quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PRC 9 – Ofertas


           Este é um dos últimos posts da série. Depois dele, vou fazer só mais dois: um sobre os sacramentos e outro sobre o dia de domingo.

O assunto das ofertas é rápido e tranquilo. As controvérsias teológicas são relativamente fáceis de resolver. O tema do post é sobre o elemento do culto público que consiste em dar ofertas em dinheiro para a Igreja, com vistas à aplicação justa e ao crescimento do reino de Deus. Pela pouca atenção que o Novo Testamento dá ao assunto, muitas igrejas nem mesmo consideram que o ato de ofertar é obrigatório no culto público. Quando os apóstolos falam sobre ofertar, é quase sempre para o auxílio emergencial em uma situação específica. Por exemplo, temos 1Coríntios 16, em que Paulo fala para a Igreja fazer as doações no domingo. Como foi um caso extraordinário por causa da fome em Jerusalém, não fica tão claro que as ofertas são obrigatórias a cada domingo. Mas, pelo menos podemos saber que é algo permitido recolher ofertas no culto público. O Antigo Testamento fala bastante sobre o ato de dar ofertas, mas os aspectos de descontinuidade com o Novo são tantos que é difícil aplicar literalmente as ordens do Antigo.

Por exemplo, no Antigo Testamento, as ofertas eram em alimento para o sustento dos pobres e dos levitas. Os levitas cuidavam do tabernáculo e, depois, do templo, e apenas a eles isso era permitido. Não possuíam propriedades como as outras tribos. Viviam das ofertas. Os dízimos eram dados a eles e aos outros pobres – viúvas, órfãos e estrangeiros. A ideia é a da provisão para quem não pode ganhar sustento por conta própria. Lemos em Malaquias 3 que Deus ordena que seja dado todo o dízimo, pois, do contrário, os pobres ficariam sem esperança. Na Lei, especialmente em Deuteronômio, aprendemos que havia três dízimos: o dízimo da produção anual, o dízimo para a comemoração das principais festas como a Páscoa, e o dízimo do que havia sido estocado por três anos. Além disso, havia algumas outras ocasiões de ofertas, como a dos primeiros frutos da terra.

Essa realidade é muito diferente daquilo que encontramos no Novo Testamento. Lemos em Atos 2 e 4 que os membros da Igreja começaram a espontaneamente ajudar uns aos outros com seus bens e dinheiro. Enfatizo o “espontaneamente” para que ninguém com inclinações esquerdistas pensem que o “ter tudo em comum” era uma regra para a Igreja. Em outras passagens, vemos claramente que havia ricos e pobres e que havia propriedade privada. O princípio da solidariedade aqui é que ninguém na Igreja deveria ficar desamparado. Ao contrário do que vemos no Antigo Testamento, a prática de doação envolvia dinheiro, e não simplesmente alimentos (por causa do tipo de sociedade mais centrada no mercado, e não tanto em terras). Depois, em Atos 6, Lucas registra a instituição do diaconato para a administração desses bens, devido ao descuido que estava começando a acontecer com viúvas de judeus helenistas. E, por todo o Novo Testamento, lemos sobre essa prática constante de se dar dinheiro a oficiais da Igreja para que ajudassem os membros em necessidade. Esse é um aspecto de continuidade: os pobres tanto do Antigo como do Novo testamentos deveriam receber ajuda dos irmãos mais abastados.

Com o passar do tempo, foi necessário esclarecer que a ajuda aos pobres deveria obedecer a certos critérios. Por exemplo, em 2Tessalonicenses, Paulo diz que “quem não quiser trabalhar também não coma”. O dinheiro da Igreja não deve ser usado para bancar indolentes e preguiçosos. Em 1Timóteo 5, Paulo diz que as viúvas devem receber ajuda dos seus filhos em primeiro lugar. Além disso, somente viúvas mais idosas (idade de 60 anos) podiam ser inscritas no rol de sustentadas pela Igreja; as mais novas devem se casar e ter filhos, para que as primeiras fossem bem atendidas. O versículo 16 dá a conclusão: “Se alguma crente tem viúvas em sua família, socorra-as, e não fique sobrecarregada a Igreja, para que esta possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas”. Existe, portanto, uma ordem de prioridade na ajuda que deve ser prestada pela Igreja. Os administradores do dinheiro da Igreja, que resolverão e aplicarão essas regras, são os diáconos, os quais devem também preencher os requisitos de 1Timóteo 3.8-10.

Até aqui, vimos que o dinheiro dado à Igreja deve ser dado à assistência regulada dos pobres que não têm outra possibilidade de se sustentar. Outra aplicação do dinheiro da Igreja é para o salário de pastores e missionários. Em 1Timóteo 5.17, 18, Paulo diz que os presbíteros docentes são “dignos de duplos honorários”. Alguns interpretam esse termo como se o significado fosse apenas respeito e reverência, mas o versículo 18 deixa claro que trata-se do sustento para o trabalho. Os presbíteros docentes devem ter salário pago pela Igreja para que possam se dedicar integralmente ao ministério da pregação. Também, o próprio Paulo, sendo missionário, deixa claro em 1Coríntios 9 que, como tal, tem o direito de ser pago pela Igreja. Embora ele voluntariamente tenha procurado se sustentar com trabalho próprio, o princípio que ele estabelece é que missionários, plantadores de igrejas, devem receber ajuda financeira da Igreja. Esse salário aparenta ser uma continuidade sutil do sustento dado aos levitas. Assim pode ser considerado, desde que se entenda que há muito mais descontinuidade do que continuidade entre os levitas e os presbíteros em diversos aspectos.

Essas são, portanto, as funções do dinheiro dado à Igreja: sustento de missionários, salário do pastor e socorro aos necessitados da Igreja. Naturalmente, a Igreja pode e deve também ajudar necessitados fora da Igreja, desde que os da família da fé estejam sendo atendidos em primeiro lugar. Agora, e quanto à quantidade? E o tal do dízimo? Novamente, temos o problema da descontinuidade. O dízimo não é ensinado no Novo Testamento para os cristãos, e a descontinuidade entre os testamentos na natureza das ofertas nos faz compreender que essa fração não é obrigatória. A regra está em 2Coríntios 8 e 9. Paulo dá duas normas: que as ofertas devem ser segundo as posses de cada um e que devem ser dadas com alegria e liberalidade. A primeira norma diz respeito à proporcionalidade: quem tem mais deve dar mais e quem tem menos deve dar menos, para que ninguém fique sobrecarregado. Como a proporção de 10% era a norma no Antigo Testamento, muitos teólogos entendem que essa medida é boa também no Novo. Isso é verdade, mas até certo ponto. Devemos lembrar que, quando se trata de dinheiro, e não de comida, algumas coisas mudam. Um pobre que recebe 500 reais e dá 50 sente muito mais falta dessa porção do que um rico que ganha 20.000 e dá 2.000. É muito estranho que igrejas não se importem com isso e ordenem o dízimo como se fosse uma medida obrigatória e absoluta, especialmente quando não cumprem a obrigação de dar assistência aos pobres da Igreja. Então, é necessário ter cautela quanto a essa questão da proporção.

Com relação à segunda norma, o que Paulo nos diz é que as ofertas devem ser dadas com o propósito correto no coração, com desprendimento e sincero desejo de prestar socorro. Isto é, as ofertas são atos de amor aos pobres e ao Reino de Deus. Se alguém dá ofertas por motivos legalistas, ou pensando em benefício próprio, como se pudesse atrair o favor de Deus com isso e prosperar, então o motivo é contrário ao que Paulo ordena. É um pecado e um desacato ao próprio culto público. Esse é apenas um dos muitos motivos por que a teologia da prosperidade, ou mesmo uma pequena fração dela que, de qualquer maneira, instigue os congregantes a dar ofertas para receber de volta, é uma heresia que deve ser exterminada.


Por fim, para o bom testemunho público e para que a adoração simples seja protegida, não é correto que o ato de dar ofertas ocupe preeminência no culto público. Muitas igrejas neopentecostais fazem desse elemento praticamente o centro do culto, o que é uma desonra ao ministério da Palavra e dos sacramentos. Que seja uma prática não negligenciada, mas exercida com discrição e posta à periferia.

André Duarte

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

PRC 8 – Declaração de fé


            Estamos chegando ao final da série sobre o Princípio Regulador de Culto, na qual tenho procurado expor quais são as formas pelas quais o povo de Deus deve adorá-lo no domingo e como devem elas ser feitas. No próximo post, falarei um pouco sobre ofertas. Aqui, quero tratar da questão da declaração pública do que a Igreja crê. Isso envolve testemunho para os descrentes, manutenção da sã doutrina para os crentes e fórmulas sistemáticas em forma de credos.
           
            1. Textos de prova.

Esse assunto é um tanto difícil, porque há pouca evidência bíblica explícita para o uso de declarações confessionais. Ainda assim, quero colocar alguns textos bíblicos que falam sobre o quanto elas são importantes. Em primeiro lugar, temos diversas ordens dos salmos para fazermos proclamações em voz alta no culto público. “Na presença dos fiéis, proclamarei o teu nome” (Sl 52.9); “Falarei dos teus feitos poderosos, ó Soberano Senhor; proclamarei a tua justiça, unicamente a tua justiça” (Sl 71.16). Um particularmente interessante é o do salmo 22, messiânico: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na assembleia te louvarei”. Curiosamente, não é apenas Davi que diz isso, mas também Jesus Cristo proclama no culto a grandeza de Deus conosco, conforme Hebreus 2.11, 12. O fato de que os salmos falam sobre a declaração da grandeza de Deus aos fiéis, de maneira não necessariamente vinculada ao cântico e à leitura da Bíblia, e ainda no contexto do culto público (a “assembleia”), já nos indica que a confissão de fé é parte do culto dominical. Perceba também que a proclamação da qual Davi fala não pode ser também identificada com a pregação, pois ele era rei, e não levita. Essa proclamação, portanto, deve pertencer ao povo comum.
           
