quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Menos Jesus, mais sexo


          
            Não, você não leu errado. É esse mesmo um problema do qual a Igreja deve tratar. Claro que o ideal é que o título fosse ao contrário, e é justamente essa a proposta deste artigo. Mas a realidade é bem diferente. E ela não é nova. A Igreja sempre concentrou seus esforços em reprimir práticas sexuais que julgasse contrárias às normas de Deus. Nossos pais e avós também aprenderam assim. Essa postura da Igreja focada na repressão sexual é mesmo certa?

            Estou consciente de que serei mal compreendido. A legalidade do sexo é um ponto de paranoia pra muita gente. E é natural que um discurso de evangelho seja interpretado por legalistas como um incentivo à antinomia. Leitores preconceituosos podem achar que eu proponho um relaxamento moral completo. Mas não é isso. Não pretendo questionar aqui quais proibições da Igreja estão certas e quais estão erradas. Quero apenas mostrar que legislar/administrar/julgar moralidade sexual não é o objetivo principal da Igreja.

            Retoricamente, acho que todo mundo concorda com isso – claro, com milhares de ressalvas, falta de fôlego e taquicardia. Mas por que isso não é vivido? Todo mundo sabe que os pecados sexuais são tratados, na prática, como os piores pecados. Se um marido trai sua esposa, ou vice-versa, é aquele escândalo, com o pastor disciplinando e tudo mais. Se uma adolescente engravida, vira a pessoa mais pecadora da Igreja, não raras vezes tendo de pedir desculpas publicamente. E o adolescente ou jovem que é flagrado numa boate, ou apenas ficando? Está obviamente desviado, não? Bem, a grande dúvida é: por que a Igreja não trata todos os pecados com a mesma rigidez com que trata os pecados sexuais? Por que dizer uma mentira é um pecadinho normal e corriqueiro e fazer sexo fora do casamento é a coisa mais horrível do mundo? Por que uma desavença não resolvida entre irmãos pode passar batida, mas uma ficada diminui vários pontos de santidade?

            Para além dos tratamentos, vamos pensar nos ensinos. Quais são as doutrinas mais importantes para jovens e adolescentes saberem? Todas estão, de alguma forma, relacionadas com sexo. Não estou falando nada de estranho, todo mundo sabe que é assim. Passamos muito mais tempo aprendendo a não ir pra boate, não ficar, não fazer sexo antes do casamento, não namorar descrente, e ainda um monte de conselhos práticos para não cair nesses pecados tão mais tentadores do que todos os outros, do que estudando textos bíblicos e suas aplicações além de regras sexuais. Isso é um reducionismo risível das necessidades individuais e da potência criativa da carne. Quase não ensinamos sobre todo o fruto da carne: ódio, inveja, idolatria, dissenções, facções, ganância, orgulho. Erroneamente pensamos que esses pecados menos notórios são mais facilmente resistidos do que os pecados sexuais. A verdade é que o espírito humano é corrompido para qualquer possibilidade de pecado. A pulsão da carne corre para qualquer prática contrária aos mandamentos de Deus. Além disso, o maior aspecto do pecado para ser tratado não é no nível de suas manifestações sensíveis, e sim no nível da raiz, a falsa idolatria e necessidade de justificação própria. O evangelho é o remédio para a pecaminosidade humana desde a sua gênese. Jesus e seus apóstolos não vieram ensinar uma boa moral adicionada a uma fé abstrata, mas sim uma verdade que, do começo ao fim, é pela fé, e é eficaz contra quaisquer pulsões carnais.

            Recentemente, tem havido correntes informais sendo veiculadas com mensagens heréticas, insinuando que, para um casamento de sucesso, basta casar virgem. Ou que, pelo menos, isso é o mais importante e fundamental. Por essa razão, os jovens crentes acabam casando precipitadamente, apenas para poder fazer sexo logo. Não que a idade seja um parâmetro absoluto e universal, mas, será que a licença para fazer sexo é o propósito prioritário do casamento? Da maneira como a Igreja geralmente dá a entender, sim. Acontece que, biblicamente, o casamento é ensinado do começo ao fim das Escrituras como um espelho do casamento de Deus com o seu povo. Por isso os profetas tanto comparam idolatria com adultério. Por isso há tantas metáforas (ex: Ezequiel 16) que comparam o pacto de Deus com seus filhos com um casamento comum entre homem e mulher. Paulo explica muito bem que o marido e a mulher devem se relacionar como Jesus se relaciona com a Igreja. Isso sim é aplicar o evangelho na vida prática! Mas, é esse o ensino prioritário que damos a adolescentes que namoram ou jovens que vão se casar? Infelizmente, muitos pares confiam apenas em sua virgindade e se apressam a casar sem nada compreender sobre o casamento de Jesus com a Igreja. E, por essa falta de ensino, ocorrem os divórcios depois. O divórcio é tão comum entre crentes quanto entre descrentes, e isso é assustador. Pois os crentes têm o conhecimento de Cristo e a Igreja, bem como o auxílio do Espírito. Mas, pelo descaso com essa doutrina fundamental do casamento e pela idolatria à virgindade, tudo dá errado.
           
É claro que a Igreja deve ensinar sobre as doutrinas do sexo e da castidade. Mas não por meio de repressão. Não é novidade o fato de que, quanto mais intensa a proibição, maior a vontade de transgredir. É o que ensina Romanos 7. Declarar vez após vezes todas as coisas que são erradas e ordenar a não fazê-las é apenas um banquete para a pulsão legalista do coração. Se uma Igreja quer ensinar os seus membros a serem puros, devem fazê-lo a partir do evangelho. Isso não induz a uma mesmice, pois o evangelho tem infinitas implicações e aplicações devido aos seus fundamentos eternos. E ele deve ser a base de qualquer ensino prático.

Mas, o que acontece é que a Igreja tem buscado a sua significância e relevância perante o mundo por meio de um espírito repressivo quanto a algumas coisas selecionadas que o mundo induz. Essas coisas mudam de geração em geração. Raramente ouvimos que é pecado ir ao cinema ou jogar futebol, mas isso era comum há uns 50 anos. Ironicamente, ao tentar rechaçar certas coisas com aparência de mundanismo, a Igreja se amolda a ele – pois, à medida que o mundo muda em suas especificidades, a Igreja também precisa mudar para contrariá-lo nessa precisão. Essa dinâmica continua, e o eterno evangelho é deixado de lado. A Igreja não precisa se refazer vez após vez para combater o mundanismo. Ela precisa simplesmente permanecer no evangelho, que é relevante e anti-mundano em todas as eras. Se uma Igreja pensa que que é necessário reprimir com mais força algumas práticas tipificadoras de mundanismo, ela já esqueceu o evangelho, cuja imensidão é suficiente para derrotar todo tipo de manifestação mundana através da justificação pela fé.

André Duarte

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Salmo 8




Este belíssimo salmo de Davi é um louvor quase extático pelo contraponto entre a grandeza de Deus, a pequenez humana e a incompreensível resolução para ambas: o amor de Deus pela humanidade.

Primeiro, Davi é espiritualmente surpreendido pela soberania real de Deus. Ele exclama “como é majestoso o teu nome em toda a terra”. Deus é o rei que revela a sua glória em todo o mundo. Ele louvado nos céus pelos anjos, devido à maravilha de sua perfeição manifestada em sua criação. Deus é o supremo artista e arquiteto, cuja obra é testemunho do seu grande poder e de sua infinita sabedoria. E o salmista vai além, declarando que Deus intervém na sua criação, fazendo-se conhecido entre os menores humanos – crianças e recém-nascidos. Deus protege os pequenos e indefesos, fazendo do seu nome motivo de segurança e dependência, o que resulta em louvor e adoração. Assim, os ímpios são derrotados por Deus, com o fim de que os humildes que se beneficiam dessa defesa glorifiquem o Senhor.

Essas duas constatações – a intervenção de Deus em favor dos indefesos e a grandiosidade do seu poder criador – levam o salmista a se embasbacar com o amor de Deus pelos homens. Deus criou coisas magníficas, como as estrelas, o sol, a lua, o céu. Tendo em vista essas criações belíssimas e imponentes, o homem parece insignificante. O homem é das menores obras de Deus. O salmista, entretanto, acabara de perceber a atuação de Deus pelos homens em favor dos indefesos e contra os perversos. Por que, ele pergunta, Deus se importa com os homens? Por que um Deus tão grandioso daria tanto valor a seres tão pequenos? O salmista sabe muito bem que Deus não precisa dos homens. Ele é suficiente em si mesmo. Poderia ele deixar a humanidade descuidada, tal qual o homem que não se importa com formigas. O homem é imensamente inferior a Deus. Como isso contrasta com a ideia humanista de que o homem é o maior dos seres! Em seu orgulho, os homens adoram os seus próprios pensamentos, considerando-os da maior sabedoria. Adoram seus sentimentos, pensando que eles são o que há de mais valioso. Adoram suas próprias obras, pensando que cada feito tecnológico, cada nação governada, cada poder militar é o que há de melhor. Em tudo isso, os homens ignoram o Deus que criou o universo. A ignorância e a pequenez do homem, tal qual a criança malcriada fazendo birra, resultam em desprezar Deus. Mas, Deus, que é o supremo rei da terra, que tem todo o direito de fazer aos homens o que eles fazem contra ele, em vez disso, demonstra amor pela humanidade. Isso é impressionante e incompreensível.

O salmista também percebe essa realidade do amor com base no próprio relato da criação escrito por Moisés. Deus colocou o homem como o dominador da terra. Debaixo de sua autoridade, está o resto do mundo. Esse é um direito que deveria ser recebido em espírito de adoração e gratidão a Deus, pois de forma alguma o homem é digno de comandar a terra. Por causa do pecado, ele se tornou um péssimo dominador, arrasando a natureza que Deus criou. Em vez de governar o mundo com temor a Deus, o homem o faz para a sua própria glória e, consequentemente, para a sua própria desgraça. Por isso, Paulo diz, em Romanos 8, que a natureza aguarda com grande expectativa o juízo de Deus, para que ela seja restaurada.

