a música preze pela simplicidade,
pelo uso contido dos instrumentos e por uma execução que pertença em igual
nível aos músicos e à congregação. Se os músicos estão fazendo mais do que a
congregação pode fazer, extrapolando o que é necessário para ajudá-la, algo
está errado.
3. Que nenhum músico roube a atenção devida
a Deus.
Como
sabemos que é necessário haver músicos no culto? Com que direito das Escrituras
sancionamos o “ministério da música”, ou algo do tipo? Ora, é óbvio que a
congregação precisa do direcionamento de alguém que entenda de música. Como
poderão tantos leigos cantar a uma só voz, no mesmo tom, em uníssono, no mesmo
ritmo? Entendemos que a existência dos músicos valida-se pela própria
existência de diversidade de dons, os quais Deus concede para a edificação do
seu povo. Agora, é difícil colocar músicos de forma que não chamem a atenção
para si, mas que limitem-se a ajudar a congregação a cantar corretamente,
quando aprendemos na vida ordinária a admirar além da medida sóbria os músicos
temporais. Por isso, a Igreja deve tomar medidas para que os músicos não fiquem
em evidência além do necessário. Percebe-se, então, que grande desvio cometem
as igrejas que, confundindo culto com show, fazem questão de colocar os músicos
no lugar mais visível e que insistem que a comunidade deve olhar para eles e
imitar seus gestos, danças e outras invenções humanas. Não é Cristo dissipado
das mentes do povo quando toda a atenção é exigida dos músicos para si? A
verdade teológica das letras não some da sensação do povo quando os músicos
ficam falando e balbuciando suas emoções durante o andamento da música? Quando
os músicos fazem isso, imitam os ídolos gospel, os quais não se envergonham se
assentarem-se em tronos de anticristos quando percebem que podem comandar e
manipular o povo como quiserem por meio de manifestações teatrais de sua
presença. Mas as Escrituras ordenam o contrário: que imitem humildes servos do
Senhor, que apontem e chamem a atenção para o Filho de Deus, e não para si.
Isso nunca poderia ser demasiadamente enfatizado, devido à posição
peculiarmente difícil inerente àquele que serve como músico.
Pela mesma
razão, e pela falta de autorização bíblica, dizemos que “ministro de louvor” é
um ofício inexistente. Já dissemos que os músicos são necessários. Porém, o
ministro de louvor é aquele músico principal, que fica falando inutilidades à
congregação, que toma a posição no centro dos músicos e que comanda toda a
execução musical, bem como a própria seleção de músicas. Esse ofício não tem a
aprovação das Escrituras e não serve em nada para a edificação, mas somente para
a confusão. Ele é o principal que faz as coisas reprovadas no parágrafo
anterior: que chama a atenção para si, que coloca-se como um dirigente acima
dos demais – sendo que os ofícios de autoridade não podem ser outros além
daqueles que a Bíblia define, os presbíteros e diáconos –, que usa a sua voz
para si mesmo, e não para servir de apoio à comunidade, que fala uma série de
coisas particulares e em nada pertinentes, etc. Os outros problemas desse
ofício inventado pela imaginação pecaminosa estão no seguinte e último tópico.
4. Que o fim da música seja Deus, e não o
homem.
Para
encerrar, é adequado que todo adorador de Deus pergunte: pra quê música? Por
que Deus ordenou que houvesse música em seu culto instituído? Porque ele não
deixou só oração e pregação, prescindindo dessa arte? A Bíblia não explica por
quê. Mas, podemos especular algumas coisas. A música tem essa peculiaridade de
falar ao coração de uma forma particular. Ela é muito útil quando trazida para
o contexto do culto. Ela facilita a memorização das doutrinas por causa da
metrificação e da melodia. É muito mais fácil decorar uma música do que decorar
um texto de igual extensão. Ela facilita que o povo de Deus aprenda a verdade
das Escrituras. Nisso, ela ajuda a congregação a declarar quem Deus é. Essa é a
função da música: declarar, proclamar a verdade de Deus, de forma que o povo
aprenda facilmente a sã doutrina e a use para adorá-lo. Logo, o fim da música é
Deus, e o que ela faz em nós é melhorar nossas mentes para proclamar com mais
clareza e riqueza sobre quem Deus é. Isso sim glorifica Deus.
Agora,
quase todas as igrejas modernas perderam essa reflexão. Aceita-se, sem
contestação, que o fim da música é o homem. Muitos não conseguem imaginar a
execução da música sem aquela coisa estranha chamada “ministração”. E essa é
outra função do ministro de louvor, outra corrupção do uso da música no culto.
Parece que o pressuposto é que a música deve mover nossas emoções para que nos
elevemos a um estado espiritual mais sensível e mais límpido para que Deus nos
edifique. Isso é, como eu disse, uma corrupção do propósito da música, em nada
diferente do que as religiões pagãs fazem por meio dos mantras. A Escritura
jamais nos autoriza a usarmos a música no culto para esse fim no homem.
Ministração é invenção supersticiosa de mentes maculadas com religiosidade
primitiva. É uma transgressão do culto racional, um retorno a religiões romanas
e africanas. É incompatível com a solenidade e com a edificação espiritual do
culto público. Embora a ministração seja feita com o pretexto de edificação,
essa tal edificação tem significado completamente diferente daquilo que a
Bíblia define. Em nenhum lugar a Bíblia associa edificação com esse sentir-se
bem e emocionar-se positivamente. Edificação, de outro modo, é sempre vinculada
à instrução e assimilação da verdade de Deus. A ministração não instrui
ninguém, não é o meio ordinário escolhido por Deus para o arrependimento e a
santificação e não tem lugar no culto público. Emoções nunca devem existir senão
em consequência de perceber a verdade de Deus. Emoções produzidas por mantras
ou por quaisquer outros meios psicológicos não são válidas no contexto de adoração.
E ninguém deve buscar isso na música do culto. Quem faz isso incorre no pecado
do desvio da finalidade. A ministração faz de Deus um meio para o homem; faz do
homem o fim. E a insistência em produzir emoções na ministração necessariamente
levará à quebra da reverência e da sobriedade. Desses momentos emotivos, surgem
as espontaneidades loucas, as glossolalias e outros surtos psicopatológicos; e
qualquer observador atencioso perceberá que tais inovações carismáticas nada
fazem para produzir fruto espiritual, mas são excelentes para envergonhar o
nome de Cristo entre os gentios.
André
Duarte