Essa realidade não é apenas declarada no Antigo Testamento. As chamadas epístolas pastorais também nos dão indícios de que a Igreja neotestamentária também usava fórmulas para expressar a doutrina cristã claramente. Diversas vezes, Paulo usa a expressão “Esta afirmação é digna de aceitação”, e refere-se várias vezes à apreensão da “sã doutrina”. E em certas passagens, ele escreve uma declaração dessa sã doutrina de maneira poética e sistemática. Por exemplo: “Não há dúvida de que é grande o mistério da piedade: Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória” (1Tm 3.16). A ênfase em que se ensine e proclame a doutrina tal qual fora passada (2Tm 3.10) sugere que a Igreja já era acostumada com frases resumidas da fé cristã. Nessa mesma fase de transição da Igreja apostólica para pós-apostólica, vemos também os ensinos concisos e assertivos de João, em suas epístolas, especialmente no que se refere à confissão. Veja a frequência, na primeira epístola, dos termos “Aquele que diz X é isso; aquele que diz Y é aquilo” (1Jo 1.6, 8, 10; 2.4, 22, 23; 4.3, 4, 20). Certamente, João desejou que, após sua morte, a Igreja tivesse com clareza os tópicos fundamentais da fé cristã a fim de que, pela confissão, fossem distinguidos os verdadeiros crentes dos demais. Sei que essas passagens, por si sós, provam pouco, mas creio que elas estão em harmonia com outras passagens e argumentos que estou usando, como os salmos supracitados.
           
A declaração de fé é enfatizada diversas vezes na Escritura também no contexto de evangelismo. São bem conhecidas as afirmações de Jesus: “Todo aquele que me confessa diante dos homens, eu o confessarei diante do Pai”. Jesus estava falando, evidentemente, do culto particular, na vida ordinária dos crentes, em qualquer circunstância em que fosse necessário confessá-lo como Senhor. Porém, a Bíblia também deixa claro que o culto público é também ocasião de evangelismo para descrentes. Que os descrentes deveriam ouvir a doutrina de Deus na Igreja, na condição de visitantes, para se converterem, é afirmado claramente em 1Coríntios 14.20-25. Assim, a Igreja deve proclamar a sã doutrina aos descrentes também no culto dominical.
           
Por fim, temos os exemplos históricos desde o segundo século. O Credo Apostólico e o Credo Niceno estão entre os mais famosos e antigos da Igreja. Devido à multiplicação de heresias, foi necessário formular credos mais amplos e catecismos. As igrejas reformadas, por exemplo, têm geralmente adotado a Confissão Belga, a Confissão de Heidelberg e a Confissão de Westminster com o Catecismo Maior e o Breve Catecismo.
           
O ponto a que esses textos nos levam é que a Igreja deve, conjuntamente (sem perder a ordem e a reverência no culto), declarar em alta voz a doutrina da fé cristã nos pontos claros e fundamentais para a edificação dos fiéis e a exposição da verdade aos visitantes.

            2. Os benefícios da confissão de fé.

            Quase todas as igrejas evangélicas atuais abandonaram o antigo costume de adotar confissões de fé. Em outros casos, elas adotam, mas nunca a tornam pública para a congregação. Ou, ainda, formulam uma confissão tão rasa que não ajuda a esclarecer quase nada. O argumento mais comum contra a adoção de uma confissão de fé é a “sola scriptura”. Dizem que uma igreja deve ter somente a Bíblia como regra, e não uma confissão inventada por homens. O argumento é falacioso e desprezível, por mais bem intencionado que esteja. Uma igreja confessional saudável deixará claro para os membros que a confissão de fé não tem o mesmo nível de autoridade que a Bíblia, e sim que ela é uma exposição resumida, clarificada e sistemática do que essa igreja crê que a Bíblia ensina. A Bíblia tem pontos mais claros do que outros, mais urgentes do que outros, mais polêmicos do que outros e mais fundamentais para a sã doutrina do que outros. As confissões de fé buscam, então, tornar essas coisas compreensíveis e simplificadas para o público. Uma Igreja que diz que adota somente a Bíblia e nenhuma confissão de fé está se enganando. Pois, se as confissões de fé são interpretações da Bíblia que cremos ser fiéis, então elas não diferem substancialmente do que aquilo em que a congregação de qualquer igreja assente quando ouve um sermão, quando canta um louvor ou simplesmente quando participa do culto de qualquer forma. Nenhuma igreja sobrevive sem apoiar-se em certa interpretação da Bíblia e, na realidade, nenhuma atividade humana é possível sem a mediação da interpretação do mundo. Portanto, o que igrejas confessionais fazem é atribuir unidade, consistência e clareza na interpretação. As não-confessionais, por outro lado, fazem da interpretação algo múltiplo, fluido, sem definição e sem publicidade. Eis aí o ambiente propício para o afloramento de heresias.
           
Confissões de fé trazem vários outros benefícios. Elas mostram aos crentes visitantes exatamente que tipo de igreja está ali e o que ele pode esperar dela caso deseje tornar-se membro. Elas limitam o poder dos pastores, de forma que eles não podem pregar nada nem exercer tal autoridade que a confissão adotada não autorize. Elas tornam os pontos fundamentais da fé claros e explícitos para que nenhum membro da Igreja consiga disseminar heresias. Elas dão aos membros sensação de consistência, coerência e, portanto, segurança. Elas também mostram os critérios usados para a disciplina eclesiástica, para a acepção de novos membros e para a doutrina que se permite ser ensinada. Também elas anunciam aos descrentes, de maneira simples, as coisas em que a Igreja crê, e que todos os membros podem proclamar como um só corpo para o mundo. Elas identificam a igreja ali presente com a cristandade histórica, mostrando ao povo de Deus que ela está inserida em um contexto maior, no qual Deus trabalha por séculos. Nesse sentido, elas unem os cristãos presentes aos outros tantos que os precederam.

            Basta comparar igrejas confessionais com as não confessionais e qualquer um admitirá qual dos tipos possui maior unidade na fé e na comunhão. Fui de uma igreja não confessional por muitos anos e congrego hoje em uma confessional histórica, e dá pra perceber que grande diferença faz. Essa igreja não confessional, na verdade, até possui uma confissão de fé. Mas, em todos os meus 15 anos como membro, somente duas vezes ela foi lida publicamente (e eu sempre fui membro assíduo). E ela é tão curta que pode ser lida inteira em menos de um minuto. Ela não explica praticamente nada. Em certo lugar, ela diz “Cremos na ordenança da Ceia do Senhor”. E só. Não resolve nada sobre transubstanciação, consubstanciação, simbolismo, quem pode ministrar, quem pode participar, para quê serve, se pode pizza no lugar do pão, etc. O único ponto específico e que não causa ambiguidade é o que afirma o continuísmo dos dons, justamente o que consideramos errado. Não há absolutamente nada sobre soteriologia. Teoricamente, uma pessoa pode pregar o calvinismo e o arminianismo. Porém, na prática, existe um consenso entre os pastores sobre uma série de coisas que nós membros nem ficávamos sabendo e pelas quais éramos repreendidos mesmo assim. Unidade nenhuma pode subsistir nesse tipo de igreja.

            Outra ilustração, pertinente ao que qualquer um no Brasil pode observar, é o contraste entre igrejas batistas e presbiterianas. No geral, apesar das exceções, as igrejas presbiterianas preservaram até hoje a sã doutrina muito melhor do que as batistas. Há vários motivos por que isso aconteceu, mas um deles é o seguinte: o povo das igrejas presbiterianas (no geral) está repetindo a mesma confissão de fé domingo após domingo, enquanto o das batistas não. A falta de consistência das igrejas batistas sobre sua identidade deu entrada aos espíritos liberal, carismático e empresarial. Não há dúvida de que, após uma ou duas gerações, os crentes que deixam de lado sua confissão de fé histórica acabam esquecendo quem eles são.


            André Duarte

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

PRC 7 – Leitura pública e pregação da Bíblia



                No culto público bíblico, vemos frequentemente as ordens para a leitura pública das Escrituras e o ensino a respeito dela. O ensino bíblico, a pregação da Palavra, é realmente o centro do culto cristão, o mais importante momento da adoração. Afinal, trata-se da própria Palavra de Deus proclamada e aplicada, a qual penetra até o íntimo do ser (Hb 4.12). Leitura e pregação são coisas distintas, mas resolvi tratar de ambas no mesmo post para não ficar desnecessariamente longo e repetitivo.

            A leitura da Bíblia em voz alta é ordenada desde Moisés até o Apocalipse. Em Dt 31, Deus ordenou que, no ano do cancelamento das dívidas, a Lei fosse lida em voz alta pelos levitas para o povo “para que ouçam e aprendam a temer o Senhor, o seu Deus, e sigam fielmente todas as palavras desta lei”. Ao entrarem em Canaã, Josué leu para os israelitas toda a Lei de Moisés, conforme havia sido ordenado (Js 8). A leitura pública regular da Lei, juntamente ao ensino dos levitas, era necessária para manter o povo sempre consciente da natureza de sua fé e dos mandamentos de Deus. Em contrapartida, quando o povo esquecia da Lei, o resultado era a apostasia. Isso fica claro quando os servos do rei Josias encontram o livro da Lei no templo abandonado. O povo estava no auge da rebeldia contra Deus porque as Escrituras estavam completamente esquecidas, jogadas em um canto qualquer. Mais ou menos como hoje.