Importante a declaração de Davi de que o homem foi feito um pouco menor que os anjos. Não pode significar “menor que Deus” por dois motivos: primeiro, porque o salmo inteiro enfatiza justamente o quanto o homem é muito menor do que Deus; segundo, porque a citação em Hebreus prefere a tradução “menor que os anjos”. Essa citação nessa carta leva à maior surpresa e incompreensão com que o salmista jamais sonhou. Ora, Davi está perplexo pelo amor de Deus aos homens, que, embora pequenos e estúpidos, são exaltados por Deus para governarem a criação e para participarem da atuação graciosa de Deus sobre eles. O que o salmista pensaria, então, se conhecesse Jesus? A citação em Hebreus diz que esse salmo se cumpriu em Jesus também, pois Jesus tornou-se homem, menor do que os anjos, como qualquer outro homem. Entretanto, o homem comum já foi criado menor que os anjos. Jesus, em sua eternidade, é o próprio Deus supremo que corresponde ao Deus deste salmo, embora Davi não compreenda isso. Assim, Jesus estava acima de qualquer criação, inclusive os próprios anjos. Mas, em seu imenso amor, Deus tornou-se homem, rebaixou-se à condição de servo e assumiu o papel que, segundo este salmo, é diametralmente oposto ao papel soberano de Deus. O amor de Deus ao homem é demonstrado não apenas por tê-lo revestido de glória e honra com relação à criação, embora o homem fosse tão pequeno, mas em ele próprio ter assumido essa pequenez para salvar a humanidade. O Deus supremo encarnou em um servo humano, menor do que anjos, movido pelo seu amor, a fim de resgatar a humanidade para a libertação do pecado. Em Cristo, o homem pode, finalmente, cumprir o seu propósito de andar em temor a Deus, respeitando as suas obras e grato pelo seu amor. Como diz Paulo, “nisso está o amor de Deus: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores”.

Diante disso, não há o que falar, a não ser o próprio suspiro do salmista: “Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!”

André Duarte

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sola Scriptura


       
        Os maiores opositores de Jesus e da Igreja primitiva foram os fariseus e saduceus. Ambos tinham compreensões erradas acerca da base da revelação de Deus, ou seja, suas escrituras. Jesus citava, para embasar suas mensagens, toda a Bíblia compilada até então: a Lei, os Profetas e os Escritos (conforme a classificação judaica dos livros). Os fariseus tinham o problema de acrescentar cânones na Bíblia. Por essa razão, Jesus os criticou, por elevarem as tradições rabínicas ao nível de mandamentos de Deus e, dessa forma, obscurecerem o espírito do que Deus ordenou. Já os saduceus caíram no erro contrário: o de subtrair revelações de Deus nas Escrituras. Não se sabe exatamente em que partes da Bíblia eles criam, mas muitos estudiosos entendem que os saduceus só consideravam a Lei de Moisés como canônica, rejeitando os Profetas e os Escritos.

            Esses dois tipos opostos entre si têm algo em comum: foram inimigos de Jesus. Além disso, eles são representantes de todos nós no que tange à nossa compreensão da revelação de Deus. Como saduceus, podemos ignorar a Tota Scriptura, da qual falei em outro post. Fazemos isso quando ignoramos textos bíblicos inteiros, e formamos nossa teologia baseada apenas em textos favoritos. Também fazemos isso quando relativizamos os dogmas de Deus na Bíblia por causa das tendências culturais – no caso dos saduceus, o pensamento grego era-lhes tão influente que chegaram a negar a ressurreição. Assim, pegamos pontos bíblicos que não se adequam aos nossos paradigmas e damos a eles interpretações mais liberais e modernas, tendo como base uma preferência pessoal ou uma preferência mundana generalizada. Neste post, quero mostrar que, tão essencial como a Tota Scriptura é a Sola Scriptura. Aos saduceus, faltava a Tota Scriptura – a crença e a devoção à Bíblia inteira. Por outro lado, os fariseus careciam de Sola Scriptura – a Bíblia como única autoridade canônica e fonte da revelação. Quero mostrar, com exemplos, como transgredimos a fé na Sola Scriptura.

            Fazemos isso quando imitamos os fariseus ao canonizar tradições da Igreja. Quando pensamos automaticamente que tudo o que a nossa Igreja ensina – “pois a Igreja dos outros pode estar errada, mas a minha não” – está certo. Eu mesmo pensava assim quando criança. Sem conhecer a Bíblia, eu perguntava a mim mesmo “Como vou saber se o que eles fazem na Igreja está certo?” e então respondia “Ah, porque eles devem ter lido na Bíblia que é assim que se faz”. Infelizmente, esse pressuposto permanece mesmo nas mais idosas mentes. Confiamos que, se algo sempre foi feito, se uma doutrina é pregada frequentemente, então ela deve estar certa. Pois, se não estivesse, é óbvio que todo mundo saberia! Essa é uma forma de superestimar o senso comum, pois ele é frequentemente errado. Tradições não podem ser acrescentadas ao cânon. Não é errado ter tradições, mas sim elevá-las à imutabilidade, sacralidade e autoridade de um dogma divino. Mas é sempre necessário pensar em todas as tradições pelo filtro bíblico. Não confie que o senso comum já descobriu quais tradições são certas. Submeta todas elas à revelação bíblica. Pois não são raras as tradições que são mesmo contrárias à Bíblia. Por exemplo, como eu falei em outros posts, a oração de confissão, a pregação de motivação emocional ou existencialista, o apelo, a obrigatoriedade do dízimo, o ato de estereotipar mundanos.

            Também agimos assim quando confiamos cegamente em autoridades externas para a interpretação da Bíblia. Os fariseus faziam exatamente isso ao elevar as decisões rabínicas do Talmud ao nível de palavra de Deus. E nós fazemos isso quando confiamos nas súmulas clericais sobre a Bíblia. A briga dos protestantes era justamente a rejeição das decisões conciliares e papais sobre dogmas divinos como um acréscimo à Bíblia. Lutero rechaçou veementemente a ideia generalizada de que o papa tinha tanta autoridade para promulgar dogmas quanto a própria Bíblia. A partir do momento em que você interpreta a Bíblia, já está criando pensamentos humanos, mesmo que sejam verdadeiros. Não pense que a interpretação do pastor é automaticamente verdadeira só pelo fato de ele ser pastor. Submeta também todas as pregações à luz da Bíblia. Talvez você pense não no pastor da sua Igreja, mas sim em algum pastor famoso e proeminente no mundo, ou de algum grande teólogo da antiguidade. Eles também são humanos passíveis de erro e, embora possam ajudar muito a embasar compreensões bíblicas, também não podem ser automaticamente aceitos só por sua posição de importância. É tentador ouvir um pregador famoso que diz exatamente aquilo que agrada você e aceitar precipitadamente sua pregação. Mas, como pessoas imperfeitas, que certamente distorcem a Bíblia em algum lugar, precisamos ter a humildade de refazer nossos conceitos e nos adaptarmos à verdade de Deus.

            Tem sido muito comum também adicionar ao cânon a experiência pessoal. O Deus da Bíblia tornou-se um deus subjetivo que fala individualmente coisas diferentes a cada pessoa, praticamente dispensando suas revelações definitivas e públicas na Escritura. Isso é comum entre os quacres e, certamente, nas igrejas renovadas modernas. Existem diversos problemas relacionados a esse erro. Em primeiro lugar, experiência pessoal não é norma pra ninguém. Ninguém precisa passar pela mesma experiência do outro. Com isso, você já pode jogar no lixo metade dos livros evangélicos. Em segundo lugar, considere que talvez nem você mesmo tenha compreendido a própria “experiência”. Isso aconteceu muito comigo quando eu era adolescente. Tive experiências com Deus que eu interpretei de uma forma e, depois, percebi que a propósito de Deus com a ocorrência era totalmente diferente. Esse é um problema tremendo, uma grande negligência com a Bíblia. Fico perplexo em ver pessoas tentando incentivar bebês na fé a evangelizar, dizendo “Olha, se você não souber explicar sobre Jesus pelos textos bíblicos, então conte do que Jesus fez por você, da sua experiência com ele”. Esse ensino não faz o menor sentido, porque a única maneira de entender corretamente a experiência pessoal é pela autoridade da Bíblia sobre a interpretação que você dá. Você nem mesmo pode entender sua experiência sem conhecer a revelação clara e pública da Bíblia. É por causa de experiências extra-bíblicas que surgiram seitas diversas, como testemunhas de Jeová, mórmons, adventistas. E, mesmo que não cause uma separação denominacional, nem incida sobre um princípio bíblico claro, as experiências pessoais consideradas um cânon a mais causam prejuízos no conhecimento de Cristo e, consequentemente, no comportamento cristão. Cuidado com os “Deus colocou no meu coração”, porque isso é altamente enganoso.
           
Somado ao problema das experiências, está o problema na petição de um cânon novo na oração. Com isso, refiro-me à fé no poder das orações de extrair de Deus revelações novas, geralmente mais pessoais e específicas. Posso afirmar sem medo que, a não ser que Deus queria fazer um milagre excepcional, ele não vai revelar nada a você que ele já não tenha revelado na Bíblia. E você não tem o direito de contar que ele vai fazer essa exceção. Tudo o que você precisa saber já está na Bíblia. Se você acha que compreender a Bíblia dá muito trabalho, que é mais fácil pedir a resposta prontinha de Deus, vai se decepcionar. Deus não lhe dará um novo cânon para a sua vida. A vontade de Deus para as suas decisões já está revelada na Bíblia. Se a Bíblia não é tão pessoal, circunstancial e específica como você gostaria, eis uma grande novidade: você pode pensar. Você pode decidir de ofício o que fazer com a sua vida, desde que guiada por princípios bíblicos. Sim, você pode decidir por si mesmo suas preferências específicas sobre as quais a Bíblia silencia.
           
A verdade é que não há por quê adicionar mais cânons ao que já existe. A Bíblia é perfeita e completa. Experiências pessoais são boas para o crescimento, mas elas não podem nunca ser valoradas tal qual a Bíblia. O evangelho não é passível de subjetividade. Ele é um só, único para todo mundo. E Deus comanda que todas as pessoas se arrependam de seus pressupostos mundanos e creiam em seu Filho, tal qual revelado nas Escrituras, conforme o testemunho dos apóstolos.

André Duarte

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pregação cristocêntrica - como fazê-la?