            O ensino da Lei, que consiste no esclarecimento da Lei lida, era também dever dos levitas (Lv 10.11; Ml 2.7). E, mesmo que as Escrituras não houvessem sido totalmente esquecidas, a corrupção religiosa do povo era frequentemente acompanhada de um ensino parcial e distorcido da Lei. Veja que atuais as reclamações dos profetas: “os intérpretes da Lei não me conheciam” (Jr 2.8); “como podem dizer ‘somos sábios, pois temos a Lei do Senhor’ quando a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?” (Jr 8.8); “profetas e sacerdotes igualmente praticam o engano” (Jr 6.13); “Seus sacerdotes cometem violência contra a minha lei e profanam minhas ofertas sagradas; não fazem distinção entre o sagrado e o comum; ensinam que não existe nenhuma diferença entre o puro e o impuro; e fecham os olhos quanto à guarda dos meus sábados, de maneira que sou desonrado no meio deles” (Ez 22.26); “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos” (Os 4.6); “Seus profetas são irresponsáveis, são homens traiçoeiros. Seus sacerdotes profanam o santuário e fazem violência à lei” (Sf 3.4); “porque vocês não seguem os meus caminhos, mas são parciais quando ensinam a lei” (Ml 2.9). Veja como Deus é zeloso pela correta pregação da sua Palavra. Não basta que o ensino seja derivado de um texto bíblico, o ensino precisa ser fiel e correto ao que o texto realmente ensina. E a história se repete sempre e permanece real hoje em dia: os cristãos vivem ignorantes a respeito da revelação de Deus, cheios de humanismo, subjetividade e vazio espiritual, ao mesmo tempo em que os pastores dão semanalmente sermões parcos, ocos, tortos e infiéis.

            O melhor exemplo de leitura e pregação da Bíblia que vemos no Antigo Testamento é o do escriba Esdras, um levita. Quando os muros de Jerusalém foram restaurados por Neemias, Esdras fez a leitura da Lei de Deus (Neemias 8.3) e os levitas “leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido” (8.8). Que era ocasião de culto público, embora excepcional, deduz-se dos versículos 9 e 10, que dizem que aquele dia era santo ao Senhor. Notar também que o versículo 6 diz que todo o povo ouvia com atenção a leitura, que demorou do amanhecer ao meio-dia. Esse é o modelo que as igrejas devem seguir: que o ministro ordenado faça a leitura das Escrituras e então exponha o seu significado para a congregação a fim de que todos entendam bem o texto. E, pelo princípio da reverência, é claro que os cristãos devem ouvir a leitura e a pregação com todo o amor, temor, fé e submissão (naturalmente, desde que a pregação seja mesmo fiel – não esqueçamos dos bereanos).

            No Novo Testamento, esse padrão continua, em ainda maior glória. Timóteo, o jovem pastor de Éfeso, recebe a seguinte instrução de Paulo: “dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino” (1Tm 4.13) e que “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4.2). O que se aplica a Timóteo também se aplica aos outros presbíteros, os quais são ditos que trabalham “na pregação e no ensino” (1Tm 5.17) e que devem ser “aptos para ensinar” (3.2). E, no famoso versículo de 2Tm 3:16, Paulo fala sobre a total perfeição, inspiração, aplicabilidade e eficácia das Escrituras. Assim, o ofício da leitura e da pregação da Palavra permanece a cargo dos presbíteros da Igreja tal qual fora com os levitas para Israel.

            Mas a maior glória desse ensino hoje é devido à expansão das Escrituras, tanto na quantidade de textos como na clareza que eles transmitem sobre Cristo. É bem claro que, já na época dos apóstolos, os escritos neotestamentários eram considerados inspirados por Deus no mesmo nível do Antigo Testamento. Várias vezes, Paulo exige que sua carta seja lida em voz alta para a Igreja que a recebesse, sendo tal carta imbuída de autoridade canônica (Cl 4.16; 2Ts 3.14; cf. 1Co 14.37). Paulo também atribuiu ao evangelho de Lucas autoridade divina (1Tm 5.18). Pedro considerou as cartas de Paulo com “as demais Escrituras”, e atribuiu a ela sacralidade quanto ao modo de ser interpretada (2Pe 3.15, 16). E, por fim, o Apocalipse de João contém as advertências próprias de Escritura Sagrada: “Bem-aventurado aquele que lê e aquele que ouve as palavras desta profecia” (Ap 1.3); “Bem-aventurado o que guarda as palavras deste livro” (22.7); “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas” (22.16); “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém retirar alguma palavra deste livro, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa” (22.18, 19).

            O que vimos até aqui é o seguinte: a Bíblia deve ser lida, tanto o Antigo como o Novo testamentos, pelos presbíteros ordenados em voz alta para a congregação e, em seguida, explicada e esclarecida; e esta deve ouvir com alegria, atenção e temor.

            No que isso implica? Em primeiro lugar, que, na leitura e na pregação, os princípios da sola scriptura e da tota scriptura devem ser obedecidos. O pregador não deve ler outra coisa senão a Bíblia (em outro post, falarei sobre as confissões de fé), nem pregar de outra forma que não a exposição do texto bíblico. Logo, não é certo pregar, no culto público, sobre um livro cristão famoso. Algumas igrejas se fascinam tanto por algum best-seller (ex: Uma Vida com Propósitos) que resolvem fazer séries de pregações sobre ele, bem no culto do domingo. É de estranhar que tal fascínio não havia sido demonstrado em direção à própria Bíblia. Também é totalmente errado substituir a pregação da Palavra por testemunhos pessoais ou contos de histórias. Ao contrário, somente textos da Bíblia podem ser lidos e servir de base para a pregação, e somente a exposição dela deve ser aceita. Outro desvio comum é partir de um tema arbitrário para então buscar os textos bíblicos que falam sobre ele. Por exemplo: o pregador decidiu, do nada, que vai pregar sobre amor, então ele junta todos os textos da Bíblia sobre amor para embasar o que ele quer dizer. Embora isso não seja tão grave, é um artifício perigoso, porque é a vontade do pregador que dita o tema da mensagem, e não o texto bíblico. Além disso, fica difícil para a congregação discernir se os textos citados realmente fundamentam a conclusão do pregador. Por fim, o pregador pode muito facilmente evitar temas difíceis e jamais mencionar tal ou qual texto bíblico. Por essas razões, a forma certa e bíblica de expor as Escrituras é ler o texto e explicar para a congregação o que ele significa, como fez Esdras. Isso parece simples, mas não é, e logo ficará claro o porquê. Quanto à tota scriptura, é óbvio que o pregador não tem como falar da Bíblia inteira a cada sermão. Ele deve escolher textos, de preferência livros inteiros, para fazer séries de pregações, a fim de que a mensagem seja passada com o máximo de consistência. E deve ter o equilíbrio de pregar sobre textos de todas as partes da Bíblia conforme o passar das semanas permitir. Se ele deliberadamente nunca menciona Levítico ou prega todo dia sobre João 3.16 ou Romanos 12.2, está ignorando a relevância que toda a Escritura possui.

            Outro ponto: somente presbíteros ordenados devem ler e pregar sobre a Bíblia no culto público. Por que Paulo diz que os presbíteros devem ser aptos para ensinar? Por causa do ofício sagrado que eles possuem da exposição bíblica. Chamar leigos para subir ao púlpito e pregar, ou mesmo qualquer pessoa estudiosa que seja bem vista aos olhos da Igreja, é uma prática de igrejas modernas que não tem qualquer base bíblica. Sempre foram ministros ordenados que pregaram tanto antes como depois de Cristo. Isso porque o “ser apto para ensinar” não é fruto do Espírito (de todo crente), e sim um dom do Espírito (para apenas alguns crentes). É comum hoje em dia vermos igrejas que aceitam qualquer pessoa bem intencionada para ir dar um testemunho ou falar “o que Deus colocou em seu coração” sobre algum texto da Bíblia. Essa é a porta de entrada para total confusão doutrinária, pois pessoas leigas ainda discordam entre si a respeito de muitos pontos na doutrina. Se cada um expor sua opinião para a congregação, com a proteção do presbítero, sendo que as opiniões certamente vão discordar várias vezes, como o público conseguirá discernir o certo do errado? Esse tipo de democracia é bem bonita aos olhos do mundo, mas não possui sanção bíblica.

            Também, é sempre importante lembrar dos princípios ditos em todos os posts: primeiro, que a reverência deve marcar a leitura e a pregação. O presbítero não deve ficar fazendo piadas, não deve ficar tentando animar o público (visto como “plateia”), arrancar aplausos e gritos de “amém” etc. A congregação deve ouvir em silêncio e respeito, e o presbítero deve expor a Bíblia com todo o temor reverencial, sem perder a ousadia em proclamar a verdade. O princípio do verbo também deve ser observado: o presbítero deve usar palavras para pregar, não teatro, dança, fotos ou vídeos. Nem mesmo slides são inofensivos nesse sentido. Na simplicidade da pura palavra, o texto bíblico deve ser explicado.

            Algumas observações sobre a leitura: ela não precisa estar necessariamente vinculada à pregação. É bom que o presbítero leia em voz alta a Bíblia com a congregação, em uníssono, mesmo que não seja o texto sobre o qual a pregação será feita. Hoje, temos uma vantagem que o império romano não tinha: alfabetização geral. É bom que a congregação, hoje letrada, leia em voz alta a Bíblia junto ao presbítero. Isso é edificante e não fere nenhum princípio. Para isso, a versão da Bíblia deve ser a mesma, pra não resultar em confusão. Então, é necessário que os presbíteros decidam qual versão usar oficialmente. Segundo Augustus Nicodemos, a melhor versão é a Almeida Revista e Atualizada e, em segundo lugar, a NVI. Mais simplificada que a NVI já é exagero. Versões como NTLH deveriam ser queimadas como nos bons e velhos tempos.
           
Eu disse que a exposição da Palavra não é tão simples. A razão? Bem, quem lê a Bíblia sozinho em casa já percebeu que não é fácil pegar o sentido do texto imediatamente. O presbítero deve saber o sentido do texto com o máximo de certeza. Não deve seguir intuições, e sim pesquisar para não errar. O sentido de um texto é um só, e ele é objetivo. Não existe “isso significa X pra mim, mas pode significar Y pra você”. E, para saber o sentido de um texto, o presbítero deve conhecer bem toda a Bíblia e o sentido dela inteira. Além disso, ele precisa esclarecer o texto de tal forma que seja compreensível para o público enquanto não omite verdades teológicas complicadas. Deve também conhecer bem as opiniões erradas e hereges sobre o texto, para assim rechaçar os incansáveis falsos mestres. Eu esqueci de algo? Ah, sim: e ele deve pregar o evangelho em todo texto, fazendo a conexão pertinente entre o texto e Jesus. A pregação deve ser sempre cristocêntrica. Como disse Charles Spurgeon, se você não for pregar sobre Cristo, é melhor ficar em casa até descobrir algo melhor sobre o que pregar. Eu já fiz um post sobre pregação cristocêntrica, então não vou explorar muito isso. Mas, que o presbítero saiba que, conforme Jesus mesmo disse, toda a Escritura dá testemunho sobre ele, e ele é o centro da Bíblia. Se ele é o centro da Bíblia, naturalmente deve ele ser o centro da pregação.

            André Duarte

domingo, 8 de dezembro de 2013

PRC 6 – Música no louvor – Parte 2/2 - Sobre os músicos e o estilo musical


       O assunto da música precisou de dois posts, por causa de sua complexidade e dos abusos grandemente numerosos que têm sido cometidos. O primeiro post expôs o tipo de letra que Deus ordena que seja cantado. Agora, neste post, devo comentar sobre a aplicação dos princípios do PRC sobre a música propriamente e sobre a postura dos ministros e da congregação.

            1. Seja a composição musical feita com reverência e publicidade.
           
Enquanto a Bíblia nos instrui sobre o conteúdo das letras, ela não nos ensina nada claro sobre a melodia. Embora muitos salmos contenham, em seus subtítulos, indicações melódicas, o significado delas ficou perdido na história. Sendo assim, o povo de Deus tem liberdade quanto à melodia das composições para o culto público. Porém, ainda permanecem aplicáveis os princípios de reverência e publicidade para a música. Pela reverência, entende-se que a composição musical não pode instigar as emoções humanas a perderem o senso de solenidade. A esse ponto, a execução da melodia pelos instrumentos está vinculada, e trataremos disso no próximo ponto. Basta enfatizar aqui que a melodia deve ser regulada pela reverência devida ao Senhor, e não servir às voláteis emoções humanas. Pois é perceptível que a melodia, bem como o andamento e o ritmo, possui o potencial de instigar a sensação dos ouvintes às mais variadas emoções, no tipo e na intensidade. Nenhuma dessas emoções deve desviar-se da adoração racional ao Santo Deus, e a composição musical deve zelar por isso. Por publicidade, entende-se que as músicas devem ser facilmente executadas pela congregação. Pois não é a uma equipe especializada que as Escrituras ordenam cantar e tocar, mas sim a todo o povo de Deus em conjunto. Consequentemente, nenhuma música deve ter tonalidade tal que as mais variadas capacitações de homens e mulheres não consigam atingi-la. Nem devem ter melodia difícil de aprendizagem. E tampouco devem os músicos abusar da seleção de músicas novas; do contrário, a congregação estará sempre ouvindo e tentando aprender, e nunca realmente cantando com segurança. Essa foi uma das preocupações dos reformadores com a música: torná-la pública. Hinos com melodia fácil e previsível, letras compreensíveis para o leigo, e o refreio na suplantação do velho pelo novo. Se os músicos buscarem sempre músicas novas e negligenciarem as velhas, estarão roubando da comunidade o direito de cantar em paz.

2. Seja a execução musical feita com reverência e publicidade.

Esse ponto depende do anterior em muitos aspectos. Pois, certamente a composição tem em vista a forma da execução, de forma que esta depende daquela. Porém, ainda que a composição preze pela simplicidade e pelos princípios já expostos, é comum que os músicos esbanjem sua criatividade em arranjos e em acréscimos de harmonias, linhas melódicas sobrepostas e instrumentos. Nisso, devem ser eles também refreados. Sobre os instrumentos musicais, a Bíblia dá ordens para a sua execução, como os salmos e os exemplos dos levitas nos livros das Crônicas nos mostram. Muitos puritanos aboliram os instrumentos do culto cristão por entenderem que eles estavam necessariamente vinculados ao momento dos sacrifícios, que foram evidentemente encerrados. Porém, a Bíblia nos dá exemplos de instrumentos musicais tocados no culto mesmo sem haver sacrifícios. Se Deus não ordenou que parássemos com eles, então eles podem continuar. Porém, ainda assim, seu uso deve ser moderado, especialmente em nosso tempo em que os maiores ídolos humanos são artistas musicais. O músico, no culto público, não pode de forma alguma equiparar o brilho de sua execução musical ao dos artistas mundanos. Ele não pode deixar seus talentos tão evidentes de forma que eles chamem a atenção do público e obscureçam a glória de Deus. Isso não quer dizer tocar mal, mas sim não tocar tanto. Os instrumentos devem ser poucos e secundários, limitando-se a auxiliar o público na execução do canto. É natural que os músicos objetem a isso alegando que, quanto maior a magnificência da execução e da complexidade instrumental, mais apropriado é o louvor a Deus, pois “devemos fazer o nosso melhor”. Isso pode ser aceitável em outras ocasiões, mas não no culto público, por causa do princípio da publicidade. No culto público, inclusive na música, o principal é o cântico da congregação. Instrumentos muito complexos, numerosos ou notórios não ajudam em nada a congregação a cantar a uma só voz. Em lugar de um canto público, teríamos uma tocada particular para um público. Isso tem sentido somente em shows, não em cultos. O mesmo vale para as vozes. Os cantores devem limitar-se a servir de apoio para a congregação. Corais, orquestras e solistas não fazem mais do que roubar para si o que é do povo. A Igreja não é chamada para ir assistir a uma apresentação musical, mas sim para cantar a Deus. Alguma arte ajuda a Igreja a louvar; muita arte é exibicionismo reprovável. Em lugar de glorificar o nome de Deus, os músicos que abusam dos instrumentos e da voz colocam os seus talentos no foco, e cobrem a glória de Deus como uma neblina. Portanto: que a música preze pela simplicidade, pelo uso contido dos instrumentos e por uma execução que pertença em igual nível aos músicos e à congregação. Se os músicos estão fazendo mais do que a congregação pode fazer, extrapolando o que é necessário para ajudá-la, algo está errado.   

3. Que nenhum músico roube a atenção devida a Deus.

Como sabemos que é necessário haver músicos no culto? Com que direito das Escrituras sancionamos o “ministério da música”, ou algo do tipo? Ora, é óbvio que a congregação precisa do direcionamento de alguém que entenda de música. Como poderão tantos leigos cantar a uma só voz, no mesmo tom, em uníssono, no mesmo ritmo? Entendemos que a existência dos músicos valida-se pela própria existência de diversidade de dons, os quais Deus concede para a edificação do seu povo. Agora, é difícil colocar músicos de forma que não chamem a atenção para si, mas que limitem-se a ajudar a congregação a cantar corretamente, quando aprendemos na vida ordinária a admirar além da medida sóbria os músicos temporais. Por isso, a Igreja deve tomar medidas para que os músicos não fiquem em evidência além do necessário. Percebe-se, então, que grande desvio cometem as igrejas que, confundindo culto com show, fazem questão de colocar os músicos no lugar mais visível e que insistem que a comunidade deve olhar para eles e imitar seus gestos, danças e outras invenções humanas. Não é Cristo dissipado das mentes do povo quando toda a atenção é exigida dos músicos para si? A verdade teológica das letras não some da sensação do povo quando os músicos ficam falando e balbuciando suas emoções durante o andamento da música? Quando os músicos fazem isso, imitam os ídolos gospel, os quais não se envergonham se assentarem-se em tronos de anticristos quando percebem que podem comandar e manipular o povo como quiserem por meio de manifestações teatrais de sua presença. Mas as Escrituras ordenam o contrário: que imitem humildes servos do Senhor, que apontem e chamem a atenção para o Filho de Deus, e não para si. Isso nunca poderia ser demasiadamente enfatizado, devido à posição peculiarmente difícil inerente àquele que serve como músico.

Pela mesma razão, e pela falta de autorização bíblica, dizemos que “ministro de louvor” é um ofício inexistente. Já dissemos que os músicos são necessários. Porém, o ministro de louvor é aquele músico principal, que fica falando inutilidades à congregação, que toma a posição no centro dos músicos e que comanda toda a execução musical, bem como a própria seleção de músicas. Esse ofício não tem a aprovação das Escrituras e não serve em nada para a edificação, mas somente para a confusão. Ele é o principal que faz as coisas reprovadas no parágrafo anterior: que chama a atenção para si, que coloca-se como um dirigente acima dos demais – sendo que os ofícios de autoridade não podem ser outros além daqueles que a Bíblia define, os presbíteros e diáconos –, que usa a sua voz para si mesmo, e não para servir de apoio à comunidade, que fala uma série de coisas particulares e em nada pertinentes, etc. Os outros problemas desse ofício inventado pela imaginação pecaminosa estão no seguinte e último tópico.

4. Que o fim da música seja Deus, e não o homem.

Para encerrar, é adequado que todo adorador de Deus pergunte: pra quê música? Por que Deus ordenou que houvesse música em seu culto instituído? Porque ele não deixou só oração e pregação, prescindindo dessa arte? A Bíblia não explica por quê. Mas, podemos especular algumas coisas. A música tem essa peculiaridade de falar ao coração de uma forma particular. Ela é muito útil quando trazida para o contexto do culto. Ela facilita a memorização das doutrinas por causa da metrificação e da melodia. É muito mais fácil decorar uma música do que decorar um texto de igual extensão. Ela facilita que o povo de Deus aprenda a verdade das Escrituras. Nisso, ela ajuda a congregação a declarar quem Deus é. Essa é a função da música: declarar, proclamar a verdade de Deus, de forma que o povo aprenda facilmente a sã doutrina e a use para adorá-lo. Logo, o fim da música é Deus, e o que ela faz em nós é melhorar nossas mentes para proclamar com mais clareza e riqueza sobre quem Deus é. Isso sim glorifica Deus.