Chegou o domingo, lá vamos nós para o culto. Quando pensamos em “culto”, a primeira coisa que nos vem à mente é o sermão (ou “mensagem”, para os renovados). O culto como um todo é avaliado pela qualidade do sermão. Em realidade, o sermão, como pregação da palavra de Deus, é o momento central da edificação da Igreja. Sabemos que “a palavra de Deus não volta vazia” (Isaías 55) e que a palavra é viva e eficaz (Hebreus 4). Sabemos que devemos prestar máxima atenção ao sermão, a fim de retermos o que “Deus quer nos falar hoje”. Com esses pensamentos, estamos pressupondo que, de fato, o que está sendo pregado é palavra de Deus mesmo, e não de homens.

Mas esse pressuposto frequentemente é frustrado. Ora, é fácil perceber a terrível decadência das igrejas hoje. E colocamos frequentemente a culpa nas pregações. Sabemos criticar pregações extremamente hereges, como as de “teólogos” da prosperidade, ou as ofertas de “venha para Jesus e pare de sofrer”. Mas a nossa visão precisa ser um pouco mais ampla. Esse não é o único desvio possível das pregações. Essa não é a única forma de pregar palavras humanas, e não as de Deus. Não é qualquer sermão baseado num texto bíblico, com uma interpretação mais ou menos razoável, que pode ser considerado edificante. Ao dizer que um sermão é edificante ou não, antes que eu seja mal compreendido, refiro-me à responsabilidade humana ao pregar, não à graça de Deus que pode efetuar edificação mesmo pelo pior dos sermões.

Vamos pensar numa situação não tão extrema. Como as aplicações bíblicas nas pregações costumam ser feitas? Eu diria que há duas maneiras de fazer pregações não cristocêntricas: autoajuda e moralismo. Em “pregações de autoajuda”, estão aquelas que falam apenas no amor de Deus: em como ele cuida de você, em como ele o capacita a vencer na vida, em como ele tem planos maravilhosos para você, como você pode ser feliz e ser o máximo da autoestima, como ele protege você dos perigos, etc. Já as pregações de moralismo são aquelas em que o pregador “desafia” você a, a partir de hoje, cumprir um certo mandamento em que você supostamente está falhando. São as que conclamam o público a fazer um grande esforço moral para obedecer a Deus. São as que apenas dizem o que você deve fazer e o que você não pode fazer, e deixam você com aquela reflexão sobre alguma falha moral que você ainda tenha. O problema dessas duas pregações é que elas dispensam a necessidade do evangelho. Mesmo que a pregação seja ortodoxa, ela não fala sobre Jesus e sobre a graça. Sermões como esses não são edificantes.

Como fazer uma pregação realmente cristocêntrica? Em primeiro lugar, você precisa retirar das pessoas a sensação de capacidade para salvar a si mesmas. Não é como se o crente pensasse conscientemente “ah, se eu fizer o que o sermão está mandando, serei salvo”, mas, para um número incrivelmente grande de crentes, a salvação pela graça é apenas uma abstração na qual eles têm de acreditar. O coração é altamente enganoso neste ponto. Você pode afirmar que é um pecador salvo pela graça, mas, lá no seu coração, você está confiando e contando com o seu estilo de vida para ser justificado. O pregador precisa afirmar de púlpito que você não é capaz de cumprir aquele preceito moral. Você transgrediu aquele princípio. O ouvinte precisa ser confrontado com a lei. Com isso, ele fica em posição humilde e dependente da graça.

Além disso, a pregação precisa falar sobre como Jesus cumpriu essa ordem moral por você. Jesus foi o único que cumpriu toda a lei de Deus. Ele fez isso para que, pela sua vida perfeita, você fosse perdoado de sua transgressão. E esse perdão custou-lhe a vida. Ele teve de morrer para que você fosse perdoado, tamanha foi sua transgressão. Veja, a cruz, na pregação, não serve só para dizer ao ouvinte sobre como Deus o ama, mas sim sobre como isso foi custoso. Para nós, a salvação é de graça, mas, para Deus, custou o seu Filho. A grandeza desse custo é um reflexo da grandeza de nossa rebeldia. Na cruz, o homem é exaltado aos céus e humilhado ao chão. Sermões de autoajuda falam apenas sobre o lado do amor da cruz, não mencionando que tamanho sofrimento na cruz foi necessário por causa da nossa maldade. Somos valorizados ao mesmo tempo em que somos terríveis. E, por causa desse sacrifício de valor infinito, somos perdoados de nossa transgressão e recebemos, em lugar da nossa justiça torta, a perfeita justiça de Jesus, pela qual Deus nos recebe de volta. Além disso, sermões de autoajuda repudiam o sofrimento. Tratam o sofrimento como falta de fé ou de piedade. Ou então, no mínimo, tratam-no como algo estranho de que você precisa ser liberto logo. E o sofrimento de Cristo? Ele não achou que o inimaginável sofrimento dele – suportar a ira concentrada de Deus contra os pecados de toda a humanidade, sem falar na própria cruz, açoites e espinhos – algo de que ele deveria se livrar. Sofrer por ser inocente é louvável, como diz 1Pedro. Sofrimento é totalmente adequado para a vida cristã. As circunstâncias difíceis da vida do ouvinte não deve ser o centro da pregação, pois o ouvinte receberá como deus em seu coração qual for o tema principal do sermão.

Em seguida, vem a conclusão: porque Cristo cumpriu o mandamento em nosso lugar e nos serviu como substituto, pela sua graça, pela sua obra santificadora, podemos enfim cumprir esse mandamento. Veja, a obediência não vem de um esforço moral sobre a vontade, mas sim do que Jesus fez por nós, aos nos capacitar e nos perdoar. Você não busca a santidade porque você quer, consegue e precisa, e sim porque, sendo você achado em falta na santidade, Jesus veio e conquistou a santidade por você. Um sermão moralista tem a estrutura “este é o texto, este é o mandamento, vá e obedeça”. Um sermão cristocêntrico diz “este é o texto, este é o mandamento, esta é sua transgressão. Esta é a maneira pela qual Jesus cumpriu o mandamento, este é o aspecto do seu sacrifício que perdoa você nessa transgressão, e é assim que Jesus o ajuda a obedecer”. Quando o ouvinte compreender que Jesus é o que importa em sua vida, não precisará mais de sermões de autoajuda cuja ênfase recai sobre si mesmo. Jesus já nos deu toda a ajuda que precisamos em sua obra. E conquistou para nós a santificação que os sermões moralistas dizem para você conquistar.

Por que as igrejas estão cheias de crentes moralistas? Em parte, porque os sermões estão incentivando. Por que há tantos crentes desesperados e desorientados? Porque os sermões de autoajuda colocam sobre o ouvinte uma necessidade de se angustiar por algo que não tem importância alguma em comparação com a salvação dada por Jesus. Somos acostumados a buscar na Bíblia palavras de consolo ou de mandamentos morais e, assim, tornamo-nos egocêntricos em nossa compreensão teológica. Sermões moralistas fornecem vitaminas de legalismo; sermões de autoajuda fomentam o relativismo. Sermões que falam sobre o evangelho são o alimento de um pecador salvo pela graça. Estamos enganados quando pensamos que sermões sobre a salvação em Cristo são apenas uma lição básica para converter descrentes. Na verdade, o evangelho é o norte de toda a vida cristã, em todos os seus aspectos.

Vamos a alguns exemplos. Ao pregar sobre Romanos 14, não diga que “precisamos ter união e pronto”. Diga que havia uma separação, baseada em conceitos humanos, e que Jesus, ao receber fariseus e flagrantes pecadores, ricos e pobres, judeus e gentios, não fez entre eles acepção. E, ao dar a sua vida por todos esses tipos, removeu a inimizade natural entre os homens. Por meio de Cristo, os irmãos, por mais diferentes que sejam em pontos periféricos da vida, podem se unir em torno do amor. Porque Jesus mostrou o que realmente importa em seu ato sacrificial universal, não precisamos mais buscar significância em opiniões particulares criadas por nós mesmos.

Em Davi e Golias, não pregue que você deve ser como Davi, corajoso e destemido, para vencer os gigantes na vida. Lembre-se, o herói da história é Jesus, nunca é você. Você é como os israelitas que estavam morrendo de medo daquele gigante. Davi foi o homem que arriscou a sua vida para dar vitória ao seu povo. Jesus foi ainda mais grandioso, porque ele não apenas arriscou a vida dele, mas realmente deu a sua vida. Jesus foi triunfante sobre o maior dos gigantes, o pecado e a morte. E o seu triunfo nos é imputado.

Em 1Coríntios 6, a lição da história não é “não profanem o seu corpo cometendo imoralidade”. O centro do ensino de Paulo é “vocês foram comprados por alto preço”, e então ele dá a consequência “portanto, glorifiquem a Deus com o seu corpo”. Veja, não há lição bíblica que não dependa do que Jesus fez por nós. A pregação sobre esse texto deveria ser assim: todos nós transgredimos a lei ao usar o nosso corpo para nossos próprios prazeres errados. Jesus Cristo, ao contrário, ofereceu o seu corpo para cumprir a vontade de Deus integralmente. E a sua oferta foi muito mais penosa do que a que foi requerida de nós. Deus nunca pediu para que oferecêssemos nossos corpos para morrer em uma cruz, e ainda assim nós ignoramos seus mandamentos. Mas Cristo glorificou a Deus com o seu corpo até o fim. Ele deu o seu corpo para ser açoitado, rasgado e pregado numa cruz, e depois ressurgiu em um corpo renovado. Por meio de Jesus, podemos nós também oferecer nossos corpos para a vontade de Deus. Por causa do que ele fez, temos também a esperança de ter nossos corpos renovados para servirmos a Deus eternamente, o que retira de nós a necessidade de fazer tudo para nós mesmos. Não estamos mais presos no “aqui e agora”. Não precisamos mais temer que a vida passe e que não tenhamos dado prazer suficiente a nós mesmos. A partir da purificação efetuada por Jesus, temos prazer em Deus para sempre com nossos corpos.

Ao pregar sobre Jonas, não dê simplesmente a lição “obedeça a Deus”. Pregue que Jesus é o Jonas que realmente foi lançado fora às profundezas da terra para aplacar a ira de Deus sobre nós. Jesus é a oferta que desvia o furor de Deus sobre nós, os pecadores. Agora, podemos nos achegar a Deus como filhos, sem pavor. A história de José não é um ensino “não cometa adultério, e no final vai dar tudo certo”. É uma ilustração do próprio Jesus, que foi rejeitado pelo que eram seus, mas que, após sofrer injustamente, governa à direta do Rei e salva aqueles que o traíram - nós. Jesus é o melhor Abraão, que viveu em fé sem jamais vacilar, cumprindo a vontade de Deus e, por consequência, a própria aliança iniciada no patriarca. Jesus é o verdadeiro tabernáculo, o templo, o rei, o profeta, o sacerdote, o pão que desce do céu, a água da vida, o cordeiro pascal, o maior missionário, o mediador de uma nova aliança, o logos do universo, o guerreiro que oferece sua vida para dar vitória ao seu povo, o verdadeiro tesouro, o maior mestre, o pleno descanso sabático de nossas obras, o anjo que executa juízo sobre a Jerusalém ímpia, a luz dos gentios, o máximo do sofrimento inocente, o sacrifício purificador e definitivo, o holocausto que nos move à gratidão, a perfeita imagem de Deus.

A Bíblia não é sobre o que você deve fazer, e sim sobre o que Deus fez por você. As pregações precisam ser feitas assim. Repare em quantos sermões são feitos sem mencionar “Jesus”, “graça”, “pecado”, “cruz”, “ira”, “redenção”, “regeneração”. Precisamos voltar a reconhecer o evangelho como o centro do culto. Pois Cristo é o Cabeça da Igreja, em torno do qual devemos nos ajuntar em submissão, humildade e gratidão.

André Duarte

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O que é Igreja 4 - Os sacramentos


Há muito o que falar sobre a Igreja. Poderíamos falar das práticas litúrgicas – louvor, oração, confissão de fé – ou sobre o que uma pregação precisa conter. Talvez eu faça isso mais tarde. Por ora, quero encerrar essa série com este post sobre os sacramentos que Jesus ordenou: batismo e ceia.

Sabemos que todas as práticas eclesiásticas são um reflexo de uma realidade espiritual. Cantar louvores, orar, executar dons, liderar – todas essas coisas são manifestações de adoração e fé. O crescimento da Igreja é efetuado por todos esses meios que se expressam em palavras, com o fim de comunicar uns aos outros as verdades que o Senhor revelou.  Dessa perspectiva, os sacramentos parecem ser um tanto deslocados. Afinal, o batismo e a ceia envolvem coisas, elementos físicos necessários, não apenas palavras e mente. Pareceriam, portanto, rituais antiquados de uma religião primitiva. Por que eles foram ordenados? A grande virtude dos sacramentos é justamente essa, de serem símbolos sensíveis do que Jesus fez por nós. “Sensíveis” significa que aguçam os sentidos físicos. Você ouve o som da água e a sente na pele; toca o pão e o vinho, vê os elementos, sente o gosto e o cheiro. Não há nenhum acontecimento mágico com essa conexão sensorial. Ela é dada pela misericórdia de Deus, que sabe que os homens são fracos e que, por vezes, precisam de um contato físico com elementos memoriais para imprimir na mente a fé espiritual.

Podemos também dizer que os sacramentos são “meios de graça”. Um meio de graça é uma prática que Deus ordenou para fortalecer e edificar a fé. Assim, por exemplo, temos a oração, a leitura bíblica, o louvor, a comunhão, o ensino mútuo e, além de outros, os sacramentos. Esses meios de graça são necessários, porque ninguém mantém o coração em Deus somente por força de vontade. Esses meios são as maneiras de que dispomos, pela graça de Deus, para permanecermos em comunhão com ele. Ora, o mundo tem infinitos “meios de graça” também – todas as manifestações de “cobiça da carne, dos olhos e ostentação dos bens” (1Jo 2). Para que a nossa fé continue cativa a Deus, precisamos usar dos seus meios de graça, para não cairmos nas tentações apóstatas do mundo. Por outro lado, os “meios de graça” não podem ter sua importância exagerada ao ponto de se tornarem os “fins da graça”. A esse erro incorrem as pessoas que se desesperam se deixam de orar por um dia, se esquecem de ler a Bíblia uma vez, ou sentem-se totalmente abandonadas se, por acaso, faltarem em algum culto. A fé deve estar em Deus, e nele somente.

Vamos, enfim, aos sacramentos. O que o batismo e a ceia significam? Esse é um assunto enorme, sobre o qual as igrejas têm interpretado de maneiras tão diversas ao longo da história que é difícil explicá-lo sem mostrar favoritismo. Mas, vou me arriscar.

Para começar, o batismo. De onde realmente surgiu essa prática? Muitas pessoas se surpreendem ao ver João Batista batizando as pessoas “do nada”, e pensam “de onde ele inventou isso?”. Por isso, um entendimento do Antigo Testamento é necessário. Batismo, antes de se tornar um sacramento eclesiástico, nada mais era do que uma imersão na água (putz, já era, falhei, falei “imersão” :P) que os judeus praticavam desde a Lei. Os sacerdotes tinham sua bacia de água para se lavarem antes de ministrar (Êxodo 30:17-21). Uma nova foi dada por Salomão, gigante como uma piscina (1Reis 7:23-26). E, todo o resto do povo também precisava se lavar na água constantemente para realizar purificação cerimonial – veja a receita em Números 19 (opa, aqui já é por aspersão, hmmm...). A cultura judaica foi construída, assim, com a ideia de que lavar-se na água é purificar-se cerimonialmente. Quando João chamou o povo para ser batizado, ninguém achou estranho. Podemos imaginar os rabinos pensando “ah, tudo bem, já faço isso todo dia mesmo”. É aí que João introduz a novidade: não se tratava de uma purificação cerimonial rotineira, mas de um único ato que só teria valor se fosse acompanhado de um verdadeiro arrependimento. O batismo de João tinha essa estreita ligação com arrependimento, conversão genuína a Deus. Claro que os fariseus não entenderam nada, pois já se achavam perfeitamente convertidos.

Jesus não batizava com água, mas sim com o Espírito Santo. Entretanto, seus discípulos precisavam continuar a batizar com água (Jo 4:2), conforme ele ordena em Marcos 16:16 e Mateus 28:19. Os exemplos em Atos mostram que, de fato, o batismo perpetuado pela Igreja é simbolizado com água, não apenas com imposição de mãos. Além disso, o batismo nas águas é acompanhado pelo batismo no Espírito. Não é correta a distinção que os pentecostais fazem. O exemplo dos efésios em Atos 19, em que o batismo nas águas não veio com o Espírito Santo, mostra que foi uma exceção derivada de uma fé incompleta, não que é a regra para todas as igrejas. O exemplo de Cornélio é outra exceção estranha, em que o batismo no Espírito veio antes do batismo nas águas. A regra para a Igreja, porém, é que o batismo nas águas vem com o batismo no Espírito, sem separação. Simplesmente porque todos os crentes têm o Espírito Santo. Pode surgir a pergunta “Mas, e o crente que só foi se batizar depois de 3 anos? Ele não tinha o Espírito antes?”. Sim, ele tinha, ele era salvo – não vamos errar pensando que a salvação é pela aplicação de água. Mas essa separação temporal é um erro. Um crente precisa ser batizado o quanto antes, não deve ficar postergando, como se não fosse tão importante. O batismo era feito, no primeiro século, imediatamente com a conversão. Os cursos de batismo e a burocracia da Igreja acabam forçando esse interstício indevido. Mas, a responsabilidade pessoal é a de procurar ser batizado o mais rápido possível. (Ah, não batize a si mesmo, isso não existe)

Por fim, o que o batismo significa? Creio que o batismo é um símbolo da purificação, tal qual a história do povo de Deus mostra. Mas não uma purificação meramente cerimonial. É a purificação espiritual que Deus opera no coração pelo Espírito Santo. É o sinal da regeneração, da justificação e da capacitação para a santidade. Já ouvi muitas vezes que o batismo é “a confissão pública de fé”. Isso tem base apenas na prática comum da Igreja, não na Bíblia. O batismo é, atualmente, acompanhado pela confissão pública de fé, mas ele não significa isso. Ele não é um sinal de algo que você faz para Deus, mas, ao contrário, é um símbolo do que Deus faz no seu espírito.

Agora, a ceia. A primeira diferença notável entre a ceia e o batismo é que o batismo é um ato único, pois a salvação e a regeneração são uma só. A ceia, porém, é feita em rotina. Não porque Cristo está se sacrificando várias vezes, como pensam os católicos, pois o seu sacrifício é único, eficaz, definitivo e suficiente, conforme ensina Hebreus 9. Mas a memória desse sacrifício deve ser constante.

A ceia também não foi inventada do nada. Ela é a continuação da refeição da Páscoa judaica. Quando Deus instituiu a Páscoa em Êxodo 12, o principal ato da refeição era a morte do cordeiro, cujo sangue deveria cobrir as laterais das portas para desviar a ira de Deus. Em todo o tempo dos judeus, eles faziam a refeição da Páscoa anualmente, lembrando da misericórdia de Deus e do seu ato libertador. Quando Jesus celebrou sua última ceia com seus discípulos, não parecia nada de mais, no início. Entretanto, aquela seria a última ceia em que havia um cordeiro morto, pois o verdadeiro Cordeiro de Deus estava para morrer de uma vez por todas. Pode-se imaginar a angústia de Jesus ao comer aquele cordeiro sacrificado, sabendo que ele teria o mesmo fim em questão de horas. Mas, a partir desse dia, Jesus inovou nessa refeição. Ele deu significados ao pão e ao vinho da ceia. O pão, rasgado e moído, significa o seu corpo, que seria dilacerado em favor de muitos. O vinho significa o seu sangue, derramado para estabelecer uma nova aliança. O que Jesus fala sobre o vinho é uma paráfrase de Êxodo 24:8 – “o sangue da aliança”. Desse dia em diante, os elementos centrais da refeição da ceia seriam o pão e o vinho, pois o propósito do cordeiro estava plenamente cumprido. Jesus, o supremo cordeiro sacrificado, derramou o seu sangue para desviar a ira de Deus de seu povo e para efetuar a libertação do pecado, tal qual o antigo cordeiro desviou o anjo destruidor e iniciou a libertação dos egípcios.
           