Agora, quase todas as igrejas modernas perderam essa reflexão. Aceita-se, sem contestação, que o fim da música é o homem. Muitos não conseguem imaginar a execução da música sem aquela coisa estranha chamada “ministração”. E essa é outra função do ministro de louvor, outra corrupção do uso da música no culto. Parece que o pressuposto é que a música deve mover nossas emoções para que nos elevemos a um estado espiritual mais sensível e mais límpido para que Deus nos edifique. Isso é, como eu disse, uma corrupção do propósito da música, em nada diferente do que as religiões pagãs fazem por meio dos mantras. A Escritura jamais nos autoriza a usarmos a música no culto para esse fim no homem. Ministração é invenção supersticiosa de mentes maculadas com religiosidade primitiva. É uma transgressão do culto racional, um retorno a religiões romanas e africanas. É incompatível com a solenidade e com a edificação espiritual do culto público. Embora a ministração seja feita com o pretexto de edificação, essa tal edificação tem significado completamente diferente daquilo que a Bíblia define. Em nenhum lugar a Bíblia associa edificação com esse sentir-se bem e emocionar-se positivamente. Edificação, de outro modo, é sempre vinculada à instrução e assimilação da verdade de Deus. A ministração não instrui ninguém, não é o meio ordinário escolhido por Deus para o arrependimento e a santificação e não tem lugar no culto público. Emoções nunca devem existir senão em consequência de perceber a verdade de Deus. Emoções produzidas por mantras ou por quaisquer outros meios psicológicos não são válidas no contexto de adoração. E ninguém deve buscar isso na música do culto. Quem faz isso incorre no pecado do desvio da finalidade. A ministração faz de Deus um meio para o homem; faz do homem o fim. E a insistência em produzir emoções na ministração necessariamente levará à quebra da reverência e da sobriedade. Desses momentos emotivos, surgem as espontaneidades loucas, as glossolalias e outros surtos psicopatológicos; e qualquer observador atencioso perceberá que tais inovações carismáticas nada fazem para produzir fruto espiritual, mas são excelentes para envergonhar o nome de Cristo entre os gentios.


André Duarte

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PRC 5 – Música no louvor – Parte 1/2 - Sobre as letras


            1. Expondo o problema.

Vamos passar agora a esse tema tão complexo da música no culto público, chamada comumente de “louvor”. Talvez não haja nada mais paganizado na liturgia dominical do que o elemento da música. E não é difícil entender o porquê. Música é um dos maiores ídolos da humanidade, sempre foi. A música sempre serviu como meio de expressão subjetiva, como uma arte que atinge as profundezas da alma como nenhuma outra. Porém, desde a revolução do Rock, a música atingiu um nível de influência astronômico, quase que de governo sobre o pensamento humano, por causa da mistura com a indústria, o consumismo e a ideia de liberdade de expressão. E, sendo a música também um elemento de culto público ordenado por Deus nas Escrituras várias vezes, uma batalha pela pureza do culto foi travada, uma batalha teológica, que deveria “distinguir o santo e o profano”. Os evangélicos, infelizmente, foram devastados nesse embate, absorvidos pelas bases mundanas. Ainda que muitos deles ainda entendam que deve haver base bíblica para as orações, a pregação da Palavra e os sacramentos, quase nenhum aplicará o mesmo à música. Dirão, ao contrário, que, na música, o que importa é o coração, a intenção, e que qualquer regra que porventura os tempos mais sábios já impuseram à música é mera norma de cultura.
           
O mais estranho é que ainda existem vários evangélicos que tentam colocar normas na música, mas as normas erradas. Misturam legalismo com mundanismo em um raciocínio praticamente sectário. A mais comum, penso eu, é a distinção maniqueísta entre música de louvor e música do mundo. Músicas que falem de Deus são liberadas, e músicas laicas são todas pecaminosas. Augustus Nicodemos apontou com maestria a inconsistência dessa regra carnal. Se música produzida por artistas mundanos é um pecado, então todas as outras produções mundanas também devem ser: logo, não podemos usar roupas, nem comprar comida, nem habitar em lugares feitos por mundanos. Isso torna a vida impossível. Se música mundana é a que expressa valores mundanos, então quase todas as músicas gospel devem ser também execradas por suas heresias. Além disso, todo tipo de lazer deveria ser também proibido, pois todos eles refletem algum grau de mundanismo. Porém, as Escrituras comandam o lazer com vistas à glória de Deus (Ec 9:7-10), e de forma alguma encorajam esse ascetismo maniqueísta grego (1Co 5:9, 10; Cl 2:20-23). Naturalmente, espera-se que o cristão não se divirta com músicas que encorajam o pecado, mas criar regras que façam esse tipo de distinção entre coisas de Deus e coisas do mundo é moralismo de gente imatura.

A distinção é, mais uma vez, entre os pressupostos do culto particular e os do culto público. No culto particular, podemos inventar o que quisermos que não seja transgressor para glorificar Deus. No culto público, devemos nos ater ao que a Bíblia manda e não trazer as coisas mundanas. Porém, vou mais longe e afirmo que há certas coisas muito comuns na música evangélica que são erradas em qualquer dos cultos. É óbvio que músicas com letras hereges são pecaminosas em toda circunstância. São inumeráveis as músicas gospel que são autocentradas, lançam ao chão a soberania e a santidade de Deus e tornam-no um terapeuta bobo, um namorado ou um Papai Noel. Ora, se ninguém pode glorificar Deus cometendo prostituição, por que alguém pensa que pode fazer isso usando em vão o nome dele, dizendo mentiras sobre o seu santo nome? E, tal qual os falsos profetas e blasfemos eram punidos com morte na Bíblia, também qualquer artista gospel que espalhe mentiras sobre Deus não deve ser apoiado pelo povo de Deus, mas sim excomungado e declarado anátema (já que homicídio é pecado e o Estado, único ente que poderia aplicar a pena de morte bíblica, não faz isso). Deixo pra vocês ruminarem as consequências disso.

2. Sejam as letras ditadas pela Escritura e pela reverência.

 Como sabemos que os cânticos fazem parte do culto público? Em primeiro lugar, Davi instituiu sob inspiração divina o ofício de músicos para um certo grupo de levitas (1Cr 25). As músicas que eles executavam eram os salmos de música que se encontram no livro dos Salmos. Asafe e Hemã foram dois proeminentes compositores. E os próprios salmos conclamam o povo para participar dos cânticos. É indubitável que as músicas eram parte do culto no templo de Jerusalém. No Novo Testamento, embora o templo e o ministério dos levitas tenha cessado – sim, não existem mais levitas na Igreja – a prática de cantar salmos continuou (Ef 5:19; Cl 3:16; cf. também Tg 5:13). Isso é suficiente para provar que a música é necessária no culto público.

Sobre o quê eram os cânticos? Quais eram as letras? Já vimos que os salmos eram usados na música. Os puritanos mais conservadores, por causa disso, pregam a salmodia exclusiva: que somente os salmos, e todos os salmos, devem ser cantados na Igreja. A composição espontânea é proibida. Afinal, a Bíblia nunca autorizou pessoas não inspiradas por Deus para compor seus próprios cânticos espirituais e colocá-los na Igreja; em lugar disso, o Espírito concedeu esse maravilhoso livro de salmos. O argumento é bom e tem muitas consequências positivas: a entrada de letras hereges fica impedida com maior eficiência, a conservação e o equilíbrio dos temas das letras ficam bem próximos do que a Bíblia ordena, e outras. Ainda assim, deve-se perceber que nem todos os salmos bíblicos são feitos especialmente para serem cantados. Muitos são orações, outros são ensinos sapienciais. Vemos vários cânticos na Bíblia que não são salmos (por exemplo, o Magnificat de Maria). Embora eles sejam inspirados e não equiparáveis a composições não inspiradas atuais, fica difícil arrazoar que outros cânticos além dos salmos não eram cantados pela Igreja. Além disso, a metrificação dos salmos acaba por transformá-los em músicas que se parecem com eles, mas que não são realmente os próprios salmos exatos. Portanto, se a metrificação é uma atividade não inspirada em cima dos salmos, fica incoerente proibir que haja composições cujos versos sejam também extraídos das Escrituras inspiradas.

Ora, há tantos cânticos no livro dos salmos, inspirados, inerrantes, perfeitos, entregues por Deus para que o seu povo cante a ele! É um pecado negligenciá-los. É uma desonra omiti-los. Os salmos devem sim ser cantados pela Igreja. Assim como Deus inspirou orações para nos mostrar como orar, também ele inspirou músicas para nos ensinar a cantar. Muitas igrejas praticamente abandonaram os salmos, e isso é terrível. Que músico pode arrogar que suas composições são melhores do que as de Deus? Se alguém quiser compor músicas, que extraia das palavras das Escrituras as letras. A criatividade é perigosa nesse ponto. Músicas de louvor não podem ter como base a expressão subjetiva do que o homem sente sobre Deus. Devem ser declarações verdadeiras a respeito de quem Deus é e do que ele faz por nós na providência e na redenção. Elas devem expor a majestade de Deus e a fragilidade do homem, e não o fervor do homem e a doçura de Deus. As letras mundanas, com seu sentimentalismo hollywoodiano, tornaram-se fonte de inspiração, mesmo que inconsciente, para os músicos crentes. Muitas músicas gospel são praticamente declamações apaixonadas por um namorado. Ou petições a respeito de sentimentos e liberdade de expressão, que, misturados com a Bíblia, resultam em coisas estranhas. Não interessa se você quer dançar na chuva ou sentir o fogo – essas coisas não são bíblicas.