A ceia passou a ser realizada com mais frequência, não mais anualmente. Muitas igrejas realizavam-na semanalmente. O importante é que a ceia seja feita em memória de Cristo, como ele ordena. Instruções claras sobre a ceia aparecem em 1Coríntios 11 e acabam gerando algumas confusões. Em primeiro lugar, ela não é uma refeição leviana. Paulo diz que deve ser tomada com “discernimento do corpo do Senhor”. Não é correto que os pais deem os elementos da ceia às suas crianças muito pequenas e sem discernimento, nem que convidados descrentes os tomem. Na verdade, há várias orientações que mostram que a ceia é uma prática em que é absolutamente necessário que a vontade e a mente estejam centradas no culto a Deus. Temos a orientação genérica de que a ceia deve ser tomada com consciência da comunhão. A repreensão de Paulo é para que certos coríntios não comessem tudo, embriagando-se com o vinho e se esquecessem dos irmãos pobres que ficavam passando fome depois, por terem chegado mais tarde. A ceia deve ser feita com amor e comunhão, não como um ato individual e egocêntrico.

Outra orientação que causa dúvidas é a parte do “examinem a si mesmos”. Muitos pensam que a pessoa deve se examinar para ver como está o coração dela e fazer um cálculo abstrato de sua dignidade de tomar a ceia. Mas, Paulo não diz “examinem-se para ver se vocês podem tomar”, e sim “examinem-se e então tomem”. Não tenha dúvidas, você não é digno de participar da ceia. Você é um pecador maculado. Mas o Cordeiro pascal já foi morto e já proveu perdão para você. Examine-se e então participe da ceia, pois a solução para o seu pecado está justamente no Cordeiro a que a ceia remete. Não que você seja purificado pela ingestão dos elementos, mas sim pelo Cristo simbolizado no pão e no vinho. A ceia é dada para uma tomada de consciência da supremacia e da graça de Cristo e da sua necessidade de crer na morte expiatória dele. Não recuse a ceia e nem a tome em vão. Deixe que os sentidos provocados pelos elementos aproximem seu coração e sua mente de Jesus.

Por outro lado, também podemos compreender que a ceia é um prenúncio do que está por vir. Jesus, quando tomou o vinho, disse “Não beberei do fruto da videira até que eu beba o vinho novo no Reino dos céus” (Mc 14:25) Um dia, toda a Igreja estará com Cristo em seu reino, e todos participaremos do banquete celestial com o Cordeiro. Celebramos hoje a ceia em esperança e expectativa pela grande e maravilhosa ceia que tomaremos com Jesus quando ele se manifestar. A ceia é, portanto, não apenas uma ocasião de contrição e remorso, mas também de alegria pela salvação que temos hoje e que será consumada quando o Filho de Deus vier em glória.

André Duarte



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O que é Igreja 3 - As lideranças

            

            Este é outro ponto da Igreja necessário de se tratar com especificidade, principalmente por causa das enormes distorções que se encontram praticamente em qualquer lugar. A liderança da Igreja não é explicada de forma tão rasa para justificar tantas percepções e constituições diversas. Também é um ponto crucial para o desenvolvimento saudável e maduro de uma Igreja, de forma que, se uma liderança desempenha um papel ruim e herético, toda a Igreja sofre como resultado.
           
Em primeiro lugar, de onde tiramos os ensinos sobre liderança? Já ouvi muitos sermões que procuravam embasar atributos e prerrogativas dos líderes com base nos chefes do Antigo Testamento, ao passo que quase nunca ouvi o mesmo a partir do Novo. Por exemplo, as rebeliões contra Moisés. Quando Deus defende a autoridade de Moisés contra as reclamações do povo, o ensino é que não podemos jamais questionar nossos líderes, certo? Errado. E, se Davi não quis assassinar Saul por ele ser o ungido do Senhor, então também não podemos falar nada contra os líderes, supostamente mais ungidos do Senhor do que o povão, certo? Claro que não. Líderes do Antigo Testamento não são, de forma alguma, modelos para líderes eclesiásticos. São prenunciadores de Cristo. Figuras do Antigo Testamento são modelos de Jesus, não de líderes de Igreja. Moisés foi o mediador de uma aliança, Josué foi o chefe que deu vitória ao povo de Deus, Davi foi o rei teocrático – sombras de Cristo, não de quaisquer outros homens que, porventura, tentem tomar o lugar do Senhor. Ora, há tantos ensinos diretos e específicos sobre liderança eclesiástica no Novo Testamento. Por que não usá-los?
           
Como começou a liderança da Igreja? Sua gênese está nos apóstolos. Jesus escolheu homens aos quais chamou de apóstolos para serem os guias da Igreja, transmitindo com autoridade os ensinos de Jesus. Paulo era um deles, escolhido posteriormente. O termo “apóstolo” significa, em sentido amplo, “enviado”. Nesse sentido, podemos compreender qualquer pessoa comissionada por Jesus como um apóstolo (caso, por exemplo, de Barnabé e Júnias). Tal designação não é recomendável hoje em dia, devido ao provável mau entendimento que pode ocorrer. Mas, num sentido mais específico, de acordo com o que sugere Russel Shedd, o termo apóstolo traduz uma palavra aramaica usada para designar representantes da autoridade de um rei numa terra estrangeira. Apóstolos, portanto, seriam homens que falam com a autoridade de Jesus, razão por que seus ensinos pelas epístolas são totalmente fidedignos. Essa espécie de apóstolo não existe mais; apenas os 12, Paulo, Tiago e talvez Judas (o da epístola) o eram. É totalmente errado e soberbo que líderes modernos se intitulem apóstolos. Nenhum homem pode ter a pretensão de proferir ensinos derivados de seu conhecimento pessoal com Cristo como canônicos.
           
Além dessa liderança à parte, temos líderes que emergiram dos próprios membros das igrejas. Esses homens eram reconhecidos pelos apóstolos como líderes após um certo tempo. (Atos 14:23). Era necessário que a Igreja se desenvolvesse espontaneamente por um tempo para que os membros com maturidade e capacidade de liderança se destacassem. Os líderes eram, em regra, membros da própria Igreja; não havia importação de um pastor de fora (embora temos, como exemplo de exceção, Timóteo). Isso porque o líder precisa ter íntimo envolvimento com a comunidade para atendê-la como ela necessita. E como são chamados esses líderes? Temos três títulos principais: pastor, bispo e presbítero.
           
A primeira consideração importante sobre esses títulos é que eles não representam graus hierárquicos, mas designações diferentes para os mesmos homens. Podemos ver, nas cartas pastorais (1Timóteo 3:1-7, Tito 1:6-9) que os requisitos para ser bispo são os mesmos para ser presbítero. Além disso, em Atos 20:17,28, Paulo usa os três termos para os mesmos líderes de Éfeso. Veja como ele coloca: presbíteros, aos quais Deus instituiu como bispos para pastorearem a Igreja. É legítimo chamar um pastor de bispo ou presbítero. Outro ponto comum é que os termos designam funções de fato, e não títulos de cargos. Acho especialmente notável que, nem mesmo entre os apóstolos, havia o costume de chamá-los por esse título. Existem vários exemplos de, por exemplo, “Paulo, o apóstolo”, mas nunca “o apóstolo Paulo”. Pedro teve a oportunidade de chamá-lo assim em sua segunda carta, mas, vez disso, chama-o de “o amado irmão Paulo” (2Pe 3:15). Se um pastor não estivesse pastoreando, ele não seria chamado “pastor”, por não estar realmente exercendo essa função. Falarei mais sobre isso no final do post. Bem, o que significa cada termo? “Bispo” é o “epíscopos”, ou seja, aquele que “olha por cima”. Pode ser traduzido como “supervisor”. Ser bispo significa vigiar com zelo a Igreja, percebendo que está errado, o que pode ser melhorado, se alguém precisa de ajuda, se alguém precisa de disciplina, se os dons estão sendo usados devidamente. “Presbítero” é “homem idoso”. Não pela idade, mas pela maturidade – é um adulto na fé. Líderes precisam ter a fé madura e um espírito desenvolvido na graça de Deus. “Pastor” é, literalmente, o pastor de ovelhas comum. Ele deve cuidar da Igreja com o mesmo amor de um pastor por suas ovelhas, bem como guiá-la para o eterno propósito dela – ser como Cristo. Deve-se notar que o termo “pastor”, como função eclesiástica, aparece uma só vez – Efésios 4:11 – e no plural. Deve haver uma pluralidade de líderes, para diminuir o poder nas mãos de uma só pessoa.
           
E quais são as qualificações para ser um pastor-bispo-presbítero? Mais uma vez, vemos as cartas a Timóteo e Tito. Há uma lista específica: não ser viciado em bebida, não ser neófito, bondade, generosidade, “marido de uma só mulher” – que significa fidelidade, não monogamia -, ser um bom pai de família e mais. A essência desta lista é o caráter. Isso é o mais importante. Não deve ser aceito como pastor um homem com alta inteligência e carisma, mas com um caráter maculado. Já vimos que a semelhança com Cristo é a meta de todo crente individualmente e da Igreja como um todo. Um líder é um indivíduo que precisa estar mais à frente nessa caminhada para poder ajudar os outros. Como um pastor pode guiar uma Igreja se ele mesmo for desorientado como um bebê na fé? Caráter cristão, fruto do Espírito – um pastor precisa tê-los. Não é triste que haja tantos pastores vivendo em imoralidade, irascíveis, orgulhosos, confundindo evangelho com legalismo?
           