O que as letras dos salmos dizem sobre Deus? O que os cânticos de Moisés, Débora, Davi, Maria e Zacarias dizem? Não devem esses temas ditarem o que cantamos? Como não cantar sobre Cristo, sobre a salvação e graça soberana do Senhor? Por isso, Paul Washer já disse que os músicos crentes que atuam no culto devem ser bons de teologia. Se os músicos passarem mais tempo lendo a Bíblia e outros livros teológicos e menos tempo tentando expressar os seus sentimentos ao som do violão, conseguirão produzir músicas corretas.

3. Sejam as letras ditadas, secundariamente, pelo princípio da edificação mútua.

Não basta que as músicas no culto público usem palavras da Escritura. Os versos devem tomar temas relevantes para o propósito do culto dominical, e não aqueles que, fora de seu contexto, destroem e não edificam. Um exemplo bem simples: a famosa música de prosperidade que segue Deuteronômio 28 e outras bênçãos da Lei bem de perto, dizendo que os celeiros se encherão, que possuiremos qualquer lugar onde pisemos os pés, etc. Essas coisas são bíblicas, mas não são adequadas para a canção na Igreja. Fora de seu contexto, viram teologia da prosperidade, o maior horror de nosso tempo. Essa música torna-se um cântico que só louva o próprio homem e aplica de forma errada as bênçãos prometidas por Deus (as bênçãos materiais da Lei são prometidas para a nação, e não para o nível individual). Também transgridem esse princípio todas as músicas que falam sobre coisas transitórias do Antigo Testamento – arca, Santo dos Santos, etc – e sobre metáforas vagas. Nisso, as músicas gospel são mestres. Isto é, Jesus compara o Espírito Santo a rios de águas vivas. Aí, o músico gospel compõe uma música que só fala de água, e nada de Deus. Isso é totalmente inadequado. Metáforas bíblicas nunca são usadas sem explicação e como centro de uma exposição; são meramente incidentais. São usadas para clarear o entendimento teológico. Nas músicas gospel, em vez disso, só obscurecem o significado espiritual e tornam-se balbuciações vagas pelo povo de Deus.

Além disso, os cânticos devem cantar sobre Deus e sua salvação. É isso que celebramos no culto dominical. Dessa forma, estão também proscritas as músicas que exaltam personagens e narrativas bíblicas. No culto, nós vamos cantar sobre Jesus Cristo, e não sobre Josué, Davi ou Abraão. Embora músicas sobre personagens bíblicos sejam boas para instrução em outros contextos, não correspondem à finalidade do culto público. Consequentemente, não atendem ao princípio da edificação mútua. Por quê? Não podemos aprender com o exemplo dos “heróis da Bíblia”? O ponto é que o propósito deles na história bíblica nunca foi servir de exemplo público. O nosso único inspirador e exemplo deve ser Jesus Cristo, e a história desses homens é sobre o que Deus fez por eles, e não sobre o exemplo próprio. É tolice cantar sobre pecadores salvos em lugar de cantar sobre o Salvador. Não é para eles o culto, não é sobre eles, mas sim para e sobre o Senhor.

Por fim, as letras de músicas devem ser, além de ortodoxas, profundas e instrutivas. Os cânticos são declarações artísticas sobre verdades de Deus. Eles devem conter teologia dita de forma simples, mas profunda, que realmente inspire a congregação a apreender no coração a revelação bíblica de Deus. Isso é edificação espiritual. Pensar que edificação é fazer o povo chorar e se emocionar é tolice, é doutrina mundana não bíblica. Edificação tem a ver com fé e com aprendizado, não com provocar expressões emocionais. Com isso, não negamos a emoção, mas a colocamos no lugar certo: como resultado da verdade crida e amada, e não como sinal de devoção. Emoções só duram um instante, mas a crença na verdade é perpétua.  Colocar letras emotivas e não instrutivas é como colocar um vácuo na adoração.

O próximo post tratará das outras coisas: estilo de música, papel da equipe de louvor, etc.

André Duarte

domingo, 24 de novembro de 2013

PRC 4 – Oração pública


            Vamos agora aplicar os princípios já colocados aos elementos de culto que a Bíblia autoriza. Só para relembrar em poucas palavras, os princípios são: regulamento claro das Escrituras; reverência; ordem e decência; uso de palavras, especialmente as palavras da Bíblia; relevância para a edificação coletiva. Antes de começarmos a entender como deve ser a oração no culto público, é necessário dedicar um pequeno espaço para o esclarecimento das coisas que pertencem à categoria do adiaphora.
           
Esse termo grego adiaphora – ou simplesmente adiáfora, pela transliteração – significa indiferente, ou insignificante, coisa que não é proibida nem permitida. Ora, já deixamos claro que os elementos de adoração são regulados expressamente pela Escritura e que a adição de elementos humanos não autorizados é errado. O que podem ser, então, as coisas adiáforas? São aquelas que não configuram elementos de culto, mas sim circunstâncias em que a adoração é prestada. São as que tornam humanamente possíveis as formas de adoração, ou que, pelo menos, dão grande ajuda, sem tornarem-se propriamente adoração em si. Horário de culto, por exemplo. A Bíblia não diz a que horas deve começar e a que horas deve terminar o culto. Porém, se não houver nenhuma hora, não pode haver culto. Então, os representantes da Igreja devem escolher as horas com base na conveniência das circunstâncias. Ou então: deve haver assentos? Se sim, de qual tipo: bancos, cadeiras de plástico ou cadeiras comuns? Nesse caso, alguém até poderia inferir que as casas em que a Igreja se reunia na época do Novo Testamento certamente continham assentos. Mas, a Bíblia mesmo não diz nada. Porém, se não houver assento nenhum, o culto perde sua característica pública e torna-se inviável. Pois quantas pessoas podem permanecer em pé por pelo menos uma hora? E, dessas, quais realmente disporão seus corações à edificação no culto, em vez de desviarem a mente para as dores nas pernas? Assim, é sábio que haja assentos, e do tipo que atender melhor ao princípio da edificação mútua e pública.
           
Sobre a oração, quais coisas são adiáforas? Primeiro, algo que vale para todos os outros elementos: a ordem que ocupa entre os outros elementos. Isto é, a Bíblia não diz se a oração vem depois do cântico, se vem antes da pregação, se depois dos sacramentos. Mas ela deve existir em algum momento. Os representantes da Igreja, então, escolhem em que ordem a oração é feita. E são quantas as orações? A Bíblia também não diz. O único elemento associado diretamente à oração é o sacramento da ceia (1Co 10:16). Mas, há diversos conteúdos que devem estar presentes na oração pública, e muitos deles não têm qualquer relação com a ceia. Então, é bom que haja mais de uma oração, em momentos diferentes, de forma a abarcar todas as coisas essenciais pelas quais se deve orar. E por quanto tempo deve durar a oração? Naturalmente, não deve ser tão curta que omita um conteúdo importante ou que falhe em expressar as ânsias do povo. Por outro lado, não deve ser tão longa que eclipse a centralidade da pregação da Palavra, que seja insuportável para os membros manterem a atenção, que torne-se vã repetição e que perca o seu caráter público para transformar-se em uma expressão pessoal de quem estiver orando. Então, que os ministros que orarem sejam sábios quanto à administração dessas coisas.

            Passemos a pontos mais sérios. Quem deve realizar a oração pública? Naturalmente, todos os crentes são chamados a orar. Mesmo as mulheres, que não podem exercer ofício de ensino público, oravam juntamente com os homens (1Co 11:4, 5). Paulo diz à Igreja indistintamente para orarem sempre e com gratidão (1Ts 5:17, 18), e que os homens devem orar em todo lugar (1Tm 2:8). Agora, uma conclusão errada sobre essa verdade é que, na oração, todas as pessoas devem orar e falar ao mesmo tempo as suas orações particulares. Nas narrativas bíblicas, não vemos nem um único exemplo disso acontecendo; ao contrário, é uma só pessoa que ora enquanto as outras ficam em silêncio (2Cr 6:12-42; Ed 9:5-10:1), ou, dito de outra forma, havia uma só oração feita por várias pessoas (Ne 9:4-37; At 4:24-31). Isso implica em que a oração falada da Igreja deve ser feita por um representante do povo, e as pessoas devem orar em silêncio concordando com o que ouvem. À primeira vista, isso não parece ser uma oração coletiva. Fica a impressão de que uma pessoa orando e as outras ouvindo é como restringir a oração ao ministro e impedir os outros de orarem. Por outro lado, se todos levantarem a voz ao mesmo tempo, então a oração é participativa e, portanto, coletiva. Porém, quando isso é colocado em prática, vemos que é exatamente ao contrário. Pois, se todos oram em voz alta ao mesmo tempo, cada um com as suas palavras, então cada pessoa não entenderá a outra. Se ela prestar atenção na oração da outra, parará de atentar para a própria fala. Não haverá o “a uma só voz”. Em vez disso, o resultado será que cada pessoa orará individualmente, e a coletividade significará nada mais que a contingência geográfica. Será a soma de orações individuais, e não uma oração do povo de Deus. Essa forma de oração, portanto, não é mutuamente edificante, não expressa a união da Igreja e não é adequada para o culto público.

Se, ao contrário, houver uma só pessoa orando em voz alta e todas as outras concordando com o que é dito, então sim, todos oram juntos e com uma só mente e um só propósito. E essa oração deve ser representativa para a Igreja. O ministro que realiza as orações deve orar aquilo que for adequado para que toda a Igreja concorde. Ele deve, então, ser cauteloso para não colocar a sua subjetividade no centro das palavras, mas sim os assuntos comuns, que forem relevantes para a congregação. Que seja, portanto, uma só oração por vez. Existe apenas uma possibilidade para que todas as pessoas orem em voz alta juntas: por meio de um tipo de livro de orações. É o caso em que já existem orações prescritas, e a congregação lerá as palavras de cada oração em uníssono. Embora isso seja possível, é menos preferível do que a oração representativa. Pois orações fixas e preordenadas frequentemente falham em expressar os motivos do povo de Deus relacionados às circunstâncias, que são bem flexíveis. A oração representativa pode ter essa flexibilidade, nuances que se adequam melhor à circunstância de cada dia. É possível colocar orações prescritas, mas elas não devem, de forma alguma, suprimir as orações representativas.