Outra característica do presbítero é a capacidade de ensino. Um pastor precisa ter conhecimento profundo das Escrituras e sensibilidade para ensiná-las de forma edificante. Embora, recentemente, muitas igrejas tentem distinguir pastor de mestre, biblicamente, as duas funções andam juntas. O texto em 1Timóteo 5:17 parece mostrar que existem presbíteros que se dedicam especialmente ao ensino e outros não. Mesmo assim, mesmo se um pastor não ensina frequentemente, ele deve ser apto para essa função. Em Efésios 4:11, novamente, temos uma indicação de que “pastor” e “mestre” estão unidos. Das funções que Paulo nomina, “pastor” e “mestre” são as únicas não separadas pelo termo “e outros para”. Gramaticalmente, fica ambíguo, tanto no português como no grego. Mas o argumento da ausência do “outros para” indica que o pastor precisa ser mestre. Com isso, concorda Russel Shedd. Agora, a função de mestre é de especial responsabilidade. Tiago diz “Não sejamos muitos de nós mestres, pois seremos cobrados com maior rigor” (3:1). Não é preocupante a frequência de mestres por aí ensinando bobagem? Um mestre é totalmente responsável se ele ensina heresia. Ele não tem o benefício da imaturidade. Claro que nenhum mestre é infalível. Mas ele não pode ser alguém ainda no início do processo de aprendizado. Ele precisa ter cuidado máximo com o que ensina, pois toda a Igreja está contando com ele para transmitir os ensinos bíblicos. Se ele, por acaso, ensinar um erro, e depois reconhecer isso, ele tem a responsabilidade para com a Igreja de se retificar humildemente perante ela. Nunca se sabe que efeitos uma doutrina falsa pode gerar.
           
E o diácono? Esse não é um termo designador de liderança. Diácono significa servo, simplesmente. Eles não tinham posto de liderança na Igreja bíblica. Mas eles tinham papéis de reconhecida importância pelo seu serviço, o qual é, em realidade, um atributo de um cristão maduro.
           
E qual é o propósito da liderança? O texto de Efésios 4 responde de novo. Leia além do versículo 11 e lá estará a explicação para a existência de ministérios. Líderes devem facilitar e coordenar a Igreja para que ela eficazmente realize o seu propósito, que eu expliquei nos posts 1 e 2. Líderes precisam zelar pela santidade da Igreja, pelo claro aprendizado do evangelho pelas Escrituras, pelo crescimento espiritual orgânico dos membros. Líderes devem encorajar os membros da Igreja a usar seus dons – embora muitos líderes, ao contrário, tentem monopolizar todas as funções e tolher a Igreja. Hebreus 13:17 dá o alerta para a obediência aos líderes pelo cuidado que eles têm para com o rebanho de Deus. Mas isso não significa que os pastores são automaticamente intocáveis. Eles devem saber que tudo o que eles fazem é para que o comando de Cristo sobre a Igreja seja real, pois ele é o Cabeça. Não aceite pastores que tentem ser eles mesmos os cabeças da Igreja, ditando tudo conforme querem. Líderes não podem ultrapassar as Escrituras em suas orientações e ensinos. É frequente vermos no Novo Testamento a quantidade de alertas contra falsos mestres. Se pastores são intocáveis, não precisamos de 2Pedro, Judas, 2Coríntios, Colossenses, Timóteo, Tito, 1João... aliás, esqueça a Bíblia logo, é mais fácil. Não use Romanos 13 para pastores. A autoridade intocável à qual esse texto alude é o governo civil. Não ignore o contexto. Se a rebelião contra qualquer pastor fosse errada, Paulo cometeu um tremendo erro em escrever 2Coríntios, na qual repreende a Igreja por aceitar pastores errados. As últimas cartas, na ordem cronológica, focam justamente na rejeição de falsos mestres. Você não tem obrigação nenhuma de obedecer a ordens hereges de um líder. Por outro lado, não pense que você tem qualquer utilidade para Jesus se você é desses anarquistas que não se submetem a autoridade nenhuma. Líderes que realmente cuidam do povo de Deus com a verdade e com amor devem sim ser reconhecidos como legítimas autoridades. Aí sim você volta para Hebreus 13:17. E que tudo seja feito para a edificação da Igreja, pela sua pureza e para a glória de Deus.

André Duarte

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O que é Igreja 2 - Os dons e talentos para edificação


         

         No post anterior, vimos como deve ser o trato da Igreja diante do mundo. Longe de fazer programas e proclamar mensagens vagas, ou tentar reformar o mundo por meio de uma moral, ou chamar a atenção pelo entretenimento e pelas aparências, a Igreja deve ser o próprio Jesus em sua expressão coletiva. Em Efésios e Colossenses, fica especialmente claro que o caminho da individuação da Igreja e de cada membro é chegar à máxima semelhança de Cristo. Se a Igreja pretende ser como Jesus diante do mundo, é necessário que ela trabalhe isso internamente. Vamos começar a ver a partir daqui as ferramentas que o Senhor nos deu para atingirmos esse alvo.
           
É triste também ver o descaso que a Igreja faz com esse objetivo. Muitas vezes, ela se comporta como uma máquina automática que faz mera repetição litúrgica sem reflexão. Suas ponderações são de caráter empresarial, em cima de números e de atos de rotina. Raramente uma Igreja pensa “estamos mesmo chegando em algum lugar?”. Ela é lotada de práticas infrutíferas, de tradições sem fruto e de vícios de finalidade. Muitas igrejas preocupam-se tanto com a sua atuação diante do mundo que se esquecem de si mesmas. Como eu disse em outros posts, algumas igrejas insistem tanto em evangelizar e quase nada em ensinar a si mesma o que é o evangelho. Não é possível à Igreja crescer em Cristo e impactar o mundo sem uma consciência interna e eficaz para os membros.
           
Com relação aos dons, especificamente, quero fazer considerações em três pontos. Vamos resgatar o que a Escritura ensina sobre dons e talentos à luz da finalidade da Igreja externamente e internamente. Muita confusão precisa ser tratada. O pentecostalismo avivou as discussões sobre os dons e frequentemente chegou a conclusões erradas, estimulado por impulsos passionais e precipitação sobre interpretações baseadas na observação empírica. Em primeiro lugar, a Igreja é o lugar para servir, e não ser servido – este é o primeiro ponto. Eu raramente encontrei alguém que fosse para a Igreja querendo abençoar os outros, em vez de ser abençoado. Vivemos esse paradigma de que a Igreja é o lugar em que você é abençoado e fortalecido para o resto da semana, apenas. Pensamos que o pastor tem a função de prover o alimento espiritual, e todos nós devemos apenas consumir. “Igreja é hospital”, costumamos dizer. É claro que uma pessoa deve ir à Igreja para ser edificado e tratado. Mas a preocupação principal deveria ser a de edificar e tratar os outros. Quando você pensa em ir à Igreja para aquecer o seu coração e ir embora, você não fez nada por ninguém, e esse tipo de egoísmo não é correto. Não é comum ouvirmos “Você deve ir à Igreja para adorar Deus, não por causa das pessoas”? O problema dessa máxima é que ela separa essas duas coisas. Adoração individual você pode prestar em casa, a qualquer momento. Coloque uma música gospel, uma pregação da internet, faça uma oração, uma leitura bíblica e pronto. Mas, na Igreja, a adoração é estritamente vinculada à preocupação com os irmãos. É estranha a ideia “Esqueça a pessoa que está ao seu lado”. Tudo bem, não fique batendo papo com ela durante o culto (tapa na minha própria cara), mas não leve adiante esse “esquecimento”. Resumindo, quero dizer que você deve ir à Igreja para executar os seus dons, seja quais forem. Você não precisa estar elencado a um ministério oficial para isso. Pratique o que você faz de melhor: ensino, exortação, conselho, ânimo. Não pense que o pastor pode edificar de púlpito todas as pessoas em todas as suas necessidades absolutamente. É fundamental um trato particular e serviçal com as pessoas.
           
O segundo ponto é consequência do primeiro: os dons existem para o favor dos outros, e não para o próprio. Quanto egoísmo existe na busca por dons! São tantas as pessoas que usam os seus talentos e ministérios para proveito próprio. Não é necessário pensar em dinheiro e manipulação – quem tem um dom publicamente visível é tentado frequentemente a considerá-lo sua base para justificação. É fácil perceber o seu dom repercutindo na Igreja e glorificar a si mesmo. Um ministro público deve se fortalecer na humildade e na fé na justiça de Cristo para não pensar que seu ministério é sua fonte de significância e sentido. Quanto à busca por dons, o que a Bíblia ensina? “Busquem os melhores dons”, diz 1Coríntios. Os capítulos 12 a 14 são cruciais para a compreensão dos talentos. Quais são os melhores dons? Certamente são aqueles de que a Igreja mais necessita. O capítulo 14 exemplifica pelo dom de falar em línguas estranhas e pelo dom de profetizar o ensino de que o melhor dom é o que edifica a Igreja, e o menos importante é o que edifica o seu próprio portador. O espírito serviçal e altruísta permeia o uso dos dons. É tão comum vermos pessoas dizendo “Puxa, eu queria ter tal dom!”, sem nenhuma reflexão sobre o proveito dele para os outros. O pentecostalismo, principalmente, incentiva demasiadamente a busca pelo dom de falar em línguas (assunto do próximo post do João Renato, NÉ??), sendo que esse é o dom menos importante, que só traz proveito individual e não serve de nada para a edificação da Igreja (isso partindo do generoso pressuposto de que a glossolalia que se vê por aí é realmente o dom de línguas bíblico). Vá à Igreja e sirva os outros com os seus dons. Se uma Igreja não precisa do seu dom, procure alguma que precise. Se ela não dá oportunidade para você exercê-lo, o que é infelizmente muito comum, tente algum outro ambiente ou alguma outra maneira.
           
O terceiro ponto é que, em meio a todo o uso de dons e todas as interações necessárias, é imprescindível o amor. O famoso texto de 1Coríntios 13 não deve ser compreendido em isolamento, como muitos leitores fazem. Ele está inserido no ensino sobre os dons. O que Paulo ensina nesse capítulo é que, muito mais importante do que o exercício de funções ou de capacidades, é o amor cristão. Veja que afirmações ele faz: “se eu não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine”. O que isso significa? Essa metáfora alude aos instrumentos de adoração pagã, nas quais os fiéis deveriam fazer muito barulho e muita performance para agradar os deuses. Perceba a seriedade do que Paulo diz. Sem amor, uma Igreja, com toda a sua liturgia e com seus ministérios, torna-se igual a uma religião pagã e idólatra. Uma Igreja pode ser rica em dons espirituais, mas vazia de fruto espiritual. Os crentes e, principalmente, os ministros, não podem se deixar enganar pelas aparências. Pode ser que uma Igreja esteja com todos os seus programas, todos os seus ministérios e sua atuação funcionando muito bem – e, ainda assim, estar longe de Deus. Para testar se a salvação realmente ocorreu, devemos voltar aos testes de 1João, dos quais um deles é o amor mútuo. Uma Igreja que não ama não faz mais do que encher os ouvidos de Deus com barulho.

            André Duarte

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O que é Igreja 1 – O povo de Deus diante do mundo


            
            Bem, vamos lá, começar uma nova série de posts – 4, no total. Vamos estudar diversos aspectos da ontologia e da funcionalidade da Igreja. É de total importância o entendimento sobre o que é Igreja. Uma gama incontável de erros ocorre por causa de uma má compreensão sobre o porquê da Igreja existir. Sinceramente, a grande maioria dos crentes vai à Igreja por motivos errados. Comentarei sobre alguns deles em cada post. Neste primeiro, quero falar um pouco da finalidade da Igreja diante daqueles que não são dela.
           
Todo conhecimento sobre Deus é revelado. Ninguém jamais descobriu Deus. Para resgatar o mundo após a queda do homem, Deus se revelou a algumas pessoas específicas – os patriarcas. Em seguida, de um deles, Jacó, Deus fez surgir uma descendência que, como nação, perpetuaria a aliança de Deus. Nessa aliança, Deus promete abençoar e salvar Israel, enquanto Israel se compromete em obedecer às leis de Deus. Em uma primeira vista, parece um compromisso muito particular, que exclui o resto do mundo. Entretanto, vejamos algumas estipulações: em Êxodo 19:5,6, Deus diz “Agora, se me obedecerem  fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Em Deuteronômio 4:6-8, há uma clarificação sobre como Israel abençoaria as nações. Resumindo, os outros povos veriam a fidelidade de Israel às leis justas de Deus e ficariam impressionados com a sabedoria desse Deus. Israel seria um testemunho da sabedoria e da santidade de Deus diante das nações. Assim, os estrangeiros se converteriam e todos os povos seriam redimidos. Em Isaías, há várias profecias de Israel sendo luz para os gentios e levando a salvação de Deus até os confins da terra.
           
Leia de novo o texto de Êxodo. Agora, veja do que Pedro chama a Igreja: “sacerdócio real, nação santa...” (1Pe 2:9). A Igreja não surgiu do nada na época dos apóstolos. Ela é a continuação de Israel. O povo de Deus é um só, em todos os tempos. Os santos do Antigo Testamento são nossos irmãos tanto quanto os do Novo Testamento. A Igreja tem o propósito de revelar Deus diante do mundo, assim como Israel tinha. A grande pergunta: como ela faz isso?
           
Geralmente, pensamos em evangelismo, em primeiro lugar. Entretanto, grandes missões evangelísticas não são viáveis a todas as pessoas. Além disso, a Igreja não deve testemunhar de Cristo apenas através de indivíduos pregando, mas sim da sua realidade conjunta e una. Quero dizer, com isso, que é mais importante o testemunho da Igreja como um todo do que o de seus indivíduos. Sabemos que o nosso testemunho como cristãos é importante para levar pessoas à conversão, ouvimos isso a vida toda. Mas é complicado quando a imagem da Igreja é tão ruim diante do mundo. É cada vez mais comum que os evangélicos sintam constrangimento de se chamarem publicamente assim, por causa das associações com igrejas de pastores bandidos que só pensam em dinheiro. Provavelmente, a Igreja está enfrentando uma das maiores crises de testemunho da história. O que ela deveria estar fazendo?
           
Bem, em primeiro lugar, o que ela não deveria estar fazendo? Não deveria atrair os mundanos pelo entretenimento. Não deveria se amoldar à cultura ao ponto de cortar elementos do evangelho. Não deveria oferecer Cristo como um produto para o conforto. Não deveria pregar bênçãos vãs e materiais. Não deveria veicular pela mídia com escândalos morais de mega pastores. Não deveria falar de dízimo com prioridade. Não deveria ser ignorante e de mente fechada para a apologética. Não deveria ser tão leiga nas Escrituras. Não deveria oscilar entre os extremos da negligência quanto aos problemas do mundo e à intromissão agressiva na vida das pessoas. Não deveria ter medo de ser rejeitada por proclamar a verdade. Não deveria transformar cultos em shows. Não deveria prometer coisas que Deus não prometeu. Não deveria dar às pessoas o que elas querem. Também não deveria confundir a pregação do evangelho com a pregação de uma moral. Não pode fortalecer-se afirmando sua superioridade moral em relação aos mundanos. Não deve faltar com humildade no trato com descrentes, nem deve faltar com coragem. Principalmente, não deve ser desunida. Concorrência entre denominações, rivalidade entre igrejas, ou mesmo isolamento total, essas coisas não passam despercebidas do mundo. O mundo nem sabe mais o que significa “cristão”. Existem igrejas para todo tipo de desvio doutrinário que se possa conceber. Esse é, provavelmente, o maior fracasso da Igreja.
           
Como, então, dar o testemunho da realidade de Cristo positivamente? Vamos a alguns textos. Em João 17, Jesus ora por nós. Ele ora pelos discípulos e pela Igreja que viria com eles. E veja os versículos 11 e 21-23. O desejo de Cristo é que a Igreja seja nada menos do que o reflexo da Trindade. Pense um pouco na doutrina da Trindade. O que ela significa? Para muitos, serve apenas como abstração e como credo para se afirmar. Mas o Deus Triúno é totalmente relevante para a vida cristã. Ele é um só Deus, mas tem comunhão perfeita consigo mesmo – o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse é o objetivo da Igreja: ser tão coesa entre si pelo vínculo do amor que manifeste para o mundo a encarnação da Trindade. Já pensou que os membros da Igreja devem ser tão unidos quanto o Pai é com o Filho e o Espírito? A distância imensurável a que estamos desse ideal é certamente uma das maiores causas para o fracasso da Igreja em converter milhões de pessoas.
           
Em Efésios 3, Paulo reforça a mesma ideia. Ele explica, nesta carta, que a inclusão de gentios na Igreja é uma demonstração do poder de Deus para unir as pessoas. O evangelho é poderoso para unir inimigos, povos e pessoas completamente diferentes. A união entre judeus e gentios, bem como de quaisquer outros critérios mundanos de inimizade e divisão, é um testemunho para o mundo do verdadeiro Deus trinitário. Veja o versículo 10: a multiforme sabedoria de Deus é revelada ao mundo pela união em amor e paz de pessoas de todo tipo.  É assim que cumprimos o propósito do antigo Israel: através do elo do amor mútuo e da união em torno de Cristo. Jesus disse que todos saberiam que a Igreja pertence a Cristo se os seus membros amarem uns aos outros (João 13:35). Quantas vezes o Novo Testamento fala sobre o povo salvo, composto de gente de toda tribo, língua e nação! Veja que maravilha Apocalipse 7:9. Como isso vai acontecer, se a Igreja não for una como o Deus que é Amor?
           
O testemunho individual é importante, mas o testemunho da Igreja é o principal. Compare como ela deve ser e como ela é. E tente calcular a dimensão da catástrofe, se puder. Na tentativa absurda de sanar esse problema, muitas igrejas modernas enfatizam em demasia o que eles chamam de “comunhão”, enquanto suprimem rigor doutrinário. Fracassam igualmente. Sem a vivência do verdadeiro evangelho, você consegue uma comunhão de apertos de mão, sorrisos e abraços, nada mais. Comunhão verdadeira só existe um torno do perfeito ser em comunhão própria, Deus. Se a comunhão girar em torno de outro ideal, ela simplesmente não existirá. Nenhum programa ou meta ou qualquer termo empresarial que se usa para igrejas pode gerar o vínculo do amor. Somente o Amor uno manifesto em três pessoas pode.

            André Duarte 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O fundamento da santidade


         

         Qual é a diferença da moral de um mundano e da moral de um cristão? Hoje em dia, é difícil responder a isso quando observamos o comportamento das pessoas. Mundanos e cristãos estão cada vez mais semelhantes na sua busca moral. Ambos acreditam na fidelidade conjugal, na honestidade, em não roubar, não matar, praticar a caridade. Exteriormente, quase não há diferença. É totalmente irreal o estereótipo do mundano que usa drogas, faz sexo com todo mundo e não liga pra nada, embora não faltem exemplos. Mas, há uma diferença sutil e que muda tudo: o fundamento da moral.
                       
Por que um mundano decide ser moral? Existem duas motivações básicas para a obediência às regras morais: medo e orgulho. É assim que a educação funciona desde a mais tenra infância. A motivação do medo diz “vou agir assim para que eu não seja castigado”. O orgulho diz “serei uma pessoa moral porque isso me torna justo, diferente das pessoas horríveis que praticam coisas erradas”. Um mundano age para si mesmo, tornando-se o seu próprio deus. Com esse pensamento, ele pode mudar as regras conforme suas opiniões. É por isso que o mundano costuma ser contraditório em seus atos. Sua moral tem fundamento subjetivo, ele próprio. E ele é uma pessoa mutável. Esse é o ponto em que um legalista e um antinomista se encontram.
           
Percebi essas coisas por causa dos meus colegas de trabalho. A maioria deles aposta que eu vou querer me divorciar, ir atrás de outra mulher. Isso porque todos eles já fizeram isso. Quando falo que o meu namoro é maravilhoso, falam que é sempre assim no começo, mas piora com o passar do tempo. Minha resposta é: “Meu amor e minha fidelidade se baseiam no amor e na fidelidade de Deus, que são eternos e imutáveis”. Deus não muda. Se queremos ter um caráter como o de Deus, precisamos fundamentá-lo nele, e não em coisas sombrias e passageiras. O que distingue o cristão de um mundano moral é a sua motivação, que é diretamente ligada à adoração, ao reconhecimento da verdade. Um mundano pratica a moral por causa dele mesmo ou das coisas que ele ama. Um cristão obedece aos mandamentos de Deus por causa de Deus, por amor a ele, por confiança apenas nele.
           