            Vamos agora ao assunto mais palatável: por que motivos deve a Igreja orar? Ao contrário da espontaneidade quase sem limites que vigora nas igrejas modernas, a Bíblia deixa bem claro quais motivos são legítimos e, inclusive, obrigatórios para serem levados à oração, e que tipo de motivo é proibido. Em Tiago 4, Deus proíbe que oremos por motivos egoístas e mesquinhos. Quanto aos ordenados, o que poderia ser melhor do que o livro de Salmos? Pense que Deus não apenas comanda o seu povo para que ore, mas que também entregou as palavras que ele quer que usemos, e os assuntos que ele deseja que tragamos. As orações nos salmos declaram quem Deus é: sua eternidade, sua soberania, sua santidade, sua justiça, sua misericórdia, sua providência, seu poder criador e redentor. Há muitos agradecimentos por livramentos, dos quais o central é o que hoje sabemos: a libertação que Cristo efetuou na cruz para nós. Há também gratidão pelas bênçãos particulares e históricas do Senhor: o que ele já fez pelo seu povo, acontecimentos especiais, eventos importantes, pequenas graças que ele nos concede diariamente. E há confissão de pecados diversas vezes, com o reconhecimento de nossa miséria e com a certeza da misericórdia de Deus.

            Além desse livro maravilhoso de orações e cânticos, Jesus ainda nos deu a Oração Dominical, a qual Martinho Lutero disse amar mais do que a todos os salmos juntos. Sabemos que essa oração nos é dada para o culto público por causa da introdução “Pai nosso”, algo que ficaria estranho se aparecesse em uma oração particular. Nela, aprendemos que devemos orar pelo reconhecimento da santidade do nome de Deus em toda a terra e em nossas vidas; pela expansão do Reino de Deus e pela derrota do reino de Satanás; pela rendição de todos os seres da terra à vontade perfeita de Deus; pela provisão básica de que precisamos diariamente; pelo perdão de nossos pecados e pela capacitação para o perdão ao próximo; pelo livramento de pecados posteriores. Cada petição da Oração Dominical pode ser desdobrada em inúmeras especificidades. Por exemplo, a petição do “Santificado seja o vosso nome” inclui: o sucesso das obras missionárias, o amadurecimento do povo de Deus, a tradução de Bíblias para diversos idiomas, o arrependimento dos inimigos da Igreja etc. E assim por diante.

            Mas ainda há mais. Os apóstolos adicionam outros motivos importantes da oração pública. Os ministros devem orar em favor dos doentes (Tg 5:14), em favor do alívio das ansiedades da vida do povo (Fp 4:6), pela intrepidez na pregação do evangelho (At 4:29), por causas particulares de indivíduos em circunstâncias especiais (At 12:5; Rm 15:30; Ef 6:19; Hb 13:18 etc), pela coragem diante do fim do mundo (1Pe 4:7), pelo envio de missionários (At. 13:3), pelos governantes civis (1Tm 2:1, 2; cf. também Ed 6:10). Esse último motivo é interessante para nós que vivemos em Brasília, sede do governo. Dos crentes que reclamam do governo e da corrupção, quantos têm o hábito de orar sobre essas coisas?­ E quantas vezes vemos os pastores orando com a Igreja pela justiça civil? Um dos melhores testemunhos da Igreja perseguida por Roma foi o hábito de que ela orava pelo imperador. Tertuliano usou esse argumento na sua apologia. E é um motivo importantíssimo a oração pelos governantes, porque deles dependerá a paz da Igreja.

Faltou fazer algumas aplicações mais pontuais dos princípios. A oração deve ser feita com sobriedade e seriedade. Nada de fazer piadinhas na oração. Também a fala com Deus deve ser permeada por um senso de submissão e respeito. Jesus é nosso amigo, mas é Rei e Senhor. Para quem não consegue conjugar bem a segunda pessoa, que se dirija a Deus com o termo “Senhor”. Chamá-lo de “você” é uma intimidade que, ao meu ver, é exagerada, pelo menos para a solenidade do culto público. O termo mais íntimo que ele nos concedeu para que o chamemos é “Pai” e devemos encontrar nisso o limite. Outra aplicação do princípio da edificação mútua é que o pastor não pode orar “em línguas”. Essa mania carismática deve ser execrada, pois é uma transgressão explícita de todo o argumento de 1Coríntios 14. De fato, não há nenhuma diferença entre o pastor pentecostal que ora em línguas e o padre medieval que prega em latim.

Por fim, a Igreja pode ter a confiança e a ousadia de orar a Deus porque Jesus Cristo nos tornou apresentáveis à presença dele, por meio da imputação dos seus méritos e da dádiva do livre acesso ao trono da graça (Hb 10:19-22). É isso que significa orar “em nome de Jesus”: orar com base na obra de reconciliação e purificação realizada por ele. Se orássemos em nosso próprio nome, seríamos amaldiçoados, pois Deus detesta a prece do ímpio (Pv 15:29; 28:9). E, se falhamos em orar segundo o padrão de Deus, temos o conforto do Santo Espírito que nos auxilia na intercessão (Rm 8:26, 27). E o próprio Cristo intercede continuamente diante do Pai em nosso favor, apelando ao seu sacrifício único. Que a Igreja tenha certeza de que, sempre que ela orar, toda a Trindade estará envolvida nessa atividade. E nisso nós podemos descansar.


André Duarte

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PRC 3 – Palavra X Imagem


            Temos este último post básico antes de passarmos aos elementos específicos do culto. Já vimos a distinção entre o culto particular e o público, e que o culto público deve ser marcado por reverência e solenidade em todos os seus elementos. Agora, vamos esclarecer mais um princípio geral do culto: ele deve ser essencialmente verbal, e não pictórico. Em resumo: o culto público deve ser prestado com palavras, especialmente com a própria Palavra de Deus – lida, declarada, cantada e pregada –, e não com elementos icônicos não-verbais.
           
1. Seja a palavra a forma de comunicação no culto.

Por que a comunicação do povo com Deus no culto deve ser verbal? Uma análise holística da Bíblia demonstra que a palavra “Palavra” é uma palavra-chave (yo dawg!) para o entendimento da relação de Deus com o homem. A palavra é a maneira principal e ordinária com a qual Deus se revela ao homem, e também a maneira como ele exige que respondamos. Antes da queda, Deus simplesmente falava ao homem, e o homem falava a Deus. Não havia imagens, cerimônias nem nada desse tipo. Porém, após o homem cair e se afastar do conhecimento da verdade, Deus instituiu ícones cerimoniais para ilustrar ao povo realidades sobre o Messias vindouro, aquele que restauraria o que Adão perdeu. Por isso, o culto do Antigo Testamento continha objetos sagrados, símbolos visíveis, um cenário específico, roupas que comunicavam significados. Todas essas coisas palpáveis, que apelavam a vários dos sentidos, foram encerradas na obra de Cristo. Por isso, a adoração é hoje em Espírito e em verdade: porque não precisamos mais de símbolos do que é espiritual, mas recebemos plenamente do próprio Espírito para adorar o Pai. (Os sacramentos são uma exceção que pertencem a outro post.) Jesus Cristo é o sumossacerdote eterno, o último e suficiente sacrifício, a água purificadora, o templo de Deus etc. E mais uma coisa é dita sobre ele: ele é a Palavra de Deus. O Filho de Deus é a Palavra pela qual o Pai criou o mundo, sustenta o universo e revela a si mesmo aos homens. Como Palavra divina, Jesus exerce seu ofício de profeta. Ele é a imagem de Deus – sim, a única e última imagem que realmente expressa o ser de Deus (Cl 1; Hb 1). E, pela sua doutrina e seu ensino, pelas Escrituras que testificam sobre ele e pela instrução do Espírito, ele permanece sendo a Palavra de Deus em nós.

         Tudo isso foi dito para deixar claro que a maneira como Deus quer ser adorado é por meio da palavra. A Palavra é o mediador entre nós e Deus. É por meio da Palavra divina que prestamos culto a Deus. Visto que Cristo é a Palavra encarnada e a Bíblia é o testemunho fidedigno sobre ele, segue-se que é por meio da Palavra escrita que, na dimensão dos sentidos, o culto deve ser prestado. Digo isso porque, no plano espiritual, é Cristo que faz a mediação. Porém, no plano físico, precisamos usar a Palavra que Deus nos deixou acessível nesse plano, e que corresponde à revelação de Jesus. Portanto, são inseparáveis Jesus e a Bíblia, de sorte que ninguém deve pensar que realmente adora o Pai por meio de Cristo se não usar para isso a Bíblia. Todos os símbolos e elementos de imagem somente fizeram parte do culto temporariamente, para ilustrar o que viria, mas essa não é a forma ordinária segundo a qual Deus ordena o culto. Nas palavras de Jesus: “No princípio, não era assim”.

            A Bíblia é a Palavra de Deus, e é uma palavra verbal. Calma, já explico essa aparente redundância: biblicamente, nem toda palavra de Deus é verbal no sentido a que estamos acostumados. Um exemplo é o próprio Jesus: ele é a Palavra de Deus, mas é um ser pessoal, com corpo e Espírito, não um conjunto de letras. Talvez seja o único exemplo. Mas o ponto é que a Palavra de Deus revelada na Bíblia é um conjunto de textos, frases, palavras, livros. Não é uma revelação em imagens, em esculturas ou em gifs. E é utilizando essas palavras que devemos prestar o culto a Deus. Qual é a implicação disso, na prática? É que os elementos do culto devem ser verbais, e mais do que isso – devem derivar das Escrituras o seu conteúdo verbal. Veja o que aparece no culto do Novo Testamento: oração, ensino e leitura da Bíblia e cânticos – todos elementos verbais regulados pelas Escrituras. E nenhuma dessas coisas é adornada por imagens.
           