Além disso, a moral do mundano é construída sobre o fundamento errado da confiança própria. Mundanos e legalistas acham que obedecer à moral é uma questão de força de vontade. Porque, pensam eles, nós somos capazes de obter a justiça por conta própria. Nós podemos simplesmente decidir, fazer muito esforço e pronto, conseguiremos ser pessoas santas. Isso é um erro. As Escrituras dizem que nós não somos capazes de nos salvar. Nós somos inclinados para o pecado, tendentes a confiar em nossas obras para a salvação. Quando fundamentamos nossa santidade em nossa capacidade inata, estamos faltando com humildade. O homem é um ser caído, que depende totalmente de Deus para cumprir a sua vontade. O raciocínio do cristão frente a uma regra moral não é “posso cumpri-la, vou cumpri-la”, e sim “não posso cumpri-la, mas Jesus cumpriu por mim, perdoou minha transgressão e me fortalece para cumpri-la através dele”. Podemos hoje ser verdadeiros adoradores de Deus, mas somente porque o sacrifício de Cristo é eficaz para remover de nós a impureza, e porque ele nos deu o Espírito Santo para nos ajudar. Através de Cristo, por causa do que ele fez, somos santos. Nunca por causa do que nós supostamente conseguimos sozinhos.
           
Outro ponto importante é o padrão da santidade, o patamar da moral. Para o mundano, o homem é a medida da moral. Ao dizer isso, decorre a implicação de que qualquer arcabouço de práticas morais que o homem obtiver, por ele ser homem, já é suficiente para justificá-lo. Isso é um relativismo totalmente arbitrário. O cristão, no entanto, sabe que o padrão de santidade é Deus. Somente uma pessoa tão santa quanto Deus é justa. A menor imperfeição já torna o homem um criminoso aos olhos de Deus. Como, então, atingir essa meta? O cristão é consciente de que ele não a atingiu. Ele confia no único que conseguiu, Jesus Cristo, o qual, ao oferecer a si mesmo como sacrifício para receber a ira de Deus, serviu-nos de substituto. Através da fé, da confiança em Jesus Cristo, somos declarados justos para Deus. Sabemos que nunca seremos santos através de nossos esforços, mas sim através da confiança plena de que Cristo é o nosso substituto, que ele conquistou a justificação por nós pela sua vida perfeita e sua morte vicária.
           
Concluímos, então, que não é a moralidade expressa que faz de alguém um cristão ou um descrente, um santo ou um profano, um justo ou um ímpio. É a motivação do coração, a qual é transformada apenas pela fé. Pode-se resumir todos esses pontos no seguinte: o mundano é moral porque tem fé em si mesmo; o crente é moral porque tem fé em Jesus. Isso faz toda a diferença. O mundano adora a si mesmo e, por crer na mentira de que ele é o deus de sua vida, ele cai em desgraça e é abatido pelo verdadeiro Senhor. Sua moral relativa e alicerçada na areia irá quebrar. O cristão, ao contrário, oferece a si mesmo humildemente como adorador do Senhor Deus e santifica a sua vida por amor a ele, confiando na verdade dele. Esse homem estará seguro e em paz. Mesmo que peque e caia, o Senhor o levantará pela mão.

            André Duarte

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Elementos essenciais do evangelismo


          

          Evangelismo é uma prática da Igreja que tem se tornado banal, como se qualquer coisa que você fizer pudesse ser conceituada como evangelismo. Percebo frequentemente uma distorção da parábola do semeador que sustenta essa tendência. Dizem que a palavra lançada é a semente que pode ou não frutificar, o que é correto. Mas, na prática, identificam essa palavra lançada com qualquer coisa que você disser que faça alguma alusão a Deus. Creio que, para contornar ou facilitar a vergonha em pregar o evangelho ou mesmo o tempo e o esforço para isso, muitas práticas programáticas são criadas para, como dizem, “plantar a semente”. Posso citar, por exemplo, distribuição de panfletos com mensagens vagas e, geralmente, agradáveis. Ou o ato de pregar um adesivo com algum versículo no carro. Ou, como é tão popular, dizer frequentemente e sem contexto algum a frase “Jesus te ama”.

Não digo que essas coisas sejam erradas, nem que Deus não possa atuar através delas. Torna-se um erro quando conceituamos essas práticas como “evangelismo” e dizemos a nós mesmos “estou evangelizando, agora minha consciência pode descansar”. Dizer “Jesus te ama” é bom, dependendo da compreensão que você transmite, mas isso não é fazer evangelismo. O que quero propor aqui é que o evangelismo deve conter todos os seus elementos essenciais, não só os mais agradáveis, ou os mais fáceis de explicar, ou que pareçam mais relevantes. A semente é a palavra e os evangelistas são os semeadores, mas a semente não é qualquer frase solta, e sim a palavra completa. Muitos pensam que uma pregação detalhada é desnecessária, dizendo “ora, o ouvinte não precisa se tornar um teólogo para se converter”. Mais uma vez, negligenciamos o que as Escrituras dizem sobre a fé, sobre pontos que, se não forem cridos, tornam toda a fé errada. Evangelismo não se faz com um versículo ou com uma ou duas frases, mas com a exposição sucinta de tudo o que compõe as boas novas da salvação.

Quais são esses elementos essenciais do evangelismo? Em primeiro lugar: o pecado. O ouvinte precisa saber que ele é pecador, que ele transgrediu a lei de Deus. Se necessário, confronte-o com os mandamentos positivados na Bíblia. E isso não significa que ele, certa vez, em ocasião específica, cometeu um pecado pontual. Significa que ele não faz nada além de pecar. O pecado está presente em toda a sua vida, pois o seu coração é naturalmente rebelde contra Deus. Consequentemente: a ira de Deus. Deus está irado com os transgressores e vai condená-los no dia do julgamento. Todo aquele que pecou morrerá, será lançado no fogo. O ouvinte precisa compreender que os condenados incluem, em princípio, todas as pessoas, inclusive você, evangelista, que não deve fazer a abordagem com ar de superioridade religiosa. Em seguida, a insuficiência da reparação humana. Nada que o homem fizer “de bom” aplacará a ira de Deus. O padrão de Deus é a perfeição dele mesmo. “Quem quebra um ponto da Lei é culpado de quebrá-la inteiramente”. Nenhuma obra humana poderá reconquistar o favor de Deus. Se parássemos aqui, a mensagem seria de total desesperança. E, se começássemos sem esses três pontos, a graça não teria sentido nenhum.

O próximo ponto é que, se o homem não pode se reconciliar com Deus sozinho, a salvação vem de fora, do próprio Deus, pelo seu Filho, Jesus Cristo, o próprio Deus encarnado, por amor à humanidade pecadora. Deus está irado contra os pecadores porque ele é justo, mas ele ama a sua criação e deseja resgatá-la para si. O Deus que estaria totalmente correto em condenar a humanidade oferece a ela um caminho de salvação. É o próprio Deus quem estabeleceu os termos da reconciliação. E a única maneira de salvar a humanidade é pela obra de Jesus Cristo. Jesus é o Filho de Deus eterno, que fez-se verdadeiro homem, para cumprir toda a lei de Deus. Ele tornou-se homem para que pudesse nos representar, e só pôde servir-se como oferta santa a Deus porque viveu sem pecar. Somente o homem Jesus poderia morrer e ser aceito por Deus como substituto. Jesus levou a penalidade que nós merecíamos. Toda a ira de Deus contra os pecadores, Jesus invocou para si ao morrer pela humanidade. A morte do Filho de Deus satisfez a sua ira e perdoou todos os nossos pecados. Em seguida, Jesus ressuscitou dos mortos. A ressurreição é frequentemente negligenciada na pregação, mas ela é de total importância. Jesus ressuscitou para nos dar a esperança da vida eterna. Se ele, que foi perfeito e que era Deus, tivesse morrido para sempre, que esperança nós teríamos? Quando Jesus ressurgiu, ele triunfou sobre a morte, para que pudéssemos ter a esperança de viver eternamente com Deus em seu Reino vindouro. A sanção da nossa salvação é a ressurreição. 

Após ressuscitar, Jesus voltou ao céu, de onde reina sobre o universo, e enviou o Espírito Santo para nos ajudar. Cristo não está morto, mas ele reina como o Messias, o Filho de Deus, governante de toda a criação. Ao voltar ao céu, Jesus não nos abandonou, mas enviou o Espírito Santo sobre os que creem, para que possam viver em santidade, iluminados por Deus e em adoração ao Senhor. E, um dia, ele retornará para julgar vivos e mortos e estabelecer o seu reinado pleno para sempre. A volta de Cristo também deve ser anunciada. O que aconteceu com o juízo de Deus sobre a humanidade? Jesus virá novamente para executar esse juízo, não mais como um homem a ser feito vítima, mas como um glorioso rei, que destruirá a humanidade rebelde e salvará os homens que nele creem.

Após a exposição deste evangelho, dê a ordem de Deus para o ouvinte: “arrependa-se de seus pecados e creia no Senhor Jesus Cristo. Pois, somente através da fé neste evangelho, você receberá a graça de Deus e será salvo. Se continuar rejeitando o senhorio de Cristo e confiando em si mesmo, você morrerá”. Dessa forma, você passa por todos os pontos cruciais da pregação do evangelho. Não incita o ouvinte a ser um legalista e nem um antinomista. Fala sobre a ira de Deus e sobre o amor de Deus. Sobre a justificação pela fé e sobre necessidade de viver em obediência.

Depois dessa pregação, se o ouvinte disser que crê em Jesus e que deseja ser seu discípulo, gaste mais tempo com ele. Explique do que consiste a vida cristã. Fale sobre a necessidade da Igreja, apresentando-a como o corpo de Cristo e sua noiva. Fale que ele deve ser batizado. Não vá embora enquanto o ouvinte não tiver a garantia de um discipulado. Se você não puder ser o discipulador por morar em outra cidade, encaminhe-o para um lugar, para uma Igreja, uma pessoa de confiança. Isso é crucial para que ele não se perca.

Veja, você não explicou demais e nem de menos. Tudo isso é importante na pregação, e você não precisou explicar toda a história do Antigo Testamento, o sacerdócio de Cristo da ordem de Melquisedeque, o problema do mal, as teorias milenistas do Apocalipse... tudo isso será devidamente tratado no discipulado. Gaste tempo com o ouvinte, não tenha pressa. Ouça-o, para adequar a forma da pregação (não o conteúdo) ao contexto dele. E saiba bem os seus fundamentos. Não pense que você vai apenas orar muito e Deus lhe soprará todas as colas de que você precisa; você precisa conhecer as Escrituras, entender o que você está dizendo. Você nunca conseguirá fazer uma proclamação genuína se nem você entendeu o evangelho. Evangelize a si mesmo e depois vá aos outros.

André Duarte