2. Sejam proscritas as comunicações por imagens:

-Católicas romanas ou gregas: Quando pensamos em imagens no culto, talvez o mais óbvio exemplo sejam os ícones católicos: estátuas de santos e anjos, o crucifixo, as vestes sacerdotais dos padres, os vitrais e todos os adornos desse tipo. Até hoje, as duas igrejas católicas – a do Ocidente e a do Oriente – seguem a tese de João Damasceno, teólogo do oitavo século, de que imagens são obrigatórias no culto, por derivarem do princípio da encarnação: tal qual adoramos Deus Pai por sua imagem, que é Jesus, também devemos adorá-lo por meio de imagens de santos, visto que homens são também imagem de Deus. Logo, negar o uso de imagens no culto é negar a encarnação de Cristo. Não é necessário gastar tempo apontando as muitas falácias dessa heresia. A Bíblia deixa claro que Jesus é a única imagem que expressa perfeitamente o ser de Deus. E a ordem de Deus é: não fazer imagens nem dele mesmo e nem de qualquer criatura na terra, o que inclui os mais santos homens. Cristo é a única imagem de Deus que não é uma criatura. A aplicação maior desse mandamento, como as confissões reformadas reconhecem, é que Deus deseja manter íntegros todos os elementos que ele prescreveu para o seu culto. E o exemplo maior que ele dá é a repugnância ao uso de imagens. As imagens podem ser belíssimas e impressionantes aos olhos carnais. Eu mesmo amo vitrais. Mas que essas coisas não existam no culto público, e que nem sejam superestimadas no culto particular a ponto de obscurecerem a revelação principal de Deus, as Escrituras.

-Judaicas: Um grande número de igrejas neopentecostais têm flertado com o judaísmo de maneira doentia. A teologia dispensacionalista que elas adotam demonstram bem isso. Muitos pensam nos judeus como “quase irmãos”: já seguem a Bíblia quase toda, só falta Jesus. E nisso confundem judaísmo com a religião do Antigo Testamento. Mas não é a mesma coisa, de forma alguma. Judeus só se aproximam do Antigo Testamento por meio do Talmude, o livro de tradições rabínicas, e não compreendem em nada o verdadeiro sentido do Antigo Testamento. Pois o Novo ilumina o Antigo. Esse flerte com o judaísmo e essa confusão das religiões têm afetado seriamente a teologia de culto da tais igrejas. A consequência é que o culto fica cheio de imagens do Antigo Testamento: uma “menorá” no fundo do edifício (o candelabro de sete braços); uma procissão de “levitas” trazendo a “arca da aliança” (igualzinha à que aparece no filme do Indiana Jones, por sinal); às vezes um véu entre a arca e o público etc. Por mais que respeitemos esses elementos em seu lugar adequado – no Antigo Testamento, para prefigurar a realidade em Jesus –, devemos execrar por completo a continuidade dessas coisas no culto. Trazer para a prática atual os elementos transitórios da Lei é uma forma de legalismo, contra a qual os apóstolos se levantaram no Concílio de Jerusalém. Muitas das cartas de Paulo são duras a esse respeito, como a carta aos gálatas. Prestar culto a Deus por meio dessas imagens é despojar Jesus de sua majestade, é afirmar que o Messias nem veio. É adorar o que não se conhece (Jo 4). Uma blasfêmia desorientada.
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-Evangélicas: Nem todas as igrejas neopentecostais usam imagens do judaísmo. E, obviamente, nem todas as igrejas são católicas. Em vez disso, a maioria das igrejas usa tipos de imagens da modernidade, por influência não do judaísmo nem do catolicismo, mas do próprio mundo secular. A ideia é: vamos pegar essas coisas que existem no mundo e dar uma caracterizada gospel nelas. Devo dizer que essa mentalidade é a regra para igrejas novas; as que rejeitam tais imagens são chamadas chatas e preconceituosas. A que me refiro? Retornemos ao tema do primeiro post: o problema do entretenimento. A fim de tornar o culto mais parecido com o mundo, para que os mundanos gostem mais de comparecer à liturgia, vamos adorná-lo com elementos que apelam ao visual mundano. Em casos mais extremos, vemos igrejas enfeitadas com imagens laicas, sem conotação religiosa direta. No momento das músicas, por exemplo: efeitos de luzes coloridas, flashes e até fumaça. No sermão, o púlpito torna-se um banco como os de um bar, ou mesmo uma prancha de surf. O pastor se veste com uma fantasia bem descolada e jovial; ou mesmo com uma fantasia árabe. Imagens que comunicam não um culto a Deus, mas um culto aos mundanos; os visitantes pagãos tornam-se o centro e o propósito do culto. Algumas igrejas colocam a imagem do seu pastor no outdoor do edifício: o centro do culto é o pastor, nesse caso. Esses exemplos são mais pontuais (embora a parte da música seja mais complexa, e receberá mais atenção em outro post). Mas há outros dois exemplos que são encontrados em praticamente toda denominação evangélica: dança litúrgica e teatro.

A maioria dos que aprovam dança litúrgica no culto acreditam sinceramente que esse é um elemento autorizado pela Bíblia. Ainda que saibam que o culto deve ser regulado pelas Escrituras, entendem que a dança faz parte do que Deus se agrada no culto, por causa dos exemplos de Miriam e Davi. Quando alguém diz que a dança não deve ser parte do culto, a primeira resposta que vem à mente é “Mas Miriam dançou, mas Davi dançou”. E, para elucidar a questão, é necessário recordar a distinção básica entre o culto particular e o público. Miriam e Davi dançaram em seus cultos particulares. Miriam estava exultante pela libertação do Egito, e Davi estava alegre pelo retorno da arca ao tabernáculo. Sim, dançar é muito bom, dançar pela honra de Deus é aprovado biblicamente. Mas os exemplos de Miriam e Davi não justificam a dança no culto público. São exemplos pontuais que ocorrem fora do contexto do culto litúrgico. Davi dança por todo o caminho, mas não há nenhum registro, nem na Bíblia nem nas tradições judaicas, de que houve dança no culto do tabernáculo e do templo. Muito menos no Novo Testamento, e nunca na história da Igreja, até esse século de sincretismo. Muitos salmos são escritos como ordens para o povo de Deus fazer tal ou qual coisa no culto do templo, mas nenhum fala da dança (os poucos que falam da dança fazem-no no contexto de culto particular, como uma exegese cuidadosa provará).

A dança não comunica nada verbalmente – e a maioria não comunica realmente nada e limita-se à exibição de talento. Por falar em exibição, caso as dançarinas sejam ingênuas a esse respeito, quero afirmar que os homens da congregação são levados a admirar os corpos delas e desviar a mente de Deus. Pedro instrui as mulheres a irem à igreja com vestes decentes e modestas. Isso é bom, para que os homens não sejam incitados a pensamentos inconvenientes. Mas a dança é igualmente provocante. Por mais que não seja sensual aos olhos do mundo, ainda assim bagunça os pensamentos dos homens. É mais fácil para um homem pensar “Hmm, com qual dessas varoas ungidas eu vou me casar?” do que concentrar-se no ser de Deus. A disposição imaginativa masculina é um pouco mais cortante do que as moças ousam especular. E, cá entre nós, só os parentes das dançarinas gostam da dança. A maioria dos membros sai do culto rindo da desajeitada e da gordinha. Não é isso que queremos num culto congregacional. Contrária à edificação mútua e sem autorização bíblica, a dança litúrgica deve ser proibida. Enfatizo que a dança no culto particular é permitida, inclusive com músicas laicas e em lugares laicos, como discotecas (porque “boate” é um termo muito escandalizante). Com sobriedade e domínio próprio, dançar é louvável. Mas, no culto público, é errado.

Sobre o teatro, não há muito o que comentar. Se retirarmos os elementos icônicos – a atuação, o cenário, os personagens – e deixarmos só o elemento verbal da fala, temos uma pregação em vez de um teatro. Naturalmente, o teatro não é autorizado pela Bíblia. Na sua esfera profissional de culto particular, pode fazer teatro o quanto quiser. No culto, não. E é bom lembrar: nem mesmo para propósitos evangelísticos. É comum que o teatro seja um encorajamento para os membros da igreja convidarem mundanos. O convite é “vamos assistir a uma peça”. E os mundanos vão, porque eles gostam de ir ao teatro e assistir a espetáculos em suas vidas laicas. Neste ponto, espero não ser redundante, e acho que já dá pra adivinhar o problema aí: mitigação da exposição da Palavra, centralidade no mundano e exibição artística supérflua, que atrai também atenção ao artista, e não a Deus.

3. Conclusão.

Este é o terceiro post básico sobre o PRC. Até aqui, foram esclarecidos os princípios que definem o culto público e que dão forma a tudo o que é feito nele. Os próximos posts serão mais específicos e aplicarão esses princípios com mais detalhes em cada um dos elementos de culto: oração, cânticos, leitura e pregação da Palavra, declaração de fé e administração dos sacramentos.

Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. E o evangelho é o centro da Palavra de Deus. Se crermos nisso e em tudo o que isso implica, entenderemos que é tolo confiar em qualquer outra coisa além do evangelho para que alguém creia. Confiar em teatros, danças, shows, cenários e piadas é um desvio da fé no evangelho somente. Não há carência alguma no evangelho para que ele precise ser adornado. É essa verdade que nos impedirá de especular “o que mais podemos fazer de diferente, para que os mundanos nos ouçam, além de pregar o evangelho” e que nos manterá apaixonados e zelosos pela verdade da salvação em Cristo.


André Duarte